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Camisola com faíscas

Fotografia: Álvaro Domingues.

O Álvaro Domingues é uma inspiração abençoada. A crónica “Paisagem eléctrica com rebanho” (Público, 09/03/2019) baralha qualquer algoritmo de ideias.

Um rebanho apascenta à sombra de painéis fotovoltaicos. Talvez a lã se destine a uma nova produção de camisolas Thermotebe, as únicas com “características turboeléctricas”, capazes de resistir ao arrefecimento global. O algodão já não engana. Respeitando determinadas proporções no fabrico, a lã destas ovelhas faz faíscas.

As camisolas Thermotebe deixaram de se produzir há cerca de 20 anos, tendo alcançado nos anos oitenta um sucesso internacional espantoso (https://observador.pt/2015/02/15/tem-frio-isso-e-porque-ja-nao-existe-thermotebe/). Com a ajuda dos painéis fotovoltaicos e a boa vontade das ovelhas, reúnem-se condições para voltar a investir na produção de camisolas Thermotebe, com o lema: “Thermotebe, a camisola amiga do ambiente”.

Thermotebe. Portugal.

Desigualdade nas imagens de género

Tantos pénis pintados e esculpidos e tão poucas vaginas!… Uma discriminação que remonta a tempos imemoriais. Na pré-história a representação do pénis concorre com as esculturas de Vénus (Fig 1 a 3). Até os monólitos pecam por excesso. No antigo Egipto, os jardineiros da religião viram-se gregos para podar os falos das estátuas de deuses e faraós (Fig 4 e 5). Por seu turno, no império romano, os tintinábulos pendurados à entrada das casas eram compostos por falos inconfundíveis, eventualmente, voadores (Fig 6, 7 e 8).

Que fazer? Multiplicar as imagens de vaginas? Eliminar as relativas ao pénis? Cortar e tapar o sexo das esculturas e das pinturas com uma folha de figueira? “Vestir” a nudez do Juízo Final original de Michelangelo na Capela Sistina (ver Vestir os Nus: https://tendimag.com/2012/11/13/vestir-os-nus/)? Ou, ao jeito medieval, enveredar pela castração (Fig 9 a 11)?

Marca: ONF (Office National du Film du Canada). Título : Dessine-moi un Pénis. Agência : Rethink (Canada). Canadá, Março 2019.

No anúncio Dessine-moi un pénis, a ONF, um organismo público canadiano de produção e distribuição de filmes, estima que semelhante discrepância de género provém da nossa ignorância acerca do clítoris. Nem sequer o sabemos desenhar.

12. A flying penis copulating with a flying vagina. Gouache Credit: Wellcome Library, London. Wellcome Images.

Na realidade, segundo as estatísticas, existem na população mais vaginas do que pénis. O problema reside, porventura, no imaginário. Mas deixemos as retóricas. O guache A flying penis copulating with a flying vagina (Fig 12), da Welcome Collection, sugere uma solução paritária: um pénis para uma vagina ou uma vagina para um pénis, sem prejuízo de outras localizações e sexualidades.

Margens (Ficção)

M.C. Escher. Encounter. 1944.

Das margens sólidas da fábrica da razão para as margens líquidas do Norte, de onde contemplo a Espanha, coisa digna de ser vista.

Na fábrica da razão certificada, no concelho onde resido, anda tudo com a fita métrica elástica na cabeça. Nada escapa à quantificação. Algum resto inverosímil que resista tem o selo do sétimo dia da criação. O “sonho da razão” Goya “persegue a medida de tudo e a relevância de nada” (Pitirim Sorokin). Assim como existe o “reino da Taquicardia” (filme de Paul Grimault: https://tendimag.com/2011/09/04/o-reino-de-taquicardia-animacao-musica-e-palavra/), também existe o reino da Quantofrenia. Se na fábrica da razão a medida é compulsiva, nas margens salgadas da minha residência balnear, “estigmatizam” mais do que me calculam. Somos semáforos de identidade. Olha-se para a barriga e não se vê mais nada. O cerne, segundo Goffman, do estigma: a parte polui o todo. Não sei que escolher: ser medido ou estigmatizado. Ontem, fui ao restaurante. Fiz o pedido. O empregado inspecciona, focaliza a barriga e pergunta: quantas doses? Acho que vou regressar antes do Carnaval às margens da fábrica da razão: medem-me a barriga como caso particular do geral. A avaliação é como a “donna” do Rigoletto de Pucinni: incerta e volúvel, mas abstracta e global, graças aos indicadores, aos índices e às ponderações. Nunca conhecerei ao certo o volume da barriga. Aguardo, os cartógrafos de Jorge Luís Borges:

“Naquele Império, a Arte da Cartografia logrou tal perfeição que o mapa de uma única Província ocupava toda uma Cidade, e o mapa do império, toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas Desmedidos não satisfizeram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império, que tinha o tamanho do Império e coincidia pontualmente com ele” (Jorge Luís Borges, “Sobre o Rigor na Ciência”, in História Universal da Infâmia, Assírio e Alvim,1982, 117).

Hoje fui ao concelho do meu berço, as minhas margens de água doce. Fui a uma residência sénior. No salão, uma mulher de 89 anos exclama: “Olhó Tino! Há quanto tempo!” E dá-me um abraço. A barriga não estorvou. Nestas margens de água doce, não sou nem uma equação nem uma aparência. Tenho um nome, uma história e afectos. Sem precisão de números. Como diria Alfred Schutz, sou um ser “apostrofado”, uma pessoa única, avessa a generalizações.

Das margens da água salgada e da água doce, avista-se a Espanha. Também se pode ouvir pela mão de um pianista norte-americano: Chick Corea, com Bobby McFerrin

Spain. Chick Corea com Bobby McFerrin. Original: Return to Forever. Light as a Feather. 1972.

A caminho do céu

Apple. Flight. 2019

“Sim, se alguém procura o infinito, basta fechar os olhos!” (Milan Kundera, A insustentável leveza do ser, 1983).

A liquidez, a fragmentação e a hibridez caracterizam, pelos vistos, o homem contemporâneo. E a leveza? O Tendências do Imaginário dedica-lhe acima de uma trintena de artigos (ver A Civilização da Leveza: https://tendimag.com/2015/05/02/a-civilizacao-da-leveza/). O anúncio Flight, bem concebido e bem realizado, tem a marca Apple. A dança da campeã mundial de Indoor Skydiving, Inka Tiitto, lembra as levitações turbulentas das figuras negras de Goya (Leveza e turbulência na pintura de Goya: https://tendimag.com/2017/07/25/leveza-e-turbulencia-na-pintura-de-goya-2/). Uma passagem pelo céu, com ascensão, pico e queda, de um anjo sem asas, mas com relógio. Recordo, sobretudo, o anúncio Marry Me, da Siemens (2006). Apesar da qualidade do vídeo, não resisto a republicá-lo. As associações de ideias têm os seus mistérios.

Marca: Apple. Título: Flight. Direcção: Jonathan Glazer. Estados Unidos, Fevereiro 2019.
Marca: Siemens. Título: Marry me. 2006.

O bacalhau quer alho

Kondomeriet. Foodporn. 2019

Para além de estética da alimentação, pode falar-se em erótica da alimentação. Ver por exemplo os artigos Pornografia Alimentar (https://tendimag.com/2014/09/10/pornografia-alimentar/) e A Culinária do Orgasmo (https://tendimag.com/2014/04/04/a-culinaria-do-orgasmo/). Nestes anúncios, o sexo é convocado para valorizar alimentos e bebidas. São rotulados como anúncios de foodporn. O anúncio da empresa norueguesa Kondomeriet apresenta-se, não obstante o nome Foodporn, como um caso distinto. Não é o erótico que valoriza a alimentação, mas a alimentação que valoriza o erótico, um estabelecimento de venda de “bens sexuais”. O resultado é uma apoteose de alimentos erotizados.
Muito se tem escrito sobre a relação entre alimentação e sexo, mas existe uma figura nacional que é uma autoridade na matéria: Quim Barreiros, “mestre de culinária”. Junto a canção “Bacalhau à Portuguesa”.

Marca: Kondomeriet. Título: Foodporn. Agência: Pol (Oslo). Direcção: Henrik J. Henriksen. Noruega, Janeiro 2019.
Quim Barreiros. Bacalhau à Portuguesa. 1991. Ao vivo.

Fantasia

Bruges. Bélgica. Fotografia de Joel Morais.

Don Quixote de la Mancha, depois da refrega com os gigantes transformados em moinhos de vento, virou-lhes as costas e entregou-se à leitura de um romance de cavalaria. Mas o Moinho da fotografia é de Bruges e não das bandas de Teboso. Aquele ponto negro não é o Don Quixote, mas o meu rapaz mais novo a comunicar com as estrelas. Adora fantasia, que lê e escreve com afinco. Dedico-lhe este artigo.

Marca: Bud Light. Título: Game of Thrones. Joust. Agência: Wieden+Kennedy. Estados Unidos, Fevereiro 2019.

A cerveja Bud Light apostou no Super Bowl. Estes dois anúncios passaram na fase final do campeonato de futebol americano. Assinados pela agência Wieden+Kennedy, são excelentes. Ressalte-se que um único anúncio, o primeiro, promove duas marcas: a Bud Light e o Game of Thrones. Tudo indica que é um expediente que vai vingar.

Marca: Bud Light. Título: Special Delivery. Agência: Wieden+Kennedy. Estados Unidos, Fevereiro 2019.

Cavaleiros, torneios, castelos e dragões são tópicos, eventualmente com ancoragem medieval, repletos de encantos. Não é de estranhar a opção pela música Arthur, de Rick Wakeman. Costuma associar-se o barroco e o faustoso. No caso de Rick Wakeman, o faustoso torna-se, algumas vezes, fastidioso.

Rick Wakeman. Arthur. The Myths and Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table. 1975.

Homo carnivorus

No artigo precedente, abordámos a situação do homo sapiens fumus. Num registo sério que não me assenta. Resultado: “a argumentação não é má, mas não convence”. Hoje é a vez do homo carnivorus, outra espécie em projeto de extinção. Os sábios do terceiro milénio entendem corrigir o atrevimento que, há cerca de 2,6 milhões de anos, tiveram os nossos antepassados: comer carne. Uma inovação complicada. Não havia talhos e os animais não se deixavam caçar. Por vezes, convinha fugir deles.

Desventuras do homo carnivorus, que a série de anúncios da Nissin, empresa japonesa fabricante de massas alimentícias, recorda.

Marca: Nissin. Título: A avestruz. Agência: Hakuhodo. Direcção: Shinya Nakajima. Japão, 1995.
Marca: Nissin. Título: O rinoceronte e os parasitas. Agência: Hakuhodo. Direcção: Shinya Nakajima / Onuki. Japão, 1994.
Marca: Nissin. Título: Puma adormecido. Agência: Hakuhodo. Direcção: Shinya Nakajima. Japão, 1996.
Marca: Nissin. Título: Mamute. Agência: Hakuhodo. Direcção: Shinya Nakajima. Japão, 1995.
Marca: Nissin. Título: As maçãs e o puma. Agência: Hakuhodo. Direcção: Shinya Nakajima. Japão, 1996.

Made in Japan

Ajinomoto Stadium. Japão.

Pelos vistos, no Japão os homens gostam de mulheres. E não as deixam em paz. Não sei se, por cá, não configuraria assédio punível por lei. Mas não gostam de mulheres com voz de homem, com sinais exteriores de masculinidade. A voz da mulher quer-se feminina. Tudo por causa do desporto: as pessoas ficam roucas de tanto gritar no Ajinomotu Stadium. Mas o anúncio Husky girls data de 2005. Já lá vão 14 anos! Em suma, no anúncio os homens gostam de mulheres que parecem mulheres. As relações de género parecem confusas. A publicidade também: fique rouco, venha ao Ajinomotu Stadium!

Marca: Ajinomotu Stadium. Título: Husky girls. Agência: Dentsu (Tokyo). Direcção: Jun Kawanishi. Japão, 2005.
Deep Purple. Woman from Tokio. Who do you think we are. 1973.

O máximo no mínimo

Apple. The Bucket. 2019,

Muitos anúncios do Extremo Oriente são longos, acima de cinco minutos, lentos, de escassa acção, e moralmente elevados, debruçam-se sobre valores essenciais da vida. A história, os actores e a moral bem podiam limitar-se a menos tempo e a menos imagens. Mas não seria a mesma coisa. Não há maneira alternativa de sentir “o sabor da casa e o sabor da terra”. Sem pressa. Há culturas que colocam o mínimo no máximo. O antropólogo Marshall Sahlins estuda esta sabedoria em vários povos e culturas (Stone Age Economics, Chicago, 1972). A sabedoria dos ocidentais é diferente. Consiste em colocar o máximo no mínimo. Somos os apóstolos da compressão e do exorcismo do vazio. Até a morte, que, segundo Epicuro, não é nada para nós, recheamos de rituais e fantasmas.

A morte não é nada para nós (Epicuro)
“Acostuma-te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade.
Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver. É tolo portanto quem diz ter medo da morte, não porque a chegada desta lhe trará sofrimento mas porque o aflige a própria espera: aquilo que não nos perturba quando presente não deveria afligir-nos enquanto está sendo esperado.

Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente: ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida.

O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não viver não é um mal”  (Epicuro, Carta sobre a felicidade – a Meneceu, São Paulo, Editora UNESP, 2002, pp. 27-31).

Marca: Apple. Título: The Bucket. Agência: TBWA. Direcção: Jia Zhangke. China, Janeiro 2019.

Comida pornográfica. Anúncio censurado

Devour. Food Porn. 2019

As línguas evoluem graças a dinâmicas internas, externas e entrelaçadas. O surgimento de uma nova palavra ou de uma nova sintaxe é natural. Mas há casos estranhos. Por exemplo, o termo “adição” para designar a dependência à droga, ao álcool, ao jogo, ao sexo, à Internet… Na língua inglesa, “addiction” significa “an inability to stop doing or using something, especially something harmful: drug addiction” (Cambridge Dictionary). Na língua portuguesa, adição é sinónimo de soma. “Addiction”, em inglês, e adição, em português, não possuem, como diria Ferdinand Saussure, o mesmo valor. O inglês contempla o adjectivo addicted: “unable to stop taking drugs, or doing something as a habit”. E o português? Adicionado? Adido? Aditado? Talvez, adicto. As línguas evoluem para cima, para baixo, por dentro e por fora. O português e, pelos vistos, o francês evoluem muito de fora para dentro, por enxertos e injecções importados via marítima. No anúncio Porn Food, da Devour, as legendas em francês convocam, inicialmente, o termo tradicional accro (preso); acaba, todavia, com a palavra addiction (dependência). Não é um problema português, nem francês, mas uma atitude própria de “lorpalândias”. Habilidades de jornalistas? De professores? De cientistas? De artistas? De políticos? De tradutores? Há quem sinta dificuldades em se exprimir em português. Não desfazendo, uns barbarian addicts. Cá com os meus tamanquinhos, só quando me faltarem as palavras é que vou pescar estrangeirismos. À “adição” e ao “adicto”, prefiro dependência, dependente, vício, viciado, vicioso e viciar.

Porn Food é um anúncio cuidado. Não é por menos, paga uma fortuna para passar nos intervalos do Super Bowl. Trata-se de uma paródia dos estereótipos sobre as dependências recorrendo ao próprio produto. Uma ironia arriscada. Por sinal, durante o Super Bowl passa, não esta versão longa, mas, segundo a Adweek, uma versão de 30 segundos sem a palavra Porn; ou, segundo notícia mais recente do Observador, nem sequer essa miniatura. Liminarmente censurado! Assim anda o mundo: aqui, adita-se, lá, subtrai-se.

“Devour created two versions of its Super Bowl spot, a longer spot that uses the word “porn” and a shorter version that doesn’t, since the word “porn” isn’t supposed to be uttered during a Big Game spot. The Kraft-Heinz brand released the longer version of the ad earlier this month. Today, the company has unveiled the shorter 30-second spot that will run during the third quarter of the Super Bowl” (Adweek, 31.01.2019: https://www.adweek.com/brand-marketing/heres-the-30-second-censored-version-of-devours-food-porn-super-bowl-spot/).
“Vieram a público dois anúncios criados para o Super Bowl banidos pela CBS. Um fala do uso medicinal da canábis, outro de “food porn”. Nunca vão ver a luz do dia no Big Game (…)A tradição de eliminar anúncios de cariz sexual também se manteve na edição número 53 do Big Game. No passado, já aconteceu com as publicidades criadas por páginas como o site pornográfico PornHub, o site de encontros online Man Crunch ou com a Bud Light, uma versão mais leve das famosas cervejas Budweiser. Este ano não foi excepção e a CBS baniu uma publicidade chamada “Food Porn” criada pela Devour, uma marca de comida congelada (Observador, 02.02.2019: https://observador.pt/2019/02/02/canabis-e-food-porn-os-dois-anuncios-banidos-do-super-bowl-deste-ano/).

Marca: Devour. Título: Food Porn. Agência: David Miami. Estados Unidos. Janeiro 2019.