Archive | Novembro 2013

Internacionalização

Millenium Bcp. Internacionalização.

Millenium Bcp. Internacionalização.

A rolha de cortiça consta entre os produtos portugueses mais internacionalizados: prevê-se que a exportação atinja, em 2015, um valor de mil milhões de euros. A rolha de cortiça anda nos gargalos do mundo. Deve inspirar-nos, tal como a sardinha de conserva.

Entre os grupos de produtos mais exportados constam as máquinas e os aparelhos (c. 15%) e os veículos e outro material de transporte (c. 11%). São duplamente internacionalizados: à partida e à chegada.

Sapatos de cortiça

Sapatos de cortiça

Os jogadores de futebol, mais que internacionalizados, são internacionais. Inseridos num mercado global, tanto são internacionais cá dentro, como lá fora.

Quem está em franca internacionalização é a ciência. Acreditava, ingénuo, que a ciência sempre foi internacional. Internacional talvez, mas internacionalizada… Embarcamos numa espécie de peddy paper além-fronteiras, pautado pelo coleccionismo e pela caça ao rótulo. Da nova Ponta de Sagres, partem novos padrões dos descobrimentos.

Internacional, mas muito nacional, é o fado. Raro nos pubs de Londres ou nos bistrots de Paris, ainda não é cantado em inglês.

Proverbial é o estrangeirismo e o cosmopolitismo das nossas elites. Inexplicavelmente, exportam-se muito pouco.

Voo pesado

MeteorO voo e a leveza parecem estar de asas dadas. Mas isso nem sempre acontece. Uma borboleta e um balão são leves. Um míssil e um avião, nem por isso. Para além da aerodinâmica, precisam de motores. No artigo anterior, duas empresas de telecomunicações recorrem a balões para propiciar uma sensação de leveza.  A Meteor, uma empresa de telecomunicações irlandesa, convoca a figura de Pégaso para sugerir, em vez da leveza, a ideia de velocidade, associada à potência. De metamorfose em metamorfoses, acabamos por nos deparar com um Pégaso biomecanóide, propulsão nas patas e asas nos flancos.

Marca: Meteor. Título: Meteor Danger Zone. Agência: Rothco, Dublin. Direção: Chris Balmond. Irlanda, Outubro 2013.

Balões

Star Sat. Change your viewOs balões vão fazendo o seu caminho na publicidade. Sobem, planam e pintalgam o horizonte, arredondados e apelativos.

O primeiro anúncio, Change your view, sul-africano, é digno de atenção. Convida a um percurso que conduz do sombrio ao luminoso, do noturno ao diurno, da terra aos céus. Os rostos são impressionantes. De um encanto tamanho, repousam nas nuvens e contam estrelas. Embalados pela música…

O segundo anúncio, cloud, israelita, com a sua esquadra de dirigíveis, é ingénuo, leve e colorido. Como as nuvens ao nascer o dia, como o amor quando se inflama…

Ambos os anúncios estão associados a empresas de telecomunições (a Star Sat e a Pelephone) que apostam no valor da leveza.

Os cabelos e os seios

Pantene. Life CareSem comentários.

Marca: Pantene. Título: Life Care. Agência: Grey Argentina. Direção: Emiliano Ferrando. Argentina, Outubro 2013

Bom apetite!

Klinsky. Hunger for lifeO inverno está fresco e o Natal à porta. Multiplicam-se os anúncios a produtos alimentares! “À mesa é que a gente se entende”. É também à mesa que a gente se distingue. Neste pequeno tabuleiro de farta interação, os pequenos nadas fazem toda a diferença. A mesa é um foco de comunhão e demarcação. Neste anúncio russo, comer é uma questão de gosto e de estilo, com requintes de snobismo e extravagância.

Marca: Klinsky. Título: Hunger for life. Agência: BBDO Moscovo. Direção: Lucas Shannon. Rússia, Novembro 2013.

Discriminação

Amnistia_Internacional PortugalUma amiga enviou-me este anúncio, de 2007, contra a discriminação. Como é tradição na Amnistia Internacional Portugal a mensagem é clara, mas com um trago dúbio. Amor com amor se paga? Olho por olho, dente por dente? Ganhamos em ser simétricos em matéria de intolerância? Não se vislumbra, neste anúncio, uma réstia de abertura ao outro. Até a última porta se fecha! O simbólico nem sempre consegue suspender o lógico. E o lógico resume-se a quem com ferro mata com ferro morre. Falta um grão de inquietação, a inquietação desequilibrada da assimetria. A simetria é um estabilizador da ordem, da mais justa à mais injusta. Concluindo, não percebi bem!

Anunciante: Amnistia Internacional Portugal. Título: Contra a discriminação na Europa. Agência: McCann-Erickson. Direção: Pedro Amorim. Portugal, 2007.

 

Não fazer compras dá azar

Sears. The Denskies. MediumEvitar fazer compras dá azar. Os Denksies são uma família que anda sempre à cata de esquemas alternativos às compras. O resultado é uma série de catástrofes. Medium é um dos anúncios da campanha da Sears. Foi publicado por altura do Halloween, com bruxas, monstros, feitiços e metamorfoses a condizer. Registe-se, por último, a ascensão da galinha no ranking mediático.

Marca: Sears. Título: Medium. Agência: mcgarrybowen, Chicago. Direção: Martin Granger. USA, Novembro 2013.

Não há dois sem três

delta-push-up-che-guevaraNa cultura indo-europeia, o número três goza de um estatuto especial (Emile Benveniste, Le Vocabulaire des Institutions Indo-européennes, Paris, Ed. de Minuit, 1969). Georg Simmel (The Sociology of Georg Simmel, Glencoe, Illinois, The Free Press, 1950) releva, a propósito da composição quantitativa dos grupos, que quando se passa de uma díade para uma tríade ocorrem alterações decisivas. O que é impossível numa díade torna-se frequente numa tríade: a criação de coligações, ou seja, a disposição de dois contra um (Theodore Caplow, Two Against One: Coalitions in Triads, Englewood Cliffs, nj, Prentice-Hall, 1968). Esta fractura conflitual não é, porém, uma fatalidade. Existem trios com relações harmoniosas, ou seja, dois com um e um com dois. Esboçado este breve enquadramento teórico, podemos entregar-nos à observação empírica deste anúncio israelita da Delta Lingerie.

Marca: Delta Lingerie. Título: Mix&Relax. Agência: ACW Grey Tel Aviv. Direção: Ohav Flantz. Israel, Novembro 2013.

Papel Digital

Digital Insurance. BrazilEm turismo no Brasil, um casal de pombos depara-se com a destruição da floresta. Não revelo mais para não ser spoiler. Pode carregar em HD no canto superior direito do vídeo.

Marca: Digital Insurance. Título: Brazil. Agência: BBR Saatchi & Saatchi, Israel. Direção: Rani Carmeli. Israel, Outubro 2013.

Tecnocracia assertiva

Pais fumadores vão ter cadastro

Governo quer mudar lei do tabaco. Cadastrar os pais que fumam é uma das decisões mais polémicas.

No próximo ano, os hábitos tabagisticos dos pais devem passar a ficar registados por escrito no Serviço Nacional de Saúde e no boletim infantil das crianças. Saber se os pais fumam em casa, no carro e quantos cigarros por dia são algumas das questões que vão ser colocadas, numa nova orientação defendida por vários especialistas em saúde pública.

Segundo o semanário Expresso, outros médicos consideram estas propostas muito radicais por responsabilizarem os pais pelas doenças dos filhos. A par do cadastro, diz o jornal, o Governo decidiu que as campanhas publicitárias sobre os ‘perigos’ de fumar em casa ou no carro vão ser muito mais assertivas (Diários de Notícias, 23.11.13).

Há masoquistas que ajudam quem os persegue. O governo da República prepara-se para cadastrar os pais fumadores no Serviço Nacional de Saúde. Uma medida profilática que só peca por tardia! Sobretudo quando, em Portugal, a mortalidade infantil aumentou de 2,5 em 2010 para 3,1 em 2011. Cadastrar é pouco! Obriguem-se os pais fumadores a andar com uma beata luminosa ao peito! Houve casos semelhantes na história da humanidade. Estigma por estigma… O mais ajustado seria exterminá-los! Em câmaras de fumo… Os fumadores são os suicidas mais ineficazes, mais lentos, mais estúpidos, mais incómodos e mais caros de que há memória.

A Comunidade Europeia é o primeiro espaço de cidadania em que a tecnocracia substituiu a política. Portugal integra a Comunidade Europeia, em bicos de pés e com a corda ao pescoço, bom aluno entre os piores. Importa contribuir com euros e com ideias. Junto um anúncio de sensibilização Plain Packaging, do Cancer Research UK. Falha inadvertidamente o alvo: visa as tabaqueiras e as embalagens em vez dos pais fumadores. Nem tudo pode ser perfeito. A cada um os seus santos e os seus demónios. Invade-me uma melancolia às avessas: voltam os velhos espectros…

Anunciante: Cancer Research UK. Título: Packaging. Agência: BBDO. Direção: Rob Chiu. UK, Novembro 2013.

Virando o bico ao prego

Quando escrevi que “os fumadores são os suicidas mais ineficazes, mais lentos, mais estúpidos, mais incómodos e mais caros de que há memória” não estava a ser irónico. Poucas decisões são mais estúpidas do que começar ou continuar a fumar. Pouco se ganha e perde-se imenso. Trata-se de um suicídio lento com um fim provavelmente doloroso. Um fumador sente-se a morrer aos poucos. Vai perdendo faculdades e somando problemas. Nas nossas sociedades, o fumo de cigarro tornou-se efetivamente incómodo. Biológica, psicológica e socialmente. Comporta riscos de saúde pública. O primeiro cigarro começa, muitas vezes, como um ritual de adesão a uma tribo de pares. Neste momento, afasta as pessoas. Dificulta a interação social. É repelente, centrífugo. Em casa, no trabalho e na rua. Incómodo transversal, cola-se como uma segunda pele. Trata-se de um hábito caro, que empobrece o fumador, a família, a sociedade e o Estado. O fumador é uma miniatura contemporânea do imperador Nero: à sua escala, queima riqueza e esfuma saúde.

Não sei por que escrevinhei este parágrafo. Toda a gente sabe! Escrever o que toda a gente sabe é tontice ou vaidade. Detesto desperdiçar letras. Se calhar, trata-se de um variante de penitência. Só tamanho acto de contrição pode demover a família do propósito de comprar uma grua para me pendurar a fumar nas alturas.