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A ternura dos sessenta


Creedence Clearwater Revival.

Percorro a aldeia com passos de velho e cabeça de criança. Aqui, lançava para-quedas que subiam. Perto, agarrava-me a uma motorizada para ganhar balanço com os patins. Ali, matava laranjas com um arco improvisado a partir de um guarda-chuva. Além, treinava os tombos para as habilidades de bicicleta… Ternura dos sessenta. Ouvia-se música em qualquer sítio, incluindo uma casa em construção sem portas nem janelas. A ementa musical era reduzida: Beatles, Rolling Stones, The Doors, Moody Blues, Deep Purple e um grupo com nome estranho e sucesso fantástico: os Creedence Clearwater Revival. O passado não descansa, amadurece. Seguem três cristalizações.

Creedence Clearwater Revival. Proud Mary. Bayou Country. 1969.
Creedence Clearwater Revival. Who’ll stop the rain. Cosmo’s factory. 1970. Clip de 1969.
Creedence Clearwater Revival. Have you ever seen the rain. Pendulum. 1970.

Fastio civilizacional

Arena de Verona. Itália

Os anfiteatros romanos preservam, passados dois milénios, a sua função: acolher espectáculos. Os músicos pop/rock têm uma predilecção por estes espaços históricos monumentais: os Pink Floyd tocaram, sem público, no anfiteatro de Pompeia em 1971; os Dire Straits no anfiteatro de Nîmes em 1992; Paul McCartney no Coliseu de Roma em 2003; Leonard Cohen no anfiteatro de Pula em 2013; os Deep Purple no anfiteatro de Verona em 2014…

Retenho três interpretações ao vivo em que predominam os instrumentos acústicos.

  • Private Investigations (Love over gold, 1982) pelos Dire Straits, no anfiteatro de Nîmes em 1992. Sobressaem os sopros e as cordas. Mark Knofler toca guitarra clássica. Private investigations adequa-se ao cantar falado de Mark Knofler.
  • So Long, Marianne (Songs of Leonard Cohen, 1967) por Leonard Cohen, com 79 anos de idade, no anfiteatro de Pula em 2013.
  • Walk This Way (Aerosmith, Toys in the Attic, 1975) por Steven Tyler, no Coliseu de Roma, num espectáculo de Andrea Bocelli em 2017. Destaque para os violoncelos.

Música em anfiteatros do Império Romano

Três canções é muita música. Hoje, sobra o gosto e falta o apetite. O século XX inventou uma máquina para preservar os alimentos e adiar o consumo: a arca congeladora. Revolucionou a pesca e a agricultura. Estas canções ouvem-se ou não. Mais uma ou menos uma múmia na Internet. Os arquivos cobrem-se com uma espécie de tédio electrónico.

Dire Straits. Private Investigations. Love over gold. 1982. Ao vivo no anfiteatro de Nîmes em 1992.
Leonard Cohen. So Long, Marianne. Songs of Leonard Cohen. 1967. Ao vivo no anfiteatro de Pula em 2013.
Steven Tyler. Walk This Way (Aerosmith, Toys in the Attic, 1975). Ao vivo no espectáculo de Andrea Micelli no Coliseu de Roma em 2017.

Luxúria

Morpheus. Kia. The Truth. 2014.

Conduzir é uma tentação. Conduzir um Kia é pecado, o pecado da luxúria. Morpheus, o guia omnisciente, introduz-nos ao delírio dos sentidos e à música paranormal. Tudo no maior luxo.

The Truth – Official Kia K900 Morpheus Big Game Commercial 2014. HalfTime SuperBowl.

Qualidade e sucesso

Micah P. Hinson

Existe sucesso sem qualidade; e qualidade sem sucesso. Não é preciso ser belo para ser bom, mas ajuda. Uma vida atribulada não impede a criatividade, mas corrói a credibilidade. O norte-americano Micah P. Hinson não é um Senhor Milhões de visualizações. É original, com uma voz e um som próprios. Esteve no Theatro Circo, Em Braga, no dia 1 de Fevereiro de 2019.

Micah P. Hinsob. Beneath The Rose. Micah P. Hinson and the Gospel of Progress. 2004. Marc Riley BBC 6 Music Session 06/11/2012.

Quando um cego chora

Pieter Bruegel. A parábola dos cegos. 1568

O domingo é sagrado, dia de ansiolíticos e antidepressivos naturais. Há quem combine uns e outros. Na vida quotidiana também se entrelaçam (Norbert Elias e Eric Dunning, A busca da excitação, 1986). Por exemplo, durante um espectáculo de futebol as doses alternam-se (Albertino Gonçalves, Vertigens, 2009). Domingo é dia de compensação. Mais vale jogar à sueca em casa do que labirintar no poker de massas. Gosto de namorar o passado. O passado não para de crescer! O presente não o agarro e o futuro não o conheço. O meu passado é um contrabandista: atravessa as fronteiras do tempo. O domingo é dia de música. Música ultrapassada. Um rosário de pérolas barrocas, amuleto contra os carneiros de Panurgo (François Rabelais, Pantagruel, c. 1532). Já coloquei no Tendências do Imaginário a canção When a blind man cries, dos Deep Purple (https://tendimag.com/2015/10/01/when-a-blind-man-cries/). Uma espécie de gata borralheira para o Ritchie Blackmore, a música foi editado num single em 1972. Esperou pelos anos noventa para subir aos palcos e figurar nas antologias. A versão de 1999 de Ritchie Sambora, ex Bon Jovi, pouco difere do original. Mas o vídeo musical é pedagógico. Ensina que 1) não existem abraços electrónicos; 2) Os média podem estimular abraços; 3) Por detrás dos média, há sempre alguém; e 4) os sonhos existem e são humanos.

Só agora, concluído o texto, me apercebi, enquanto procurava um vídeo com melhor resolução, que esta curta-metragem foi escrita e realizada por um português: Nuno Rocha, para a LG Portugal. Pontes.

Richie Sambora (Deep Purple cover) – When A Blind Man Cries | LG — «Momentos». Guião e realização de Nuno Rocha. 2010.

Beleza e libertação

Julia Roberts. Lancôme. 2018

“A beleza desperta a alma para agir” (Dante Alighieri).

Bruno Aveillan consta entre os melhores realizadores de anúncios publicitários. O Tendências do Imaginário inclui cerca de 40 anúncios com a sua assinatura. Desenvolveu um estilo próprio. Minucioso, talha os pormenores que nem diamantes. O olhar de Bruno Aveillan combina a câmara de filmar e a câmara fotográfica. Embeleza a beleza. É um operário de afrodites, com ou sem Adónis. A banda sonora é cuidada até à última nota. Há combinações memoráveis. No anúncio La vie est belle, da Lancôme, a música eleita é Diamonds, um cover de Rihanna, pelo australiano Josef Salvat, por sinal, já utilizado noutros anúncios, incluindo da Sony.

Para apreciar a mão de Bruno Aveillan, proponho um exercício: comparar o anúncio de 2018 com o anúncio da Lancôme, de 2016. Partilham o mesmo título, La vie est belle, e a mesma protagonista: Julia Roberts, embaixadora da marca desde 2009. O anúncio de 2016 foi dirigido por James Gray (realizador dos filmes Os donos da noite, 2007; Amantes, 2008; Era uma vez em Nova York, 2013; e Laços de sangue, 2013). O convite não é para hierarquizar, mas relevar as diferenças. Aos dois anúncios da Lancôme, acrescento duas interpretações ao vivo de Josef Salvat: Shoot and run e Night swim, esta mais despojada, acompanhada apenas pela guitarra eléctrica. Pertencem ao álbum Night Swim, de 2016.

Marca: Lancôme. Título: La vie est belle. Agência : Publicis 133. Direcção : Bruno Aveillan. França, Agosto 2018.
Marca: Lancôme. Título: La vie est belle. Direcção : James Gray. França, Fevereiro, 2016.
Josef Salvat. Shoot and Run. Night Swim. 2016. Ao vivo.
Josef Salvat. Night Swim. Night Swim. 2016. Ao vivo.

Água do deserto

Sony Bravia. Desert Water. 2019

Os anúncios da Sony são extraordinários. Efeitos visuais fabulosos e uma estética fantástica. No anúncio Desert Water, o som é vedeta. Sai, incluindo a voz de Grace VanderWaal, do próprio ecrã. Uma gota de água avoluma-se, através de um dominó de monitores, até se despenhar numa cascata. O som, portentoso, é imersivo. Tão real como o real!

Da série de anúncios a televisores da Sony, o meu preferido é o Balls, de 2005 (ver https://tendimag.com/2013/11/05/erupcao-de-cores/). Recordo, não obstante, o Strangely Beautiful / Ice bubbles, de 2014.

We soon see the beginning of life, as a single drop of water emerges into the scene through a BRAVIA AG9 TV. The drop turns into a river as the music grows to match its intensity and strength. As the spot leads us through an ever-emotive experience, we witness the river becoming a beautiful waterfall, a climatic finish that lets the viewer be immersed in sound and vision (Innocean).

Marca: Sony. Título: Desert water. Agência: Innocean. Reino Unido, Maio 2019.
Marca: Sony. Título: Strangely Beautiful / Ice Bubbles. Agência: Adam&Eve BBD (London). Direcção: Leila & damien de Blinkk. Reino Unido, 2014.

A importância dos outros

Nós somos todos o outro de alguém

São raros os anúncios com textos interessantes. Les autres, da Volkswagen, propõe uma música admirável (Walang Kamatayan, de Pedro Concepcion), imagens apropriadas e um texto invulgar, que lembra o estilo poético de Jacques Prévert.

Estou a tomar uma vacina de imunidade às coisas importantes. A vacina chama-se cinismo. Um aluno de Stanislavski deixa-se seduzir por umas peças de roupa; veste-as todos os dias; passado algum tempo, aquela roupa transforma-o num crítico (Constantin Stanislavski, A construção da personagem, 1948). No que me diz respeito, para cínico não preciso de roupa, basta acordar. Não obstante o meu cinismo, Prévert e Montand são especiais. Há coisas sem importância com grande valor. Têm o valor que lhes damos. A vida pode dignar-se murmurar, repetir, uma canção. Por exemplo, Les Feuilles Mortes (https://www.youtube.com/watch?time_continue=2&v=kLlBOmDpn1s), escrita por Jaques Prévert, musicada por Vladimir Kosma e interpretada por Yves Montand. Na viagem para o vale dos ossos tranquilos, quero ouvir as “folhas mortas”. Segue a tradução do texto do anúncio:

Os outros. Estão por todo o lado, os outros. Mas, sobretudo, lá onde não fazem falta. À frente, os outros não avançam. Atrás, avançam demasiado. Os outros são sempre em maior número do que nós, e chegam sempre ao mesmo tempo que nós. Os outros comportam-se como se os outros não existissem. São demasiado jovens para conduzir, são demasiado velhos para conduzir. Os outros são o inferno. De qualquer modo, assim o dizem os outros. Nós somos todos o outro de alguém.

Acrescento uma canção com letra de Prévert e interpretação de Montand: Dans ma maison. Atente-se às passagens dedicadas à importância dos pés e aos equívocos da palavra pardal.

Marca: Volkswagen. Título: Les autres. Agência: DDB (Paris). Direcção: SI&AD. França, Maio 2019.
Yves Montand. Dans ma maison. Ao vivo. 1981. Poema de Jacques Prévert.

Dans ma maison (Jacques Prévert)
Dans ma maison vous viendrez
D’ailleurs ce n’est pas ma maison
Je ne sais pas à qui elle est
Je suis entré comme ça un jour
Il n’y avait personne
Seulement des piments rouges accrochés au mur blanc
Je suis resté longtemps dans cette maison
Personne n’est venu
Mais tous les jours et tous les jours
Je vous ai attendue
Je ne faisais rien
C’est-à-dire rien de sérieux
Quelquefois le matin
Je poussais des cris d’animaux
Je gueulais comme un âne
De toutes mes forces
Et cela me faisait plaisir
Et puis je jouais avec mes pieds
C’est très intelligent les pieds
Ils vous emmènent très loin
Quand vous voulez aller très loin
Et puis quand vous ne voulez pas sortir
Ils restent là ils vous tiennent compagnie
Et quand il y a de la musique ils dansent
On ne peut pas danser sans eux
Faut être bête comme l’homme l’est si souvent
Pour dire des choses aussi bêtes
Que bête comme ses pieds gai comme un pinson
Le pinson n’est pas gai
Il est seulement gai quand il est gai
Et triste quand il est triste ou ni gai ni triste
Est-ce qu’on sait ce que c’est un pinson
D’ailleurs il ne s’appelle pas réellement comme ça
C’est l’homme qui a appelé cet oiseau comme ça
Pinson pinson pinson pinson
Comme c’est curieux les noms
Martin Hugo Victor de son prénom
Bonaparte Napoléon de son prénom
Pourquoi comme ça et pas comme ça
Un troupeau de bonapartes passe dans le désert
L’empereur s’appelle Dromadaire
Il a un cheval caisse et des tiroirs de course
Au loin galope un homme qui n’a que trois prénoms
Il s’appelle Tim-Tam-Tom et n’a pas de grand nom
Un peu plus loin encore il y a n’importe qui
Beaucoup plus loin encore il y a n’importe quoi
Et puis qu’est-ce que ça peut faire tout ça
Dans ma maison tu viendras
Je pense à autre chose mais je ne pense qu’à ça
Et quand tu seras entrée dans ma maison
Tu enlèveras tous tes vêtements
Et tu resteras immobile nue debout avec ta bouche rouge
Comme les piments rouges pendus sur le mur blanc
Et puis tu te coucheras et je me coucherai près de toi
Voilà
Dans ma maison qui n’est pas ma maison tu viendras.

Divertimento

Figura 1. Codex Donaueschingen 113 ,Des Teufels Netz, Bodenseeraum, 1441

Interessar-se pela música do inferno é próprio de tolos desocupados. Pior ainda descobrir na terra músicos passíveis de tocar no inferno. A banda de demónios da figura 01 quer sair da porta do inferno. Prefere o interior com ar quente e cheiro a enxofre.

Há músicos com perfil para tocar no inferno: Rolling Stones (Sympathy for the devil), Deep Purple (Demon’s eye), Chris Rea (The road to hell), Uriah Heep (Demons and Wizards), Black Sabbath (Heaven and hell), AC/DC (Highway to hell), Pink Floyd (Run like hell)… Retive dois candidatos. O álbum Heaven and Hell (1975) do Vangelis inspira-se, em vários troços, no inferno. Parco em melodias e ritmos compassados, alguns sons são do outro mundo e muitas passagens incómodas. Mas o álbum de Vangelis é, do princípio ao fim, límpido e afinado. O que desagrada aos diabos, propensos a confusões, cacofonias e charivaris. Sobra, nestas condições, Marilyn Manson, exímio em animar os demónios e torturar as almas penadas.

Vangelis. Heaven and Hell. 1975. Excerto.
Marilyn Manson. mOBSCENE. The Golden Age of Grotesque. 2003.

Diferenças e defeitos

Peter Huys. O Inferno. 1570. Pormenor.

Admiro Syd Barrett, fundador dos Pink Floyd. Cedo se saturou dos outros. Faleceu, diabético, em 2007, de complicações de obesidade mórbida. A obesidade, outrora conforto e fartura, degenerou em deformidade, vício e pecado. Faltou Michel Foucault ter-se dedicado à genealogia da obesidade.

Uma sociedade que persegue a obesidade é moderna. Nem pós-moderna, nem líquida, nem outra desmodernidade qualquer. O obeso é um indexável (apontável pelo dedo) e um estigmatizado (não há mais dedo a apontar). Não somos filhos de Adão e Eva, somos filhos do padrão e da balança. Do Arcanjo São Miguel. O nosso século descobriu uma fórmula alquímica que transforma as diferenças em defeitos.

Matilda Mother (1967) é uma canção dos Pink Floyd da era Syd Barrett (guitarrista e vocalista).

Pink Floyd. Matilda Mother. The Piper At The Gates Of Dawn. 1967.