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Coro dos ciganos

Giuseppe Verdi

Em vinte dias de férias em Itália, engordei três quilos. Recordo um restaurante na praia de Lignano Sabbiadoro. Foram horas solitárias de antipasto, primo piatto (massas), secondo piatto (prato de resistência), formaggi (queijos) e dolci (sobremesa). Camilo Castelo Branco falava em coração, cabeça e estômago. Há quem pense com o coração e sinta com a cabeça. No que me respeita, sinto e penso com o estômago.

Não é de estranhar que um belo “escalope al marsala” me lembre Giuseppe Verdi. Garantia Verdi que não trocava a Itália pelo mundo inteiro. Também não troco Portugal. Quando ouvi, pela primeira vez, as aberturas de Verdi foi uma revelação. Os coros são cósmicos. Saem das entranhas e para as entranhas regressam. Rivalizam com os melhores riffs de guitarra da história do jazz, do blues e do rock.

Anfiteatro de Orange

O Tendências do Imaginário já inclui o “Coro dos escravos hebreus” (Nabucco, 1841) e “La Donna è Mobile” (Rigoletto, 1851). É a vez do “Coro dos ciganos” (Il Trovatore, 1853). Convoca a vulnerabilidade e a potência humanas. Coloco dois vídeos com o mesmo excerto. Duas interpretações excelentes e distintas: uma no anfiteatro de Orange; a outra, na Ópera de Paris. Quando se faz difícil escolher, faço como o burro de Burídan: não escolho.

Giuseppe Verdi :Vedi le fosche notturne (coro dos ciganos, 2º ato). Il Trovatore, 1853.
Le Trouvère by Giuseppe Verdi – Chœur des Gitans (Ekaterina Semenchuk).

O homem com a criança no olhar

Kate Bush, menina surpreendente, frágil e firme, teve formação de pianista e violinista. Com 15 anos de idade, cativou a atenção de David Gilmour. Impressionado pelas suas composições disponibilizou-lhe o estúdio, ajudou-a em gravações e, no momento propício, abordou a editora EMI, que assinou contrato com Kate Bush. Kate Bush foi uma “protegida” de David Gilmour. O primeiro disco demorou. Kate Bush funda o conjunto  KT Bush Band, esmera-se na composição e estuda mímica e dança. O professor de dança, Lindsay Kemp, era também professor de David Bowie. A formação estava cinzelada: criação artística, voz e interpretação únicas; coreografia, dança e mímica invulgares. Com o corpo leve e ágil. Em 1978, lança o primeiro álbum: The Kick Inside. Um triunfo: alcança o terceiro lugar no hit-parade britânico, o segundo na Bélgica, na Finlândia, na Nova-Zelândia e o primeiro lugar na Holanda e em Portugal.

A canção Wuthering Heights ascendeu trepou as tabelas. No Reino Unido, Kate Bush foi a primeira autora-compositora-intérprete a atingir um primeiro lugar. Em 1979, Kate Bush faz a sua primeira tournée. Apesar do sucesso, será a última. As tournées não são compatíveis com a criação artística, a qualidade de vida e a dedicação à família, nomeadamente ao filho. Continuará, no entanto, a publicar discos: uma dezena, no conjunto.

Seguem duas canções, Wuthering Heights e The man with the child in his eyes,  ambas do álbum: The Kick Inside. O maior sucesso e aquela que mais impressionou David Gilmour. Naquele tempo, considerava-me vacinado contra o espanto. Soberba de parvo!

Kate Bush. Wutherin Heights. The Kick Inside. 1978.
Kate Bush .The Man with the Child in His Eyes. The Kick Inside. 1978. Ao vivo em 1979.

Trampolinar

Há coisas prodigiosas capazes de transformar as pessoal. Ora enfraquecem, como a kryptonita do Superman, ora revigoram, como os espinafres do Popeye. A publicidade também promete quimeras. E se andar na rua fosse pisar trampolins? Andar mais alto, mais longe e mais rápido, tudo em suavidade. Como ter “amigos de amigos” no bailado social. A chave: os auscultadores AirPods, da Apple. E se deslocar-se fosse “dancing in the streets”, num mundo recolorido a frisar o psicadélico? A chave: os auscultadores Airpods, da Apple. Os convidados de hoje são o David Bowie e o Mick Jagger.

Marca: Apple / Airpods 2. Título: Bounce. Agência: TBWA Media Arts Lab. Direcção: Oscar Hudson. Estados-Unidos, 2019.
Marca: Apple / Airpods 2. Título: Snap. Estados-Unidos, 2020.
https://www.youtube.com/watch?v=HasaQvHCv4w
David Bowie & Mick Jagger. Dancing in the streets.

Janelas

Uma fantasia numa embalagem estética. O que é? Um anúncio a um automóvel, versão sapatinho de cristal. Em Lugares, da Skoda, o mundo é uma sucessão de paisagens e janelas de bem-estar e performance. “Quizá ahora podamos convertir qualquier lugar en otro lugar”. O movimento dos lugares ao volante de um skoda.

Marca: Skoda. Título: Lugares. Agência: Proximity Barcelona. Espanha, Maio 2020..

Sensação de viver

Anúncio da Coca-cola. 1950.

“O coração tem razões, que a própria razão desconhece” (Blaise Pascal).

O anúncio português “E a vida sorri”, da Olá (1986), e o anúncio britânico “Food dancing”, da Sainsbury’s (2017), recordam um anúncio português da Coca-cola: “Sensação de viver” (1989). Velocidade, comunicação, parceria, alegria e emoção. Nos dois últimos anúncios, a dança acompanha, envolvente, a música. O que cativa nestes anúncios? O intelecto ou o afecto? O pensamento ou o sentimento? A razão ou a emoção? Seria curial acreditar que quanto mais se pensa mais se sente. Mas não é verdade. Conhecer pela razão e conhecer pelo coração não são as duas faces da mesma moeda.

A comercialização da Coca-cola em Portugal remonta a 1977. Proibida durante o fascismo, assim permanece durante os três primeiros anos da democracia. Pelos vistos, a coca-cola tinha paladar político. Lembro as grades de coca-cola despachadas, clandestinamente, de Espanha para a dispensa. Mas a proibição da coca-cola não abrangia as ex-colónias. Os regressados sentiram a falta.

Marca: Coca-Cola. Título: Sensação de viver. Portugal, 1989.

Our first work for Sainsbury’s celebrates the real power of food – not just a set of ingredients on a plate, or Instagram eye-candy, but something that lies at the heart of living well, bringing us joy and making us feel good. In doing so, it pours meaning back into Sainsbury’s endline “live well for less” (Wieden + Kennedy: http://wklondon.com/work/food-dancing/).

Marca: Sainbury’s. Título: Food Dancing (Yum Yum Yum). Agência: Wieden + Kennedy (London). Direcção: Siri Bunford. Reino Unido, 2017.

A abertura do tolo

Quino. Gente en su sitio. 1986.

Quando a morte ronda, que fazer? Abater-se? Reagir? Há quem tente enganá-la (figura 1); outros nem sequer a pressentem (figura 2).

Daniel Hopfer’s ‘Death and the Devil Surprising Two Women’ (c 1500–1510)

Alguns esmeram-se a arrumar a vida, outros trespassam sem zelo. Não é fácil trocar o mundo pela eternidade. Não há preparação nem ars moriendi que nos assista.

Dança da Morte. Alemanha. Século XVI.

Talvez o tolo nos ensine. Na dança macabra (figura 3), ao contrário dos demais, só dá uma mão e a um ser humano. Parece não saber onde está nem para onde vai, o que pouco o incomoda.

Supertramp. Fool’s Overture. Even in the quietest moments. 1977. Ao vivo em 1979.
Supertramp. Crime of the century. Crime of the century. 1974. Ao vivo em 1983.

Esperança de vida e desigualdade perante a morte

Praga de San Vito. Epidemia de dança de 1518

Somos iguais perante a morte? A resposta parece consensual. Será? Atente-se no gráfico 1, que incide sobre a variação da esperança de vida aos 35 anos dos homens em França, entre 2012 e 2016, em função do nível de vida e da escolaridade. Da leitura do gráfico, que se proporciona reter?

Fonte: Insee-DGFIP-Cnaf-Cnav-CCMSA, Échantillon démographique permanent. Extraído de Nathalie Blanpain, L’espérance de vie par niveau de vie : chez les hommes, 13 ans d’écart entre les plus aisés et les plus modestes, INSEE, 2018 : https://www.insee.fr/fr/statistiques/3319895.

A esperança de vida muda consoante o nível de vida. Seja qual for a escolaridade, a esperança de vida aumenta com o nível de vida. Quando os rendimentos passam de 1000 para 3500 euros, a esperança de vida sobe, por exemplo, nas pessoas sem diplomas, 7 anos, de 38.9  para 45,9 anos e naqueles que têm ensino superior, sobe 8.5 anos, de 41.8 para 50.3 anos. A idade da morte depende do nível de vida.

A esperança de vida muda, também, consoante a escolaridade. Seja qual for o nível de rendimentos, a esperança de vida aumenta com a escolaridade. Para um mesmo nível de rendimentos, por exemplo 2000 euros, a esperança de vida sobe de 44, nas pessoas sem diploma, para 47.8 anos, naquelas que têm o ensino superior. No caso de um nível de rendimentos de 3500 euros, a esperança de vida sobe, respetivamente, de 45,9 para 50,3 anos. A idade da morte depende da escolaridade.

Gosto de contrariar. Como não consigo contrariar os outros, contrario-me a mim próprio. Os dados sobre a esperança de vida, o nível de rendimentos e a escolaridade não evidenciam a desigualdade perante a morte mas a desigualdade perante a vida.

Artes florescentes

Jean-Philippe Rameau. Les Sauvages (Les Indes Galantes). 1735. Coreografia de Blanca Li. Bailado : Les Arts Florissants.

Acordei rococó. Os artigos de hoje convocam o estilo. Antes de mais, boa disposição: Les Sauvages (Les Indes Galantes, 1735), de Jean-Philippe Rameau, com coreografia de Blanca Li, interpretada por Les Arts Florissants.

No ensino à distância, o diálogo é sui generis. A reação, frequentemente dessincronizada, ou é escrita ou é falada. Mas reduzida. A comunicação não verbal é rara. Imagina-se! Por exemplo, os alunos a dançar.

Jean-Philippe Rameau. Les Sauvages (Les Indes Galantes). 1735. Coreografia de Blanca Li. Bailado : Les Arts Florissants.

Parfum Femme

Margot Robbie. Chanel.

Perfume! Fragrância, emanação, libertação… A “esfera aromática” é uma extensão da “esfera pessoal” (G. Simmel). O odor é tão íntimo quanto intrusivo. Envolvente, a seu alcance, nada escapa. Perfume, flor; flor, beleza; perfume beleza. Ninguém aposta tanto na estética como a indústria dos perfumes. Expressão, volubilidade, mulher. flor, beleza, libertação; seis palavras para dizer um anúncio.

Marca: Chanel. Título: Gabrielle Chanel Essence. Direcção: Nick Knight. Agosto 2019.

Os cavalos também dançam

Lucky Luke, Jolly Jumper e Rantanplan

“O cavalo, como todos sabem, é a parte mais importante do cavaleiro” (Jean Giraudoux, Ondine, 1959, Paris, Flammarion, 2016, Scène Deuxième).

Um pingo de humor cai sempre bem, até na melancolia. O anúncio The Cool Ranch, da Doritos, é uma paródia dos westerns. Assistimos a um duelo de dança em duas mãos. Primeiro, os cowboys, em seguida, os cavalos. A música de Ennio Morricone sublinha a dramaticidade heroica do momento. Quem ganha o dorito? Um cow-boy vale o que vale o seu cavalo. O primeiro cavalo, tipo Jolly Jumper, capricha; o segundo, tipo Rantanplan, faz o que lhe apetece: nada.

Marca: Doritos. Título: Cool Ranch. Agência: Goodby Silverstein & Partners. Estados Unidos, Janeiro 2020.
Rolling Stones. Wild Horses. Sticky Fingers. 1971.