Archive | Maio 2020

À força de falar de amor, apaixonamo-nos

M.C. Escher. Bond of Union. 1956.

Uma versão antiga da “predição criadora”, de W.I. Thomas: “À força de falar de amor, apaixonamo-nos” (Blaise Pascal, Discours sur les passions de l’amour, 1652-1653).

Sou um algoritmo básico: resumo-me a duas sub-rotinas com contador infinito: quando penso, desaguo no Blaise Pascal: no que respeita à música, no Jacques Brel. Se quero pensar, penso com eles; se quero sentir, sinto com eles. São as duas pontas de Ariana do meu labirinto identitário. O resto é variação. Dizem que os olhos são as janelas da alma. Quando ouço Jacques Brel, fecho os olhos para franquear a entrada a anjos e demónios.

M.C. Escher. Circle Limit IV (Heaven and Hell). 1960.

Jacques Brel canta, como ninguém, a miséria humana. Tão bem que o ouvimos com prazer. Gosto de La ville s’endormait. Ne me quitte pas é universal. Coloco as versões estúdio e ao vivo, que, no caso de Jacques Brel, não se substituem. Uma voz e uma performance.

Jacques Brel. La ville s’endormait. Les marquises. 1977.
Jacques Brel. Ne me quitte pas. La valse à mille temps. 1959.
Jacques Brel. Ne me quitte pas. Ao vivo na Radio France. 1966.

A arqueologia do prazer

Peter Frampton

Peter Frampton não é o Fred Mercury, nem o Eric Clapton. Mal seria. É um bom guitarrista em maré de bons guitarristas. Conheceu um franco sucesso com o álbum duplo ao vivo Frampton Comes Alive, publicado em 1976. “É considerado o álbum ao vivo mais vendido da História” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Frampton_Comes_Alive!).

De anos em anos, coloco a agulha na faixa Do You Feel Like We Do. Se estou impaciente, começo logo no minuto quatro. Em 1976, vivia em Paris. A minha aparelhagem era um móvel “La voix de son maître”, do tamanho de uma cómoda, com coluna incorporada e, no interior, o gira-discos e o rádio. Uma arqueologia do prazer. Creio que o desgosto, a “eurrância”, radica na mudança de aparelhagem. Hormonas à parte, “La voix de son maître” é outra acústica.

Peter Frampton. Do you feel like we do. Frampton comes alive. 1976.

Cuidados de saúde

Bradesco Saúde. Fascinação. 2020.

Fomos forçados, desde a infância, a ordenar a nossa vida de modo a exorcizar qualquer desordem. E é neste medo do vazio, nesta vontade de desarmar o menor risco, que o poder se enraíza (Marguerite Duras, La Passion suspendue (1989).

Amor, carinho e ternura, cuidado, sonho e inocência… Benditas crianças! Brincam, brincam, por exemplo, aos profissionais de saúde. Os nossos “novos” heróis. Não há figura de ficção que os ofusque. Auscultam, cuidam… Tocam e, caso se proporcione, abraçam. Este anúncio brasileiro presta-lhes uma homenagem a que não falta a voz de Elis Regina. O Brasil é, neste momento, o terceiro país com maior número de infectados com Covid-19, a seguir aos Estados-Unidos e à Rússia. “Fascinação”, da Bradesco Seguros, é um testemunho do poder da simplicidade e da alegoria. Não inclui qualquer imagem de profissionais de saúde. Não é necessário aparecer para estar omnipresente. Que regalia! E aparecer e não estar presente? Que evasão!

Marca: Bradesco Saúde. Título: Fascinação. Agência: AlmapBBDO. Direcção: Manu Mazzaro. Brasil, Maio 2020.

Felicidade sem juízo

Curiosamente, Bruce Springsteen não consta do Tendências do Imaginário. Adquiri o álbum Darkness on the Edge of Town (1978), acabado de sair, num país comunista. Com 19 anos, viajava só. Acreditava que, viajando só, tinha mais oportunidades de interacção com as pessoas. Interessavam-me mais as pessoas do que os monumentos. Não tinha juízo, era feliz. O álbum é uma relíquia. Segue a música Streets of Fire.

Bruce Springsteen. Streets of Fire. Darkness on the Edge of Town. 1978. Ao vivo. The Paramount Theatre. 2009.

O épico da agulheta

O risco e a incerteza predominam em tempos de coronavírus. “Mas na América mesmo quando a vida se torna difícil, nós nunca desistimos”. Existe a empresa Ace que, desde 1881, produz agulhetas (aglets) para os atacadores dos sapatos. Agulhetas minúsculas mas decisivas. Primeiro, o drama (o coronavírus), em seguida, o épico (a resiliência dos americanos); por último, a pregação: as agulhetas ajudam a apertar os laços, e a empresa Ace promove a solidariedade social. Um bom anúncio de salvação, esteticamente conseguido.

Marca: Ace Aglet Co. Título: Unraveled. Agência: MSA Creative. Estados Unidos, Maio 2020.

Outras músicas

Música. Instrumentos medievais

Um amigo recomendou-me « La bourrée d’Avignon », interpretada pelo ensemble “Le banquet du Roy”.  Impressionou-me a diversidade e o encadeamento dos instrumentos de sopro. Acrescento a música “Improvisation sur la Spagnoletta”, interpretada pelo mesmo grupo.

O ensemble “Le banquet du Roy” interpreta “La bourrée d’Avignon”, peça coligida por Philidor l’Aisné , no séc. XVII. Gravada no palácio de Blois em 2014.
O ensemble “Le banquet du Roy” interpreta “Improvisation sur la Spagnoletta”, de Michael Praetorius (1571-1621). Gravada no palácio de Blois em 2014.

Desencontro no elevador

Bianco. The Lift. 2019.

As cenas filmadas em elevadores são frequentes na publicidade. No cinema, também. Mas o anúncio The lift, da dinamarquesa Bianco, distingue-se. Em primeiro lugar, é extenso: quatro minutos e meio. É preciso tempo para que nada aconteça. Em segundo lugar, ao contrário da maioria dos anúncios, a Bianco não aposta na linguagem corporal. Os corpos são inexpressivos, mas pensantes. Duas múmias legendadas. O desfecho justifica o provérbio: para iniciar uma relação, analisa menos e comunica mais.

Marca: Bianco. Título: The lift. Agência: & Co. Direcção: Daniel Kragh-Jacobsen. Dinamarca, Março 2019.

Antes de colocar um anúncio, costumo conferir se não o publiquei anteriormente. Neste caso, esperei pela conclusão do artigo: o anúncio The Lift já tinha sido colocado (https://tendimag.com/2019/04/15/o-primeiro-passo/). O blogue cresce e a memória encolhe. Mas uma repetição é mais do que uma repetição. Conjunturais e volúveis, os comentários diferem. Um é romântico, atento às personagens; o outro é cínico, centrado no formato. Polifonias.

O anúncio dinamarquês The Lift, da Bianco, revela-se inteligente, criativo, original, minimalista, lento e convincente. A interacção no elevador peca por incomunicação verbal e não verbal. Desejo sem iniciativa, sentimento sem risco, corpos sem contacto. “Amor que arde sem se ver”. Convenha-se que a interpelação do outro, seja qual for a orientação sexual, é cada vez mais problemática. E, no entanto, a menina até perdeu o emprego por excesso de utilização do elevador. Feitos um para o outro e faltou-lhes uma acendalha. Aperta-nos este nosso cerco interior, sem janela nem tranca, que nos separa de quem nos atrai! (AG, 14 Abril 2019).

Menina estranha

Walt Disney em 1956.
Walt Disney. Alice no País das Maravilhas. 1951. Excerto. Dobrado em português.

Alice, desenhada por Walt Disney, parece sair do papel. Uma ilusão! No filme de animação, Alice está sempre em apuros. Uma fantasia! É uma menina estranha, “a strange little girl”. Uma história bizarra. Talvez seja o sol, “always the sun”. Fusíveis queimados. Aproveito para colocar duas músicas dos Stranglers.

The Stranglers. Strange little girl. La Folie. 1981
The Stranglers. Always de sun. Always the sun. 1990.

Portas

Intermarché. Je désire être avec vous. 2020.

É virtude da publicidade estar em cima do acontecimento. Ontem, o confinamento; hoje, o desconfinamento. O símbolo do confinamento é a porta que se fecha; o símbolo do desconfinamento é a porta que se abre. Que se abre ao outro. A imagem da porta está omnipresente neste duplo anúncio do Intermarché. Mas são, agora, portas prestes a abrir-se. O anúncio “Je désire être avec vous” é a promessa do desconfinamento, o cortejo do fim da ausência, cujos detalhes se alinham a rigor, incluindo a voz de Nina Simone. Há anúncios que não precisam dizer muito para dizer mais. Sentimo-nos bem quando vemos a classe passear no ecrã.

Avec vous, Intermarché l’a été tout au long de cette crise, dans ces moments difficiles. Nous serons ravis d’être à nouveau avec vous pour un très bon moment cette fois, en vous aidant à préparer le meilleur des dîners avec ceux qui vous ont tant manque (https://www.youtube.com/watch?v=NL9K5BQPTXA).

Marca: Intermarché. Título: Je désire être avec vous. Agência: Romance. Direcção: Katia Lewkowicz. França, Maio 2020.

Janelas

Uma fantasia numa embalagem estética. O que é? Um anúncio a um automóvel, versão sapatinho de cristal. Em Lugares, da Skoda, o mundo é uma sucessão de paisagens e janelas de bem-estar e performance. “Quizá ahora podamos convertir qualquier lugar en otro lugar”. O movimento dos lugares ao volante de um skoda.

Marca: Skoda. Título: Lugares. Agência: Proximity Barcelona. Espanha, Maio 2020..