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O novo Sísifo

Carlsberg Everest

Um humor amoral, sem prólogo, epílogo, catarse, ou expiação, alicerçado numa minudência cósmica, é, no meu preconceito, humor das gentes do norte. Um humor destilado, como o whisky ou a cerveja. É um humor fino e espirituoso, sem anjos nem bestas, nos antípodas do riso farto e rasteiro. Temos humor e cerveja, falta a música. Há tantas músicas nórdicas! Opto por dois excertos da Suite Peer Gynt (1875), do compositor norueguês Edvard Grieg: Amanhecer (parte I) e Na Gruta do Rei da Montanha (parte IV).

Tenho o vício de colar adjacências ao tema principal, neste caso ao anúncio. Às vezes, acabam por ser as mais relevantes. É o caso presente.

Marca: Carlsberg. Título: Everest. Agência: Fold7 Creative. Estados Unidos, 2011.

Edvard Grieg. Amanhecer. Peer Gynt. Orkiestra Filharmonii Narodowej.

Edvard Grieg. Na Gruta do Rei da Montanha. Peer Gynt. Berliner Philharmoniker. 2010.

O melhor tempero

Nandos_logo.svgEsta estância balnear tão recatada encheu-se de centenas de jovens vestidos de preto! Ouvem-se as carpideiras electrónicas. Apetece-me despistar.
A cadeia Nando’s, com cerca de 30 000 restaurantes em 35 países, tem ADN português: o engenheiro de som Fernando Duarte foi fundador. O símbolo, o galo de Barcelos, não engana! A Nando’s aposta em anúncios burlescos, se não brejeiros. Quinze anos separam os anúncios Toilet Roll (1996) e Last Dictator Standing (2011). Em 2010, a Advertising Age colocou a Nando’s no top 30 mundial das hottest marketing brands. Mereciam o top 10 se a música fosse portuguesa. O anúncio Last Dictator Standing ganhava com a companhia do Quim Barreiros e do Bacalhau à Portuguesa. É “melhor tempero”.

Marca: Nando’s. Título: Toilet Roll. Agência: TBWA. África do Sul, 1996

Marca: Nando’s. Título: Last Dictator Standing. Agência: Black River FC  Johannesburg. Direcção: Dean Blumberg. África do Sul, 2011

Quim Barreiros. Bacalhau à portuguesa. Ao vivo em Setúbal

O funeral do website

NOSSA. Funeral de Website. 2017

NOSSA. Old website funeral. 2017

Eis uma bela autopromoção da NOSSA, eleita agência criativa digital do ano pelos prémios Sapo. Tudo tem o seu tempo. A NOSSA entendeu celebrar a morte do seu último website com honras de um funeral sentido. Uma espécie de luto de remição. Este anúncio vem a preceito: estou a separar uma série de artigos numa categoria intitulada “a morte das coisas”.

Marca: NOSSA. Título: Old Website Funeral. Agência: NOSSA. Direcção: Nuno Maltez. Portugal, Fevereiro 2017.

Novo, agora, mais e melhor

Avon_Overpromises17

A publicidade a produtos de beleza exorbitou. Só overpromises. C’est extra! New, now, more. Sucesso sem agenda nem narrativas. Técnica salvífica. A pedra filosofal do orgasmo instantâneo em massa. Um manto de ilusão. “É demais”! Pois, a Avon parte em combate contra estes unicórnios pós-modernos. Em nome de valores como a fiabilidade, a honestidade e a verdade. Valores modernos? Será este anúncio da Avon um caso particular do geral? O regresso da modernidade? Ou apenas uma corrente de ar? Uma posição pela oposição.

O que é que tem, afinal, publicidade “pós-moderna”? Qual é o charme? Vale a pena ouvir a canção “Ela é demais”, de Rick & Renner.

Marca: Avon. Título: Overpromises.  Agência: Santo Buenos Aires. Argentina, Maio 2017.

Rick & Renner. Ela é demais. Mil vezes cantarei. 1998.

Comer até não poder mais

A Grande Farra. 1973.

A Grande Farra. 1973.

Que bom ver comer com prazer! Ver comer é uma bênção. Comer demais faz mal. supostamente. Tudo faz mal quando a alma é pequena. Como diria um aluno do ensino básico, pior que comer é não comer. Os dois anúncios da Vanity Fair Napkins desprendem um perfume de inconveniência. Mas o filme de Marco Ferreri, A Grande Farra (1973), ultrapassa os limites. Um dos maiores escândalos do cinema de que tenho memória. Um grupo de amigos retira-se numa mansão para “comer até ao infinito”. Morrem a comer de tanto comer.

Marca: Vanity Fair Napkins. Título: Pot. Agência: Figliulo & Partners. Estados Unidos, Agosto 2017.

Marca: Vanity Fair Napkins. Título: Wings. Agência: Figliulo & Partners. Estados Unidos, Agosto 2017.

A Grande Farra (trailer), realização de Marc Ferreri, França, 1973.

É sempre dia de ser filho

Adriano Correia de Oliveira

Adriano Correia de Oliveira

Duas crianças, surdas ou não, encontram-se. O que dizem uma à outra? “Quem tem uma mãe tem tudo / Quem não tem mãe não tem nada”.

Seguem o anúncio mexicano Gracias Mama, da Nido, e a canção Minha Mãe, de Adriano Correia de Oliveira.

Marca: Nestlé/Nido. Título: Gracias Mama. Agência: McCann México. Direcção: Mario Muñoz. México, Maio 2017.

Adriano Correia de Oliveira. Minha Mãe. Fados de Coimbra II (EP, 1962).

Minimalismo corporal

James Ensor. Espelho com esqueleto. 1890

James Ensor. Espelho com esqueleto. 1890

Coloquei, em 2011, no Facebook, este anúncio, com o seguinte comentário: “é tempo de retirar os esqueletos do armário”. Retomo-o porque faz sentido nesta sociedade do emagrecimento e do minimalismo corporal.

 

Anunciante: Weihenstephan Dairy. Título: Ghost. Agência: Kolle Rebbe Werbeagentur. Direcção: Thornsten Meier. Alemanha, Maio 2005.

 

Tecnofilia surrealista

Samsung Galaxy

Por que tantas crianças, do ventre à puberdade? As crianças são o futuro; e o futuro é uma criança. “O mundo pula e avança, como uma bola colorida, nas mãos de uma criança” (António Gedeão). E tanta água? Para quê tanta água. A água é o berço da vida, o alfa da estética e a fonte do prazer. Mergulhar! Não há melhor imersão, de preferência, virtual. Consegue distinguir real e irreal? O irreal é “mais real do que o real” e o real desrealiza-se. O futuro começa agora, o impossível, esse, começa com a Samsung!

Um belo anúncio, complexo, mas consistente. Um rodopio de imagens, sem pontas soltas. Afinal, “o essencial [não] é invisível aos olhos” (Principezinho). Prepare-se para uma mão-cheia de prazeres. Samsunganize-se! Faça o que não pode! Seja normal!

Marca: Samsung. Título: The new normal. Agência: Leo Burnett. Direcção: Mark Zibert. Estados Unidos, Abril 2017.

Nos videojogos, o futuro já começou. O impossível tornou-se banal. Segue um trailer, notável, do Starcraft, Resmastered – We are under Attack (2017). O anúncio da Samsung é eufórico, o do Starcraft, disfórico. Desta vez, é a sério: os extraterrestres invadem o planeta. Prepare-se para uma chuva de emoções fortes. As emoções decorrem cada vez menos das relações entre humanos e cada vez mais das relações com as máquinas. Starcrafte-se!

Starcraft. Remastered- We are under Attck. 2017.

As misericórdias do milénio

Atomic Lab

Atomic Lab

As campanhas de generosidade estão imparáveis. A Burger King Argentina, com a colaboração da agência David, promoveu, no dia 5 de Julho de 207, uma recolha de fundos. Os preços dos menus Stacker baixaram para metade do preço e os lucros reverteram a favor da organização Atomic Lab, que imprime e distribui gratuitamente próteses 3D. Estas campanhas caritativas por parte de empresas e organizações não-governamentais alegram-me o coração mas afligem-me a razão. A Coca-Cola, a Burger King e demais marcas vão ser as misericórdias do novo milénio? Com o Estado Social reduzir-se a uma espécie em vias de extinção?

Marca: Burger King Argentina. Título: A dos manos. Agência: David. Direcção: Lara Allerano. Argentina, Julho 2017.

Sexualidade avançada

Auguste Rodin. Mains enlacées. 1908

Auguste Rodin. Mains enlacées. 1908

Sinal de senilidade, repito-me sem parar. A publicidade é omnívora. No limite, tudo pode ser publicitado. No limite, todo anúncio pode ser consumido. Seja qual for o tema e o propósito. Até o que não existe é anunciável, noticiável e profetizável. Por outro lado, tudo, logo nada, pode ser censurado. Não é bem assim! Nada é bem assim… Retomemos a ingenuidade do pensamento lapidar.

Há muito tempo que a humanidade entrou na era da universalização da mercadoria, mercadoria que ostenta as artes mágicas da cadeira de Karl Marx:

Auguste Rodin. Study of a hand, 20th century.

Auguste Rodin. Study of a hand, 20th century.

“Ela não só se mantém com os pés no chão, mas põe-se de cabeça para baixo diante de todas as outras mercadorias, e em sua cabeça de madeira nascem minhocas
que nos assombram muito mais do que se ela começasse a dançar por vontade própria” Marx, Karl, 1867, O Capital, Livro I, Secção I, Capítulo 1).

A mercadoria e o consumidor nunca mais pararam de dançar.

Estou a travar as palavras porque o anúncio da PornHub, Old School: a Complete Guide to Safe Sex after 65, reveste-se de alguma delicadeza. Aceleremos: se a introdução à sexualidade é importante para as crianças nas escolas, não é menos importante a pós-graduação em sexualidade dos idosos. Uma nova generosidade anda no vento. Nova, não por ser interessada e estratégica. A generosidade sempre foi interessada e estratégica. Nova, porque assumidamente interessada e estratégica. Uma generosidade egoísta. Uma espécie de neo altruísmo com embalagem pós-moderna. Ressalve-se, enfim, que nem tudo é novo na novidade. Por exemplo, a figura do “missionário do sexo” é antiga.

Gostava, um dia, de conhecer a distribuição por sexo e idade dos clientes do guia da “universidade sénior” da PornHub. Os desígnios da publicidade são insondáveis.

Marca: PornHub. Título: Old School: a Complete Guide to Safe Sex after 65. Agência: Officer & Gentleman. Direcção: David Triviño. Estados Unidos, Julho 2017.