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O avô

René Magritte. O Libertador. 1947.

René Magritte. O Libertador. 1947.

Lançar um anúncio que dura seis minutos e meio é uma ousadia. Talvez a solução assente numa narrativa simples, em alguns gestos simbólicos, muita poesia, muita estética e muita emoção. É o caso do El Regalo, da marca Plátano de Canárias: a interacção resume-se a três gerações: o pai, o avô, mais a neta. A cumplicidade marca  relação do avô e da neta. Partilham uma carcaça de automóvel como portal para o sonho. Falecido o avô, o pai acaba por o substituir. Diz-se que “avô é pai duas vezes”. Mas tudo muda, até a mudança (Luís de Camões). Aproxima-se o tempo em que cumprirá ao pai ser avô duas vezes: do filho e dos netos. E, por último, quem sabe, o avô da santa casa da misericórdia.

Marca: Plátano de Canárias. Título: El Regalo. Agência: El Ruso de Rocky, Espanha, Dezembro 2017.

Em terras de Espanha, vem a preceito a canção El Abuelo, de Manolo Escobar.

Manolo Escobar. El Abuelo. Aromas. 1997.

As danças de Matisse

« J’ai toujours essayé de dissimuler mes efforts, j’ai toujours souhaité que mes œuvres aient la légèreté et la gaieté du printemps qui ne laisse jamais soupçonner le travail qu’il a coûté » (Matisse, Henri, 1948, Carta a Henry Clifford).

Henri Matisse pintando a Dança, c. 1931.

Henri Matisse pintando A Dança, c. 1931.

Matisse with his painting The Dance (1932–33) in Nice, France, 1933.

Henri Matisse à frente da pintura A Dança (1932–33) em Nice.

Entre dois relatório de atividades, o pessoal e o do Departamento, o olhar deixa-se atrair por outros encantos. Um quadro de Matisse é outra louça. Matisse é um caso à parte na história da pintura: expoente do fauvismo, foi um dos artistas mais influentes do século XX, sobretudo, nos Estados Unidos. Andy Warhol terá exclamado: “Gostava de ser Matisse”.

Henri Matisse. A dança de Paris. 1931-1933. Fotografia de Henning Høholt.

Henri Matisse. A dança de Paris. 1931-1933. Fotografia de Henning Høholt.

Henri Matisse. A dança. Barnes Foundation. 1933.

Henri Matisse. A dança. Barnes Foundation. 1933.

As obras que Henri Matisse dedica à dança encontram-se entre as mais marcantes. Por exemplo, La Danse de 1910 (Museu Hermitage), mas também o tríptico La Danse de Mérion, encomendado por Albert Barnes, coleccionador de arte, patente na Barnes Foundation, em Filadélfia. Matisse pintou duas versões anteriores deste tríptico que se encontram no Musée de l’Art Moderne, em Paris.

Henri Matisse. A dança. 1910. Museu Hermitage.

Henri Matisse. A dança. 1910. Museu Hermitage.

Henri Matisse. Blue Nude (I). 1952

Henri Matisse. Blue Nude (I). 1952

O que me distraiu não foram as pinturas de Matisse. Foi uma fotografia, enviada pela Adélia, com Matisse a traçar o esboço de um tríptico, em cima de um banco munido com uma cana de bambu. Quem diz que pintar é fácil não conhece Matisse: “Algumas das minhas gravuras acabei-as após centenas de desenhos” (citado em  Schneider, Pierre, 1984, Matisse, Flammarion, p. 578).

Como suplemento dançante, a música Avlägsen Strandvals (1981) do acordeonista sueco Lars Hollmer, acompanhada por uma selecção de quadros de Paula Rego. Trata-se de um excerto da parte final do vídeo O Desconcerto do Mundo (2005).

Albertino Gonçalves. O Carrossel. Excerto de O Desconcerto do Mundo. 2005.

A pedreira das luzes

Carrières de Lumières. Baux de Provence

Carrières de Lumières. Baux de Provence

Em Baux de Provence, em França, uma pedreira de calcário branco foi transformada num espaço museológico imersivo que acolhe exposições de obras de arte: a Carrière de Lumières. Com técnicas avançadas de projecção, as paredes, num total de 4 000 m2, animam-se com imagens gigantescas, algumas em movimento. Pela Carrières de Lumières, já passaram Paul Cézanne, em 2006, Vincent Van Gogh, em 2008, Pablo Picasso, 2009… Uma exposição com Hieronymus Bosch, Pieter Bruegel e Giuseppe Arcimboldo está patente até 07 de Janeiro de 2018. Um ramalhete fantástico, acompanhado pela música de Vivaldi e dos Led Zeppelin. Um espectáculo empolgante. “Os franceses não têm petróleo, mas têm ideias”. Obrigado, Adélia!

Bosch, Bruegel e Arcimboldo. Carrières de Lumières. 2017

Avatar narcisista

Caravaggio. Narciso. 1594-96.

Caravaggio. Narciso. 1594-96.

“Há demasiados Narcisos no mundo, pessoas enamoradas por si mesmas (…) Cientes do seu mérito, cheios de uma ideia que lhes é cara, passam a vida a admirar-se. Que será preciso para os curar de uma loucura que parece incurável? (…) Falar-lhes com a simplicidade da verdade” (Montesquieu, Eloge de la Sincérité, 1717).

Nos tempos que correm, convém ter avatares. Tenho sete: Soneca, Dengoso, Feliz, Atchim, Mestre, Zangado e Dunga.
Hoje, Dengoso queixou-se:
“Dou palavras, ideias e abraços, dou de tudo, mas não me dou. Nem a mim me sei dar. Sou um bicho do mato, um narciso sem sementes”.
O Dengoso está a passar por uma má fase. Não sei se o leve a um psicanalista ou a um sociólogo. Retirar os espelhos não é solução.

Jacques Dutronc. Et moi, et moi, et moi. Jacques Dutronc. 1966.

Letra : Jacques Dutronc. Et moi, et moi, et moi. 1966

Sept cent millions de chinois
Et moi, et moi, et moi
Avec ma vie, mon petit chez moi
Mon mal de tête, mon poids
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
Quatre vingt millions d’indonésiens
Et moi, et moi, et moi
Avec ma voiture et mon chien
Son Canigou quand il aboit
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
Trois ou quatre cent millions de noirs
Et moi, et moi, et moi
Qui vais au brunissoir
Au sauna pour perdre du poids
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
Trois cent millions de soviétiques
Et moi, et moi, et moi
Avec mes manies et mes tics
Dans mon p’tit lit en plumes d’oie
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
Cinquante millions de gens imparfaits
Et moi, et moi, et moi
Qui regardent Catherine Langeais
À la télévision chez moi
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
Neuf cent millions de crève la faim
Et moi, et moi, et moi
Avec mon régime végétarien
Et tout le whisky que je m’envoi
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
Cinq cent millions de sud américains
Et moi, et moi, et moi
Je suis tout nu dans mon bain
Avec une fille qui me nettoie
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
Cinquante millions de vietnamiens
Et moi, et moi, et moi
Le dimanche à la chasse au lapin
Avec mon fusil, je suis le roi
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
Cinq cent millards de petits martiens
Et moi, et moi, et moi
Comme un con de parisien
J’attends mon chèque de fin de mois
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie

Domus Aurea: o sonho enterrado (revisto)

O artigo Domus Aurea: o sonho enterrado vai integrar o livro A morte na arte, numa secção intitulada A morte das coisas. Vai ser o artigo mais antigo do livro (Abril 2012), bem como o mais visitado do blogue, graças, em boa parte, ao facto de ter sido recomendo pelo jornal El País.

As figuras grotescas remontam, pelo menos, ao primeiro século da era cristã. Os frescos fabulosos descobertos nas “grutas” subterrâneas das “termas de Tito” pertenciam, de facto, à Domus Aurea, o palácio edificado por Nero, após o incêndio de Roma, entre 64 d.C. e 68 d.C. Era, anacronismo à parte, o palácio de Versalhes da antiguidade romana.

O Templo de Vénus e Roma visto do Coliseu.

01. O Templo de Vénus e Roma visto do Coliseu.

Ocupava entre 40 e 80 hectares, consoante as estimativas, junto ao futuro Coliseu. Ostentava uma cúpula dourada e comportava 300 aposentos. Entre os acabamentos extravagantes, contavam-se frescos com grotescos que cobriam paredes e tectos.

Domus Transitoria. Frescos.

02. Domus Transitoria. Fresco.

O estilo grotesco já era patente na Domus Transitoria, anterior palácio imperial de Nero (figuras 2). Um século antes, os “grotescos” eram “moda” em Pompeia (figuras 3), cuja escavação arqueológica só começou no século XVIII (a partir de 1749). A maior parte das casas de Pompeia adornavam-se com frescos ao jeito grotesco, com efeitos de ilusão a que se associava uma profusão de figuras fantásticas. Um estilo de decoração retomado na Domus Transitoria e na Domus Aurea.

Pompeia. Frescos

03. Pompeia. Fresco

O sucesso da descoberta dos frescos da Domus Aurea, por finais do século XV, acabou por lhes ser fatal. A curiosidade imprudente dos visitantes, o vandalismo, a rapinagem e a exposição aos elementos naturais contribuíram para que poucos fragmentos tenham sobrevivido. Há vestígios de buracos abertos nos tectos para acesso. A humidade, a chuva e a oxidação foram inclementes. A pilhagem dos monumentos e das ruínas em Roma era, na época, de tal ordem que o Papa Benedicto XIV ( 1675-1740) classificou o Coliseu como lugar sagrado para obstar à sua degradação.

Domus Aurea. Frescos do quarto estilo na sala 78. 64-68 d.C.

04. Domus Aurea. Frescos do quarto estilo na sala 78. 64-68 d.C.

Existem gravuras antigas elucidativas de como era a Domus Aurea aquando da sua descoberta. Nos séculos XVI a XVIII, a pintura e o desenho de monumentos eram apreciados. Graças a essas obras, é possível conceber o aspecto exterior ( (Figuras 5 a 7) e interior das ruínas (Figuras 8 a 15).

Francisco de Holanda esteve em Roma entre 1537 e 1540,  no rescaldo da descoberta das “grutas das Termas de Tito”. Teve o ensejo de produzir 29 desenhos sobre a decoração da Domus Aurea, com um rigor que reivindica, em 1540, para uma das suas cópias: “tal como eu mesmo vi e tal como me coloquei”. Infelizmente, destas 29 gravuras, apenas restam três aguarelas reproduzidas no Álbum dos Desenhos das Antigualhas (Livros Horizonte, 1989): o tecto da Sala Dourada, a divisão principal da Domus Aurea (figura 08), e dois  frescos parietais entretanto destruídos (figuras 9 e 10).

Volvidos dois séculos, em 1774, Ludovica Mirri, um mecenas da arte, contratou Vicenzo Brenna, Francesco Smuglewiz e Marco Carloni para copiar as decorações interiores da Domus Aurea. Resultaram mais de sessenta gravuras. As figuras 11 a 15 constituem uma pequena amostra dos resultados da missão. A figura 07, da autoria da mesma equipa, é sugestiva da popularidade das ruínas. Convém ressaltar que estas gravuras foram concebidas em finais do século XVIII, em pleno período neoclássico. É possível que, dois séculos após a descoberta da Domus Aura, alguns frescos já não apresentassem contornos tão precisos.

Os artistas não se limitaram a retratar as ruínas e os frescos sobreviventes. Giacomo Lauro, em 1612, e Fischer von Erlach , em 1721, arriscam reconstruir a Domus Aurea original (Figuras 16 e 17). Os seus desenhos não se afastam muito da reconstituição avançada, em 2014, pela Altair4 Multimedia (Figura 18; ver documentário Domus Aurea outside: https://www.youtube.com/watch?time_continue=102&v=5b1xKrVEM0c). Coincidem quanto à envergadura gigantesca, nomeadamente da fachada, e na existência de um lago. O colosso de Nero, uma estátua com 30.3 metros (segundo Plínio, História Natural, xxxiv, 39) não consta das gravuras dos séculos XVII e XVIII.

“A Domus Aurea abraçava toda a Roma” (Plínio, História Natural, XXXII, 54). Apesar da sua imponência, foi destroçada e enterrada em poucas décadas. Nero “suicidou-se” em 68 d.C. O seu sucessor, Galba, declara a herança de Nero não grata (damnatio memoriae). A Domus Aurea começa a ser, de imediato, despojada e entulhada.

Ruínas das termas de Trajano

19. Ruínas das termas de Trajano

A cisterna das sete salas. Termas de Trajano

20. A cisterna das sete salas. Termas de Trajano

Dois anos após a morte de Nero, em 70, Vespasiano inicia a construção do Coliseu, no espaço do lago da Domus Aurea. Em 81, as Termas de Tito são erguem-se sobre os escombros do palácio de Nero. Trajano acrescenta novas termas, também sobre a Domus Aurea (Figuras 19 e 20). Em 121, Adriano inicia a construção do Templo de Vénus e Roma (Figura 1), deslocando para o efeito o colosso de Nero, cuja cabeça tinha sido, entretanto, substituída. Em pouco mais de 50 anos, a Domus Aurea foi arrasada e esmagada por edifícios de grande dimensão. Foi enterrada à nascença.

Fotografias do interior da Domus Aurea

 

O amor da arte

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“A arte é o caminho mais curto do homem ao homem” (André Malraux, 1949, Psychologie de art: La création artistique, Genève, Editions Albert Skira)

Um anúncio com arte assinado pela Lexus. É raro surpreender obras de arte tão bem incorporadas num vídeo. Uma pequena galeria com quadros de Vermeer, Mondrian, Van Gogh, Seurat, Hopper e escultura de Koons. Nada como o bom gosto. Diga-o com flores? Diga-o com arte. A Lexus deixa-se afagar pela aura da arte.

Marca: Lexus. Título: The art of standing out. Agência: Chi & Partners. Direcção: NE-O. Europa, Novembro 2017.

O Galo e a morte. A arte de morrer

 

Uma mulher confidencia a outra que acabou de viver uma situação de emergência médica: “O galo rondou esta casa, deu várias voltas, mas foi pousar noutro sítio”. Por coincidência, um vizinho faleceu nessa noite.

O galo é um símbolo solar. Anuncia a aurora e a luz. É também um símbolo de valentia. Na mitologia grega, o galo, consagrado a Hermes, é um psicopompo, “função tradicionalmente atribuída a Hermes no mito grego, pois ele, além de mensageiro dos deuses, era o deus que acompanhava as almas dos mortos, sendo capaz de transitar entre as polaridades (não somente a morte e a vida, mas também a noite e o dia, o céu e a terra)” (Dicionário Crítico de Análise Junguiana, Edição Eletrônica © 2003 Andrew Samuels/Rubedo, p. 88). Além desta função de transição entre as polaridades (as trevas e a luz; a morte e a vida), o galo comporta um lado lunar.

 

Existem imensas histórias em que a morte e o galo se cruzam. O galo de Barcelos é o primeiro exemplo que ocorre. Cozinhado e ressuscitado, o galo é protagonista de uma lenda marcada pela morte (ver https://tendimag.com/2017/08/20/o-cruzeiro-do-senhor-do-galo-em-barcelos-revisao/). Acresce o galo da Negação de São Pedro antes da crucificação de Cristo. A associação do galo à morte está arreigada na crença popular. No Brasil, em Espanha e em Portugal, acredita-se que o canto do galo fora de horas (antes ou à meia-noite) é mau augúrio: alguém da casa, ou vizinho, vai morrer. O galo junta-se, assim, aos animais anunciantes da morte: o mocho, a borboleta negra, o morcego, o cão, o gato… Um conto brasileiro inicia com um galo a matar uma criança. A mãe pede a outro filho para matar o galo e o abandonar em água corrente. O filho não segue a recomendação. Ele e três amigos matam o galo, cozinham-no e morrem antes de o provar (http://www.recantodasletras.com.br/contosinsolitos/830891).

03. Mestre E.S. Tentação da falta de fé. Ca. 1450

03. Mestre E.S. Tentação da falta de fé. Ca 1450

Estas gravuras de Mestre E. S. (1420-1468) foram publicadas no ano em que nasceu Hieronymus Bosch (1450-1516). Artes distintas, temas semelhantes: a morte, o pecado, a condenação, o céu e o inferno (Figuras 1 e 2). As gravuras de Mestre E. S. integram a torrente de imagens dedicadas à Ars moriendi (Arte de morrer). Testemunham uma mudança de atitude perante a morte. Observa-se uma antecipação do juízo final. A decisão deixa de esperar pelo fim dos tempos para se concentrar no momento de morrer. Continua a envolver um combate cósmico. De um lado, as forças celestiais, do outro, as forças demoníacas. As pessoas presentes não conseguem ver estas forças que disputam a alma do defunto. Apenas o moribundo (atente-se no alheamento do grupo de três pessoas na Figura 3). Acredita-se que o moribundo é submetido a uma prova, a uma tentação. Consoante a sua reacção assim é salvo ou condenado, não obstante as boas ou as más acções do livro da vida. Num ápice, resgata-se ou desgraça-se uma vida inteira. Faz sentido convocar o pensamento de Petrarca: “Que uma bela morte toda a vida honra”. Neste quadro, os livros dedicados à Ars moriendi, à arte de morrer, alcançam um enorme sucesso.

04. Mestre E.S. Ars moriendi. Ca. 1450

04. Mestre E.S. Ars moriendi. Ca 1450

“O moribundo está recostado, rodeado pelos seus amigos e parentes. Seguem-se os rituais bem conhecidos. Mas sucede algo que perturba a simplicidade da cerimónia e que os assistentes não vêem; um espectáculo reservado apenas ao moribundo, que, por acréscimo, o contempla com um pouco de inquietação e muita indiferença. A habitação foi invadida por seres sobrenaturais que se apinham na cabeceira do jazente. De um lado, a Trindade, a Virgem e toda a corte celestial; do outro, Satanás e o exército dos demónios monstruosos. A grande concentração que nos séculos XII e XIII tinha lugar no fim dos tempos ocorre, a partir de agora, no século XV, na habitação do enfermo (…) Deus e a sua corte estão ali para constatar como o moribundo se vai comportar no momento da prova que lhe é proposta antes do seu último suspiro e que vai determinar a sua sorte na eternidade. A dita prova consiste numa última tentação. O moribundo verá a sua vida inteira tal como está contida no livro, e será tentado, tanto pelo desespero das suas faltas como pela vanglória das suas boas acções, bem como pelo amor apaixonado das coisas e dos seres. A sua atitude, no resplendor desse momento fugitivo, apagará de um só golpe todos os pecados da sua vida se afasta a tentação ou, pelo contrário, anulará todas as suas boas acções se não lhe resiste. A última prova tomou o lugar do Juízo Final” (Ariès, Philippe, Historia de la muerte en Occidente, Barcelon, Cadernos Crema, 2000,  pp. 48 e 49).

05. Mestre E.S. Ars moriendi. Ca. 1450

05. Mestre E.S. Ars moriendi. Ca 1450

As gravuras de Mestre E. S. condizem com a análise de Philippe Ariès. Na hora da morte, defrontam-se as cortes celestial e demoníaca. Na gravura da Figura 3, apesar das preces do rei e da rainha, o desfecho inclina-se para o lado do inferno. Na gravura seguinte (Figura 4), a prova está vencida: um anjo acolhe a alma do defunto. Na terceira gravura (Figura 5), pela disposição dos protagonistas, o moribundo está a superar a prova. A chave de São Pedro está próxima e os demónios parecem resignados. À cabeceira do leito, destaca-se um galo. Qual é o seu papel? Cantor de mortes? Psicopompo? “Luz da noite”, o galo situa-se, de facto, entre dois mundos: o céu e o inferno, a luz e as trevas, a vida e a morte. O galo é também “companheiro” inseparável de São Pedro. Na morte como na vida, a polissemia é uma tentação, que tem a virtude de nos fazer oscilar.

O Cristo de Burgos e a Androginia da Igreja

01. Cristo de Burgos. Igreja da Irmandade das Almas de S. José das Taipas. Porto

01. Cristo de Burgos. Igreja da Irmandade das Almas de S. José das Taipas. Porto

Na Igreja da Irmandade das Almas de S. José das Taipas, na cidade do Porto, deparamos com uma pintura de Cristo com uma espécie de “saiote”, evidenciando, aparentemente, traços andróginos, nomeadamente ao nível das pernas. Na base da cruz, uma inscrição identifica-o como o “Santo Cristo de Burgos” (Figura 1).

2. Santo Cristo de Burgos. Catedral. Espanha.

2. Santo Cristo de Burgos. Catedral. Espanha.

A imagem original, uma escultura datada do séc. XIV, encontra-se na catedral de Burgos (Figura 2). Uma lenda sustenta que a escultura foi descoberta no mar a bordo de um galeão fantasma, sem tripulação, acompanhada por uma mensagem a pedir que fosse colocada em local magnificente e apropriado.

3. Santo Cristo de Burgos. Semana Santa. 2016.

3. Santo Cristo de Burgos. Semana Santa. 2016.

A escultura manteve-se à guarda do Mosteiro Real de Santo Agostinho, de Burgos, até 1833, ano em que foi transladada para a Catedral. Figura proeminente durante a Semana Santa, a escultura é articulada (Figuras 3 e 4). As articulações são cobertas com pele, o cabelo é verdadeiro, bem como as unhas. Consta que os cabelos e as unhas crescem, sinal milagroso de vida para além da morte.

4. Santo Cristo de Burgos. Semana Santa. Espanha.

4. Santo Cristo de Burgos. Semana Santa. Espanha.

A imagem do Santo Cristo de Burgos está disseminada por todo o mundo, mormente ibero-americano. No Santo Cristo de Burgos, na Igreja de S. Francisco, de Quezon, nas Filipinas (Figura 5), reconhecemos os mesmos indícios de androginia, presentes na pintura do Porto e na escultura de Burgos. Certo é que, retirando o saiote, a imagem de Cristo não se distingue daquelas a que estamos habituados.

5. Santo Cristo de Burgos. Saraya, Quezon. Filipinas.

5. Santo Cristo de Burgos. Saraya, Quezon. Filipinas.

Mas a questão não é de todo despropositada. Carl Gustav Jung sustenta, apoiando-se em Georg Koepgen (Die Gnosis des Christentums, Salzburg, 1939) , a androginia não só de Cristo mas da própria Igreja:

“Koepgen fala do conflito apolíneo-dionisíaco da Antiguidade, cuja solução cristã consiste em “que na pessoa de Jesus o masculino esteja unido ao feminino”. “Somente nele se encontra esse lado-a-lado do masculino e do feminino em vigorosa unidade”. “Se no culto cristão a Deus se encontram reunidos homens e mulheres com direitos iguais, tem isso mais do que um significado casual: é a realização da androginia (…) tornada visível em Cristo (…) A tensão e a lutas dos opostos do sexual se acha compensada em Jesus por meio da unidade andrógina”. A Igreja quanto à constituição é “hierarquicamente masculina, mas a alma da Igreja é de todo feminina” (…) Para Koepgen, pois, não apenas Cristo é andrógino, mas de modo considerável também a Igreja, conclusão cuja lógica não se pode negar” (Jung, Carl Gustav, Obras Completas de C. G. Jung – Mysterium Coniunctionis: Rex e Regina; Adão e Eva; a Conjunção – Volume 14/2. Editora Vozes, 2011, pp. 154-155).

Morte, erotismo e política (revisto)

 

Jean-Michel Basquiat. Riding with Death. 1988.

01. Jean-Michel Basqjuiat. Riding with Death. 1988.

Riding With Death, de Jean-Michel Basquiat (1960-1988), é uma pintura que surpreende. Foi concluída em 1988, ano em que Basquiat faleceu, com 27 anos de idade, vítima de uma overdose de uma mistura de cocaína e heroína. Muitos encaram esta pintura como uma premonição. Mas quase toda a obra de Basquiat convoca a morte: esqueletos, caveiras, corpos transparentes, frases… Entre as imagens da morte, não tenho memória de uma “figura humana”, eventualmente híbrida, a cavalgar a morte. São, aliás, raras as imagens em que a morte aparece subordinada, como no episódio da descida de Cristo ao inferno (ver O Triunfo sobre a Morte).

Quem conduz? O título do quadro não é “Riding Death”, cavalgando a morte, mas Riding With Death, cavalgando com a morte. Estes cambiantes lembram duas lendas. Na primeira, conduz quem é montado. É o caso do rapto de Europa por Zeus, transformado em touro. Europa senta-se no dorso do touro que a sequestra ( ver O rapto de Europa. Com os olhos no retrovisor). Na segunda lenda, com Filis e Aristóteles, conduz quem monta.

Alexandre O Grande andava perdido de amores por Fílis, uma bela mulher proveniente da Índia. Ao ponto de descurar as responsabilidades e o governo do império. Aristóteles, tutor de Alexandre, chamou-o à razão: devia moderar os seus encontros com Fílis. Alexandre acedeu ao pedido de Aristóteles.

Fílis não gostou da interferência de Aristóteles. Decidiu, com êxito, seduzi-lo. É a vez de Aristóteles andar perdido de amores por Fílis.

06. Filis e Aristóteles., Cadouin Abbey, França

06. Filis e Aristóteles., Cadouin Abbey, França. Fim do séc. XV – início do séc. XVI.

Um dia, Fílis propõe a Aristóteles: “dou-te o meu corpo, mas, primeiro, acedes que ande montada nas tuas costas”, segundo algumas imagens, com rédeas, chicote e esporas (ver Figura 9). Alexandre, avisado, assistiu à cena. Quis expulsar Aristóteles. Mas, em verdade, só agora a lição se perfazia: se até um velho sábio não resiste ao encanto de uma mulher, que esperar de um jovem rei”.

A imagem de Fílis a montar Aristóteles, com trejeitos de sadomasoquismo, tornou-se célebre, em particular, na Idade Média e, sobretudo, no chamado Renascimento do Norte. De qualquer modo, esta lenda comporta uma lição claramente expressa: o erótico desafia o sábio e o político.

09. George Pencz. Fílis e Aristóteles. 1530. Para além das rédeas, Filis usa esporas.

09. George Pencz. Fílis e Aristóteles. 1530. Para além das rédeas, Filis usa esporas.

Um último apontamento sobre a Farsa de Inês Pereira (1523), de Gil Vicente. Inspirada na máxima “mais quero um asno que me carregue do que cavalo que me derrube”, a farsa termina com o segundo marido a carregar às costas Inês Pereira para a levar até ao amante, o Ermitão. “Pois assi se fazem as cousas” ( ver pdf: Gil Vicente. Farsa de Inês Pereira. Parte final).

O triunfo sobre a morte: San Martin de Artaíz

“Abençoado aquele que vai buscar água e traz vinho” (Albertino Gonçalves).

Dvein é um grupo criado em Barcelona pelos realizadores Teo Guillem e Carlos Pardo. No anúncio Sculpture (2013), para a Rdio, surge uma figura híbrida insólita: a cabeça é de uma mulher com duas faces, o tronco, um bricolage de objectos e os membros, tentáculos de polvo (Figura 1).

Dvein Sculpture 2

01. Dvein. Sculpture. 2013

Composições híbridas combinando partes humanas, animais e técnicas surpreendem cada vez menos. Figuras semelhantes a esta existem há séculos. Atente-se, por exemplo nas quimeras das iluminuras ou nas gravuras pantagruélicas de Desprez (ver Criaturas Pantagruélicas 1). Das luzes do bestiário multimédia recuemos para as sombras do paganismo românico. As figuras bifrontes e trifrontes não são raras (ver Três faces e um pescoço; e As três faces de Cristo). Encontram-se, por exemplo, nos cachorros das igrejas românicas, como o “Janus” (Figura 2) na igreja de San Martin de Artaíz (séc. XII).

San Martin de Artaíz

02. Janus e São Martinho. Igreja de San Martin de Artaíz. Navarra. Séc. XII.

“El dios Jano me mira con miradas extrañas y diferentes. Según donde me coloque hay matices en ella. Mirada profunda y fija iluminada por la luz. Mirada de complicidad medio en sol medio en sombra.Los tres rostros del tiempo nos hablan del pasado, del presente y del futuro. Siempre en cambio. Siempre con matices. Siempre inmutable. Tres y uno. Dios pagano cristianizado. Tres rostros distintos. Tres rostros iguales. Tres personas distintas y un solo Dios verdadero, dice su credo.
Muy fuerte parece que fue la influencia romana en esta zona, pues por cinco veces a lo largo de los siglos XII, XIII y XIV, los representantes de la Iglesia Católica tuvieron que acudir a plasmar ante sus gentes esta figura y convencerles de que era la representación del Padre, del Hijo y del Espíritu Santo” (Simeón Hidalgo Valencia, Artaíz – Luz Equinoccial: http://simeonhidalgo.over-blog.com/tag/artaiz/2).

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03. Igreja de São Martinho de Tours. Ardanaz. Izagonda. Navarra. Trifronte. Séc. XIV

Há formas de representar o tempo que resistem ao tempo. É o caso da imagem de Janus. Reinterpretada ou não, perdura há milénios. O mesmo sucede, ao nível cósmico, com a imagem do falo, nada discreto na Igreja de San Martin de Artaíz (Figura 4). Costuma espreitar, impudico e sem disfarce, nos lugares mais inesperados, especialmente nas gárgulas e nos cachorros das igrejas medievais.

Partimos da escultura dos Dvein, de Barcelona, e arribámos, quixotescamente, à Igreja de San Martin de Artaíz, em Navarra (Figura 6). Encontrámos mais do que procurávamos: um Janus, mas também um falo e uma mulher adúltera a parir uma criança (Figura 5). E, por artes de uma sociologia vadia, a visita ainda mal começou. Façamos caminho caminhando , com um andar incerto , cientes de que “nada se detém por nós” (Blaise Pascal, Pensamentos, 1669).

“Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre el mar.”
Antonio Machado, Caminante no hay camino, 1912. Excerto.

Galeria de imagens da Igreja de San Martín de Artaíz. Séc. XII. Navarra.

Viemos à Igreja de San Martin de Artaíz para apreciar uma figura com três faces. Esperava-nos, também, um falo, mais uma mulher adúltera, imagens, apesar de tudo, correntes. Por que não observar o resto? No resto, pode morar a surpresa.

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20. Cristo no limbo resgata Adão. Igreja de San Martin de Artaíz

Encaremos, pois, o resto, sem perder de vista nem o conjunto nem os pormenores, com um olhar estrábico caro a Edgar Morin (Comune en France, 1967) e o jeito desprendido do flâneur, que anda sem ter que chegar. Curiosamente, a flânerie adquiriu um novo impulso com a Internet. Mas os novos flâneurs não são os retratados por Charles Baudelaire, Georg Simmel e Walter Benjamin. Pouco ou nada blasés, já não andam nas avenidas mas nos ecrãs. Permitam-me um parêntesis para parodiar dois diálogos: primeiro, o do homem pré-digital, em seguida, o do homem digital.

Homem pré-digital:

  • Onde vais?
  • Vou ali.
  • Que vais fazer?
  • Vou esticar as pernas.

Homem digital:

  • Onde vais?
  • Vou ali.
  • Que vais fazer?
  • Vou dar uma volta ao mundo.

O dandy do nosso tempo não sobe nem desce as avenidas, abre e fecha páginas na Internet.

22. Igreja de São Salvador em Chora. Istambul

21. Igreja de São Salvador em Chora. Istambul

Compensa dar a volta à igreja de San Martin de Artaíz. Nas cenas da Bíblia, esculpidas nos espaços entre os cachorros, destaca-se o episódio da descida de Cristo ao Inferno (Figura 20). A escultura mostra Cristo a resgatar, com uma mão, Adão da boca do inferno; com a outra calca um caveira com o bastão encimado por uma cruz . Eis um “facto imprevisto, anómalo e estratégico” (Robert K. Merton).

23. Discípulo de Hieronymus Bosch. Cristo no limbo, ca. 1550

22. Discípulo de Hieronymus Bosch. Cristo no limbo, ca. 1550

Para além da Igreja de San Martin de Artaíz, existem imagens de Cristo semelhantes noutros lugares? Percorremos, na Internet, uma centena de pinturas e esculturas dedicadas à descida de Cristo ao inferno. Em algumas, o bastão está ausente (Figura 21). Nas demais, o bastão ora é meramente simbólico (Figura 23), ora desempenha duas funções: ajudar a arrombar a porta do inferno (Figura 22); ou dominar o demónio aprisionado (Figura 26). Em nenhum caso, o bastão calca uma caveira. Uma pintura peruana do século XVIII é aquela que mais se aproxima : Cristo pisa, não apenas o diabo, mas também um esqueleto, ou seja, a morte (Figura 24).

Andrea Boniauto. Descent of Christ. Limbo, 1365-1368.

23. Andrea Boniauto. Descent of Christ. Limbo, 1365-1368.

Entre a crucificação e a ressurreição, Cristo força as portas do inferno e liberta os santos, começando por Adão e Eva. Os demónios, ou estão acorrentados aos pés de Cristo, ou estão presos nos destroços da porta ou se mantêm à distância (Figura 23). Em algumas imagens, raras, Cristo subjuga o diabo com o bastão (Figura 26).

24. Cristo Descendo ao Inferno. Peru. Séc. XVIII.

24. Cristo Descendo ao Inferno. Peru. Séc. XVIII.

The Harrowing of Hell. Bibliothèque nationale de France, detail of f.370r. Augustine, De Civitate Dei. 1370-1380

25. A descida ao inferno. BNF. Augustine, De Civitate Dei. 1370-1380

Na descida ao inferno, Cristo vence o diabo, as trevas e a morte. Vence a morte pela sua ressurreição e pela ressurreição dos santos: ”Os sepulcros se abriram, e os corpos de muitos santos que tinham morrido foram ressuscitados” (Evangelho de São Mateus, 27: 52). Na Igreja de San Martin de Artaíz, está esculpido o triunfo de Cristo sobre a morte, tal como rezam as escrituras. Não registei nenhuma imagem equivalente. Presumo que existem, mas raras. É preciso desencantá-las. De tanto abordar o triunfo da morte, é um consolo escrever, por uma vez, acerca do triunfo sobre a morte.

Harrowing of Hell. England, c 1240.

26. Harrowing of Hell. England, c 1240.

Termina a travessia. Passamos do híbrido de duas faces dos Dvein para o “Janus” de três frontes da Igreja de San Martin de Artaíz; observamos as esculturas da igreja priveligiando a descida de Cristo ao inferno; para comparação, pesquisamos imagens congéneres, na Internet. O olhar entrega-se à alternância de planos, ora micro, o pormenor, ora macro, o panorama. Pelo caminho acontece a aprendizagem e, eventualmente, a descoberta. Neste mundo, convém sempre invocar alguém para se ser alguma coisa. Assim sendo, acendo uma vela a Paul S. Feyerabend, falecido em 1994 (Against Method: Outline of an Anarchistic Theory of Knowledge.1975).

Galeria de imagens: a descida de Cristo ao inferno.