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Voar sem dar cabeçadas no céu

Gosto do artista belga Jean-Michel Folon (ilustrador, pintor e escultor, 1934-2005). Também gosto do cantor francês Yves Duteil. Gosto de ouvir Duteil a cantar Folon. Sam ambos criativos, joviais, sensíveis e ternurentos. Apraz-me recuperar dois pequenos vídeos com gravuras de Folon: Comme Dans Les Dessins de Folon, de Yves Duteil; e Levitar, que montei em 2013, com a música Emmanuel, de Michel Colombier.

Yves Duteil, Comme Dans Les Dessins de Folon, La langue de chez nous, 1985. Imagens de Jean-Michel Folon. Montagem do vídeo: Christine Glassant, 2011.
Albertino Gonçalves, Levitar, 2013. Imagens de Jean-Michel Folon e música de Michel Colombier (Emmanuel, Wings, 1971; versão de Toots Thielemans. Colombier Dreams, 2002).

A Ave, o casal e a lápide

Lançamento do livro Uma Paisagem Dita Casa, 1 de agosto de 2022. Fotografia: Conceição Gonçalves

Prometi, há dois meses, colocar o capítulo “A ave, o casal e a lápide: as esculturas da porta da igreja de São João Baptista de Lamas de Mouro” logo após o lançamento do livro Uma paisagem dita casa, de João Gigante, integrado no programa Quem somos os que aqui estamos?, do MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço. Aconteceu ontem.

Lançamento do livro Uma Paisagem Dita Casa. Melgaço, 1 de agosto de 2022. Assistência. Fonte: Melgaço, Portugal começa aqui

Tenho vindo a afastar-me da nobre missão de facultar ciência. Contento-me com namorar o conhecimento. A autoridade da lição e do relatório cede à desenvoltura da poesia, do conto ou da comédia. Entrego-me ao gozo da descoberta e da escrita e aposto no prazer do eventual leitor. Sem lonjuras nem distâncias, próximo das realidades e dos públicos. “A ave, o casal e a lápide” presta-se a ser lido como um romance policial. Nem sequer foi preciso reordenar as etapas da pesquisa. O texto espelha o percurso efetivo. Constitui um exemplo de investigação tal como sucede. Confesso algum carinho por estas páginas: não pretendem desvendar a realidade, mas acrescentar e valorizar; não contabilizam, satisfazem.

Segue o capítulo “A ave, o casal e a lápide: as esculturas da porta da igreja de São João Baptista de Lamas de Mouro”, in Gigante, João, Uma paisagem dita casa, Ao Norte, 2022, pp. 124-139. Acresce a reportagem da visita, em 2021, do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, ao MDOC.

Cerimónia de encerramento e entrega de prémios do MDOC – Festival Internacional de Documentários. Melgaço, 08 de agosto de 2021. © Mário Ramalho/Presidência da República.

Horae ad usum Parisiensem. Antecipação medieval do surrealismo

Grandes Heures de Jean de Berry Fol. 12v

Há muito que andava à pesca do livro Horae ad usum Parisiensem [Grandes Heures de Jean de Berry], concluído em 1409. Acabo de o encontrar na Biblioteca Nacional de França. Reservados às elites, luxuosamente ilustrados com gravuras fabulosas, os livros de horas multiplicam-se durante a Baixa Idade Média. Correspondem a uma viragem da relação dos cristãos com o divino: a oração, retomada várias vezes, a horas certas, ao dia, é assumida em ambiente privado com recurso à mediação de imagens. Sobreviveram milhares de livros de horas. Em Portugal, o mais célebre é o Livro de Horas de D. Manuel (entre c. 1517 e c. 1538), publicado pela Imprensa Nacional e Casa da Moeda (1983).

Com capa original de veludo violeta, com dois fechos de ouro, rubi, safira e seis pérolas, o manuscrito das Grandes Heures de Jean de Berry (300X400 mm) é composto por 126 folios (252 páginas) com calendário (f. 1-6), horas de Nossa Senhora (f. 8-42), sete salmos da penitência e litania dos santos (f. 45-52), pequenas horas da cruz (f. 53-55) e do Espírito Santo (f. 56-58), grandes horas da Paixão (f. 61-85) e do Espírito Santo (f. 86-101) e ofícios dos mortos (f. 106-123). O livro está disponível, para consulta e descarga, no seguinte endereço https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b520004510

Segue uma montagem de uma das primeiras Horas de Nossa Senhora, acompanhada por uma galeria com iluminuras provenientes das margens, uma autêntica “antecipação” medieval do surrealismo do século XX (ver outros casos de “antecipação” histórica do surrealismo nos artigos: https://tendimag.com/2020/03/24/aula-imaterial-4-maneirismo-e-surrealismo-sonhar-o-pesadelo/; https://tendimag.com/2020/04/04/aula-imaterial-5-maneirismo-e-surrealismo-2-humanoides/; https://tendimag.com/2012/05/05/braccelli-a-maneira-surrealista/).

Horae ad usum Parisiensem [Grandes Heures de Jean de Berry]. Fonte: Bibliothèque Nationale de France: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b520004510

Galeria: Gravuras nas margens das Grandes Heures de Jean de Berry (carregar para aumentar). Fonte: Bibliothèque Nationale de France: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b520004510.

Estou a chamar as minhas cabras

Cabra-montês. Castro Laboreiro. Fotografia de Norberto Esteves. Fonte: Melgaço, Portugal começa aqui.

Volvidos quarenta anos, reencontrei uma amiga graças ao Tendências do Imaginário e ao Facebook. Publicou livros de poesia. Retenho o poema “Estou a chamar as minhas cabras”, humano e cósmico, um apelo e uma voz das raízes num imaginário que lembra Castro Laboreiro.

estou a chamar as minhas cabras
o dia fecha-se
um canto de pássaro já levanta as sombras
a cancela range

pesa-me o silêncio
por isso chamo as minhas cabras

os aloendros trazem -me aquele aroma
veio a coruja
e os lamentos a açoitar o vento

vou chamar as minhas cabras
conto os grãos aligeiro os medos
levo-te na minha cesta
envolto no pão com passas
para oferecer àquele penedo

são as águias que já lá vêm
e as colinas tombam
é tudo um segredo

chamarei as minhas cabras
quando a noite cantar
e trouxer consigo a lenda
dos lobos brandos e montanheiros

foge-me a voz
alongo o ouvido em quebranto

iria chamar as minhas cabras
na ventania errante

e a música alisando as fragas
as luas rodopiando
os silvos cortam o ar
chamando

são as minhas cabras
dançando
os montes sulcando à procura de mim

fui chamada pelas minhas cabras
a noite abre-se
a memória do mundo ecoou no tempo
e o silêncio vive

é uma flor
que chama pelas minhas cabras
elas me levaram

no monte me deitarei
eu e as minhas cabras

(Almerinda Van Der Giezen)

Galeria de imagens: Caprinos (carregar nas figuras para as destacar).

De uma extremidade à outra

Grandes Heures de Jean de Berry. 1400-1410. Fonte: gallica.bnf.fr / Bibliothèque nationale de France.

A uma amizade reencontrada

olhamos para o lado
uma criança chora
esquecida da dureza do vento
quando a terra é seca
e os cardos invadem as dunas

leva no olhar o sal
nas mãos um barco de papel
asas longas
à espera de um sopro
e um bafo quente
de boca interior

não bastam as pegadas na areia
pés de planta augada

erguemos o rosto
beijamos a espuma dos dias
perguntamos

e se a morte não basta?

(Almerinda Van Der Giezen. Excerto de poema)

Vivemos tempos ambivalentes. Aliás, o mundo sempre foi ambivalente. A lentidão convive com a aceleração e a luxúria com a humildade. Juntas, vizinhas ou à distância. Ora devoramos, ora ruminamos. Ávidos ou resignados, “vogamos num meio vasto, sempre incertos e flutuantes, impelidos de uma extremidade a outra” (Pascal, Blaise, Pensamentos, Artigo XVII – Conhecimento geral do homem). Consoante o estado do mar.

Criativos e invulgares, os anúncios Dry e Second Edition, da, Zara justificam uma atenção e um olhar redobrados.

Marca: Zara. Título: Dry. Produção: Smuggler. Estados-Unidos, julho 2022.
Marca: Zara: Título: Second Edition / An audiovisual poem inspired by Bob Marley. Abril 2022.

Repetição e variação

M. C. Escher, Cisnes, 1956.

Quando a paisagem humana se encolhe e se repete, o melhor é recorrer ao que pode variar. Por exemplo, a música. Seguem duas interpretações do California Guitar Trio: o medley Ghost Riders on the Storm, a partir dos Shadows e dos Doors; e o cover de Echoes, dos Pink Floyd.

California Guitar Trio. Ghost Riders on the Storm. White Water. 2004. From the DVD “At Home With the California Guitar Trio”. 2010.
California Guitar Trio. Echoes. 2008. Ao vivo. Red Clay Music Foundry. 2018.

Transfiguração

O anúncio Flip, da B&Q, é exotérico e surpreendente. Baralha o olhar. Uma mulher inteira-se que está grávida e o mundo transfigura-se. Porque de transfiguração se trata! A religião cristã sempre se debateu com um desafio: apostada na catequese e na mediação com o divino através da imagem, como lograr dar visibilidade ao invisível? A publicidade confronta-se com outro problema: como expressar um pico hiperbólico de emoção?

Marca: B&Q. Título: Flip. Agência: Uncommon, London. Direção: Oscar Hudson. Reino Unido, maio 2022.

No que respeita à transfiguração, a resposta mais corrente parece ser, desde os evangelhos até aos anime, a suspensão da gravidade (ver A civilização da leveza), que neste anúncio se desdobra, em termos de relação com o espaço, em decomposição, à Tarkovsky, desorientação, à Escher, e transição, à Michel Gondry.

Andrei Tarkovsky. O Espelho. Excerto. 1975.
M.C. Escher. Relatividade. 1953.
Marca: Motorola. Título: Experience. Agência: Cutwater. Direção: Michel Gondry. USA, 2007.

História de um melro que morreu por ser feliz

Pablo Picasso. Visage de la paix IV. 1950.

Um melro costuma fazer ninho no quintal. Atarefado, tem-se saído bem com os gatos. Pior destino teve “o melro” do Guerra Junqueiro, vítima da vingança do Velho Padre Cura, num extenso conto em verso que o meu avô recitava de cor. Segue a digitalização do poema “O Melro” a partir da segunda edição ilustrada do livro A Velhice do Padre Eterno (1ª edição: 1885). Segue o respetivo pdf,

Quem fala em melros, pode falar em rouxinóis. Porque a opressão e a maldade não têm pouso exclusivo. Ao melro raptaram-lhe os filhos; ao rouxinol da Cantilena de Francisco Fanhais cortaram quase tudo.

Francisco Fanhais. Cantilena. 1969. Poema de Sebastião da Gama.

Com imagens pode dizer-se muito. Com poucas imagens pode, por vezes, dizer-se ainda mais. Na curta-metragem dos bauhouse, sopra-se no medo e na esperança até que explodem como tiros e bombas. Porque as nossas asas são tão frágeis como as dos pássaros.

bauhouse. Momentum 2015 – Video Installation. 2015. Curta-metragem.

Naturalmente

Quino. Mafalda. Irresponsáveis.

À Paula Mascarenhas e ao José Neves

Empenhar-me na revisão do livro A Morte na Arte é uma prioridade, mas o Tendências do Imaginário lembra as Mouras Encantadas. Não há modo, apesar da garantia de castigo, de lhes resistir. Esta forma rápida e quase espontânea de acabar um texto mal se começa torna-se um vício. E tudo o que exige aplicação, tempo e paciência, um incómodo. São duas formas de entrega. Uma proporciona um prazer quase imediato, a outra uma vaga recompensa remota. E eu não sou nem asceta nem puritano. Com algumas saudades dos anúncios publicitários, continuo, por um tempo, a insistir na música. Costuma acompanhar-me enquanto trabalho. Volta e meia, um trecho mais atrevido cativa-me a atenção. Uma desconcentração prazerosa. Desta vez, encarei com a canção catalã Pare (1973), de Joan Manuel Serrat, nascido em Barcelona, em 1943. Um ídolo em Espanha. Trata-se de uma canção de combate, género pródigo nos anos setenta, em defesa de uma natureza natural. Segue a música e a tradução da letra em inglês.

Joan Manuel Serrat. Pare. Per Al Meu Amic. 1973

Father
Father, Tell Me,
what have they done to the river, that it no longer sings?
It slips like a dead barbel
under a handspan of white foam.

Father; That the river is no longer the river.
Father, Before the summer comes,
hide everything that is alive.

Father, Tell me,
what have they done to the forest, that now there are no trees?,
In the winter we won’t have fire,
nor in summer a place for shelter.

Father; that the forest is no longer the forest.
Father; before it darkens,
fill with life the pantry.

Without limber and without fish, father,
we will have to burn the small boat,
harvest the wheat
between the ruins, father,
and close with three bolts the house,

…and you said, father…

if there are no pine trees
there will be no pine nuts, nor worms, nor birds.
Father, where there are no flowers,
the bees will not give, nor the wax, nor the honey.

Father, that the country is no longer the country.
Father, tomorrow from the sky will rain blood.
The wind sings it crying.

Father, they are here already,
monsters of meat with worms of iron.
Father, no. Do not have fear,
and say that no, that I will wait for you.

Father, That they are killing the earth,
Father. Stop crying,
That they have declared us the war.

Ter um amigo / perder um amor

Capa do livro Poema a fumetti, de Dino Buzzati. 1969. Detalhe.

Faltam ao Tendências do Imaginário canções em catalão. Joan Isaac, nascido em Barcelona em 1953, com mais de vinte álbuns individuais publicados, é uma boa referência. Seguem duas canções: No, tu no (2017: o vídeo oficial apresenta uma coreografia notável) e Tenir un Amic (2020). Em jeito de anexo, acrescento um divertimento fugaz e maneirista dedicado a uma entidade abstrata, um amor qualquer, que tanto pode ser uma pessoa, um fenómeno ou uma instituição.

Joan Isaac. No, tu no. Manual d’amor. 2017. Vídeo oficial.
Joan Isaac. Tenir un Amic. L’estació dels Somnis. 2020.

Destino Passado
Vim p’ra te dizer
Que não sou aquele que te ama
Como podes ver
Já não me aquece a tua chama

Vim p’ra te dizer
Que não sou teu nem tu minha
Como podes ver
A nossa sombra já não caminha

Prefiro o vazio do abrigo
Ao brilho do sol contigo
Já não andas a meu lado
És meu destino passado

Se não me aquece a tua chama
Já não sou aquele que te ama
Se a nossa sombra não caminha
Não sou teu nem tu és minha
Deixei de te ter a meu lado
Passaste a destino passado