Pássaros de aço

“Em tempo de exultação da leveza, o peso e a robustez não se intimidam. Dá-me um extremo e mostro-te o outro. Uma barra tem dois extremos. Dobrada, os extremos tocam-se. O mundo anda assim, dobrado, com as distâncias a dançar tango (…) Estes quatro anúncios a automóveis vêm a talhe de foice: apostam no valor da robustez, com a leveza na lapela.” Aos pássaros de aço, de “O peso das coisas” (2016), acrescento “O Pássaro de Fogo” (excerto), conduzido pelo próprio Stravinsky.
Nas nuvens

Quase todos os anos escrevo um artigo a agradecer os votos de bom aniversário. Hoje, com a ida a Melgaço, não sobrou tempo. Não faz mal: aumentam os anos e diminuem os artigos e a estatura. Mas continua a vontade de voar e de comunicar. E de sonhar, também. A amizade ajuda. Recoloco, tardiamente, dois artigos que convocam este espírito: “Memória reincidente” (2020) e “Novidade e originalidade” (2017).
Naturalidades

Com o recurso à Inteligência Artificial, designadamente às potencialidades de animação, namora-se a hiper-realidade: a ilusão adquire outra vida e espessura. O anúncio “Give life some juice”, da Tropicana parece, assim, “natural” (como o sumo?). Simula a perfeição, “sem ponta por onde se lhe peque”, a não ser “dando-lhe a volta”, refrescando as ideias e os sentidos.
René Magritte – Tempo trespassado, 1938
Lua, Estrela, Vénus, Gaivotas e Teslas

A lua
La LunaUm dia, ao improviso
Un giorno all’improvisoA lua se cansou
la luna si stancòDe olhar para o mundo, la de cima
di guardare il mondo di lassùEla pegou um cometa,
prese una cometa,Seu rosto, escondeu
il volto si velòE até o fim do céu, caminhou.
e fino in fondo al cielo camminò(Angelo Branduardi, La Luna, 1975)
Um satélite, uma estrela e um planeta, três luzinhas solitárias e quase alinhadas. Falta um cometa, mas esses parecem estar do outro lado do mar. Curiosamente, nas recentes dezenas de vezes que tenho ido à varanda, afigura-se-me ver, nesta praia minhota, poucas gaivotas e muitos Teslas.
Continuo, obstinadamente, a escutar música italiana, hoje, La Luna de Angelo Branduardi
Demasiado potentes, prepotentes e impotentes

Que desenharia Quino (1932-2020) se estivesse vivo? Não lhe faltariam exemplares de potentes, prepotentes e impotentes em que se inspirar. Nada sofisticados nem discretos. A minha geração foi das mais “empoderadas” ao longo da vida; foi, também, daquelas cuja esperança mais inchou e desinchou.
Ternura


Das esculturas da Virgem com o Menino, com mais de quinhentos anos, às recentes gravuras de namorados de Raymond Peynet, a ternura e o humor juntos são uma delícia.




