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Mais inesperado do que o previsto

Pepsi. Encounter. 2019.

Muitos anúncios são paródias. Temas não faltam. Mais importante do que a paródia é o modo surpreendente como é rematada. É neste golpe final que reside o seu fascínio e a sua genialidade. Alguns anúncios a surpresa ultrapassa as expectativas: mostram-se mais inesperados do que o esperado.

Uma paródia dos mil e um “encontros imediatos” com extraterrestres não passa de mais uma entre muitas. Mas se, ao comando de um andróide, o extraterrestre for um peluche, tipo Gremlin, “pepsidependente”, então o anúncio arrisca-se a ficar na memória. Quando um homem mascarado de palhaço entra num banco logo acode a lenda urbana dos palhaços assassinos. Mas o palhaço dirige-se à caixa multibanco e levanta dinheiro com o cartão de crédito… O episódio condiz com as nossas expectativas? Quando aguardamos uma monstruosidade, a normalidade perturba-nos. Estes exemplos revelam que o efeito de estranhamento, eventualmente, grotesco não reside nos fenómenos em si, normais ou anormais, mas na relação que estabelecemos com esses fenómenos.

Marca: Pepsi. Título: The encounter. Agência: Goodby Silverstein & Partners. Estados Unidos, Janeiro 2019.
Marca: London Film Academy. Título: Clown. Agência: F/Nazca Saatchi & Saatchi. Reino Unido, Março 2018.

O esplendor da carne

Claude Monet. Nature morte, le quartier de viande. 1864

Sempre admirei os sábios que dialogam teorias como quem fala do tempo. No que me respeita, ainda estou na infância do entendimento. Brinco às teorias. Não sei teorizar sem conhecer. Um pequeno pecado epistemológico. Ultrapassa-me desenrolar um novelo e voltar a enrolar outro novelo com o mesmo fio. Igual na substância, mas diferente na forma! Os fios das crianças têm na ponta um papagaio de papel: sabem se voa ou não.

Marca: McDonald’s Brasil. Título: Novos McNífico com 10 Bacons e Gran McNífico Bacon. Agência: DPZ&T. Direcção: Marcello Lima. Brasil, Janeiro 2019.

O anúncio Novos McNífico com 10 Bacons e Gran McNífico Bacon, da McDonald’s Brasil, estetiza o bacon, resgata-o da vulgaridade sem da vulgaridade o retirar. Não estará a estetização da carne associada à tentação da carne e ao ritual da sua consumição?  A estetização da carne tem um extenso lastro histórico que a McDonald’s retoma. Pintores tais como Rembrandt, Desportes, Goya, Van Gogh, Monet e Bacon dedicaram algumas pinceladas à exposição artística da carne.

Cansaço

Memento mori ©2017 por Valentine Lasselin-Nowak.

Ano novo, corpo velho! Arrasto-me. Um enfisema pulmonar cansa; insuficiência renal cansa; um beta bloqueador para o coração cansa; má circulação cansa; diabetes com glicémia acima de 200 cansa; um cocktail de medicamentos para a “cabeça” cansa; Os triglicerídeos nos 450 cansa. O meu corpo é um calhau da Serra de Arga. A insuficiência renal e a glicémia alta dão sede. Bebo como um danado. Sou um autotanque sem rodas.

Quem dera transplantar o cérebro noutra pessoa. Se me coubesse uma mulher, ainda ficava hermafrodita (ver Robert A. Heinlein, I will fear no evil I, 1970). Entretanto, estou com gripe. Entre mim e a gripe, existe uma atracção fatal. Não obstante as vacinas injectável e oral, consegue abraçar-me. Com gripe, arrasto-me a dobrar. A família entendeu mostrar-me, com humor, um espelho: o poema “Todos os homens são maricas quando estão com gripe”, do António Lobo Antunes, recitado pelo Pedro Lamares. Em boa hora!

António Lobo Antunes. Todos os homens são maricas quando estão com gripe”. Recitado por Pedro Lamares. Museu D. Diogo de Sousa, 2013.

“Somos pó, e ao pó voltaremos”. Então, não haverá desigualdades nem doenças. Apenas infortúnios da alma. Por enquanto, somos o que somos. Quem diria que uma canção contemporânea podia ser um belo momento mori?

Kansas. Dust in the wind. Point of known return. 1977. Ao vivo no Chile em 2006.

Beleza interior

Beleza interior. René Magritte, Décalcomanie, 1966, © Photothèque R. Magritte / Banque d’Images, Adagp, Paris, 2016

Alguém disse que era bonito por dentro. A beleza interior costuma “compensar” a falta de beleza exterior. A beleza interior não é acessível às endoscopias, colonoscopias e outras “viagens ao interior do corpo”. Não é palpável. Assim como a música não se vê mas ouve-se, a beleza interior não se vê mas verbaliza-se. Como bons católicos, todos temos um anjo da guarda, a graça e beleza interior. Este parágrafo pretende ser um longo mot d’esprit.
O humor, o riso e o mot d’esprit eram apreciados nas cortes dos séculos XVII e XVIII. Havia profissionais para o efeito: os bobos. E muitos amadores. Algumas pessoas ficaram célebres pela qualidade dos seus mots d’esprit. Além dos mots d’esprit, os nobres prezavam os banquetes, a arte efémera, a música, a dança e a água de rosas.
Luigi Boccherini foi compositor e violoncelista. Nasceu em Itália em 1743 mas veio para Espanha, para a corte de Carlos III, com cerca de 26 anos. Permanecerá em Espanha até à morte (1805). O seguinte episódio ilustra o nível de autonomia de um compositor no século XVIII. Carlos III mostra desagrado por uma passagem de uma composição. Molestado pela intrusão, Boccherini, em vez de eliminar, dobrou a passagem. Carlos III despediu-o.
Boccherini produziu uma obra considerável, designadamente quartetos e quintetos para cordas. A influência da música espanhola é óbvia. À semelhança de Antonio Vivaldi, acabou a vida na miséria e a sua obra foi menosprezada durante dois séculos, tendo sido “redescoberta” nos anos trinta. Vale a pena “assistir” a dois excertos, um fandango e um minueto, de música clássica para cordas, com acompanhamento de castanholas.

Luigi Boccherini. Fandango. The Carmina Quartet plays the fourth movement (“Fandango”) from Boccherini’s Guitar Quintet G. 448 in D Major. With Rolf Lislevand, guitar and Nina Corti, castanets”.
Luigi Boccherini. “Minuet from the String Quintet in E Major, Op 11 No 5, performed by the Camerata Eduard Toldrà. Barcelona, on the 28th of February 2016. Dance and Choreography by Belen Cabanes”.

Justino e os manequins

Em Espanha, a lotaria é um ritual natalício. É costume adquirir-se um bilhete no Natal ou nos Reis, ocasiões em que a sorte parece ser mais amiga. Este anúncio da Lotería de Navidad foi considerado um dos melhores do ano 2015. Um conto de Natal memorável em torno de um homem tranquilo que, apesar do isolamento, gosta de comunicar com objectos e com pessoas. Chama-se Justino, o guarda nocturno de uma fábrica de manequins.

Marca: Lotería de Navidad. Título: Justino. Agência: Leo Burnett Madrid. Direcção: Juan García-Escudero. Espanha, 2015.

“Justino es un guardia de seguridad que trabaja de noche en una fábrica de maniquíes. Todos los días suena su despertador a las 22.00 horas, coge el autobús y acude al trabajo en una fábrica de maniquíes. No ve a sus compañeros y trabaja en soledad. Pero Justino no está solo. Los maniquíes son los compañeros que le faltan y su medio de comunicación para interactuar con los trabajadores de día.
Llega la Navidad y Justino les va dejando mensajes a través de esos maniquíesque cobran vida de la mano de este peculiar vigilante. Y como en cualquier lugar de trabajo se cuelga la lista para participar en el Sorteo de Navidad. David, Delia, Lucas, Valentina… La mayoría juega, pero Justino no se da cuenta. Está más pendiente de dejar una sorpresa a Carmen por su cumpleaños o fabricar un gran árbol de Navidad construido con maniquíes.
El día de la Lotería, Justino se vuelve a despertar a las 22.00, vuelve al mismo autobús de todos los días, sube en el mismo ascensor de siempre, pero cuando se abre la puerta le espera uno de sus maniquíes con un décimo en la mano. Justino lo recoge, sonríe y se descorcha una botella. A Justino se le olvidó, pero a sus compañeros no, igual que él no se olvidaba de ellos”.
“Este ‘claim’ sigue siendo el mensaje principal de la campaña porque evoca y transmite la bondad, generosidad y la grandeza de los pequeños detalles”, ha afirmado Inmaculada García, presidenta de Loterías y Apuestas del Estado durante la presentación (El Mundo 01/12/2015: https://www.elmundo.es/sociedad/2015/11/16/5649b5ce46163f0c1f8b45cf.html).

Fino, compacto e absorvente

O anúncio vietnamita Mỏng manh mạnh mẽ, da Laurier LSSG, é uma paródia da saga 007. Uma paródia criativa. É verdade que todas as paródias são criativas, mas umas são mais criativas do que outras. Não temos um herói mas uma heroína, muita acção, uma caricatura das tecnologias digitais, um vilão e o inevitável gadget multifunções: um penso higiénico fino, compacto e absorvente.

Marca: Laurier Super Slimguard. Título: Slim but strong. Agência: Dinosaur. Vietname, Agosto 2018.

Doçura

“A natureza fez o comer para o viver, & a gula fez o comer muito para o viver pouco” (Padre António Vieira, Sermão da quarta Dominga depois da Páscoa, Sermoens do P. Antonio Vieira, 1692).

Dez segundos bastam para um anúncio ter história, humor e impacto. A campanha indiana da marca Pulse Candy acomoda três anúncios na duração de um anúncio normal. As doçuras Pulse Candy são uma tentação perigosa…
Estes pequenos anúncios da Pulse Candy lembram um anúncio indiano fantástico, Palace, às pastilhas elásticas Happydent. Pode aceder no seguinte artigo: https://tendimag.com/2014/08/27/dentes-brilhantes/.

Marca: Pulse Candy. Título: Astronaut. Agência: J Walter Thompson. Direcção: Shirish Daiya. Índia, Dezembro 2018.
Marca: Pulse Candy. Título: Swing. Agência: J Walter Thompson. Direcção: Shirish Daiya. Índia, Dezembro 2018.
Marca: Pulse Candy. Título: Bedroom. Agência: J Walter Thompson. Direcção: Shirish Daiya. Índia, Dezembro 2018.

A imaginação ao poder

01. Horae ad usum Parisiensem (Grandes Heures de Jean de Berry), c. 1400-1410.

Encontrar conteúdos italianos nem sempre é fácil. Quando se sabe o que procura, a Internet transforma-se, às vezes, numa mulher caprichosa. Conheço o anúncio Vineyard, da Sky. Não o encontrei no YouTube. Tropecei com ele numa página remota. Com a gravura (Figura 1) de uma mulher a brotar de uma flor, o resultado foi semelhante. Tenho a imagem nos labirintos do computador, dar com ela era tarefa ingrata. A busca na Internet foi precisa: encontrei três entradas, todas do Tendências do Imaginário.

02. Andrea Mantegna – Grotesque Self-Portrait, between 1465 and 1474.

O anúncio Vineyard, da Sky, é um prodígio. Os heróis do futebol nascem numa vinha algures em Itália. São vindimados, transportados, seleccionados, prensados e armazenados. Obviamente, com un bel pezzo di ragazza a acompanhar o processo. A ideia de que os futebolistas nascem de plantas (videiras) é espantosa mas não é original. Os livros de horas medievais e os grotescos renascentistas apresentam seres humanos que irrompem de ramos, flores e frutos (ver figuras 1 e 2).

Para aceder ao anúncio, carregar na imagem seguinte ou no link https://www.behance.net/gallery/17620551/SKY-Vineyard-(TVC)

Marca: Sky. Título: Vineyard. Agência: 1861 United (Milan). Direcção: Guy Manwaring. Itália, 2007.

Tortura e prazer

Rat Torture. Bruges Torture Museum.

Selecciono normalmente anúncios de que gosto. Mas nem sempre. A ideia do anúncio Police é original e surpreendente: a polícia espreme o prisioneiro a modos como o detergente El Kef lava a roupa. Esta ideia é bem explorada. Valorativamente, a polícia, ao contrário do prisioneiro, resulta humilhada e depreciada. É frequente a polícia ser ridicularizada nos media. Acontece também o prisioneiro ser enaltecido. Mas este tipo de cenas de inversão costuma fazer parte de um todo. O anúncio Police, ressalvando o final fugaz dedicado à marca, resume-se a uma caricatura burlesca da polícia contrabalançada por uma imagem de resistência do prisioneiro. Em termos de marketing, o brutesco funciona como (pet)isco.

Para aceder ao anúncio, carregar na imagem seguinte ou utilizar o seguinte link: http://www.culturepub.fr/videos/el-kef-police/.

Marca: El Kef. Título: Police. Agência: Shem’s Publicité. Direcção: El Zayat Mohamed. Marrocos, Dezembro 2018.

Há domínios em que o homem se esmera. Supera o próprio diabo. A tortura é um desses domínios. Atente-se, por exemplo, na tortura “medieval” com ratos.


Rat Torture. “In this slow-death method, a victim is restrained to the ground without a possibility of moving. A rat would then be placed on the victim’s stomach enclosed in an iron cage. The cage would then be heated, causing the rat to panic and to dig a hole through the victim’s stomach. The rat would take hours to find its way out, resulting in hours of torture to the victim” (http://worldpackingcanuck.com/bruges-torture-museum/).


Este tipo de tortura, que conjuga sofrimento físico e fobia aos ratos, ainda foi utilizado no século XX por vários regimes políticos, nomeadamente sul-americanos.
A série Game of Thrones inclui um episódio com a tortura do rato.

Escorropichar

O anúncio Lost in the black forest, da McCafé, lembra-me a palavra escorropichar. Trata-se de uma paródia dos filmes e das séries de terror, devidamente compassada pelo escorropichar dos copos. Bebe-se, até à última gota do café, a náusea, o medo e o susto. Há anos dei o nome de “emoções confortáveis” a uma instalação. Neste anúncio, as emoções mostram-se desconfortáveis. Confortáveis/desconfortáveis. A vida não se pinta a preto e branco. O desconfortável e o estranho podem revelar-se compensadores. Pela excitação da pasmaceira. O nosso mundo é acelerado, coalhado, tribal! Mesmo assim, desejamos mais excitação e mais emoção. O preto deste anúncio pode tornar-se cinzento e até mais branco que o branco. O disgusto pode ser uma delícia.


Marca: McCafé. Título: Lost in the black forest. Agência:TBWA. Direcção: Hungry Beards. França, Dezembro 2018.