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O violino, o génio e o virtuoso

Niccolò Paganini

Niccolò Paganini (1782-1840), o “violinista demoníaco”, compositor e intérprete, é considerado por muitos “o melhor violinista de todos os tempos”. Culmina uma tradição de séculos de violino italiano: Marini, Corelli, Vivaldi, Tartini… O russo Leonid Kogan (1924-1982) foi um dos melhores violinistas do século XX. Assistir, contanto em vídeo, a Leonid Kogan a interpretar Niccolò Paganini é um privilégio. Nel cor più non mi sento é uma composição de Paganini particularmente difícil de interpretar.

Albertino e Fernando

Paganini. Nel cor più non mi sento. 1821. Interpretação de: Leonid Kogan.

Sensualidade aumentada

Hugo Boss. The Scent Private Accord. 2018.

The Scent Private Accord, da Hugo Boss, confirma a propensão dos anúncios de perfumes para espaços diferentes e requintados. Lugares outros! A singularidade do auditório é explorada de uma forma magistral. “A atracção irresistível” propiciada pelo perfume ocorre durante uma experiência partilhada de realidade aumentada. O perfume The Scent Private Accord releva de uma “sensualidade aumentada”. Um anúncio com classe e com uma estética aprimorada.

O anúncio foi filmado no Baku Media Center, em Baku, no Azerbaijão.

Marca: Hugo Boss. Título: The Scent Private Accord. Direcção: Drake Doremus. 2018.

Brincar com coisas sérias

Omiri.

O projeto Omiri, dado a misturas e remisturas desinibidas, vai ao All Music Fest, em Melgaço, no dia 6 de Março.

“Omiri é, acima de tudo, remix, a cultura do século XXI, ao misturar num só espectáculo práticas musicais já esquecidas, tornando-as permeáveis e acessíveis à cultura dos nossos dias, isto é, sincronizando formas e músicas da nossa tradição rural com a linguagem da cultura urbana” (http://amusicaportuguesaagostardelapropria.org/projetos/omiri/).

Brinquemos! A brincar também se inventa.

Omiri. Fado em Picadinho. Baile Electrónico. 2017.
Omiri. Repasseado.Dentro da Matriz. 2010.

Billie Eilish

Billie Heilish.

Adolescente, no topo de vendas, a chorar lágrimas pretas, foi o suficiente para uma birra preconceituosa com Billie Eilish. Beber lágrimas pretas era demasiado para a minha cabeça redonda. É certo que conheço apenas o videoclip When the party’s over (2018): um concentrado de alta qualidade. Sou teimoso, mas sei dar o braço a torcer. Billie Eilish lançou ontem, 13 de Fevereiro, uma nova canção, No time to die, para o próximo filme da saga 007. Uma maravilha! O preconceito cega. Voltei a ouvir When the party’s over, e gostei.

Albertino e Fernando

Billie Eilish. “No Time To Die”, the theme song for the 25th James Bond film. Lançado a 13 de Fevereiro de 2020.
Billie Eilish. When the party’s over. When we all fall asleep, where do we go? 2018.

Sentimento

Man Ray. Ingres Violin. 1924.

“Les sanglots longs de l’automne blessent mon coeur d’une langueur monotone” (Paul Verlaine, Chanson d’Automne, 1866).

Ando, há meio século, com o Emmanuel, de Michel Colombier, ao colo. Nenhuma versão substitui a música original (ver https://tendimag.com/2017/10/19/a-danca-da-consciencia/). Mas gosto do violoncelo bem tocado. Por que não o Emmanuel? São cordas, cordas graves, que tremem e gemem.

Michel Colombier. Emmanuel. Wings (1971). Intérprete : Kristina Cooper.

Chanson d’Automne (Paul Verlaine)

Les sanglots longs

Des violons

De l’automne

Blessent mon cœur

D’une langueur

Monotone.

Tout suffocant

Et blême, quand

Sonne l’heure,

Je me souviens

Des jours anciens

Et je pleure;

Et je m’en vais

Au vent mauvais

Qui m’emporte

Deçà, delà,

Pareil à la

Feuille morte.

A canção do outono (Paul Verlaine; trad. Guilherme de Almeida)

Estes lamentos

Dos violões lentos

Do outono

Enchem minha alma

De uma onda calma

De sono.

E soluçando,

Pálido, quando

Soa a hora,

Recordo todos

Os dias doidos

De outrora.

E vou à toa

No ar mau que voa.

Que importa?

Vou pela vida,

Folha caída

E morta.

Chorar um tsunami

Gosto do anúncio Feel The Power Of Pro, da Playstaion. Diferente, com um desfecho inesperado, mas bem preparado, uma intertextualidade fina, belos efeitos especiais e excelente música. What else?

Marca: Playstation. Título: Feel the power of Pro. Agência: Adam & Eve DDB (London). Direcção: Frédéric Planchon. Internacional, Novembro 2019.

O choro diluviano do homem comovido lembra a canção Cry me a river, na interpretação original de Julie London (1955).

Julie London. Cry me a river. Julie is her name. 1955.

Os cavalos também dançam

Lucky Luke, Jolly Jumper e Rantanplan

“O cavalo, como todos sabem, é a parte mais importante do cavaleiro” (Jean Giraudoux, Ondine, 1959, Paris, Flammarion, 2016, Scène Deuxième).

Um pingo de humor cai sempre bem, até na melancolia. O anúncio The Cool Ranch, da Doritos, é uma paródia dos westerns. Assistimos a um duelo de dança em duas mãos. Primeiro, os cowboys, em seguida, os cavalos. A música de Ennio Morricone sublinha a dramaticidade heroica do momento. Quem ganha o dorito? Um cow-boy vale o que vale o seu cavalo. O primeiro cavalo, tipo Jolly Jumper, capricha; o segundo, tipo Rantanplan, faz o que lhe apetece: nada.

Marca: Doritos. Título: Cool Ranch. Agência: Goodby Silverstein & Partners. Estados Unidos, Janeiro 2020.
Rolling Stones. Wild Horses. Sticky Fingers. 1971.

Bom dia, tristeza!

Angel Statue. Oakland. California. USA.

Quando estou triste, tudo fica triste.

Peter Gabriel. Low Light. OVO. 2000
Max Richter. On the Nature of Daylight. The Blue Notebooks. 2004.

Música da desgraça desumana

Olivier Messiaen. Quatuor de la fin des temps. Campo Stalag VIII-A – Görlitz. 1941.

Há músicas de desgraças desumanas. Muitas pautas de música compostas pelos presioneiros sobreviveram ao holocausto. No caso do compositor Olivier Messiaen, ele próprio sobreviveu. Compôs e estreou o Quatuor pour la fin des temps, no campo de concentração Stalag VIII-A, em Görlitz, na Alemanha. Segue o movimento III: Abisme des Oiseaux. Repare-se que a pauta é iniciada com o seguinte apontamento: “Lent, expressif et triste”. Esta música é precedida pela música do filme Schindler List, composta por John Williams.

John Williams. Schindler List. NL Orchestra. RTL Netherlands show. 2017.
Olivier Messiaen. Quatuor por la fin des temps. Mov. III : Abisme des Oiseaux. Composto em 1941.

Em jeito de conclusão, retomo duas canções de 1969: a Menina dos olhos tristes, de José Afonso, e Te recuerdo Amanda, de Victor Jara.

José Afonso. Menina dos olhos tristes. 1969.
Victor Jara. Te recuerdo Amanda. 1969.

Lamentação. Críticas do Grilo Falante.

Existem muitas músicas da desgraça e da lamentação. Também existem muitas desgraças. No ciclo de músicas da desgraça, gostava de contemplar Vangelis, a meu ver, um mestre em músicas de lamentação. Retive três obras para acertar em duas.

O meu grilo falante quer dizer-me alguma coisa:
Grilo Falante: Não estás a colocar demasiada música? Ademais, triste. Duvido que seja da música que as pessoas gostam mais no teu blogue.
Ego: Que me recomendas fazer?
Grilo Falante: Coloca anúncios que emocionem, anúncios bem dispostos. São mais fáceis de encontrar do que essas pieguices enterradas na história.
Ego: Eu não decido em função do que as pessoas gostam, mas daquilo que eu gosto
Grilo Falante: Isso é o que acreditas e, imprudentemente, confessas aos outros.
Ego: Dou aos outros o que gosto, não aquilo de que gostam. Quando dou, dou uma parte de mim, não uma parte do outro. Por exemplo, a música 12 O’Clock, não sendo minha, é uma parte de mim. É uma dádiva, não é tiro ao alvo.
Grilo Falante: Parole, parole, parole, parole parole soltanto parole. Pelas músicas que escolhes, não danças há muito tempo.

Vangelis. Chant (Alternate). Alexander. 2004.
Vangelis. Rachel’s Song. Blade Runner. 1983.
Vangelis. Heaven and Hell Part II (12 O’ Clock). Heaven and Hell. 1975.