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A música entre nós

Sem a música, o mundo seria um erro (Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos, 1889)

Henri Matisse. La musique. 1910.

A música toca-nos. É uma ponte para afetos e memórias. O anúncio Crafting Memories – since 1925, da Bang & Olufsen, incide, precisamente, sobre esta relação entre a música e a memória partilhada. Recordo quando ouvi, pela primeira vez, a música Fast Car, da Tracy Chapman, no sótão da casa de uns primos a quem quero bem.

Marca: Bang & Olufsen. Título: Crafting Memories – since 1925. Agência: Camp David Film. Direcção: Stina Lütz. Dinamarca, Novembro 2020.
Tracy Chapman. Fast Car. Tracy Chapman. 1988.

A beleza faz bem à vida

Apetece-me um banho de beleza. Também? O anúncio Merci é simplesmente belo. Imagens surpreendentes, mágicas, numa antologia de excertos de anúncios que a agência BETC criou para a Air France, numa colaboração de 21 anos.

Marca: Air France. Título: Merci. Agência: BETC (Paris). França, outubro 2020.

Entre duas águas

Paco de Lucia.

A cabeça na almofada e o corpo na jangada. A cama é um rio. Água, duas águas, águas turvas, águas mil. O mesmo, o outro, os outros a nadar no mesmo. Metecos ( méta significa, em grego, “no meio de, entre, com”). Todos somos metecos. Vogamos, dentro e fora, em águas incertas.

Luzia é uma música, um monumento musical, que Paco de Lucia dedica à mãe, Luzia Gomes, portuguesa de Castro Marim. Entre dos aguas é o título de um dos grandes e mais antigos sucessos de Paco de Lucia. Estava a faltar música flamenga no Tendências do Imaginário.

Paco de Lucia (e Banda). Luzia. Luzia. 1998. Ao vivo no Festival Leverkusener Jazztage, em Leverkusen, Novembro 2013.
Paco de Lucia. Entre dos aguas. Fuente Y Caudal. 1973. Extraído do documentário La Búsqueda (2014).

O piano, as mãos e o resto.

Khatia Buniatishvili.

As palavras pedem férias. Enquanto não as leva o vento, não nos dão tréguas. As palavras são a coisa humana mais infestante.

Khatia Buniatishvili é uma pianista célebre, famosa pelas mãos e pelos decotes. Seguem três interpretações: Rachmaninov, Schubert e Brahms.

Khatia Buniatishvili. Rachmaninov – Piano Concerto No.2 (Adagio sostenuto) Orchestre Un Violon sur le sable. Direction Jérôme Pillement. 2017.
Khatia Buniatishvili. Schubert: Impromptu No. 3 in G-Flat Major, Op. 90, D. 899. 2019.
Khatia Buniatishvili, Yuja Wang. Brahms, Hungarian Dance No. 1. 2011.

A dança das máscaras

Bugiada e Mouriscada. São João de Sobrado. Valongo

Conversa parva:

No mês de Agosto, há trinta anos, estava a banhos numa praia a sul da Zambujeira. Obrigava-me a uma boa caminhada. Um dia, um velhote, com um garrafão de água, ultrapassa-nos numa descida. Na subida, é a nossa vez de o ultrapassar. Digo-lhe: “a subir custa mais”. “Ná senhor ná! Fui atleta”, e desata a correr rampa acima. Não é fácil prever quando se despoleta a mola humana! Numa máscara cabe o infinito.

As máscaras gostam de música e de dança. Com música dos Dead Can Dance, os vídeos seguintes conjugam máscaras, música e dança.

Sugiro uma visita à fotogaleria “Como as sociedades se reinventam para a distância social da covid-19” do jornal Público: https://www.publico.pt/2020/08/07/fotogaleria/sociedades-reinventam-pandemia-covid19-402133

Dead Can Dance. ACT II: The Invocation. Dionysus, 2018.
Dead Can Dance. Kiko. Anastasis. 2012. Imagens do filme Samsara (2011), realizado por Ron Fricke

Pausa para trabalhar

Pina Bausch

“Durante muito tempo, pensei que o papel do artista era despertar o público. Hoje, quero oferecer-lhe no palco aquilo que o mundo, cada vez mais duro, deixou de lhe oferecer: momentos de amor puro (Pina Bausch).

A pandemia comprime o tempo e multiplica os surtos de trabalho. Julho revelou-se um pico maior que o Evereste. Ocorre a figura do judeu em terras de faraó a subir a montanha de costas. Nos próximos tempos, prometo empenhar-me em fazer aquilo que não presta, bem como aquilo que não devo. Que prazer poder e não fazer, ouvir as sereias junto à Ilha dos Amores. O Tendências do Imaginário esteve onze dias quedo e mudo. É estranho ter saudades do vício. “O trabalho não liberta”, tal como o resto. “Welcome to the pleasuredome” (https://tendimag.com/2018/06/19/canteiros-do-prazer-pleasuredomes/).

Pina Bausch é a dança. Wim Wenders dedicou-lhe um filme: Pina (2011). O vídeo “Seasons March” é um excerto. A última música é um fado de Coimbra: “Os teus olhos são tão verdes”. Aproveito para recolocar o vídeo “Dead Can Dance – Song of the Stars (Versão Pina Bausch”. Se já viu, é uma ocasião para ver com outros olhos.

Pina Bausch. Seasons March. Do filme Pina, de Wim Wenders (2011).
Dead Can Dance – Song of the Stars (Pina version).

Coro dos ciganos

Giuseppe Verdi

Em vinte dias de férias em Itália, engordei três quilos. Recordo um restaurante na praia de Lignano Sabbiadoro. Foram horas solitárias de antipasto, primo piatto (massas), secondo piatto (prato de resistência), formaggi (queijos) e dolci (sobremesa). Camilo Castelo Branco falava em coração, cabeça e estômago. Há quem pense com o coração e sinta com a cabeça. No que me respeita, sinto e penso com o estômago.

Não é de estranhar que um belo “escalope al marsala” me lembre Giuseppe Verdi. Garantia Verdi que não trocava a Itália pelo mundo inteiro. Também não troco Portugal. Quando ouvi, pela primeira vez, as aberturas de Verdi foi uma revelação. Os coros são cósmicos. Saem das entranhas e para as entranhas regressam. Rivalizam com os melhores riffs de guitarra da história do jazz, do blues e do rock.

Anfiteatro de Orange

O Tendências do Imaginário já inclui o “Coro dos escravos hebreus” (Nabucco, 1841) e “La Donna è Mobile” (Rigoletto, 1851). É a vez do “Coro dos ciganos” (Il Trovatore, 1853). Convoca a vulnerabilidade e a potência humanas. Coloco dois vídeos com o mesmo excerto. Duas interpretações excelentes e distintas: uma no anfiteatro de Orange; a outra, na Ópera de Paris. Quando se faz difícil escolher, faço como o burro de Burídan: não escolho.

Giuseppe Verdi :Vedi le fosche notturne (coro dos ciganos, 2º ato). Il Trovatore, 1853.
Le Trouvère by Giuseppe Verdi – Chœur des Gitans (Ekaterina Semenchuk).

O homem com a criança no olhar

Kate Bush, menina surpreendente, frágil e firme, teve formação de pianista e violinista. Com 15 anos de idade, cativou a atenção de David Gilmour. Impressionado pelas suas composições disponibilizou-lhe o estúdio, ajudou-a em gravações e, no momento propício, abordou a editora EMI, que assinou contrato com Kate Bush. Kate Bush foi uma “protegida” de David Gilmour. O primeiro disco demorou. Kate Bush funda o conjunto  KT Bush Band, esmera-se na composição e estuda mímica e dança. O professor de dança, Lindsay Kemp, era também professor de David Bowie. A formação estava cinzelada: criação artística, voz e interpretação únicas; coreografia, dança e mímica invulgares. Com o corpo leve e ágil. Em 1978, lança o primeiro álbum: The Kick Inside. Um triunfo: alcança o terceiro lugar no hit-parade britânico, o segundo na Bélgica, na Finlândia, na Nova-Zelândia e o primeiro lugar na Holanda e em Portugal.

A canção Wuthering Heights ascendeu trepou as tabelas. No Reino Unido, Kate Bush foi a primeira autora-compositora-intérprete a atingir um primeiro lugar. Em 1979, Kate Bush faz a sua primeira tournée. Apesar do sucesso, será a última. As tournées não são compatíveis com a criação artística, a qualidade de vida e a dedicação à família, nomeadamente ao filho. Continuará, no entanto, a publicar discos: uma dezena, no conjunto.

Seguem duas canções, Wuthering Heights e The man with the child in his eyes,  ambas do álbum: The Kick Inside. O maior sucesso e aquela que mais impressionou David Gilmour. Naquele tempo, considerava-me vacinado contra o espanto. Soberba de parvo!

Kate Bush. Wutherin Heights. The Kick Inside. 1978.
Kate Bush .The Man with the Child in His Eyes. The Kick Inside. 1978. Ao vivo em 1979.

Trampolinar

Há coisas prodigiosas capazes de transformar as pessoal. Ora enfraquecem, como a kryptonita do Superman, ora revigoram, como os espinafres do Popeye. A publicidade também promete quimeras. E se andar na rua fosse pisar trampolins? Andar mais alto, mais longe e mais rápido, tudo em suavidade. Como ter “amigos de amigos” no bailado social. A chave: os auscultadores AirPods, da Apple. E se deslocar-se fosse “dancing in the streets”, num mundo recolorido a frisar o psicadélico? A chave: os auscultadores Airpods, da Apple. Os convidados de hoje são o David Bowie e o Mick Jagger.

Marca: Apple / Airpods 2. Título: Bounce. Agência: TBWA Media Arts Lab. Direcção: Oscar Hudson. Estados-Unidos, 2019.
Marca: Apple / Airpods 2. Título: Snap. Estados-Unidos, 2020.
https://www.youtube.com/watch?v=HasaQvHCv4w
David Bowie & Mick Jagger. Dancing in the streets.

Janelas

Uma fantasia numa embalagem estética. O que é? Um anúncio a um automóvel, versão sapatinho de cristal. Em Lugares, da Skoda, o mundo é uma sucessão de paisagens e janelas de bem-estar e performance. “Quizá ahora podamos convertir qualquier lugar en otro lugar”. O movimento dos lugares ao volante de um skoda.

Marca: Skoda. Título: Lugares. Agência: Proximity Barcelona. Espanha, Maio 2020..