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Morrer de riso

‘The Dawnce of Makabre’ from Carthusian miscellany, Yorkshire or Lincolnshire ca. 1460-1500. BL, Add 37049, fol. 32r

Na Idade Média, a morte ri: nos triunfos da morte, nas danças macabras ou no assédio às donzelas. Morre-se de riso? Consta que existe uma hilaridade fatal: as vítimas morrem, literalmente, de excesso de riso. O filósofo grego Crisipo de Solis morreu a ver o seu cavalo comer figos; no século XV, o rei Martim I de Aragão morreu com um ataque de riso; mais recentemente, em 2003, Damnoen Saen-um, um vendedor de sorvetes tailandês, morreu de riso enquanto dormia (ver: https://pt.wikipedia.org/wiki/Hilaridade_fatal).

No palco, só, Bourvil recorda uma anedota fatal que um amigo lhe contou. Quem ouvir a anedota morre. Oito minutos quase sem palavras, mas sempre a comunicar. É obra e talento.

André Bourvil. C’est l’histoire du jockey qui… / Une histoire à mourir de rire. 1962.

Alegria

Alegra-te! Pinta o purgatório de amarelo.

Manfred Mann – The Mighty Quinn (Quinn The Eskimo) (1968). Original de Bob Dylan.

Como um bom cão

Paula Rego. The Good Dog, Anos noventa.

Quando gosto de uma pessoa, espero por ela. Pode vir, pode não vir, pode não vir nunca. Mas eu espero por ela. Like a good dog (AG).

Quando escrevo gosto de ouvir a música das letras. Agora estão a tocar uma folia. Estou a escrever um texto que me traz afastado do Tendências do Imaginário. Muito trabalhoso e pouco original. Não respira, engasga-se. Não vou conseguir vendê-lo nem pela metade o preço. Tem uma coisa boa: as letras tocam a música The Robots, dos kraftwerk (1978) interpretada pelos Balanescu Quartet (Possessed 1992).

Balanescu Quartet. The Robots. Possessed, 1992. Cover de Kraftwerk, The Robots, 1978.

Riqueza vaidosa

Rich and Poor – Unknown Painter 17th Century

Passam ferrari, porsche e lamborghini. E carros de colecção. Portugal é um país particularmente desigual? A desigualdade dos rendimentos de um país pode ser medida pelo índice de Gini. Varia entre um máximo de igualdade, 0, e um máximo de desigualdade, 100. Observemos os valores do índice de Gini nos países europeus, em 2017.

Índice de Gini nos países europeus, em 2017. Fonte: PORDATA.

Portugal consta entre os países em que existe maior desigualdade de rendimentos. Tem um índice de Gini de 33,5, próximo da Grécia e da Espanha, ultrapassado apenas por três países de leste: a Letónia, a Lituânia e a Bulgária.

Portugal é dos países mais desiguais da Europa. Justifica os carros de desporto e de luxo? Pode-se ser rico e discreto. Segundo Max Weber, os protestantes imbuídos do espírito o capitalismo preferiam o investimento ao fogo de artifício. Em Portugal, não impera nem a ética protestante, nem o espírito do capitalismo, predomina o consumo ostentatório e o espírito de corte. Consome-se luxo, faz-se lixo. Somos o 24º país mais desigual da Europa. Somos, também, aquele em que a riqueza rima com uma opulência quase ofensiva.

O índice de Gini é uma sequência da curva de Lorenz. No gráfico , indica-se na abscissa a população acumulada e na ordenada, os rendimentos acumulados.

Curva de Lorenz (país não identificado)

Comprova-se, por exemplo, que aos 20% mais pobres corresponde uma parte ínfima do rendimento nacional, enquanto os 20% mais ricos possuem acima de 60% do rendimento nacional. Segundo o gráfico, entre 1989 e 2004, a desigualdade diminuiu. A curva aproxima-se da diagonal a que corresponde a igualdade absoluta.

No início dos anos oitenta, era professor do curso de Relações Internacionais. Um dia, pergunto: “Conhecem a curva de Lorenz?”. Responde-me um aluno: “Não, professor, só conhecemos as curvas da Bo Derek”. Dar aulas pode ser estimulante.

If I were a rich man. Film: Fiddler on the roof. 1971.

Simulacro de pensamento

Pablo Picasso. Homme à la marinière et à la cigarette. 1966.

Durante as férias, passo os dias na varanda, a fumar. Dá para observar os transeuntes. Alguns param, como quem escorrega, em frente à casa do António Pedro. Que fotografam os telemóveis? Uma placa de homenagem. E seguem caminho, entregando-se a um novo ofício: o turismo. A fumar, preparo as aulas. Por exemplo, sobre as noções de extensão do homem, de Marshall McLuhan (Os Meios de Comunicação Como Extensões do Homem, 1964), e de reificação, de Georg Lukács (História e Consciência de Classe, 1923) a Herbert Marcuse (O Homem Unidimensional, 1964). O telemóvel/câmara é uma mediação entre o ser humano e a realidade envolvente. Um terceiro olho junto ao corpo. Capacita-nos para o que nos é impossível. Numa situação limite, quem é, afinal, a extensão e quem é o sujeito, o extenso? Quem influencia quem? A extensão pode adquirir “vida” e efeitos próprios como os objectos de E.T.A. Hoffman (O Quebra-Nozes e o Rei dos Camundongos, 1816) ou a mercadoria de Karl Marx (O Capital, Livro I, 1867). É um tópico corrente na ficção científica. O telemóvel/câmara é uma extensão do homem que interfere na sua relação com a realidade. Os postais ilustrados provocaram, no início do século XX, uma “postalização da experiência” (Martins, Moisés de Lemos (dir.), 2017, Os postais ilustrados na vida da comunidade, CECS). As paisagens, as cidades e as pessoas passam a enquadrar-se à luz do formato postal. Nunca, como hoje, a vida se aproximou tanto de um álbum de fotografias. “Mosaicos”! Dia a dia, dose a dose. O Facebook não engana!

Os teóricos da reificação, incluindo os sociólogos da Escola de Francoforte, nomeadamente Theodor W. Adorno (com Max Horkheimer, Dialéctica do Esclarecimento, 1944) e Jurgen Habermas (Técnica e Ciência como “Ideologia”, 1968), não se fariam rogados a falar, neste caso, em fetichismo. O turista tira uma fotografia à placa comemorativa na casa de António Pedro. Uma câmara, uma extensão do homem, capta uma placa comemorativa, uma inscrição do homem. Tudo se passa como se acção se processasse entre objectos que estão à superfície e no exterior do homem. Estamos num mundo de coisas, em que uma coisa, a mediação, a câmara, substitui o sujeito e outra coisa, a placa comemorativa, se sobrepõe ao todo, subsume a casa e o António Pedro. Eis a dança da reificação. A acção do turista resume-se a uma câmara e a uma placa. O resto são suportes.

Imaginemos! A imaginar aprende-se. Passam pessoas a falar ao telemóvel. Algumas gesticulam. Como se estivessem sob o olhar do interlocutor. Por quê? Por histerese do habitus, diria Pierre Bourdieu (Meditações Pascalianas, 1997). Habituadas à comunicação não-verbal na interacção presencial, as pessoas utilizam-na a propósito e a despropósito. O que é a histerese? Na Física, “a histerese é a tendência de um sistema de conservar suas propriedades na ausência de um estímulo que as gerou”. Por exemplo, quando alguém, como a “Maria Papoila” (1937), migra do campo para a cidade. Por um tempo, reage na cidade como se estivesse no campo. Admito que a gesticulação ao telemóvel não é uma histerese canónica. Pierre Bourdieu não a validaria. Mas um exemplo não precisa de ser verdadeiro para ser pedagógico. Imaginado ou não, este exemplo comporta falhas. A gesticulação ao telemóvel pode remeter mais para um automatismo do que para uma incongruência. Fale o que falar, como e com quem, a pessoa entrega-se a uma “coreografia” que lhe é natural. Acresce que a gesticulação pode relevar mais da esfera da emissão do que da esfera da recepção. Os gestos podem ser mais úteis ao emissor, para autogerir, por exemplo, emoções, do que ao destinatário. A linguagem corporal não é um complemento, faz parte da linguagem como um todo. Pierre Bourdieu teria razão, a gesticulação ao telemóvel pode não relevar de uma histerese do habitus. Para coroar este simulacro de pensamento, convenha-se que é raro as pessoas gesticularem enquanto falam ao telemóvel.

De qualquer modo, imaginar é importante. A maioria das descobertas científicas passa por fases decisivas de imaginação. No ranking dos livros de sociologia mais influentes no século XX, A Imaginação Sociológica (1959), de Charles Wright Mills, ocupa o 2º lugar. O livro de Martin Jay sobre a Escola de Francoforte tem o título A Imaginação Dialéctica (1973). A imaginação dialógica (1975) é o título de um livro de Mikhail Bakhtin.

Este texto é intragável. Começa barroco e acaba maneirista. É um desfile de autores. Ou se escreve um texto ou se faz uma vénia. É louvável subir aos ombros de um gigante, já não o é arrastar-se aos seus pés. Este texto é pedante? Não, pedante é quem o escreveu.

Tristeza pasmada

Edvard Munch. Melancholy. 1894.

Zbigniew Preisner é um compositor polaco. A sua música integra mais de 40 filmes. As composições não primam por ser heroicas ou alegres. O certo é que hoje acordei triste. Os sonhos devem ter sido tão bons que fiquei triste ao acordar. Uma tristeza não amargurada, de estimação, de embalar ao colo. Nunca fixaste, à beira mar, um navio que nunca mais desaparece? É isso mesmo, uma tristeza pasmada. Uma tristeza que vicia.

Seguem quatro músicas de Zbigniew Preisner. São curtas. Não dá para o navio passar.

Zbigniew Preisner. Decision 2046. 2004 (Live).
Zbigniew Preisner. Damage. Fatale. 1992.
Zbigniew Preisner. Holocaust. Decalogue 8. 1988-1989

Recolhimento responsável

A man takes a nap on the street using a protective mask in Tokyo, Japan July 16, 2020. REUTERS-Issei Kato

A publicidade é um barómetro do imaginário. Mudam os valores, mudam os anúncios. Já existiam anúncios com discursos de responsabilidade social. Agora, generalizaram-se. A publicidade reforça a esfera intimista que nunca descuidou (ver, no fim do artigo, a galeria com obras do pintor “intimista” Pierre Bonnard). Estes tempos mórbidos pedem responsabilidade social e refúgio na intimidade. Recentes, o anúncio brasileiro “Seja exemplo”, da Bradesco, e o anúncio argentino “Mientras esperamos”, da Corona, ilustram este duplo constrangimento: responsabilidade social e recolhimento na intimidade.

Marca: Bradesco. Título: Seja exemplo. Brasil, Agosto 2020.
Marca: Corona. Título: Mientras esperamos. Agência: Draftline Argentina. Direcção: Guido “Chapa” Lofiego. Argentina, Agosto 2020.

Selecção de obras de Pierre Bonnard

Portas que não fecham

René Magritte. La Victoire. 1938-1939.

Há portas a que não convém bater. Nunca mais se fecham. O rio Minho também é uma fronteira que não separa. Existem culturas que nos trazem cativos. Alice é uma cantora italiana que iniciou a actividade nos anos setenta. Ganhou o Festival de Sanremo em 1981. A canção Prospettiva Newskij convoca o bailado, a música e o cinema: Nijinsky, Stravinsky e Eisenstein.

Insisto em colocar obras transalpinas que o Tendências do Imaginário ostensivamente ignora. Cultura boa, só salgada. Dos mares e dos oceanos. Melhor do que cultura salgada, só o bacalhau. É difícil apregoar a diferença a quem tem a cabeça cheia do mesmo. Conhece-se mal a cultura italiana. E depois? Um dia será como a nossa…

Alice. Prospettiva Newskij. Gioielli rubati. 1985.

Os especialistas do gosto

Pablo Picasso. Girl before a Mirror. 1932.

Quem gosta mais de ti do que tu? Quem gosta mais do que tu gostas? Quem te estuda e prevê? Centros de investigação, empresas de marketing, agências de publicidade, políticos, sociólogos, psicólogos, semiólogos… A missão? Conhecer para seduzir, conhecer para antecipar. Bernard Cathelat e o CCA (institut d’étude des Socio-Styles de Vie)) são um bom exemplo : dedicam-se à cartografia e à infografia dos comportamentos e das tendências sociais. E vendem os resultados (Cathelat, Bernard, Socio-Life Styles Marketing, the new science of identifying, classifying and targeting consumers, Probus Publishing, Chicago, 1994). O livro A Distinção (1979), de Pierre Bourdieu, oferece-se como uma bíblia do estudo dos gostos e dos estilos de vida.

 Num catálogo online, os produtos piscam-te o olho, parecem escolhidos a pensar em ti. Numa loja de roupas, há peças que estão à tua espera. Parece bruxedo, uma nova espécie de “feiticismo da mercadoria” (Karl Marx, O Capital, 1867). Jean Baudrillard fala em “estatuto miraculoso do consumo” (A Sociedade de Consumo, 1970). O Youtube sugere alternativas, “expressamente para nós”. Os cookies ajudam. Já dizia a rainha santa Isabel: “são bolachas, Senhor!”. Que conforto haver especialistas capazes de gostar por nós. Nada novo sob o sol da inteligência, trata-se de uma verdade gasta, mais gasta do que as calças de um cowboy. Ferrugem da sociologia litúrgica. Ninguém esconde, ninguém disfarça. O anúncio espanhol ADN, da empresa Adolfo Dominguez, proporciona uma ilustração desinibida. A verdade despida.

“ADN combina dos tipos de inteligencia. Un algoritmo que crea un perfil con tu estilo al completar un test online. Y un equipo de estilistas que saben lo que te queda bien”.

Marca: Adolfo Dominguez. Título: ADN. Agência: China. Espanha, Julho 2020.

Pelo lado de fora

Pintura japonesa

Guardo as músicas de que gosto numa pasta chamada “À espera”. Algumas esperam décadas. É o caso da canção Walk on the Wild Side, de Lou Reed, que dedico ao meu rapaz mais novo.

Lou Reed. Walk on the Wild Side. Transformer. 1972.