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Imagens fantásticas de um manuscrito medieval

À Graça

Resgato o artigo “Pintar o campesinato: o Luttrel Psalter, acrescentando-lhe dois vídeos: um primeiro junto ao link da apresentação Luttrel Psalter. Excertos a facilitar a respetiva visualização; logo seguido por um segundo a preceder a galeria de imagens.

Do riso

O Tendências do Imaginário continua com um pendor ecologista: recicla. Retoma, desta vez, dois artigos dedicados ao riso: “Morrer de rir”, de 21 de agosto de 2014, e “Risoterapia. O consumo do riso” (restaurado), de 18 de junho de 2019.

Gustave Doré, Gargantua. Prologue, 1894

Ternura

Das esculturas da Virgem com o Menino, com mais de quinhentos anos, às recentes gravuras de namorados de Raymond Peynet, a ternura e o humor juntos são uma delícia.

Distração Fatal e Smartphone

SMARTPHONE ADDICTION by Arend Van Dam

A WordPress passou a facultar-me a lista dos artigos publicados na mesma data nos anos anteriores. Alguns pedem restauro (e.g. completar o que desapareceu), outros revisão (e.g. aprimorar ou corrigir). Quase todos testemunham que, com o tempo, o blogue foi perdendo qualidade ou, pelo menos, abrangência. Agora limito-me quase a publicar conteúdos (sobretudo, músicas, anúncios, imagens) que me chamam a atenção; outrora, partilhava também pensamentos e sentimentos (pessoais). O que mudou? O auge do blogue coincidiu com os anos de isolamento: o blogue mantinha-me à tona e permitia-me alcançar as pessoas; hoje, regressei ao convívio com os outros. A vida e o papel do blogue mudaram.

Desde 2016, coloquei cinco artigos no dia 6 de junho. Retomo, restaurado e revisto, “Distracção fatal”. Complemento-o, acrescentado o artigo “Smartphone” do mesmo mês, mas do ano seguinte, 2017.

Sociedade hipócrita. O rei vai nu!

Chamo-me Amarna Miller, sou atriz porno e nasci num país hipócrita onde a mesma gente que me chama puta desfruta dos meus vídeos; um país que ama a vida mas permite que se mate em nome da arte; um país indignado com a corrupção mas que continua a votar em vigaristas, onde se salvam os bancos que expulsam milhares de famílias; um país que se diz laico mas que oferece medalhas às virgens, que trata os emigrantes como heróis e os imigrantes como lixo; um país onde os supostos guardiões da moral podem revelar-se os mais perigosos, onde a prostituição ainda não é legal embora o número de clientes aumente todos os anos; um país que se pretende aberto e tolerante mas onde um árbitro recebe ameaças de morte por ser gay; sim, vivemos num país asquerosamente hipócrita; somos, contudo, alguns ainda a resistir. (Tradução livre).

Verifiquei que já tinha partilhado este anúncio do Salón Erótico de Barcelona quando saiu em outubro de 2016 (Erótica política), mas não resisto a recolocá-lo.

Salón Erótico de Barcelona Apricots 2016 – PATRIA. Ideia original e produção: VIMEMA.com. Direção: Carles Valdés. Espanha, setembro 2016
Sinead O’Connor – The Emperor’s New Clothes. I Do Not Want What I Haven’t Got, 1990

Mundos malucos

Estou a alinhavar uma conferência sobre Christine de Pisan, uma figura medieval extraordinária. Nascida em Itália em 1463, viveu desde criança em França, onde faleceu em 1530. Considerada a primeira mulher escritora profissional no Ocidente, é autora de uma das primeiras utopias, a Cidade das Damas (1405), um século antes da Utopia, de Thomas More, e pioneira da defesa das mulheres. Ocorrerá na próxima sexta, na biblioteca da Academia Sénior de Braga.

Enquanto me entrego a esta tarefa, tenho estado a ouvir música clássica, designadamente interpretada ao violoncelo por Julian Lloyd Webber, irmão de Andrew Lloyd Webber. Mas apetece-me mudar. Até porque a maior parte das músicas interpretadas remete para os tempos áureos da cultura europeia, o que acaba por ter um sabor agridoce.

Procurei nos meus arquivos um cd porventura mais ligeiro e menos saudoso. Escolhi o Trading Snakeoil for Wolftickets, do norte-americano Gary Jules. Da América não vêm só bombas, também boa música rock, folk e alternativa.

Já coloquei, no artigo O mundo maluco e algo mais (31.05.2023), três canções do Gary Jules: “Mad World”, “Broken Window” e “Something Else”. Relevo, especialmente, a primeira. Não é só o mundo que está a ficar maluco; todos os mundos estão a ficar malucos. Não há ilha ou recanto que se aproveite, que sirva de refúgio. Parece não subsistir escapatória.

Mais ou menos a propósito, uma dúvida ou mero exercício de retórica: segundo o direito, internacional ou não, Khameini foi acidentado, executado ou assassinado? E quem o matou ou mandou matar: herói, justiceiro ou criminoso? Estar-se-á a assumir como normal raptar e matar chefes de estado? Uma nova forma de fazer política, entre a paz e a guerra? Não interessa, pois não? Em mundos malucos, vale tudo! Para maior confusão e insegurança…

Lembrei-me do filme “O Mundo Maluco” (It’s a mad, mad, mad, mad world, 1963). Vagamente, porque o vi faz mais de meio século. Creio, porém, que, esse sim, levezinho, dá mesmo vontade de rir.

Segue o vídeo oficial, realizado por Michel Gondry, da canção “Mad World”, interpretada por Gary Jules, uma versão do original dos Tears For Fears (1982).

Gary Jules – Mad World. Trading Snakeoil for Wolftickets, 2001. Vídeo oficial, por Michel Gondry, 2004

Desbunda

Ilustração no capítulo XIII, do livro Gargântua, de François Rabelais, com 1ª edição em 1534

Tradução do texto:

• É melhor limpar o cú com um ganso bem peludinho, desde que se segure a cabeça do ganso entre as pernas. E acreditem na minha honra. Porque sentem no cú uma voluptuosidade mirífica, tanto pela suavidade da penugem como pelo calor temperado do ganso, que facilmente se comunica ao intestino reto e a outros intestinos, até chegar à região do coração e do cérebro. E não pensem que a beatitude dos heróis e semideuses, que estão pelos Campos Elísios, esteja no seu asfódelo ou ambrosia, ou néctar, como dizem estas velhas piadas. Ela está (segundo a minha opinião) em que se limpam o cú com um ganso. (Excerto do capítulo XIII, do livro Gargântua, de François Rabelais, com primeira edição em 1534).

Quando o traseiro se adianta e o baixo se ergue, estamos perante alguma espécie de carnaval ou aproximam-se tempos brutescos. Para o bem e para o mal.

Steadfast Stationery – Steadfast Dirty Money. Agência: Lowe Lintas (Now TBWA Lintas). Direção: Raylin Valles. Índia, maio 2025
Levi’s – Backstory. Agência: TBWAChiatDay LA. Direção: Kim Gehrig. USA, fevereiro 2026

A Química dos Abraços

Por Affectum. Set 26, 2021. Artigos, vozes do coração

Nunca apreciei o ritual do beijo de cumprimento à francesa, uma espécie de beijo ao infinito.

O beijo de cumprimento à francesa (a bise) é um gesto social bastante comum na França e em outros países francófonos. Eis como ele funciona, na prática:
Como fazer
Não é um beijo de verdade: normalmente as pessoas encostam as bochechas e fazem um leve som de beijo no ar.
Começa-se pela bochecha direita da outra pessoa (ou seja, você vira o rosto para a esquerda).
Os lábios quase nunca tocam a pele. (ChatGPT, 02.02.2021)

Diputación Foral de Gipuzkoa – El juego de los abrazos. Agência: Dimensión España. Espanha, dezembro 2025

“La campaña El juego de los abrazos, desarrollada por La Diputación Foral de Gipuzkoa, buscó promover el bienestar emocional, fortalecer los vínculos personales y apoyar a quienes atraviesan momentos de soledad o dificultad.
El juego de los abrazos nace en un contexto marcado por el ritmo acelerado de la vida diaria, el estrés y el aumento de la soledad no deseada. Frente a ello, la Diputación propone una acción cercana, accesible y participativa que se articula en torno a una caja solidaria.
La dinámica es sencilla: sacar una tarjeta, compartir el abrazo que indica y repetir sin límite.
Según numerosas investigaciones médicas, sociales y científicas abrazar no solo reconforta, también cuida. Cuando abrazamos, el cuerpo libera dopamina, serotonina y oxitocina, conocidas como las hormonas de la felicidad, la calma y el vínculo. Gracias a ellas, un abrazo de apenas 10 segundos puede ayudar al cuerpo a combatir infecciones, aliviar síntomas de depresión y reducir la fatiga. Y si lo prolongamos hasta los 20 segundos, sus efectos se multiplican: disminuye el impacto del estrés, mejora la presión arterial y fortalece el sistema inmunológico.
Es por eso que la Diputación Foral de Gipuzkoa busca promover que este juego lúdico-familiar se convierta en el regalo de estas Navidades y más allá de ellas.
La campaña se apoya en un audiovisual de 60 segundos que consta de un relatoque pone el foco en los silencios, la distancia y la reconciliación, y que recuerda que, a veces, un abrazo es la forma más directa de volver a encontrarnos cuando las palabras no bastan.
La caja tiene un precio de 3 euros, que se destina como donativo íntegro al Teléfono de la Esperanza, entidad que acompaña cada año a más de 60.000 personas que atraviesan momentos de soledad, angustia o sufrimiento emocional.
De este modo, la iniciativa amplía su impacto más allá del ámbito familiar y comunitario, con el objetivo de contribuir a que muchas personas encuentren apoyo, escucha y acompañamiento cuando más lo necesitan.”
(Adlatina – Nuevo: la Diputación Foral de Gipuzkoa reivindica el poder de los abrazos, 02.01.2026)

A dádiva da Memória. De filho para pai

Gratidão: não ver a prenda, mas quem a oferece (anónimo).

Todos os anos, próximo do Natal, a rede britânica de lojas John lewis faz questão de lançar um anúncio marcado pelo espírito de partilha e generosidade. Convoca quase sempre a família e recorre frequentemente à fantasia. “Where Love Lives” prescinde da fantasia e concentra-se na relação entre gerações, designadamente entre filho e pai.

Memória puxa memória. O tempo, suposto linear, contorce-se. E o início, o passado, e o fim, o presente, abraçam-se.

Anunciante: John Lewis. Título: Where Love Lives. Agência: Saatchi & Saatchi (London). Direção: Jonathan Alric. Reino Unido, novembro 2025

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Prenda cortesã precursora

Mestre do Livro da Cidade das Damas. Christine de Pisan apresentando o seu livro à rainha de França, Isabel de Baviera. Detalhe de miniatura iluminada de The Book of the Quen, ca. 1410-1414. British Library

Concluído em 1405, o Livro da Cidade das Damas (Le Livre de la Cité des Dames) foi escrito, em prosa, por uma mulher, Christine de Pisan, em defesa das mulheres, Uma obra pioneira “antimisógin”. Foi ainda autora do Livro das Três Virtudes (Le Livre des Trois Vertus), de 1405, e do livro de poesia Le Ditié de Jehanne d’Arc, de 1429.

“Cristhine de Pisan (1365.1431) é considerada como uma das primeiras mulheres escritoras em França. Viúva e mãe de família aos 25 anos, escolheu a escrita para ganhar a sua vida. Tornou-se poetisa de corte, oferecendo-lhe alguns senhores a sua proteção, a exemplo do duque de Borgonha ou do duque de Orléans. Mas foi também autora de livros de pendor político e moral, e dirigiu uma oficina de copistas.

No Le Livre de la Cité des dames, de 1405, promove uma análise crítica da sociedade a par de soluções para sair da crise do século XV. Christine de Pisan inclui-se a si mesma na narrativa: consternada pelas divisões que dilaceram a França, decide construir uma “Cidade das damas” onde as mulheres ilustres dariam o exemplo. Personagens alegóricas exclusivamente femininas, tais como a Dama Razão, a Dama Retidão e, ainda, a Dama Justiça [Dame Justice] ajudam-na a educar as mulheres de todas as idades e condições sociais” (Le Livre de la Cité des dames de Christine de Pisan, Passerelle[s ] – Bibliothèque Nationale de France).

Mestre de Margarida de York. Christine de Pisan e as três Damas (Razão, Retidão e Justiça). Christine de Pisan, Livre de la Cité des Dames. 1405. Bibliothèque Nationale de France

Citação de Christine de Pisan:

Se fosse o costume mandar jovens meninas para a escola e ali ensiná-las toda sorte de diferentes matérias, assim como se faz com jovens meninos, elas entenderiam e aprenderiam as dificuldades de todas as artes e ciências com tanta facilidade quanto os meninos. […] Sabes por que mulheres conhecem menos que homens? […] é porque elas são menos expostas a uma larga variedade de experiências já que precisam ficar em casa o dia inteiro em nome do lar. Não há nada como uma gama completa de diferentes experiências e atividades para expandir a mente de qualquer criatura racional (Christine de Pizan, Livro da Cidade das Damas. Manuscrito original: 1405).

O burro e a violência doméstica (aumentado)

Estou a adquirir o mau hábito de revisitar os artigos entretanto esquecidos que constam entre os 10 mais vistos no dia anterior. Não estranha que não os recorde: são perto de 4500 artigos dispersos por 15 anos. Os títulos, eventualmente apelativos, mas não descritivos, também não ajudam. Ontem, o Tendências do Imaginário somou 462 visualizações. O artigo “O burro e a violência doméstica” surgiu em quinto lugar. Escrito há 10 anos, manifesta demasiada ousadia, senão atrevimento. Não tinha ainda consciência de algumas limitações e futuras vulnerabilidades. Recupero-o, acrescentando uma citação e duas gravuras.

O burro e a violência doméstica (março 29, 2015)

France. A “battered” husband was trotted around town riding a donkey backwards.

Na França pós-renascentista, o marido agredido ou dominado pela mulher era colocado às arrecuas num burro, com a cauda na mão. Neste preparo, percorria, injuriado e ridicularizado, as ruas da cidade. Em Inglaterra, era atrelado a uma carroça e coletivamente humilhado (Bough, Jill, Donkey, London, Reaktion Books, Ltd, 2011. p. 17). Estes costumes lembram-me as apupadas, que, ainda não vai muito tempo, fustigavam, pela noite dentro, o casamento de viúvos, velhos e noivos com grande diferença de idade.

Nos séculos XVII e XVIII, em França e em Inglaterra, existiam maridos agredidos e dominados pelas esposas. A sociedade não só conhecia a existência do fenómeno, como previa formas de o corrigir. Vigorava o patriarcado. Um homem vítima da mulher configurava uma inversão inadmissível dos papéis de género. Homem que é homem é dono da casa. Se é vítima da mulher que não espere solidariedade mas vexame.

Volvidos dois séculos, as nossas instituições, nacionais e internacionais, resolveram experimentar o efeito Pigmaleão. Estudaram a violência doméstica confinando-se às mulheres. Confirmaram, naturalmente, que só havia mulheres vítimas de maus tratos domésticos! Admitia-se a existência de um número reduzido de homens possivelmente vítimas da autodefesa feminina. Esqueceram-se, porventura, que esses homens tinham direitos e que os direitos não se medem aos palmos. Orientei uma investigação numa instituição de apoio à vítima. Durante a observação, apresentaram-se alguns homens. Não voltaram. Ou a solução foi súbita ou a esperança morreu. A Pós-modernidade não cumpriu o que prometeu: acabar com grandes narrativas e ideologias. Há casos em que se restauram. O patriarcalismo e o feminismo até podem complementar-se! A cegueira em relação à violência doméstica ancora-se em estereótipos tais como: “um homem é um homem” e “a mulher é quem sofre”.

Foi preciso aguardar pelos anos setenta pelo início, nos Estados-Unidos, de estudos envolvendo homens e mulheres (para o “estado da arte”, a partir de 111 estudos, http://www.cronicas.org/informe111.pdf). Os resultados são “surpreendentes”: as taxas dos homens aproximam-se das taxas das mulheres (ver http://www.fact.on.ca/Info/dom/george94.htm).

The Journey of a modern Hero, to the Island of Elba. 1814

Não sou especialista em violência doméstica, mas pergunto: Já avaliaram e adaptaram os dispositivos de apoio à vítima de modo a atender quem necessita como necessita? Vários autores sustentam que as políticas zarolhas de luta contra a violência doméstica têm agravado a situação. É verdade?
Tantos disparates em tão poucas letras merecem um passeio de burro. Como Napoleão Bonaparte, a caminho do exílio.

Adenda

Dessin de Horace Castelli pour Diloy le chemineau de la Comtesse de Ségur-Paris, Hachette, 1887

O GENERAL
Está tranquilo, meu rapaz; não diremos nada. Mas afundas-te em mau caminho, meu amigo; um marido que tem medo da sua mulher, é risível, palavra de honra.
MOUTONET
Não é que tenha medo, senhor conde, é porque gosto muito dela e não a quero molestar.
O GENERAL
Ta! Ta! Ta! Eu conheço isso; já vi mais que um; quando a mulher resmunga, o marido dobra as costas, e a mulher bate em cima. E tu sabes o que acontece a um homem batido pela sua mulher?
LAURENT
Então, o quê, meu tio? O que acontece?
O GENERAL
A população da freguesia junta-se, coloca o marido de bom grado ou à força sobre o dorso de um burro, com a cara virada para o lado do rabo, e passeia-o por todas as aldeias da freguesia.
LAURENT
Mas isso é muito divertido; a mim, isso divertir-me-ia imenso.
O GENERAL RINDO
Pois bem! quando te casares, poderás proporcionar-te esse prazer.
(Contesse de Ségur. Diloy le chemineau, 1868, 2e édition, Paris, Librairie Hachette, 1887. p. 114)

Les Landes. – L’asouade / [S.n.]. Sans date. Archives départementales des Landes