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Publicidade do mundo

Giorgio Armani. 2020.

Existe “música do mundo”, “cinema do mundo”, “literatura do mundo”; há espaço para uma “publicidade do mundo”? O anúncio My Way, da Giorgio Armani, parece enveredar por esse trilho. Há mais casos. De qualquer modo, o mundo Armani é infalivelmente bonito. Sem discriminação de género.

Marca: Giorgio Armani. Título; My Way. Direcção: Hunter & Gatti. Setembro 2020.

Sem salvação

Em tempo de epidemia, as empresas sofrem. O anúncio Survive, do facebook, é um requiem ao Coogan’s, pub irlandês da Broadway (ver acima carta de despedida). Um pub acolhedor, que lembra o bar da série Cheers (ver vídeo 2). O facebook encara a falência do Coogan’s como uma perda coletiva, expressa num memorial de três minutos e meio. O facebook parece estar de luto.

Marca: Facebook. Título: Survive – Coogan’s. Agência: Droga 5, New York. Direção: Miles Jay. Estados-Unidos, Setembro 2020.
Intro song to the tv show Cheers ( 1983-1992); Where everybody knows your name, by Gary Portnoy (1982).

O sabor da felicidade

Monstro das Bolachas. Rua Sésamo.

Publiquei o anúncio Biblioteca, da Oreo, no facebook, em 2011. Não hesito em retomá-lo. Retomar é viver duplamente: no passado e no presente. O anúncio Biblioteca é uma ternura. Trata da felicidade que tanto perseguimos e tanto nos escapa. Um pensamento estorva-me as ideias: qual é o lugar da felicidade na televisão, mormente na informação? Nos anos sessenta, chamava-se à televisão a “caixa mágica”, uma adição, uma droga, da sociedade do consumo e da imagem. Com todas as nossas viragens e posteridades, da sociedade do consumo e da imagem ainda não saímos. A felicidade na informação televisiva joga às escondidas ou aparece passada a ferro. Manifesta-se mais natural gerar medo, insegurança e tristeza do que inspirar confiança, esperança e felicidade. Existe atração pelo medo? Compensa o drama e a tragédia? A felicidade mora ao lado. E o golo? E o hino? E a lotaria? E os festivais? E a saída nacional do “lixo”? Extraordinários efémeros. A felicidade é um sentimento. Não é fácil contribuir para a felicidade alheia. Tão pouco para a nossa. O anúncio Biblioteca é um sobressalto da alma. Menos pelo conteúdo, “o apetite guloso”, e mais pela forma: o apetite aguça a arte de superar limites. Nos anúncios, como em quase tudo, a forma transcende o conteúdo. Conheci a Felicidade; até tenho fotografias; era uma das figuras da minha aldeia; uma excelente pessoa; despediu-se há muito tempo.

Marca: Oreo. Título: biblioteca. Agência: Draftfcb Argentina. Director: Martín Hodara. Argentina, 2010.

Desejo

Giorgio Armani.

Desejo e leveza. Cor e movimento. A atriz Cate Blanchett, vencedora de um óscar. Um cover de klaus Nomi. Um anúncio que é um regalo.

Marca: Giorgio Armani. Título: Sì. Direcção: Fleur Fortuné. Janeiro 2019.
Klaus Nomi. You don´t own me. Klaus Nomi. 1981.

O feitiço dos números

Conde de Kontarr. Rua Sésamo.

O anúncio Enfrentemos el cambio, da Ford, encanta-nos com o feitiço das estatísticas. Os números funcionam como estímulo e argumento. Parecem a hóstia da “pós-modernidade”. Marcam a dança da ilusão. A propósito do fascínio pelos números, Pitirim A. Sorokin falava em quantofrenia (Fads and Foibles in Modern Sociology and Related Sciences, 1956). De qualquer modo, a agência BBDO Argenina oferece-nos um anúncio bem concebido e bem realizado. Até o automóvel cai de para-quedas no fim do anúncio. Uma arte de embalar.

Marca: Ford. Título: Enfrentemos el cambio. Agência: BBDO ARGENTINA / ENERGY BBDO. Argentina, Setembro 2020.

Masculinidades. Toxicidades.

O homem oscila entre o mole e o duro, percorrendo toda a escala de Mohs. Depende dos momentos e das perspectivas. Os anúncios We Believe: The Best Men Can Be, da Gillette, e What is a man? A response to Gillette, da Egard Watches, constituem casos ilustrativos. O primeiro compraz-se com o lado negativo do homem, o segundo, com o lado positivo. Que lhes preste! Afigura-se-me que a ambos falta ironia, a faculdade de estar dentro e de estar fora, de falar sabendo que se pode estar calado.

Marca: Gillette. Título: We Believe: The Best Men Can Be. Estados-Unidos, Janeiro 2019.
Marca: Egard Watches. Título: What is a man? A response to Gillette. Estados-Unidos, Janeiro 2019.

Magia e exuberância

Phtoshop. 2020.

Várias camadas, com muitas cores e feitios, mais movimento, arabescos, metamorfoses e fantasias. O mundo esplendoroso do Phtoshop.

Marca: Adobe/Photoshop. Título: Take a fantastic voyage with Photoshop. Agência: 72andSunny, Los Angeles. Direcção: Bardou-Jacquet. Estados-Unidos, Agosto 2020.

Maçã electrónica. A publicidade é uma arma

A Apple é um gigante com apetite gigantesco. O que é polémico e gera conflitos. Por exemplo, a “revolta dos 30%” da Epic Games, empresa exímia em lucros, tão chinesa como se fosse chinesa. Em causa está a partilha dos lucros. O anúncio Nineteen Eighty-Fortnite é uma reacção à reacção da Apple: Epic Games has defied the App Store Monopoly. In retaliation, Apple is blocking Fortnite from a billion devices. Visit https://fn.gg/freefortnite and join the fight to stop 2020 from becoming “1984”. Uma paródia de um dos anúncios mais icónicos da Apple: 1984 (ver https://tendimag.com/2017/10/30/o-martelo-da-revolta/). Trata-se de uma boa paródia passível de lograr os efeitos desejados: denegrir e combater a Apple recorrendo aos seus próprios argumentos. A paródia como estilo pode ser hilariante, crítica, popular e, por vezes, criativa. Não costuma ser muito subtil. A publicidade, à semelhança da cantiga de José Mário Branco, é uma arma.

Marca: Epic Games / Fortnite. Título: Nineteen Eighty-Fortnite. Agosto 2020.
José Mário Branco. A cantiga é uma arma. Ao vivo. Paris, 1973. Dir. Dominique Dante.

Celebração

Tik Tok. Celebrating you.

Euforia, disforia; disforia, euforia. A sociedade parece bipolar (temerosa, temerária; temerária, temerosa). Mas bipolares são as pessoas.

O anúncio Celebrating You é sentimental: amai-vos uns aos outros, e às novas tecnologias! O anúncio é “um hino à marca”, um hino “politicamente correto”. Convoca as vedetas do aplicativo TiK Tok, mais as figuras do friso ideológico hegemónico atual (em termos de etnia, género, geração, religião, cultura). Tudo muito conciso. Uma espécie de compressão do amor. “Congratulations and jubilations / I want the world to know I’m happy as can be” (Cliff Richards, Congratulations, 1968).

Marca: Tik Tok. Título: Celebrating You. Agência: Known. Estados-Unidos, Agosto 2020.
Cliff Richards, Congratulations (Eurovision Song Contest 1968).

O futuro do futuro. Billie Eilish e a geração Z.

Deutsche Telekom. Billie Eilish.

Publicado no Dia Internacional da Juventude, 12 de Agosto, o anúncio What We do Next, de Deutsche Telekom, é um caso especial. A chamada geração Z nasceu no futuro, ligada à Internet e com as novas tecnologias na mão. Não é quadrada nem é redonda, é uma promessa, sem fios. A geração mais “empoderada” da história da humanidade. É uma enorme responsabilidade. Billie Eilish é um bom exemplo e uma boa inspiração. Em suma, uma geração que. apesar de tudo, tem dois pés, duas mãos e uma cabeça. Assinale-se que o anúncio What We Do Next foi filmado antes do início da pandemia do novo coronavírus (https://www.thedrum.com/creative-works/project/saatchi-saatchi-deutsche-telekom-what-we-do-next).

Some people say that our generation has its head in the clouds, that we don’t live in the real world. But we always think about ‘What We Do Next.’ Because the future matters. And we’re fighting to make this world a better place. That’s why we stay connected. That’s why we live online. Together with Billie Eilish, let’s show them how technology has empowered us to make a difference! (Agency: Saatchi & Saatchi UK).

Marca: Deutsch Telekom. Título: What We do Next. Agência: Saatchi & Saatchi London. Direcção: Vincent Haycock. Agosto 2020.
Billie Eilish. My Future. Live. 2020.