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A beleza como obrigação

A Dove proclama o que todos sabem: existe uma escravatura do corpo a par de uma compulsão estética. Nunca a beleza reinou tanto como na era da emancipação. O corpo é meu; faço dele o que entendo; deve agradar. Tanta dedicação ao corpo só nas odaliscas, nas cortesãs e nos castrati. A plasticidade do corpo é um desafio e uma responsabilidade. Requer cuidado, desde as unhas dos pés até às unhas das mãos, passando pelas intimidades. A totalidade do corpo pode ser alvo do cuidado estético. Esta tendência alastra-se a toda a população, incluindo os homens. Cuidar do corpo é uma tarefa sisífica e minuciosa: nenhum pelo, nenhuma borbulha, nenhuma verruga, nenhuma branca, nenhuma mancha, nenhuma ruga, nenhuma secura… Muita arte preventiva e reparadora. Muita aparência. Muita cosmética. A Dove parece remar contra a corrente, mas a favor do mercado. Enquanto a receita render, simulará quebrar o espelho do século. Mas a visão de um anúncio da Dove pode conviver com a marcação para fazer as unhas, o ginásio, a massagem adelgaçante, esticar o cabelo, a limpeza de pele, a terapia aromática e a depilação dos sovacos, queira a Dove ou não. A Dove não está fora do jogo; joga com as regras. O espelho da beleza, a reflexividade estética, é de tal ordem que não existem rainhas feias impossíveis de embelezar. A publicidade da Dove não é estranha. Estranho é não ser seguida por outras marcas.

Marca: Dove. Título: Purpose. Agência: Ogilvy London. Direcção: Lisette Donkersloot. Reino Unido, Janeiro 2020.

Gula e violência

A observação de anúncios ensina-nos o que se já sabe: 1) tudo pode servir para motivo de um anúncio; 2) entre o conteúdo do anúncio e a natureza do produto pode não existir relação; 3) há conteúdos que se prestam a tudo, por exemplo, o sexo e a violência. O anúncio Nacho Fight, da Taco Bell, convoca a violência (carnavalesca ou não). O anúncio sugere, porém, uma sentença digna da Arte da Guerra de Sun Tzo: o que faz a guerra também faz a paz; basta passar da carência à abundância.

A fibra do guerreiro

O filósofo grego Filóstrato (séculos II-III d.C) escreve no Tratado sobre a ginástica:

“Estes antigos atletas tomavam banho nos rios e nas fontes, dormiam no duro, uns sobre peles, outros sobre ervas que cortavam nas pradarias. Os seus alimentos consistiam em maza e em pão mal cozido e não fermentado; alimentavam-se ainda de carne de boi, de touro, de bode e de antílope. Untavam-se com óleo de azeitonas vulgares ou de outras espécies de azeitonas; permaneciam assim resguardados de doenças e retardavam a devastação da velhice. Alguns participaram nos confrontos durante oito olimpíadas, outros durante nove, e tornaram-se hábeis no manuseamento de armas pesadas. Batiam-se como se fossem donos de uma fortaleza, e não se mostravam inferiores nesta espécie de combates; eram julgados dignos do prémio da valentia e de troféus; faziam da guerra um exercício para a ginástica, e da ginástica um exercício para a guerra” (Philostrate, Traité sur la gymnastique, Paris, Librairie de Firmin Didot Frères, Fils et Cie, 1858).

Norbert Elias fala em etos guerreiro (Elias Norbert. Sport et violence. In: Actes de la recherche en sciences sociales. Vol. 2, n°6, décembre 1976, p. 8; pdf anexo). Mas, agora como dantes, nem todos os desportos pressupõem disposições guerreiras.

“Em suma, desta breve comparação entre as características dos desportos mais populares e dos desportos mais novo-burgueses ressalta uma oposição paradigmática entre ascese (áskësis) e estese (æsthësis). Enquanto que muitas das práticas mais típicas dos desportos populares parecem movidas por um éthos guerreiro as dos desportos novo-burgueses remetem mais para o éthos do mestre ou do artista (Gonçalves, Albertino, Imagens e Clivagens, Porto, Afrontamento, 1996, p. 114); pdf anexo).

O anúncio The only way is through, da Under Armour, é uma ilustração concisa do etos guerreiro: esforça-te, castiga-te, resiste, treina, concentra-te, supera-te, enfrenta e vence. Under armour. Mas, ao contrário das olimpíadas da antiguidade, não podes, em princípio, nem estropiar nem matar o adversário.

Marca: Under Armour. Título: The only way is through. Estados Unidos, Janeiro 2020.

Denegação

Thai Health Promotion Foundation. Tailândia.

« A morte é o único acontecimento biológico a que um ser vivo nunca se adapta” (Vladimir Jankélévitch, La Mort, 1977).

Há aqueles que morrem e aqueles que ficam, por vezes, sós, traumatizados e desamparados. É o tema do anúncio tailandês The Road Home, da Thai Health Promotion Foundation. A vida e a morte; a morte e a vida. A morte que não larga os vivos. Um excelente anúncio.

Anunciante: Thai Health Promotion Foundation. Título: The Road Home. Agência: VMLY&R Thailand. Direcção: Suthon Petchsuwan. Tailância, Janeiro 2020.

Estética da guerra

Bruno Aveillan é o Bernini da publicidade. Habituou-nos a vídeos belos, lentos e poéticos. Não é o caso deste “Eternels”, para o parque temático Puy du Fou, o segundo mais visitado em França a seguir à Disneylândia. O anúncio é brutal, acelerado e fragmentado. A sucessão de cenários lembra o anúncio Handle Doors, do Ford S-Max (incluído no vídeo A Construção do Impossível). De violência em violência, o anúncio regride desde as trincheiras da I Guerra Mundial até a um circo romano, para regressar no fim ao início: uma mulher despede-se do homem compartilhando uma fotografia rasgada, presente em todos os episódios. Bruno Aveillan, mais que um contador, é um encantador de histórias.

Marca: Puy du Fou. Título : Eternels. Agência : Les Gros Mots. Direcção: Bruno Aveillan. França, Abril 2019.

O anúncio de Bruno Aveillan Dolce Vita, para a Gaz de France, fecha a sequência de anúncios associada à comunicação “A Construção do Impossível” (2009), que versa sobre o espaço nos anúncios publicitários. Creio que ainda não a coloquei no Tendências do Imaginário. Como nenhum tesourinho deprimente merece aparecer só, acrescento o artigo correspondente: “Como nunca ninguém viu – O olhar na publicidade” (in Martins, Moisés de Lemos et alii, Imagem e Pensamento, Coimbra, Grácio Editor, 2011, pp. 139-165).

Albertino Gonçalves. A construção do impossível. Encontro O Espaço em Todos os Sentidos, CECS, Museu D. Diogo de Sousa, Braga, 23 de Abril de 2009.

Arrepio

O terror não assombra o Tendências do Imaginário. Convoca bastante a morte, mas pouco o medo. Nunca se sabe o que é fonte de terror. Depende da pessoa e dos seus fantasmas. Projectei numa aula o filme A Festa de Babette. Para treinar uma micro-sociologia da cultura e ilustrar como uma forma social, o banquete, pode transfigurar as pessoas. Uma aluna horrorizou-se com as imagens da confecção dos alimentos. O filme Brahms: The Boy II é um filme de terror que estreia no dia 21 de Fevereiro de 2020. Alguns episódios lembram o Exorcista. Segue o trailer, um produto da QUAD.

Brahms: The Boy II. Trailer. Produção: QUAD. Direcção: William Brent Bell. Janeiro 2020.

Música, amor e harmonia

Tiffany & Co.

Não devemos esgotar o riso. Deforma os maxilares e cansa o diafragma. Pois, sejamos sisudos. Falemos a sério de coisas nem sempre sérias. A música consta das experiências que proporcionam um sentimento de harmonia. A harmonia, existe? Se se sente, existe. Existe na música e, com alguma intermitência, no amor. O amor existe? Se se sente, existe. O amor dá-nos uma sensação de plenitude beata. O amor é o prazer humano mais próximo do divino. A música e o amor costumam conjugar-se. Por exemplo, na barcarola de Offenbach (Belle nuit, ô nuit d’amour), mas também no anúncio da Tiffany (Love (in) New-York). Quando a música e o amor dão as mãos à estética, o prazer vai para além do pecado.

Jacques Offenbach. Barcarola (Belle nuit, ô nuit d’amour), da ópera Les Contes de Hoffmann. 1881. Interpretação de Montserrat Caballé e Marilyn Horne. Munique, 1990.
Marca: Tiffany & Co. Título: Love (in) New York. Agência: Ogilvy NY. Direcção: Bruno Aveillan. 2015.

Vaca carnívora

Anunciante: Unimed Curitiba. Título: Vaconça. Agência: Bronx. Brasil, Dezembro 2019.

“Desde que comecei a rir de mim mesmo, nunca mais me aborreci” (Georges Bernard Shaw).

Quando embirro com um assunto, sou pior que uma criança. A ameaça dos herbívoros, não prevista na Bíblia, abala os meus padrões tradicionais de entendimento. Não fui educado para percecionar uma vaca como um agente perigoso. Ressalvo as vacas realmente loucas, desenfreadas pelos caminhos a escornear tudo que apareça. Casos raros. Para mim, a vaca é um animal gentil que bafeja o divino. Dócil e belo. No Líbano, quando se pretende lisonjear uma mulher, diz-se que “tem os olhos bonitos como os de uma vaca” (عيون جميلة مثل بقرة: euyun jamilat mithl baqara).

Ao observar o animal na imagem (uma “vaconça”), debato-me com duas dúvidas:

– Trata-se de uma vaca disfarçada de carnívoro para não ser identificada como fonte de Metano e factor de catástrofe planetária? Um caso de camuflagem ou metamorfose bestial?

– Resulta a pele felina de experiências alimentares? Nos cortejos londrinos, era costume alterar a refeição dos cavalos a fim de que os excrementos fossem de cor discreta. Se a dieta afecta os excrementos, também pode mudar a pele. Atente-se nas intoxicações. Têm-se testado várias dietas para vacas. Há dietas que reduzem a emissão bovina de Metano para metade. Desconfio que comendo ração para gato uma vaca adquira uma pele de felino. Afigura-se-me, também, que se dessem de comer plástico às vacas resolver-se-iam dois grandes problemas da humanidade.

Guillermo Mordillo

Ar do tempo

Vaca leiteira

L’air du temps é o nome de um perfume da Nina Ricci. L’air du temps pode ser traduzido de várias maneiras. Por exemplo, “a quintessência do momento”. O ar do tempo, a quintessência do momento, não deixa de lembrar a dramática flatulência das vacas. Preocupa-me. Não seria possível inventar umas fraldas com filtro químico para bovinos? Há anos que se conhece o contributo das vacas para a emissão de Metano para a atmosfera. A humanidade nunca foi fácil!

“Estudo norte-americano publicado (…) na revista científica “Carbon Balance and Management”, (…) revela que, em 2011, as emissões de Metano foram 11% superiores aos números relativos a 2006” (https://www.jn.pt/mundo/vacas-sao-mais-responsaveis-pelo-buraco-do-ozono-do-que-se-pensava-8809300.html).

“Está a pensar trocar o seu automóvel por um carro de bois para ajudar o ambiente? Esqueça. As vacas são das maiores responsáveis por emissões de gases poluentes para a atmosfera. Ao todo, o sector da criação de gado é o culpado por de 18% das emissões, bem mais do que o dos transportes, responsável por “apenas” 13,5% desta ameaça ao ambiente” (https://www.dn.pt/ciencia/biosfera/vacas-e-ovelhas-poluem-mais-do-que-os-carros-1262025.html.

“Não se deve brincar com coisas sérias”! Mas há coisas sérias que são risíveis. Aliás, um bom humorista só ri de coisas sérias. As outras não precisam de grande sentido de humor.

Marca: Pampers. Título: Eugh. Direcção: Ian Sciacaluga. Reino Unido, 2 000.

Legado

Mordillo. Futebol e Cartuns (Panda Books, 2015)

Um velho, de aparência modesta, recebe uma chamada e sai apressado de casa, a pé e de autocarro, ao frio, com um pequeno embrulho debaixo do braço. Depara-se com outro velho, de aparência abastada. Dispensa o elevador, corta por corredores e escadas. Mas chega a tempo: o neto recém-nascido ostenta a camisola do Atlético de Madrid quando entra o segundo avô com a camisola, pressupõe-se, do Real Madrid. O anúncio, mudo, perfilha a crença segundo a qual “o Real Madrid é associado a uma torcida mais elitista, enquanto o Atlético é visto como um clube de torcida mais popular”. A ideia tácita de uma filiação clubística familiar, de geração em geração, justifica um inquérito.

Marca: Atlético de Madrid. Título: Otra forma de entender la vida. Agência: Sra. Rushmore. Espanha, Dezembro de 2019.