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A Diversidade Humana

Angels with instruments, detail from the Coronation of the Virgin, 13th-14th century, by the Master of the Corleone Altarpiece. Palermo, Galleria Regionale Della Sicilia

A Imaginação Sociológica  (1959), do Charles Wright Mills, é um dos poucos livros da minha cabeceira. O capítulo 7 intitula-se “A Variedade Humana”. A diversidade é um dos meus principais valores: intelectuais e práticos. Importa respeitá-la, abraçá-la e promovê-la, em todos os domínios, incluindo a música. Neste momento, a bússola desnorteada aponta para a Idade Média.

Artefactum – Ductia (Anónimo do séc. XIII). De la taberna a la corte. 2015
Artefactum – Saltarello (séc. XIV). Tempus est locundum. 2002
Arany Zoltán – Palästinalied (de inícios do séc. XIII). Medieval Music. 2016

Embalar a tristeza

Se pretende embalar a tristeza, o Adagio para Cordas Op. 11, do Samuel Barber, é particularmente apropriada e célebre, mas o Adagio Molto da Sinfonia Al Santo Sepolcro, do Antonio Vivaldi, não lhe fica atrás.

Imagem: Jean-Édouard Vuillard, Félix Vallotton, 1908. Musée d’Orsay

Samuel Barber – Adagio for Strings Op. 11 (1936). ViennaPhilharmonic. Summer Nigh Concert. 02.08.2019
Vivaldi – Sinfonia Al Santo Sepolcro | RV 169 in B minor (ca. 1716). Academia Montis Regalis. Concerto particular, abril 2021

Refeições frescas e canções processadas

Existem comidas de que gostamos a dobrar: associámo-las a entes queridos. Costumam centrar-se em alimentos “naturais”. Assim sucede no anúncio “C’est Magnifique”, do Intermarché. No meu caso, nesta época, destaca-se menos a lampreia à bordalesa e mais o guisado de vitela com ervilhas de quebrar, ambos produtos da estação.

Intermarché – C’Est magnifique. Agência: Romance. Direção: Katia Lewkowica. França, 2019

Por seu turno, a música do anúncio do Intermarché lembra-me a “canção francesa”. Seguem três exemplos, mas interpretados por uma voz processada, gerada artificialmente [um autêntico desafio para os intérpretes reais]: “Éva Lenoir é uma cantora virtual gerada por inteligência artificial, recriando a emoção e a profundidade das grandes vozes do jazz francês” (https://www.youtube.com/playlist?list=PLo11Vql_XCKzb152duWRMEia7Tu_1nkNs).

Éva Lenoir – L’Amour qui s’éteint. Album 01. Colocado em 16.10.2025
Éva Lenoir – Valse pour une Ombre. Album 01. Colocado em 13.10.2025
Éva Lenoir – Les accords de ton absence. Album 01. Colocado em 11.10.2025

Dezembro em Abril

December é o último álbum de estúdio dos Moody Blues, lançado em 2003, quase 40 anos após a formação da banda (1964). Ouvi-lo no rescaldo da Páscoa, é reverberar o alfa, a Natividade, no ómega, a Paixão, juntar o princípio e o fim da Encarnação de Cristo. Numa entrevista à revista Goldmine, datada de 31 de maio de 2021, John Lodge, falecido em 10 de outubro de 2025, com 82 anos de idade, menciona como surgiu a canção “The Spirit Of Christmas”:

Estava no meu escritório com a televisão ligada e vi todas as notícias sobre os combates no Médio Oriente. Pensei: que mundo estranho em que vivemos. Desliguei a televisão e peguei na guitarra. O Natal estava à porta e as primeiras palavras que saíram da minha boca foram: “Para onde foi o espírito do Natal?”. Em quinze minutos, emergiu a totalidade da música. (Fabulous Flip Sides – The Moody Blues’ John Lodge. Goldmine The Music Collector Magazine, May 31, 2021).

The Moody Blues / John Lodge – The Spirit of Christmas (Lodge). December, 2003
The Moody Blues – Don’t Need A Reindeer (Hayward). December, 2003
The Moody Blues – When A Child Is Born (original de Zacar, 1974). December, 2003

O Tempo do Amor

Hoje fui a Melgaço assistir à missa e à procissão de Nossa Senhora da Cabeça em Penso. Aproveitei para visitar a casa de infância. Espevitei memórias díspares. Por exemplo, a música, a voz, a figura e o estilo de Françoise Hardy.

Já coloquei duas canções: Mon amie la rose e L’Amitié . Acrescento 5+1. “Le Large”, a última, representa um regresso com 74 anos de idade.

Françoise Hardy – Tous les garçons et les filles. Tous les garçons et les filles, 1962. Douce France : émission du 28 septembre 1964
Françoise Hardy – Le temps de l’amour. Tous les garçons et les filles, 1962
Françoise Hardy – La maison où j’ai grandi. Françoise, 1966
Françoise Hardy – Comment te dire adieu. Comment te dire adieu, 1968
Françoise Hardy – Il n’y a pas d’amour heureux. Comment te dire adieu, 1968
François Hardy – Le large. Personne d’autre, 2018

Criatividade e Inteligência Artificial

Lexus – Energy That Drives You On. Agência: AKQA. USA. Abril 2026

Se a campanha “Energy That Drives You On / Energia Que Te Impulsiona”, da Lexus, tivesse estreado um mês antes, teria certamente integrado o vídeo Anúncios que nos dão música.

Enquadrado num universo totalmente criado por inteligência artificial, o filme acompanha o veículo enquanto este se move com fluidez de paisagens serenas do campo para ruas dinâmicas da cidade. À medida que viaja, a sua presença desencadeia uma onda de energia contagiante que transforma o ambiente. A arquitetura altera-se subtilmente. A luz reage. Flores desabrocham em parques urbanos. Peixes cintilam na superfície dos rios. Luzes ramificadas espalham-se pelas florestas. O mundo parece energizado pela própria experiência do utilizador (UX), uma metáfora visual para desempenho elétrico e propulsão emocional.
O filme culmina quando o UX chega a uma estação de carregamento ao ar livre ao pôr do sol. Em um momento silencioso e de expectativa, a narrativa pausa, sugerindo que a próxima aventura já está à espera de recomeçar — reforçando a ideia central da campanha: energia não é apenas poder, é possibilidade. (…)
Jakob Mark, Diretor Criativo da AKQA, acrescentou: “Esta campanha demonstra o que é possível quando o trabalho artesanal e a IA são projetados para funcionar como um único sistema. O Virtual Studio nos permitiu construir um mundo imersivo onde cada quadro responde à energia do veículo. Não se trata de substituir a criatividade, mas sim de expandir o que ela pode fazer. Para a Lexus, isso significou proporcionar profundidade emocional, precisão e qualidade cinematográfica numa nova escala.” (Ads of the World, Lexus – Built for Every Kind of Wonder. Consultado em 03.04.2026).

Lexus – Energy That Drives You On. Agência: AKQA. USA. Abril 2026

A Bomba e a Cruz

Aproxima-se o dia da Crucificação. Vivemos tempos de muita religião e pouca religiosidade em que a espada [ou a bomba] ameaça obliterar a cruz rumo a uma nova idade da pedra. Oremos cantando!

I am the day, soon to be born
I am the light before the morning
I am the night that will be dawn
I am the end and the beginning
I am the Alpha and Omega
The night and day, the first and last

Libera – I Am The Day. Angel Voices: Libera in Concert, 2007. Live in the St Pieterskerk, Leiden, The Netherlands
Libera – Sanctus. Libera, 1999. live in the St Pieterskerk, Leiden, The Netherlands
Libera – Walking in the air (from The Snowman). Angel Voices 3, 1997. Live at St Johns Smith Square on 6th December 2020
Libera – Prayer. Visions, 2005. Live at the Basilica of the National Shrine of the Immaculate Conception in Washington DC

Na Sociedade Martins Sarmento

Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães. 28.03.2026. Fotografia: Adélia Gonçalves

Ontem, 28 de março, conversei sobre as esculturas da humildade e da piedade dos séculos XIV e XV no belíssimo salão da Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães.

Fiquei com vontade de regressar, mas duvido que tenham vontade de me receber.

Nas últimas semanas, fiz três conferências diferentes. A próxima terá como título Os Espelhos da Morte e a Boina do Artista, com uma segunda parte dedicada a Albrecht Dürer. Mas vou deixar passar algum tempo. Preciso de uma boa pausa.

*****

“Buongiorno Principessa” & “La vita è bella” (Nicola Piovani) – Film Symphony Orchestra. 2023

Uma Flor num Inferno

“Chanson pour Anna”, do Daniel Guichard, é flor que, como a camélia, teima em reaparecer no inverno, estação que não nos larga. É dedicada a Anne Frank, uma flor num inferno. Acrescente-se “Reste”, uma canção de despedida, seguida por “Prends-moi dans tes bras”, um pedido de refúgio, e teremos três belos poemas que se encadeiam. Recoloco “Mon Vieux” e “La Tendresse”. Fazem também parte do meu jardim de inverno.

Imagem: Frank, dezembro de 1941

Daniel Guichard – Chanson pour Anna. Mon vieux, 1974. Live 2015. Gravado no Teatro Sébastopol, em Lille.
Daniel Guichard – Reste. Notre histoire, 2012. Live 2019. Gravado no Teatro Sébastopol, em Lille.
Daniel Guichard – Prends-moi dans tes bras. Mon vieux, 1974. Live 2019. Gravado no Teatro Sébastopol, em Lille.
Daniel Guichard – Mon vieux. Mon vieux, 1974. Live 2015. Gravado no Teatro Sébastopol, em Lille.
Daniel Guichard – La tendresse. La tendresse, 1973. Live 2019. Gravado no Teatro Sébastopol, em Lille.

Anúncios que nos dão música

A comunicação nos anúncios publicitários é plural, “orquestral” e “polifónica”. Para além da “racional”, convoca múltiplas vias e dimensões: sensações, sentimentos, emoções, memórias, valores, símbolos… Por acréscimo, parte do efeito costuma ser subliminar. O que importa é que no momento oportuno o comprador, ou quem o influencia, faça a escolha desejada. Neste quadro, o fundo sonoro, especialmente a música, é particularmente relevante.

O segmento automóvel é, porventura, o mais proeminente em quantidade, recursos mobilizados e qualidade. O alcance do(s) anúncio(s) a um (novo) modelo é decisivo. Contratam-se, normalmente, os realizadores mais conceituados e as melhores agências de criatividade e produção.

Um anúncio a um automóvel não atende apenas às propriedades reais ou imaginárias do modelo; considera também as caraterísticas do público alvo a envolver e cativar. Para conseguir que este adira e nele se reconheça, convém conhecê-lo, designadamente as suas prioridades, aspirações e visões do mundo.

Embora bastante esbatida, esboçam-se correspondências entre o tipo de automóvel, as propriedade sociais dos potenciais compradores e o género musical. Ilustra-o, até certo ponto, o vídeo “Anúncios que nos dão música”, apresentado no dia 18 de março de 2026 na segunda parte de uma conferência A Música na Publicidade durante a Semana Aberta da Academia Sénior do Município de Braga.

Anúncios que nos dão música. Por Albertino Gonçalves. Conferência A Música na Publicidade, Semana Aberta da Academia Sénior do Município de Braga, 18.03.2026