Archive | Julho 2025

Trans. Antony e Anohni

A neta já partiu e os dois textos agendados, um prefácio e uma recensão, já saíram da forja. Solitário, como quase sempre, e com tempo disponível, regresso ao vício, ao Tendências do Imaginário [por exemplo, ler artigos de história da arte seria mais edificante].

Escrevo este post a pensar em amigas que lamentam ter perdido o rasto do Antony, leader da banda Antony and the Johnsons.

Por volta de 2015, Antony assume-se transgénero, muda o nome para Anohni e pede para ser tratada no feminino, como mulher.

Antony, publicou quatro álbuns: Antony and the Johnsons (2000), I Am a Bird Now (2005), The Crying Light (2009) e Swanlights (2010). A Anohni, que tenha conhecimento, três: Hopelessness (2016), Paradise (2017) e My Back Was A Bridge For You To Cross (2023).

“Anohni e a sua banda são uma presença assídua em Portugal, onde já atuaram em Lisboa, Porto e em Braga. Anohni considerou o Theatro Circo um “local mágico” e um dos mais belos teatros onde já havia tocado.” (Wikipedia, Anohni, consultado 30.07.2025).

Segue uma mão cheia de canções do último mais recente da Anohni (My Back Was A Bridge For You To Cross, 2023): “Sliver of Ice”; “Spacegoat”; “Rest”, “You Be Free”; e “It Must Change”.

ANOHNI and the Johnsons – Sliver Of Ice (Official Video). My Back Was A Bridge For You To Cross, 2023
ANOHNI and the Johnsons – Scapegoat. My Back Was A Bridge For You To Cross, 2023
ANOHNI and the Johnsons – Rest. My Back Was A Bridge For You To Cross, 2023
ANOHNI and the Johnsons – You Be Free. My Back Was A Bridge For You To Cross, 2023
ANOHNI and the Johnsons – It Must Change. My Back Was A Bridge For You To Cross, 2023. From Glastonbury on BBC. 28/06/2025

Luminárias

Entrevista junto ao Espaço Memória e Fronteira, em Melgaço. Julho 2025. Fotografia de Março Gonçalves

Os “intelectuais” ganhavam em ser mais contidos quando falam sobre assuntos e pessoas que não conheceram. Pela experiência que tenho, que pode ser errada, considero o “mundo intelectual” particularmente propenso ao delírio. A banda norte-americana The Lumineers vem, pelo título (luminárias), a talhe de foice.

O artigo Numinoso, de 11.02.2022, já inclui os sucessos “Ho Hey” e “Stubborn Love”, do álbum The Lumineers (2012). Acrescento, agora, “Cleopatra”, “Sleep On The Floor” e “Gloria”.

The Lumineers – Cleopatra. Cleopatra, 2016. Live for KEXP at Columbia City Theater. Recorded April 1, 2016
The Lumineers – Sleep On The Floor (Official Video). Cleopatra, 2016
The Lumineers – Gloria. III, 2020. Live On The Graham Norton Show. © 2019

Folk-metal mongol

Quem vai à China pode dar um salto até à Mongólia, para assistir à banda metal e folk tradicional Uuhai.

No próximo ano, em janeiro e fevereiro, está prevista uma tournée europeia dos Uuhai. Por enquanto, não está agendado nenhum espetáculo em Portugal.

Recordo, graças aos Uuhai, a leitura de infância de um livro das edições Europa-América dedicado aos hunos: “Átila Flagelo de Deus”.

Com sede na Mongólia, o UUHAI combina com maestria o som do metal moderno com seus próprios instrumentos e vocais tradicionais. O nome da banda, UUHAI, vem de profundas tradições culturais, já que “gritar ‘uuhai’ em uníssono tem raízes como um mantra espiritual como um sinal de boa vontade que leva à boa sorte e era usado como uma forma de liberar energia, encorajando o espírito e estimulando os elementos do corpo”. Em cada um dos videoclipes da banda, os cinco membros estão vestidos com trajes tradicionais mongóis, enquanto alguns tocam instrumentos tradicionais como o Morin khuur (violino de cabeça de cavalo) e o tambor Zhangu. Por mais incríveis que os riffs de guitarra soem quando combinados com esses instrumentos, a verdadeira magia começa quando os vocalistas entram, usando técnicas de canto gutural e Urtiin Duu (canção longa) no lugar dos rosnados fatais comumente ouvidos no metal ocidental. (https://mymodernmet.com/uuhai-mongolian-metal-band/)

Segue uma amostra com cinco canções dos Uuhai.

Uuhai – Khun Sureg [Official Video]. Khun Sureg, 2021
Uuhai ft. HURD – Uuhai. Single, 2022
Uuhai – Beginning. Beginning, 2024
Uuhai – Khar Khulz. HUMAN HERDS, 2025. Live Birmingham Castle and Falcon 2nd June 24
Uuhai – Ancient Land. HUMAN HERDS, 2025

Folk-Rock Chinês

Em casa a ver mar, apetece sonhar. Ousar, como os antigos navegantes, ir além do Cabo da Boa Esperança rumo às longínquas terras do Extremo Oriente. Não por causa das especiarias, mas pelo pouco conhecido folk-rock chinês. Por exemplo, descobrir quatro canções da banda Wu Tiao Ren / 五条人.

Imagem: Xian’e Changchun Album. 1722-1735

Wu Tiao Ren é uma banda de Haifeng, Guangdong. Eles cantam no dialeto local de Haifeng desde 2003. As letras de suas músicas são principalmente sobre episódios de suas vidas nesta cidade, com os quais estão familiarizados, ou histórias ou sentimentos que gostariam de compartilhar. Eles retratam sua vida de forma surpreendente em melodias suaves e na língua nativa. Além do som, pode-se encontrar sua sátira aos tempos modernos (…) Ao ouvir o som de seus violões e acordeões (às vezes gaitas ou harpas), é possível sentir a brisa soprando desta pequena cidade litorânea, trazendo sussurros incompreensíveis do oceano. (…) A vida e a música de Wu Tiao Ren são sempre repletas de alegria. Eles são como dois pardais sempre prontos para bicar um pouco de arroz e depois voar de volta para o poste de arame. (https://www.last.fm/music/%E4%BA%94%E6%9D%A1%E4%BA%BA/+wiki)

Wu Tiao Ren – “Azhen se apaixonou por Aqiang”.  Dreamy Lisa Salon, 2016. Ao vivo na 2ª temporada do programa The Big Band 乐队的夏天2, 2020
Wu Tiao Ren – “Doshan Boy”. County Town Chronicle, 2009. Ao vivo na 2ª temporada do programa The Big Band 乐队的夏天2, 2020
Wu Tiao Ren – “Perseguir algo. Cinco Pessoas” / 有所追求. Dreamy Lisa Salon, 2016
 Wu Tiao Ren – “Salão de Cabeleireiro Dream Lisa” / 梦幻丽莎发廊. Dreamy Lisa Salon, 2016

Cosmética pomífera. Maçãs, ideias e ilusões

“Se tens uma maçã [um dólar] e eu tenho outra; e trocamos as maçãs [os dólares], então cada um ficará com uma maçã [um dólar]. Mas se tens uma ideia e eu tenho outra, que partilhamos; então cada um terá duas ideias.” (A partir de George Bernard Shaw)

Imagem: George Bernard Shaw

Numa série de anúncios provenientes da Arábia Saudita, a Apple propôe-se contribuir para a (re)composição dos retratos e dos laços de família, designadamente no que respeita ao protagonismo e ao encanto dos membros atuais e futuros. Trata-se de uma gestão da imagem capaz de potenciar o desígnio de ilusionismo almejado, sobretudo, por tantas figuras públicas, ver políticas.

Marca: Apple. Título: Favorite Son. Agência: TBWAMedia Arts Lab London. Direção: Ali Kalthami. Arábia Saudita, 2025
Marca: Apple. Título: The Matchmaker. Direção: Ali Kalthami. Arábia Saudita, 2025

(Apenas) Humano?

Peço desculpa, mas hoje levo as letras a pastar noutras páginas.

Goldfrapp – Human (Official Video). Felt Mountain, 2001
Rag’n’Bone Man – Human (Official Video). Human, 2017
Rag’n’Bone Man – Skin (Official Video). Human, 2017

Do belo Horrível

Segue um artigo oportuno e lúcido sobre algumas tendências atuais do “processo civilizacional” estudado por Norbert Elias. Se o Luís Bastos não se importar, subscrevo. [Pode também aceder ao artigo carregando na imagem precedente]

Ausência

Le mal du pays est avant tout un mal de soi et on se sent dépaysé justement à l’endroit où l’on ne se retrouve plus (Bernard Arcand, Quinze lieux comuns, 1993)

A saudade fala português, mas o sentimento é poliglota.

Sabia que a música [“tango da alma”] Ausência, cantada por Cesária Évora e estreada em 1995 no filme Underground de Emir Kusturica, foi composta pelo sérvio-bósnio Goran Bregović e a letra pelo cabo-verdiano Teófilo Chantre? Sabia, não sabia?

Imagem: Goran Bregović

Cesária Évora / Goran Bregović – Ausência. Banda sonora do filme Underground, de Emir Kusturica. 1995

Vulnerabilidade informática e inteligência artificial

Message in a bottle. Cartoonist – Pete Dredge. Via Cartoonstock

Comecei o dia sem acesso a uma conta do correio eletrónio. A meio da tarde, o problema continuava. Preocupei-me porque a receção dos e-mails tem consequências práticas. Para me inteirar da situação, recorri ao parceiro mais à mão, o ChatGPT, cujas respostas merecem, naturalmente, reservas, mas nem mais nem menos do que as dos humanos com que me relaciono.

Perguntei: “Aconteceu algum problema hoje ao Outlook?”

“Sim – hoje (10 de julho de 2025) o Outlook enfrentou uma falha global que afetou milhões de utilizadores. Houve dificuldades generalizadas para iniciar sessão e enviar ou receber mensagens, tanto no Outlook.com como nas apps desktop e móveis.
O que sabemos:

  • Os problemas começaram nas primeiras horas da manhã (UTC) ou final da noite de 9 de julho;
  • Aproximadamente 60‑62 % dos relatos indicavam falhas de login; os restantes referiam lentidão e erros de licença ou autenticação;
  • A Microsoft confirmou que o problema não foi causado por ciberataque, mas sim por falha técnica — possivelmente relacionada com atualizações ou bibliotecas internas — e está a aplicar correções;
  • À medida que o dia avançou, muitas regiões começaram a ver retorno dos serviços, com os sistemas a estabilizarem gradualmente.” (ChatGPT, 10.07.2025).

Aguardei, mais sossegado, cerca de uma hora até o correio eletrónico voltar a funcionar.

Entretanto, pensei nos Kraftwerk. Tudo me lembra alguma coisa, mesmo que não tenha nada a ver. Seguem três músicas dos Kraftwerk ainda não contempladas no Tendências do Imaginário.

Kraftwerk – Radioactivity. Radio-Aktivität, 1975. Ao vivo
Kraftwerk – Hall of Mirrors. Trans-Europa Express, 1977
Kraftwerk – Neon Lights. Die Mensch-Maschine, 1978

Nem de aqui, nem de além (cópia)

[Artigo publicado há 2 anos, em 10 de julho de 2023]

Jacob Jordaens. Diógenes à procura de um homem honesto. 1642

“Ayer soñé que podía y hoy puedo” (Facundo Cabral)

Prefiro abraçar o próximo a chegar longe. Um abraço franco e aberto para deixar o outro desconcertar-me. Por exemplo, Facundo Cabral. Argentino, “mensageiro mundial da paz” pela UNESCO em 1996, foi assassinado a tiro no dia 9 de julho de 2011, na Guatemala, fez ontem 12 anos. Estimava-o como um Diógenes contemporâneo.

Facundo Cabral. No soy de aquí, ni soy de allá / Me gustan los que callan (ao vivo). Facundo Cabral. 1971

Me gustan los que se callan
No Soy de aqui, ni soy de allá
Facundo Cabral

Me gustan los que se callan
Y me gustan los que cantan
Y de tanto andar conmigo
Me gusta lo que me pasa
Me pasan cosas como esta
Aunque no tenga importancia andar contándole a todos todas las cosas que pasan
Porque uno no vive solo
Y lo que a uno le pasa le está sucediendo al mundo
Única razón, y causa
Pues todito es tan perfecto, porque perfecto es Dios
Que se mueve alguna estrella cuando arranco una flor
Por eso si hay uno, hay dos

Supe del diablo la noche al que al hambriento dije no
También esa noche supe que el diablo es hijo de Dios
Ando solo por la vida con un tono y dominante
Modestamente cantor sin pretención de enseñar
Porque si el mundo de redondo, no sé que es ir adelante

Andar y andar, siempre andando nada más que por andar
No vine a explicar al mundo
Solo lo vine a tocar
No quiero juzgar al hombre, al hombre quiero contar
Mi condición es la vida y mi camino cantar
Cantar, y comentar la vida
Es mi manera de andar

Un día llegué a Tandíl
Y conocí a un anciano que a falta de inteligencia se le dió por ser muy sabio
Le pregunté por Jesús una noche al lindo viejo
Y esa misma noche lo conocí
Cuando me alcanzó un espejo

Yo bailo con mi canción y no con la que me toca
Yo no soy la libertad, pero si el que la provoca
Si ya conozco el camino, por qué voy a andar acostado
Si la libertad me gusta, pa’ qué voy a vivir de esclavo

Elegir
Yo siempre elijo más que por mí, por mi hermano
Y si he elegido ser águila es por amor al gusano
Prefiero seguir a pie y no en caballo prestado
Alguien por una manzana, pa’ siempre quedó endeudado

Siempre se llega primero el que va más descargado
El día que yo me muera no habrá que usar una balanza
Pues pa’ velar a un cantor con una milonga alcanza

Doy la cara al enemigo la espalda al buen comentario
Porque el que acepta un halago empieza a ser dominado
El hombre le hace caricias al caballo, pa’ montarlo

Perdón si me propasé y me puse moralejo
Nadie puede dar consejos
No hay hombre que sea tan viejo
Me pongo el Sol al hombro
Y el mundo es amarillo

Me gusta andar
Pero no sigo el camino pues lo seguro ya no tiene misterio
Me gusta ir con el verano muy lejos
Pero volver donde mi madre en invierno

Y ver los perros que nunca me olvidaron
Y los caballos, y los abrazos que me dan mis hermanos

Me gusta
Me gusta

Me gusta
Me gusta el Sol Alicia y las palomas
El buen cigarro y la guitarra española
Saltar paredes y abrir las ventanas
Y cuando llora una mujer

Me gusta el vino tanto como las flores
Y los conejos pero no los tractores
El pan casero y la voz de Dolores
Y el mar mojandome los pies

No soy de aquí
Ni soy de allá
No tengo edad
Ni por venir
Y ser feliz, es mi color de identidad

Me gusta estar tirado siempre en la arena
O en bicicleta perseguir a Manuela
O todo el tiempo para ver las estrellas
Con la María en el trigal

No soy de aquí
Ni soy de allá
No tengo edad
Ni por venir
Y ser feliz, es mi color de identidad