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As malhas do género

Libresse. #wombstories. 2020.

Três anúncios excelentes,

Tem vindo a crescer o número de anúncios dedicados ao género. Abrangem todas a categorias: transgénero, homossexual, lésbica, heterossexual… A maioria propõe anúncios de promoção. Existem, no entanto, anúncios que, embora centrados no género, não visam a promoção de uma categoria, mas a exposição da sua condição,  sem visar uma “vantagem competitiva”. Parece ser o caso do anúncio Womb Stories, da Libresse. “Histórias de úteros”, com dores e prazer, amor e horror, que revelam uma relação contraditória com corpo e a mente. O anúncio é impactante. A combinação de sequências filmadas e de animação funciona magistralmente.

“And yet the same research found that half of women feel society wants them to keep silent about their experiences, while half of women felt staying silent about their issues damaged their mental health. This leads to a damaging silence around a range of difficult and sensitive issues that women face every day. The physical concern may be treated, but the emotional dimension is often left unheard and overlooked” (https://www.lbbonline.com/news/libresse-tells-a-wombstory-no-ad-has-told-before-in-latest-taboo-busting-ad).

Marca: Libresse. Título: #wombstories. Agência: AMV BBDO. Direcção: Natasha Braier. Reino Unido, Julho 2020.

O anúncio #ShareTheLoad, da Ariel, adopta um discurso feminista num país, a Índia, patriarcal. Teve um impacto mediático e social considerável. Ganhou vários prémios. Trata-se de um anúncio que promove, assumidamente, a condição feminina.

Marca: Ariel. Título: #ShareTheLoad. Agência: BBDO India. Índia, Fevereiro 2016.

O anúncio Francesca, da Diesel, é um misto de exposição de uma condição e promoção de uma categoria.

“No mês do orgulho LGBTQI+, a DIESEL apresenta seu novo filme “Francesca”, dirigido por Francois Rousselet e realizado com o Conselho da Diversity, associação italiana comprometida com a promoção da inclusão social.
O filme criado pela Publicis Itália mostra cenas de uma jovem transgênera e sua jornada durante o processo de transição de gênero. Vemos Francesca, que nasceu menino, se transformar em uma linda mulher, enquanto acompanhamos seu cotidiano, as descobertas dos elementos que compõem o universo feminino e sua relação com a fé, que a leva a buscar a vida em um convento” (https://www.youtube.com/watch?v=535_479z-hM).

Marca: Diesel. Título: Francesca. Agência: Publicis (Itália). Direcção: François Rousselet. Internacional, Junho 2020.

Memória reincidente

Jean-Michel Folon. Lily aime moi. 1975.

Há longos anos que o genérico de fecho de emissão da Antenne 2 me enternece. Com desenhos de Jean-Michel Folon (1934-2005) e música de Michel Colombier (1939-2004). Memória reincidente. Folhas soltas. Salpicos numa liquidez pasmada. Uma leveza de espírito que enfia a cabeça nas nuvens.

Uma obra-prima nunca está acabada. Inspira e inspira. Sucede com a música Emmanuel, de Michel Colombier. Gosto da versão de Toots Thielemans (1922-2016), um dos melhores tocadores de harmónica de boca do século XX.

Sessenta e um anos deste mundo. O triplo da idade em que me encantei com o genérico da Antenne 2. Agradeço a amizade. Um dia havemos de voar juntos como os homenzinhos de Folon.

Genérico da Antenne 2. Desenhos de Jean-Michel Folon e Música (Emmanuel) de Michel Colombier. França, anos setenta.
Emmanuel. Música de Michel Colombier (Wings, 1971). Versão de Toots Thielemans. Colombier Dreams, 2002.

Consolo tóxico

Na publicidade dos anos sessenta, os cigarros faziam bem à saúde e o fumador era um homem de sucesso. Nos anos oitenta, o fumador é um contrariado compensado pelo tabaco. Nos anos 2 000, o tabaco é um veneno e o fumador, um cadáver em potência. Atendendo à censura vigente, não é curial colocar estes quatro anúncios da marca Hamlet. Mas o eclipse do mal nunca fez bem ao bem. São dezenas os anúncios desta campanha cujo conceito remonta aos anos sessenta e se prolongou até aos anos noventa. Retenho quatro curtas “histórias sem palavras” que evidenciam que o prazer pode não provir da virtude.

Marca: Hamlet. 1966.
Marca: Hamlet. Título: Robots. Reino Unido, anos setenta.
Marca: Hamlet. Título: Football. Reino Unido, 1989.
Marca: Hamlet. Título: La Photo de Famille. Agência: Cdp. Reino Unido, 1990.

A sério

UNESCO

L’UNESCO lance une campagne mondiale pour interroger notre perception de la normalité. Le film de 2’20” s’appuie sur une succession de faits marquants sur la situation dans le monde avant et pendant la pandémie de la Covid-19. Ensemble, ces faits remettent en question nos idées préconçues sur ce qui est “normal”, et suggère que nous avons toléré l’inacceptable depuis trop longtemps. Il est temps d’un vrai changement. Et tout commence par l’éducation, la science, la culture et l’information (UNESCO).

Uma pessoa que diz coisas sérias não ri! O sério é sisudo e o riso, tonto. Imagine alguém a comunicar assuntos sérios às gargalhadas! O sério não ri, assim é desde o barro genético. O anúncio Le Prochain Normal, da UNESCO, aborda assuntos graves da humanidade. O que consideramos normal? Perguntas sérias, muito sérias. Até o formato do anúncio é sacrificial. Como rir num mundo tão sério? O riso é um acto de humor nas suas origens e um acto sério nas suas consequências.

Anunciante : UNESCO. Título : Le Prochain Normal. DDB (Paris). França, Junho 2020.

O consumo da violência

A violência sempre acompanhou o homem. Diz-se que é bíblica. Uma égua do apocalipse. Ambivalente, provoca atração e repulsa. Não desejamos ser nem carrascos nem vítimas, mas assistimos ao espectáculo. A violência é ubíqua: aparece nos ecrãs, nas estradas, nas manifestações, nos atentados, nos tiroteios, na escola, no desporto e, até, dentro de casa. Ambivalentes e ambíguos, proibimos um anúncio com uma menina sentada numa ferrovia mas facilitamos o acesso às armas. Nos ecrãs, convivemos mais facilmente com a violência do que com o tabaco: nos livros e nas séries do Lucky Luke, a palhinha não substitui a pistola mas o cigarro. Maná ecránico, a publicidade encena e parodia a violência, em princípio gratuita, mas, presumivelmente, com custos.

Apetece “virar o bico ao prego”. Abraçar a contradição. Nos anos sessenta, apreciava-se os filmes violentos. As pessoas riam com as cenas violentas dos filmes Péplum (e.g., Hércules), de terror (e.g., O Exorcista, 1973), de guerra (e.g., O dia mais longo, 1962) ou western (e.g., Trinitá, cowboy insolente, 1970; o filme é italiano, bem como os actores Terence Hill e Bud Spencer). No entanto, nenhum dos meus amigos se tornou serial killer. Autores como Georg F. W. Hegel, Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud, Georges Bataille ou Lewis A. Coser consideram a violência fundacional e funcional. Na Idade Média, acreditava-se que a contenção excessiva da violência podia desembocar numa explosão de violência. Recomenda-se a catarse, a excitação (Norbert Elias) e a homeopatia (Michel Maffesoli). A violência existe, mas coloquem um filtro, um véu ou óculos para não se ofuscar.

Marca: Fox Sports. Título: We are all superstars. Agência: Wieden + Kennedy (New York). Estados-Unidos, Outubro 2019.
Marca: CANAL +. Título: Mission really impossible. Agência: BETC Paris. França, Maio 2019.

O mundo na mão (extended version)

Folk Meeting : Odetta, Joan Baez, Maria Carta, Amália Rodrigues (Musica sì e I lunedì del Sistina). Concerto de inícios dos anos setenta editado em 2013.

“Sopra, sopra, vento hibernal, não és tão desapiedado quanto a humana ingratidão” (William Shakespeare. Como vos agradar. 1623).
“ Bendita a hora que o esqueci por ser ingrato / E deitei fora as cinzas do seu retrato” (Amália Rodrigues: Só à noitinha).

Discriminação, exclusão, dominação, exploração são flagelos da humanidade. Preocupo-me, sobretudo, com a injustiça. Não poupa vivos nem mortos. “Personally, I can’t believe she’s not more well-known than she is” (https://www.youtube.com/watch?v=GOk2M6C9dck).

Estamos a falar de Odetta (1930-2008), compositora, cantora e activista social norte-americana. Talentosa, original e influente. No início dos anos setenta, cantou com Amália Rodrigues, Joan Baez e Maria Carta no Teatro Sistina, em Roma. He´s got the whole world in his hand (1957) foi uma das canções interpretadas. Acrescento duas: Hit or Miss (1970) e Another Man Done Gone (1956).

Ao original, o público preferiu o cover. Acontece! O Tendências do Imaginário sonha despertar a memória adormecida. Por um mundo maior.

Não resisto a recolocar dois anúncios com músicas de Odetta.

Odetta. He’s got the whole world in his hand. At the Gate of Horn. 1957. Ao vivo em 1993.
Odetta. Hit or Miss. Odetta Sings, 1970.
Odetta. Another Man gone Done. Odetta Sings Ballads and Blues. 1956.
Marca: Adidas. Título: Carry. Agência: TBWA\CHIAT\DAY, USA, San Francisco, Direção: Chuck McBride. EUA, 2004.
Marca: Southern Comfort. Título: Beach. Whatever’s Comfortable. Agência: Wieden + Kennedy, New York. Direção: Tim Godsall. EUA, Julho 2012.

Homofobia na Rússia

No dia 1 de Julho, ocorrerá um referendo na Rússia, com várias propostas a votação. A mais notória é a possibilidade de o presidente (Vladimir Putin) poder renovar mais dois mandatos. Entre as demais propostas, consta o princípio de um casamento apenas entre um homem e uma mulher. Enquadrado nesta perspectiva, o anúncio russo Adopção, da Agência da Informação Federal, posiciona-se contra a adopção de crianças pelos homossexuais. Para aceder ao anúncio, carregue na imagem ou utilize o seguinte endereço: http://www.culturepub.fr/videos/agence-d-information-federale-adoption-2/.

Agência de Informação Federal. Adopção. Rússia, 2020.

E depois de nós

Paulo de Carvalho

Acabaram as aulas. Com uma sombra de amizade. As aulas vêm e vão. São um intervalo. Aquilo que esquece, também perdura… Seguem o fabuloso anúncio Kill The Gun, com a ária Casta Diva, do italiano Vincenzo Bellini (1801-1835) , mais a canção E Depois Do Adeus, de Paulo de Carvalho.

Marca: Choice FM. Título: Stop the bullet Kill the gun. Agência: Amv BBDO London. Direção: Malcolm Venville, Sean de Sparengo. UK, 2007.
Vincenzo Bellini. Casta Diva, da ópera Norma. 1831. Interpretação: Maria Callas.
Paulo de Carvalho. E depois do adeus. Eurovisão 1974.

Os pinguins vão ao museu

The Nelson-Atkins Museum of Art. Penguins. 2020

Aprumados e desajeitados, animados ou ao natural, os pinguins são vedetas na publicidade. No anúncio Penguins, do Nelson-Atkins Museum of Art , a família pinguim visita o museu. Um tema esdrúxulo, mas a excentricidade, inspirada, compensa. Os pinguins deslocam-se, desafiados por tanta informação invulgar. O vídeo foca o “tornozelo” de uma pintura gigantesca de Monet (O tríptico Water Lilies) e exibe,  na íntegra, o São João Baptista no Deserto, de Caravaggio. Consta que os pinguins preferiram o São João, de Caravaggio, aos nenúfares, de Monet.

Marca: The Nelson-Atkins Museum of Art. Título: Penguins. Estados-Unidos, Maio 2020.

“We are so happy to welcome our colleagues from the zoo,” said Julián Zugazagoitia, the director of the Nelson-Atkins Museum of Art in Kansas City, Missouri, in a video posted by the museum. And who were these colleagues in question? None other than a family of Peruvian penguins who were brought along for a day trip to the museum to shake things up because, as the zoo-director Randy Wisthoff put it, the zoo’s temporary shuttering has caused the animals to “really miss having visitors come out and see them”, leaving zoo officials to find new, creative ways to provide the animals with stimulation. Zugazagoitia, who is originally from Mexico City, noted that “these are Peruvian penguins so we were speaking to them in Spanish, and they really appreciated art history.” Zugazagoitia also added that the avian museum-goers “seemed definitely to react much better to Caravaggio than to Monet.” So while these birds may not be able to fly, they certainly have taste (The Art Newspaper: https://www.theartnewspaper.com/video/these-kansas-city-penguins-took-a-field-trip-to-the-nelson-atkins-museum-and-preferred-caravaggio-over-monet)

Acrescento um trailer do filme/documentário La Marche de l’Empéreur (2005).

Trailer oficial do filme/documentário La Marche de l’Empéreur (2005).

Trampolinar

Há coisas prodigiosas capazes de transformar as pessoal. Ora enfraquecem, como a kryptonita do Superman, ora revigoram, como os espinafres do Popeye. A publicidade também promete quimeras. E se andar na rua fosse pisar trampolins? Andar mais alto, mais longe e mais rápido, tudo em suavidade. Como ter “amigos de amigos” no bailado social. A chave: os auscultadores AirPods, da Apple. E se deslocar-se fosse “dancing in the streets”, num mundo recolorido a frisar o psicadélico? A chave: os auscultadores Airpods, da Apple. Os convidados de hoje são o David Bowie e o Mick Jagger.

Marca: Apple / Airpods 2. Título: Bounce. Agência: TBWA Media Arts Lab. Direcção: Oscar Hudson. Estados-Unidos, 2019.
Marca: Apple / Airpods 2. Título: Snap. Estados-Unidos, 2020.
https://www.youtube.com/watch?v=HasaQvHCv4w
David Bowie & Mick Jagger. Dancing in the streets.