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Canteiros do prazer: pleasuredomes

Festa do Alvarinho

Festa do Alvarinho e do Fumeiro. Melgaço.

Dizem os sábios que Portugal é um anfiteatro virado para o mar. Quem der uma volta ao país fica impressionado com a profusão de palcos e cenografias. Não há modo de ignorar a multiplicação de toldos, estrados, pistas, equipamentos, decorações, iluminações, letreiros e cartazes, tudo pronto a servir. Não há vila que não aspire ser uma Meca do espectáculo. Os eventos parecem cogumelos. Circulam de terra em terra, como os circos. Repetem-se, copiam-se e vingam. Em alguns casos, promovem-se produtos e recursos locais. Noutros, os palcos são ninhos para cucos forasteiros. Alguns revitalizam, por um tempo, sociedades envelhecidas, com atracções para os jovens. Portugal abraçou uma vocação: jardinar prazeres nos canteiros do rectângulo. Tanta “arte efémera”! Tanta « busca de excitação » ! Tanto “orgiasmo colectivo” (Beauchard, Jacques, 1985, La Puissance des Foules, Paris, Presses Universitaires de France). Welcome to the Pleasuredome!

Frankie Goes To Hollywood. Welcome to the Pleasuredome. Wellcome to the Pleasuredome. 1984.

 

A plastificação da inteligência

Le vent l’emportera
Tout disparaîtra
Le vent nous portera
(Noir Désir, Le Vent Nous Portera. Des visages des figures. 2001)

A plastificação dos oceanos inspira a publicidade. O anúncio espanhol da CREA, Sin Contaminación, e o anúncio Ocean of the Future, da Greenpeace, são disfóricos. Traçam um retrato cinzento da nossa irresponsabilidade. Para o anúncio Sin Contaminación, não estamos apenas a intoxicar o ambiente, intoxicámo-nos a nós próprios.

Sin contaminación

Marca: CREA. Título: Sin Contaminación. Espanha, Junho 2018.

Marca: Greenpeace. Título: Ocean of the Future. Agência: Ogilvy & Mather (London). Reino Unido, Abril 2018.

A fatrasia, estilo típico da Idade Média, alinha frases sem nexo. Mistura alhos com bugalhos num discurso sem sentido aparente. Gosto da fatrasia. Prefiro a paella ao puré. Por quê acrescentar o vídeo musical Le Vent Nous Portera, dos Noir Désir? Passa-se numa praia. É disfórico e estranho, um “bouquet de nerfs”. É percorrido por um sentimento de ameaça, sem como nem quando. Se isto não é suficiente para justificar o vídeo musical, acrescento que gosto dos Noir Désir! Gostar é o melhor passaporte para qualquer lugar e qualquer viagem.

Noir Désir, Le Vent Nous Portera. Des visages des figures. 2001.

Muitos anúncios do Tendências do Imaginário são filhos da pressa e do desperdício. O anúncio Sin Contaminación, consistente e original, merecia um comentário mais circunstanciado. O mesmo vale para o vídeo Le Vent Nous Portera, um filme subtil, um bom exemplar da canção francesa, com uma letra que se emancipa da estética do belo. Ando sobreocupado a perder tempo. A minha escrita parece o inverso de uma sopa de pedra: um calhou no fundo de um pote sem sombra de acompanhamento. Sem empratamento, sem decoração que disfarce e eufemize o mundo. Surpreendo-me, às vezes, a pintar cenários insensatos: com o vento actual, preocupa-me a plastificação dos oceanos, mas não me preocupa menos a plastificação da inteligência.

Chuva dissolvente

Habitat-1

Admiro a inteligência que serve o próximo, a perspicácia de quem resolve problemas. Este anúncio brasileiro aproxima-se da genialidade generosa. Avança com uma forma de reduzir a incidência das doenças associadas aos mosquitos: Dengue, Zica, Febre Amarela e Chicungunya. A Habitat Brasil cola cartazes nos locais onde a reprodução dos mosquitos é mais provável. Os cartazes são “pôsteres [de papel de arroz] educativos que se dissolvem na chuva e liberam um poderoso larvicida que mata as larvas do mosquito na água”. Mais engenhoso do que o ovo de Colombo, e muito mais útil.

Anunciante: Habitat para a Humanidade Brasil. Título: O Poster Dissolvente. Agência: BETC São Paulo. Direcção: Vilão. Brasil, Junho 2018.

Acrescento um zumbido clássico.

Nikolai Rimsky-Korsakov. The Flight of the Bumblebee. Berliner Philharmoniker.

Pac-Man, o Papa Pontos

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Georges Seurat. Un Dimanche à La Grande Jatte. 1884.

Tenho pesadelos. Deve ser de pensar de mais. Escorregam as margens para o subconsciente. Sonho, por exemplo, que a minha proeminência abdominal é tão grande que preciso de estacas para a segurar. Outras vezes, sonho que faço parte de um processo: o processo de Kafka. “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Logo, nada vale a pena. Nem a obra, nem a “governança”, nem a tripulação, nem o farol. Trata-se de um jogo de croquete à maneira da Rainha de Copas. A sabedoria exibe-se coxa, como o Perna de Pau: hipertrofia da investigação; hipotrofia do ensino. Investe-se na ciência como quem aposta no totoloto. Resultados? Encontros, papers, citações, corredores, rácios, concursos e pontos. Muitos pontos! Parece um quadro de Georges Seurat. Melhor, um Tetris, para encaixe, associado a um Pac-Man, para comer pontos. O pesadelo torna-se insuportável. Faço força para acordar. Estremunhado, oiço: “faltam pontos, faltam pontos, faltam pontos, para mudar de nível”. Esqueci-me de desligar a consola. É um alívio acordar para a realidade deste “admirável mundo novo”: Ciência Portugal 2018 – Star Trek.

Para conciliar realidades (hoje, costuma dizer-se plataformas) nada como a música. Clássica, tocada por dois virtuosos de outra época: Narciso Yepes e Andrés Segovia.

Fantasía para un Gentilhombre de J.Rodrigo. Homenaje de Narciso Yepes a Andrés Segovia. Madrid, 1987.

Andrés Segovia

Andrés Segovia at El Prado , Albéniz’s “Asturias-Leyenda”. 1967.

Apeadeiro

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A vida é feita de travessias. Há quem assegure que o melhor das travessias são as encruzilhadas. Para mim são as paragens. Quando coloco o pé no apeadeiro, parece que faço uma rasteira à velocidade e dou um nó nos fios do destino.

Sharon Irving é uma cantora norte-americana. Pouco conhecida. Muitas das suas canções não atingem a dezena de milhar de visualizações. Gosto de outsiders. Rest, Get Here, do álbum Bennett Ave (2016), foi a música escolhida pela Purina para o anúncio April & Dixie. Talvez seja uma boa oportunidade para Sharon Irving. Por exemplo, o anúncio Release me (2007), da Saab, alavancou o grupo sueco Oh Laura (ver https://tendimag.com/2017/06/25/vitalismo/).

Sharon Irving. Rest, Get Here. Bennette Ave. 2006.

Marca: Purina. Título: April & Dixie. Agência: The Martin Agency (Richmond). Direcção: Terry Rayment. Estados Unidos, Maio 2018.

As asas das migrações

Winged migration“Quando tudo acelerar ao ponto que, comparado à velocidade de hoje, parecerá que estamos parados?” (John). Estaremos provavelmente parados parecendo andar para trás sugados para a frente. Mas existe uma alternativa: virar as costas. Agora, estamos parados parecendo andar para a frente puxados para trás. Mas deixemos a inteligência descansar e observemos preguiçosamente os gansos a passar.

A Sofia Afonso doutorou-se, esta semana, em Sociologia, com uma belíssima dissertação dedicada à segunda geração e ao regresso. À segunda geração da emigração, pertencemos nós, John. Seja lá o que isso for! Eu parti e regressei; tu regressaste e repartiste. Numa entrevista recente, perguntaram-me se foi difícil ir para França. Respondi que mais difícil foi regressar. Foi há cerca de quarenta anos e sinto que ainda não pousei os dois pés. Deve ser da coluna. As pinturas pedem uma certa distância. Portugal, também! Parafraseando Fernando Pessoa, Portugal é um país que é mais fácil estranhar do que entranhar. “Perdigão perdeu a pena / Não há mal que lhe não venha (…) / Não tem no ar nem no vento / Asas com que se sustenha” (Luís de Camões). Perdigão que perdeu a pena só voa até aterrar. Um, abraço, John!

O documentário Winged Migration (2001) ganhou um César e foi nomeado para um Óscar. Tem imagens quase impossíveis. A música foi composta por Bruno Coulais.

Documentário Winged Migration, com música de Bruno Coulais. 2001.

To be by your side. Banda Sonora do documentário Winged Migration composta por Bruno Coulais. Interpretação de Nick Cave. 2001.

Return of the cranes. Documentário Winged Migration, com música de Bruno Coulais. 2001.

 

Marianne Faithfull

Marianne Faithfull

Pasmo a ver as ondas. Parecem despachos. Vão e vêm e não trazem nem levam nada. O mar é um pouco hipnótico. Uma pessoa imagina sereias e outras criaturas. Uma loura dos anos sessenta, de origem aristocrata, a cantar, com 17 anos, As tears go by, música composta por Mick Jagger e os Rolling Stones. Anos mais tarde, terá uma ligação com Mick Jagger (1966-1970). Estou a falar, naturalmente, de Marianne Faithfull.

Marianne Faithfull. As tears go by. 1964.

Marianne Faithfull. This little bird. Marianne Faithfull. 1965.

A melodia do repouso

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Joshua Bell

Nos últimos quatro dias, tive que escrever dois textos: um sobre a street food, outro sobre a fotografia. Como diria La Palice: quem não é especialista de nada acaba especialista de tudo. Para descansar das letras, costumo ouvir música. Nem livros, nem vídeos. Procurar músicas dá trabalho, mas é um trabalho que descansa. Gosto do violinista Joshua Bell. Tem um toque humano. Um dia foi tocar para o metro. Ninguém lhe prestou a mínima atenção. O Tendências do Imaginário já contempla uma ou outra música interpretada por Joshua Bell. Acrescento duas: uma de Dvorak, outra de Rachmaninov.

Joshua Bell. Dvořák. Zigeunerlieder. Gypsy Songs, opus 55.

Joshua Bell. Sergei Rachmaninov. Vocalise, Op 34 No 14.

É quase amanhã

Craig Armstrong

Craig Armstrong.

A música pode ajudar a desburocratizar os neurónios. Ninguém me demove da crença que a música é um estimulante da inteligência. O escocês Craig Armstrong compôs a banda sonora de vários filmes, tais como The Bone Colector (1999), Moulin Rouge! (2001), Ray (2004), Elisabeth: The Golden Age (2007) e The Incredible Hulk (2008).

Craig Armstrong. It’s Not Alrigh. It’s Nearly Tomorrowt. 2014

Craig Armstrong. Strange Kind of Love. It’s Nearly Tomorrow. 2014.

Craig Armstrong. This is Love. The Space Between Us. 1997.

Electrocussão

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Keith Refel.

Gosto de saber não só o que consumo mas também quem é o produtor. Na literatura, na música, em todos os domínios. Se algo me agrada, informo-mo sobre o autor. Conheço, porventura, mais histórias acerca dos sociólogos do que as respectivas teorias. Sem toque humano, a fonte seca. E “a força da água provém da fonte” (provérbio persa). Cativado pelo álbum lançado pelos Armaggedon em 1975, interessei-me por Keith Relf, vocalista e mentor da banda. Ingressou, em 1963, nos The Yardbirds, banda por onde passaram Jeff Beck; Jimmy Page e Eric Clapton. Funda, com Jim McCarty, em 1969, os Renaissance, com a irmã Jane Relf como vocalista. Em Maio de 1976, sofre um “acidente de trabalho”: morreu electrocutado enquanto tocava numa guitarra com deficiente ligação à terra. Estava em curso a criação de uma nova banda: Now. But Now is gone. Tempo para recordar os The Yardbirds, os Renaissance e os Armaggedon. Carregar nas imagens seguintes para aceder aos vídeos correspondentes.

Dazzede and confused

The Yardbirds. Dazed and Confused. Do programa “Bouton Rouge”, da Televisão Francesa, no dia 9 de Março de1968.

Renaissance Face of Yesterday

Renaissance. Face of Yesterday. Illusion. 1971.

Armaggedon. Buzzard. Argammedon. 1975.