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Aproxima-se o Halloween. Multiplicam-se os fatídicos anúncios de horror e de contacto com a morte. Da série “Bite Size” Horror, promovida por várias marcas (M&Ms, Fox, Starbust), segue o anúncio Floor 9.5. Qualidade garantida.

Marca: M&Ms. Título: Floor 9.5. Direcção: Toby Meakins. USA, Outubro 2017.

 

O Galo e a morte. A arte de morrer

 

Uma mulher confidencia a outra que acabou de viver uma situação de emergência médica: “O galo rondou esta casa, deu várias voltas, mas foi pousar noutro sítio”. Por coincidência, um vizinho faleceu nessa noite.

O galo é um símbolo solar. Anuncia a aurora e a luz. É também um símbolo de valentia. Na mitologia grega, o galo, consagrado a Hermes, é um psicopompo, “função tradicionalmente atribuída a Hermes no mito grego, pois ele, além de mensageiro dos deuses, era o deus que acompanhava as almas dos mortos, sendo capaz de transitar entre as polaridades (não somente a morte e a vida, mas também a noite e o dia, o céu e a terra)” (Dicionário Crítico de Análise Junguiana, Edição Eletrônica © 2003 Andrew Samuels/Rubedo, p. 88). Além desta função de transição entre as polaridades (as trevas e a luz; a morte e a vida), o galo comporta um lado lunar.

 

Existem imensas histórias em que a morte e o galo se cruzam. O galo de Barcelos é o primeiro exemplo que ocorre. Cozinhado e ressuscitado, o galo é protagonista de uma lenda marcada pela morte (ver https://tendimag.com/2017/08/20/o-cruzeiro-do-senhor-do-galo-em-barcelos-revisao/). Acresce o galo da Negação de São Pedro antes da crucificação de Cristo. A associação do galo à morte está arreigada na crença popular. No Brasil, em Espanha e em Portugal, acredita-se que o canto do galo fora de horas (antes ou à meia-noite) é mau augúrio: alguém da casa, ou vizinho, vai morrer. O galo junta-se, assim, aos animais anunciantes da morte: o mocho, a borboleta negra, o morcego, o cão, o gato… Um conto brasileiro inicia com um galo a matar uma criança. A mãe pede a outro filho para matar o galo e o abandonar em água corrente. O filho não segue a recomendação. Ele e três amigos matam o galo, cozinham-no e morrem antes de o provar (http://www.recantodasletras.com.br/contosinsolitos/830891).

03. Mestre E.S. Tentação da falta de fé. Ca. 1450

03. Mestre E.S. Tentação da falta de fé. Ca 1450

Estas gravuras de Mestre E. S. (1420-1468) foram publicadas no ano em que nasceu Hieronymus Bosch (1450-1516). Artes distintas, temas semelhantes: a morte, o pecado, a condenação, o céu e o inferno (Figuras 1 e 2). As gravuras de Mestre E. S. integram a torrente de imagens dedicadas à Ars moriendi (Arte de morrer). Testemunham uma mudança de atitude perante a morte. Observa-se uma antecipação do juízo final. A decisão deixa de esperar pelo fim dos tempos para se concentrar no momento de morrer. Continua a envolver um combate cósmico. De um lado, as forças celestiais, do outro, as forças demoníacas. As pessoas presentes não conseguem ver estas forças que disputam a alma do defunto. Apenas o moribundo (atente-se no alheamento do grupo de três pessoas na Figura 3). Acredita-se que o moribundo é submetido a uma prova, a uma tentação. Consoante a sua reacção assim é salvo ou condenado, não obstante as boas ou as más acções do livro da vida. Num ápice, resgata-se ou desgraça-se uma vida inteira. Faz sentido convocar o pensamento de Petrarca: “Que uma bela morte toda a vida honra”. Neste quadro, os livros dedicados à Ars moriendi, à arte de morrer, alcançam um enorme sucesso.

04. Mestre E.S. Ars moriendi. Ca. 1450

04. Mestre E.S. Ars moriendi. Ca 1450

“O moribundo está recostado, rodeado pelos seus amigos e parentes. Seguem-se os rituais bem conhecidos. Mas sucede algo que perturba a simplicidade da cerimónia e que os assistentes não vêem; um espectáculo reservado apenas ao moribundo, que, por acréscimo, o contempla com um pouco de inquietação e muita indiferença. A habitação foi invadida por seres sobrenaturais que se apinham na cabeceira do jazente. De um lado, a Trindade, a Virgem e toda a corte celestial; do outro, Satanás e o exército dos demónios monstruosos. A grande concentração que nos séculos XII e XIII tinha lugar no fim dos tempos ocorre, a partir de agora, no século XV, na habitação do enfermo (…) Deus e a sua corte estão ali para constatar como o moribundo se vai comportar no momento da prova que lhe é proposta antes do seu último suspiro e que vai determinar a sua sorte na eternidade. A dita prova consiste numa última tentação. O moribundo verá a sua vida inteira tal como está contida no livro, e será tentado, tanto pelo desespero das suas faltas como pela vanglória das suas boas acções, bem como pelo amor apaixonado das coisas e dos seres. A sua atitude, no resplendor desse momento fugitivo, apagará de um só golpe todos os pecados da sua vida se afasta a tentação ou, pelo contrário, anulará todas as suas boas acções se não lhe resiste. A última prova tomou o lugar do Juízo Final” (Ariès, Philippe, Historia de la muerte en Occidente, Barcelon, Cadernos Crema, 2000,  pp. 48 e 49).

05. Mestre E.S. Ars moriendi. Ca. 1450

05. Mestre E.S. Ars moriendi. Ca 1450

As gravuras de Mestre E. S. condizem com a análise de Philippe Ariès. Na hora da morte, defrontam-se as cortes celestial e demoníaca. Na gravura da Figura 3, apesar das preces do rei e da rainha, o desfecho inclina-se para o lado do inferno. Na gravura seguinte (Figura 4), a prova está vencida: um anjo acolhe a alma do defunto. Na terceira gravura (Figura 5), pela disposição dos protagonistas, o moribundo está a superar a prova. A chave de São Pedro está próxima e os demónios parecem resignados. À cabeceira do leito, destaca-se um galo. Qual é o seu papel? Cantor de mortes? Psicopompo? “Luz da noite”, o galo situa-se, de facto, entre dois mundos: o céu e o inferno, a luz e as trevas, a vida e a morte. O galo é também “companheiro” inseparável de São Pedro. Na morte como na vida, a polissemia é uma tentação, que tem a virtude de nos fazer oscilar.

O riso da velha grávida (revisto)

01. Mulher grávida. Terracota de Kertch – Crimeia. Séc. IV a.C., Museu do Louvre.

01. Mulher grávida. Terracota de Kertch – Crimeia. Séc. IV a.C., Museu do Louvre.

“Entre as célebres figuras de terracota de Kertch, que se conservam no Museu L’Ermitage de Leningrado, destacam-se velhas grávidas cuja velhice e gravidez são grotescamente sublinhadas. Lembremos ainda que, além disso, essas velhas grávidas riem. Trata-se de um tipo de grotesco muito característico e expressivo, um grotesco ambivalente: É a morte prenhe, a morte que dá à luz” (Mikhail Bakhtin, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: O contexto de François Rabelais, São Paulo, HUCITEC, 1987, pp. 22-23).

02. Hieronymus Bosch. A Tentação de Santo Antão (triptico). Pormenor do painel central.1505-1506.

02. Hieronymus Bosch. A Tentação de Santo Antão. Pormenor do painel central.1505-1506.

Só de imaginá-las, essas figuras de terracota fascinam. Há anos que as procuro. Resignei-me a substituí-las pela velha com um bebé enfaixado, da Tentação de Santo Antão (1506), de Hieronymus Bosch, e pelas  imagens da morte com o bebé ao colo (ver James Ensor, Morte com bebé ao colo). Alguns estudos sobre Bakhtin sinalizam uma estatueta de terracota (figura 1) que condiz com a descrição: uma mulher, aparentemente, idosa e grávida (ver, por exemplo, Vanessa Tarantini, O corpo grotesco). A estatueta provém de Kertch, contanto se encontre no Museu do Louvre e não no Museu L’Ermitage. Confesso que tenho visto e revisto esta idosa grávida, mas estou convencido que é antepassada da Gioconda: não é fácil descortinar se está ou não a rir. Tão pouco chora.

03. Figura de Terracota. Mulher sentada numa cadeira. Beócia, Grécia, c. 300 a.C. British Museum.

03. Figura de Terracota. Mulher sentada numa cadeira. Beócia, Grécia, c. 300 a.C. British Museum.

Está tudo na Internet? Quando o objetivo é específico, tropeça-se em muito desperdício. Explorar na Internet é cada vez mais navegar numa lixeira. Parafraseando Malthus, se o crescimento da informação é geométrico, o crescimento do lixo é exponencial. De qualquer modo, quem muito procura quase alcança. “Descobri” uma estatueta com uma mulher sentada: idosa, obesa e, com boa vontade, grávida e risonha. Condiz com as figuras de terracota de Mikhail Bakhtin. Até na data (três séculos a.C.). Só não foi produzida em Kertch, na Crimeia, mas, perto, na Beócia. Também não está no L’Ermitage, mas no British Museum (figura 3).

04. Figura de terracota de uma velha ama com um bebé. Beócia. Grécia. Cerca de 330-300 a.C. British Museum.

04. Figura de terracota de uma velha ama com um bebé. Beócia. Grécia. Cerca de 330-300 a.C. British Museum.

Outras estatuetas de terracota aproximam-se das figuras convocadas por Mikhail Bakhtin. Falta-lhes, no entanto, um ou outro atributo: a idade, a gravidez ou o riso. Destaca-se, porém, uma imagem: uma velha risonha sentada com um bebé ao colo, da mesma época, mas da Beócia (figura 4). Tal como a mulher do British Museum (figura 3), esta figura está coberta de dobras: de sombras, do tempo, do movimento e da dialéctica dos contrários. A velha ri enquanto cuida do bebé. Não está grávida, mas sustenta o crescimento da criança. Não é “a morte prenhe, a morte que dá à luz”, mas um atalho entre a morte e a vida, um laço entre a velhice, próxima da morte, e a infância, começo da vida. O mundo dobra-se e os extremos tocam-se.

Se no lugar do riso de uma velha grávida, tivesse optado pelo sono de uma mulher volumosa, com curvas muito generosas, ficaria satisfeito, 2 000 anos antes, com a estatueta da “Vénus adormecida”, datada de 4 000 a 2 500 a.C. (Museu de Arqueologia de Valletta, em Malta). Dorme, como a Terra Mãe, à espera da (re)generação do mundo. Um sono de Inverno com sonho de Verão. Baptizaram-na Vénus (Afrodite, na mitologia grega). Parece aguardar Adónis.

Mulher adormecida. Museu de Arqueologia. Valletta, Malta. 4000 et 2500 a.C.

07. Mulher adormecida. Museu de Arqueologia. Valletta, Malta. 4000 et 2500 a.C.

Afrodite apaixonou-se por Adónis ainda este era criança. Guardou-o num cofre que entregou a Perséfone, que também se apaixonou pelo belo Adónis. Ambas as deusas reclamam Adónis. Zeus, chamado a pronunciar-se, é salomónico. Divide o ano em três partes iguais: durante os meses de inverno em que as sementes estão soterradas, Adónis vive no inferno com Perséfone; na primavera, quando as sementes germinam, Adónis vive com Afrodite; Os quatro meses restantes ficam à escolha de Adónis, que opta por Afrodite. Adónis é o deus da morte e da ressurreição, um deus ctónico, associado à vegetação. Durante a sua estadia no inferno, a terra é estéril. A partir da Primavera, a terra torna-se fértil. A vida enterra a vida, a morte dá à luz a vida. Sem tréguas, nem dramas. Uma tragédia.

10. Antonio Canova. Adónis e Vénus. 1794. Detalhe.

08. Antonio Canova. Adónis e Vénus. 1794. Detalhe.

As sociedades têm uma costela de Adónis. Mudam de lugar e de espírito consoante as estações do ano. O estudo dedicado por Marcel Mauss às “variações sazonais” dos esquimós é um clássico (” Essai sur les variations saisonnières des sociétés eskimo”, l’Année Sociologique, tome IX, 1904-1905). Na Primavera, os esquimós separam-se, partindo cada um com a sua família, a sua tenda e a sua canoa. Aproveita-se o degelo. Mal o Inverno se aproxima, os esquimós concentram-se em grandes acampamentos fixos. De fase para fase, tudo muda: a arquitectura, a vida religiosa, a economia, o direito, as relações de poder, as relações de parentesco, o convívio e a interacção social. Passa-se de um oposto ao outro.

11. A Morte de Adónis. 250 a 100 ac. Museu Gregoriano Etrusco (Vaticano).

09. A Morte de Adónis. 250 a 100 aC. Museu Gregoriano Etrusco (Vaticano).

Quase todas as sociedades conhecem variações sazonais. Algumas, à semelhança de Adónis, trocam de lugar; outras, alteram-se sem se deslocar.

Em Castro Laboreiro, no século XX, muitas famílias residiam , durante o Inverno, no vale, nos lugares conhecidos por “inverneiras”; durante o Verão, viviam nas terras altas, no planalto, nos lugares conhecidos por “brandas”. Tudo e todos transitavam de um lugar para outro, incluindo os animais (Polonah, Luís, 1987, Comunidades camponeses no Parque Nacional da Peneda Gerês, SNPRCN). A vida dos emigrantes portugueses dos anos setenta também era pautada por variações sazonais acentuadas (Gonçalves, Albertino & Gonçalves Conceição, “Uma vida entre parênteses: tempos e ritmos dos emigrantes portugueses em Paris”, Cadernos do Noroeste, vol. 4 (6-7), 1991, pp. 147-158). Há povoações, incluindo cidades, que se transfiguram durante a época balnear ou durante os “desportos da neve”. Tanto mudam os territórios “receptores”, por exemplo, as praias, como os territórios “emissores”, por exemplo, as cidades do interior. A vida parisiense torna-se irreconhecível durante o mês de Agosto. “É em Setembro que a vida começa a sério” Gilbert Bécaud).

Nestes casos, as variações sazonais estão associadas a dinâmicas demográficas internas ou externas. Existem, porém, sociedades em que as variações sazonais ocorrem sem qualquer movimento de população. Nas sociedades camponesas, as pessoas permanecem, mas o mundo roda com o tempo. Santo António, dos casamentos, São João, do solstício, São Miguel, das colheitas, São Martinho, dos magustos, o Natal, da generosidade, o Carnaval, da esperança, a Páscoa, da ressurreição… A cada festa corresponde uma realidade e um imaginário específicos. São versões de comunidades em constante reconfiguração. Não há grande plano ou instantâneo que as reduza ao mesmo. Talvez depois de mortas, como Adónis que, ferido mortalmente por um javali, passou a viver, para sempre, no inferno.

O triunfo sobre a morte: San Martin de Artaíz

“Abençoado aquele que vai buscar água e traz vinho” (Albertino Gonçalves).

Dvein é um grupo criado em Barcelona pelos realizadores Teo Guillem e Carlos Pardo. No anúncio Sculpture (2013), para a Rdio, surge uma figura híbrida insólita: a cabeça é de uma mulher com duas faces, o tronco, um bricolage de objectos e os membros, tentáculos de polvo (Figura 1).

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01. Dvein. Sculpture. 2013

Composições híbridas combinando partes humanas, animais e técnicas surpreendem cada vez menos. Figuras semelhantes a esta existem há séculos. Atente-se, por exemplo nas quimeras das iluminuras ou nas gravuras pantagruélicas de Desprez (ver Criaturas Pantagruélicas 1). Das luzes do bestiário multimédia recuemos para as sombras do paganismo românico. As figuras bifrontes e trifrontes não são raras (ver Três faces e um pescoço; e As três faces de Cristo). Encontram-se, por exemplo, nos cachorros das igrejas românicas, como o “Janus” (Figura 2) na igreja de San Martin de Artaíz (séc. XII).

San Martin de Artaíz

02. Janus e São Martinho. Igreja de San Martin de Artaíz. Navarra. Séc. XII.

“El dios Jano me mira con miradas extrañas y diferentes. Según donde me coloque hay matices en ella. Mirada profunda y fija iluminada por la luz. Mirada de complicidad medio en sol medio en sombra.Los tres rostros del tiempo nos hablan del pasado, del presente y del futuro. Siempre en cambio. Siempre con matices. Siempre inmutable. Tres y uno. Dios pagano cristianizado. Tres rostros distintos. Tres rostros iguales. Tres personas distintas y un solo Dios verdadero, dice su credo.
Muy fuerte parece que fue la influencia romana en esta zona, pues por cinco veces a lo largo de los siglos XII, XIII y XIV, los representantes de la Iglesia Católica tuvieron que acudir a plasmar ante sus gentes esta figura y convencerles de que era la representación del Padre, del Hijo y del Espíritu Santo” (Simeón Hidalgo Valencia, Artaíz – Luz Equinoccial: http://simeonhidalgo.over-blog.com/tag/artaiz/2).

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03. Igreja de São Martinho de Tours. Ardanaz. Izagonda. Navarra. Trifronte. Séc. XIV

Há formas de representar o tempo que resistem ao tempo. É o caso da imagem de Janus. Reinterpretada ou não, perdura há milénios. O mesmo sucede, ao nível cósmico, com a imagem do falo, nada discreto na Igreja de San Martin de Artaíz (Figura 4). Costuma espreitar, impudico e sem disfarce, nos lugares mais inesperados, especialmente nas gárgulas e nos cachorros das igrejas medievais.

Partimos da escultura dos Dvein, de Barcelona, e arribámos, quixotescamente, à Igreja de San Martin de Artaíz, em Navarra (Figura 6). Encontrámos mais do que procurávamos: um Janus, mas também um falo e uma mulher adúltera a parir uma criança (Figura 5). E, por artes de uma sociologia vadia, a visita ainda mal começou. Façamos caminho caminhando , com um andar incerto , cientes de que “nada se detém por nós” (Blaise Pascal, Pensamentos, 1669).

“Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre el mar.”
Antonio Machado, Caminante no hay camino, 1912. Excerto.

Galeria de imagens da Igreja de San Martín de Artaíz. Séc. XII. Navarra.

Viemos à Igreja de San Martin de Artaíz para apreciar uma figura com três faces. Esperava-nos, também, um falo, mais uma mulher adúltera, imagens, apesar de tudo, correntes. Por que não observar o resto? No resto, pode morar a surpresa.

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20. Cristo no limbo resgata Adão. Igreja de San Martin de Artaíz

Encaremos, pois, o resto, sem perder de vista nem o conjunto nem os pormenores, com um olhar estrábico caro a Edgar Morin (Comune en France, 1967) e o jeito desprendido do flâneur, que anda sem ter que chegar. Curiosamente, a flânerie adquiriu um novo impulso com a Internet. Mas os novos flâneurs não são os retratados por Charles Baudelaire, Georg Simmel e Walter Benjamin. Pouco ou nada blasés, já não andam nas avenidas mas nos ecrãs. Permitam-me um parêntesis para parodiar dois diálogos: primeiro, o do homem pré-digital, em seguida, o do homem digital.

Homem pré-digital:

  • Onde vais?
  • Vou ali.
  • Que vais fazer?
  • Vou esticar as pernas.

Homem digital:

  • Onde vais?
  • Vou ali.
  • Que vais fazer?
  • Vou dar uma volta ao mundo.

O dandy do nosso tempo não sobe nem desce as avenidas, abre e fecha páginas na Internet.

22. Igreja de São Salvador em Chora. Istambul

21. Igreja de São Salvador em Chora. Istambul

Compensa dar a volta à igreja de San Martin de Artaíz. Nas cenas da Bíblia, esculpidas nos espaços entre os cachorros, destaca-se o episódio da descida de Cristo ao Inferno (Figura 20). A escultura mostra Cristo a resgatar, com uma mão, Adão da boca do inferno; com a outra calca um caveira com o bastão encimado por uma cruz . Eis um “facto imprevisto, anómalo e estratégico” (Robert K. Merton).

23. Discípulo de Hieronymus Bosch. Cristo no limbo, ca. 1550

22. Discípulo de Hieronymus Bosch. Cristo no limbo, ca. 1550

Para além da Igreja de San Martin de Artaíz, existem imagens de Cristo semelhantes noutros lugares? Percorremos, na Internet, uma centena de pinturas e esculturas dedicadas à descida de Cristo ao inferno. Em algumas, o bastão está ausente (Figura 21). Nas demais, o bastão ora é meramente simbólico (Figura 23), ora desempenha duas funções: ajudar a arrombar a porta do inferno (Figura 22); ou dominar o demónio aprisionado (Figura 26). Em nenhum caso, o bastão calca uma caveira. Uma pintura peruana do século XVIII é aquela que mais se aproxima : Cristo pisa, não apenas o diabo, mas também um esqueleto, ou seja, a morte (Figura 24).

Andrea Boniauto. Descent of Christ. Limbo, 1365-1368.

23. Andrea Boniauto. Descent of Christ. Limbo, 1365-1368.

Entre a crucificação e a ressurreição, Cristo força as portas do inferno e liberta os santos, começando por Adão e Eva. Os demónios, ou estão acorrentados aos pés de Cristo, ou estão presos nos destroços da porta ou se mantêm à distância (Figura 23). Em algumas imagens, raras, Cristo subjuga o diabo com o bastão (Figura 26).

24. Cristo Descendo ao Inferno. Peru. Séc. XVIII.

24. Cristo Descendo ao Inferno. Peru. Séc. XVIII.

The Harrowing of Hell. Bibliothèque nationale de France, detail of f.370r. Augustine, De Civitate Dei. 1370-1380

25. A descida ao inferno. BNF. Augustine, De Civitate Dei. 1370-1380

Na descida ao inferno, Cristo vence o diabo, as trevas e a morte. Vence a morte pela sua ressurreição e pela ressurreição dos santos: ”Os sepulcros se abriram, e os corpos de muitos santos que tinham morrido foram ressuscitados” (Evangelho de São Mateus, 27: 52). Na Igreja de San Martin de Artaíz, está esculpido o triunfo de Cristo sobre a morte, tal como rezam as escrituras. Não registei nenhuma imagem equivalente. Presumo que existem, mas raras. É preciso desencantá-las. De tanto abordar o triunfo da morte, é um consolo escrever, por uma vez, acerca do triunfo sobre a morte.

Harrowing of Hell. England, c 1240.

26. Harrowing of Hell. England, c 1240.

Termina a travessia. Passamos do híbrido de duas faces dos Dvein para o “Janus” de três frontes da Igreja de San Martin de Artaíz; observamos as esculturas da igreja priveligiando a descida de Cristo ao inferno; para comparação, pesquisamos imagens congéneres, na Internet. O olhar entrega-se à alternância de planos, ora micro, o pormenor, ora macro, o panorama. Pelo caminho acontece a aprendizagem e, eventualmente, a descoberta. Neste mundo, convém sempre invocar alguém para se ser alguma coisa. Assim sendo, acendo uma vela a Paul S. Feyerabend, falecido em 1994 (Against Method: Outline of an Anarchistic Theory of Knowledge.1975).

Galeria de imagens: a descida de Cristo ao inferno.

Vida de esqueleto II. O espelho

01. Despertador. Science Museum. Londres. 1840 – 1900.

01. Despertador. Science Museum. Londres. 1840 – 1900

O esqueleto acompanha-nos desde a expulsão de Adão e Eva do paraíso. A dança da morte da ponte Spreuer, em Lucerna, na Suíça (Figura 3), mostra Adão e Eva, mais o esqueleto, a sair, curvados, do paraíso:

“Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais” (Genesis 3:3).

Dança macabra da ponte Spreuer, em Lucerna

O esqueleto sempre assombrou a humanidade. Condenado, tal como o ser humano, ao trabalho, esmera-se. Toca os clientes, captura-os e transporta-os para o outro mundo. Assedia como um toureiro, ceifa como um camponês, pesca como um lobo-do-mar e caça como um nobre ou como um predador furtivo. Usa a gadanha, o arco e a flecha, o machado, a espada, a lança, a rede e a pá. Desloca-se a pé, montado num caixão (Figura 1), num cavalo, num burro ou numa vaca. Por finais do século XIX, também voa (Figuras 6 a 11).

O ofício de esqueleto

Às vezes, o esqueleto, enquanto trabalha, diverte-se com outros esqueletos. Nas danças macabras, toca música e baila de mãos dadas com os vivos mortos. O transporte para o outro mundo resulta festivo. O esqueleto investe na política. Faz a guerra e não desdenha o poder. Nos triunfos, a morte senta-se no trono, rodeada pelo seu séquito, com as autoridades mundanas a seus pés (Figura 2 e 12 a 15).

Triunfo da morte

12. Discípulo de Andrea Mantegna. Triunfo do Amor, da Castidade e da Morte. 1460s

12. Discípulo de Andrea Mantegna. Triunfo do Amor, da Castidade e da Morte. 1460s

13 a 15. Triunfos da morte do Palazzo Abbattelis, de Clusone e de Pieter Bruegel

O esqueleto também repousa. Cansa-se, como o esqueleto sentado na escada da figura 15. Aprecia o lazer e a actividade espiritual. Dormita aconchegado em prazeres, come, joga, espera, aborrece-se, vê-se ao espelho, lê, contempla uma caveira (uma dupla vanitas), ouve e toca música, parodia a arte e, sublinhe-se, reza (ver figuras 16 a 29).

Actividades de lazer

O espelho da morte mostra-nos a nossa finitude. Em vez da nossa imagem, vemos a morte. As actividades do esqueleto são semelhantes às nossas. Podiam ser as nossas. Com a ressalva da procriação. Ao olhar para o espelho, mais do que a morte, vemo-nos a nós próprios. O esqueleto é uma projecção. O esqueleto somos nós. Somos, pelo menos, o modelo (Figuras 30 a 33)

O espelho da morte

Tanto nos dá para temer o esqueleto como para o venerar. Dedicamos-lhe cultos, os cultos da morte e dos mortos. Nas igrejas, nos cemitérios, em casa, na rua e durante o Halloween. Às vezes, exorbitamos. É o caso dos santos descobertos no século XVII nas catacumbas romanas que o papa distribuiu por várias igrejas germânicas. Identificados como esqueletos dos primeiros mártires, beneficiaram do esmero póstumo de freiras, joalheiros e outros artífices dos séculos XVII e XVIII (Figuras 34 a 37).

Santos das catacumbas romanas

Nas fotografias de Paul Koudounaris (2013, Heavenly Bodies, New York, Thames Hudson), contam-se mais jóias e ornamentos do que ossos. Ao bom jeito barroco, são esqueletos em majestade. Rivalizam com Nossa Senhora da Boa Morte ou com a Santa Morte, padroeira, entre outros, dos traficantes e dos bandidos (Figuras 38 a 41).

Morte santa

Se os esqueletos são ecos, por que os imaginamos? Para personalizar ou eufemizar a morte? Para acomodar o vazio? Ou será porque prestamos mais atenção ao eco do que à voz? A vida do esqueleto é o paroxismo da reflexividade e da catequese humanas.

Vida de esqueleto I: A carne e o osso

01. Vanitas italiana de finais do século XIX

01. Vanitas italiana de finais do século XIX

Não sou dado a invejas, mas Carlo Cipolla exagera. O ensaio “O papel das especiarias (e da pimenta em particular) no desenvolvimento económico da Idade Média” (1988, Allegro Ma Non Troppo) é uma paródia sublime da retórica científica. Da mesma craveira, só a descrição da Academia das Ciências por Jonathan Swift (1726, As Viagens de Gulliver) e o relatório das experiências de Gargântua sobre “o melhor meio de limpar o cú” (Rabelais, François, 1534, Gargântua). Sou mais devoto do gozo do que da inveja, mas não resisto à tentação de imitar o Cipolla, o Swift e o Rabelais.

Nesta breve digressão pela vida do esqueleto, “a morte dinâmica” (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, 1986, Diccionario de los symbolos, Barcelona, Ed. Herder, p. 482), entrançam-se “verdades até prova de contrário” e “quimeras em busca da verdade”. Desafio o leitor a destrinçá-las. Não parto da realidade contemporânea nem a ela pretendo chegar. A nossa sociedade é demasiado pós-tudo e pré-nada para servir de porto a quem deseje navegar. Está entalada no presente. Prefiro demandar os antepassados. Por vezes, enxergamos melhor afastando-nos.

“Eles [os antepassados], que se foram há muito tempo, se encontram em nós, como projeto, como carga pesando sobre o nosso destino, como sangue que corre em nós e como um gesto que desponta das profundezas do tempo” (Rilke, Rainer Maria, Carta a Kappus, 1904, in Cartas a um jovem poeta, 1929).

Os antepassados viviam e morriam, como nós. Viviam, é verdade, menos tempo. A esperança de vida do homem medieval era cerca de um quarto da esperança de vida do homem digital. Cercou, contudo, a morte com ideias e imagens como poucas épocas históricas o conseguiram. Hoje, afogado em informação, o nosso imaginário tece uma manta de retalhos costurados com fibra óptica. Sem sedimentação nem cristalização, a consistência permanece mole. Não somos milenaristas, cátaros ou beneditinos; somos multi, pluri, poli, inter, trans, pastiche… O homem contemporâneo pouco acrescenta ao imaginário da morte. Fragmentou-o. Não obstante a parada tecnológica, encontra-se menos preparado, mais desamparado e mais só perante a morte. Este despojamento bebe na ânsia do imediato, no sentimento de impotência e na promessa do vazio.

Para os antepassados, a morte e a vida são contrários. Mas contrários muito próximos. Tão próximos que se entrelaçam. Ao extremo de a vida ter morte e a morte ter vida. Esta sabedoria exprime-se em esculturas, pinturas, gravuras e rosários. Por exemplo, nos quadros e nos pingentes em que metade do ser humano é pele e carne e a outra metade, esqueleto (Figuras 2 a 6). O que significam estas artes? Que a morte difere da vida? Ou que não são assim tão diferentes? Pelo menos, aparecem juntas. Os anglo-saxónicos falam, a propósito deste tipo de imagens, em the death inside. Sob a pele, rodeado de carne, “jaz” o esqueleto. Dentro de nós, em nós. O comentário a um anúncio focado no Halloween retoma esta visão da vida e da morte: “Ah, Halloween. Time to let what’s inside, out”

Marca: Party City. Título: The way you look tonight. Agência: Hill Holliday. USA, Setembro 2017.

Particularmente eloquente é a gravura Duplo retrato (1616), de Matthew Merian (Figuras 7 e 8). Uma rotação de 180º basta para transformar a vida em morte e a morte em vida. Matthew Merian inspira-se, provavelmente, nos quadros de Giuseppe Arcimboldo (Figuras 9 a 11): Vegetais numa taça ou o jardineiro (ca. 1590); Cabeça reversível com um cesto de fruta (ca. 1590); e O cozinheiro (ca. 1570).

Objetos e imagens similares são (re)produzidos na modernidade: nas tatuagens, nas t-shirts, na subcultura gótica, nas lojas da Internet, nos cemitérios, nos disfarces do Halloween e, naturalmente, na arte. Por exemplo, a Voluptate Mors (1951), de Salvador Dali e Pilippe Halsman, uma caveira composta por corpos vivos, ou O espelho da morte (ca. 1929), de José Gutierrez Solana.

A canção da morte a passo de caranguejo

Igreja de São Virgílio. Pinzolo. Itália

Figura 01. Igreja de São Virgílio. Pinzolo. Itália

Figura 02. O Baile da Morte na Igreja de São Virgílio. Postal ilustrado. 1903

Figura 02. O Baile da Morte na Igreja de São Virgílio. Postal ilustrado. 1903

O vídeo O Desconcerto do Mundo inicia com imagens de danças macabras acompanhadas pela canção Ballo in Fa diesis Minore (Sono Io la Morte, 1977) de Angelo Branduardi, cuja letra corresponde aos ditos da dança macabra de Pinzolo (Itália, 1539), dança situada na Igreja de São Virgílio, na fachada que confina com o cemitério (ver Figura 1). No início do século XX, o cemitério estendia-se até à igreja (ver, na Figura 2, bilhete postal datado de 1903).

Pela localização, junto ao cemitério, a dança macabra de Pínzolo lembra a dança macabra do Cemitério dos Inocentes, em Paris, a primeira dança macabra de que há conhecimento: os frescos percorriam os muros interiores do cemitério, por cima dos ossários (ver Transi 3: Viver com os mortos). Segue canção de Angelo Branduardi, com tradução dos versos iniciais.

Angelo Branduardi. Ballo in fa diesis minore. Versão original: La pulce d’Acqua. 1977.

Tradução dos primeiros versos da canção Sono Io la morte, de Angelo Branduardi

Tradução dos versos inicio da canção Ballo in fa diesis minore, de Angelo Branduardi

Descobrir é “coisa corrente”. “De sábios e tolos todos temos um pouco”. Intrigou-me, por exemplo, a afinidade entre alguns autores surrealistas (Salvador Dali, Giorgio de Chirico e M.C. Escher) e vários artistas do séc. XV a XVII, tais como Lorenz Stoer, François Desprez, Wenzel Jamnitzer e Giovanni Battista Braccelli (ver: Arquitectura de paisagem na geometria maneirista: Lorenz Stoer ; Criaturas pantagruélicas 1 ; Criaturas pantagruélicas 3 ; Perspectivas: Wenzel Jamnitzer e M. C. Escher ; Braccelli. À maneira surrealista ).

Estas duas “descobertas”, versos da “canção da morte” e influência do maneirismo no surrealismo, são, de facto, descobertas da pólvora. De algum modo, já se sabia!

Figura 03. Início da dança macabra de Pínzolo. Músicos e primeiros versos

Figura 03. Início da dança macabra de Pínzolo. Músicos e primeiros versos

Qual o interesse em descobrir o descoberto? A felicidade e o treino: descobrir é uma experiência grata e uma competência que ganha em ser cultivada. “o acaso só toca os espíritos bem preparados” (Joseph Pasteur). O episódio da letra da canção de Angelo Branduardi deve muito ao acaso, acaso que só toca, contudo, à minoria que lê os versos das danças da morte. “Preparar bem o espírito” não se resume à promoção de estudos exploratórios e à revisão da literatura”. Requer mergulho na realidade e capacidade de discernimento dos “fenómenos anómalos, relevantes e estratégicos” (Merton, Robert K., 1968 [1949], Social structure and social theory, New York, The Free Press, 158).

O risco de descobrir a pólvora tende a diminuir quando o tema da investigação é menos concorrido e mais circunscrito.

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Escolhíamos imagens para o livro sobre as Festas d’Agonia (Martins, Moisés, Gonçalves, Albertino & Pires, Helena, 2000, A Romaria da Srª da Agonia, Grupo Recreativo e Cultural dos Trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo), quando deparei como uma fotografia com um aeroplano. Em letras muito pequenas, enxergava-se o nome: Quo Vadis. Desde 1913, os programas das festas e os jornais locais anunciam, ano após ano, a exibição de um aeroplano. O cartaz de 1913 “representa uma figura de Zé P’reira, assentando num bombo, admirando basbaquemente, um aero plano que cruza o espaço” (Aurora do Lima, 16.07.1913). Mas foi preciso aguardar pelo ano de 1918 para ver um aeroplano a sobrevoar, durante as festas, Viana do Castelo. O aeroplano chamava-se Quo Vadis… Por mesquinhas que sejam, estas micro descobertas despertam o investigador e a investigação. Podem, ainda, contribuir para o património e a memória locais.

A micro descoberta não programada requer competência, treino e disponibilidade, tanto de tempo como de espírito. Investir em quase nada é uma aventura ousada.

Para o “livrinho” A Idade de Ouro do Postal Ilustrado em Viana do Castelo, recorri à pesquisa na Internet, designadamente páginas de leilão e blogues especializados. A determinada altura, deparo-me com um postal ilustrado, datado de 31 de Agosto de 1911, com a mensagem escrita inesperadamente incompleta. Uma curiosidade. Passei em frente. Alguns dias mais tarde, surge um postal ilustrado com o mesmo emissor e a mesma destinatária, do mesmo dia e com mensagem incompleta, ambos numerados. Coleccionador de selos e leitor de romances policiais, não resisti a prestar atenção este caso anedótico. A missão consistia em descobrir o maior número possível dos doze postais enviados (“mando daqui doze bilhetes postais para assim teres a certeza que vão todos ao destino”) por um visitante de Viana do Castelo a Magdalena Manzoni, de Torres Vedras. Consegui encontrar dez, todos na Internet (ver Galeria de imagens). Faltam o 2 e o 5. Valeu a pena? Não sei, mas ainda me sinto orgulhoso. Não deixa de ser um bom indicador da paixão pelos postais ilustrados no início do século XX.

Galeria de Imagens: Postais enviados por um visitante de Viana do Castelo em 1911

Aprecio as fábulas de La Fontaine: a Lebre e a Tartaruga, o Leão e o Mosquito, a Cigarra e a Formiga, o Lobo e o Cordeiro… Por que não o Galgo e o Caranguejo?

A Passo de Caranguejo é uma obra de Umberto Eco (2007, Difel). Segundo o autor, o mundo está a retroceder: regressa à guerra quente, retoma os fundamentalismos… O caranguejo do Umberto Eco anda para trás. Aqueles que conheço tendem a andar para o lado. O galgo corre para a frente sem tirar os olhos do isco e sem sair um milímetro da pista. Na estrada, o galgo acelera nas rectas sem abrandar nas curvas rumo à meta. O caranguejo não resiste a desvios, perde-se em atalhos e demora-se em inutilidades. O caranguejo sabe o que quer, mas relativiza os objectivos. É um “flâneur” (ver Benjamin, Walter, 2012, El Paris de Baudelaire, Buenos Aires, Eterna cadencia Editora). O galgo é racional; o caranguejo, romântico. O galgo aprecia problemas e protocolos; o caranguejo, enigmas e travessias. O cúmulo do galgo é saber os resultados antes de começar a investigação. O cúmulo do caranguejo é acreditar que para ser investigador basta existir. O sociólogo Paul F. Lazarsfeld (ver a colectânea On Social Research and Its Language, The University of Chicago Press, 1993) aproxima-se do tipo ideal do galgo; Georg Simmel (ver a colectânea La tragédie de la culture, Paris, Editions Rivages, 1988), do tipo ideal do caranguejo. Galgo ou caranguejo? Já fui galgo, caranguejo e híbrido. “No estado em que as coisas chegaram”, estou em crer que ser caranguejo dá mais prazer e ser galgo mais poder. Para a frente, para trás ou para o lado, a cada um andar a seu contento. Mais do que formas de estar no ofício de sociólogo, o galgo e o caranguejo são formas de estar na vida.

A morte à flor da pele (revisão aumentada)

01. Nuremberg chronicles – Dance of Death. 1493

01. Nuremberg chronicles – Dance of Death. 1493

« [O homem] não é senão (…) o que lhe falta.”
(Bataille, Georges, 1970, « Dossier de l’œil pinéal », Œuvres complètes, II, Paris, Gallimard, p. 35. Tradução livre).

“[Os jovens que fazem piercings e tatuagens] procuram “autonomizar-se” do olhar dos pais. Têm o sentimento de não ser eles próprios, mas uma espécie de bem que pertence aos pais. Daqui esta frase repetida inúmeras vezes: “Eu reapropriei-me do meu corpo”, como se o corpo lhes tivesse sido roubado a um ou outro momento. Ao nível simbólico, o facto de fazer uma tatuagem ou um piercing é uma maneira, para o jovem, de assinar o seu corpo, uma maneira de dizer que é só dele” (David Le Breton, “Les jeunes prennent leur autonomie par le piercing”, jornal Le Monde, 25 de Março de 2004).

02. Dança macabra por Cash at Addicted to Ink in White Plains, NY.

02. Dança macabra por Cash at Addicted to Ink in White Plains, NY.

Neste excerto, David Le Breton, centra-se, a propósito das tatuagens, na relação dos filhos com os pais (para uma visão mais abrangente da abordagem de David Le Breton, 2002, consultar Signes d’identité. Tatouages, piercings et autres marques corporelles, Éditions Métailié. Mas existem outras relações tutelares. Por exemplo, as “tecnologias políticas do corpo” (Foucault, Michel, 1975, Surveiller et punir, Paris, Gallimard) adoptadas, sustentadas e legitimadas pelos dispositivos de saúde, ciência, educação e justiça, bem como pelas instituições e organizações para-governamentais e empresariais. Atente-se nos programas de vacinação, nas campanhas anti tabaco e na recente febre do emagrecimento, fenómeno ímpar na história da humanidade.

A tatuagem não é, em si, prestigiante ou degradante. No mesmo período, finais do século XIX, as tatuagens eram estigma no prisioneiro, emblema no marinheiro e honra no maori da Nova Zelândia. As tatuagens são um assunto polémico, cujo valor varia consoante os homens e as culturas. Oscila também com o vento.

03. Guy Marchand. Danse Macabre, 1486.

03. Guy Marchand. Danse Macabre, 1486

A relação com o corpo não se confina apenas aos pais e ao Estado. Depende, também, dos pares. Pese aos sociólogos, nomeadamente a Émile Durkheim (1897, O Suicídio) a imitação que Gabriel Tarde (1890, As Leis da Imitação) estudou é um fenómeno apreciável. Copia-se ou segue-se o outro significativo, amigo, namorado ou ídolo. Mas a imitação também ocorre, segundo a noção alargada de Gabriel Tarde, de um modo não consciente, conduzido ou não pela corrente:

04. Dança macabra e memento mori, por Stigmatattoo.

04. Dança macabra e memento mori, por Stigmatattoo

“Sei bem que não é conforme ao uso ordinário dizer que um homem, que, sem se dar conta e involuntariamente, espelha uma opinião de outrem ou se deixa sugestionar por uma acção de outrem, que imita esta ideia ou este acto. Mas, se é conscientemente e deliberadamente que ele toma de empréstimo ao seu vizinho uma maneira de pensar ou de agir, concorda-se que o emprego da palavra em questão é, aqui, legítimo. Nada é, porém, menos científico de que esta separação absoluta, esta descontinuidade cavada, estabelecida entre o voluntário e o involuntário, entre o consciente e o inconsciente. Não se passa por degraus insensíveis desde a vontade reflectida ao hábito mais ou menos maquinal? E um mesmo acto muda absolutamente de natureza durante esta passagem? Não é que negue a importância da mudança psicológica assim produzida; mas, sob o seu aspecto social, o fenómeno permaneceu o mesmo” (Tarde, Gabriel, 1895, Les lois de l’imitation, Paris, Felix Alcan Editeur, pp. VII e VIII).

05. Albrecht kauw. Dança macabra. 1649

05. Albrecht Kauw. Dança macabra. 1649

A expansão recente das tatuagens e dos piercings está associada à erupção das novas tribos e à sua influência na vida quotidiano dos seus membros (Maffesoli, Michel, 1988, Le temps des tribus, Paris, Méridiens-Klincksiec) . Ao falar das novas tribos, estamos longe da esfera dos pais ou do Estado. Nestes casos, a imitação tende a ser uma adesão, podendo ou não comportar rituais de passagem. Algumas tribos adquirem foros de subculturas e estilos de vida, por exemplo, os punks e os góticos.

06. Tatuagem gótica.

06. Tatuagem gótica.

Sem menosprezar estas considerações, a decisão e o acto de fazer uma tatuagem ou um piercing cabem ao indivíduo. São subjectivos e expressivos. Decide-se capturar o desejo e a vontade na própria pele, por vezes, na carne. Uma tatuagem “pontua” uma pessoa, uma ligação, um evento, um talismã, um sentimento… E assim se inscreve o efémero na eternidade pessoal, de cada um (ver Ave Corpo: https://tendimag.com/2012/06/10/ave-corpo/).

07. Jeremy Woodhouse. Holly Wilmeth

07. Jeremy Woodhouse. Holly Wilmeth

Georg Lukács escreveu num um texto de 1910 que Soren Kierkegaard “quis criar formas com a vida” (Lukács, Georg, 2013 [1910], El alma y las formas, PUV Universitat de Valencia, p. 74). Se os filósofos aspiram criar formas com a vida, não pode o homem comum aspirar a fazer arte com o corpo? Esta pergunta não é retórica. Além de subjectivas, as tatuagens podem comportar uma inspiração estética (ver A pele e a máscara: https://tendimag.com/2011/10/22/a-pele-e-a-mascara/). Observa-se, aliás, uma certa homologia entre, por um lado, as tatuagens e, por outro, os graffiti e a street art. Contemporâneos, as tatuagens inscrevem-se na pele dos corpos; os graffitis e a street art inscrevem-se na pele das cidades.

08. Book of Hours (‘The Hours of Dionara of Urbino_), central Italy (Florence or Mantua), c. 1480.

08. Horas de Dionara de Urbino, Florença ou Mântua, c. 1480.

A vaga das tatuagens e dos piercings, parece crescer à revelia do “processo civilizacional” (Elias, Norbert, 1989 [1939], Lisboa, Dom Quixote). Desde a Idade Média, século após século, o corpo humano individualizou-se, rectificou-se, poliu-se e fechou-se (Vigarello, Georges, 1978, Le Corps redressé, Paris, Éditions Armand Colin). Com as tatuagens e os piercings, o corpo é perfurado, gravado e, no caso dos implantes subcutâneos, granulado.

09. Tatuagem de caveira, por Adem Senturk.

09. Tatuagem de caveira, por Adem Senturk.

Não se regressa ao passado, mas revisita-se. Há pontes e saltos na história espantosos. Uma parte da sociedade actual, civilizada e moderna quanto baste, resgata o património, as iluminuras medievais, de um tempo que corresponde, precisamente, aos primórdios do processo civilizacional. As imagens macabras da Idade Média estampam-se nos corpos, por exemplo, dos góticos “pós-modernos”. Estes saltos na história não são raros. Tão pouco nos são exclusivos.

10. Hans Baldung Grien, A morte e a mulher, 1517.

10. Hans Baldung Grien, A morte e a mulher, 1517.

Este artigo contempla seis tatuagens, góticas, alusivas à morte. A maioria é confrontada com imagens de outros tempos, designadamente medievais. As duas primeiras (Figuras 2 e 4) copiam, literalmente, as danças macabras do séc. XV (Figuras 1 e 3).

A terceira (Figura 6) lembra, no traço, A Noiva-cadáver de Tim Burton e, na postura, o Zé Povinho de Rafael Bordalo Pinheiro. Na substância, inspira-se na irreverência dos esqueletos e transis das danças da morte (Figura 5).

Na quarta (Figura 7), a caveira aparece tatuada na parte do corpo mais apropriada: a cabeça. Não fosse o rosto de criança, a parte visível do corpo, coberta por caveiras, lembraria um cemitério.

A quinta tatuagem apresenta um espelho da morte (Figuras 8 9), tema recorrente no imaginário medieval e barroco (Michel Vovelle, “A História dos homens no espelho da morte”, in Herman Braet & Wermer Verbeke (eds), A Morte na Idade Média, S. Paulo, Edusp, 1996, pp. 11-26). O corpo surge, agora, como suporte do espelho da morte.

11. Com a morte nos lábios

11. Com a morte nos lábios

Por último, depois do espelho da morte, uma miniatura minimalista de uma vanitas (Figura 11). A morte aninha-se a um canto de uns lábios carnudos. Uma versão original e estilizada do beijo da morte (Figura 10).

A tatuagem é uma assinatura que subscreve um gesto, um gesto de eventual recusa de corpos conformados, submissos, predefinidos, calibrados, eficientes e, sobretudo, acabados. Perante tanta apologia da perfeição, da certeza e da pureza, importa ser ruído, falha e nódoa. Quando Georges Bataille afirma que “o homem não é senão o que lhe falta”, não está a diminuir mas a exacerbar o ser humano. Embora não esteja nas escrituras, “não nos esterilizemos uns aos outros”.

Comer até não poder mais

A Grande Farra. 1973.

A Grande Farra. 1973.

Que bom ver comer com prazer! Ver comer é uma bênção. Comer demais faz mal. supostamente. Tudo faz mal quando a alma é pequena. Como diria um aluno do ensino básico, pior que comer é não comer. Os dois anúncios da Vanity Fair Napkins desprendem um perfume de inconveniência. Mas o filme de Marco Ferreri, A Grande Farra (1973), ultrapassa os limites. Um dos maiores escândalos do cinema de que tenho memória. Um grupo de amigos retira-se numa mansão para “comer até ao infinito”. Morrem a comer de tanto comer.

Marca: Vanity Fair Napkins. Título: Pot. Agência: Figliulo & Partners. Estados Unidos, Agosto 2017.

Marca: Vanity Fair Napkins. Título: Wings. Agência: Figliulo & Partners. Estados Unidos, Agosto 2017.

A Grande Farra (trailer), realização de Marc Ferreri, França, 1973.

Leveza e turbulência na pintura de Goya

 

Goya. Bruxos no Ar. 1797-8

Goya. Bruxos no Ar. 1797-8

“O teu voo é uma libertação, ou é um rapto?” (Bachelard, Gaston, 1943, L’air et les songes, Livre de Poche, Paris, p. 29).

A leveza e a turbulência sempre perseguiram a humanidade. Sonhamos, com frequência, que voamos ou levitamos (Duvignaud, Jean et al, 1979, La Banque des Rêves, Payot, Paris). O tema  aparece nos frescos de Pompeia, nas iluminuras medievais, nos painéis dos juízos finais, nos quadros de Bosch, Pieter Bruegel, Jacques Callot, Marc Chagall ou Max Ernst. Insinuam-se nos pesadelos e nas telas de Goya. Principalmente nas mais sombrias (CaprichosDesastres da Guerra e fase negra), voam e levitam bruxas e bruxos, parcas, demónios, touros, pessoas e seres híbridos, homens corujas e homens morcegos.

Pompeia. Fresco. Pormenor. Séc. I.

Pompeia. Fresco. Pormenor. Séc. I.

A leveza turbulenta não é exclusiva de Goya. A turbulência é, por exemplo, uma característica das pinturas da Tentação de Santo Antão, de Michelangelo a Marten de Vos, passando por Hieronymus Bosch. Vertiginosos, são também os voos nos juízos finais e nos infernos. Iludem-nos as turbulências nos tectos e nas cúpulas das igrejas barrocas. Goya é, e não é, diferente.

 

Tentação de Sto Antão por Michelangelo, Hieronymus Bosch e Marten de Vos

Touros rodopiam nas alturas, híbridos, demónios e bruxas sulcam os ares, com ou sem vassoura, sós ou acompanhados. Não são temas sagrados, nem consagrados, mas inquietam os seres humanos. Não integram a catequese, mas o mundo. Mas não radica nesta fantasmagoria a originalidade de Goya. Os voos de Goya parecem fadados a aterrar no túmulo, convocam a morte.

Goya. Chuva de Touros, circa 1815

Goya. Chuva de Touros, ca 1815

As parcas são divindades da mitologia grega que decidem a “hora da nossa morte” . Um casal de bruxos, ou o demónio Asmodeus e uma mulher, consoante as leituras, sobrevoam a mortandade de uma cena de guerra. Os morcegos, nocturnos, duplos, nem rato, nem ave, são animais de mau agouro, associados à morte e ao inferno. Os touros, esses, são touros de morte, das touradas a que Goya tanto se dedicou. No quadro Voo de bruxos (1797-8), três bruxos seguram, no ar, uma vítima (?), abocanhando o seu corpo, segundo uns, para lhe soprar ar, segundo outros, para lhe dar bicadas como os corvos ou, acrescentaria, para lhe sugar o sangue.

Goya. Disparate n.º 13. Modo de volar. 1815-1823.

Goya. Disparate nº 13. Modo de volar. 1815-1823.

O voo e a levitação estão no vento. Mas a versão preponderante não se inspira em Goya. Tópicos de eleição, por exemplo, da publicidade, o voo e a levitação são desejados, libertam, soltam as amarras da condição humana. Impõem-se como a quintessência da vontade e do movimento. Atente-se no clássico Odissey (2002), da Levi’s (ver https://wordpress.com/post/tendimag.com/297).

Goya. Asmodea. 1820-1823.

Goya. Asmodea. 1820-1823.

Esta tendência não obsta à forte presença dos voos à Goya no panorama contemporâneo. Recorde-se, por exemplo, os vídeos musicais The Otherside, dos Red Hot Chili Peppers (Californication, 1999), ou o vídeo Frozen, da Madonna (Ray of Light, 1998).

Goya. Atropos ou As Parcas. 1820-1823

Goya. Atropos ou As Parcas. 1820-1823

Goya não é um missionário da morte. Tampouco a advoga ou recomenda. É um profeta da desgraça, um visionário disfórico. Pressente, testemunha, teme e, segundo Lisón Tolosana, exorciza o mal:

“A través de los Caprichos y la pintura negra Goya descubre e ilumina las presencias horripilantes y repulsivas que anidan en el interior de cada uno de nosotros y hacen patente la desolación y el frenesí humanos. […] Descubre la bruja oculta en lo más primario y volcánico de nuestro ser y lucha contra ella. Al exorcizar a la bruja con la potencia de su pintura reveladora y purificadora, Goya exorciza el Mal” (Lisón Tolosana, Carmelo, 1992, Las brujas en la historia de España, Madrid, Temas de Hoy, pp. 267-268).

Goya não receia o monstro mas o homem. Onde estão os monstros? Estão dentro de nós. Nós somos os monstros.

 

Goya. Gravuras da série Caprichos.