Arquivo | Pintura RSS for this section

Imaginação maneirista

Galeria: Obras de René Magritte

Costumo pensar para mim. Evito pensar para os outros. Quando muito, nos outros. A minha epistemologia é umbilical. Gosto de pensar realidades que não são realidades. “À maneira”. O anúncio Looks Like Guinness, da Guinness, é um exercício de “estética alimentar”. Figuras “a branco e negro” repetem-se como uma série de Andy Warhol. Lembram-me, sobretudo, René Magritte. Descortinar a pintura de René Magritte num anúncio a uma cerveja requer imaginação, a imaginação de um maneirista.

Marca: Guinness. Título: Look Like Guinness. Agência: AMV BBDO, London. Direção: Chris Balmond. Reino-Unido, Maio 2021.

Desconfinamento, libertação e sexo

Henri de Toulouse_lautrec. Marcelle Lender dancing the bolero in Chilperic. 1895.

Vários anúncios, centrados na sensação de libertação, podiam ilustrar o início do desconfinamento. O anúncio For when it’s time, da Extra Gum, incide, contudo, sobre o próprio movimento de desconfinamento: corpos, fluxos e, sobretudo, sexo. Um amor militante e multicolorido à moda dos anos sessenta. Depois da separação, o amor. Sea, Sex And Sun.

Marca: Extra Gum. Título: For When it’s Time. Agência: Energy BBDO. Direção: Nick Ball. Reino Unido, abril 2014.
Serge Gainsbourg. Sea, Sex And Sun. 1978.

Limiares do tempo

Luigi Russolo. A revolta. 1911 (futurismo)

A NOS lançou dois anúncios que convocam imaginários distintos: Estou Além (2019) e O Amanhã (2021). Esta diferença não é excecional. Não mais do que campanhas que mantêm, anos a fio, a mesma orientação: a Nike, a Hornbach, a Cartier, a Citroen, a Old Spice…

Saliento alguns tópicos característicos dos dois anúncios da NOS.

Primeiro, o anúncio Estou Além:

  • Desassossego;
  • Indivíduos unidos à distância numa rede tribal;
  • Pressa de chegar;
  • Valorização do presente;
  • Coro, comunhão;
  • António Variações.

O anúncio Estou Além aproxima-se de um imaginário pós-moderno com contornos dionisíacos.

Marca: NOS 5G. Título: Estou além. Produção: Ministério dos Filmes. Direção: Marco Martins. Portugal, novembro 2019.

O discurso do anúncio O Amanhã é eloquente e repetitivo:

“O que aí vem é uma página em branco (…) temos vontade de futuro (…) a ideia do amanhã faz-nos estremecer (…) faz-nos querer, e então abraçamos esta viagem e avançamos sem amarras, sem olhar para trás (…) Temos vontade de futuro, vontade de mudar o mundo (…) sem olhar para trás. E sempre que for preciso, podemos ir ao nosso fundo e relembrar: de que somos feitos? De coragem, liberdade e coração. Levamos na bagagem toda a inteligência, toda a ciência, toda a emoção. Da descoberta, da conquista, de navegar sem ver a terra à vista. O que aí vem é uma página em branco. E nós vamos escrevê-la. Com toda a nossa força, arte e engenho. Hoje, mais do que nunca. Temos vontade de futuro. De virar a página. De fazer, pela primeira vez, tudo o que ninguém fez”.

No anúncio O Amanhã, os protagonistas surgem isolados, longe da multidão turbulenta do final do anúncio Estou Além. O presente é uma página em branco. O ser humano aposta no futuro. Reúne competência e potência para concretizar os seus desígnios (coragem, liberdade, inteligência, força e engenho). Conquistador do amanhã, “faz, pela primeira vez, tudo o que ninguém fez”.
Este imaginário não é pós-moderno. Porventura, futurista (ver, em baixo, manifesto futurista de Marinetti). O herói do anúncio O Amanhã resulta prometeico, “caracterizado pelo desejo de se ultrapassar, pelo gosto do esforço e pelas grandes iniciativas, pela fé na grandeza humana” ((https://wish.brussels/forum/viewtopic.php/community/7a8c44-lille-aix-en-provence-avion?7a8c44=personnage-prom%C3%A9th%C3%A9en).

Marca: NOS. Título: O amanhã. Agência: Havas Different. Produção: Ministério dos Filmes. Direção: Marco Martins. Portugal, Abril 2021.

Manifesto do Futurismo ( Filippo Tommaso Marinetti, 1909)

  1. Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e da temeridade.
  2. A coragem, a audácia, a rebelião serão elementos essenciais de nossa poesia.
  3. A literatura exaltou até hoje a imobilidade pensativa, o êxtase, o sono. Nós queremos exaltar o
    movimento agressivo, a insônia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofetão e o soco.
  4. Nós afirmamos que a magnificência do mundo enriqueceu-se de uma beleza nova: a beleza da
    velocidade. Um automóvel de corrida com seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a
    serpentes de hálito explosivo… um automóvel rugidor, que correr sobre a metralha, é mais bonito que a
    Vitória de Samotrácia.
  5. Nós queremos entoar hinos ao homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra,
    lançada também numa corrida sobre o circuito da sua órbita.
  6. É preciso que o poeta prodigalize com ardor, fausto e munificiência, para aumentar o entusiástico
    fervor dos elementos primordiais.
  7. Não há mais beleza, a não ser na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser
    uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças desconhecidas,
    para obrigá-las a prostrar-se diante do homem.
  8. Nós estamos no promontório extremo dos séculos!… Por que haveríamos de olhar para trás, se
    queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Nós já
    estamos vivendo no absoluto, pois já criamos a eterna velocidade onipresente.
  9. Nós queremos glorificar a guerra – única higiene do mundo – o militarismo, o patriotismo, o gesto
    destruidor dos libertários, as belas ideias pelas quais se morre e o desprezo pela mulher.
  10. Nós queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academia de toda natureza, e combater o
    moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária.
  11. Nós cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação;
    cantaremos as marés multicores e polifônicas das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o
    vibrante fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas elétricas; as
    estações esganadas, devoradoras de serpentes que fumam; as oficinas penduradas às nuvens pelos fios
    contorcidos de suas fumaças; as pontes, semelhantes a ginastas gigantes que cavalgam os rios,
    faiscantes ao sol com um luzir de facas; os piróscafos aventurosos que farejam o horizonte, as
    locomotivas de largo peito, que pateiam sobre os trilhos, como enormes cavalos de aço enleados de
    carros; e o voo rasante dos aviões, cuja hélice freme ao vento, como uma bandeira, e parece aplaudir
    como uma multidão entusiasta.
  12. É da Itália, que nós lançamos pelo mundo este nosso manifesto de violência arrebatadora e
    incendiária, com o qual fundamos hoje o “Futurismo”, porque queremos libertar este país de sua fétida
    gangrena de professores, de arqueólogos, de cicerones e de antiquários.
  13. Já é tempo de a Itália deixar de ser um mercado de belchiores. Nós queremos libertá-la dos
    inúmeros museus que a cobrem toda de inúmeros cemitérios.
  14. Museus: cemitérios!… Idênticos, na verdade, pela sinistra promiscuidade de tantos corpos que não
    se conhecem. Museus: dormitórios públicos em que se descansa para sempre junto a seres odiados ou
    desconhecidos! Museus: absurdos matadouros de pintores e escultores, que se vão trucidando
    ferozmente a golpes de cores e linhas, ao longo das paredes disputadas!
  15. Que se vá lá em peregrinação, uma vez por ano, como se vai ao Cemitério no dia de finados… Passe.
    Que uma vez por ano se deponha uma homenagem de flores diante da Gioconda, concedo…
  16. Mas não admito que se levem passear, diariamente pelos museus, nossas tristezas, nossa frágil
    coragem, nossa inquietude doentia, mórbida. Para que se envenenar? Para que apodrecer?
  17. E o que mais se pode ver, num velho quadro, senão a fatigante contorção do artista que se esforçou
    para infrigir as insuperáveis barreiras opostas ao desejo de exprimir inteiramente seu sonho?… Admirar
    um quadro antigo equivale a despejar nossa sensibilidade numa urna funerária, no lugar de projetá-la
    longe, em violentos jatos de criação e de ação.
  18. Vocês querem, pois, desperdiçar todas as suas melhores forças nesta eterna e inútil admiração do
    passado, da qual vocês só podem sair fatalmente exaustos, diminuídos e pisados?
  19. Em verdade eu lhes declaro que a frequência diária aos museus, às bibliotecas e às academias
    (cemitérios de esforços vãos, calvários de sonhos crucificados, registro de arremessos truncados!…) é
    para os artistas tão prejudicial, quanto a tutela prolongada dos pais para certos jovens ébrios de
    engenho e de vontade ambiciosa. Para os moribundos, para os enfermos, para os prisioneiros, vá lá:- o
    admirável passado é, quiçá, um bálsamo para seus males, visto que para eles o porvir está trancado…
    Mas nós não queremos nada com o passado, nós, jovens e fortes futuristas!
  20. E venham, pois, os alegres incendiários de dedos carbonizados! Ei-los! Ei-los!… Vamos! Ateiem fogo
    às estantes das bibliotecas!… Desviem o curso dos canais, para inundar os museus!… Oh! a alegria de
    ver boiar à deriva, laceradas e desbotadas sobre aquelas águas, as velhas telas gloriosas!… Empunhem
    as picaretas, os machados, os martelos e destruam sem piedade as cidades veneradas!

Esferas

René Magritte. Voice of Space. 1931.

Na esfera celeste, o planeta é redondo. Os seres humanos vivem em bolhas, contribuindo para o bem ou para o mal do mundo. Para o bem, na óptica da Ikea. Existem homologias entre curvaturas. Mike Oldfield retoma a noção de “música das esferas”: “a música das esferas, tal como a entendo, remonta à Antiguidade, quando se concebiam as relações matemáticas entre o movimento dos planetas e as harmonias da música”.

Segue o anúncio Our little word (2021), da Ikea, e o excerto Harbinger, do álbum Music of the spheres (2008), de Mike Oldfield.

Marca: Ikea. Título: Our little word. Agência: Rethink. Direção: Mark Zibert. Canadá, Abril 2021.
Mike Oldfield. Harbinger. Musico f the spheres. 2008.

Noite estrelada

Vincent van Gogh. Starry Night.1889.

Globalização. Disseminação. Apropriação. Não há sombra que não tenha a marca do sol. A globalização lembra a noite estrelada de Van Gogh. Uma pluralidade de focos de luz, todos em movimento. Na noite estrelada, tudo emite e tudo recebe luz. O meu rapaz mais novo mostrou-me um vídeo musical de uma banda rock japonesa. O rock anglo-saxónico foi farol que ofuscou o mundo. Mas acendem-se outros focos locais. Alguns com uma dimensão global, por exemplo, o pop/rock sul-coreano.

Ningen Isu. Heartless Scat. Japão. 2019.

Fatiar a vida

Mordillo,

Fatiar a vida ano após ano até oxidar o tempo. Sobram, afortunadamente, momentos. Ínfimos, infinitos, pessoais. Feliz aniversário!

Aidan Gibbons: The Piano. Música de Yann Tiersen.
Yves Montand. Les feuilles mortes. 1949 ou 1950. Ao vivo no Olympia. 1981.

O Tendências do Imaginário face ao confinamento

Rosso Fiorentino. Cherub Playing a Lute or Musical Cherub. 1521.

O confinamento tem constrangimentos. Mormente, quando é duplo: pandémico e mórbido. Por doença, tenho a mobilidade limitada a um dos pisos da casa. Esta vida apertada tem consequências, inclusivamente, ao nível do Tendências do Imaginário.

Muitos artigos inspiram-se na observação da vida quotidiana. Descobertas de trazer no bolso. É um divertimento que cultivo, uma espécie de “sociologia espontânea”. Com o confinamento, resta-me a “observação de pássaros: os conflitos entre gatos, a etiqueta das bicadas dos pardais nas migalhas de pão ou os estratagemas dos melros para aceder à comida dos gatos.

Os “artigos de fundo” são uma marca do Tendências do Imaginário. Textos originais que exigem semanas de pesquisa e escrita. O confinamento comprimiu o tempo no presente. O aqui e o agora tornaram-se avassaladores, avessos a iniciativas de fôlego. Não há impulso. O futuro mora nos faróis dos palpiteiros.

O Tendências do Imaginário está diferente, com uma quebra de microssociologia e ensaio intelectual. Prosseguem a publicidade e a música. Estas circunstâncias contribuem para um novo papel da música.

A casa lembra uma discoteca. Gavetões, gavetas e prateleiras repletas de vinis, CDs e DVDs. Acervo de um melomaníaco. A maioria das músicas do Tendências do Imaginário provêm desta coleção. Com o confinamento, a relação com a música mudou. Outrora, a música acompanhava outras atividades, incluindo o trabalho. A música era ambiental. Agora, beneficia de uma dedicação exclusiva. Concentrado e repostado, ouço e seleciono as músicas. Esta nova interação com a música comporta um efeito relevante, que tende a privilegiar a tradição, os discos, em detrimento da inovação (a procura, sobretudo, na Internet).

Em resumo, com o duplo confinamento, pessoal e social, o Tendências do Imaginário arrisca-se a perder diversidade e atualidade. Não obstante, as visualizações mantêm-se.

Como ilustração, seguem duas músicas: o Concerto para Piano, nº1, de Frédéric Chopin, da coleção de discos e do polo da tradição; e The Silence, da Manchester Orchestra, uma banda indie norte-americana (polo de inovação, via Internet).

Frédéric Chopin. Piano Concerto No. 1 in E Minor, Op. 11 – 2. Romance (Larghetto).
Manchester Orchestra – The Silence (Live at The Regency Ballroom San Francisco). Álbum: A Black Mile to the Surface. 2017.

Motivem-se uns aos outros

Caravaggio. Conversão de São Paulo. 1600-1601.

Lunar é uma instituição/aplicação financeira que se propõe aumentar o rendimento dos clientes sem prescindir do antigo banco. Como motivação, o anúncio Your Other Bank recorre a uma sequência excitante de uma relação heterossexual, combustível que já conheceu melhores dias na publicidade. A geometria sexual complica-se com a alusão ao “bánkage à trois” no lema e na letra da canção do belga Plastic Bertrand:  o cliente, o novo e o antigo banco. Importa ser criativo para seduzir o consumidor! A motivação ergue-se como palavra-chave da transição de milénio. É tão miraculosa que faz andar os cegos e ver os coxos. Uma alavanca do corpo e da alma. Sem motivação, nada, nem sequer um piscar-de-olho! Os casais carecem um do outro rumo à boda de prata, os idosos, para envelhecer, as crianças, para brincar, os operários, para trabalhar… No ensino à distância, os alunos precisam de motivação. Os pais, seguidores domésticos das aulas dos filhos, diagnosticam: “o professor não presta nenhuma atenção ao meu Filipe”; e “à minha filha Susana só pergunta o que ela não sabe”. Um vórtice de desmotivação.

Uma pausa para desconversar. A noção de motivação aqui utilizada é, naturalmente, parcial. Cinge-se a uma ação externa, de fora para dentro, como a conversão de São Paulo. A pessoa resume-se a uma espécie de “tábua rasa” onde caem pingos coloridos que esboçam retratos impressionistas. Para motivar os alunos na escola têm que se saber aquilo que os move. A noção vulgar de motivação tende a equacionar as pessoas como seres hétero-determinados, carentes de autonomia, responsabilidade, iniciativa, vontade e vocação.

Marca: Lunar. Título: Your Other Bank. Agência: Åkestam Holst Noa. Direção: Filip Nilsson. Suécia, fevereiro 2021.

Beijos

O amor é a invenção de tudo, uma originalidade inesgotável (Fernando Namora).

Gustav Klimt. Girlfriends. 1916-1917.

O título do anúncio da Nettflix é L’Amour. C’est Tout. O amor é tudo, para todos, sem apropriação, nem discriminação positiva ou negativa. Não é? A canção La Vie en Rose é uma escolha acertada.

Marca: Nettflix. L’amour c’est tout. França, fevereiro 2021.

A estetização dos alimentos

Still-life. Mosaic, Roman artwork, 2nd century CE. From a villa at Tor Marancia, near the Catacombs of Domitilla.

A culinária é uma arte efémera? Existe uma estetização dos alimentos? Isto condiz com a febre de partilha de fotografias de comida na Internet? A pintura de alimentos é antiga (ver imagem). Atesta-o a quantidade de quadros com naturezas mortas. Existem excelentes anúncios com comida. O anúncio Sushi, da Sony, destaca-se. Vale a pena espreitar!

Marca: #Sony #4k Real 4k demo Sony. Título: Sushi. 2019.