Machinarium
Para apreciar este anúncio tailandês, uma versão do inesquecível Humanity (Toyota, 2006), convém esquecer as anedotas de mau gosto sobre limpa-pára-brisas interiores. As posturas e as mímicas parecem ridículas? Sobretudo quando são vistas com olhos quadrados.
Marca: Chevrolet. Título: Beatbox. Agência: Commonwealth. Direção: Luci Schroder. Tailândia, Novembro 2013.
Marca: Toyota. Título: Humanity. Agência: Hakuhodo. Direção: Ne-o. Japão, 2006.
Provocação
Há anúncios que, mais que convencer ou seduzir, provocam. Abusam da alusão e da paródia, focalizadas no sexo. Gozam com assuntos sérios. São aguardente pura: aquecem, primeiro, o estômago e, depois, o espírito, rumo à embriaguez total. A provocação é um catalisador de relações, centelha e cimento da interacção social. A antropologia sabe isso. A provocação publicitária não é novidade. Lembram-se das campanhas da Benetton? E do anúncio da Perrier com uma garrafa que cresce à medida que é acariciada por uma mão feminina? A provocação abre caminho. E o insulto? Ainda não. Alguém testou? Os antropólogos também sabem disso, a não ser mais a propósito dos rituais. Se calhar, tinha alguma piada um anúncio que nos insultasse: “Sua besta adiposa! Sim, tu, papa-pixeis, desperdício sem reciclagem! Vai passear um burro às costas! Vota em quem te albarde! Pões o ecrã doente! Tem-te alergia, basta a tua sombra para se cobrir de urticaria, desdigitaliza-se. És um novo híbrido: o para-raios da estupidez. Um arroto da criação. Pior, só a histerese do habitus, a glocalização, a sociedade invisível e a liquidez do amor”. Era giro, não era?
Marca: Valformosa. Título: Valformosa cava wants Belgians to make more babies. Agência: Duval Guillaume Modem. Direção: Koen Mortier. Bélgica, Novembro 2013.
Só sobe o que tem peso
Estou convencido que a leveza atrai mais as pessoas do que a liquidez, a velocidade, a imaterialidade ou a fragmentação. Consumimos comidas e bebidas leves. Deslizamos em desportos leves tais como o surf e o asa delta. Os corpos e os gestos querem-se elegantes e graciosos.
A leveza anda associada à liberdade. Os pássaros não voam em gaiolas. Pelo menos à vontade. Devem, vadios, acabado o voo, vir ter connosco, decididos. Tive duas aves assim, soltas. Uma era uma pega que, tendo todo o mundo à disposição, vinha pousar no meu ombro ou na minha mão.
A leveza é uma aspiração, raramente uma realidade. As nossas vidas têm conta, peso e medida. A sociedade emprega-nos e desemprega-nos, mas não nos larga. A leveza pede desgravitação e desprendimento. Normalmente, arrastamo-nos. Arrastamos os passos, arrastamos os dias, arrastamos a alma, arrastamos a vontade. Eis o nosso valor de uso.
Santiago ‘Bou’ Grasso é um realizador argentino admirável. Não falta quem escreva poemas com imagens. Simultaneamente, sóbrios e generosos, são obra rara. A primeira curta-metragem é dedicada à leveza; a segunda, ao peso de chumbo da existência. As nossas vidas em poesia e em prosa.
Santiago ‘Bou’ Grasso. El Pájaro e el Hombre. Argentina, 2005
Santiago Bou Grasso. El Empleo. Argentina, 2011
Azul e vermelho
Azul e vermelho, água e fogo, fogo por dentro, fogo por fora, o que é? Pelo sim, pelo não, não deite água insalubre no automóvel. Pode ter calores que requeiram resfriamento urgente. Em suma, um bom anúncio cómico e disparatado.
Marca: Takis. Título: Windshield Wiper. Agência: Publicis Dallas. Direção: Nicolas Lyer. USA, Novembro 2013.
Nina Simone. Beautiful land.
Apelo sanitário
Água e saneamento faltam em boa parte do planeta. “It’s 2013 and yet 2,000 kids a day die from lack of sanitation. WaterAid have a mission to bring clean water and sanitation to everyone, everywhere by 2030”. Ponha os olhos no papel higiénico e oiça solidariamente a canção da sanita. “A child dies every minute because they don’t have a toilet.”
Anunciante: WaterAid. Título: Thank you toilet. Agência: Now, London. Direção: Glue Society. UK, Novembro 2013.
Para além da arte
Produzido pela Jungleboys para a cadeia de televisão australiana ABC1, Elegant Gentleman’s Guide to Knife Fighting é uma curta-metragem que aposta num humor sombrio e irreverente. A fórmula repousa num retoque absurdo acrescentado a obras de arte consagradas. Novidade completamente nova, duvido que seja. Mas não lhe falta frescura, técnica e criatividade. Se ainda houver almas sensíveis, talvez não seja descabido abster-se.
Canal: ABC1. Título: Elegant Gentleman’s Guide to Knife Fighting. Produção: Jungleboys. Criação: Trent O’Donnell; Phil Lloyd; Jason Burrows. Austrália, Outubro 2013.
A Semântica do Poder
Para aceder à crónica, carregar na imagem ou no seguinte endereço: http://www.comumonline.com/opiniao/item/2047-a-fraqueza-das-palavras.
O corvo que recusou cantar
Steven Wilson foi um dos fundadores dos Porcupine Tree. The raven that refused to sing integra o álbum a solo homónimo, editado em 2013. O vídeo, de uma beleza esfíngica, alonga-se frio e nocturno.
Espelho meu
Ano após ano, as campanhas da Dove primam pela inteligência. Uma série de ovos de Colombo. O princípio de que há mais estética para além da estética revelou-se um filão. Nada que a história da arte não saiba. Não obstante, na publicidade o padrão pertence à Dove. Por quê insistir em sintonizar os anúncios em torno de uma centésima de mulheres? Por quê ignorar as mulheres que não se entusiasmam com o que vêem no espelho? São receitas que dão frutos, mas outras receitas podem lograr frutos mais saborosos. Pasmar com a beleza alheia é uma coisa, cuidar de si é outra. O anúncio Retratos da Real Beleza transpira talento, criatividade e sensibilidade. O retratista vê com os ouvidos, porventura “com o coração”. Assim se faz um dos anúncios mais premiados em 2013 (cinco grandes prémios em Cannes). Por sua vez, o director criativo, o brasileiro Anselmo Ramos, da Ogilvy Brasil, é o mais premiado do ano.
Marca: Dove. Título: Retratos da Real Beleza / Real Beauty Sketches. Agência: Ogilvy. Brasil, Abril, 2013.



