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Apagar o inferno

Warframe

Os trailers dos videojogos situam-se na vanguarda do imaginário e da estética contemporâneos. Chamam a si os maiores recursos e os melhores profissionais e criativos. No trailer We All Lift Together, do videojogo Warframe, criaturas, mistos de máquinas e seres humanos, surgem como guerreiros do trabalho, num estaleiro amplo, composto por partes metálicas e partes líquidas.

We All Lift Together. Warframe. Videojogo. Julho 2018.

Ouve-se um coro, um hino. Lembra as canções de resistência. Escolho quatro, uma por país eurolatino do sul: França, Le Chant des Partisans (Yves Montand); Itália, Bella Ciao (Yves Montand); Portugal, Grândola Vila Morena (José Afonso); e Espanha, Si Me Quieres Escrebir (Marina Rosell, a capella).

Chant des Partisans. Intérprete: Yves Montand. França. Resistência, II Guerra Mundial.

Bella Ciao. Intérprete: Yves Montand. Itália. Resistência, II Guerra Mundial.

Grândola Vila Morena. Intérprete: José Afonso. Portugal. Resistência ao fascismo.

Si me quieres escribir. Intérprete: Marina Rosell. Espanha. Resistência, Guerra Civil.

A Mãe e a Guerra

Hoje é Dia dos Pais no Brasil. Só não são todos os dias dias da mãe porque alguém se lembrou de decretar um dia especial. A relação com a mãe desdobra-se numa tensão entre união e separação, em que vibram as cordas tangíveis do coração: sensação, sentimento e emoção. Com a emigração e com a guerra colonial, exacerbou-se esta tensão. Multiplicaram-se os poemas e as canções. Poemas e canções que faziam chorar, perto e longe. Há pessoas que ainda agora se comovem ao ouvir estas músicas.

Conjunto Oliveira MugeO Conjunto de Oliveira Muge, fundado nos anos cinquenta, é originário de Ovar, mas o essencial da sua carreira teve lugar em Moçambique. A canção Mãe, gravada em 1966 na África do Sul, alcançou um enorme sucesso: “O tema “A Mãe” foi das canções mais solicitadas pelos militares em Moçambique, no período da Guerra Colonial” (Conjunto de Oliveira Muge: http://guedelhudos.blogspot.com/2008/10/conjunto-de-oliveira-muge.html).

A Menina dos Olhos Tristes (1969), interpretada por José Afonso, dispensa apresentação.

Conjunto de Oliveira Muge. A Mãe. 1966.

José Afonso. Menina dos Olhos Tristes. 1969.

Os estrangeiros também têm mães. Algumas bastante complexas. Compõem, também, belíssimas canções. Retenho Mother, de John Lennon, interpretada ao vivo em 1972 no Madison Square Garden, bem como Mother (1979), dos Pink Floyd, numa interpretação dos Pearl Jam (2011?).

John Lennon. Mother. Ao vivo no Madison Square Garden. 1972.

Pearl Jam. Mother (cover dos Pink Floyd). 2011 (?).

João Nada

Emigrantes portugueses estendem roupa junto às barracas de um estaleiro de construção civil. Região Parisiense. 1970. Fotografia de Gerald Bloncourt.

Emigrantes portugueses estendem roupa junto às barracas de um estaleiro de construção civil. Região Parisiense. 1970. Fotografia de Gerald Bloncourt.

“Em Portugal a emigração não é, como em toda a parte, a transbordação de uma população que sobra; mas a fuga de uma população que sofre”.
“Mas, enfim, temos a opinião e a imprensa confessando que a vida é extremamente difícil em Portugal, e que a acção natural que todo o cidadão português deve ao seu País – é abandoná-lo”.

(Eça de Queirós. “O governo e a emigração”. Uma campanha alegre : das farpas. Lisboa. Companhia Nacional Editora, 1890-1891. Vol. I).

Peço desculpa ao mundo, mas vou falar de Portugal. Um cais de partida em que a emigração é uma “constante estrutural” (Vitorino Magalhães Godinho). “Para nascer, Portugal. Para morrer, o mundo” (Padre António Vieira). A “exportação de gado humano” (J. P. de Oliveira Martins) custa mas rende. Mesmo os governos que proíbem a emigração contam com as suas remessas.

A emigração inspirou sermões, romances, poemas, esculturas, pinturas, filmes e músicas. Algumas canções tornaram-se célebres: “Eles. Um canto da emigração” (1968), de Manuel Freire, “Cantar da emigração (1971), de Adriano Correia de Oliveira, ou O Emigrante (1977), do Conjunto Maria Albertina (ver Música sobre a emigração). Outras mereciam melhor memória.

Quarteto 1111. João Nada. LP Quarteto 1111. 1970.

Quarteto 1111. Domingo em Bidonville. LP Quarteto 1111. 1970.

Quarteto 1111. Partindo-se. EP Balada Para D. Inês. 1967.

Fundado em 1967, o Quarteto 1111, com José Cid e Tozé Brito, foi a referência do pop/rock português dos anos sessenta. Interpretaram várias canções dedicadas à emigração. Retenho “João Nada” e “Domingo em Bidonville”, do álbum Quarteto 1111, editado em 1970; acrescento “Partindo-se”, do EP Balada Para D. Inês, editado em 1967.

Quarteto 1111. João Nada (1970). Ao vivo na Sociedade Portuguesa de Autores. 2016.

Os membros do Quarteto 1111 reuniram-se, em 2016, numa actuação ao vivo, na Sociedade Portuguesa de Autores. Segue o vídeo com a canção “João Nada” (1970).

A utilidade dos bebés

Matthias Stom. The Adoration of the Shepherds. 1635-1640.

Matthias Stom. The Adoration of the Shepherds. 1635-1640.

Eles não sabem, nem sonham
que o sonho comanda a vida
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
(António Gedeão, Pedra Filosofal, excerto, Movimento Perpétuo, 1956).

Deitei-me misantropo, acordei filantropo. Tudo é, agora, amor e água fresca. Carrinhos com bebés, mulheres grávidas e namorados de mãos dadas. Bom augúrio para a natalidade. O anúncio argentino Anti-Mangazo, do Santander Rio, ensina-nos que os bebés são úteis! Revelam-se bons escudos de protecção contra a cobiça alheia.

Marca: Santander Rio. Título Anti-Mangazo. Agência: Santo. Direcção: Diego Kaplan. Argentina, Agosto 2018.

Uma ressonância: a publicidade sonha; o sonho comanda a vida; mas a vida ultrapassa o sonho. No anúncio Anti-Mangazo, a criança é instrumentalizada como estorvo à pedinchice. Na realidade, muitas crianças são instrumentalizadas como suporte às redes organizadas de pedinchice. Embora “a vida seja um sonho um pouco menos inconstante” (Blaise Pascal, Pensamentos, 1670), convém aterrar, de vez em quando.

Green Windows / José Cid. 20 anos. 1973. Com com imagens do filme Aniki Bobó (1942), de Manoel de Oliveira.

Por falar em crianças, nos anos setenta, a secção de discos das grandes superfícies de Paris contemplavam apenas duas escolhas de música portuguesa: Amália Rodrigues e os 20 anos, de José Cid. Segue a canção, acompanhada com imagens do filme Aniki Bobó (1942), de Manoel de Oliveira.

Vento do Norte

Led Zeppelin IV. Capa.

Led Zeppelin IV. Capa.

“Imaginar-me-ia dificilmente que o diabo fosse misantropo” (Johann Paul Friedrich Richter dito Jean-Paul, 1763-1825).

Debate-se na sociologia a existência de actores ou, em alternativa, de agentes. Com recurso a palavras mágicas tais como “habitus” e “agência”. Em Moledo, pasmam os corpos e derretem os neurónios. Nem reactores, nem reagentes. Só ovos estrelados com protector solar. Tanto prazer em massa sem descarga energética. Nem o anúncio Supermodel, da LG, me consegue animar. Opto por colocar os Led Zeppelin nos auscultadores e dar uns pontapés na espuma do mar. Nem actores, nem agentes, só ovos estrelados. Nem sequer mexilhões. E eu, misantropo, à espera, à espera do vento do Norte ou das nuvens do Sul.

Marca: LG. Título: Supermodel. Agência: Young & Rubican. Direcção: Dave Klaiber. Austrália, Abril 2012.

Led Zeppelin. Black Dog. Led Zeppelin IV. 1971

40º à sombra

Miller

Gostar a dobrar é um privilégio. O anúncio Labels, da Miller, junta o realizador Bruno Aveillan e o cantor José Gonzalez. Sequências curtas atropelam-se ao ritmo da música. Quase toda a obra do Bruno Aveillan está publicada no Tendências do Imaginário. Passo a concentrar-me em José Gonzalez. O seu maior sucesso, Heartbeats (ver Máquinas desejantes), é a música do anúncio Bouncy Balls, da Sony Bravia. Acrescento duas canções: Stay Alive, da banda sonora do filme The Secret Life of Walter Mitty (2013); e Teardrop, do álbum In Our Nature (2007). 40º à sombra! Bom tempo para explorar uma mina de água.

Marca: Miller. Título: Miller Labels. Produção: QUAD Productions. Direcção: Bruno Aveillan. 2014.

Marca: Sony Bravia. Título: Balls. Agência: Fallon London. Direcção: Nicolai Fuglsig. Reino Unido, 2005.

José Gonzalez. Stay Alive, da banda sonora do filme The Secret Life of Walter Mitty (2013).

José Gonzalez. Teardrop, do álbum In Our Nature (2007).

Carta aos mortos

Vinicius Show de Moraes. 2012, com Ricardo Kelmer e Felipe Breier (à direita)

Vinicius Show de Moraes. 2012, com Ricardo Kelmer e Felipe Breier (à direita)

“Conhecer as manhas
E as manhãs
O sabor das massas
E das maçãs
É preciso amor
Pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir.

(Excerto de Tocando em frente. Composição de Almir Sater e Renato Teixeira)

Death_of_Marat_by_jacques Louis David. 1793.

Jacques-Louis David. Morte de Marat. 1793.

 

 

Felipe Breier é aluno do curso de mestrado em Comunicação, Arte e Cultura. Participou em vários eventos que organizei. É um excelente músico. Juntos, o violão e a voz encantam. Não é propenso a artificialismos. Quando diz que dói é porque dói mesmo. Este vídeo contém um poema e uma canção. São seis minutos de melancolia lúcida. Quando o Felipe dá, é um gosto receber.

Carta os mortos (poema) e Tocando em frente (canção). Interpretação de Felipe Breier.

Caldeirada de estímulos

Heineken. The Grand Finale

Apetece-me parodiar Karl Marx: o ser humano é racional. É movido por interesses. Só não sabe quais.

Zygmunt Bauman afirma que a modernidade é líquida. Serei mais preciso: é uma caldeirada de estímulos. Por exemplo, o anúncio brasileiro Grand Finale é uma de caldeirada de estímulos. Um atropelo de música e um sortido de futebol regados pela espuma heróica da cerveja Heineken. What else? Uma pitada de sexo.

Marca: Heineken. Título: Grand Finale. Agência: Publicis Brasil. Direcção: Rodrigo Gameiro, Junho 2018.

Geringonças

Ivan Black. 'Black Ellipse'. Revolving Suspended Disk Metal sculpture.

Ivan Black. ‘Black Ellipse’. Revolving Suspended Disk Metal sculpture.

Criança, pegava em duas laranjas verdes, numa cana e num pau. Dava para fazer um carro. Ainda gosto de brincar. Partilhei um vídeo do mural da Isabel Fonseca: Interactive Kinetic Sculptures by Ivan Black. Magiquei retirar o som de origem e enxertar A Ronda das Mafarricas, do José Afonso. Pareceu-me divertido. Não consegui baixar o vídeo. Para grandes males, pequenos remédios: coloquei o vídeo sem som e acrescentei a música do José Afonso. Basta abrir, no início, a música e o vídeo, de preferência nesta ordem. Para ver o vídeo com o som original, basta ligar o som no vídeo.

 

José Afonso. Ronda das mafarricas. Cantigas de Maio. 1971

 

Hierarquias na horizontal

Hierarquias na horizontalidade.

Hierarquias na horizontalidade. Montagem de Fernando Gonçalves. Julho 2018.

“Só aqueles que tentam o absurdo conseguem realizar o impossível” (M.C. Escher).

Com o calor, os neurónios entram em efervescência. Algumas bolhas trazem ideias. Hierarquias verticalmente semelhantes podem ter desempenhos distintos consoante a disposição horizontal.

Quando a hierarquia vertical (de cima para baixo) se replica na horizontal (da frente para trás) apenas o chefe acede à visão exterior (por exemplo, a Estátua da Liberdade). Os demais membros imaginam-na através dos olhos do chefe.

Quando a hierarquia horizontal inverte a hierarquia vertical, todos os membros conseguem ver a realidade desejada. Nesta disposição (B), a abertura ao exterior é maior. Todos os membros, do mais alto ao mais baixo, conseguem verificar, por exemplo, se a mão esquerda da Estátua de Liberdade segura a Tabula Ansata ou um tablet, bem como se, na mão direita, a tocha foi substituída pelo passarinho do Twitter.

As organizações tendem a replicar um mesmo princípio, normalmente simples e óbvio, de hierarquização. A mesma ordem preside à elegibilidade, às comissões, aos júris, às avaliações, à carreira, aos lugares, às posições e aos desfiles. Com uma ressalva: o pódio em que o primeiro é o último a subir, sobrepondo-se aos demais. Este tipo de hierarquia lembra um fractal. Possui um ADN, ou um gene, persistente. Seja qual for a circunstância, o código pré-existe. Nem sempre oportuno. Imagine que se pretende constituir uma comissão eleitoral. Nomeados os membros, falta designar o presidente. A escolha do presidente está pré-decidida: é o membro que possui a categoria mais elevada. Pouco importa se é o menos experiente, o menos indicado ou o menos disponível. Nada resiste ao código aristocrático em organizações que se apresentam como democráticas: o escolhido é, irrevogavelmente, o mais “categorizado”. Sempre o mesmo gene, sempre a mesma falácia, já sinalizada por Vilfredo Pareto (Traité de Sociologie Générale, 1917): acreditar que quem é bom numa dimensão é bom em todas as outras. Parafraseando René Descartes, Nada no mundo está mais bem repartido do que a omnisciência: toda a gente está convencida de que a tem de sobra. Mas hierarquias há muitas! Algumas, porventura menos fractais, menos fatais e menos triviais. E, também, menos infalíveis

Quando escrevo um artigo acontece-me sentir bater à porta da minha espelunca mental. Desta vez, é uma canção que quer entrar: Au suivant, de Jacques Brel. Não encontraria outra mais apropriada.

Eu e o meu rapaz mais novo dedicamos este artigo ao meu rapaz mais velho, que está no plat pays de Brel. É um apreciador da teoria dos jogos e dos esquemas de interacção.

Jacques Brel. Au suivant. Olympia, 1964.

Au suivant (Jacques Brel,
Tout nu dans ma serviette qui me servait de pagne
J’avais le rouge au front et le savon à la main
Au suivant, au suivant
J’avais juste vingt ans et nous étions cent vingt
A être le suivant de celui qu’on suivait
Au suivant, au suivant
J’avais juste vingt ans et je me déniaisais
Au bordel ambulant d’une armée en campagne
Au suivant, au suivant
Moi j’aurais bien aimé un peu plus de tendresse
Ou alors un sourire ou bien avoir le temps
Mais au suivant, au suivant
Ce n’fut pas Waterloo mais ce n’fut pas Arcole
Ce fut l’heure où l’on regrette d’avoir manqué l’école
Au suivant, au suivant
Mais je jure que d’entendre cet adjudant d’mes fesses
C’est des coups à vous faire des armées d’impuissants
Au suivant, au suivant
Je jure sur la tête de ma première vérole
Que cette voix depuis je l’entends tout le temps
Au suivant, au suivant
Cette voix qui sentait l’ail et le mauvais alcool
C’est la voix des nations et c’est la voix du sang
Au suivant, au suivant
Et depuis chaque femme à l’heure de succomber
Entre mes bras trop maigres semble me murmurer
“Au suivant, au suivant”
Tous les suivants du monde devraient s’donner la main
Voilà ce que la nuit je crie dans mon délire
Au suivant, au suivant
Et quand je n’délire pas, j’en arrive à me dire
Qu’il est plus humiliant d’être suivi que suivant
Au suivant, au suivant
Un jour je m’ferai cul-de-jatte ou bonne sœur ou pendu
Enfin un d’ces machins où je n’serai jamais plus
Le suivant, le suivant
Compositor: Jacques Brel.