O Galgo e o Cultivador de Arroz

Eis uma belíssima curta-metragem de animação premiada que cativa desde o primeiro até ao décimo sétimo minuto. Uma história da amizade entre um jovem agricultor de arroz do Camboja e um galgo que resgatou. Forever and ever.
De mão dada com a morte. O Retrato de Arnolfini

“O Retrato de Arnolfini”, também conhecido como “O Casal Arnolfini”, distingue-se como um dos quadros mais notáveis da história da arte. Da autoria de Jan van Eyck, pintado em Bruges, em 1434, está exposto na National Gallery, em Londres. Inovador a vários títulos, extremamente minucioso, tecnicamente incomparável, com uma profusão de motivos e uma grande complexidade de símbolos, tem sido alvo de inúmeros estudos.

A interpretação mais consagrada, mas controversa, foi proposta por Erwing Panofsky, em 1934, no ensaio “Jan van Eyck’s Arnolfini portrait” (ver pdf no final do artigo). A pintura representaria uma cerimónia matrimonial privada entre Giovanni Arnolfini, comerciante abastado de Bruges, e Constanza Trenta (?), ambos oriundos de Luca, em Itália.
2. Jan van Eyck, Retrato de um homem (autorretrato ?). 1433, National Gallery, Londres
Surpreendeu-me recentemente uma hipótese alternativa apresentada por Margaret L. Koster, historiadora de arte, num documentário de três episódios, e outras tantas horas, da BBC sobre o Renascimento do Norte, emitido em 2007. A proposta de Margaret L. Koster, já defendida em 2003 no artigo “The Arnolfini double portrait – a simple solution” (pdf em anexo, sem imagens), é apresentada entre os minutos 3:00 e 10:00 do seguinte excerto do referido documentário.
Os contra-argumentos invocados são, entre outros:
- A descoberta de que Constanza Trenta faleceu em 1433, um ano antes da datação do quadro;
- A expressão melancólica de Arnolfini;
- O rosto lívido, idealizado, de Constanza, a lembrar uma “boneca de porcelana”;
- O cachorro, companheiro fiel para sempre no outro mundo;
- Os episódios da Paixão em torno do espelho, com o Cristo vivo do lado de Arnolfini e morto do lado de Constanza;
- A vela por cima de Arnolfini está acesa (com vida); por cima de Constanza, apagada (já partiu).
Em suma, aquando da conclusão da pintura, Arnolfini está vivo e Constanza, morta. Tratar-se-ia, portanto, de uma homenagem, uma espécie de epitáfio, mediante a encenação de um casamento, digamos, póstumo. Dois espaços, o aqui e o além. e dois tempos, o presente e o passado, juntos para a eternidade.

Importa relevar um pormenor central no quadro: as mãos juntas. Estão numa posição semelhante à das mãos esculpidas em muitas lápides tumulares. A mão do ente falecido pousa, sem estar apertada, sobre a mão do sobrevivente, numa espécie de união, e eventual compromisso de fidelidade, para além da morte. “De fato, as mãos do marido e da mulher apareciam frequentemente juntas nos monumentos funerários ingleses” (Margaret L. Koster).
3. Detalhe do Retrato de Arnolfini
A principal diferença em relação à maioria das esculturas tumulares que me foi dado observar reside na mão de Constanza: repousa aparentemente inerte, com a palma virada para cima, encostada à mão de Arnolfini que a segura. Trata-se de um pormenor de um detalhe, mas convém não o subestimar, dado o preciosismo, sobretudo ao nível do simbólico, de Jan Van Eyck e da generalidade dos pintores do Renascimento do Norte. Pode, porventura, pretender acentuar a passividade, ou inação, de Constanza.


Ressalve-se que também existem relevos tumulares com as mãos “dadas” do mesmo jeito que as de Constanza e Arnolfini: com a palma da mão (des)falecida virada para cima. Por exemplo, na estela funerária de Petronia Posilia (Fig. 5).


O motivo funerário com as mãos dadas remonta, portanto, à Antiguidade, como o testemunham as imagens precedentes, extraídas do artigo Mãos de eternidade. Poética do macabro (https://tendimag.com/2020/05/02/maos-de-eternidade-poetica-do-macabro/).
Atente-se, por último, nos túmulos medievais com rainhas e reis de mãos dadas, tais como o de D. Duarte com D. Leonor ou de D. João I com D. Filipa de Lencastre, ambos no Mosteiro da Batalha. Estas obras, dispendiosas e morosas, eram normalmente encomendadas pelo monarca sobrevivente.


Esta associação ocorreu, com certeza, a muitas pessoas. Não sou o único com imaginação excessiva, retorcida, vadia e tétrica. Percorri, contudo, parte do caminho com os meus próprios tamanquinhos, o que não me dispensa, naturalmente, das devidas vénias de citação e referência. Por exemplo, ao breve mas incisivo apontamento do curador James Payne na conclusão do documentário The Arnolfini Portrait by Jan Van Eyck: Great Art Explained, de 2020:
Assumir que uma pintura qualquer tem um único sentido seria arbitrário e arrogante. É apenas uma teoria sustentar que a pintura é um memorial à sua falecida esposa. Mas existem, a meu ver, algumas pistas: a vela apagada, o lado que lhe corresponde da Paixão no exterior do espelho, o cachorro a seus pés e a possibilidade de Giovanni vestir roupa de luto. Mas o que talvez mais me convença seja a maneira delicada como segura a mão dela, como se esta pudesse escapar das suas mãos a qualquer momento” (14:00-15:39).
No mesmo sentido, também escrevemos, um pouco antes, em 2 de maio de 2020:
As mãos entrelaçadas inscrevem-se num limiar, entre mundos. Este e o outro, nem este, nem o outro. Entre a vida e a morte, o céu e a terra, a memória e o esquecimento. O aperto de mãos não é apertado, é frouxo, facultando a sensação que as mãos tanto podem permanecer unidas como afastar-se. Juntas, as mãos mais do que agarradas parecem em muitos casos encostadas. Não se vislumbra resistência, sinal de esforço, para contrariar o destino. Trata-se de uma figura e de um momento trágicos. (Mãos de eternidade. Poética do macabro: https://tendimag.com/2020/05/02/maos-de-eternidade-poetica-do-macabro/).
ANEXOS
Conduzir pode matar!
Hoje fui à Universidade assistir à homenagem a quatro ex-colegas: Jean-Martin Rabot, José Neves, Carlos Veiga e Ivo Domingues. Em conversa de bar, o Joaquim Costa admitiu que a sua principal preocupação ao conduzir era adormecer. Estava encontrado o tema do artigo do dia.
Existem campanhas de prevenção rodoviária bastante semelhantes às antitabaco. Homólogas, recorrem aos mesmos princípios e visam os mesmos efeitos: suscitar receio, emoções e sentimentos; responsabilizar e culpabilizar. Os anúncios que seguem lembram, nesta óptica, as fotografias legendadas dos maços de cigarros.
Em “Enterrement”, do Institut Belge pour la Sécurité Routière, várias pessoas são “convidadas” a assistir à cerimónia do seu próprio funeral após um acidente rodoviário evitável. O discurso de despedida é proferido pelos próprios familiares que aceitaram aderir à encenação.
Em “La Dernière Classe”, da Sécurité Routière francesa, um condutor, distraído pelo telemóvel, mata uma jovem que atravessa uma passadeira. É (ir)responsável e culpado.
Em “Perte de Controle”, também da Securité Routière francesa, a imprudência, ou o excesso de confiança, de um jovem motociclista provoca a sua desgraça e de toda a família.
Anúncios desta índole abundam. Acrescento apenas um português apostado em ilustrar as consequências do adormecimento ao volante.
Órgão sinistro. Música de arrepiar

O Bruno, de quem tenho saudades, partilhou The “Mysterious Vanishing of Electra”, da sueca Anna Hausswolff. Lembrou-me outro melgacense, o Abel, que selecionou vídeos para a próxima edição dos Serões dos Medos. Sugeri o Marilyn Manson, mas esqueci a Anna von Hausswolff, cujos vídeos, minimalistas, arrastados e estranhos, perturbam o mais vacinado dos mortais.
Recoloco “The Mysterious Vanishing of Electra” (ver A música soturna de Anna von Hausswolff ) e acrescento “Deathbed” e “Epitaph of Theodor”. Vídeos não aconselháveis a pessoas sensíveis.
Jardinar a conjugalidade
Saiu há dias o anúncio Obey Your Hands, da Hornbach, uma rede alemã de lojas de bricolage que aposta numa publicidade cómica, desinibida e insólita. Obey Your Hands convoca um caso excessivo de alucinação cinestésica: a sensação de que um órgão corporal se está a mover, adquire vida própria.
O Tendências do Imaginário comporta uma dezena de anúncios desta marca. Deu-me vontade de explorar mais. Encontrei Garden, de 2001, uma delícia não tanto por ridicularizar a masculinidade mas pelo modo como “brinca com coisas sérias”, tais como a morte e o homicídio.

Registo Civil Vegetal e Limoeiro

O limoeiro é muito bonito e a flor do limão é doce
Mas o fruto do pobre limão é impossível de comer
(Peter, Paul & Mary, Lemon Tree, 1962)
A árvore torna-se forte com o vento (Séneca, 4 a.C. – 65 d.C.)

Uma ideia genial preside ao anúncio “Árvore”, da rádio e TV brasileira Jovem Pan, qualidade que compensa a fraca resolução do vídeo. Um caso ímpar de minimalismo perspicaz e eloquente, Leão do Festival de Cannes de 1998. As versões inglesa e portuguesa são acompanhadas por dois cartoons deveras sugestivos e pela canção Lemon Tree.
Cartoon: Alireza Karimi Moghaddam, iraniano
Sem Meio Termo: Poesia da Vida e da Morte e Canções de Não Sobrevivência

“Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente!
Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.” (Apocalipse 3:15, 16)
Tenho uma costela de colecionador. Foram selos, minerais e outras preciosidades; agora, imagens, músicas e desenganos. Também medicamentos. Nove difeentes, alguns várias vezes ao dia. Comecei ontem mais um. Para a tensão. Anda alta (tanto que declinei o convite para participar hoje, 25 de Abril, num painel de 2 horas mum canal de televisão).

Nove medicamentos; outras tantas maleitas. Estou a aproximar-me de uma espécie de “transumano”. Como “parar é morrer”, não paro. E quem anda à chuva… Cismo, mesmo assim, que uma décima da tensão se deve à leitura de alguns poemas pouco ou nada apaziguadores.
Muitos sociólogos, à semelhança, por exemplo, dos médicos, namoram as artes e as letras. É o caso do Joaquim Costa que, inspirado, se dedica à poesia. Versos de uma lucidez crua e incisiva que desarmam e desconcertam. Tudo menos escrita morna. Qualidades raras! Percorri de fio a pavio o livro Poesia da Vida e da Morte (Companhia das Ilhas, 2024) e retive, para partilha, uma dúzia e meia de poemas, ciente de que numa segunda leitura, outra seria a escolha. E assim sucessivamente. Segue uma pequena compilação.
Os versos do Joaquim lembraram-me algumas canções, mais de morte do que de vida, de não sobrevivência, todas pouco ou nada relaxantes.

Atendendo ao momento [na rua entoa a Grândola Vila Morena], logo acudiram: Menina dos olhos tristes, de Adriano Correia de Oliveira (1969); Canta camarada (1969) e Cantar alentejano (1971), de José Afonso; e Manolo Mio, da Brigada Victor Jara (1977). De chorar por mais.
O Cavalo da Morte

Gosto muito do Le cheval de la mort do Salvador Dalí. Há dias esteve em leilão uma litografia de 1972, edição do autor assinada à mão pelo próprio Dalí. Licitei e licitei até que, frustrado, considerei o valor exagerado. Quando deixei de acompanhar o leilão, já ofereciam 1 500 euros. Por uma litografia! Até mesmo do Dalí…
Não tive outro remédio senão contentar-me com a canção El Jinete [de la muerte] interpretada, à mexicana, por Tania Libertad.
Músicas de morrer e gritar por mais
Depois do Serão dos Medos (dia 20) e antes da Noite dos Medos (dia 28), em Melgaço, junto quatro músicas alusivas à morte interpretadas por Klaus Nomi (duas compostas por Henry Purcell). Músicas de morrer e gritar por mais. Desta feita, o Tendências do Imaginário passa a contemplar quase todas as canções editadas do Klaus Nomi.
Premonição

O Serão dos Medos, dedicado aos prenúncios de morte, já lá vai. O ano passado, “a casa encheu”. Nesta sexta, a assistência duplicou. Permanecemos, aliás, no auditório. Na “cozinha” não cabíamos. Numa atmosfera de confiança, partilha e participação, testemunho após testemunho, cresceu o fascínio, o interesse e a dúvida. A estranheza e a familiaridade deram as mãos perante casos “difíceis de entender”. Proporcionou-se a maioria dos participantes residir nas freguesias da ribeira. Todas as terras possuem tradição e cultura.
Costumo preceder as conversas com um pequeno vídeo. Para este serão, optei por Premonition, uma curta-metragem, de dezembro de 2022, associada à saga da Guerra das Estrelas. Um desvio pelo futuro antes do foco no passado.
