Ver com o coração

“Conhecemos a verdade, não apenas pela razão, mas também pelo coração” (Pascal, Pensamentos, artigo XXII)
“O coração tem razões que a própria razão não conhece: sabe-se isso em mil coisas” (Pascal, Pensamentos, artigo XVI)
“Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos” (Antoine de Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe, cap. XVII)
Abra, concentre-se e sinta! O anúncio “The boy at the window”, da Thai Life Insurance, consegue comover um calhau. Ora, nós somos mais moles.
Repassagem
Si vis vitam, para mortems. Si tu veux pouvoir supporter la vie, soit prêt à accepter la mort [Se queres poder suportar a vida, está pronto a aceitar a morte] (Sigmund Freud, Essays de Psychanalyse, Payot, 1927, p. 264)

Sem despedidas protocolares, mergulha-se, subitamente, mais resignado que resistente numa plataforma mais despojada que desolada. Deambula-se, letargicamente, numa estranheza que não se estranha. Talvez um providencial sopro ínfimo conduza a um portal de escape. Uma experiência insólita, que nem os muitos fantasmas da psicanálise conseguem elucidar. Um resgate despoletado por um caprichoso motivo insuspeito. Por exemplo, o cheiro apelativo a frango frito desossado.
Imagem: Francisco Goya. O Cão. 1819-23. Museu do Prado
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Profundo e insuperavelmente leve!
“Já alguém sentiu a loucura de vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
….
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem nem resignação
…
“
Almada Negreiros (excerto de “Reconhecimento à loucura”)
Dizem que o cheiro é a nossa primeira memória, assim o cheiro a casa queima barreiras. Regressa-se. Não importa se um perfume ou frango frito. É a maravilhosa ironia do estar vivo.(Almerinda Van Der Giezen, 14/06/2025)
Mágua
I’ve always felt that the quality of the voice is where the real content of a song lies. Words only suggest an experience, but the voice is that experience (Jeff Buckley)

Cantor, compositor e guitarrista norte-americano, Jeff Buckley foi uma das maiores revelações dos anos noventa. Não sei se me é permitido, mas arrisco afirmar que “bastante louvou Quem cedo o levou”. Faleceu afogado, em 1997, com 30 anos de idade, quando nadava, entoando uma música dos Led Zeppelin, num afluente do rio Mississipi. Seguem quatro canções com inspiração religiosa: Grace; Corpus Christi Carol; Satisfied Mind; e, incontornável, a versão de Hallelujah, do Leonard Cohen.
O Galgo e o Cultivador de Arroz

Eis uma belíssima curta-metragem de animação premiada que cativa desde o primeiro até ao décimo sétimo minuto. Uma história da amizade entre um jovem agricultor de arroz do Camboja e um galgo que resgatou. Forever and ever.
De mão dada com a morte. O Retrato de Arnolfini

“O Retrato de Arnolfini”, também conhecido como “O Casal Arnolfini”, distingue-se como um dos quadros mais notáveis da história da arte. Da autoria de Jan van Eyck, pintado em Bruges, em 1434, está exposto na National Gallery, em Londres. Inovador a vários títulos, extremamente minucioso, tecnicamente incomparável, com uma profusão de motivos e uma grande complexidade de símbolos, tem sido alvo de inúmeros estudos.

A interpretação mais consagrada, mas controversa, foi proposta por Erwing Panofsky, em 1934, no ensaio “Jan van Eyck’s Arnolfini portrait” (ver pdf no final do artigo). A pintura representaria uma cerimónia matrimonial privada entre Giovanni Arnolfini, comerciante abastado de Bruges, e Constanza Trenta (?), ambos oriundos de Luca, em Itália.
2. Jan van Eyck, Retrato de um homem (autorretrato ?). 1433, National Gallery, Londres
Surpreendeu-me recentemente uma hipótese alternativa apresentada por Margaret L. Koster, historiadora de arte, num documentário de três episódios, e outras tantas horas, da BBC sobre o Renascimento do Norte, emitido em 2007. A proposta de Margaret L. Koster, já defendida em 2003 no artigo “The Arnolfini double portrait – a simple solution” (pdf em anexo, sem imagens), é apresentada entre os minutos 3:00 e 10:00 do seguinte excerto do referido documentário.
Os contra-argumentos invocados são, entre outros:
- A descoberta de que Constanza Trenta faleceu em 1433, um ano antes da datação do quadro;
- A expressão melancólica de Arnolfini;
- O rosto lívido, idealizado, de Constanza, a lembrar uma “boneca de porcelana”;
- O cachorro, companheiro fiel para sempre no outro mundo;
- Os episódios da Paixão em torno do espelho, com o Cristo vivo do lado de Arnolfini e morto do lado de Constanza;
- A vela por cima de Arnolfini está acesa (com vida); por cima de Constanza, apagada (já partiu).
Em suma, aquando da conclusão da pintura, Arnolfini está vivo e Constanza, morta. Tratar-se-ia, portanto, de uma homenagem, uma espécie de epitáfio, mediante a encenação de um casamento, digamos, póstumo. Dois espaços, o aqui e o além. e dois tempos, o presente e o passado, juntos para a eternidade.

Importa relevar um pormenor central no quadro: as mãos juntas. Estão numa posição semelhante à das mãos esculpidas em muitas lápides tumulares. A mão do ente falecido pousa, sem estar apertada, sobre a mão do sobrevivente, numa espécie de união, e eventual compromisso de fidelidade, para além da morte. “De fato, as mãos do marido e da mulher apareciam frequentemente juntas nos monumentos funerários ingleses” (Margaret L. Koster).
3. Detalhe do Retrato de Arnolfini
A principal diferença em relação à maioria das esculturas tumulares que me foi dado observar reside na mão de Constanza: repousa aparentemente inerte, com a palma virada para cima, encostada à mão de Arnolfini que a segura. Trata-se de um pormenor de um detalhe, mas convém não o subestimar, dado o preciosismo, sobretudo ao nível do simbólico, de Jan Van Eyck e da generalidade dos pintores do Renascimento do Norte. Pode, porventura, pretender acentuar a passividade, ou inação, de Constanza.


Ressalve-se que também existem relevos tumulares com as mãos “dadas” do mesmo jeito que as de Constanza e Arnolfini: com a palma da mão (des)falecida virada para cima. Por exemplo, na estela funerária de Petronia Posilia (Fig. 5).


O motivo funerário com as mãos dadas remonta, portanto, à Antiguidade, como o testemunham as imagens precedentes, extraídas do artigo Mãos de eternidade. Poética do macabro (https://tendimag.com/2020/05/02/maos-de-eternidade-poetica-do-macabro/).
Atente-se, por último, nos túmulos medievais com rainhas e reis de mãos dadas, tais como o de D. Duarte com D. Leonor ou de D. João I com D. Filipa de Lencastre, ambos no Mosteiro da Batalha. Estas obras, dispendiosas e morosas, eram normalmente encomendadas pelo monarca sobrevivente.


Esta associação ocorreu, com certeza, a muitas pessoas. Não sou o único com imaginação excessiva, retorcida, vadia e tétrica. Percorri, contudo, parte do caminho com os meus próprios tamanquinhos, o que não me dispensa, naturalmente, das devidas vénias de citação e referência. Por exemplo, ao breve mas incisivo apontamento do curador James Payne na conclusão do documentário The Arnolfini Portrait by Jan Van Eyck: Great Art Explained, de 2020:
Assumir que uma pintura qualquer tem um único sentido seria arbitrário e arrogante. É apenas uma teoria sustentar que a pintura é um memorial à sua falecida esposa. Mas existem, a meu ver, algumas pistas: a vela apagada, o lado que lhe corresponde da Paixão no exterior do espelho, o cachorro a seus pés e a possibilidade de Giovanni vestir roupa de luto. Mas o que talvez mais me convença seja a maneira delicada como segura a mão dela, como se esta pudesse escapar das suas mãos a qualquer momento” (14:00-15:39).
No mesmo sentido, também escrevemos, um pouco antes, em 2 de maio de 2020:
As mãos entrelaçadas inscrevem-se num limiar, entre mundos. Este e o outro, nem este, nem o outro. Entre a vida e a morte, o céu e a terra, a memória e o esquecimento. O aperto de mãos não é apertado, é frouxo, facultando a sensação que as mãos tanto podem permanecer unidas como afastar-se. Juntas, as mãos mais do que agarradas parecem em muitos casos encostadas. Não se vislumbra resistência, sinal de esforço, para contrariar o destino. Trata-se de uma figura e de um momento trágicos. (Mãos de eternidade. Poética do macabro: https://tendimag.com/2020/05/02/maos-de-eternidade-poetica-do-macabro/).
ANEXOS
Conduzir pode matar!
Hoje fui à Universidade assistir à homenagem a quatro ex-colegas: Jean-Martin Rabot, José Neves, Carlos Veiga e Ivo Domingues. Em conversa de bar, o Joaquim Costa admitiu que a sua principal preocupação ao conduzir era adormecer. Estava encontrado o tema do artigo do dia.
Existem campanhas de prevenção rodoviária bastante semelhantes às antitabaco. Homólogas, recorrem aos mesmos princípios e visam os mesmos efeitos: suscitar receio, emoções e sentimentos; responsabilizar e culpabilizar. Os anúncios que seguem lembram, nesta óptica, as fotografias legendadas dos maços de cigarros.
Em “Enterrement”, do Institut Belge pour la Sécurité Routière, várias pessoas são “convidadas” a assistir à cerimónia do seu próprio funeral após um acidente rodoviário evitável. O discurso de despedida é proferido pelos próprios familiares que aceitaram aderir à encenação.
Em “La Dernière Classe”, da Sécurité Routière francesa, um condutor, distraído pelo telemóvel, mata uma jovem que atravessa uma passadeira. É (ir)responsável e culpado.
Em “Perte de Controle”, também da Securité Routière francesa, a imprudência, ou o excesso de confiança, de um jovem motociclista provoca a sua desgraça e de toda a família.
Anúncios desta índole abundam. Acrescento apenas um português apostado em ilustrar as consequências do adormecimento ao volante.
Órgão sinistro. Música de arrepiar

O Bruno, de quem tenho saudades, partilhou The “Mysterious Vanishing of Electra”, da sueca Anna Hausswolff. Lembrou-me outro melgacense, o Abel, que selecionou vídeos para a próxima edição dos Serões dos Medos. Sugeri o Marilyn Manson, mas esqueci a Anna von Hausswolff, cujos vídeos, minimalistas, arrastados e estranhos, perturbam o mais vacinado dos mortais.
Recoloco “The Mysterious Vanishing of Electra” (ver A música soturna de Anna von Hausswolff ) e acrescento “Deathbed” e “Epitaph of Theodor”. Vídeos não aconselháveis a pessoas sensíveis.
Jardinar a conjugalidade
Saiu há dias o anúncio Obey Your Hands, da Hornbach, uma rede alemã de lojas de bricolage que aposta numa publicidade cómica, desinibida e insólita. Obey Your Hands convoca um caso excessivo de alucinação cinestésica: a sensação de que um órgão corporal se está a mover, adquire vida própria.
O Tendências do Imaginário comporta uma dezena de anúncios desta marca. Deu-me vontade de explorar mais. Encontrei Garden, de 2001, uma delícia não tanto por ridicularizar a masculinidade mas pelo modo como “brinca com coisas sérias”, tais como a morte e o homicídio.

Registo Civil Vegetal e Limoeiro

O limoeiro é muito bonito e a flor do limão é doce
Mas o fruto do pobre limão é impossível de comer
(Peter, Paul & Mary, Lemon Tree, 1962)
A árvore torna-se forte com o vento (Séneca, 4 a.C. – 65 d.C.)

Uma ideia genial preside ao anúncio “Árvore”, da rádio e TV brasileira Jovem Pan, qualidade que compensa a fraca resolução do vídeo. Um caso ímpar de minimalismo perspicaz e eloquente, Leão do Festival de Cannes de 1998. As versões inglesa e portuguesa são acompanhadas por dois cartoons deveras sugestivos e pela canção Lemon Tree.
Cartoon: Alireza Karimi Moghaddam, iraniano

