Archive | Maio 2018

Maquilhagem invisível

Jequiti

A fada madrinha transformou Cinderela. Nem sequer as irmãs a reconheceram. O rei, acreditando-se magnificamente vestido, desfilou nu. O rei perdu a realeza, Cinderela adquiriu-a. Estes dois contos são arquétipos da humanidade.

O anúncio brasileiro Invisible Make Up, da JEQUITI, é rebuscado. Trata-se de uma encenação. Duas mulheres, convictas de estar maquilhadas a preceito, logram um bom desempenho numa entrevista de emprego. Mas, tal como o rei acreditava trajar roupas fabulosas, elas não estavam maquilhadas. Se maquilhagem houve, foi do espírito.

Este anúncio apresenta-se estranho. Lembra um anúncio a um refrigerante cujo lema é: se tiver sede, não beba! Para brilhar pode dispensar a maquilhagem. Um hara-kiri publicitário? Parece, mas não é. Não é, aliás, o primeiro a arriscar esta fórmula. Começa como um anúncio de sensibilização convocando dois tópicos maiores: o género e o desemprego. Termina com a seguinte sentença: “This wasn’t a makeover to hide something. It was to show something”. A maquilhagem não deve ocultar mas revelar a pessoa. A confiança e a naturalidade sobrepõe-se à máscara e ao artifício. Se pretende assumir-se e revelar-se, abraçar a sua personalidade, a JAQUETI está à sua espera, está ao seu dispor: “You only need yourself. But if you need us, we are here”.

Marca: JEQUITI . Título: Invisible Make Up. Agência: BETC São Paulo. Direcção: Georgia Guerra-Peixe. Brasil, Maio 2018.

O espírito de Erasmo

Universidade Erasmus de Roterdão

Universidade Erasmus de Roterdão

Hoje, as estrelinhas portaram-se bem. Estou feliz! O meu rapaz mais velho vai ser professor na Universidade de Roterdão. Começa com as mesmas disciplinas que eu comecei em 1982. Agora somos colegas internacionais.

A vida é uma vigília (música 1), mas ousa sonhar (musica 2). A vida é uma passagem (música 3), mas importa voar (música 4). Quanto ao resto… (música 5).

The Piano Guys. Arwens vigil. The Piano Guys. 2012.

Yanni, Charles Adams. To the One Who Knows. Dare to Dream, 1992.

Ludovico Einaudi. Passaggio. Le Onde. 1996.

Jonas Kvarnström. Fly (da banda sonora de Intouchables). 2012.

David Garrett. Nothing Else Matters. Free. 2006. Cover de Metallica,

Discriminar ou não discriminar, eis a questão

Detail of the Romanesque tympanum of the main portal of the Abbey Church of Saint Foy in Conques, Aveyron, France. Sec. XII

Detalhe do tímpano românico da porta principal da Abadia de Sainte-Foy des Conques, em Aveyron, França. Séc. XII. O Juízo Final, última e definitiva selecção.

Um livro escolar dos anos sessenta conta a história de dois candidatos a um emprego. Um vinha recomendado, mas não foi escolhido: Tinha as unhas sujas.

Em editais de concurso para bolseiros e investigadores, lê-se o seguinte:

“Política de não discriminação e de igualdade de acesso

A Universidade do Minho, promove uma política de não discriminação e de igualdade de acesso, pelo que nenhum candidato pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado ou privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão, nomeadamente, de ascendência, idade, sexo, orientação sexual, estado civil, situação familiar, situação económica, instrução, origem ou condição social, património genético, capacidade de trabalho reduzida, deficiência, doença crónica, nacionalidade, origem étnica ou raça, território de origem, língua, religião, convicções políticas ou ideológicas e filiação sindical”.

A Constituição da República opõe-se a estas formas de discriminação. Mas repetir nunca é demais. A lista das discriminações é extensa, mas não é, naturalmente, exaustiva. Falta, por exemplo, o capital social (relações e conhecimentos) do candidato, fator que, algumas vezes, se apresenta decisivo.

Há mar e mar, há discriminar e discriminar. O maior escudo contra a discriminação pode coabitar com a mais gigantesca e injusta das discriminações. Mal um estudante ingressa num curso universitário, o seu valor pode variar comparativamente do simples para o quádruplo. A portaria nº 231/2006 (2ª série) estipula que o rácio alunos/docente ETI é de 20 alunos por docente nas Ciências Sociais ou nas Letras; 12 alunos nas Ciências da Comunicação ou na Arquitetura, cinco alunos na Medicina ou na Música. A desigualdade entre alunos reproduz-se entre os professores. Um docente em Sociologia pesa quase metade de um docente em Ciências da Comunicação e um quarto de um colega da Música. Estas aritméticas, obra de espíritos mais geniais do que o Albert Einstein, acabam por ter consequências enormes na orgânica e no desempenho das instituições e dos seus membros. São Adamastores mas parece que ninguém se apercebe. Importa combater as discriminações nos concursos. Mas importa atender também à realidade interna. A discriminação sem contrição, para além de prejudicar, degrada. Em termos de aritmética, diminui os autores e as vítimas.

Tanto nos habituamos a uma falsidade que acabamos por acreditar que é verdade.

O feitiço tecnológico

McDonald's Timeless

Se a publicidade fosse uma biblioteca, o tema das relações de género ocuparia várias estantes pejadas com livros de salmos e sermões. Mais pequena, mas em crescimento, aparece a estante da adição às novas tecnologias, cheia com livros de responsos e esconjuros. O anúncio Timeless, da McDonald’s, mostra quanto um pai tem que ser inventivo para cativar a atenção dos filhos, embruxados crónicos pelos telemóveis, tablets, videojogos & Cia. Deste anúncio depreende-se que para resgatar os filhos, o pai deve “tornar-se” criança, regredindo, com os filhos, até à sua própria infância. Esta fórmula é recorrente. A desintoxicação resulta cada vez mais fantástica. Uma boa parte dos anúncios sobre a cidadania e a qualidade de vida são promovidos por grandes marcas, incluindo a McDonald’s, que, nas alturas, tanto se preocupam com as nossas vidas. Tanto interesse comove qualquer um.

Marca: McDonald’s.Título: Timeless. Agência: DDB New Zealand. Direcção: Matt Devine. Nova Zelândia, Maio 2018.

A melodia do repouso

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Joshua Bell

Nos últimos quatro dias, tive que escrever dois textos: um sobre a street food, outro sobre a fotografia. Como diria La Palice: quem não é especialista de nada acaba especialista de tudo. Para descansar das letras, costumo ouvir música. Nem livros, nem vídeos. Procurar músicas dá trabalho, mas é um trabalho que descansa. Gosto do violinista Joshua Bell. Tem um toque humano. Um dia foi tocar para o metro. Ninguém lhe prestou a mínima atenção. O Tendências do Imaginário já contempla uma ou outra música interpretada por Joshua Bell. Acrescento duas: uma de Dvorak, outra de Rachmaninov.

Joshua Bell. Dvořák. Zigeunerlieder. Gypsy Songs, opus 55.

Joshua Bell. Sergei Rachmaninov. Vocalise, Op 34 No 14.

Noves fora, cinco

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A página de Culturepub, dedicada à publicidade, costuma publicar, todos os dias, uma amostra com nove anúncios, os mais recentes e os mais relevantes. Ontem, dia 17 de Maio, dos nove anúncios seleccionados, cinco incidem sobre as relações de género. Retenho dois.

O anúncio britânico Our Time: Supporting Future Leaders, do Mayors Office London, recorre à metáfora gasta, mas sempre eficiente, das escadas.

O anúncio brasileiro The Dress for Respect, da Schweppes, engendra um dispositivo tecnológico que regista os toques masculinos a que as mulheres são sujeitas nas discotecas.

Anunciante: Mayors Office London. Título: Our Time: Supporting Future Leaders. Reino Unido, Maio 2018.

Marca: Scweppes. Título: The Dress for Respect. Agência: Ogilvy & Matter (Brasil). Direcção: Giancarlo Barone. Brasil, Maio 2018.

É quase amanhã

Craig Armstrong

Craig Armstrong.

A música pode ajudar a desburocratizar os neurónios. Ninguém me demove da crença que a música é um estimulante da inteligência. O escocês Craig Armstrong compôs a banda sonora de vários filmes, tais como The Bone Colector (1999), Moulin Rouge! (2001), Ray (2004), Elisabeth: The Golden Age (2007) e The Incredible Hulk (2008).

Craig Armstrong. It’s Not Alrigh. It’s Nearly Tomorrowt. 2014

Craig Armstrong. Strange Kind of Love. It’s Nearly Tomorrow. 2014.

Craig Armstrong. This is Love. The Space Between Us. 1997.

A herança de Sísifo

Alzheimer

No anúncio português Amor, da AHDPA, um homem maquilha-se. Treina para maquilhar a mulher, doente de Alzheimer, no aniversário que reúne a família. A mulher adere com agrado. O anúncio centra-se nos pequenos gestos. São gestos que constroem o triângulo humano: olhar a beleza; sorrir com prazer; e amar com o coração. Estética, humor e amor. A doença de Alzheimer é alarmante e temível. Se uma despedida magoa, o alheamento quotidiano aproxima-se do castigo de Sísifo.

Excelente anúncio da agência Havas. Pela sensibilidade. Não é fácil abordar o tema. Requer criatividade, tacto e consciência dos limites.

Anunciante: AHDPA – Associação Humanitária dos Doentes de Parkinson e Alzheimer. Título: Amor. Agência: Havas. Direcção: Leone Niel e Gui Branquinho. Portugal, Abril 2018.

Os nós da globalização

Quino 1. Cada um no seu lugar

Quino 1. Cada um no seu lugar

Global, local, glocal? Comprimido, estável, expandido? Líquido, mole, firme? Próximo, distante? Rápido, lento? Grande, pequeno? O mundo depende das nossas pegadas, das nossas relações, das nossas escalas e dos nossos mapas mentais. “O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são.” (Protágoras). “O que conta está no interior”, a fazer fé no anúncio da Delsey Paris. Simon, após dar a volta ao mundo, encontra o que persegue, a mala, no ponto de partida. Durante a travessia, cresce-lhe a barba, entrega-se à aventura, restaura a identidade e abraça o amor paterno. Vê-se ao espelho do pai. A passagem de testemunho entre gerações é, frequentemente, pautada pela reincidência: fecha-se um ciclo, abre-se outro. E o mundo continua a girar em torno de si mesmo. Ao jeito do Quino.

Marca: Delsey Paris. Título: What Matters is Inside. Agência: Buzzman. Direcção: Against all odds. França, Abril 2018.

Mundo Quino

 

A segunda juventude: os super avós

An Old Man in Military Costume; Rembrandt Harmensz. van Rijn (Dutch, 1606 - 1669); about 1630–1631

Rembrandt. Um homem de idade em traje militar. (detalhe). C. 1630-1631. Rembrandt pintou dezenas de retratos com pessoas de idade.

A publicidade acrescentou às idades da vida os super avós. São fantásticos! São incríveis! São super jovens. “A idade é apenas um número. Uma pessoa é tão velha quanto velha se sinta.”

Durante séculos, os velhos eram simplesmente velhos. Entretanto, alguém se inteirou que “velhos são os trapos”. Em poucas décadas, os velhos tornaram-se pessoas de idade, idosos, terceira idade, quarta idade, seniores, elders em inglês, aînés no Québec e personas mayores em Espanha. Aqui e além, aflora o termo segunda juventude. Livrai-nos, senhor, se não estiveres muito ocupado, da burocracia baptismal.

Lembro-me dos anciãos com respeito, carinho e alguma poesia. Quando as nuvens brilham, penso: lá está ele a fazer fogueiras no céu. Fazia fogueiras com tudo e em qualquer sítio. Era a sua perdição e a sua penitência. Dava-nos, generoso, o prazer de as apagar. À pressa ou devagar. Foi um super avô. Resistente e inquieto. Até à última chama. Cresci com ele. Ensinou-me o sonho e o modo de o trazer no bolso.

Marca: Tivoli. Título: 175 Years of Magic. Agência: &Co (Dinamarca). Direcção: Casper Balslev. Dinamarca, Maio 2018.