Archive | gravura RSS for this section

Saudades

braccelli-p-42

Braccelli, Giovanni Battista (1624). Bizzarie di Varie Figure. Livorno. p. 42.

“Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram! O que eu sinto quando penso no passado, que tive no tempo real, quando choro sobre o cadáver da vida da minha infância ida…, isso mesmo não atinge o fervor doloroso e trémulo com que choro sobre não serem reais as figuras humildes dos meus sonhos” (Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.I. Fernando Pessoa. Lisboa, Ática, 1982).

“Insiste-se no sentimento de falta a propósito da saudade. Às vezes, o motivo também é o excesso, a imensa vontade de dar e não ter quem receba” (Albertino Gonçalves).

Andrea Bocelli. Con te Partiro. 2015.

A caridade espetáculo

Quem trata bem os pobres empresta ao Senhor, e ele o recompensará” (Bíblia, Provérbios 19.17).

Este anúncio do World Development Movement lembra, perversamente, o reverso da cupidez: a caridade. Entramos na era da caridade espectáculo? A caridade espectáculo é milenar. Há muito, muito tempo já havia bailes e cortejos de caridade. Entramos quando muito na ubiquidade e na ostentação em larga escala da caridade. A caridade mitiga o necessitado e engrandece o benemérito. Lustra a reputação e consolida o poder. É  um valor acrescentado, neste e no outro mundo. Ressalve-se, contudo, que este retorno requer visibilidade. A comunicação social parece interessada.

Em vez de caridade, por que não solidariedade? Naturalmente, mas a palavra solidariedade implica envolvimento, responsabilização, compromisso e conexão, dimensões que a palavra caridade nem sempre contempla. A caridade, por sua vez, comporta outras vertentes como, por exemplo, a religião. Mas nem sempre é fácil distingui-las.

Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

quino-gente-en-su-sitio

Quino. Gente en su sitio 1979 / Anunciante. World Development Movement. título: Banquier et Dette du Tiers Monde. Reino Unido, 1995.

 

 

 

Tábua rasa

m-c-escher-drawing-hands-1948

M. C. Escher. Drawing Hands. 1948.

Aprecio os anúncios que versam sobre o ensino e a educação. Este anúncio da Letónia, Carve your destiny, suscita, pelo estilo e pelo engenho, quatro apontamentos:

  1. Aprender é desfazer-se da ganga. A ganga é composta por materiais que envolvem o minério e lhe dificultam o acesso. A ganga é um excesso que estorva. A mulher do anúncio retira, com um cinzel, a crosta que a oprime;
  2. Ao retirar a crosta que oprime, a educação é libertação;
  3. Uma jovem, uma crosta e um cinzel, nada e ninguém mais! A mulher constrói-se a si própria, esculpe a sua identidade e o seu futuro. Trata-se de uma auto-aprendizagem que condiz com uma instituição de ensino à distância.
  4. Como pode uma pessoa esculpir-se a si própria? O bloco lembra uma tábua rasa, a partir da qual a pessoa se cinzela. Tábua rasa é uma imagem, exageradamente caricaturada, a que Émile Durkheim recorreu a propósito da socialização primária. Prefiro esta, crítica da visão veiculada pelo anúncio: “Como, desde logo, o indivíduo pode pretender reconstruir, pelo único esforço da sua reflexão privada, uma realidade que não é obra do pensamento individual? Ele não está perante uma tábua rasa sobre a qual pode edificar o que quer, mas realidades existentes que não pode nem criar, nem destruir, nem transformar à vontade. Ele só pode agir sobre elas na medida em que aprendeu a conhecê-las e sabe qual é a sua natureza e as condições de que elas dependem” (Durkheim, Émile, Éducation et sociologie, Paris, Librairie Félix Alcan, 1922, p. 42-43).

Marca: RPIVA. Título: Carve your destiny. Agência: Ogilvy. Letónia, Janeiro 2017.

As idades da vida

bartholomeus-anglicus-the-six-ages-of-man-livre-des-proprietes-des-choses-1480

1. Bartolomeus Anglicus. As seis idades do homem. Livre des propriétés des choses. 1480.

Para Pierre Bourdieu, “a juventude é apenas uma palavra”, ou seja, uma construção social arbitrária e, por acréscimo, polémica (Questions de Sociologie, Editions de Minuit, 1984). Anos antes, Philippe Ariès surpreendia os leitores ao afirmar que no Antigo Regime a infância e a juventude eram categorias praticamente inexistentes:

les-trois-ages-de-la-vie-humaine-barthelemy-langlais-le-livre-des-proprietes-des-choses-enluminure-devrard-despinques-1480-paris-bnf

2. Bartolomeus Anglicus. As três idades da vida. Le livre des propriétés des choses. 1480.

A sociedade do Antigo Regime “via mal a criança, e pior ainda o adolescente. A duração da infância era reduzida a seu período mais frágil, enquanto o filhote do homem ainda não conseguia bastar-se; a criança então, mal adquiria algum desembaraço físico, era logo misturada aos adultos, e partilhava de seus trabalhos e jogos. De criancinha pequena, ela se transformava imediatamente em homem jovem, sem passar pelas etapas da juventude, que talvez fossem praticadas antes da Idade Média e que se tornaram aspectos essenciais das sociedades evoluídas de hoje” (Historia Social da Criança e da Família, Rio de Janeiro, Editora Ganabara, 1978, 1ª ed. 1973, p.10).

quatre-ages-de-la-vie-dun-gentilhomme-barthelemy-langlais

3. Bartolomeus Anglicus. As quatro idades de um gentil homem. Le livre des propriétés des choses. 1480.

Muitos anos antes, no início do século XX, Vilfredo Pareto pergunta quando começa a riqueza e quando chega a velhice. Ou seja, a partir de que valor uma pessoa se torna rica e a partir de que idade uma pessoa passa a velho? A Idade Média corrobora esta relatividade. A classificação das fases da vida é tudo menos consensual. Multiplicam-se as propostas. Consoante os autores e as abordagens, assim as idades da vida são três, quatro, sete ou, ainda, cinco ou seis. Recorro a uma longa passagem do livro Uma História do Corpo na Idade Média, de Jacques Le Goff e Nicolas Truong (Lisboa, Teorema, 2005, pp. 79-81):

hans-balgung-the-ages-and-death-between-circa-1540-and-circa-1543

4. Hans Baldung. As idades e a morte, c. 1540.

“As idades da vida na Idade Média relevam de um verdadeiro saber herdado da Antiguidade que o cristianismo irá interpretar num sentido muito mais escatológico, orientando a vida do homem para a história da salvação. Como salienta Agostino Paravicini Bagliani, “a cultura medieval acolheu todos os grandes esquemas das idades da vida que tinham sido desenvolvidos pelos antigos, nomeadamente os que se baseavam nos números 3, 4 e 7”.

O número 3 é o proposto por Aristóteles que, na Retórica, considera que a vida é composta por três fases: crescimento, estabilidade e declínio. Um arco biológico em que a idade adulta é o topo: “Todas as qualidades úteis que a juventude e a velhice tem separadamente, a maturidade possui-as juntas; mas em relação aos excessos e defeitos fica-se pela meia e conveniente medida” (…)

Öèôðîâàÿ ðåïðîäóêöèÿ íàõîäèòñÿ â èíòåðíåò-ìóçåå Gallerix.ru

5. Hans Baldung (1485-1545). Três idades da mulher e a morte. 1510.

O número 4, o mais importante na Idade Média, provém do filósofo grego Pitágoras que, segundo Diógenes Laertes, “divide a vida do homem em quatro partes, concedendo a cada parte vinte anos”. A estes quatro segmentos correspondem os quatro humores descritos na medicina de Hipócrates: a criança é húmida e quente, o jovem quente e seco, o homem adulto seco e frio, o velho é frio e húmido (…) [Esta repartição da vida em quatro fases não era apenas biológica, mas cósmica. Correspondia aos quatro elementos e às quatro estações, sendo o homem encarado como um microcosmos.] (…)

hans-baldung-the-seven-ages-of-woman-early-16th-century

6. Hans Baldung. As sete idades da mulher. Início do séc. XVI.

O número 7 é igualmente herança grega, retomada por Isidoro de Sevilha, que distingue o período que vai do nascimento aos sete anos (infantia), dos sete aos catorze anos (pueritia), dos catorze aos vinte e oito anos (adulescentia), dos vinte oito aos cinquenta anos (juventus), dos cinquenta aos sessenta anos (gravitas), depois dos sessenta (senectus) e para além disso com a palavra senium que corresponde à senilidade.

Quanto às cinco e seis idades da vida, são um legado dos Padres da Igreja. A Idade Média inventa apenas as doze idades da vida (…) A Idade Média conserva portanto o biologismo dos Antigos, mas ultrapassa-o ou atenua-o através de uma releitura simbólica. Os cristãos já não falam do declínio, mas de jornada contínua para o reino de Deus. Segundo Agostinho, o velho é mesmo considerado um novo homem que se prepara para a vida eterna.”

hans-baldung-grien-1485-1545-la-marche-a-la-mort-les-ages-de-la-femme

7. Hans Baldung (1485-1545). A marcha da morte / as idades da mulher.

Os esquemas medievais relativos às idades da vida não eram encarados de um modo rígido. Um mesmo artista podia contemplar na sua obra esquemas distintos. Hans Baldung tem quadros com três (Figuras 4 e 5), cinco (Figura 7) e sete (Figura 6) idades da vida; por seu turno, Bartolomeu Anglicus fez gravuras com três (Figura 2), quatro (Figura 3), seis (Figura 1) e sete (Figura 11) idades da vida.

les-ages-de-lhomme-the-ages-of-man-print-made-by-d-de-vosthem-date-16thc-late

8. As idades do homem. Impresso por De Vosthem. Finais do séc. XVI.

anonimo-le-cours-de-la-vie-de-lhomme-dans-ses-differents-ages-sec-xix

9. Anónimo. O percurso de vida do homem nas suas diferentes idades. Séc. XIX.

A propensão medieval para não encarar a velhice como um declínio carece ponderação. A maioria das representações das idades da vida adopta a figura do “arco biológico”: ascensão até à idade adulta, descida, em seguida, até à morte. Discreto, quando não ausente, durante a Idade Média, o arco biológico será mais realçado nos séculos seguintes (Figuras 8 e 9). Fazendo um desvio pela contemporaneidade, o anúncio Champanhe, da Xbox, brinda-nos com uma viagem expedita de um ser humano desde o ventre materno até à sepultura (ver vídeo).

10. Marca: Xbox. Título: Champagne. Agência: BBH. Direcção: Daniel Kleinman. UK, 2002.

anglicus-seven-ages-of-man-paris-1510

11. Bartolomeus Anglicus. As sete idades do homem. 1510.

Algumas imagens medievais incluem a morte ou, como preferem alguns historiadores, o morto, enquanto corpo em decomposição. A imagem do cadáver em putrefacção é característica da Idade Média (e dos nossos tempos repletos de mortos vivos). Retomaremos o assunto em artigo próprio.

giorgione-as-tres-idades-do-homem-1501-1502

12. Giorgione. As três idades da vida. 1501-1502.

Em jeito de apêndice. As imagens das idades da vida não se confinaram à Idade Média. É um tema de todos os tempos. A título de exemplo, seguem dois quadros de Gustav Klimt.

gustav-klimt-as-tres-idades-da-mulher-1905-bom

Gustav Klimt. As três idades da Mulher. 1950.

1 Ticket für 2 Museen: „Wien 1900“-Highlights in MAK und LEOPOLD MUSEUM

Gustav Klimt. A morte e a vida. 1915.

Cântico de Natal

Inspira-te nos reis magos e segue as estrelas até onde desejares.
Tendências do Imaginário.

A imagem Natividade, de autor anónimo, está exposta no Museu Nacional de Arte da Catalunha. Data da primeira metade do séc. XIII.

A música Personent Hodie remonta a 1360. Foi publicada em 1582 no livro de canções finlandês Piae Cantiones. Na presente versão, é interpretada, em latim, por The Columa Minstrels & Andrea Alonso (Celtic Christmas Carols, 2009).

natividade-catalunha

Natividade, de autor anónimo. Museu Nacional de Arte da Catalunha. Primeira metade do séc. XIII.

Obrigado pela visita!

Concerto aquático

Le livre des échecs amoureux moralisés (sec. XV), de Évrart de Conty (iluminuras de Robinet Testard), contém gravuras fantásticas, como esta com uma sereia encantadora. Pode consultar e descarregar o livro de Évrart de Conty no seguinte endereço: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b8426258c/f264.image.

concerto-acquatico-livre-des-echecs-amoureux-moralises-xv

Concerto aquático. Le livre des échecs amoureux moralisés. Sec. XV

sereia-medieval

Concerto aquático. Le livre des échecs amoureux moralisés. Sec. XV. Pormenor.

O Galo e a Morte

Uma mulher diz a outra que teve um situação de emergência médica: “O galo rondou esta casa, deu várias voltas, mas foi cantar a outro sítio”. Por sinal, alguém faleceu na mesma noite.

O galo é um símbolo solar. Anuncia a aurora e a luz. É também um símbolo de valentia. Na mitologia grega, o galo, consagrado a Hermes, é um psicopompo, “função tradicionalmente atribuída a Hermes no mito grego, pois ele, além de mensageiro dos deuses, era o deus que acompanhava as almas dos mortos, sendo capaz de transitar entre as polaridades (não somente a morte e a vida, mas também a noite e o dia, o céu e a terra)” (Dicionário Crítico de Análise Junguiana, Edição Eletrônica © 2003 Andrew Samuels/Rubedo, p. 88). Além desta função de transição entre as polaridades (as trevas e a luz; a morte e a vida), o galo encerra um lado lunar.

temptation-of-lack-of-faith-engraving-by-master-e-s-circa-1450

Figura 1: Meister E. S., Temptation of lack of Faith. Circa 1450

O galo de Barcelos é o primeiro exemplo que ocorre. Cozinhado e ressuscitado, o galo é protagonista de uma lenda marcada pela morte. Segue o galo da Negação de São Pedro antes da crucificação de Cristo. A associação do galo à morte existe na crença popular. No Brasil, em Espanha e em Portugal, acredita-se que o canto do galo fora de horas (antes ou à meia-noite) é mau augúrio: alguém da casa, ou vizinho, vai morrer. O galo agrega-se, assim, aos animais anunciantes da morte: o mocho, a borboleta negra, o morcego, o cão, o gato… Um conto brasileiro inicia com um galo a matar uma criança. A mãe pede a outro filho para matar o galo e o abandonar em água corrente. O filho não segue a recomendação. Ele e três amigos matam o galo, cozinham-no e morrem antes de o provar. (http://www.recantodasletras.com.br/contosinsolitos/830891).

mester-e-s-ars-moriendi-l-178-1450

Figura 2: Meister E. S., Ars moriendi. Circa 1450.

As gravuras de Mestre E. S. constam entre as muitas imagens dedicadas à Ars moriendi (Arte de morrer) nos séculos XV e XVI. Testemunham uma mudança de atitude perante a morte. Observa-se uma antecipação do julgamento final. A prova deixa de esperar pelo fim dos tempos para se concentrar no momento de morrer. Continua a envolver um combate cósmico. De um lado, as forças celestiais, do outro, as forças demoníacas. As pessoas presentes não conseguem ver estas forças. Apenas o moribundo (atente-se no alheamento do grupo de três pessoas na Figura 1).

“O moribundo está recostado, rodeado pelos seus amigos e parentes. Seguem-se os rituais bem conhecidos. Mas sucede algo que perturba a simplicidade da cerimónia e que os assistentes não vêem; um espectáculo reservado apenas ao moribundo, que, por acréscimo, o contempla com um pouco de inquietação e muita indiferença. A habitação foi invadida por seres sobrenaturais que se apinham na cabeceira do jazente. De um lado, a Trindade, a Virgem e toda a corte celestial; do outro, Satanás e o exército dos demónios monstruosos. A grande concentração que nos séculos XII e XIII tinha lugar no fim dos tempos ocorre, a partir de agora, no século XV, na habitação do enfermo” (Philippe Ariès, Historia de la Muerte en Ocidente, Barcelona, El Acantilado, 2000, p. 48).

As gravuras de Mestre E. S. condizem com a análise de Philippe Ariès. Defrontam-se as cortes celestial e demoníaca. Pela sua disposição, na figura 2, o moribundo está a superar a prova. A chave de S. Pedro está próxima e os demónios parecem conformados. Ao cimo do leito, destaca-se um galo. A sua presença é rara nas gravuras, pinturas e livros da Ars moriendi. Qual é o seu papel? Cantor de mortes? Psicopompo? “Luz da noite”, o galo situa-se, de facto, entre dois mundos: o céu e o inferno, a luz e as trevas, a vida e a morte. Não obstante, inclino-me a atribuir o galo a S. Pedro, o inseparável galo de S. Pedro. Mas este tipo de figuras costuma ser polissémico.

O novo Robinson Crusoe

Robinson Crusoe by Granger. 1744.

Robinson Crusoe by Granger. 1744.

Regressa, Robinson!

Tanto programa de sobrevivência na televisão. Tantos heróis solitários cercados por câmaras de filmar.

Regressa! Cheira árvores, atrai animais, caça peixe, abriga sanguessugas, treme ao relento… Mas com papel higiénico, se faz favor, a nossa irredutibilidade civilizacional.

Um momento de humor e sabedoria feminina com um desfecho inesperado, por sinal escatológico.

Marca: Le Trefle. Título: Wild trip. Agência: Leo Burnett. Direcção: Vincent Lobelle. Internacional, Agosto 2016.

Morte, erotismo e política

'Riding with Death' by Jean-Michel Basquiat. 1988.

Jean-Michel Basquiat. Riding with Death. 1988.

Riding With Death, de Jean-Michel Basquiat, é uma pintura que surpreende. Foi concluído no ano, 1988, em que Basquiat faleceu vítima de uma overdose de heroína, com 27 anos de idade. Entre as imagens da morte, não tenho memória de uma figura humana a cavalgar a morte. São, aliás, raras as imagens em que a morte aparece subordinada, como no episódio excepcional da descida de Cristo ao inferno (ver O Triunfo sobre a Morte).

O Rapto de Europa,  c. 340 a.C.

O Rapto de Europa, c. 340 a.C.

Quem conduz? O título do quadro não é “Riding Death”, cavalgando a morte, mas Riding With Death, caminhando com a morte. Estes cambiantes lembram duas lendas. Na primeira, conduz quem é montado. É o caso do rapto de Europa por Zeus, transformado em touro. Europa senta-se no dorso do touro que a sequestra ( ver O rapto de Europa. Com os olhos no retrovisor). Na segunda lenda, relativa a Fílis e Aristóteles, conduz quem monta.

01. Phyllis riding Aristotle. 13th c.

Phyllis riding Aristotle. 13th c.

Alexandre O Grande andava perdido de amores por Fílis, uma bela mulher proveniente da Índia. A tal ponto que descurava as responsabilidades e o governo do reino. Aristóteles, tutor de Alexandre, chamou-o à razão: devia moderar os seus encontros com Fílis. Alexandre acedeu ao pedido de Aristóteles.

Fílis não gostou da interferência de Aristóteles. Decidiu, e consegue, seduzi-lo. Anda, agora, Aristóteles perdido de amores por Fílis.

04. Aquamanile (late 14th century) New York Metropolitan Museum

Aquamanile (late 14th century) New York Metropolitan Museum

Um dia, Fílis propõe a Aristóteles: “dou-te o meu corpo, mas, primeiro, acedes que ande montada nas tuas costas”. Alexandre, avisado, assistiu à cena. Quis expulsar Aristóteles. Mas, em verdade, só agora a lição se perfazia: se até um velho sábio não resiste ao encanto de uma mulher, que esperar de um jovem rei”.

Na lenda de Fílis e Aristóteles, o amor e o erotismo vencem o político e o sábio. A imagem de Fílis a montar Aristóteles, com trejeitos de sadomasoquismo, tornou-se célebre, em particular, na Idade Média e, sobretudo, no chamado Renascimento do Norte.

14. George Pencz. Fílis e Aristóteles. 1530

George Pencz. Fílis e Aristóteles. 1530. Tal como na figura 13, Fílis usa esporas.

Um último apontamento sobre a Farsa de Inês Pereira (1523), de Gil Vicente. Inspirada na máxima “mais quero um asno que me carregue do que cavalo que me derrube”, a farsa termina com o segundo marido a carregar às costas Inês Pereira para a levar até ao amante, o Ermitão. “Pois assi se fazem as cousas” ( ver pdf: Gil Vicente. Farsa de Inês Pereira. Parte final).

Galeria de imagens: Fílis e Aristóteles

Grandville: Disfarces e Metamorfoses

01. J. J. Grandville, Une promenade dans le ciel. Le Magasin pittoresque. 1847.

01. J. J. Grandville, Une promenade dans le ciel. Le Magasin pittoresque. 1847.

Jean-Jacques Grandville (1803-1847) é um ilustrador e caricaturista francês da primeira metade do século XIX. Adquiriu fama com as suas metamorfoses envolvendo homens, animais, vegetais e objectos.

11. J.J. Grandeville. Jongleur des univers.

Conhecido como o “avô do surrealismo”, Grandvielle convoca o maneirismo, nomeadamente Giovanni Battista Braccelli e Lorenz Stoer (ver figuras 07 e 12). Algumas gravuras antecipam M.C. Escher (ver figuras 1, 7, 8, 9 e 19). Os Queen recorreram aos desenhos de Grandville para as capas do álbum Innuendo (1991) e respectivos singles (figuras 11 a 14.1).

11.1. Queen. Innuendo.

11.1. Queen. Innuendo.

Exceptuando as figuras 1 e 10, ambas de 1847, todas as imagens deste artigo foram extraídas directamente do livro Un Autre Monde, publicado em 1844. Grandville ilustrou vários livros, tais como as Fábulas, de La Fontaine, o Don Quixote, de Cervantes, as Viagens de Gulliver, de Swift, ou Robinson Crusoe, de Daniel Defoe.

Segue a música Innuendo, dos Queen (1991) e uma galeria com imagens de Grandville e do álbum Innuendo, dos Queen.

Galeria de imagens: J.J. Grandville e Innuendo dos Queen.