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Oração

Diego Velázquez. Cristo Crucificado. ca. 1632.

Diego Velázquez. Cristo Crucificado (detalhe), ca. 1632 .

Porque gostas, Senhor, de quem gosto? (AG).

Não sei rezar! Peço emprestada uma oração: a Prece de Fernando Pessoa (Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Lisboa: Ática. 1966) declamada por Maria Bethânia.

Prece, poema de Fernando Pessoa declamado por Maria Bethânia. Pintura: Cimabue, Crucifixo (detalhe), 1268-71.

Prece, de Fernando Pessoa. Letra.
Senhor, que és o Céu e a Terra, que és a Vida e a Morte
O Sol és Tu e a Lua és Tu e o Vento és Tu, também
Onde nada está, Tu habitas
Onde tudo está – (o Teu templo) – eis o Teu corpo
Dá-me alma para Te servir e alma para Te amar.
Dá-me vista para Te ver sempre no Céu e na Terra
Ouvidos para Te ouvir no Vento e no Mar
E mãos para trabalhar em Teu nome. 

Torna-me puro como a Água e alto como o Céu
Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos
Nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos
Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos
E Te servir como a um pai.
Minha vida seja digna da Tua presença
Meu corpo seja digno da Terra, Tua cama
Minha alma possa aparecer diante de Ti
como um filho que volta ao lar 

Torna-me grande como o Sol
para que eu Te possa adorar em mim
Torna-me puro como a Lua
para que eu Te possa rezar em mim
E torna-me claro como o Dia
para que eu Te possa ver sempre em mim
Senhor, protege-me e ampara-me
Dá-me que eu me sinta Teu

As virtudes do funil

01. Unknown, Inuentio sanctae Crucis, Illumination from the Passionary of Weissenau (Weißenauer Passionale) (1170-1200), Codex Bodmer 127, fol. 53v

01. Unknown, Inuentio sanctae Crucis, Illumination from the Passionary of Weissenau (Weißenauer Passionale) (1170-1200), Codex Bodmer 127, fol. 53v.

Com menos anos do que dedos nas mãos, pasmava na feira a ver o vendedor de banha da cobra. Numas bancas, alguns recipientes de vidro com uma espécie de massa longa (mafaldine) a que chamava “bicha solitária”. O seu vozeirão dava exemplos dos pavores que estes parasitas provocavam nos intestinos. Para alimentar o monstro, as vítimas sentiam fome e definhavam a olhos vistos. Para grandes males, pequenos remédios. Bastam dois frascos com uma poção milagrosa para matar o bicho e a fome. Duas pessoas apressam-se a comprar, secundadas por parte da assistência. Naquele tempo, eram mais as pessoas com fome do que com fastio. Talvez fosse da bicha solitária. Este é um dos esquemas básicos da publicidade. Criar necessidades, pelo imaginário mas com fio de terra. Como diria Karl Marx, a oferta produz a procura. Não digo que os anúncios actuais são herdeiros dos charlatões das feiras, mas também não desdigo.

Marca: SodaScream. Título: It’s time for a change. Estados Unidos, Novembro 2018.

Afirmam que existe uma nova ilha composta por lixo. Os oceanos e os rios estão atafulhados de lixo, os lugares onde as pessoas residem, também. Como combater a catástrofe? O anúncio It’s time for a change, da SodaStream, sugere deixar de beber água engarrafada em embalagens de plástico e passar a beber soda. Com mais de 6 milhões de visualizações no site da marca, o anúncio está a alcançar um enorme sucesso.

02. Las tentaciones de San Antonio. obra de Joos Van Craesbeeck, fue realizada en el año 1650

02. Las tentaciones de San Antonio. Obra de Joos Van Craesbeeck, fue realizada en el año 1650.

Como vamos beber a soda? Com palhinhas ou copos de plástico? São o problema. Com copos de madeira ou de papel? São desflorestadores. Com copos de vidro? São de reciclagem rápida, mas requerem detergentes. Tecnologicamente avançada, a nossa sociedade tem a poção mágica para quase tudo. Se existe, digitaliza-se! Por que não beber soda em copos virtuais! A digitalização é amiga do ambiente, apenas polui os neurónios.

03. David Teniers the Younger.The Temptation of Saint Anthony (detail) (c 1650)

03. David Teniers the Younger.The Temptation of Saint Anthony (detail) (c 1650).

Restam duas soluções. A primeira consiste em beber soda diretamente da fonte. Sem copo, nem palhinha. Na aldeia, para beber às escondidas, sorvia-se o vinho da torneira da pipa. Outra solução: não beber nem água engarrafada nem soda. Beber água da chuva, graças a um funil. Aos primeiros pingos, funil à boca e ergue-se a face. Regressado o sol, o funil, assente na cabeça, serve, agora, de chapéu. Esta solução já foi patenteada há, pelo menos, oito séculos (Figura 01).

Os funis de Hieronymus Bosch

 

 

A montanha mágica

02. Albert Bierstadt. A Storm in the Rocky Mountains, Mt. Rosalie, 1866

02. Albert Bierstadt. A Storm in the Rocky Mountains, Mt. Rosalie, 1866.

É costume opor-se a cultura e a natureza. Quase toda a natureza é cultura. Um povo pode nunca se ter deslocado a determinada montanha, não lhe ter feito o mínimo arranhão, percorre-a, no entanto, com as suas crenças e o seu imaginário. Eleva-a, por exemplo, a um lugar mítico. O ser humano acolhe, deste modo, a natureza naquilo que a cultura tem de mais crucial: o sagrado.

Os quadros de Albert Bierstadt (1830-1902), norte-americano nascido na Alemanha, lembram as palavras de Álvaro Domingues:

“As montanhas, outrora lugares de assombração e de cavernas de dragões, eram, no imaginário do antigamente, os ossos da terra, os ligamentos sem os quais tudo se desconjuntaria, os ninhos das tempestades, o reino das nuvens, a origem das águas, os tesouros de minério, um axis mundi, uma montanha cósmica entre a Terra e o Céu” (Álvaro Domingues, Volta a Portugal, 2017, p. 54)-

As montanhas de Albert Bierstadt:

O tamanho do poder

Na fantasia histórica, não existe baixinho mais célebre do que Napoleão Bonaparte. O psicólogo Alfred Adler chamou, inclusivamente, “complexo de Napoleão” ao sentimento de inferioridade associado à estatura. Na realidade, considerando a época, Napoleão não era assim tão baixinho. Media entre 1,68 metros, medidos pelo seu médico. Na primeira metade do século XIX, o homem tinha em média 1,62 metros: 6 a 7 cm menos que Napoleão. A ideia de Napoleão como anormalmente baixo pode decorrer de uma ilusão: aparecia em público rodeado pela guarda imperial, composta por autênticos gigantes. A moldura não lhe era favorável. Existem várias explicações. Acrescento duas. Tendemos a associar o poder à altura. Abraham Lincoln (1.93) e Charles de Gaulle (1,96) são dois casos exemplares. Mas abundam as “excepções”. A estatura corporal e a estatura política de Napoleão revelam-se divergentes, o que o rebaixa. Por outro lado, pode-se conjecturar que as elites eram mais altas do que a população em geral. Entre as elites, Napoleão era comparativamente baixo, como se comprova no quadro de Nicolas Gosse:

Nicolas Gosse - Napoleon receives the Queen of Prussia at Tilsit, July 6, 1807

Nicolas Gosse – Napoleon receives the Queen of Prussia at Tilsit, July 6, 1807.

Na imaginação publicitária, Napoleão é mesmo baixinho. No segundo anúncio, Napoleon, do Al Balad Newspaper, é associado a uma criança que se esforça por trepar à mesa de bilhar. No primeiro anúncio, Follow the leader, da Garmin, Napoleão conduz, invisível, um carro minúsculo. Vale-lhe o GPS. No fim do anúncio, Napoleão e o seu ”pónei” contrastam com a envergadura da guarda imperial e respectivos cavalos.

Marca: Garmin. Título: Follow the leader. Estados Unidos, 2008.

Marca: Al Balad Newspaper. Título: Napoleon. Agência H&C Leo Burnett Beirut. Direcção: Carlos Lascano. Líbano, Março de 2009.

Pelo contrário

Sonia Delaunay. Girls in bathing suit. 1928

Sonia Delaunay. Girls in bathing suit. 1928.

Isabelle Mayereau é uma “cantautora” francesa pós Maio 68. A música, simples, lembra um fio de água de uma nascente hipnótica. As letras, arabescos de um delírio híbrido, nem são estranhas, nem são familiares. São amigas do paradoxo. A obra de Isabelle Mayereau não granjeou o sucesso merecido, nem outrora, nem agora. É verdade que não se trata de um Jacques Brel, de um Serge Gainsbourg, nem de um George Brassens, seu mestre. Marcou, no entanto, muitos cantores actuais. Gosto de obras com pouco sucesso: sabem-me a dobrar! Abraçar o desconhecido é uma bênção. Conheci Isabelle Mayereau através do álbum Déconfiture, de 1979. Uma aposta cega num catálogo francês equivalente do Círculo dos Leitores. Desde então, sou “seguidor”. Seguem três canções dos anos setenta: Tu m’écris (1978), Hash (1977) e Stars Fantômes (1977).

Isabelle Mayereau. Tu m’écris. Isabelle Mayerau. 1978.

Isabelle Mayereau. Hash. Isabelle Mayereau. 1977.

Isabelle Mayereau. Stars Fantômes. 1977.

O último beijo

01. Valente Celle.Tomb, 1893, The Staglieno Cemetery, Genoa

01. Valente Celle.Tomb, 1893, The Staglieno Cemetery, Genoa.

O contacto da morte com as vítimas oscila entre, por um lado, o assédio e a violência (Figuras 1 e 4) e, por outro, a sedução e a volúpia (Figuras 2, 3, 5 e 6). A morte ceifa, trespassa com flechas e lanças, persegue e agarra os ainda vivos. Mas também acontece beijá-los com atrevimento e sensualidade (Figura 3). Para não variar, a copresença de Tanatos e Eros. A morte namora a vida que se despede.

02. The Kiss Of Death, Poblenou Cemetery, Barcelona, Spain

02. The Kiss Of Death, Poblenou Cemetery, Barcelona, Spain.

 

03. Niklaus Manuel Deutsch. A donzela e a morte. 1517

03. Niklaus Manuel Deutsch. A donzela e a morte. 1517.

04. Hans Baldung Grien. 1518-20 Death and the Maiden.

04. Hans Baldung Grien. 1518-20 Death and the Maiden.

05. Hans Baldung Grien. 1518-20 Death and the Maiden.

05. Hans Baldung Grien. 1518-20 Death and the Maiden.

06. Edvard Munch. Death and the Maiden (1883-4)

06. Edvard Munch. Death and the Maiden (1883-4)

Pressa

The Charge of the Lancers (1915), by Umberto Boccioni

The Charge of the Lancers (1915), by Umberto Boccioni.

A nossa sociedade não tem grandes narrativas, mas tem grandes nomes. Por exemplo, sociedade da slow food, da slow fashion e do slow thinking. E tem o reverso: sociedade do zapping, da velocidade e da aceleração. Tudo devidamente globalizado. Até o Oriente, dado à meditação e à paz do corpo, cede às virtudes da pressa.

Marca: K Bank. Título: Long. Agência: Ogilvy & Mather Thailand. Direcção: Thanonchai  Sornsriwichai. Tailândia, 2010.

Marca: Srisawad Transport Loan. Título: Truck. Agência de produção: Phenomena Bangkok. Direcção: Thanonchai  Sornsriwichai. Tailândia, 2011.

Novas sensações

Royal opera house

A técnica dá a mão à estética. Ocorrem-me, por exemplo, as serigrafias de Andy Warhol. As novas tecnologias audiovisuais permitem ver a realidade como ninguém, pelo seus próprios meios, alguma vez viu. É o caso dos movimentos de dança no anúncio Feel Something New, da Royal Opera House, de Londres.

Marca: Royal Opera House. Título: Feel Something New. Agência: Atomic London. Inglaterra, Setembro 2018.

“Atomic’s striking new campaign and visual identity for the revamped Royal Opera House captures ballet and opera stars with a radical new technique to stunning effect. Captured over an intense three day shoot with photographer Giles Revell, we used a revolutionary technique to capture the shape and colour of movement, blurring the lines between the moving and still image.”

Galeria de imagens: Marey & Muybridge

Esta “técnica revolucionária” “com efeito deslumbrante” lembra inventos e obras de há mais de um século. Em primeiro lugar, a cronofotografia de Etienne-Jules Marey (ca. 1882) e de Eadweard Muybridge, inventor do zoopraxiscópio. Ambos pretendiam estudar a “máquina animal” (ver galeria de imagens Marey e Muybridge; pode consultar, também, Fotografar o movimento do corpo). Lembra, em segundo lugar, os artistas futuristas, com a sua obsessão pelo movimento e pela velocidade (ver galeria de imagens; pode consultar, também, Pneus olímpicos / Futurismo).

Galeria: Futuristas

É uma tentação e um dever colocar algumas barbas brancas nas novíssimas tecnologias!

 

Autodestruição

Roland Topor. Liberté d'expression. Amnestia Internacional. 1977

01. Roland Topor. Liberté d’expression. Amnestia Internacional. 1977.

Hoje apetece-me conversar. Uma pausa na escrita solitária. Não sei se reparaste na gravura do Roland Topor no artigo anterior (Com uma pequena ajuda da morte)… Nem sequer viste o artigo. É natural. Não queres dar uma espreitadela? Eu fico aqui à espera. Não te apetece? Também não se perde nada.

Viste o filme O Tambor? É daqueles filmes de culto em que saímos da sala de cinema indispostos. Curiosamente, Roland Topor desenhou um dos cartazes do filme.

THE TIN DRUM French Movie Poster

02. Roland Topor. O Tambor. Cartaz francês do filme. 1979

Roland Topor pertence ao rol de artistas cuja obra é mais famosa do que o autor. Em 1977, desenhou um cartaz, contra a censura, para a Amnistia Internacional. O desenho de Roland Topor é um ícone do imaginário do último meio século. Cerca de dez anos mais tarde, o desenho preenche a parede de um prédio em Maastricht.

Mural by Ronald Topor, 1988, located at Tongersestraat, Maastricht, The Netherlands.

03.Mural por Ronald Topor. Maastricht. 1988.

Parte da obra surrealista de Roland Topor é considerada “autodestrutiva”. Poucos traços e muita corrosão, à semelhança dos desenhos seguintes.

Para ter uma noção do que pode ser uma obra autodestrutiva, sintoniza o teu cérebro com o meu. Recorda a gravura Mãos desenhando (1948), de M.C. Escher. Agora, imagina comigo! As mãos de Escher, em vez de se desenharem mutuamente, estão a apagar-se uma à outra! Isto é autodestruição.

M.C. Escher. Mãos. 1948.

07. M.C. Escher. Mãos. 1948.

Soube-me bem imaginar contigo. Imaginação criadora sobre a autodestruição.

Filhos do Apocalipse

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Zdzislaw Beksinski

Em Portugal, no 15 de Agosto, dia da Assunção de Nossa Senhora, ocorre uma espécie de inflamação da humanidade. Gente por todo o lado. Uma espécie de solstício de verão no calendário social. Um clímax da efervescência colectiva, votada ao esmorecimento dos próximos meses. É dia de festas; não é dia de trevas. Mas é de trevas que vou falar.

No último artigo, A Sereia Académica (https://tendimag.com/2018/08/13/a-sereia-academica/), figura uma pintura de HR Giger. Quem vê HR Giger, recorda Zdzislaw Beksinski (1929-2005), um dos principais, senão o principal, artista polaco contemporâneo. Classificou-se a si próprio, numa primeira fase, como barroco e, em seguida, como gótico. Não obstante, é um expoente da arte grotesca, o mais estranho e visceral que se pode conceber. As suas obras, além de desconcertantes, são tenebrosas. Na sua pintura, o morrer sobrepõe-se à morte, num mundo moribundo, sem remissão. Um mundo em que nem sequer a morte redime. As figuras, simultaneamente mortas e vivas, são amálgamas, fluídas e deformadas, de carne, ossos, ramificações e excrescências. O ser humano supera os objectos e as máquinas porque, para além da obsolescência, tem a sina de morrer, de ir morrendo. Passe a incongruência, está condenado a sobreviver, a penar, aquém e além, antes e depois da morte. A dilaceração estende-se aos animais e aos objectos: catedrais e prédios em ruínas; carcaças de carros, autocarros e tanques de guerra; cemitérios de objectos no calvário.

Zdzislaw Beksinski faleceu em 2005, esfaqueado até à morte por um vizinho a quem negou um empréstimo de cerca de 100 dólares. Foi um artista prolixo. A página da Wikiart inclui 707 obras. Beksinski fez questão em não dar título às suas obras, bem como resistiu ao mínimo contributo para a respectiva interpretação. A maior parte das suas obras não está datada. Segue meia centena de pinturas desordenadas e sem título. Um excesso de imagens arrepiantes, passíveis de gelar o riso do próprio diabo. Apesar do incómodo, vale a pena uma visita.