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Os pinguins vão ao museu

The Nelson-Atkins Museum of Art. Penguins. 2020

Aprumados e desajeitados, animados ou ao natural, os pinguins são vedetas na publicidade. No anúncio Penguins, do Nelson-Atkins Museum of Art , a família pinguim visita o museu. Um tema esdrúxulo, mas a excentricidade, inspirada, compensa. Os pinguins deslocam-se, desafiados por tanta informação invulgar. O vídeo foca o “tornozelo” de uma pintura gigantesca de Monet (O tríptico Water Lilies) e exibe,  na íntegra, o São João Baptista no Deserto, de Caravaggio. Consta que os pinguins preferiram o São João, de Caravaggio, aos nenúfares, de Monet.

Marca: The Nelson-Atkins Museum of Art. Título: Penguins. Estados-Unidos, Maio 2020.

“We are so happy to welcome our colleagues from the zoo,” said Julián Zugazagoitia, the director of the Nelson-Atkins Museum of Art in Kansas City, Missouri, in a video posted by the museum. And who were these colleagues in question? None other than a family of Peruvian penguins who were brought along for a day trip to the museum to shake things up because, as the zoo-director Randy Wisthoff put it, the zoo’s temporary shuttering has caused the animals to “really miss having visitors come out and see them”, leaving zoo officials to find new, creative ways to provide the animals with stimulation. Zugazagoitia, who is originally from Mexico City, noted that “these are Peruvian penguins so we were speaking to them in Spanish, and they really appreciated art history.” Zugazagoitia also added that the avian museum-goers “seemed definitely to react much better to Caravaggio than to Monet.” So while these birds may not be able to fly, they certainly have taste (The Art Newspaper: https://www.theartnewspaper.com/video/these-kansas-city-penguins-took-a-field-trip-to-the-nelson-atkins-museum-and-preferred-caravaggio-over-monet)

Acrescento um trailer do filme/documentário La Marche de l’Empéreur (2005).

Trailer oficial do filme/documentário La Marche de l’Empéreur (2005).

Ilhas de solidão

Edward Hopper, Cladigger, 1935.

Se te sentes só quando estás só, estás em má companhia (Jean-Paul Sartre).

O vídeo musical do japonês Ryuichi Sakamoto, Solitude, ajusta-se aos novos tempos de confinamento e isolamento. Isolar vem do italiano “isolare”, que vem de “Isola” e do latim “insula”, que significam ilha. Em Português, existe a alternativa “insulamento”. Os espanhóis dizem “Aislamiento”, da palavra “isla” (ilha).

Ryuichi Sakamoto. Solitude. Tony Takitani. Japão, 2007.

Abril a quatro mãos

Pintura Graffiti Mural alusiva ao 25 de Abril. Grândola. Ivo Santos. 2016.

Que dizer do 25 de Abril? Marcou, e marca, muitas vidas. Rui Serapicos lembra a Grândola Vila Morena interpretada por Bernardo Sassetti e Mário Laginha, do álbum Abril a Quatro Mãos, com músicas do José Afonso. Em boa hora.

Bernardo Sassetti & Mário Laginha. Grândola Vila Morena. Abril a Quatro Mãos (Grândolas). 2014.

Picasso a pintar em directo

Na aula de Sociologia e Semiótica da Arte, dedicada ao processo de criação em arte, referi um filme que acompanha Picasso enquanto este desenha: Le Mystère de Picasso, realizado por Henri-Georges Clouzot, em 1955. Segue o filme.

Le Mystère de Picasso. Realização: Henri-Georges Clouzot. 1955.

O cantar do galo

Egon Schiele. Death And The Maiden. 1915-1916

O galo anda à solta e de crista levantada. Canta fora de horas, e guia as almas na última viagem. Perdi, nestes dias, quatro pessoas queridas, uma hoje. Mas o galo não se cansa. Continua a rondar. Os tempos não estão para aleluias, mas para dúvidas e epitáfios.

Vangelis. Ask the Mountains. Voices. 1995.
King Crimson. Epitaph. In The Court Of King Crimson. 1969.

Quarentena com arte

Edward Hopper. Morning Sun. 1952

Que bueno! La idea, la selección y el montaje. “Un regalo”. Buenos vientos vienen de España . Así los días cuentan, sin salir de casa. Gracias por compartir.

Cuarentena con arte, de Friking.

Pintar estrelas no céu

Vincent van Gogh. Self-Portrait. 1887

O coração do homem é muito parecido com o mar, tem tempestades, marés e nas profundezas também tem pérolas ” (Vincent Van Gogh, The Letters of Vincent van Gogh, 1914).

Costumo pensar que a noite é mais viva e mais rica em cores do que o dia (Van Gogh Notebook Journal Composition Blank Lined Diary Notepad, 2019).

No fundo, bem no fundo, apenas a imaginação. Nas alturas, também.

Don McLean. Vincent (Starry, Starry Night). American Pie. 1971
Don McLean. The Grave. American Pie. 1971

Aula imaterial 5. Maneirismo e surrealismo 2. Humanoides

Isto não é uma aula. Uma aula, hoje, requer outros suportes. Se alguém aprender alguma coisa, é por engano.

O barroco é profundamente sensorial e naturalista, apela gozosamente para as seriações fruídas na variedade incessante do mundo físico, ao passo que o maneirismo, sob o domínio do “disegno” interiore, da Idea, se distancia da realidade física e do mundo sensório, preocupado com problemas filosófico -morais, com fantasmas interiores e com complexidades e subtilezas estilísticas; o barroco é uma arte acentuadamente realista e popular, animada de um poderoso ímpeto vital, comprazendo-se na sátira desbocada e galhofeira, dissolvendo deliberadamente a tradição poética petrarquista, ao passo que o maneirismo é uma arte de elites avessa ao sentimento “democrático” que anima o barroco, anti-realista, impregnada de um importante substrato preciosista e cortês, representado sobretudo pelo filão petrarquista; o barroco caracteriza-se pela ostentação, pelo esplendor e pela proliferação dos elementos decorativos, pelo senso da magnificência que se revela em todas as suas manifestações, tanto nas festas de corte como nas cerimónias fúnebres, contrariamente ao maneirismo, mais sóbrio e mais frio, introspectivo e cerebral, dilacerado por contradições insolúveis; o barroco tende frequentemente para o ludismo e o divertimento enquanto o maneirismo aparece conturbado por um “pathos” e uma melancolia de raízes bem¬ fundas (Vítor Aguiar e Silva, Teoria da Literatura).

Alguns traços do maneirismo ressurgem no surrealismo: a exacerbação criativa do artista, a distância face à realidade, a valorização da “subtileza estilística”…

Quando participei, em 2007, na organização de uma exposição de homenagem a Jerónimo Baía, monge poeta do Mosteiro de Tibães, interessei-me pelo maneirismo. Para esta aula de diálogo entre o maneirismo e o surrealismo, convoco três gravuristas: o alemão Wenzel Jamnitzer (1508-1585); o alemão Lorenz Stoer (1537-1621); e o italiano Giovanni Battista Braccelli (1584-1650). É uma tentação associar estes três gravuristas a alguns artistas surrealistas.

No próximo vídeo, os desenhos da obra Perspectiva Corporum Regularium (1568), de Jamnitzer, e os desenhos de M. C. Escher cotejam-se, desprendendo-se a sensação de um certo ar de família. O facto de Escher possuir uma gravura de Jamnitzer acresce como um indício factual.

Perspectivas. Wenzel Jamnitzer e Maurits C. Escher

As construções mentais de Lorenz Stoer, designadamente as paisagens urbanas com figuras geométricas, revelam alguma afinidade com as gravuras de Escher. Jamnitzer, Stoer e Escher são “artistas conceptuais”. Ver o vídeo Paisagens Geométricas, com gravuras da obra Geometria et Perspectiva (1567) de Lorenz Stoer.

Perspectiva. Lorenz Stoer.

A galeria de imagens de M. C. Escher complementa o vídeo de Stoer. Não se pretende sugerir que Escher se inspirou em Stoer. Apenas sustentar que ambos partilham determinados esquemas mentais, tais como a propensão para a geometrização da realidade, geometrização, por vezes, distorcida, inteletiva e idiossincrática.

Dos gravuristas maneiristas considerados, Braccelli é aquele que mais se aproxima do surrealismo. Distingue-se pela construção fantástica de figuras humanoides estilizadas, publicadas em Bizzarie di varie figure (1624).

É uma tentação esboçar pontes entre Braccelli, M. C. Escher e Salvador Dali. Comecemos, porém, com Giorgio di Chirico, precursor do surrealismo. Os seres solitários e melancólicos, de Giorgio di Chirico, e as figuras bizarras de Braccelli convergem, pelo menos, no seguinte aspecto: retratam humanoides, compostos por objectos, sem rosto e descarnados.

Confrontar obras de arte descontextualizadas não é recomendável. Não obstante, ousamos suspender temporariamente a sociologia e a semiótica para dar asas à imaginação.

Salvador Dali assume as suas afinidades e ligações. Convocou François Desprez, convoca, também, Braccelli. Deu o nome Braccelli a uma gravura e a uma peça de design (Braccelli Lamp). Assinou a escultura de homenagem a Braccelli no Château de Vascoeil (ver imagens).

Este texto aproxima-se de um exercício ou de um divertimento. Aprende-se com o divertimento? A infância é, porventura, a idade da vida em que mais se aprende, aprende-se o mundo, a brincar.

Peregrinámos um longo percurso para saber o que já se sabe: a afinidade entre o maneirismo e o surrealismo. Valeu a pena? Depende da maneira como se caminha. Pode-se ir em fila ou pelos muros. Quem descobre o descoberto desfruta do treino e do prazer de descobrir. A excelência actual aposta mais na didáctica do descoberto e menos na didáctica da descoberta.

Isto não é uma aula. É um contributo original para a sociologia e a semiótica da arte. Corre-se o risco de aprender.

Termino com um documentário sobre o surrealismo, que tem a lucidez de começar pelo dadaismo.

Dada and Surrealism: Europe After the Rain. Documentário. Direcção: Mick Gold. Arts Council of Great Britain. 1978.

Aula imaterial 4. Maneirismo e Surrealismo. Sonhar o pesadelo

Luttrell Psalter

Esta aula é polivalente. Destina-se aos alunos de Sociologia e Semiótica da Arte, do mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, mas também, como exemplo de uma pesquisa documental extensiva, aos alunos de Práticas de Investigação Social, do mestrado em Sociologia.

A aula é conversada. O que não agrada. As aulas conversadas desconversam muito. Não têm coluna vertebral. Em suma, não têm ponta por onde se lhe pegue. Só dá para tocar, ponto aqui, ponto ali. Ouvi dizer que o próprio mundo não tem nem coluna vertebral, nem ponta por onde se lhe pegue. Esta aula está saturada de informação, designadamente, visual. Gosto destas aulas; os alunos não.

Na aula precedente, visitámos o barroco: nos séculos XVII e XVIII e na atualidade. Resulta legítimo falar em barroco nos nossos dias? Não se confina a um período histórico preciso? Para Eugenio d’Ors, o barroco  é um eon (palavra grega), uma forma que percorre a humanidade, atualizando-se em cada contexto particular. “Uma certa constante humana”, com vida ora secreta, ora discreta, ora ostensiva. Reconhece-se o barroco no período helenístico, na Contra-Reforma e no mundo contemporâneo (D’Ors, Eugenio, Du Baroque, Paris, Gallimard, 1935). A sugestão de Eugenio d’Ors estende-se, logicamente, ao grotesco, ao trágico e ao clássico.

Assinalei, na última aula, Michel Maffesoli como especialista da “barroquinização actual do mundo”. Cumpre acrescentar Omar Calabrese: A Idade Neobarroca. Pode descarregar.

Vamos comparar duas correntes de arte separadas por mais de três séculos: o maneirismo (1520-1600) e o surrealismo (desde inícios dos anos 1920).

Sou admirador de François Rabelais. Também de Mikhail Bakhtin, que estudou François Rabelais. Um par admirável. Aproveito para disponibilizar o pdf do livro de Mikhail Bakhtin, Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais (1968;  redigida em 1940), e o livro de Wolgang Kayser, O grotesco (1957), duas sumidades da teoria do grotesco: o primeiro encara-o como rebaixamento e o segundo, como estranhamento. Ambos os livros são úteis para esta aula.

Antes de prosseguir,  importa uma breve introdução ao maneirismo. Recomendo o artigo Maneirismo, da página História das Artes (https://www.historiadasartes.com/nomundo/arte-renascentista/maneirismo/).

Às voltas com François Rabelais, deparei com o livro Les Songes Drolatiques de Pantagruel. Publicado em 1565, contém 120 gravuras, da autoria de François Desprez (1530-1587). Como o título indica, as gravuras inspiram-se nas personagens fantásticas do livro Pantagruel. Convido-vos a descarregar esta relíquia. Merece ser folheada. Descarregar!

São excêntricas as figuras disformes e híbridas concebidas por Desprez. Mas não são completamente originais. Deixando de lado os grotescos (ver Desgravitar- Sem Conta, Peso e Medida: https://tendimag.com/2012/02/12/desgravitar-sem-conta-peso-e-medida/), sessenta anos antes, Hieronymus Bosch pintou os quadros Juízo Final (1482), São João Evangelista na Ilha de Patmos (1485), As Tentações de Santo Antão (cerca de 1500), o Jardim das Delícias (1503-1504) e O Carro de Feno (1500-1516). São pinturas que albergam uma turbulência de monstros e híbridos, ilustrada pela galeria de imagens Pesadelos de Bosch. Por acréscimo, pode ver o documentário Genios de la Pintura Hieronymus Bosch El Bosco (Lara Lowe, 2000).

Os pesadelos de Bosch

Documentário Genios de la Pintura. Hieronymus Bosch El Bosco. 2000.

Genios de la Pintura. Hieronymus Bosch El Bosco, Produção: Lara Lowe. Cromwell. 2000.

Sessenta anos, numa escala de longa duração, é pouco tempo. Pode-se recuar mais. Por exemplo, aos séculos XII e seguintes. Nesse tempo, multiplicaram-se os livros de horas e os livros de salmos para apoio à oração. Nas iluminuras das margens das páginas (marginália), exorbitavam os monstros e os híbridos (as droleries). Vamos espreitar dois livros de salmos: o Luttrell (1325-1340) e o Rutland (c. 1260).

A descoberta do livro de salmos de Luttrell aproximou-se de uma epifania. Pesquei as páginas uma a uma. Compilei-as como quem colecciona cromos. Procedi à montagem, respeitando a ordem original. Reconstitui o livro até à página 32. Apresentei o conjunto na seguinte animação em PowerPoint. Pode descarregar e abrir. Não perca. O Luttrell Psalter exigiu mais tempo e perícia do que a escrita de um artigo intergaláctico.

As iluminuras do livro de salmos de Rutland também precedem as gravuras de Desprez.

Imagens do livro de salmos de Rutland

Nada nos impede de recuar mais no tempo. Sem nos atardar com os cachorros românicos (ver O triunfo sobre a morte: San Martin de Artaíz: https://tendimag.com/2017/10/05/o-triunfo-sobre-a-morte-san-martin-de-artaiz/), nem com as gárgulas góticas (ver Gárgulas impúdicas: https://tendimag.com/2014/08/10/gargulas-impudicas/), pode-se retroceder ao início da cristandade, ao século I d. C. Sobreviveram frescos fabulosos na Domus Aurea, palácio construído entre 64 e 68 d. C. pelo imperador Nero, e nas ruínas de Pompeia, cidade soterrada pelo Vesúvio em 79 d. C. Ver o artigo Domus Aurea: o sonho enterrado (https://tendimag.com/2017/11/20/domus-aurea-o-sonho-enterrado-revisto/).

É tempo de regressar a François Desprez e, desta vez, andar para a frente. A comparação das gravuras de Salvador Dali com as gravuras de François é surpreendente. Salvador Dali retoma as gravuras de François Desprez, retocando-as com símbolos sexuais.

Salvador Dali. Les Songes Drolatiques de Pantagruel. 1973.

Uma pergunta: não teria sido suficiente começar o artigo no início e acabá-lo no fim, sem tanto devaneio e interlúdio? Confinar-se, simplesmente, a Desprez e a Dali?

Poder, podia, mas não era a mesma coisa. Convoco quatro argumentos, aparentemente, falaciosos:

  1. Um bom romance policial brilha pelo enredo. Não começa com o crime e acaba logo com a solução.
  2. Informar é formar. Não se pode ter o esquema de tudo e a substância de nada.
  3. O livro L’Amour de l’art, de Pierre Bourdieu e Alain Darbel (1966), convenceu-me que a aprendizagem da arte releva mais da massagem do que da mensagem, para empregar os termos de McLuhan.
  4. A proliferação das obras gera a vertigem das imagens. Sem a vertigem das imagens, não vingaria o seguinte pensamento diabólico: o homem é infinitamente grande pelas suas obras e infinitamente pequeno nas suas possibilidades.

“Afinal que é o homem dentro da natureza? Nada, em relação ao infinito; tudo, em relação ao nada; um ponto intermediário entre o tudo e o nada. Infinitamente incapaz de compreender os extremos, tanto o fim das coisas quanto o seu princípio permanecem ocultos num segredo impenetrável, e é-lhe igualmente impossível ver o nada de onde saiu e o infinito que o envolve” (Blaise Pascal, Pensamentos, 1670).

Continuamos na próxima aula: Maneirismo e surrealismo: O capricho da imagem.

Aula imaterial 2. A arte da sociologia

André François.

Para o teletrabalho, socorro-me do computador e do Tendências do Imaginário. Representa um desafio ensinar Práticas de Investigação Social, do mestrado em Sociologia, à distância. Para iniciar, sugiro alguma bibliografia com sabor a revisões. Quem refaz caminho anda de novo.

Existem muitos manuais panorâmicos de métodos e técnicas de investigação sociológica. Bastante parecidos. Cinjo-me a textos em versão digital (pdf).

A primeira edição do livro de Claire Selltiz et alii, Metodos de Investigación em las Relaciones Sociales, data de 1959. Os anos cinquenta foram pródigos em manuais de métodos em Sociologia, produzidos, frequentemente, por equipas de sociólogos e psicólogos sociais experientes. Passou meio século? A sociologia existe há mais de um século. Um livro que resiste ao tempo oferece–se como uma promessa. Segue a parte de que disponho: o pdf do capítulo III: Selección y formulación de un problema de investigación.

“Small is beautiful”. Existem dois livros pequenos, sucintos, de alta qualidade e interesse: Os Métodos em Sociologia, de Raymond Boudon, e O Método em Sociologia, de Jean-Claude Combessie (São Paulo, Edições Loyola, 2004). Para o segundo, só encontrei digitalizações parciais.

 Acrescento o meu relatório para provas de Agregação: Métodos e Técnicas de Investigação Social I (2004). Ler a partir da página 28.

A sugestão de leituras é ingrata. Não existem textos inocentes. Convém assumi-lo. O livro Como se faz uma tese, de Umberto Eco, parece extemporâneo. Em 1977, data da primeira edição, não havia Internet, nem sequer computadores pessoais. O livro está tecnicamente datado? O essencial, o que é decisivo, não começou hoje. Desdenhado ou não, o livro do Umberto Eco perdura. Porventura, a contracorrente. Está no vento a ritualização burocrática da investigação. Projectar e investigar é andar passo a passo no canteiro das ideias normalizadas. A inspiração e a originalidade escondem-se à sombra de um carvalho. O investigador já não é um sábio. Neste cenário, importa ler o Umberto Eco.

C. Wight Mills destaca-se entre os autores que cultivaram a arte de ser sociólogo. A Imaginação Sociológica é uma obra de viragem. Advoga boas práticas descomplicadas (ver, por exemplo, o apêndice “Do artesanato intelectual”) e aponta vícios tais como a “suprema teoria” e o “empirismo abstracto”. Mas, já no seu tempo, os contrários se atraíam: Talcott Parsons (supremo teórico), Paul Lazarsfeld (empirista abstracto) e Robert K. Merton (teoria do médio alcance) formaram um triunvirato que dominou a sociologia americana durante décadas. O namoro da suprema teoria e do empirismo abstracto continuam actuais. Quantas teses não se retalham entre uma parte de teoria suprema e outra de empirismo abstracto? Algumas lembram o Dom Quixote e o Sancho Pança.

É possível que a maioria não tenha ouvido falar de C. Wright Mills. Nos meus tempos de estudante, era leitura obrigatória no 1º ano. Em 1997, a Associação Internacional de Sociologia administrou um questionário aos membros pedindo que indicassem os cinco sociólogos que mais marcaram a sua actividade (https://www.isa-sociology.org/en/about-isa/history-of-isa/books-of-the-xx-century). Seguem os resultados:

International Sociological Association. Most influencial books for sociologists.

Não descuidem a elaboração dos projectos de investigação e intervenção. Na medida das circunstâncias, estou à vossa disposição no Tendências do Imaginário (utilizar “comentários”, em cima à esquerda), na Blackboard, no correio electrónico ou noutro meio que se proporcionar.

René Magritte. Méditation. 1937.jpg – Atalho