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La esperanza caminando despacito

Hébert Franck. L’Attente.

Una soledad que no acaba

Uno sale de uno

– un día –
y se encuentra
Y sín saludarse se reconoce.

Entonces se ve:
– el alma encogida,
– arrugas en la sinceridad,
– un dolor por ahí,
acurrucado
(como un niño poeta frente a la muerte),
y la vida,
caminando despacito,
despacito,
encorvada…
(René Bascopé Aspiazu. Las Cuatro Estaciones. Ed. La Mariposa Mundial. La Paz, Bolívia. 2007).

Astor Piazzolla. Milonga Del Angel. 1965. Ao vivo.

Uma solidão que não acaba

Um sai de si próprio

– um dia –
e encontra-se
E sem saudar-se reconhece-se

Então vê-se:
– a alma encolhida
– rugas na sinceridade
– uma dor ao redor,
de cócoras
(como uma criança poeta face à morte),
e a vida,
caminhando devagarinho,
devagarinho,
encurvada…
(René Bascopé Aspiazu. Las Cuatro Estaciones. Ed. La Mariposa Mundial. La Paz, Bolívia. 2007).

História de um melro que morreu por ser feliz

Pablo Picasso. Visage de la paix IV. 1950.

Um melro costuma fazer ninho no quintal. Atarefado, tem-se saído bem com os gatos. Pior destino teve “o melro” do Guerra Junqueiro, vítima da vingança do Velho Padre Cura, num extenso conto em verso que o meu avô recitava de cor. Segue a digitalização do poema “O Melro” a partir da segunda edição ilustrada do livro A Velhice do Padre Eterno (1ª edição: 1885). Segue o respetivo pdf,

Quem fala em melros, pode falar em rouxinóis. Porque a opressão e a maldade não têm pouso exclusivo. Ao melro raptaram-lhe os filhos; ao rouxinol da Cantilena de Francisco Fanhais cortaram quase tudo.

Francisco Fanhais. Cantilena. 1969. Poema de Sebastião da Gama.

Com imagens pode dizer-se muito. Com poucas imagens pode, por vezes, dizer-se ainda mais. Na curta-metragem dos bauhouse, sopra-se no medo e na esperança até que explodem como tiros e bombas. Porque as nossas asas são tão frágeis como as dos pássaros.

bauhouse. Momentum 2015 – Video Installation. 2015. Curta-metragem.

Ter um amigo / perder um amor

Capa do livro Poema a fumetti, de Dino Buzzati. 1969. Detalhe.

Faltam ao Tendências do Imaginário canções em catalão. Joan Isaac, nascido em Barcelona em 1953, com mais de vinte álbuns individuais publicados, é uma boa referência. Seguem duas canções: No, tu no (2017: o vídeo oficial apresenta uma coreografia notável) e Tenir un Amic (2020). Em jeito de anexo, acrescento um divertimento fugaz e maneirista dedicado a uma entidade abstrata, um amor qualquer, que tanto pode ser uma pessoa, um fenómeno ou uma instituição.

Joan Isaac. No, tu no. Manual d’amor. 2017. Vídeo oficial.
Joan Isaac. Tenir un Amic. L’estació dels Somnis. 2020.

Destino Passado
Vim p’ra te dizer
Que não sou aquele que te ama
Como podes ver
Já não me aquece a tua chama

Vim p’ra te dizer
Que não sou teu nem tu minha
Como podes ver
A nossa sombra já não caminha

Prefiro o vazio do abrigo
Ao brilho do sol contigo
Já não andas a meu lado
És meu destino passado

Se não me aquece a tua chama
Já não sou aquele que te ama
Se a nossa sombra não caminha
Não sou teu nem tu és minha
Deixei de te ter a meu lado
Passaste a destino passado

A tragédia de Silka

Ilse Losa. Silka. Ilustrado por Manuela Bacelar. 1989.

Os silkies (ou selkies) são criaturas mutantes da mitologia nórdica, nomeadamente das Ilhas Faroé, Islândia, Irlanda e Escócia. Vivem como focas no mar e humanos na terra. Para transitar de um meio para outro, têm que retirar, ou recolocar, a sua pele de foca. Sem as suas peles, as silkies, de rara beleza, convivem à vontade com os humanos, mas, mal recuperam a pele, não hesitam em regressar ao mar. Os contactos com os humanos são breves e espaçados de sete em sete anos. Regressada ao mar, a silkie evita rever o seu marido humano, mas não se furta a brincar com os filhos na praia.

As lendas com silkies assinalam a dualidade, difícil de conciliar, entre o mar e a terra, mundos separados entre os quais o trânsito só é possível mediante uma metamorfose associada a uma mudança de pele. Mas a pele que liga os dois mundos acaba por encerrar uma vulnerabilidade fatal que conduz a uma morte insólita e terrível. A pele como chave abre a porta a um destino invulgarmente trágico. The Selkie of Suleskerry distingue-se como uma das lendas mais célebres:

Uma jovem tem um filho de um homem desconhecido que se revelou ser um silkie: homem na terra, foca no mar, residia nas rochas de Sule. Volvidos sete anos, a criatura do mar regressa para reclamar o filho, ao qual oferece uma corrente de ouro. A mãe deixa-o partir. Passado algum tempo, esta casa-se com um caçador negociante em peles de animais. Um dia o marido regressa a casa com as peles de duas focas que tinha matado com o fim de as oferecer à esposa: uma era de uma velha foca cinzenta, a outra de uma foca jovem com uma corrente de ouro no pescoço! Ela morre, dilacerada pela dor causada por esta visão.

A lenda The Selkie of Suleskerry inspirou uma balada, com várias versões, entre as quais de Joan Baez (vídeo 1). A interpretação do trio britânico Serious Kitchen resulta particularmente interessante (ver vídeo 2). Angelo Branduardi traduziu a balada para italiano acompanhando-a com um arranjo próprio (álbum Il Rovo e la Rosa: ballate d’amore e di morte; ver vídeo 3). Mas o motivo principal deste artigo não reside nem no trio Serious Kictchen, nem em Angelo Branduardi, nem na lenda de Silkie em si mesma. Este artigo é dedicado ao conto Silka (Edições Afrontamento, 1989), um texto original de Ilse Losa, escritora portuguesa de origem alemã. Estimo-o como um dos contos mais maravilhosos que me foi dado devorar. Para preservar o impacto da surpresa, não adianto mais nada. Reforço apenas o convite: ao investir alguns minutos nesta leitura, não perderá tempo, conquistará um momento feliz. Para aceder ao conto, carregar na imagem com a capa do livro ou no seguinte link:

Joan Baez. Silkie. Joan Baez. Vol. 2. 1961.
Serious Kitchen. The Selkie O’ Suleskerry. Tig. 2002. Recorded at The High Barn in February 2013.
Angelo Branduardi. Silkie. Il Rovo e la Rosa: ballate d’amore e di morte. 2013.

The Selkie O’ Suleskerry. Letras.

I
An earthly nurse sits and sings,
And aye, she sings by lily wean,
“And little ken. I my bairn’s father,
Far less the land where he dwells in.
II
For he came one night to her bed feet
And a grumbly guest, I’m sure was he,
Saying, “Here am I, thy bairn’s father,
Although I be not comely.”
III
He had ta’en a purse of gold
And he had placed it upon her knee
Saying, “Give to me my little young son,
And take thee up thy nurse’s fee.”
IV
“I am a man upon the land,
I am a silkie on the sea,
And when I’m far and far frae land,
My home it is in Sule Skerrie.”
V
“And it shall come to pass on a summer’s day,
When the sun shines bright on every stane,
I’ll come and fetch my little young son,
And teach him how to swim the faem.”
VI
“Ye shall marry a gunner good
And a right fine gunner I’m sure he’ll be,
And the very first shot that e’er he shoots
Will kill both my young son and me.”
 
Silkie
Col suo bambino stretto al seno
Stava piangendo una fanciulla
“Chi sia tuo padre non so più dire
Così remoto ora lui vive”
 
Ma a notte fonda lui ritornò
Un’ombra oscura che gemeva:
“Io sono il padre del tuo bambino
Benché non sia il benvenuto
 
Io sono un uomo sulla terra
Io sono un Silkie nel mio mare
Ma quando da te io vado lontano
La mia dimora è Sule Skerrie”
 
E poi lui prese una borsa d’oro
E la depose ai suoi piedi:
“Tu ora dammi il mio bambino
Questa è la paga per le tue cure
 
E quando poi verrà l’estate
Col sole ardente sulle pietre
Io prenderò il mio bambino
E nuoteremo tra le onde
 
“Tu troverai un buon marito
Un buon fucile al suo fianco
Ed io già so che al primo colpo
Ucciderà mio figlio e me”

Estamos no vento

Fernando Namora. Estamos no vento. 1974

Fluxos e refluxos, eventualmente, alterados. De onde sopram os ventos? Do Oeste? Do Leste? Os seguintes anúncios provenientes de quatro países (Tailândia, Índia, Malásia e China) dão que pensar.

Em Window with view, da SCG Home, a ilusão publicitária externa é substituída pela interioridade do lar; em It’s time to change the equation, da Olay, a desigualdade de género não remete para uma falocracia abstrata mas para a proximidade experiencial comunitária, tendo como agentes o pai, a mãe, os vizinhos, o amigo, a professora, o funcionário; em A spark for change, do RHB Bank, a redenção ecológica de uma civilização incivil não é fruto de uma qualquer organização global mas da soma mimética de um impulso infantil, espontâneo, puro e inocente; e em Meet the OnePlus Buds Z2, da OnePlus, a ficção ocidental à James Bond é parodiada com uma sobrecarga de motivos absurdos e grotescos.

Assistimos a uma ocidentalização do oriente ou a uma orientalização do ocidente? Há quem sustente que o tempo é de orientalização. É plausível. Certo é que, de um ou de outro quadrante, estamos no vento, vento que sopra hoje o amanhã emergente.

Estamos no vento: narrativa literário-sociológica (1974) é o título de um livro de Fernando Namora dedicado às transformações e aos novos movimentos sociais, em particular juvenis, que desafiam o Ocidente. Esta obra, que se propõe sentir a pulsação da sociedade contemporânea, inspirou a minha vocação. Um legado e uma memória que se me afigura não vibrar o suficiente no rodopio da paisagem intelectual portuguesa atual. Pelo menos, vista de onde estou, do meu inconformado miradouro. Representa, porém, uma abordagem lúcida, atenta à mudança, uma brisa de frescura na crista da história.

“A sociedade ocidental está em crise: crise de crescimento, crise de adaptação. As velhas estruturas não suportam já uma mentalidade que, partindo da juventude, dia a dia se impõe e generaliza” (Fernando Namora. Estamos no vento, 1974, da capa do livro).

Regressando ao tema inicial, Fernando Namora releva, há quase meio século, a tendência de “orientalização do Ocidente”. Leia-se, por exemplo, o que escreve na página 190:

Fernando Namora. Estamos no Vento, p. 190. Extraído do site Fernando Namora (httpfernando-namora.blogspot.com)
Marca: SCG Home. Título: Window with the view. Agência: Saatchi & Saatchi. Direção: Suthon Petchsuwan. Tailândia, maio 2020.
Marca: Olay. Título: It’s time to change the equation. Agência: Publicis Singapore. Índia, janeiro 2022.
Marca: RHB Bank. Título: A spark for change. Agência: FCB Malaysia. Direção: Telly Koay. Malásia, janeiro 2022.
Marca: OnePlus. Título: Meet the OnePlus Buds Z2. Produção:  Sweetshop Shanghai. Direção: Sebastien Guy. China, janeiro 2022.