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Sugestão

 

Francis Picabia - Love Parade (1917)

Francis Picabia. Love Parade. 1917.

“O nosso cérebro é uma esponja que se embebe com sugestões” (Francis Picabia, Jésus-Chist Rastaquouère, 1920).

Este anúncio é sugestivo. A sugestão pode ser mais potente do que a realidade. Sobretudo quando se trata de sexo, o maior alcoviteiro da sugestão humana. O anúncio Love Life – Aquarium é mais do que aquilo que mostra. É vulgar? Tão vulgar como nós, preservativos a rebentar de indignação. E a figura da menina? Não sei que diga, talvez uma Capuchinho Vermelho da pós-modernidade ou da sexualidade na idade da técnica. De qualquer modo, este anúncio tem o selo do Secretariado Federal da Saúde Pública da Suíça. Uma dupla garantia.

Marca: Love Life. Título: Aquarium. Agência: Rod Kommunikation AG Zurich. Direcção: David Constantin. Suíça, Fevereiro 2018.

Futebol e natalidade

Futebol e fecundidade. Da Internet.

O envelhecimento demográfico preocupa os países ocidentais. Os baixos valores da natalidade, também. O combate ao envelhecimento não é óbvio. Perante o envelhecimento pelo topo, pouco ou nada se pode fazer, a não ser assegurar um “entardecer da vida” condigno. Ao nível da natalidade, o cenário é diferente. Podem adoptar-se muitas iniciativas. Por exemplo, o incentivo à imigração. A França avançou, há décadas, com uma política consistente e persistente de “apoio à família”. Conseguiu inverter a tendência. A taxa de fecundidade é a mais elevada da União Europeia. Portugal é o lanterna vermelha. Em Portugal, as autarquias mostram-se empenhadas na promoção da natalidade, implementando medidas em áreas tais como a protecção da gravidez, o combate à discriminação no trabalho, o ajustamento da actividade profissional (horários, trabalho a tempo parcial), a guarda de crianças e o apoio material aos pais… Quer-me parecer, por maledicência congénita, que o governo português se mostra activo numa frente em que pouco há a fazer, o envelhecimento, e hesita numa frente em que muito há a fazer, a natalidade (estas questões foram abordadas por Fernando Cabodeira, na sua dissertação de doutoramento em Sociologia, pela Universidade do Minho, em 2017: Alto Minho – Horizonte 2040 – Prospectiva Demográfica e Social).

Se a natalidade resiste à política, nada como recorrer a quimeras, à magia e a outros fenómenos fertilizantes. Consta que um apagão pode propiciar picos de nascimentos nove meses depois. Parece ter sucedido no Estados Unidos (http://www.revistaportuaria.com.br/colunas/480) e no Uganda (https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2009/03/090313_ugandanatalidadegd). Durante um apagão, pouco ou nada se faz, nem sequer ver televisão. Por que não sexualizar, com os preservativos perdidos na escuridão? A interpretação trágica do efeito do apagão manifesta-se poética: acreditando que o apagão é o fim do mundo, as pessoas despedem-se com amor, muito amor. Sobre “os filhos do apagão, não existem provas convincentes.

Bebé football

Filhos da bola. Da Internet.

O futebol é outro mundo. Investigadores da Fundação Althaia, de Barcelona, sustentam que uma vitória num jogo de futebol pode estimular a procriação. Em 2009, o Barcelona foi campeão da Europa. Pelos vistos, os catalães decidiram festejar com sexo. Fala-se na “geração Iniesta”, o jogador que marcou um golo sensacional contra o Chelsea. Nove meses depois, verifica-se um aumento de 16% nos nascimentos (http://www.famili.fr/,football-quand-succes-rime-avec-bebe,422327.asp).

Estes fenómenos maravilhosos tendem, como as aparições dos santos, a propagar-se e a replicar-se. Crescem e multiplicam-se. Os finlandeses venceram surpreendentemente a Inglaterra por 2 a 1 no Europeu de 2016. Nove meses depois, observa-se um pico de nascimentos. “Nunca fizemos tantas epidurais”, garante o Dr. Thorvaldsson, que esteve na origem da “notícia”. Feitas as contas, it’s a fake!

Ao ganhar o europeu de 2016, a selecção nacional deu motivos para uma chuva de partos. Na verdade, nove meses depois não se registou nada de extraordinário em termos de natalidade. Excitados pela trindade da paixão (desporto, sexo e identidade), os portugueses reagem de um modo original: pegam na bandeira e vão apitar para a rua. Em vez de um orgasmo a dois, temos um orgiasmo em massa.

Os anúncios da Hyundai (Boom, Mundial de 2014) e da Chicco (Baby Boom, Mundial de 2018) pescam, com ritmo e humor, nestas águas da bola e da barriga. São as empresas privadas quem valoriza a natalidade. As campanhas governamentais pró-natalidade são raras. São ofuscadas por tópicos concorrentes de elevado desinteresse público. Neste panorama, entre as entidades que mais apregoam a natalidade estão as fraldas Dodot e os bebés Evian.

A terminar, a Canção de Embalar, do José Afonso. Para deitar um pouco de ternura na fervura.

Marca: Chicco. Título: Baby Boom. Agência: Pink Lab. Direcção: Igor Borghi. Itália, Julho 2018.

Marca: Hyundai. Título : The Boom. Agência : Innocean Worldwide Americas. Estados Unidos, 2014.

José Afonso. Canção de Embalar. Cantares de Andarilho. 1968.

O túnel da memória

O Túnel

O património e a memória estão na moda. Se tivesse um filho, se fosse rapaz chamava-lhe Património, se fosse rapariga, chamava-lhe Memória. Em Portugal, retenho três exemplos: o Arquivo dos Diários, em Lisboa; a Casa da Memória, em Guimarães; e o Espaço Memória e Fronteira, em Melgaço. Embora os arquivos, os documentos e os testemunhos tendam a ser familiares ou pessoais, a memória visada é a memória colectiva (Maurice Halbwachs, Les cadres sociaux de la mémoire, 1925).

Esta exposição, localizada num túnel que foi um abrigo durante a Segunda Grande Guerra em Zagreb, é um caso emblemático. Com uma extensão de 350 metros no interior de um túnel (Gric) com mais de um quilómetro de comprimento, a exposição aborda 133 anos da história da Croácia, recorrendo a uma diversidade de fontes. O resultado é espectacular. Mais de 103 000 pessoas visitaram a exposição; 5 370 deixaram relatos pessoais. Foi a exposição mais visitada na Croácia durante o ano de 2017.

A entidade promotora da exposição foi a companhia de seguros Croatia Osiguranje. As empresas privadas projectam-se, cada vez mais, na esfera política (apoio a causas) e na esfera da cultura (criação de instituições e eventos culturais). À “indústria da cultura” produzida à maneira da indústria acrescenta-se a cultura produzida pela própria indústria. O que não é sem consequências ao nível do protagonismo do Estado.

Marca: Croatia Osiguranje. Título: The Tunnel. Agência:  Bruketa&Zinic&GreyBrigada, Millenium Promocija. Croácia, Novembro 2017.

Mulher protagonista

Na publicidade, a imagem da mulher objecto submissa foi árvore que já deu fruto. Populariza-se a imagem da mulher protagonista. Algumas vezes, com brilhantismo. Atente-se nos prints da campanha da Stabilo Boss (Título: Highlight the Remarkable; Agência DDB. Alemanha, Abril 2018).

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“Highlight the remarkable. Edith Wilson
The First Lady who assumed her husband’s presidential responsibilities after he was paralyzed by a stroke.”

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“Highlight the remarkable. Lise Meitner.
Discoverer of nuclear fission who male partner was awarded with the Nobel Prize.”

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“Highlight the remarkable. Katherine Johnson.
The NASA mathematician responsible for the calculations resulting in Apollo 11’s safe return to earth.”

A passerelle electrónica

This coke is a franta

Faço tantos anos quanto os dois últimos dígitos do ano de nascimento. Tenho direito a uma birra inconveniente. A publicidade dedicada a categorias sociais é antiga: raças, etnias e povos, corporações, congregações e exércitos, partidos, elites e clubes, movimentos, minorias, deslocados e vítimas. Nos espaços públicos, em campos de concentração, em paradas. Em praticamente tudo que comunica: exposições, campanhas, competições, propaganda, comunicação social, discursos, imagens, publicidade. Nas coisas e nos espíritos. Prolifera a mostra, positiva ou negativa, das diferenças identificáveis e reclamáveis. Somos confrontados com uma agonística do jogo social, uma exibição da diferença: selectiva (brilham estes e não aqueles), polémica (choque de interesses e narrativas) e elíptica (a maioria das pessoas não existe). Mobilizam-se os próprios e os parceiros; desvalorizam-se uns e valorizam-se outros; espeta-se a verdade nos olhos dos indecisos. Esta culinária é o pão nosso da Sociologia. Parte das nossas investigações foca esta passerelle da agonística social, que adquire especial visibilidade no terceiro milénio, com as novas tecnologias, o reforço da emocionalização, a reemergência das causas no “fim das narrativas e da história”, a reflexividade social e o oportunismo dos caçadores e alquimistas dos valores sociais). Peço desculpa à Coca-Cola, com ou sem Fanta! À Airbnb e a tantas outras marcas socialmente responsáveis. Mantenho alguma reserva a este tipo de anúncios. Não aprecio a exibição do ser humano aos retalhos, em pose, no palco ou no ecrã. Dispenso que me pintem e repintem os olhos. A propaganda nazi foi ignóbil; dispenso o inverso.

O anúncio brasileiro This Coke is a Fanta, da Coca-Cola, conquistou um Leão de Ouro em Cannes. Retomo o anúncio dinamarquês All That We Share, da TV 2. Ilustra as virtualidades de desmontar e baralhar as categorias sociais. Este artigo trouxe-me à memória o poema Parasitas (1885), de Guerra Junqueiro.

Pronto! Não consegui evitar uma birra aniversariante. Acredito que as exibições colectivas, estas e outras, desenham o mapa social em que nos relemos e movemos todos dias. Por outro lado, confesso-me céptico a propósito da bondade da “mercadorização” das causas e das categorias sociais.

Marca: Coca-Cola. Título: This Coke is a Fanta. Agência: David the Agency (São Paulo). Direcção: Vero Von (Landia). Brasil, Junho 2018.

Marca: TV2. Título: All That We Share. Dinamarca. Janeiro 2017.

PARASITAS (Guerra Junqueiro)

No meio duma feira, uns poucos de palhaços
Andavam a mostrar em cima dum jumento
Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,
Aborto que lhes dava um grande rendimento.

Os magros histriões, hipócritas, devassos,
Exploravam assim a flor do sentimento,
E o monstro arregalava os grandes olhos baços,
Uns olhos sem calor e sem entendimento.

E toda a gente deu esmola aos tais ciganos;
Deram esmola até mendigos quase nus.
E eu, ao ver este quadro, apóstolos romanos,
Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz.
Que andais pelo universo há mil e tantos anos
Exibindo, explorando o corpo de Jesus.

Matar o vício

Men's Health

Men’s Health

Existem realidades que escapam ao meu entendimento. Suspendem-me no vazio, com os pés junto às brasas. “Roubam-me Deus / Outros o diabo / Quem cantarei (José Afonso, Epígrafe Para A Arte de Furtar, 1970). Não há vício que resista à campanha Get Rid of Your Old Self, da revista masculina Men’s Health. Quando o outro interior nos mata, de que morte se trata? Do alívio da eutanásia, do desprendimento do suicídio ou da promiscuidade do extermínio? Quem aponta a metralhadora e prime o gatilho? O exército de salvação, o Doutor Mabuse, o superego ou a razão cidadã? É apenas uma campanha simbólica. Nada mais potente, nada mais lamacento, do que o simbólico. Virar o outro contra si mesmo, transformá-lo numa besta a abater, releva de uma  tentação humana arcaica. Pois que se armem os puros de espírito, não com uma metralhadora, mas com um espelho! Caçar os vulneráveis é coragem típica dos eunucos e dos cobradores de palavras.

José Afonso. Os Eunucos (No Reino da Etiópia). Traz Outro Amigo Também. 1970.

Men’s Health é a revista masculina com maior audiência na África do Sul. Para comemorar o vigésimo aniversário, promove uma campanha subordinada os lema “Livre-se do seu antigo eu”. Encomendou os vídeos a quatro realizadores. Partindo do mesmo conceito, cada realizador produziu um vídeo com a sua assinatura. Importava reforçar alguns princípios da revista:

“That’s two decades of helping the everyday man be better. Becoming the best version of yourself can be a daunting task. It takes courage.

We wanted to celebrate this milestone and recognise men who, over the years, have risen to the challenge. So we tasked four directors with exploring the idea of getting rid of your old self. The result was the same story told in four different ways and four very different short films” (Men’s Health).

Admito alguma insensata alergia a esta glosa do bem para conversão higienista do mal, do outro. Não tanto pelo princípio, nem pelo meio, nem pelo fim, mas pela respectiva pegada histórica. Uma pegada funesta. Se alguém me pedir para confeccionar uma salada de fanáticos, rego-a com este molho de purga do próximo. Respeito a misericórdia e a piedade, são virtudes veneráveis, apenas me molestam os profetas e os messias da normalização e da rectificação do humano, obstinadamente demasiado humano.

José Afonso. Epígrafe para a arte de furtar. Traz Outro Amigo Também. 1970.

Os quatro anúncios perfilham um conceito claro e a realização mostra-se primorosa. O limbo sobressai como atmosfera. O ritmo oscila entre a imobilidade e a passagem. A narrativa é imprecisa. Num clima claustrofóbico, sufoca-se à espera da luz,  do resgate, da libertação do velho eu.

Enquanto escrevia estas linhas, ocorreram-me duas canções do José Afonso, do mesmo álbum (Traz outro amigo também, 1970). intercalo-as no texto, antes dos vídeos.

Enfim, estou constipado. Fico azedo e má companhia. Peço, desde já, desculpa à Men’s Heath por eventuais exageros e mal entendidos. Acontece-me insistir em bater no ceguinho. Se sou contra a ajuda a pessoas com problemas de álcool, obesidade ou tabaco? Se puder ajudar alguém, ajudo; se puder contribuir para uma associação honesta, contribuo; não vou tocar o sino da igreja.

Marca: Men’s Health. Título: Peanuts. Agência: Mullen Lowe. Direcção: SJ Myeza Mhlambi. África do Sul, Maio2018.

Marca: Men’s Health. Título: The Arrival. Agência: Mullen Lowe. Direcção: Lourens van Rensburg. África do Sul, Maio 2018.

Marca: Men’s Health. Título: The Deser. Agência: Mullen Lowe. Direcção: Shane Knock. África do Sul, Maio 2018.

Marca: Men’s Health. Título: The Surgeon. Agência: Mullen Lowe. Direcção: Dirk van Niekerk. África do Sul, Maio 2018.

 

Como fazer amigos

Giovanni Battista Tiepolo “Apollo and Diana” fresco 1757 (detail) Villa Valmarana, Vicenza

Giovanni Battista Tiepolo “Apollo and Diana” fresco 1757 (detail) Villa Valmarana, Vicenza

Sentar-se numa nuvem
Molha o rabo
Ontem, sentei-me numa
Hoje, estou constipado

O anúncio tailandês Friendshit, da Kasikornbank, é um exemplo de publicidade oriental: longo, lento e louco. Centra-se nas pessoas e nas emoções, com um sentido de humor que não teme a repetição. Um excelente vídeo de ilustração para uma aula de Sociologia da Comunicação, ao jeito da Escola de Palo Alto, especialmente de Erving Goffman, cuja tese de doutoramento (Communication conduct in an island community ,1953) incide sobre a arte da conversa nas ilhas Shetland.

Marca: Kasikornbank. Título: Friendshit. Agência: GREYnJ United. Tailândia, Fevereiro 2018.

As férias e a natalidade

Spies travel

O artigo Fecundidade (https://tendimag.com/2018/06/20/fecundidade-2/) aguçou-me a curiosidade para os anúncios dedicados à natalidade. Consultei, com as entradas Natalidade e Fertilidade, duas bases de anúncios: Culturepub e Ads of the world. Resultado: uma meia dúzia de anúncios, alguns de questionável qualidade. Pelos vistos, o assunto não é relevante. Em cada acto sexual, 200 a 500 milhões de espermatozóides procuram o óvulo. Não é por falta de espermatozóides e de óvulos que os bebés não nascem. Estamos a falar de heterossexualidade. Ora, o prefixo hetero não está na moda. Nem nos organismos de governo, nem nas organizações não-governamentais, nem nas empresas altamente responsáveis. Os bebés, antes de nascer, não têm voz, nem votam, nem pertencem a grupos de pressão. É forçoso admitir que, na publicidade, o marcador dos bebés se resume às fraldas. A pesquisa vale o que vale, aponta, no entanto, para uma inexplicável negligência. Entretanto, a agência de viagens Spies Rejser descobriu que as férias são amigas da natalidade.

Marca: Spies Travel. Título: Do it for Denmark. Dinamarca, Março 2014.

Marca: Spies Travel. Título: Do it for Mom. Agência: Robert/Boisen & Like-Minded. Direcção: Niels Norlov. Dinamarca, Setembro 2015.

Fecundidade

First Time

Este anúncio é vertiginoso. A música e a imagem entrelaçam-se a um ritmo alucinante. Neste anúncio barroco e orgiástico, retenho, a contra-ciclo, o pezinho do bebé. Pelos vistos, os orgasmos também podem ser produtivos. Na realidade, há cada vez mais garrafas de champagne e cada vez menos crianças.

Marca: Moët & Chandon. Título: First Time. Agência: Ogilvy (Paris). Direcção: Manu Cossu. França, Junho 2018.

A plastificação da inteligência

Le vent l’emportera
Tout disparaîtra
Le vent nous portera
(Noir Désir, Le Vent Nous Portera. Des visages des figures. 2001)

A plastificação dos oceanos inspira a publicidade. O anúncio espanhol da CREA, Sin Contaminación, e o anúncio Ocean of the Future, da Greenpeace, são disfóricos. Traçam um retrato cinzento da nossa irresponsabilidade. Para o anúncio Sin Contaminación, não estamos apenas a intoxicar o ambiente, intoxicámo-nos a nós próprios.

Sin contaminación

Marca: CREA. Título: Sin Contaminación. Espanha, Junho 2018.

Marca: Greenpeace. Título: Ocean of the Future. Agência: Ogilvy & Mather (London). Reino Unido, Abril 2018.

A fatrasia, estilo típico da Idade Média, alinha frases sem nexo. Mistura alhos com bugalhos num discurso sem sentido aparente. Gosto da fatrasia. Prefiro a paella ao puré. Por quê acrescentar o vídeo musical Le Vent Nous Portera, dos Noir Désir? Passa-se numa praia. É disfórico e estranho, um “bouquet de nerfs”. É percorrido por um sentimento de ameaça, sem como nem quando. Se isto não é suficiente para justificar o vídeo musical, acrescento que gosto dos Noir Désir! Gostar é o melhor passaporte para qualquer lugar e qualquer viagem.

Noir Désir, Le Vent Nous Portera. Des visages des figures. 2001.

Muitos anúncios do Tendências do Imaginário são filhos da pressa e do desperdício. O anúncio Sin Contaminación, consistente e original, merecia um comentário mais circunstanciado. O mesmo vale para o vídeo Le Vent Nous Portera, um filme subtil, um bom exemplar da canção francesa, com uma letra que se emancipa da estética do belo. Ando sobreocupado a perder tempo. A minha escrita parece o inverso de uma sopa de pedra: um calhou no fundo de um pote sem sombra de acompanhamento. Sem empratamento, sem decoração que disfarce e eufemize o mundo. Surpreendo-me, às vezes, a pintar cenários insensatos: com o vento actual, preocupa-me a plastificação dos oceanos, mas não me preocupa menos a plastificação da inteligência.