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Fumo tóxico

Já sentia saudades da figura do fumador suicida homicida. O fumo do cigarro mata mais depressa e com maior alcance do que uma bala. Se bem me lembro, na minha infância havia cigarros a que chamavam mata-ratos (Kentucky). A reputação letal do tabaco vem de longe. Ressalvando os assassinos, os desastrados e os fumadores, ninguém é mortífero. Nem sequer na Tailândia. Mata-se, isso sim, simbolicamente. O fumador suicida homicida é uma presa fácil dessa caça simbólica. “A Bíblia separa as pessoas entre pecadores que sabem que são pecadores, e pecadores que pensam que são justos” (Ronaldo Bezerra: https://guiame.com.br/colunistas/ronaldo-bezerra/pecadores-que-sabem-que-sao-pecadores-x-pecadores-que-pensam-que-sao-justos.html). Livrai-nos, Senhor, dos pecadores que pensam que são justos! Acrescento apenas que uma das principais fontes de desigualdade radica na semiose social. Nem todos têm o mesmo acesso ao ceptro da palavra e da imagem.

Marca: Thai Health Promotion Foundation. Título: Gunfight. Agência: Factory01 Co., Ltd. Direcção: Wuthisak Anarnkaporn. Tailândia, Março 2020.

Aprendizagem sem mestre

Cumprido o teletrabalho, entrego-me ao telelazer. O anúncio Physics, da Brontosaurus, regista as atribulações de uma aprendizagem sem mestre, uma fonte interminável de surpresas. Numa aldeia do Tibete, por causa de um livro de Física, até monstros aparecem. Os professores fazem falta. Este é, curiosamente, um anúncio para recrutamento de professores! Não em Portugal, mas na República Checa.

Marca: Hnutí Brontosaurus. Título: “Physics” in little Tibet. Agência: McCann Erickson (Praga). Direcção: Marek Partys. República Checa, Janeiro 2020.

Videojogos. Viagem ao coração da emoção

PlayStation. Feel the power. 2020

A quarentena justificada pelo coronavírus aumenta o uso e o download de videojogos. O caso da China é ilustrativo:

“Um recém-publicado relatório da consultora App Annie demonstra que o número de downloads de aplicações móveis tem vindo a crescer exponencialmente na China. Ao todo, desde 2 de fevereiro, foram registados mais de 222 milhões de instalações através da App Store, em especial de aplicações de jogos. / De acordo com os dados a que o Financial Times teve acesso, o número médio de downloads registado durante as duas primeiras semanas de fevereiro na China representa um aumento de 40% em comparação com os valores verificados na totalidade de 2019”. (https://tek.sapo.pt/mobile/apps/artigos/coronavirus-quarentena-faz-aumentar-o-download-de-aplicacoes-de-videojogos-na-china).

Vem a propósito o anúncio Feel the power of PlayStation. Abismal, mergulha-nos na angústia, no medo e no choque, provocando uma emoção desconcertante. O importante é o coração, mais precisamente, o aperto do coração. Desagradável mas fascinante, lembra o filme Alien e os biomecanóides de HR Giger. Os anúncios da PlayStation têm vindo a apostar nesta estética da emoção tensa e opressiva (ver o anúncio Head, de 2006: https://tendimag.com/2014/09/18/segredos-da-mente/.

Marca: PlayStation. Título: Feel the power of Playstation. Agência: adam&eveDDB. Direcção: Romain Gavras. Fevereiro 2020.

Não desistas!

Pablo Picasso. Dom Quixote. 1955.

As horas e as obras repetem-se. Coloquei este anúncio da Movistar há 10 anos no facebook. Inspirado, encoraja e anima. Sugere que existe um suplemento que nos demove de desistir. Esse suplemento é o Outro! Este anúncio ajuda a subir a corrente. Recoloco-o e volto a recolocá-lo. A repetição não é forçosamente estéril. Na música como na vida.

Nestes dias de recolhimento, aconselho o Dom Quixote de la Mancha. Juntos, Dom Quixote e Sancho Pança configuram um paradigma da humanidade. Separados, duvido!

O contacto, a conexão, entre pessoas capacita, gera sinergia. Torna possível o improvável. Neste anúncio, brilhante, o mundo aproxima-se da figura de um mosaico ou de um puzzle em que as diferentes peças apenas se sobrepõem sem se confundir, mesmo assim o suficiente para completar a acção. As situações e as pessoas interagem de um modo inacabado e imperfeito, mas eficaz. Namoram-se sem se anular, como um beijo de Gustav Klimt. O anúncio multiplica os sinais desta reserva e incompletude. Somos com os outros, conseguimos com os outros, mas não somos os outros, para o bem todos. O ruído preserva a identidade. A unicidade ameaça-a (https://tendimag.com/2017/03/14/com-o-mundo-nas-maos/).

Anunciante: Movistar. Título: Conectados podemos más. Agência: Young & Rubicam Perú; Directora de Produção: Julieta Kropivka. 2010.

Caracóis

Le secret de l’histoire naturelle contenant les merveilles et choses mémorables du monde. 1401-1500. Bibliothèque Nationale de France.

Os novos monstros “apresentam-se como formas que não se consolidam em qualquer ponto do esquema, que não se estabilizam. São, portanto, formas que não têm propriamente uma forma, andam antes à procura de uma” (Omar Calabrese, A Idade Neobarroca, primeira edição: 1987). Os novos monstros pressentem-se apenas quando já nos habitam. Face ao coronavírus, a sociedade retrai-se como um caracol ameaçado. Cancelei três iniciativas que me traziam entusiasmado: a exposição de fotografias de Álvaro Domingues e Duarte Belo, prevista para Maio; a Escola da Primavera, nos dias 9 e 10 de Maio, em Melgaço; e a visita ao Mosteiro de Tibães, no dia 31 de Março.

Encontrei uma música para embalar esta contenção impotente: o Adagio Molto da Sinfonia “Al Santo Sepolcro” in B Minor RV169, de Antonio Vivaldi. Subtraindo os Allegro aos concertos para flauta de Vivaldi, sobram, mais vagarosos e mais despojados, os Largo. Acrescento o Largo do Concerto nº 5 in F, RV 434 e o Largo do Concerto nº 6 in G, RV 437.

Antonio Vivaldi, Adagio Molto da Sinfonia “Al Santo Sepolcro” in B Minor RV169.
Antonio Vivaldi, Largo do Concerto nº 5 in F, RV 434.
Antonio Vivaldi, Largo do Concerto nº 6 in G, RV 437.

A fonte do sucesso

The fountain of youth, detail of 15th century fresco, Castle of Manta, Saluzzo, Piedmont, Italy.

O Olimpo existe! Os vendedores de sonhos mostraram-mo. Chama-se GOAT camp (GOAT: Greatest Of All Times). É habitado por humanos lendários. De hipérbole em hipérbole, bebem poções de energia e talento. Se tem sede do impossível, beba Gatorade!

Marca: Gatorade. Título: GOAT Camp. Agência: TBWA / Chiat / Day. Direcção: TRAKTOR. Estados Unidos, Fevereiro 2020.

Tudo isto me envelhece. Aos sessenta anos? Há algumas décadas atrás, sem a mínima dúvida. Em Portugal, a esperança de vida masculina era, em 1960, 60,7 anos; antes do 25 de Abril, em 1974, era 64,8 anos. Convoco o paradoxo de Vilfredo Pareto:

Seria bastante difícil, falando de homens, deixar de utilizar as expressões, jovem, velho, se bem que ninguém possa dizer em que momento preciso termina a juventude e começa a velhice. A linguagem corrente é obrigada a substituir diferenças quantitativas reais por diferenças qualitativas arbitrárias” (Pareto, Vilfredo, Manual de Economia Política. 1ª ed. 1906. São Paulo, Editora Nova Cultural Ltda., 1996, p. 233).

Estou naquela idade em que crescem as saudades e diminuem as esperanças. Não me venham com a história da terceira adolescência! Adolescente, andava de bicicleta, agora, temo a cadeira de rodas. Não existe elixir da juventude nem fonte da vida. Jovens, somos jovens até ao túmulo para a Segurança Social.

A semana passada, pedi ao funcionário do bar uma bebida que dispensasse copo ou palhinha. Sugeriu-me Gatorade. A aula terminava às 22 horas; à meia-noite, ainda estávamos a discutir o Beijo de Klimt. A Tina Turner terá bebido Gatorade? Parece. De qualquer modo, simplesmente The Best.

Tina Turner. The Best. Alive at the GelreDome in Arnheim (Netherlands) 2009.

Arca de Noé

1. Yuuki Morita. Thinking Man. 2019.

“Esta manhã, ocorreu-me, pela primeira vez, a ideia de que meu corpo, este fiel companheiro, este amigo mais seguro, mais meu conhecido do que a minha alma, não é senão um monstro manhoso, que acabará por devorar seu próprio dono. Paz… Gosto do meu corpo, serviu-me muito e bem” (Marguerite Yourcenar, Memoires d’hadrien, 1951).

“O inferno somos nós”. Não me lembro quem escreveu este disparate, mas é um exagero! Importa aliviar a auto-flagelação. Olhar o espelho pelo canto do olho. Na verdade, somos apenas um ninho de monstros (imagem 2) ou um bestiário ambulante (imagem 1). Por outras palavras mais vantajosas: somos uma arca de Noé sonhadora.

Fernando e Albertino

2. Francisco de Goya. O sonho da razão produz monstros. 1797–1799.

Pandemónio

Otto Dix. War cripples. 1920.

“Quando morrer vou para o paraíso porque já tive o meu tempo de inferno” (Stephen King, Rose Madder, 1995).

Na Idade Média, o inferno morava ao lado. Os seres humanos viviam rodeados de demónios, bruxas e possessos. Sentia-se o bafo de Satanás. Mas, por temíveis que fossem as incursões do diabo, o inferno pertencia a outro mundo. Normalmente, à direita nos painéis de Hieronymus Bosch; em baixo, também à direita, nas pinturas do juízo final.

Ott Dix. Skat players. 1920

Quando Jean-Paul Sartre afirma que “o inferno são os outros” altera a geografia do mal. O inferno está perto, está à nossa volta. Os quadros e as gravuras de Francisco de Goya já o evidenciavam. Há mais de dois séculos! Sejamos, porém, mais radicais. Basta um sobressalto de reflexividade: o inferno não são apenas os outros; o inferno somos nós. Os demónios, também. As pinturas de Otto Dix exprimem esta condição. Andamos todos estropiados porque nos estropiamos uns aos outros.

Otto Dix. Pagerstrasse. 1920.

O perfume e o hálito

O Tendências do Imaginário dedicou uma série de artigos a anúncios de perfumes. Lugares mágicos, modelos extra belos e fragâncias sedutoras. Importa dissentir!

O ser humano dá sentido a tudo, e tudo avalia. A começar pelo corpo. É de entendimento comum que existem fenómenos corporais que são bons e outros que são maus. O que sai do corpo tende a ser desagradável: a transpiração, a urina, os excrementos, a mucosidade, a cera, o cuspo, o hálito…  Existem, porém, excepções: o parto, a lágrima e a palavra. A alimentação e a respiração são bons exemplos desta dualidade: os alimentos são bons, mas o arroto e vómito são maus; inspirar é bom, expirar, nem por isso. Desçamos, pois, da alteza dos perfumes para a baixeza do corpo.

No anúncio tailandês, da Dentiste, o mau hálito ameaça a interacção humana. Entre modulações e repetições, durante seis minutos, os contratempos do mau hálito são ridicularizados. Com imaginação e desenvoltura. Bizarro, disse bizarro? Estranho. A percepção do corpo dos orientais difere, porventura, da nossa.

Marca: Dentiste. Título: Hálito. Agência: Lobster & Co. (Tailândia). Direcção: Thanonchai Sornsrriwichcha. Tailândia, Fevereiro 2020.

Morte divertida

James Ensor. Death and the Masks. 1897.

Morrer a rir é um fim de vida que Deus se descuidou de criar. Mas, para nossa salvação, as novas tecnologias e a publicidade emendam a criação divina. Se quer morrer a rir, num hospital ou atolado em areias movediças, contacte a Quibi. Costumo designar este tipo de anúncio como de dupla contorção: o riso do diafragma e o calafrio do baixo ventre.

Marca: Quibi. Título: Quicksand. Agência: BBH (Los Angeles). Estados Unidos, Fevereiro 2020.