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Trelas Electrónicas

Tomar uma torre de controlo de um aeroporto por um videojogo pode ser perigoso. O trabalhador e o posto de trabalho devem estar em harmonia. Esta é a preocupação da agência de emprego Keljob: a cada um o emprego para que está vocacionado.

Não há registo na história da humanidade de sociedades com tantos meios de vigilância e controlo como a actual. Os poderes (governo, justiça, finanças, empresas, redes) transbordam de recursos de vigilância e controlo. O mundo alberga paradoxos: A vigilância e o controlo nunca foram tão intrusivos e nós nunca nos sentimos tão livres! Há trelas e trelas! Algumas devem ser confortáveis.

A canção Space Oddity, de David Bowie, vem a preceito. Não é animadora, mas a vida não é um eterno magusto.

Carregar na imagem para aceder ao vídeo.

Packman

Marca: Keljob. Título: Tour de Contrôle. Produção: Byzance. Direcção: Gérôme Rivière. França, 2002.

 

David Bowie. Space Oddity. Ao vivo em 1969, ano de estreia da música.

 

Pedagogia de choque

SAAQ. Stunt piéton

Do ponto de vista do cidadão moderno, os atropelamentos são inadmissíveis. Demasiada imprudência, distracção e morte. A publicidade destaca-se como um dos principais meios de prevenção. Há várias formas de dissuadir o peão imprevidente: acidentes tecnicamente estetizados ou dramatizados; mortos faladores; desespero dos pais das vítimas; anjos salvadores… Predominam os anúncios que chocam e assustam. É o caso do Stunt piétons, da canadiana SAAQ (Société de l’Assurance Automobile du Québec). O anúncio recorre ao choque e ao susto. O desvio é o caminho mais avisado. Os acidentes e as vítimas, reduzidas a esqueletos, reconhecem-se no ecrã de um aparato técnico. A simulação de uma realidade pode ter mais impacto do que a própria realidade.

A pedagogia do choque e do medo não é apanágio dos regimes e das instituições totalitárias. Mais ou menos eficaz, configura um discurso do poder. A pedagogia do choque e do medo esmera-se, mas, muitas vezes, sem grandes resultados. Por exemplo, contra o tabaco ou o álcool. Tudo indica que a pedagogia do choque e do medo também é apanágio das sociedades democráticas. A prudência não está associada ao medo? O medo não sensibiliza?

Marca: SAAQ. Título: Stunt piétons. Agência: Lg2. Direcção: Olivier Labonté Lemoyne. Canadá, Novembro 2018.

A sombra das novas tecnologias

phone

Anúncios como o Get your brain back, da reMarkable, ou Relax we post, da Ibis, multiplicam-se. A extrema euforia é mãe do desencanto. Inovações com o impacto das novas tecnologias não podem dormir na sombra do entendimento. As novas tecnologias são aditivas. Afastam-nos do “mundo da vida”. Moldam-nos, menos com sobressaltos e mais com massagens infestantes. O anúncio Get your brain back enuncia os riscos do mundo electrónico e sugere, como alternativa, o “papel digital”, uma oportunidade de negócio; no anúncio Relax we post, uma rede de hotéis disponibiliza uma ama-seca para cuidar dos telemóveis. Somos netos de Metropolis (Fritz Lang, 1927) e do Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley, 1932). Combate-se o fogo com o fogo. E o digital com o digital? A alienação com a alienação? Um novo flautista de Hamelin conseguirá afastar os ratos electrónicos, o cortejo de “amigos” mortos vivos? Em Portugal, os telemóveis existem desde 1991. Sobre os seus efeitos, pessoais e sociais, pouco se sabe. A procissão ainda vai no adro.

Get your brain back e Relax we post são dois anúncios notáveis a transbordar de criatividade. Contribuem, ambos, para abrir caminho num terreno movediço que a experiência já banalizou.

Marca: Ibis Switzerland. Título: Relax we post. Agência: Jung von Matt/Limat. Direcção: Johannes Schroeder. Suíça, Outubro 2018.

Marca: reMarkable. Título: Get your brain back. Agência: & Co./NoA, Direcção: Simon Ladefoged. Dinamarca, Novembro 2018.

 

 

 

A fechadura grotesca

Ex-votos

Ex-votos.

O anúncio chinês Intelligent Lock, para a Kaadas, é um cúmulo do grotesco. Corpos despedaçados num mundo desconexo e caótico. O anúncio baralha os nossos sentidos e os nossos sentimentos. É sinistro, mas consegue pôr-nos a rir. Embora delirante, aparentemente desmiolado, manifesta-se completamente racional. É racional pelos fins visados: a promoção das fechaduras Kaadas. E é racional em relação aos meios mobilizados. O anúncio é composto por uma sucessão de enigmas: como conseguem os pais reconhecer os filhos e estes abrir a porta? Ao jeito de um romance policial, a solução está guardada para o desfecho final: as fechaduras Kaadas abrem com um toque e identificam a pessoa. Apesar do desconcerto, Intelligent Lock revela-se mais racional do que os anúncios em que não existe relação aparente entre, por um lado, a imagem, o som e a narrativa e, por outro, o produto ou o serviço. Nestes casos, a ligação, a ponte, entre o conteúdo e o produto do anúncio é impressiva, subliminar ou alegórica.

Marca: Kaadas. Título: Intelligent Lock. Agência: F5 Shanghai. China, Outubro 2018.

Girl power

Emily Roberts. #santaclara

O anúncio Santa Clara, do Lidl, e o vídeo musical #santaclara, de Emily Roberts, festejam o advento de Santa Clara e o fim da usurpação na terra. Santa Claus? Who cares? Talvez tenha chegado o momento propício para começar a chamar ao divino divindade e retocar o espírito da natividade.

“Whohohohohohohoho
You’re the best, you’re the best and we love you so
Whohohohohohohoho
You’re the best, you’re the best and we love you so

It’s time for us to change this stupid old school game
A whole new era Santa Clara’s gonna reign
There’s something coming ain’t it, we’re up and running
And we’re finally gonna change it.”
(Excerto da letra da canção #santaclara, de Emily Roberts).

Marca: Lidl. Título: Santa Clara. Agência: Überground. Direcção: Nathan Price. Internacional,

Emily Roberts. #santaclara. 2016.

O limpo e o sujo

Don't be a tosser

Esta semana, na aula de sociologia da cultura, disse aos alunos que a vida quotidiana era pautada por uma enorme confiança nos outros e por um sem número de interditos. Alguns interditos desenvolvem-se e consolidam-se aos nossos olhos. Por exemplo, deitar pontas de cigarro para o chão. Brevemente, um fumador andará com um cinzeiro portátil. A tendência para a higienização tem séculos (Elias, Norbert, O processo civilizacional, 1939). Convém acrescentar a preocupação com o lixo destinado às nossas cabeças. Esta preocupação consubstancia-se em actividades como a censura ao nível da Internet e da publicidade. Trata-se de uma espécie de “ecologia do espírito”, para abusar de uma expressão de Gregory Bateson (Steps to an ecology of mind, 1972). Mas esta higiene dos neurónios comporta falhas. Não se sabe ao certo quem anda a tirar e a pôr lixo nas nossas cabeças. Os anúncios da campanha Dont be a tosser, da NSW Environment Protection Authority, mostram uma elevada intolerância ao lixo nos espaços públicos. No anúncio Report a tosser, apela-se, inclusivamente, à denúncia dos infractores. A ponta de cigarro destaca-se em três dos quatro anúncios de animação.

1) Anunciante: NSW Environment Authority. Título: Don’t be a Tosser! If it’s not in the bin, it’s on you. Produção: Paper Moose. Austrália, Outubro 2018.

2) Anunciante: NSW Environment Authority. Título: Don’t be a Tosser! If it’s not in the bin, it’s on you. Produção: Paper Moose. Austrália, Outubro 2018.

3) Anunciante: NSW Environment Authority. Título: Don’t be a Tosser! If it’s not in the bin, it’s on you. Produção: Paper Moose. Austrália, Outubro 2018.

4) Anunciante: NSW Environment Authority. Título: Don’t be a Tosser! If it’s not in the bin, it’s on you. Produção: Paper Moose. Austrália, Outubro 2018.

5) Anunciante: NSW Environment Authority. Título: Report a Tosser. Austrália, Outubro 2018.

Humanidade e inclusão

Herman Kuypers (Holanda). Babel try out. Anos 2000

Herman Kuypers (Holanda). Babel try out. Anos 2000. Babel, a história de um projecto de inclusão que acabou em segregação.

O anúncio Neymar Jr. and Teacher Kids alcança o alvo. A Humanity & Inclusion assegura, racional e emocionalmente, a mensagem. O jogador de futebol Neymar Jr. é o “embaixador”. Não sei se é um exemplo de ensino-aprendizagem, mas revela-se um bom actor. As crianças, por sinal, desfavorecidas são um suplemento de comunicação e sensibilidade. A manutenção das línguas é uma boa opção. O anúncio tem tanta qualidade que ouso desconversar. Diz Neymar Jr.: “Se eles podem ensinar, eles podem aprender”. Naturalmente! Mas na minha imaginação existem pessoas que ensinam como trombas de água e aprendem como desertos.

Anunciante: Humanity & Inclusion. Título: Neymar Jr. and Teacher Kids. Agência: Herezie (Paris). França, Outubro 2018.

Homenagem aos professores

Este anúncio é uma magnífica homenagem aos professores. Tem a marca do planeta do Principezinho. Tive bons professores. Estão a ensinar os anjos a voar sem asas. Sinto-lhes a falta. As ideias gostam de voar, nas nuvens ou nas aulas.

Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

Teacher Training

Anunciante: Teacher Training. Título: Sonhos. Agência: Delaney Lund Knox Warren & Partners (London). Reino Unido, 1999.

Amanhã é sempre longe demais

Fonte - WWF

Mapa global da pegada ecológica do consumo. Fonte – WWF

Estamos a destruir o planeta. “Somos a primeira geração que está a destruir o planeta e a última que o pode salvar”. Todos sabemos. Mas do saber ao decidir vai um passo, um passo que não damos. O homem é um animal capaz de se auto castigar. Se o presente foge, o “amanhã é sempre longe de mais” (Radio Macau).

Resistência. Amanhã é sempre longe demais. Ao vivo em Lisboa. Cover dos Radio Macau.

O homem é dado à descrença. Não fala a língua do poder, nem o poder fala a língua dele. Quem muito fala, fica rouco. E a mão cheia de poderes globalizados, em que cena do anúncio aparecem? A este nível, o homem comum sente-se tão impotente que poucos sonhos o mobilizam e muitos pesadelos o atormentam. Mas a propaganda e a publicidade insistem que o mundo está nas nossas mãos! Recomecemos: “Somos a primeira geração que está a destruir o planeta e a última que o pode salvar”. Quem está a destruir o planeta? A nossa geração? A nossa geração tem as costas largas. Cumpre-lhe, naturalmente, fazer o que estiver ao seu alcance. Salvar o planeta? Em 2017, a China (27,6%) e os Estados Unidos (15,2%) emitiram 42.8% do dióxido de carbono do planeta. Mas estou convencido que a nossa geração, com a tal responsabilidade que lhe cabe,vai converter os fariseus e salvar o planeta.

Consta que o anúncio Fight for your world, da WWF, é a primeira grande encomenda da agência Uncommun Creative Studio. Felicito-a! O trabalho é notável. Esmerado. E o texto, eloquente e incisivo.

Tanya Steele, chief executive of WWF UK, said: “The decisions made over the next few years will determine the future of our world and the wildlife we share it with. We have a window of opportunity to act and show we care – as citizens, as consumers and as individuals. That opportunity starts now and leads up to the end of 2020, when global decisions on biodiversity loss, climate change and sustainable development will be made. This window is rapidly closing. The time to fight for your world is now.”

Nils Leonard, co-founder of Uncommon, added: “If we could watch our planet in this second, and see our impact upon it in real time, it would scare us. It would be the understanding that every choice we make, no matter how small it might seem, has a huge impact. These little choices are how we fight the biggest battles, they are the way for all of us to make a difference. Not making a choice, is a choice: in every decision, of every day, you are either for the world or against it.” (campaign: https://www.campaignlive.co.uk/article/wwfs-bold-ad-uncommon-urges-people-fight-world/1497550).

Anunciante: WWF. Título: Fight for your world. Agência: Uncommun Creative Studio. Direcção: Daren Rabinovitch. Reino Unido, Outubro 2018.

Sombra

M.C. Escher.Three Spheres II. 1946

M.C. Escher.Three Spheres II. 1946.

A sombra é sombria e assombra. “A sombra é, por um lado, aquilo que se opõe à luz: ela é, por outro lado, a própria imagem das coisas fugidias, irreais e mutáveis” (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Dictionnaire des Symboles, Paris, Editions Robert Laffont S.A.,1982). Incontrolável, a sombra é uma ameaça em potência. Recorde-se o conto A Sombra (1876) de Hans Cristian Anderson : « A sombra tornara-se o mestre, e o mestre tornara-se sombra ». Na parte final do conto, a sombra, agora homem, manda matar o mestre, cada vez mais sombra. A sombra remete, de algum modo, para os nossos recalcamentos. C.G. Jung associa a sombra “a tudo o que o sujeito recusa reconhecer ou assumir e que, contudo, não para de se lhe impor” (La guérison psychologique, Genève, Librairie de Université Georg & Cie, 1953).

manchanegraSuspendendo os academismos, a sombra do anúncio The Shadow, da Intel, desperta fantasmas da infância: o Mancha Negra das revistas aos quadradinhos da Disney, o adversário mais penoso do rato Mickey. Não é propriamente uma sombra, mas parece. O anúncio da Intel sintoniza-se com o ambiente de horror fictício do Halloween, convoca a afeição dos norte-americanos pelo basquetebol, namora a street art e explora primorosamente a imagem espectral da sombra.

Marca: Intel. Título: The Shadow. Produção: Optane Memory + Uproxx. Estados Unidos, Outubro 2018.

O tema das sombras lembra o vídeo Decantação  que fiz, há uns cinco anos, com fotografias de Paulo Pinto e música da compositora e interprete checa Iva Bittova ((https://tendimag.com/2013/03/10/decantacao/).

Albertino Gonçalves. Decantação. Fotografia de Paulo Pinto e música de Iva Bittova. 2013.