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Mortos interactivos

 

Terceiro dedo.

Terceiro dedo.

O último capítulo do livro A Morte na Arte conduziu-me pelos cemitérios em busca de esculturas mortuárias veladas. Quem procura uma coisa encontra outras. Sempre que procuro perco-me. Intrigaram-me algumas esculturas de “mortos interactivos”. Partes do corpo dos mortos irrompem dos túmulos numa espécie de comunicação com os vivos. Nas figuras 2 a 4, destacam-se as mãos, nas figura 5 e 7, partes do corpo. Na figura 1, uma mão aponta o terceiro dedo. Não são casos de somenos importância. Os túmulos das figuras 5 e 6 pertencem a Jules Verne e ao poeta Gerges Rodenbach. A figura 1, a mais fática, justifica algumas reservas. Embora não seja rara na Internet, não consegui identificar nem o local, nem o fotógrafo. Pode ser falsa (fake).

Há quem acredite que a vida e a morte não são mundos tão separados quanto a razão dita. Existe uma zona de intersecção onde deambulam, por exemplo, as almas penadas e os mortos vivos. Existem imaginários que sustentam este contrabando, torto por linhas tortas, entre a vida e a morte.

Autodestruição

Roland Topor. Liberté d'expression. Amnestia Internacional. 1977

01. Roland Topor. Liberté d’expression. Amnestia Internacional. 1977.

Hoje apetece-me conversar. Uma pausa na escrita solitária. Não sei se reparaste na gravura do Roland Topor no artigo anterior (Com uma pequena ajuda da morte)… Nem sequer viste o artigo. É natural. Não queres dar uma espreitadela? Eu fico aqui à espera. Não te apetece? Também não se perde nada.

Viste o filme O Tambor? É daqueles filmes de culto em que saímos da sala de cinema indispostos. Curiosamente, Roland Topor desenhou um dos cartazes do filme.

THE TIN DRUM French Movie Poster

02. Roland Topor. O Tambor. Cartaz francês do filme. 1979

Roland Topor pertence ao rol de artistas cuja obra é mais famosa do que o autor. Em 1977, desenhou um cartaz, contra a censura, para a Amnistia Internacional. O desenho de Roland Topor é um ícone do imaginário do último meio século. Cerca de dez anos mais tarde, o desenho preenche a parede de um prédio em Maastricht.

Mural by Ronald Topor, 1988, located at Tongersestraat, Maastricht, The Netherlands.

03.Mural por Ronald Topor. Maastricht. 1988.

Parte da obra surrealista de Roland Topor é considerada “autodestrutiva”. Poucos traços e muita corrosão, à semelhança dos desenhos seguintes.

Para ter uma noção do que pode ser uma obra autodestrutiva, sintoniza o teu cérebro com o meu. Recorda a gravura Mãos desenhando (1948), de M.C. Escher. Agora, imagina comigo! As mãos de Escher, em vez de se desenharem mutuamente, estão a apagar-se uma à outra! Isto é autodestruição.

M.C. Escher. Mãos. 1948.

07. M.C. Escher. Mãos. 1948.

Soube-me bem imaginar contigo. Imaginação criadora sobre a autodestruição.

Com uma pequena ajuda da morte

 

Roland Topor (Français, 1938.2997. Autoportrait présumé à la faucheuse

Roland Topor (Français, 1938.1997. Autoportrait présumé à la faucheuse.

“A mais bela artimanha do diabo consiste em vos persuadir que ele não existe” (Baudelaire, Charles, O Spleen de Paris, 1869).

“Agora e na hora da nossa morte”, não é nada fácil afastar a ceifeira. Ela insiste. Não há cabelo nem carne que lhe escapem.A não ser que a mandemos trabalhar por nós, temporariamente, noutras ceifas. Não são as manhas do demo, são as manhas da vida. Neste anúncio francês, que lembra um cartoon, a paisagem, a ceifa e a história parecem portuguesas do Alentejo.

Marca: VediorBis. Título: La faucheuse. Produção: Blue Martyn. Direcção: ELVIS. França, 2004.

No tempo em que os burros cantavam

Fête de Fous

Do disco Obsidienne, La Fête des Fous, 2005.

Andava com vontade de publicar um artigo sem interesse.

Gosto dos burros! Excepto os burros com ceptro e título. O burro é o meu símbolo preferido. Serviçal e teimoso. Por que desprezamos quem nos serve e aclamamos quem servimos?

Chris Beatrice. Luteplayer. 2010

Chris Beatrice. Luteplayer. 2010.

Nos artigos publicados no Tendências do Imaginário  dedicados à música da missa do burro (O burro e a cenoura; Tolos e burros) cingi-me à obra do Clemencic Consort. Na verdade, a missa do burro, bem como a Festa dos Tolos, celebrava-se em várias cidades medievais europeias.

Encontrei no computador duas obras sobre a Festa dos Tolos: Obsidienne, La Fête des Fous, 2005 ; e Choeur de Chambre de Namur, Missa Goliardica, Messe des Fous, 2005. Seguem dois excertos : no primeiro, o zurro do burro é ostensivo ; no segundo, mais discreto,na parte final os versos terminam com pronúncia de asno. Quem dera aos cavalos cantar como os burros!

Obsidienne. “Les femmes amoureuses de l’âne”, La Fête des Fous. 2005.

Choeur de Chambre de Namur, Missa Goliardica, Messe des Fous, 2005. Excerto.

Turismo mágico e radical

O anúncio 5 places, do Ministério do Turismo da Argentina, mostra-nos as férias que provavelmente não tivemos. De desejo em desejo, um casal salta de ambiente em ambiente: mar, montanha, estuário, deserto, lagoa. Com paixão, risco, aventura e contacto com a natureza. Este anúncio combina componentes que anúncios congéneres tendem a negligenciar: narrativa, magia, humor, amor e sintonia com o público- alvo (jovens adultos radicais, presume-se). Falha, talvez, a música. Onde está a magnífica música argentina? Pense-se, por exemplo, em Astor Piazzolla ou Mercedes Sosa.

Marca: Argentina Ministry of Tourism. Título: 5 places. Agência: La Comunidad Buenos Aires. Direcção: Luisa Kracht. Argentina, Fevereiro 2017.

Astor Piazzola. Oblivion. 1982.

Mercedes Sosa. Sólo le pido a Dios. Live in Argentinien. 1982.

Arvo Pärt. A tentação do grotesco

Arvo Pärt

Regresso a Arvo Pärt, compositor estoniano. O Tendências do Imaginário dedica-lhe um artigo (Arvo Pärt. Sinos hipnóticos), com a seguinte apresentação:

“Hoje não é dia de publicidade, mas de Arvo Pärt, compositor contemporâneo estónio. As suas músicas aparecem em dezenas de filmes. Dizem que é minimalista, ele não acha; dizem que é místico, também não; alguns afiançam que é pós-moderno, não lhe diz nada. A sua música é hipnótica, principalmente por causa do seu método, a tintinabulação, que ele explica do seguinte modo: “Eu trabalho com bem poucos elementos – somente uma ou duas vozes. Construo a partir de um material primitivo – com o acorde perfeito, com uma tonalidade específica. As três notas de um acorde perfeito são como sinos. Por isso lhe chamei tintinabulação” (Arvo Pärt. Sinos hipnóticos: https://wordpress.com/post/tendimag.com/5655).

O artigo Arvo Pärt. Sinos hipnóticos inclui duas músicas: Spiegel im Spiegel (1978) e Summa for Strings (1977). Acrescento uma música mais antiga, Pro et Contra, Concerto para Violoncelo e Orquestra (1966), menos minimalista e sem sinos, um pouco mais grotesca.

Arvo Part. Pro et Contra, Concerto for Violoncello and Orchestra (1966). Belgorod State Symphony Orchestra. Violoncelo: Borislav Strulev. VI International BelgorodMusicFest. 2017.

Contacto à distância

Quino

Quino

Gregarismo humano: as pessoas têm tendência a fazer companhia a quem a tem; logo, a não fazer companhia a quem não a tem. Respeitamos a solidão.

Quem dera escrever como o Quino desenha. Um homem e uma mulher não param de falar ao telemóvel. Regressados a casa, permanecem em silêncio ou aproveitam o facto de estar juntos para cada um comunicar pelo telemóvel com outras pessoas. Estamos telemobilizados, formatados para o contacto à distância.

Se fosse o Quino, fazia dois desenhos: 1) uma série de ilhas, cada uma com uma pessoa a falar ao telemóvel; 2) um casal a dormir com a cabeça repousada em almofadas com forma de telemóvel. Como não sou o Quino, limito-me a partilhar anúncios publicitários. Existem muitos anúncios dedicados aos usos do telemóvel. Alguns, de consciencialização, encenam catástrofes, designadamente acidentes rodoviários. O motivo dos anúncios da Levi’s e da Durex afigura-se-me mais interessante e, porventura, mais grave: a insularidade afectiva do ser humano.

Este artigo nasceu pequeno. Para não descarregar a bateria.

Marca: Levi’s. Título: Sea of Blue. Agência: FCB West. Estados Unidos, Fevereiro 2017.

Marca: Durex. Título: Turn off to turn on. Internacional, Março 2014.

Publicidade sem medo

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É possível abordar assuntos sérios com humor. “Antes risos que prantos” (François Rabelais). Há quem procure sensibilizar à força e pelo medo (a campanha anti tabaco é um exemplo); e há quem o faça com humor e cumplicidade. Independentemente do conteúdo, o anúncio Aidez-nous à sauver des vies, da Cruz Vermelha francesa, é uma pérola da arte de consciencializar sem punir.

Anunciante: Croix-Rouge Française. Título: Aidez-nous à sauver des vies. Agência: Altmann + Pacreau. Direcção: David Bertram. França, Junho 2017.

Inversão de papéis

Aruba

“Aruba es uno de los destinos más románticos del caribe. #HeSaidYes es una iniciativa de la Isla Feliz que invita a las mujeres a cambiar los roles del amor”.

Trata-se de uma inversão dos papéis de género num gesto densamente simbólico: o pedido de casamento. Um anúncio polémico? Sinais dos tempos? Crítica de clichés? Pequenos passos a caminho de grandes mudanças?

Ressalvando o Mamma Mia, o pedido de casamento é um ritual em vias de esvaziamento social e simbólico. Ainda do meu tempo, a família do futuro noivo deslocava-se a casa da futura noiva para pedir a sua mão. Algumas décadas atrás, negociavam-se os dotes e os contratos de casamento. Há alguns séculos, a comitiva da prometida deslocava-se em coche durante dias e dias para ir ao encontro do prometido. Quanto às novas gerações, vai chegar a altura em que um sms basta (ou talvez não).

Ao visionar o anúncio, insinua-se uma dúvida: quem influencia a escolha dos destinos turísticos? Ele? Ela? Ambos? Os filhos? Pelos vistos, elas são as mais influentes na escolha dos paraísos terrestres, como a ilha Feliz, em Aruba.

Marca: Isla de Aruba. Título: #HeSaidYes. Agência: Mullen Lowe Bogotá. Colômbia, Agosto 2018.

Saudades! Saudades de quê? De pedidos de casamento como o do anúncio Marry Me, da Siemens.

Marca: Siemens. Título: Marry me. 2006.

 

Adão, José & cia

BoticárioNascemos para ser pais! Cada vez menos. Nascemos para falhar! Cada vez mais. Nascemos, fatalmente, para ser filhos. Mas existem efemérides que nos resgatam. Por um dia, somos pais ideais. Hoje, domingo, 12 de Agosto, é o Dia dos Pais no Brasil.

Marca: O Boticário. Título: Pais; Agência: AlmapBBDO. Direcção: Luciano Podcaminsky & Heitor Dhalia. Brasil, Agosto 2018.