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Fantasia

Bruges. Bélgica. Fotografia de Joel Morais.

Don Quixote de la Mancha, depois da refrega com os gigantes transformados em moinhos de vento, virou-lhes as costas e entregou-se à leitura de um romance de cavalaria. Mas o Moinho da fotografia é de Bruges e não das bandas de Teboso. Aquele ponto negro não é o Don Quixote, mas o meu rapaz mais novo a comunicar com as estrelas. Adora fantasia, que lê e escreve com afinco. Dedico-lhe este artigo.

Marca: Bud Light. Título: Game of Thrones. Joust. Agência: Wieden+Kennedy. Estados Unidos, Fevereiro 2019.

A cerveja Bud Light apostou no Super Bowl. Estes dois anúncios passaram na fase final do campeonato de futebol americano. Assinados pela agência Wieden+Kennedy, são excelentes. Ressalte-se que um único anúncio, o primeiro, promove duas marcas: a Bud Light e o Game of Thrones. Tudo indica que é um expediente que vai vingar.

Marca: Bud Light. Título: Special Delivery. Agência: Wieden+Kennedy. Estados Unidos, Fevereiro 2019.

Cavaleiros, torneios, castelos e dragões são tópicos, eventualmente com ancoragem medieval, repletos de encantos. Não é de estranhar a opção pela música Arthur, de Rick Wakeman. Costuma associar-se o barroco e o faustoso. No caso de Rick Wakeman, o faustoso torna-se, algumas vezes, fastidioso.

Rick Wakeman. Arthur. The Myths and Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table. 1975.

Homo carnivorus

No artigo precedente, abordámos a situação do homo sapiens fumus. Num registo sério que não me assenta. Resultado: “a argumentação não é má, mas não convence”. Hoje é a vez do homo carnivorus, outra espécie em projeto de extinção. Os sábios do terceiro milénio entendem corrigir o atrevimento que, há cerca de 2,6 milhões de anos, tiveram os nossos antepassados: comer carne. Uma inovação complicada. Não havia talhos e os animais não se deixavam caçar. Por vezes, convinha fugir deles.

Desventuras do homo carnivorus, que a série de anúncios da Nissin, empresa japonesa fabricante de massas alimentícias, recorda.

Marca: Nissin. Título: A avestruz. Agência: Hakuhodo. Direcção: Shinya Nakajima. Japão, 1995.
Marca: Nissin. Título: O rinoceronte e os parasitas. Agência: Hakuhodo. Direcção: Shinya Nakajima / Onuki. Japão, 1994.
Marca: Nissin. Título: Puma adormecido. Agência: Hakuhodo. Direcção: Shinya Nakajima. Japão, 1996.
Marca: Nissin. Título: Mamute. Agência: Hakuhodo. Direcção: Shinya Nakajima. Japão, 1995.
Marca: Nissin. Título: As maçãs e o puma. Agência: Hakuhodo. Direcção: Shinya Nakajima. Japão, 1996.

Anime

Mike Diva. Japanese Donald Trump Commercial. 2016.

Os manga e os anime constam entre os produtos culturalmente ancorados, neste caso de origem japonesa, cuja difusão cresceu e se globalizou a um ritmo impressionante. Povoam o mundo gráfico e audiovisual, designadamente a Internet. Não adquirem, porém, uma presença correspondente nas universidades e noutros templos do conhecimento.

O Tendências do Imaginário dedicou poucos artigos aos manga e aos anime. É tempo de recuperar, com a ajuda de um especialista: o meu rapaz mais novo. Seguem dois vídeos. O primeiro, dirigido por Mike Diva, é uma paródia viral centrada na figura de Donald Trump, porventura o mais mediático e o mais globalizado dos presidentes norte-americanos. O segundo vídeo, da Mercedes Benz, atarda-se, seis minutos, numa perseguição automóvel fantástica e alucinante.

Direcção: Mike Diva. Tema: Japanese Donald Trump Commercial. 2016.
Marca: Mercedes Benz. Título: NEXT A-Class. Produção: Hakuhodo, AOI Pro., Production I.G. Direcção: Mizuho Nishikubo. Japão, Novembro 2012.

Humilhados e ofendidos. Os labirintos da liberdade.

Hoje, temos manga. Um anúncio japonês da Nissin: Hungry to win. Nasceu polémico devido às razões do costume. Neste caso parece que é a claridade que incomoda. Creio que foi retirado de circulação. Em quase todas páginas que consultei, o vídeo não está acessível. No que respeita a recursos e especialistas de censura, estamos ao mais alto nível da história da humanidade. Perturba-me sempre a proibição em nome de valores.

O anúncio é uma homenagem a The Prince of Tennis, manga e anime do início de milénio, criado por Takeshi Konomi. Abre, como muitos filmes de aventuras, com a interrupção do lazer prazeroso dos heróis. Nyudō Mifūne, o treinador da série The Prince of Tennis obriga-os a treinar para o Grand Slam. Nos courts, mas também em situações inóspitas: saltar com cangurus, correr na água em Sidney ou escalar cascatas com crocodilos à espera. O anúncio termina com as metamorfoses e as saudações do costume.

Para aceder ao vídeo do anúncio, carregar na imagem seguinte.

Marca: Nissin. Título: Hungry to win. Japão, 2019.

Soube, entretanto, qual é, especificamente, o abuso civilizacional cometido pelo anúncio da Nissin).

After an initial apology earlier this week, Nissin has pulled its animated Cup Noodle ads featuring tennis player Naomi Osaka. The company had received international backlash for Osaka’s depiction in the advertisements as a much lighter-skinned version of herself.
Osaka, who is half-Haitian and half-Japanese, appeared in the ads as an anime character along with fellow tennis player Kei Nishikori. Nissin’s ads showed a pale version of Osaka with less textured hair.
Osaka herself has not commented on her depiction in the ads. Nissin Foods received approval from her management agency IMG Japan but it was revealed that the agency’s U.S. counterpart did not confer prior to the approval. Nissin pulled the ads from YouTube and the “Hungry to Win” campaign site. Images were also purged from Cup Noodle’s Twitter page.
Notably, Prince of Tennis creator Takeshi Konomi’s artwork depicting Osaka and Nishikori was also removed from the campaign website. (Anime News Network: https://www.animenewsnetwork.com/interest/2019-01-23/nissin-pulls-cup-noodle-prince-of-tennis-ads-after-white-washing-controversy/.142453).

A doença do trabalho

Planet Of The Apes (1968).

O anúncio Sanctuary for Overworked Humans, da Mitsubishi, é um gracejo. Um francês medieval diria uma drôlerie. Algo entre a farsa e a paródia. Seres humanos vítimas do trabalho curam-se numa reserva. Assemelham-se a animais em cativeiro. Estes lugares de recuperação lembram a reserva no livro “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley, e as gaiolas para humanos no filme Planeta dos Macacos (1968). O anúncio é uma paródia de uma lista interminável de séries e filmes centrados nas aventuras e desventuras de animais. Por exemplo, Skippy (1967-1970). Paródia ou não, já deparei com seres humanos num estado parecido. E o carro? Faz parte. Restaura e liberta, impávido e sereno.  

Marca: Mitsubishi. Título: Overworked Humans. Agência: Golley Slater Cardiff. Direcção: Sami Abusamra. Reino Unido, Janeiro 2019.
Skippy the Bush Kangaroo 1968 – 1970 Opening and Closing Theme.

Mais inesperado do que o previsto

Pepsi. Encounter. 2019.

Muitos anúncios são paródias. Temas não faltam. Mais importante do que a paródia é o modo surpreendente como é rematada. É neste golpe final que reside o seu fascínio e a sua genialidade. Alguns anúncios a surpresa ultrapassa as expectativas: mostram-se mais inesperados do que o esperado.

Uma paródia dos mil e um “encontros imediatos” com extraterrestres não passa de mais uma entre muitas. Mas se, ao comando de um andróide, o extraterrestre for um peluche, tipo Gremlin, “pepsidependente”, então o anúncio arrisca-se a ficar na memória. Quando um homem mascarado de palhaço entra num banco logo acode a lenda urbana dos palhaços assassinos. Mas o palhaço dirige-se à caixa multibanco e levanta dinheiro com o cartão de crédito… O episódio condiz com as nossas expectativas? Quando aguardamos uma monstruosidade, a normalidade perturba-nos. Estes exemplos revelam que o efeito de estranhamento, eventualmente, grotesco não reside nos fenómenos em si, normais ou anormais, mas na relação que estabelecemos com esses fenómenos.

Marca: Pepsi. Título: The encounter. Agência: Goodby Silverstein & Partners. Estados Unidos, Janeiro 2019.
Marca: London Film Academy. Título: Clown. Agência: F/Nazca Saatchi & Saatchi. Reino Unido, Março 2018.

Fino, compacto e absorvente

O anúncio vietnamita Mỏng manh mạnh mẽ, da Laurier LSSG, é uma paródia da saga 007. Uma paródia criativa. É verdade que todas as paródias são criativas, mas umas são mais criativas do que outras. Não temos um herói mas uma heroína, muita acção, uma caricatura das tecnologias digitais, um vilão e o inevitável gadget multifunções: um penso higiénico fino, compacto e absorvente.

Marca: Laurier Super Slimguard. Título: Slim but strong. Agência: Dinosaur. Vietname, Agosto 2018.

Doçura

“A natureza fez o comer para o viver, & a gula fez o comer muito para o viver pouco” (Padre António Vieira, Sermão da quarta Dominga depois da Páscoa, Sermoens do P. Antonio Vieira, 1692).

Dez segundos bastam para um anúncio ter história, humor e impacto. A campanha indiana da marca Pulse Candy acomoda três anúncios na duração de um anúncio normal. As doçuras Pulse Candy são uma tentação perigosa…
Estes pequenos anúncios da Pulse Candy lembram um anúncio indiano fantástico, Palace, às pastilhas elásticas Happydent. Pode aceder no seguinte artigo: https://tendimag.com/2014/08/27/dentes-brilhantes/.

Marca: Pulse Candy. Título: Astronaut. Agência: J Walter Thompson. Direcção: Shirish Daiya. Índia, Dezembro 2018.
Marca: Pulse Candy. Título: Swing. Agência: J Walter Thompson. Direcção: Shirish Daiya. Índia, Dezembro 2018.
Marca: Pulse Candy. Título: Bedroom. Agência: J Walter Thompson. Direcção: Shirish Daiya. Índia, Dezembro 2018.

A imaginação ao poder

01. Horae ad usum Parisiensem (Grandes Heures de Jean de Berry), c. 1400-1410.

Encontrar conteúdos italianos nem sempre é fácil. Quando se sabe o que procura, a Internet transforma-se, às vezes, numa mulher caprichosa. Conheço o anúncio Vineyard, da Sky. Não o encontrei no YouTube. Tropecei com ele numa página remota. Com a gravura (Figura 1) de uma mulher a brotar de uma flor, o resultado foi semelhante. Tenho a imagem nos labirintos do computador, dar com ela era tarefa ingrata. A busca na Internet foi precisa: encontrei três entradas, todas do Tendências do Imaginário.

02. Andrea Mantegna – Grotesque Self-Portrait, between 1465 and 1474.

O anúncio Vineyard, da Sky, é um prodígio. Os heróis do futebol nascem numa vinha algures em Itália. São vindimados, transportados, seleccionados, prensados e armazenados. Obviamente, com un bel pezzo di ragazza a acompanhar o processo. A ideia de que os futebolistas nascem de plantas (videiras) é espantosa mas não é original. Os livros de horas medievais e os grotescos renascentistas apresentam seres humanos que irrompem de ramos, flores e frutos (ver figuras 1 e 2).

Para aceder ao anúncio, carregar na imagem seguinte ou no link https://www.behance.net/gallery/17620551/SKY-Vineyard-(TVC)

Marca: Sky. Título: Vineyard. Agência: 1861 United (Milan). Direcção: Guy Manwaring. Itália, 2007.

Feliz Natal!

Recebo poucos anúncios italianos. Não há como procurar. Encontram-se relíquias como este anúncio ao queijo “parmigiano”. Uma dança da alegria, com música original. Aproveito para desejar um feliz e generoso Natal.

Marca: Parmigiano Reggiano. Agência: Max International. Agência de produção: DIAVIVA. Direcção: Sebastian Grousset. Itália.