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Um buraco na água. Julien Clerc.

M.C. Escher. Rippled Surface, March 1950.

Sinto falta! Sinto falta! Sinto a tua falta, mulher! Quero a quem não quer. Um buraco na água. É estúpido querer quem não quer. Como é estúpida a estupidez!

Julien Clerc. Femmes je vous aime. Femmes, indiscrétion, blasphème. 1982. Ao vivo: Le Grand Studio RTL, 2016 (?).

Umbigos flácidos

Quino. Quién anda ahí? Ediciones de la Flor. 2016.

Dizem que o mundo está líquido, como a lama. Pois, deixá-lo estar. Mas duvido. Continuo a dar cabeçadas. E se está mole, depressa fica vertebrado: atente-se na experiência do confinamento; até aos cemitérios e às urnas chegou o decreto de Estado. Isto anda mole? Se essa é a vossa opinião… Quando brilham os faróis, escurecem os pirilampos. A ser verdade, esta história da moleza tem consequências. Sem verticalidade nem consistência, não há lugar para pessoas firmes e hirtas, “feitas de uma peça só”. Onde vamos pendurar a honra? Neste mundo de plasticina estaladiça e identidades fugidias, hesita-se em firmar compromissos com quem quer que seja, cara de  roleta ou pés de barro. Numa sociedade sem honra nem narrativa, assiste-se ao milagre da multiplicação dos umbigos flácidos. Só quebra quem não torce. Kurt Cobain partiu.

Nirvana. All Apologies. In Utero. 1993. Live On MTV Unplugged, 1993.

Pelo lado de fora

Pintura japonesa

Guardo as músicas de que gosto numa pasta chamada “À espera”. Algumas esperam décadas. É o caso da canção Walk on the Wild Side, de Lou Reed, que dedico ao meu rapaz mais novo.

Lou Reed. Walk on the Wild Side. Transformer. 1972.

Memória reincidente

Jean-Michel Folon. Lily aime moi. 1975.

Há longos anos que o genérico de fecho de emissão da Antenne 2 me enternece. Com desenhos de Jean-Michel Folon (1934-2005) e música de Michel Colombier (1939-2004). Memória reincidente. Folhas soltas. Salpicos numa liquidez pasmada. Uma leveza de espírito que enfia a cabeça nas nuvens.

Uma obra-prima nunca está acabada. Inspira e inspira. Sucede com a música Emmanuel, de Michel Colombier. Gosto da versão de Toots Thielemans (1922-2016), um dos melhores tocadores de harmónica de boca do século XX.

Sessenta e um anos deste mundo. O triplo da idade em que me encantei com o genérico da Antenne 2. Agradeço a amizade. Um dia havemos de voar juntos como os homenzinhos de Folon.

Genérico da Antenne 2. Desenhos de Jean-Michel Folon e Música (Emmanuel) de Michel Colombier. França, anos setenta.
Emmanuel. Música de Michel Colombier (Wings, 1971). Versão de Toots Thielemans. Colombier Dreams, 2002.

Mocidade académica. O amor burocrático

Quino

Com tantos regimentos, regras, normas, modelos e procedimentos, criar resume-se a um jogo de colorir imagens. Um projecto é um projecto, conforme o regulamento. As referências bibliográficas, também. Nada como encurralar o pensamento em 2 000 palavras… Esta é a arte, esta é a bênção. Tudo deliberado, consignado e disponível em documento próprio, para instrução de alunos com experiência académica e percursos profissionais notáveis. Se pretende saber, saiba connosco, saiba como nós! Percorra o caminho batido.

Na escola primária, há mais de cinquenta anos, entoava-se, no início, a seguinte canção:

Vamos cantar com alegria

E começar um novo dia

Para nós o estudo só nos dá prazer

Faremos tudo, tudo para aprender.

Não há muitas opções: ou se ensina o caminho ou se aprende a caminhar (Antonio Machado). É sensato confinar os alunos numa redoma de regras e normas? Para colher réplicas? Para conseguir a quadratura do círculo? Apesar da minha costela anarquista, admito a necessidade de normas e de regras. Incomoda-me o excesso de amor e de zelo burocráticos. Regulamente-se, regulamente-se até ao cinzento final. “Pim!”

Quino

Maratona

E se houvesse uma maratona sem meta? Correr para chegar a lado nenhum. Como insectos à volta de um candeeiro.

Pink Floyd – ” Run Like Hell “. The Wall. 1979. Live Earls Court 1980.

À força de falar de amor, apaixonamo-nos

M.C. Escher. Bond of Union. 1956.

Uma versão antiga da “predição criadora”, de W.I. Thomas: “À força de falar de amor, apaixonamo-nos” (Blaise Pascal, Discours sur les passions de l’amour, 1652-1653).

Sou um algoritmo básico: resumo-me a duas sub-rotinas com contador infinito: quando penso, desaguo no Blaise Pascal: no que respeita à música, no Jacques Brel. Se quero pensar, penso com eles; se quero sentir, sinto com eles. São as duas pontas de Ariana do meu labirinto identitário. O resto é variação. Dizem que os olhos são as janelas da alma. Quando ouço Jacques Brel, fecho os olhos para franquear a entrada a anjos e demónios.

M.C. Escher. Circle Limit IV (Heaven and Hell). 1960.

Jacques Brel canta, como ninguém, a miséria humana. Tão bem que o ouvimos com prazer. Gosto de La ville s’endormait. Ne me quitte pas é universal. Coloco as versões estúdio e ao vivo, que, no caso de Jacques Brel, não se substituem. Uma voz e uma performance.

Jacques Brel. La ville s’endormait. Les marquises. 1977.
Jacques Brel. Ne me quitte pas. La valse à mille temps. 1959.
Jacques Brel. Ne me quitte pas. Ao vivo na Radio France. 1966.

Com a verdade me enganas

M. C. Escher, Reptiles, 1943.

A realidade engana. Menos porque nos ilude, e mais porque a encantamos. Tudo significa e tudo significamos.  Os anúncios argentinos Bigote e Mano, da Marcha por la Vida, são um exemplo de interpretação abusiva. Recordam uma história que Edgar Morin inclui no livro Para Sair do Século XX (1982):

Passeava na rua quando assisto a um acidente: um Mercedes desrespeita um sinal vermelho e embate contra um Dois Cavalos. Só chapa. Aproximo-me para testemunhar. O Mercedes desrespeitou o sinal vermelho? O condutor do Mercedes nega e o condutor do Dois Cavalos confirma. Foi ele quem passou no sinal vermelho. Mas não tenho nenhuma dúvida que foi o Mercedes que embateu no Dois Cavalos. Parece que não. O Dois Cavalos está amachucado na frente e o Mercedes no lado. Serei um idiota?

Desenhamos a realidade com os nossos esquemas mentais. Observar é construir a realidade. Por que motivo vi o Mercedes a desrespeitar o sinal vermelho e a bater no Dois Cavalos? Talvez porque para o meu arranjo mental é natural que o forte bata no fraco, predestinado como vítima. Se a realidade resiste, a gente converte-a. Será?

Anunciante: Marcha por la vida. Título: Bigote. Agência: Geometry. Direcção: Javier Altholz. Argentina, Abril 2020.
Anunciante: Marcha por la vida. Título: Mano. Agência: Geometry. Direcção: Javier Altholz. Argentina, Abril 2020.

A abertura do tolo

Quino. Gente en su sitio. 1986.

Quando a morte ronda, que fazer? Abater-se? Reagir? Há quem tente enganá-la (figura 1); outros nem sequer a pressentem (figura 2).

Daniel Hopfer’s ‘Death and the Devil Surprising Two Women’ (c 1500–1510)

Alguns esmeram-se a arrumar a vida, outros trespassam sem zelo. Não é fácil trocar o mundo pela eternidade. Não há preparação nem ars moriendi que nos assista.

Dança da Morte. Alemanha. Século XVI.

Talvez o tolo nos ensine. Na dança macabra (figura 3), ao contrário dos demais, só dá uma mão e a um ser humano. Parece não saber onde está nem para onde vai, o que pouco o incomoda.

Supertramp. Fool’s Overture. Even in the quietest moments. 1977. Ao vivo em 1979.
Supertramp. Crime of the century. Crime of the century. 1974. Ao vivo em 1983.

Sucesso

Quino

“Encarrega-se os homens, desde a infância, do cuidado da sua honra, dos seus bens, amigos e ainda do bem e da honra dos seus amigos. Enchemo-nos com problemas, com a aprendizagem das línguas e com exercícios, e faz-se-lhes entender que não podem ser felizes sem que a sua saúde, honra, a fortuna e a dos amigos estejam em bom estado e que basta falhar uma só coisa para os tornar infelizes. Assim, atribuem-se-lhes cargos e questões que os inquietam desde o despontar do dia. Direis que esta é uma estranha maneira de os tornar felizes! Ora, o que se poderia fazer de melhor para os tornar infelizes” (Pascal, Pensamentos, Artigo XXI: Miséria do Homem).

Tenho um amigo que, desde os trinta anos, tem receio do sucesso. Produz, o melhor que sabe, livros, artigos, comunicações… Enterra-os como as tartarugas os ovos. Trinta anos depois, continua a evitar o sucesso. Nunca mo disse, mas creio que, para ele, o sucesso é coisa pouco saudável.

Nick Cave & The Bad Seeds. Faraway, So Close!. Filme Faraway, So Close. 1993.