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Bosque de medíocres

Em bosque de medíocres, resulta difícil a qualidade vingar. Se existe algo de que os incapazes são capazes é secar, derrubar ou queimar qualquer árvore que se distinga.

“El Empleo” (o Emprego) – Curta-metragem de animação com direção de Santiago ‘Bou’ Grasso & Patricio Plaza. Fondo Nacional de la Artes. Argentina, 2008

Entroncamento auspicioso

Carrefour. La relación Precio Calidad. Argentina, 2025

Um dia, faz 43 anos, no Carrefour (encruzilhada), o preço e a qualidade encontraram-se, encetando uma história de amor feliz sem fim à vista, a não ser que, por capricho do mercado, o ponto de encontro, o Carrefour, feche as portas, como aconteceu em Braga, deixando saudades, pelo menos, aos francófilos.

Anunciante: Carrefour. Título: La relación Precio Calidad. Agência: Mercado McCann. Direção: Watta Fernández. Argentina, setembro 2025

Ver a cara a Deus

Tulipán. Verle la cara a Dios. Argentina, setembro 2025

Ainda é domingo. Deixo o comentário do anúncio argentino “Verle la cara a Dios”, da Tulipán, para outros, mais entendidos.

“Tulipán insiste en recordar que el placer importa, merece un lugar central y debe vivirse con respeto y cuidado. Debido a que el lanzamiento llega en un momento donde conviven la hipersexualización, la sobreexposición y el acceso ilimitado a porno con poca educación sexual. Paradójicamente, el deseo parece a la baja: menos ganas, más apatía.
Victoria Kopelowicz, directora de la marca, expresó: “‘Verle la cara a Dios’ es la forma más argentina de describir el máximo placer, y es exactamente eso lo que queremos transmitir con nuestra nueva línea de productos.” (Adlatina: Preestreno: Zurda y Tulipán anuncian una nueva colección de juguetes sexuales para “Verle la cara a Dios” )

Marca: Tulipán. Título: Verle la cara a Dios. Agência: Zurda Agency. Direção: Carmen Rivoira. Argentina, setembro 2025

O papel como destino

Imagem colocada por Almerinda Van Der Giezen, no Facebook, em 26.08.2025

Há imagens que valem mais do que mil palavras.

Consta que Prometeu trouxe o fogo e o progresso. Pois, parecem insinuar-se espectros de árvores em papel precoce.

Uma espécie de memento mori?

Acode-me um artigo publicado há dez anos, no dia 30 de agosto de 2015, O Abismo, que anexo.

Imagem: Jan Cossiers – Prometeo trayendo el fuego, 1636-1638. Museu do Prado

O abismo (30.08.2015)

Incêndio em Caminha. 2015

Em 2012, participei num documentário dedicado a uma árvore de Guimarães. Competia-me cuidar do simbolismo. A árvore é um ser cósmico vivo que acolhe a vida. Agarra-se à terra, bebe água, eleva-se no ar e consume-se no fogo. É uma ponte vertical entre as profundezas da terra e as alturas do céu. Há quem associe a árvore ao sagrado. E ao demoníaco, também. A árvore ergue-se como um marco da memória individual e colectiva. Quando regresso às origens, visito as árvores: a pereira e a tangerineira partiram sem avisar. Menos dois troncos de memória, menos dois anjos da guarda. Valem-me, para compensar, as rotundas e os semáforos. O anúncio Farewell to the forest, da Unilever, sublinha que, no mundo, a cada minuto, é desarborizado o equivalente a 36 estádios de futebol. Um abismo!

O antropólogo George Condominas publicou, em 1957, o livro Nous avons mangé la forêt (Comemos a floresta; Paris, Mercure de France). Estuda os Mnong-Gar dos planaltos do Vietname. Tinham o seguinte costume: num ano, desbastam uma parte da floresta onde semeiam, por exemplo, arroz; no ano seguinte, cortam outra parte da floresta. Ano a ano repetem a proeza. Até que, volvidos vários anos, regressam ao início onde os espera uma floresta recomposta. E recomeçam “a comer a floresta”… É possível explorar a floresta sem a destruir.

Marca: Unilever. Título: Farewell to the forest. Agência: David Buenos Aires/Ogilvy & Matter. Direcção: Nico Perez Veiga. Argentina, Agosto 2015.

Verde que te quero verde

A morte de um jardineiro não lesa a árvore. Mas se ameaçares a árvore, então o jardineiro morre duas vezes (Antoine de Saint-Exupéry, Citadelle, 1948)

A presente onda de calor lembra-me três anúncios dedicados aos riscos de desflorestação. O primeiro, “Refugee Tree”, brasileiro, é promovido por organismos estatais (The Climate Reality Project Brasil, GT.INFRA e ENGAJAMUNDO), o segundo, “Weird Search Requests”, internacional, pela plataforma privada Ecosia, e o terceiro, “EcoAlarm”, pela parceria público privada entre a fundação argentina Banco de Bostes e a Spotify.

Total de incêndios em Portugal. Fonte – FOGOS.pt

Segundo a FAO, entre 2010 e 2020, o planeta sofreu uma perda líquida cerca de 4,7 milhões de hectares de floresta por ano. Em contrapartida, no mesmo período, a Europa, incluindo a Rússia, conheceu um aumento líquido da área florestal de cerca de 0,3 milhões de hectares por ano. Em Portugal, a cobertura não está a diminuir significativamente, mas a qualidade e a resiliência dos ecossistemas florestais estão a degradar-se, devido, sobretudo, aos incêndios e à expansão da monocultura, designadamente, do eucalipto.      

Anunciante: The Climate Reality Project. Título: Refugee Tree. Agência: Africa DDB Sao Paulo. Brasil, 2021
Anunciante: Ecosia. Título: Weird Search Requests. Produção: Filmacademy Baden-Württemberg. Direção: Sandro Rados. Internacional, 2021
Anunciante: Banco de Bostes / Spotify. Título: EcoAlarm. Argentina, 2017

Inteligência artificial e (des)igualdade de género

Ao João

Marca: Dante Robino. Título: Grand Dante Cabernet Franc – Amélie Le Français de La Lande. Agência: TombrasNiña. Argentina, Setembro 2024

Ao permitir o resgate do protagonismo feminino historicamente invisibilizado, o recurso à Inteligência Artificial pode revelar-se uma aposta de marketing e publicidade oportuna. A inserção do retrato da astrónoma Amélie Le Français de La Lande no rótulo de uma nova proposta de vinho da Adega Dante Robino, o Grand Dante Cabernet Franc, leva a agência argentina TombrasNiña a socorrer-se não só da pesquisa histórica mas também da Inteligência Artificial Generativa.

Marca: Gran Dante. Título: Amélie Le Français de La Lande. Agência: TombrasNIña. Argentina, setembro 2024

Todas las etiquetas de Gran Dante habían sido diseñadas con cuadros de reconocidos astrónomos como elemento principal. Durante el proceso de trabajo, se descubrió que, a lo largo de la historia, se había invisibilizado el trabajo de las astrónomas y su enorme aporte al entendimiento del universo y el cosmos. Tanto es así, que incluso habían escrito libros que fueron firmados por hombres para que pudieran ser publicados y salir a la luz.
“Decidimos tomar cartas en el asunto y, luego de un extenso trabajo de estudio e investigación en conjunto con la agencia, elegimos a Amélie Le Français de La Lande como protagonista. Entre sus numerosos aportes, calculó las tablas de horarios navales que permitían a los marinos determinar su posición en el mar, calculando la altura del Sol y las estrellas”, comentó Inés Mastrogiacomo, de Bodega Dante Robino.
Martín Bernasconi y Artur Monteiro Ziguratt, head of art y headof IA de TombrasNiña respectivamente, comentaron: “La utilización de IA Generativa fue fundamental, pero también tuvimos que llevar a cabo un profundo análisis de la época para lograr una representación fidedigna de Amélie y su entorno en términos arquitectónicos, de vestimenta, peinados y otros detalles. Una vez más, vemos el potencial de las nuevas tecnologías combinadas con la estrategia y la creatividad”. (Adlatina, Preestreno: TombrasNiña y Dante Robino visibilizan a las mujeres en la ciencia: https://www.adlatina.com/publicidad/preestreno-tombrasnina-y-dante-robino-visibilizan-a-las-mujeres-en-la-ciencia).

Um quase nada efémero

Que el pensamiento no puede tomar asiento
Que el pensamiento es estar
Siempre de paso
De paso, de paso
De paso

O universo é infinito e a humanidade imensa. E há tanto de que gostar. Mas tudo fazemos para os tornar pequenos. O que abraçamos é um quase nada.

A libertação é um tema recorrente nas canções da América Latina. De resistência, exprimem uma experiência vital. A letra resulta fulcral, a instrumentação simples e a voz sentida. Recorde-se, por exemplo, Victor Jara.

Luis Eduardo Aute. De Paso. Albanta. 1978. Em direto na RTVE, Musical Express 1978

De Paso
(Luís Eduardo Aute)
Decir espera es un crimen
Decir mañana es igual que matar
Ayer de nada nos sirve
Las cicatrices
No ayudan a andar
Sólo morir permanece
Como la más inmutable razón
Vivir es un accidente
Un ejercicio
De gozo y dolor
Qué no, qué no
Que el pensamiento no puede tomar asiento
Que el pensamiento es estar
Siempre de paso
De paso, de paso
De paso
Quien pone reglas al juego
Se engaña si dice que es jugador
Lo que le mueve es el miedo
De que se sepa
Que nunca jugó
La ciencia es una estrategia
Es una forma de atar la verdad
Que es algo más que materia
Pues el misterio
Se oculta detrás
Qué no, qué no
Que el pensamiento no puede tomar asiento
Que el pensamiento es estar
Siempre de paso
De paso, de paso
De paso

Respira!

Na vida existem muitas contingências pouco contingentes. Para conforto, o melhor é não relevar. É mais avisado respirar, sobretudo aspirar, eventualmente com máscara.

Agradeço a uma amiga a partilha desta canção da argentina Natalia Doco.

Giuseppe Arcimboldo. Uma alegoria do ar. Sem data (séc. XVI).

Natalia Doco. Respira. El Buen Gualicho. 2019. Acústico, Lascaux Sessions, 2020

Nem de aqui, nem de além

Jacob Jordaens. Diógenes à procura de um homem honesto. 1642

“Ayer soñé que podía y hoy puedo” (Facundo Cabral)

Prefiro abraçar o próximo a chegar longe. Um abraço franco e aberto para deixar o outro desconcertar-me. Por exemplo, Facundo Cabral. Argentino, “mensageiro mundial da paz” pela UNESCO em 1996, foi assassinado a tiro no dia 9 de julho de 2011, na Guatemala, fez ontem 12 anos. Estimava-o como um Diógenes contemporâneo.

Facundo Cabral. No soy de aquí, ni soy de allá / Me gustan los que callan (ao vivo). Facundo Cabral. 1971

Me gustan los que se callan
No Soy de aqui, ni soy de allá
Facundo Cabral

Me gustan los que se callan
Y me gustan los que cantan
Y de tanto andar conmigo
Me gusta lo que me pasa
Me pasan cosas como esta
Aunque no tenga importancia andar contándole a todos todas las cosas que pasan
Porque uno no vive solo
Y lo que a uno le pasa le está sucediendo al mundo
Única razón, y causa
Pues todito es tan perfecto, porque perfecto es Dios
Que se mueve alguna estrella cuando arranco una flor
Por eso si hay uno, hay dos

Supe del diablo la noche al que al hambriento dije no
También esa noche supe que el diablo es hijo de Dios
Ando solo por la vida con un tono y dominante
Modestamente cantor sin pretención de enseñar
Porque si el mundo de redondo, no sé que es ir adelante

Andar y andar, siempre andando nada más que por andar
No vine a explicar al mundo
Solo lo vine a tocar
No quiero juzgar al hombre, al hombre quiero contar
Mi condición es la vida y mi camino cantar
Cantar, y comentar la vida
Es mi manera de andar

Un día llegué a Tandíl
Y conocí a un anciano que a falta de inteligencia se le dió por ser muy sabio
Le pregunté por Jesús una noche al lindo viejo
Y esa misma noche lo conocí
Cuando me alcanzó un espejo

Yo bailo con mi canción y no con la que me toca
Yo no soy la libertad, pero si el que la provoca
Si ya conozco el camino, por qué voy a andar acostado
Si la libertad me gusta, pa’ qué voy a vivir de esclavo

Elegir
Yo siempre elijo más que por mí, por mi hermano
Y si he elegido ser águila es por amor al gusano
Prefiero seguir a pie y no en caballo prestado
Alguien por una manzana, pa’ siempre quedó endeudado

Siempre se llega primero el que va más descargado
El día que yo me muera no habrá que usar una balanza
Pues pa’ velar a un cantor con una milonga alcanza

Doy la cara al enemigo la espalda al buen comentario
Porque el que acepta un halago empieza a ser dominado
El hombre le hace caricias al caballo, pa’ montarlo

Perdón si me propasé y me puse moralejo
Nadie puede dar consejos
No hay hombre que sea tan viejo
Me pongo el Sol al hombro
Y el mundo es amarillo

Me gusta andar
Pero no sigo el camino pues lo seguro ya no tiene misterio
Me gusta ir con el verano muy lejos
Pero volver donde mi madre en invierno

Y ver los perros que nunca me olvidaron
Y los caballos, y los abrazos que me dan mis hermanos

Me gusta
Me gusta

Me gusta
Me gusta el Sol Alicia y las palomas
El buen cigarro y la guitarra española
Saltar paredes y abrir las ventanas
Y cuando llora una mujer

Me gusta el vino tanto como las flores
Y los conejos pero no los tractores
El pan casero y la voz de Dolores
Y el mar mojandome los pies

No soy de aquí
Ni soy de allá
No tengo edad
Ni por venir
Y ser feliz, es mi color de identidad

Me gusta estar tirado siempre en la arena
O en bicicleta perseguir a Manuela
O todo el tiempo para ver las estrellas
Con la María en el trigal

No soy de aquí
Ni soy de allá
No tengo edad
Ni por venir
Y ser feliz, es mi color de identidad

Clara-Jumi Kang. Violinista sul-coreana

Não convém confundir popularidade com populismo, nem populismo com totalitarismo, embora, por vezes, se deem as mãos. Atravessamos momentos em que o que pode ser é. E o que parece, também. Este atalho no entendimento não deixa de comportar riscos no que respeita à justeza dos comportamentos e dos pensamentos.

Este é um artigo com rabo na boca. Com origem e destino em casa. A violinista Clara-Jumi Kang, figura célebre da Coreia do Sul, interpreta Meditation, da ópera Thais (1894), de Jules Massenet, e Primavera, das Quatro Estações de Buenos Aires (1969), de Astor Piazzolla. É acompanhada, respetivamente, pela Orquestra Filarmónica de Seul e pela orquestra de câmara Sejong Soloists, ambas sul-coreanas. Um lote à feição do Fernando, apreciador de culturas orientais, e da Conceição, incondicional do Astor Piazzolla.

Clara-Jumi Kang. Meditation, da ópera Thais (1894), de Jules Massenet. Com a Orquestra Filarmónica de Seul, Seoul Arts Center, 06.04.2018
Clara-Jumi Kang. Primavera. Quatro Estações de Buenos Aires (1969), de Astor Piazzola. Com a orquestra de câmara Sejong Soloists. Tchaikovsky Concert Hall, 19.03.2018