Literatura deitada

Desliga o telemóvel e vai para a cama com Shakespeare, Cervantes, Camões ou, eventualmente, Dante, Poe, Tolstói, Rilke…
Acompanha ou intervala com boa música. Por exemplo, a Dança Macabra (1874) de Camille Saint-Saëns bem interpretada pela Kamerton Orchestra from Koszalin Music School, da Polónia.
Eros ou Thanatos sobre ou sob os lençóis.
Imagem: Edvard Munch. Dança da Morte (Autorretrato). 1915
Diversidade e Beleza
Sexta, dia 6, foi a conferência “Christine de Pizan: O Valor da Mulher”, na Academia Sénior de Braga; agora, a montagem do vídeo sobre a felicidade; dentro de semanas, dia 28, a conferência na Fundação Martins Sarmento, em Guimarães.

Ando bastante ocupado, mas, absorto num egomundo não globalizado, pouco preocupado. Dedico-me ao que gosto, sem ansiedades e com pausas prazerosas. Atraído pela diversidade com salpicos de beleza, vario a música que namoro. Hoje, convoco alternativas da adolescência, tais como o “The Godfaher”, do compositor italiano Nino Rota.
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Fotografias da conferência “Christine de Pizan: O Valor da Mulher”






O Valor da Diferença
À M

Rever-se no olhar dos outros é um consolo; não sentir o mérito reconhecido, uma desgraça. Pensei incluir os subtemas inclusão e reconhecimento no vídeo dedicado à Felicidade. Mas a duração de cerca de 1 hora já duplica o previsto. Sinal de que a participação ultrapassou as expetativas. Impõe-se filtrar e cortar. Com alguma frustração. Os três vídeos seguintes, como muitos outros, ficam, assim, de fora. Coloco-os neste último reduto. Sensibilizam!
Desbunda

Tradução do texto:
• É melhor limpar o cú com um ganso bem peludinho, desde que se segure a cabeça do ganso entre as pernas. E acreditem na minha honra. Porque sentem no cú uma voluptuosidade mirífica, tanto pela suavidade da penugem como pelo calor temperado do ganso, que facilmente se comunica ao intestino reto e a outros intestinos, até chegar à região do coração e do cérebro. E não pensem que a beatitude dos heróis e semideuses, que estão pelos Campos Elísios, esteja no seu asfódelo ou ambrosia, ou néctar, como dizem estas velhas piadas. Ela está (segundo a minha opinião) em que se limpam o cú com um ganso. (Excerto do capítulo XIII, do livro Gargântua, de François Rabelais, com primeira edição em 1534).
Quando o traseiro se adianta e o baixo se ergue, estamos perante alguma espécie de carnaval ou aproximam-se tempos brutescos. Para o bem e para o mal.
VIAGENS PELOS NATAIS

Como é bom ser professor para aprender! Na última semana, os alunos de Sociologia da Arte e do Imaginário, da Academia Sénior de Braga, foram desafiados a dar a aula. De entrega em entrega, de surpresa em surpresa, fui acarinhado com uma diversidade de momentos inesquecíveis de sabedoria experiente.
A leitura expressiva do ensaio/conto “VIAGENS PELOS NATAIS” pela própria autora, Maria Ivone da Paz Soares, representou um desses momentos inesquecíveis. Precedo o respetivo texto com a versão em pdf para mais fácil partilha e maior fidelidade à formatação original. Obrigado e continuação de boas e belas caminhadas!
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VIAGENS PELOS NATAIS
As últimas pétalas do dia estavam a esvoaçar.
E ainda lhe faltava tanto para um não sei onde. Para um ali que os pés indicavam. Os pés? Sim, uns calcanhares bussolados pelas palpitações de um sentir, de um descobrir.
E os pensamentos vindos de gavetas aleatórias assomavam, desarticulando o passo.
Porquê Natal em dezembro? E a 24/25? Pouco se sabe sobre as razões desta escolha. Havia uma prática pagã neste período correspondente ao solstício de inverno, no hemisfério norte, o dia mais curto que era comemorado como a festa do nascimento do Sol Vitorioso (“natalis solis invicti”). A Igreja primitiva denominava Jesus, como o “Sol da Justiça”.
Os Celtas celebravam o retorno da vida (no solstício de inverno – Yule) com fogueiras e velas, decorações nas árvores, banquetes, danças, desejando simbolizar a renovação e a esperança nos tempos escuros.
Tropeçou numa pedrita. Tanta coincidência(?)!!!!
Mais um passo ao lembrar-se da origem do vocábulo Natal que vem do latim “nativitas” (nascimento, geração) e este do adjetivo “nativus” (o que nasce).
Como entender esta sintonia, esta sinergia entre várias práticas religiosas? – a pessoa parou e olhou para o céu pintado de cinza, com espreitadelas de raios luminosos.
E lembrou-se que a 8 de dezembro é a Festa da Iluminação para o Budismo, o despertar para a verdade, para o autoconhecimento, para a libertação, com a Árvore Bodhi com luzes (que simboliza caminhos para a sabedoria e para o fim do sofrimento). É um período que vários budistas que vivem no ocidente ajustam algumas práticas do Natal, valorizando ideais idênticos de amor e de compaixão.
Reduziu o ritmo. Sentou-se no banco do jardim por onde estava a passar. Nem tudo na Vida é complementar, coincidente.
Como todos sabem, o Judaísmo não reconhece o Messias, porém o Hanukkah comemora-se próximo do Natal e o ato do nascimento tem uma identificação espiritual, uma ligação entre o humano e o divino; assim como é um período de bondade e de generosidade e há a utilização das luzes (candelabros junto a uma janela) neste período, em ambas as religiões. Alguns judeus também dão presentes às crianças.
Estava sentada de pernas cruzadas, já com o telemóvel na mão, a vasculhar no Google. O quê? A comemoração do Natal só surgiu mais de trezentos anos após a data provável? Sim, tem lógica: não havia espaço para uma nova religião, apesar dos romanos serem abertos.
O primeiro Natal foi comemorado em 25 de dezembro de 336, em Roma, pouco antes do Cristianismo ser oficializado no Império (e em 345 estabeleceu-se o 25 de dezembro como data de nascimento de Jesus Cristo. Até ao século V foi celebrado em Constantinopla (a capital do Império romano) o nascimento e batismo de Jesus, a 6 de janeiro (em Roma esta data ficou para lembrar a chegada a Belém dos Reis Magos, com os seus presentes) que também é festejada em algumas regiões no dia de hoje.
Trocou as pernas. Afinal esta comemoração foi escolhida para absorver e ressignificar os costumes pagãos. Ressaltam os conceitos que se interligam: celebrações litúrgicas, centro na família, ceias, presentes, conceito da generosidade e personagem adicional (São Nicolau e Pai Natal).
Também recebeu influência da tradição latina Saturnália, uma tradição festiva e com troca de presentes, a 17 de dezembro. E na Pérsia, o Deus da Luz, Mitra, era celebrado a 25 de dezembro. A Igreja primitiva absorvia e dava nova leitura aos rituais pagãos, denominado sincretismo, em vez de proibi-los ou persegui-los para angariar novos seguidores.
O espanto ficou no Egito, uma das mais antigas civilizações, marcadamente muçulmana: o Natal é celebrado a 7 de janeiro, por todos, opte pela religião que quiser, misturando o antigo e o novo, conciliando a tradição com a inovação, envoltos pelas “carols” (canções de Natal tradicionais), sob uma prova cultural enriquecedora. Claro que as decorações são luminosas, com delícias culinárias, sons e mercadorias festivos.
Quando reparou, já estava a andar. Há tanto a unir! E então, quais as razões das desuniões? Suspirou e continuou. A cadência dos passos acompanhava o que os olhos apanhavam nas linhas que eram perseguidas.
Os romanos ornamentavam os seus lares com luzes e folhas de plantas e também davam presentes às crianças e aos pobres, tendo sido esta prática absorvida nas festividades. Assim como os ritos germânicos e os costumes celtas com fogueiras, muita comida e bebida, além das luzes e de árvores decoradas.
Tradições gregas, romanas, com rituais celtas, germânicos e liturgias orientais, durante o primeiro milénio foram criando os conteúdos da festa natalícia que, nos dias de hoje, está imbuída de consumismo que enegrece a quadra, salvaguardando o ato positivo de presentear alguém e o da espiritualidade de alguns.
Até ia tropeçando… O andar com o TLM na mão pode dar estas situações…
Chegou a casa. Organizou tudo, enquanto o Santo Nicolau bailava no cérebro. E por outras culturas e continentes… Quando se fosse deitar, iria pesquisar: tinha a certeza que ia ter novas surpresas…
Já aconchegada na cama e com a almofada ao alto, continuou a mergulhar neste espírito natalício tão elaborado pelos homens e ajustado aos seus objetivos.
Estava quase a chegar. O céu estrelava! Os pés doíam e estava com sede. Quando perguntava, apontavam-lhe para aquele edifício lá ao fundo e já fora das luzes intensas da cidade. Era uma estalagem? Era um estábulo? Estava um Menino envolto numa manta com um olhar tão luminoso! E a manjedoura/berço ficou circundada(o) de uma intensa Luz.
– Pai José, necessita de alguma coisa?
– Mãe Maria, posso pegar o Menino ao colo?
As mãos da Criança elevaram-se e aconcheguei-A num abraço: era tão leve, tão sorridente, tão transparentemente sublime!
A pouco e pouco, a Criança foi crescendo e irradiava um brilho envolvente.
A pouco e pouco, a pessoa que a pegava ia ficando mais pequena, mais enlaçada nos fortes, cordiais e afetuosos braços do Menino Homem. Ao olhar-se, viu-se enroscada, enovelada no colo embalador cintilante do Menino.
Estremeceu! Acordou. Sorriu. GRATA!
Maria Ivone da Paz Soares, em Dez/25, num NATAL sem dia
Mondar barreiras, jardinar laços

La liberté c’est pouvoir choisir ses chaînes / A liberdade é poder escolher as suas correntes (AG)
Ultrapassar barreiras é um dos atributos do espírito do Natal, desígnio cada vez mais difícil de alcançar. No anúncio “The Cell”, a Lidl imaginou uma ceia partilhada pelo carcereiro e pelo prisioneiro.
Os alunos da Academia Sénior deram-me uma aula extraordinária: contos, crenças, lembranças, testemunhos, cânticos, poemas e ensaios sobre rituais coletivos homólogos do Natal (de comunhão, iluminação e esperança) através dos tempos e das religiões.
Chegado a esta idade, faltava-me uma experiência: participar num grupo, cuja motivação principal, senão única, consiste em aprender, estar e fazer em conjunto. Uma novidade e um gosto.
O burro e a violência doméstica (aumentado)
| Estou a adquirir o mau hábito de revisitar os artigos entretanto esquecidos que constam entre os 10 mais vistos no dia anterior. Não estranha que não os recorde: são perto de 4500 artigos dispersos por 15 anos. Os títulos, eventualmente apelativos, mas não descritivos, também não ajudam. Ontem, o Tendências do Imaginário somou 462 visualizações. O artigo “O burro e a violência doméstica” surgiu em quinto lugar. Escrito há 10 anos, manifesta demasiada ousadia, senão atrevimento. Não tinha ainda consciência de algumas limitações e futuras vulnerabilidades. Recupero-o, acrescentando uma citação e duas gravuras. |
O burro e a violência doméstica (março 29, 2015)

Na França pós-renascentista, o marido agredido ou dominado pela mulher era colocado às arrecuas num burro, com a cauda na mão. Neste preparo, percorria, injuriado e ridicularizado, as ruas da cidade. Em Inglaterra, era atrelado a uma carroça e coletivamente humilhado (Bough, Jill, Donkey, London, Reaktion Books, Ltd, 2011. p. 17). Estes costumes lembram-me as apupadas, que, ainda não vai muito tempo, fustigavam, pela noite dentro, o casamento de viúvos, velhos e noivos com grande diferença de idade.
Nos séculos XVII e XVIII, em França e em Inglaterra, existiam maridos agredidos e dominados pelas esposas. A sociedade não só conhecia a existência do fenómeno, como previa formas de o corrigir. Vigorava o patriarcado. Um homem vítima da mulher configurava uma inversão inadmissível dos papéis de género. Homem que é homem é dono da casa. Se é vítima da mulher que não espere solidariedade mas vexame.
Volvidos dois séculos, as nossas instituições, nacionais e internacionais, resolveram experimentar o efeito Pigmaleão. Estudaram a violência doméstica confinando-se às mulheres. Confirmaram, naturalmente, que só havia mulheres vítimas de maus tratos domésticos! Admitia-se a existência de um número reduzido de homens possivelmente vítimas da autodefesa feminina. Esqueceram-se, porventura, que esses homens tinham direitos e que os direitos não se medem aos palmos. Orientei uma investigação numa instituição de apoio à vítima. Durante a observação, apresentaram-se alguns homens. Não voltaram. Ou a solução foi súbita ou a esperança morreu. A Pós-modernidade não cumpriu o que prometeu: acabar com grandes narrativas e ideologias. Há casos em que se restauram. O patriarcalismo e o feminismo até podem complementar-se! A cegueira em relação à violência doméstica ancora-se em estereótipos tais como: “um homem é um homem” e “a mulher é quem sofre”.
Foi preciso aguardar pelos anos setenta pelo início, nos Estados-Unidos, de estudos envolvendo homens e mulheres (para o “estado da arte”, a partir de 111 estudos, http://www.cronicas.org/informe111.pdf). Os resultados são “surpreendentes”: as taxas dos homens aproximam-se das taxas das mulheres (ver http://www.fact.on.ca/Info/dom/george94.htm).

Não sou especialista em violência doméstica, mas pergunto: Já avaliaram e adaptaram os dispositivos de apoio à vítima de modo a atender quem necessita como necessita? Vários autores sustentam que as políticas zarolhas de luta contra a violência doméstica têm agravado a situação. É verdade?
Tantos disparates em tão poucas letras merecem um passeio de burro. Como Napoleão Bonaparte, a caminho do exílio.
Adenda

O GENERAL
Está tranquilo, meu rapaz; não diremos nada. Mas afundas-te em mau caminho, meu amigo; um marido que tem medo da sua mulher, é risível, palavra de honra.
MOUTONET
Não é que tenha medo, senhor conde, é porque gosto muito dela e não a quero molestar.
O GENERAL
Ta! Ta! Ta! Eu conheço isso; já vi mais que um; quando a mulher resmunga, o marido dobra as costas, e a mulher bate em cima. E tu sabes o que acontece a um homem batido pela sua mulher?
LAURENT
Então, o quê, meu tio? O que acontece?
O GENERAL
A população da freguesia junta-se, coloca o marido de bom grado ou à força sobre o dorso de um burro, com a cara virada para o lado do rabo, e passeia-o por todas as aldeias da freguesia.
LAURENT
Mas isso é muito divertido; a mim, isso divertir-me-ia imenso.
O GENERAL RINDO
Pois bem! quando te casares, poderás proporcionar-te esse prazer.
(Contesse de Ségur. Diloy le chemineau, 1868, 2e édition, Paris, Librairie Hachette, 1887. p. 114)

Abensonhar

“Abensonhar” é um verbo criado por Mia Couto no livro Estórias Abensonhadas (1994), cujos contos “falam desse território onde nos vamos refazendo e vamos molhando de esperança o rosto da chuva, água abensonhada”. Creio que estes dois anúncios latino-americanos, com balas transformadas em canetas (e votos) e um campeonato de pesca de plástico, foram, a seu tempo (2016 e 2022), abensonhados. O Presidente da República de Colômbia, Juan Manuel Santos, presente no primeiro anúncio, foi distinguido com o Nobel da Paz em 2016.
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A Harpa, o Rouxinol e a Rosa
Para alguns, a vocação do ser humano é trabalhar; para outros, explorar ou dominar. No que me respeita, partilhar. De preferência, dar. Antes de mais, prazer. Mas para dar, não basta querer. É preciso alguém para receber. Acontece não conseguir… (AG).

O Tendências do Imaginário já dedicou um artigo a Deborah Henson-Conant, versátil e surpreendente harpista e compositora norte americana, célebre pela autoria da música “The Nightingale” (O Rouxinol). Segue o original instrumental, bem como a versão, com violoncelo, interpretada pelo duo romeno Cell’Arpa (Roxana Moisanu e Mladen Spasinovici, da orquestra da Ópera Nacional de Bucareste.

Para complementar a música, talvez se proporcione a leitura do conto, com subtis ressonâncias eróticas, “O Rouxinol e a Rosa”, do Oscar Wilde, que uma amiga virtuosa e oportunamente me sugeriu.
Pode também acompanhar a leitura com outras músicas. Por exemplo, as canções “The Nightingale” (1989), da série Twin Peaks, com interpretação de Julee Cruise, ou a “Cantilena” (1969), do Padre Francisco Fanhais.
Ilustração de P. J. Lynch, 1990



