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Melgaço: Marco nº1

Passadiço de Cevide e o marco nº1. Aqui começa Portugal.

Melgaço é um recanto recôndito. As condições objetivas, tais como o decréscimo populacional, o envelhecimento e o descentramento, parecem destiná-lo à depressão e ao esgotamento. Não obstante, resiste. Valoriza aquilo que tem, e aquilo que não tem, mas que pode aproveitar, com energia própria e alheia. Atento, não perde nem desperdiça oportunidades. Cada costume, artefacto, iguaria, raiz, pedra, cascata, golpe de asa ou suspiro, cada potencialidade torna-se distinção e traço-de-união. Investe, reinveste, e o pormenor mais simples transforma-se num banco de símbolos mobilizador, sempre característico, sempre cosmopolita. Migra, regressa, assenta ou volta a migrar. Conta com os melgacenses e os amigos, para jogar dentro e fora de casa. Assim encontra, e não se cansa de procurar.

Segue uma notícia do Jornal de Notícias sobre a iniciativa recente envolvendo o marco nº1 da fronteira portuguesa, no lugar de Cevide. Acresce o vídeo musical Suprahuman, de Manuel Brásio, e o filme promocional do Parque Nacional da Peneda-Gerês premiado em 2014.

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Ana Peixoto Fernandes. A aldeia mais a Norte tem uma “banda sonora”. JN Jornal de Notícias, 15 Janeiro 2022 às 20:06.

Manuel Brásio. S U P R A H U M A N (excerto 1). Produção: Interferência. 2019.
Filme promocional da Reserva da Bioesfera Transfronteiriça Gerês – Xurés co-produzido pelo ADERE-PG. 2014.

Motivação

Parece que é preciso fazer-nos sentir mal para nos conduzir a praticar o bem.

Anunciante: Rama Foundation. Título: Motivations. Agência: Audacity. Direção: Jon Chalermwong. Tailândia, Dezembro 2021.

“The above “film, directed by Audacity’s Jon Chalermwong for Thailand’s Rama Foundation, is a bit tough to watch. But that’s exactly why it works. Chalermwong tells Campaign that the film, entitled ‘Motivations’, is based on real-life stories of young people who as young kids witnessed the deaths of loved ones, and then went on to pursue careers in medicine. If you feel like it’s difficult to look into their eyes as they realise a loved one is dead, imagine how difficult it would be for them to live through those moments. And if they decide to turn their tragedy into a career helping others, don’t they deserve decent equipment on which to train? That’s the argument the film makes, and Ad Nut expects it could be an effective one.   The foundation, which supports Ramathibodi Hospital, is accepting donations at www.ramafoundation.or.th. (campaign. Deadly moments lead to lifetimes of medical servisse: https://www.campaignasia.com/video/deadly-moments-lead-to-lifetimes-of-medical-service/474808)”.

Energia e paz

Claude Monet. A Windmill at Zaandam. 1871

Não tenho emenda. Adoro partilhar música. “Dar música”. Não sei se boa, se má. Música de que gosto. Sobejam os motivos e as ocasiões para colocar uma música. Umas vezes, acabo de a ouvir; outras, surpreende-me num filme, num anúncio, numa curta-metragem; noutros casos, é o arranjo ou a interpretação, mais do que a obra, que interessa; por último, algumas ideias quando surgem, surgem musicadas, por exemplo, associações tais como o duo “energia”/”paz” ou a trindade “jovialidade”/”elegância”/”leveza” (ver: https://tendimag.com/2022/01/02/jovialidade-elegancia-e-leveza/). Configurações como estas dão-me música. Vários autores assumem que, enquanto criam, conseguem ligar automaticamente a mão que escreve ao cérebro que pensa. Eu acrescento o ouvido, que dança com o cérebro na mão.   

Energia e paz não são inconciliáveis, pois não? Parece, mas não! Pares como este, improváveis, costumam revelar-se deveras potentes na mobilização simbólica. Ao conjugar “energia” e “paz”, logo me acode o celebérrimo slogan “a força tranquila” que, criado pelo mago da publicidade Jacques Séguéla, é considerado como o responsável pela vitória de François Mitterand nas eleições presidenciais francesas de 1981 (ver https://tendimag.com/2015/02/18/criacao-e-recriacao/). A “energia” e a “paz” prestam-se também aos alegros e adágios de Karl Jenkins. Volvidas várias décadas, o slogan de Jacques Séguéla e os acordes de Karl Jenkins, “força tranquila”, “energia” e “paz, continuam a ressoar em muitas caixas cranianas.

Pergunto-me por que insisto em queimar, dia após dia, tantas “celulazinhas cinzentas” com a publicação destes pequenos artigos. Muito investimento, pouco proveito. Para comunicar ideias e sentimentos? O tamanho da audiência não o justifica, talvez a qualidade. Trata-se de uma fixação narcisista, de um vício compulsivo: o prazer de ler enquanto se escreve, com a ilusão de se rever no espelho da própria escrita. Não é uma virtude, nem uma dádiva, é uma tentação e um pecado. Por isso, mal termino um texto, o abandono à sua sorte. Cativa-me o rebento, aborrece-me a disseminação.

Karl Jenkins. Palladio. Allegretto. 1995. Orchestra Barocca Marco Dall’Aquila. Dir. Jacopo Sipari di Pescasseroli. 2011.
Karl Jenkins. The Armed Man.  A Mass For Peace. Benedictus. 2001. Violoncelo: Hauser. Zagreb Philharmonic Orchestra and Choir Zvjezdice. Lisinski Concert Hall in Zagreb, outubro 2017.

Uma flor na estrumeira

Old Spice. Ode to Smell. 2021

A marca Old Spice aposta na publicidade desconcertante. Em Ode to Smell, o perfume é promovido através de um anúncio que tresanda. Num ambiente que convoca a série The Wheel Of Time, o produto reduz-se a uma pequena embalagem levitante, agoiro de bruxa, num mundo escabroso dominado por seres humanos “porcos, feios e maus”. A modos como uma flor numa estrumeira. Esta per-versidade, esta revelação através do mergulho no avesso, tem vindo a abrir caminho na publicidade. Dormem alguns destes anúncios no Tendências do Imaginário. Lembram o princípio da vacina: inocular um corpo mórbido para provocar uma contrarreação desejada. A propósito, acabei de me vacinar. Bem que andava precisado. Agora, aproveito para continuar a leitura de O Império Final (2006), de Brandon Sanderson.

Marca: Old Spice X The Witcher. Título: Ode to Smell. Em colaboração com a Netflix. USA, dezembro 2021.
 The Wheel Of Time. Official Teaser Trailer, Amazon Prime Video. Setembro 2021.

O Anjo da Conexão e o Velho do Restelo

Acredita em anjos? Então este artigo é para si.

Edward Hopper. Office in a small city. 1953.

Não é por um comportamento se manifestar “ferido de interesse” que está fadado a prejudicar o bem comum (Bernard Mandeville, A Fábula das Abelhas: ou, Vícios privados, benefícios públicos, 1714). Inspirando-me em Pierre Ansart (Idéologies, Conflits et Pouvoir, 1977), também não é por uma ideia ser interessada que resulta necessariamente falsa. Como corolário, por muito estranho que pareça, não é a generosidade de um gesto ou de uma ideia que garantem a sua verdade ou bondade. Pode não ser um erro confiar em quem é movido por interesses, nem tão pouco duvidar de quem nos quer bem. Vem este arrazoado a propósito da publicidade, domínio que os missionários da beatitude tendem a associar à quintessência do mal, à perversão ideológica no purgatório da mercadoria. Acresce que não existe instância que detenha o monopólio do acesso à sabedoria. Nem sequer a ciência ou a religião. Aprende-se como e com quem se aprende, independentemente da forma e do conteúdo, da embalagem e do miolo. Daqui a afirmar que tenho vindo a adquirir mais conhecimento com a publicidade do que com a ciência quase vai um passo. Confesso, porém, que, nos últimos tempos, tenho consumido mais anúncios publicitários do que artigos científicos com impacto. Em termos de conhecimento, um anúncio publicitário costuma valer menos pelo que comporta e mais pelo que suscita, pelo que induz a sentir e a pensar. Trata-se, sobretudo, de uma interpelação que nos cumpre assimilar, no sentido piagetiano do termo. Um anúncio não se limita a alcançar-nos, desafia-nos, mobiliza o nosso “acervo de conhecimentos disponíveis” (Alfred Schütz, Collected Papers I: The Problem of Social Reality, 1962). Munido com estas barbaridades, afigura-se-me que o anúncio indiano Joy of Homecoming, da Vivo, constitui uma excelente ilustração das potencialidades da publicidade.

Um idoso vive, just him and his loneliness, numa mansão, em aparente desafogo económico. Os seus três filhos residem longe, onde têm o seu trabalho e os seus compromissos. Falta-lhes meios e tempo, até para prolongar os breves momentos de videoconferência. Para mitigar a solidão, o pai optou por alugar um quarto. Apenas um, o reservado aos hóspedes. Nos outros, intactos, dorme a memória dos filhos, sua energia vital. A ação inicia com a chegada de um novo inquilino. A música, fundamental, canta o destino; e o jovem inquilino veste o papel de um anjo, que recorda As Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders. O jovem faz companhia ao “tio adotivo”, anima-o e tira-lhe fotografias, que envia aos filhos. Inesperadamente, o “sobrinho” parte antes do termo: sente saudades da mãe. Ouve-se a campainha. Será, de novo, a solidão? Não, a solidão não bate assim. São s três filhos que, dispersos pelo mundo, se juntam, como por milagre, para o Diwali, festividade indiana, homóloga do Natal, que celebra a reunião e a vitória do bem sobre o mal: “invoca o retorno da deusa Rama para a cidade de Ayodhya, após um longo período de ausência” e “festeja a vitória do Deus Krishna sobre as forças do mal”. O anúncio termina sem se saber se o “anjo da conexão” foi enviado por Deus ou pela Vivo. Talvez o milagre, um pouco mais prosaico, reverta para o “poder das imagens” em que a Vivo acredita.

José Malhoa. O emigrante. 1918.

O anúncio indiano Joy of Homecoming, apesar da distância geográfica e cultural, assenta-nos como um espelho. Sucede o mesmo em Portugal, País que se tornou tão pequenino num mundo tão vasto. O princípio dos vasos comunicantes funciona na sociedade ao contrário: os fluxos passam do mais pequeno para o maior até ao desequilíbrio final. As migrações já não são o que eram: para além das famílias mais pobres, recrutam entre as mais abastadas e as mais diplomadas. Distinguem-se, contudo, das antigas deslocações dos nobres e dos burgueses. Não as move o luxo, mas a necessidade. A figura do pai remediado separado dos filhos expande-se e multiplica-se com um vírus. Nestes tempos em que o distante se aproxima e o movimento se acelera, a alienação, a separação, pode ser brutal. Não por falta de amor ou de desejo, mas por falta de… disponibilidade! As nossas sociedades estão entre as que mais comunicam e menos comungam. São as mais ricas da História, mas também as mais pobres da humanidade. Sociedades obcecadas pelo crescimento, criam mais necessidades do que possibilidades. É essa a riqueza, é essa a penúria. Como escreve o antropólogo Marshall Sahlins: “idade de pedra é a idade da abundância”; “a sociedade moderna é a sociedade da insatisfação” (Stone Age Economics, 1974). Os pigmeus perfilhavam uma sabedoria que nos é estranha: recusavam as ofertas dos colonos que introduziam.  novas necessidades, logo mais esforço. Mendigamos existência. Antes da pandemia, uma criança pergunta à professora de história: “e nós, o que vamos contar aos netos?”. Preocupação sem fundamento, mas sentida. Mendigamos afetos. Pais sem filhos, mães sem pais, avós sem netos e amigos sem abraços, desencontramo-nos.

Ars moriendi, 1470 ca.

Somos a primeira civilização que promove o morrer em solidão (Norbert Elias, La solitude des mourants, 1982). É verdade que em algumas sociedades os moribundos se afastavam dos vivos, respeitavam, no entanto, a norma, configurava um afastamento ritual que fazia sentido na respetiva condição e cultura. Agora, os moribundos não se isolam normativamente, mas na prática e pela prática, por fatalidade, como uma espécie de excrescência. À volta do leito, máquinas e peritos. Nem sombra de familiares, amigos, anjos ou demónios (ver O Galo e a morte: https://tendimag.com/2017/10/13/o-galo-e-a-morte-revisto/). Andamos descompensados, problema que apenas se agravou e evidenciou com os sucessivos confinamentos pandémicos. Entretanto, já andávamos à deriva. E não há vacina, nem anjo, nem imagem que nos acuda! Talvez nós, aliviando a carga que tanto ambicionamos e tanto nos esmaga. Talvez se deixássemos de nos armar em sísifos que só saber subir e subir, empurrar projetos encosta acima, até lhe faltar o ar. A vontade de superação é o nosso emblema. É também o nosso problema.

Sísifo empurrando uma pedra vigiado por Perséfone. Ânfora grega. Cerca de 560 a.c.

Não fui eu quem escreveu este texto. Foi o meu avatar reacionário e romântico, o Velho do Restelo. Um exercício, uma maneira como outra qualquer de fechar o ano.

Marca: Vivo. Título: Celebrate the #JoyOfHomecoming this Diwali. Agência: Dentsu Impact. Direção: Viveck Dasschaudhary. Índia, outubro de 2021.
Robbie Williams. Angels. Álbum: Life thru a Lens. 1997.
Manuel Freire – “Fala do Velho do Restelo ao astrónauta” poema de José Saramago. Álbum: Pedra Filosofal. 1973.

Paixão hiper-real

Christian Pulisic. FIFA 22

How real is real? (Paul Watzlawick, 1976). Até que ponto o real é real? E o hiper-real, até que ponto é mais real do que o real? Existem portais para outros mundos? E para o nosso mundo? Até que ponto um avatar é um outro eu? Je est un autre ( Arthur Rimbaud, 1871). Até que ponto sou eu? Até que ponto sou outro? Até que ponto interajo comigo próprio? O que parece certo é que a paixão é muito real. Move multidões e fortunas. O trailer oficial do videojogo FIFA 22, da Electronic Arts, possui a arte de levantar, como um torvelinho, este conjunto de questões.

Marca: EA Sports FIFA/FIFA 2022. Título: HiperMotion begins. Agência: Client Direct. Direção: Chris Boyle. Internacional, outubro 2021.

Humor sexual

Pieter Bruegel the Elder, The Peasant Dance, Detalhe. ca 1567.

Há duas décadas, eram frequentes os anúncios brejeiros com o sexo como ignição ou pano de fundo. Entretanto, o sexo ressignificou-se, mormente na publicidade. Entre outros aspetos, o secreto tornou-se ostensivo e o ostensivo, discreto. Numa das visitas a arquivos antigos, encontrei este exemplar espanhol.

Marca: Somfy. Título: Easy. Agência: Bassat Ogilvy & Mather, Barcelona. Direção: Joan Cruells. Espanha, janeiro 2001.

Sobre carris

Claude Monet – The Gare Saint-Lazare, Arrival of a Train. 1877.

As imagens dos anúncios Traffic Jam e Hexagonal, da Ouigo e da Sncf, não provêm de Portugal. Encarnam uma vantagem que o País não possui. Uma herança que hipoteca o futuro. Uma aposta que, ano após ano, se manifesta cada vez mais errada. Mesmo assim, aconselho os reis magos a tomar, esta quadra, o comboio.

Marca: Ouigo. Título: Traffic Jam. Agência: Rosapark. Direção: Djawid Hakimyar. França, setembro 2020.
Marca: Sncf. Título: Hexagonal. Agência: Publicis Conseil. Direção: Raphaël Levy. França, agosto 2021.

It’s the Music, Stupid!

Ambrogio Lorenzetti. Allegory of Good Government. 1338-40. Palazzo Pubblico. Siena.

Não se consegue a harmonia quando todos cantam a mesma nota (Doug Floyd).

O anúncio The best moments are those we spend together, do Palácio das Artes Müpa, em Budapeste, coaduna-se com a vocação musical da Hungria. Acrescento dois excertos do filme O Violinista do Diabo (2013), dedicado a Niccolò Paganini.

Anunciante: Müpa Budapest. Título: The best moments are those we spend together. Agência: Müpa. Direção: Péter Bergendy. Hungria, dezembro 2021.
O Violinista do Diabo (Niccolò Paganini). De Bernard Rose. 2003. Excerto. Intérprete: David Garrett.
O Violinista do Diabo (Niccolò Paganini). De Bernard Rose. 2003. Excerto. Intérprete: David Garrett.

Por um fio

No anúncio cabo-verdiano Gift, estreado hoje, uma empresa de telecomunicações, a Unitel T+, admite que a tangibilidade, a interação física, é decisiva nas relações humanas:

Today, technology makes people’s lives easier, but, on the other hand, it ends up driving them away. This campaign is based on this reality to launch an appeal for proximity. With this message, the Cape Verdean telecommunications company reinforces its presence during the festive season with a message that values ​​family relationships.

Marca: Unitel T+. Título: Gift. Agência: Mantra, Lisboa. Cabo Verde, 20 de dezembro de 2021.