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O aperto de mão em tempos de pandemia

A publicidade não está imune ao coronavírus. Multiplicam-se os anúncios que aludem à pandemia. Com mais ou menos propósito. Nalguns casos, é preciso algum esforço para descobrir a ligação. Seleccionei dois anúncios em língua portuguesa. O primeiro, brasileiro, Keep your distance, da Universidade do Futebol, assinala como um gesto, a recusa do aperto de mão, pode mudar de sentido, de feio para bom, de ofensa para consciência, consoante o contexto. O segundo, português, It’s Victor Fault, da Lobby, inspira-se na origem, presumivelmente vampírica, do vírus. Dois vampiros conversam sobre as vantagens e as desvantagens do coronavírus. A agência aproveita para fazer auto-promoção.

Marca: Universidade do Futebol. Título: Keep your distance. Agência: Liberdade. Direcção executiva: Fabiana Zat Livardi. Brasil, Março 2020.
Marca: Lobby. Título: It’s Victor Fault. Agência: Lobby. Portugal, Março 2020.

Desigualdade perante o sono

Ariel

A publicidade interessa-se pelas questões de género. Retomando os termos de Louis Althusser, a publicidade não inventa, nem descobre os problemas de género, reinventa-os e vulgariza-os. O anúncio indiano Share the Load é refinado e persuasivo. Algo paira no ar. Sente-se. A um ritmo lento e magnético. Tudo se precipita nos derradeiros segundos. O problema: a mulher tem falta de dormir; “71% das mulheres dormem menos do que os homens devido às ocupações domésticas”. E a solução: repartir as tarefas, partilhar a lavagem da roupa, sem esquecer Ariel, o terceiro elemento. Os anúncios orientais têm o dom de expressar a vida quotidiana sob uma luz mágica.

Marca: Ariel. Título: Share de Load. Agência: BBDO India. Direcção: Shimit Amin. Índia, Março 2020.

Fumo tóxico

Já sentia saudades da figura do fumador suicida homicida. O fumo do cigarro mata mais depressa e com maior alcance do que uma bala. Se bem me lembro, na minha infância havia cigarros a que chamavam mata-ratos (Kentucky). A reputação letal do tabaco vem de longe. Ressalvando os assassinos, os desastrados e os fumadores, ninguém é mortífero. Nem sequer na Tailândia. Mata-se, isso sim, simbolicamente. O fumador suicida homicida é uma presa fácil dessa caça simbólica. “A Bíblia separa as pessoas entre pecadores que sabem que são pecadores, e pecadores que pensam que são justos” (Ronaldo Bezerra: https://guiame.com.br/colunistas/ronaldo-bezerra/pecadores-que-sabem-que-sao-pecadores-x-pecadores-que-pensam-que-sao-justos.html). Livrai-nos, Senhor, dos pecadores que pensam que são justos! Acrescento apenas que uma das principais fontes de desigualdade radica na semiose social. Nem todos têm o mesmo acesso ao ceptro da palavra e da imagem.

Marca: Thai Health Promotion Foundation. Título: Gunfight. Agência: Factory01 Co., Ltd. Direcção: Wuthisak Anarnkaporn. Tailândia, Março 2020.

Aprendizagem sem mestre

Cumprido o teletrabalho, entrego-me ao telelazer. O anúncio Physics, da Brontosaurus, regista as atribulações de uma aprendizagem sem mestre, uma fonte interminável de surpresas. Numa aldeia do Tibete, por causa de um livro de Física, até monstros aparecem. Os professores fazem falta. Este é, curiosamente, um anúncio para recrutamento de professores! Não em Portugal, mas na República Checa.

Marca: Hnutí Brontosaurus. Título: “Physics” in little Tibet. Agência: McCann Erickson (Praga). Direcção: Marek Partys. República Checa, Janeiro 2020.

Videojogos. Viagem ao coração da emoção

PlayStation. Feel the power. 2020

A quarentena justificada pelo coronavírus aumenta o uso e o download de videojogos. O caso da China é ilustrativo:

“Um recém-publicado relatório da consultora App Annie demonstra que o número de downloads de aplicações móveis tem vindo a crescer exponencialmente na China. Ao todo, desde 2 de fevereiro, foram registados mais de 222 milhões de instalações através da App Store, em especial de aplicações de jogos. / De acordo com os dados a que o Financial Times teve acesso, o número médio de downloads registado durante as duas primeiras semanas de fevereiro na China representa um aumento de 40% em comparação com os valores verificados na totalidade de 2019”. (https://tek.sapo.pt/mobile/apps/artigos/coronavirus-quarentena-faz-aumentar-o-download-de-aplicacoes-de-videojogos-na-china).

Vem a propósito o anúncio Feel the power of PlayStation. Abismal, mergulha-nos na angústia, no medo e no choque, provocando uma emoção desconcertante. O importante é o coração, mais precisamente, o aperto do coração. Desagradável mas fascinante, lembra o filme Alien e os biomecanóides de HR Giger. Os anúncios da PlayStation têm vindo a apostar nesta estética da emoção tensa e opressiva (ver o anúncio Head, de 2006: https://tendimag.com/2014/09/18/segredos-da-mente/.

Marca: PlayStation. Título: Feel the power of Playstation. Agência: adam&eveDDB. Direcção: Romain Gavras. Fevereiro 2020.

Não desistas!

Pablo Picasso. Dom Quixote. 1955.

As horas e as obras repetem-se. Coloquei este anúncio da Movistar há 10 anos no facebook. Inspirado, encoraja e anima. Sugere que existe um suplemento que nos demove de desistir. Esse suplemento é o Outro! Este anúncio ajuda a subir a corrente. Recoloco-o e volto a recolocá-lo. A repetição não é forçosamente estéril. Na música como na vida.

Nestes dias de recolhimento, aconselho o Dom Quixote de la Mancha. Juntos, Dom Quixote e Sancho Pança configuram um paradigma da humanidade. Separados, duvido!

O contacto, a conexão, entre pessoas capacita, gera sinergia. Torna possível o improvável. Neste anúncio, brilhante, o mundo aproxima-se da figura de um mosaico ou de um puzzle em que as diferentes peças apenas se sobrepõem sem se confundir, mesmo assim o suficiente para completar a acção. As situações e as pessoas interagem de um modo inacabado e imperfeito, mas eficaz. Namoram-se sem se anular, como um beijo de Gustav Klimt. O anúncio multiplica os sinais desta reserva e incompletude. Somos com os outros, conseguimos com os outros, mas não somos os outros, para o bem todos. O ruído preserva a identidade. A unicidade ameaça-a (https://tendimag.com/2017/03/14/com-o-mundo-nas-maos/).

Anunciante: Movistar. Título: Conectados podemos más. Agência: Young & Rubicam Perú; Directora de Produção: Julieta Kropivka. 2010.

Encapar a realidade

Time. Women. Março 2020.

Quando ocorre uma efeméride, costumo recolher os anúncios alusivos. No Dia Internacional da Mulher, não fui bem sucedido. Provavelmente, por vício do olhar ou erro de lugar. Retive o poster da Time, comemorativo dos 100 anos do direito a voto das mulheres. Acompanho o meu reconhecimento com a canção Four Women (1966), da Nina Simone, num vídeo relativamente raro e antigo, que não consegui datar.

Nina Simone. Four Women. Wil is the Wind. 1966. Ao vivo (talvez, em Paris, em 1977).

Estilo de Vida Tampax

https://www.facebook.com/DelireBrut/

Sem inspiração, em abençoada parvalheira, converto-me à burrocracia.

A publicidade é uma promessa. Uma promessa de uma vida melhor, quase de salvação. É sobrinha da religiosidade. O consumo gratifica. Os anúncios, desde o mais banal até ao mais incrível, reconfortam o ego. A Tampax é profeta de uma nova vida quotidiana, ao nível do trabalho, da estética, do lazer e do desporto, rumo à libertação pessoal e social. Parafraseando Robert K. Merton, trata-se de um milagre de médio alcance.

Circula, na rede, um cartoon da DelireBrut dedicado à publicidade da Tampax. Amor com humor se paga. A Tampax, a par da higiene íntima, convida-nos a sonhar a vida.

Marca: Tampax. Título: Tampax. Agência: SIGMA. Direcção: Edoardo Lugari. 2017.

Condição de felicidade. O efeito de idade.

Hans Baldung. As Sete Idades da Mulher. Início do séc. XVI.

Que tenho contra os velhos? Nada. Dispenso, porém, pedir às crianças para ser adultas, aos adultos, crianças e aos jovens, velhos. Também prescindo pedir aos velhos para ser jovens. Existem ”idades da vida” (ver: https://tendimag.com/2016/12/23/as-idades-da-vida/). Nenhuma fase da vida tem o monopólio da importância ou da felicidade. Mas as “condições de felicidade” (Erving Goffman) são distintas.

Marca: Heineken. Título: Father & Son. Agência: Publicis (Itália). Direcção: Martin Werner. Itália, Fevereiro 2020.
Jacques Brel. Les Vieux. Les Bigotes. 1963. Ao vivo, Olympia, 1966.

A fonte do sucesso

The fountain of youth, detail of 15th century fresco, Castle of Manta, Saluzzo, Piedmont, Italy.

O Olimpo existe! Os vendedores de sonhos mostraram-mo. Chama-se GOAT camp (GOAT: Greatest Of All Times). É habitado por humanos lendários. De hipérbole em hipérbole, bebem poções de energia e talento. Se tem sede do impossível, beba Gatorade!

Marca: Gatorade. Título: GOAT Camp. Agência: TBWA / Chiat / Day. Direcção: TRAKTOR. Estados Unidos, Fevereiro 2020.

Tudo isto me envelhece. Aos sessenta anos? Há algumas décadas atrás, sem a mínima dúvida. Em Portugal, a esperança de vida masculina era, em 1960, 60,7 anos; antes do 25 de Abril, em 1974, era 64,8 anos. Convoco o paradoxo de Vilfredo Pareto:

Seria bastante difícil, falando de homens, deixar de utilizar as expressões, jovem, velho, se bem que ninguém possa dizer em que momento preciso termina a juventude e começa a velhice. A linguagem corrente é obrigada a substituir diferenças quantitativas reais por diferenças qualitativas arbitrárias” (Pareto, Vilfredo, Manual de Economia Política. 1ª ed. 1906. São Paulo, Editora Nova Cultural Ltda., 1996, p. 233).

Estou naquela idade em que crescem as saudades e diminuem as esperanças. Não me venham com a história da terceira adolescência! Adolescente, andava de bicicleta, agora, temo a cadeira de rodas. Não existe elixir da juventude nem fonte da vida. Jovens, somos jovens até ao túmulo para a Segurança Social.

A semana passada, pedi ao funcionário do bar uma bebida que dispensasse copo ou palhinha. Sugeriu-me Gatorade. A aula terminava às 22 horas; à meia-noite, ainda estávamos a discutir o Beijo de Klimt. A Tina Turner terá bebido Gatorade? Parece. De qualquer modo, simplesmente The Best.

Tina Turner. The Best. Alive at the GelreDome in Arnheim (Netherlands) 2009.