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A dança das rãs

Frogs.

A elasticidade das rãs é proverbial, desde as pernas até à língua. Prestam-se à dança, com as devidas sintonias e distâncias. Por que dançam as rãs? Para promover a acessibilidade dos serviços de uma instituição financeira londrina.

Marca: TotallyMoney. Título: Dancing Frog. Reino Unido, Dezembro 2020.

Esperança alcoólica

Johnnie Walker. 200 Years . Astronaut.

Com a exacerbação da Covid-19, os anúncios publicitários tendem a ser de alerta ou de promessa. O anúncio brasileiro Astronauta, da marca de Whisky Johnnie Walker, é uma celebração cósmica enrolada numa esperança hiperbólica com malte. “A vida vai se encher de possibilidades outra vez”.

Marca: Johnnie Walker. Título: Astronaut. Agência: Alma BBDO São Paulo. Direção: Gabriel & Quemuel. Brasil, Janeiro 2021.

Amor em tempo de confinamento

Mordillo

Canta o amor e namora a felicidade! A música é performativa.

Marca AT&T. Título: A Little Love. Agência: BBDO LA. Direção: Peter Thwaites. USA, janeiro 2021.
James Brown. I Got You (I Feel Good). 1965.

Androides

RC Cola. Band. Filipinas. 2021.

L’homme qui veut dominer ses semblables suscite la machine androïde. Il abdique alors devant elle et lui délègue son humanité. Il cherche à construire la machine à penser, rêvant de pouvoir construire la machine à vouloir, la machine à vivre pour rester derrière elle sans angoisse, libéré de tout danger, exempt de tout sentiment de faiblesse, et triomphant médiatement par ce qu’il a inventé. Or, dans ce cas, la machine devenue selon l’imagination ce double de l’homme qu’est le robot, dépourvu d’intériorité, représente de façon bien évidente et inévitable un être purement mythique imaginaire. » (Simondon, Gilbert. 1958. Du mode d’existence des objets techniques. Paris, Éditions Aubier-Montaigne, p. 10).

O Extremo-Oriente habituou-nos a anúncios absurdos e hilariantes. Pela imagem e pela narrativa. O anúncio filipino Band, da RC Cola, é um bom exemplo deste género de grotesco. Os androides, fruto de uma imaginação desinibida, asseveram-se, simultaneamente, desconcertantes, ávidos e cordiais.

Marca: RC Cola. Título: Band. Agência: GIGIL. Direção: Marius Talampas. Filipinas, janeiro 2021.

Peluches sem espinhos

Corey Wolfe. Mona Lisa como urso de peluche.

O Natal já passou. Vivam os Reis! Nesta ternura de anúncio da Butlins, o monstro é uma relva fofa, a bola uma flecha de Cupido e a música, Dust in the Wind em versão retocada, um regalo (Facebook, 27/12/2010).

Anunciante: Butlins. Título: Leaving. Agência: Mother London. Director: Nic & Sune. UK, Dez. 2010.

Agarrar o vento e sentar-se ao sol

Giulio Parigi. O espelho de Arquimedes. 1599-1600.

Cativar o sol e o vento é arte antiga. Arquimedes engenhou, durante o cerco romano a Siracusa, um espelho côncavo cujos raios solares incendiaram os barcos inimigos. O vento soprava nas velas romanas e o sol grego queimava os cascos.

O anúncio The Collectors, da Energy Upgrade California, propõe múltiplas formas, efetivas ou poéticas, de capturar o vento e o sol. Brilhante e original. Belas imagens, bom ritmo, boa música. Um oásis de prazer nas dunas da Internet! Sejam louvadas as energias eólica e solar!

Marca: Energy Update California. Título: The Collectors. Produção: The Corner Shop. Direção: Peter Thwaites. Estados-Unidos, novembro 2020.

As moscas e os pescoços de borracha

Geoge Grosz. O Eclipse do Sol. 1926.

Em convalescença, rendo-me ao apelo da televisão. Uma massagem à cabeça! Afigura-se-me que embarco num país de moscas, moscas que zumbem, pousam e remexem nos “assuntos”. Somos um país de moscas? Quero acreditar que não. Por um lado, Portugal não cabe no ecrã. Há muito País para além do ecrã. Por outro lado, a minha medicação pode provocar alucinações. O ecrã das moscas é, provavelmente, um delírio pessoal. Acresce que a leitura dos media requer literacia. No que respeita à televisão, faltam-me as skills necessárias. Sou incompetente em moscas e em televisão. Os pescoços de borracha (rubberneckers) são moscas especializadas em mapear a informação. Seguem duas músicas: Rubberneckin’, de Elvis Presley; e Rubbernecker, de Murray Head. Duas relíquias. As cirurgias têm efeitos insólitos. Uns ficam doridos, outros combalidos, outros mimados, eu torno-me bilioso. Uma mosca execrável que não despega do ecrã. Dêem-me um desconto.

Elvis Presley – Rubberneckin’ – From “Change Of Habit” – 1969.
Murray Head. Rubbernecker. Between Us. 1979.

A pandemia como comunicação

Covidman

No início da pandemia, o discurso político e a comunicação social quiseram-se parcimoniosos. Hoje, a situação é distinta. A informação manifesta-se inesgotável, redundante e, por vezes, delirante. Para além de contexto, a pandemia tornou-se pretexto para outros fins. No anúncio Kerstcadeau, da holandesa Kruidvat, uma criança incentiva o “Pai Natal” a utilizar máscara; por seu turno, o anúncio Covidman, da tailandesa Thai Health Promotion Foundation, alerta que a obsessão com a Covid-19 pode ofuscar a consciência de outros riscos, tais como os acidentes rodoviários.

Ontem, fui submetido a uma cirurgia. Habitualmente, não vejo televisão. Mas, agora, proporciona-se. Pasmo com tamanha sobre-excitação! A diversidade de assuntos foi de férias e não se sabe quando regressa. Neste momento, bastam dois: a violência no aeroporto e a pandemia. Quem comece de manhã e acabe à noite, fica a saber o mesmo, mais do mesmo. Tudo comentado até à náusea. Por especialistas de tudo e por especialistas de nada, mais os testemunhos que dizem o que já se sabe e os jornalistas que registam e veiculam o que também já se sabe. Estou com vontade de sair da convalescença.

Marca: Kruidvat. Título: Kerstcadeau. Produção: Holy Fools. Direção: Jelle de Jonge. Holanda, dezembro 2020.
Anunciante: Thai Health Promotion Foundation. Título: Covidman. Agência: BBDO (Bangkok). Direção: Suthisak Sucharittanonta. Tailândia, dezembro 2020.

O diabo apaixonado. A mulher e o diabo

Jacques Le Grant. – Le livre des bonnes moeurs. XVe siècle. Musée Condé de Chantilly.

No imaginário cristão, o diabo seduz, preferencialmente, a mulher. Tudo indica que está mais exposta à tentação demoníaca. O destino começa no início: foi Satanás, Arimane, sob a figura de serpente, quem tentou a primeira mulher e esta, o primeiro homem. O Martelo das Feiticeiras (Heinrich Kraemer & James Sprengerm, 2004, O Martelo das Feiticeirass, Rio de Janeiro, Editora Rosa dos Ventos, 1ª edição 1486) assegura existir um “maior número de mulheres supersticiosas do que de homens” (p. 114). “Por serem mais fracas na mente e no corpo, não surpreende que se entreguem com mais frequência aos atos de bruxaria” (p. 113). São mais crédulas, socorrem-se mais de poderes maléficos e passam a palavra, prestam-se ao contágio. Com estas e outras sentenças,

“Só em 1485, apenas no distrito de Worms, 85 feiticeiras foram entregues às chamas. Em Genebra, em Basileia, em Hamburgo, em Ratisbona, em Viena, e em muitas outras cidades, ocorreram execuções do mesmo género. Em Hamburgo, entre outros, queimou-se vivo um médico que salvou uma mulher em trabalho de parto abandonada pela parteira. No ano 1523, em Itália, após uma bula contra a feitiçaria aprovada pelo papa Adriano VI, só a diocese de Como assistiu à queima de cem bruxas” (Albert Réville. Histoire du Diable, ses origines, sa grandeur et sa décadence, à propos d’un récent ouvrage allemand. Revue des Deux Mondes, Paris, 2e période, tome 85, 1870, pp. 101-134: III).

Francisco Goya. El Aquelarre. 1797–1798.

“Passaram anos e anos / Sobre esta roda da vida, / Farinha que foi moída, / Vai-se a ver são desenganos” (Fernando Assis Pacheco, Pedro Só). Passaram anos e anos e o imaginário mudou. O Martelo das Feiticeiras tornou-se símbolo de um pesadelo histórico. No anúncio Match Made in Hell, o diabo não só seduz como é seduzido. Por intermédio de uma agência de encontros, Match, o diabo e a donzela envolveram-se num namoro aprazível. Um par, à partida, improvável, uma nova forma de amor. Já no século XVIII, se discorria sobre a figura do “diabo apaixonado” (Cazotte, Jacques, Le diable Amoureux, Paris, 1772; traduzido para português por Camilo Castelo Branco; na imagem, capa da edição de 1845, da autoria de Edouard de Beaumont).

Marca: Match. Título: Match Made in Hell. Agência: Maximum Effort. Direção: Ryan Reynolds. Estados-Unidos, Dezembro 2020.

Filantropia

— Valha-me Deus! — exclamou Sancho — Não lhe disse eu a Vossa Mercê que reparasse no que fazia, que não eram senão moinhos de vento, e que só o podia desconhecer quem dentro na cabeça tivesse outros? (Miguel de Cervantes, Dom Quixote de la Mancha, cap. VIII. 1605).

Vladimir Kush.

Se existem novidades ao nível da publicidade, a proliferação dos anúncios de sensibilização é uma delas. Anúncios de empresas dedicados a causas sociais. Respiram bondade. O que visam estes anúncios? Promover a causa ou a marca? Sancho Pança, que vê moinhos de vento, diria a marca; Don Quixote, que vê gigantes, a causa. Num mundo onde supostamente naufragaram as grandes narrativas, as narrativas de médio alcance possuem um elevado valor simbólico. O anúncio Waste, da IKEA, é um excelente exemplo de publicidade de sensibilização.

A publicidade de sensibilização promovida pelas empresas é uma prática condenável? Talvez não! A história da humanidade revela que entre a bondade ou a maldade das intenções e a bondade ou a maldade dos resultados não existe uma equação linear. Recorde-se o subtítulo do livro de Bernard Mandeville: “vícios privados, virtudes públicas (A fábula das abelhas, 1723).

Marca: IKEA Rússia. Título: Waste. Agência: Instinct BBDO. Direção: Ilya Naishuller. Rússia, novembro 2020.