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A carne e a escada para o céu.

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Francis Bacon. Study for a Crucifixion. Pormenor. 1962.

Os australianos estão do outro lado do mundo. Às avessas. Com um sentido de humor muito próprio: enérgico, retorcido e desinibido. O inesperado e o incongruente persistem como principal fonte de humor. Quero envelhecer assim: ao saltos com uma guitarra nas mãos.

Há quem acredite, sobretudo as “classes laboriosas”, que a carne vermelha é o mais nutritivo e o mais revigorante dos alimentos (Bourdieu, Pierre, La Distinction, 1979). Da crença ao hino, apenas um passo. Red Meat merece o Stairway to Heaven, dos Led Zeppelin (tenho em casa um guitarrista que gosta de tocar esta música).

Marca: Red Meat – Australian Meat & Livestock. Título: Stairway to Heaven. Agência: Campaign Palace. Direcção: Graeme Burfoot. Austrália, 2002.

Led Zeppelin. Stairway to Heaven. Live Earls Court. 1975.

Com um burro às costas. Música com humor.

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Francisco Goya. Tu que no puedes. Los caprichos 42. 1799.

Estive sete dias sem Internet. O apoio técnico por parte da operadora, a única entidade que o pode prestar, só chegou hoje. Uma simples troca de modem. Podia ter recorrido a outros acessos à Internet, mas estas conversas são pessoais e têm um nicho, a minha casa. Sou fetichista.

Há quem acredite que a técnica nos conduzirá à eternidade. Quanto a mim, a técnica, parente da obsolescência, é aceleradora da morte. Atropelam-se os funerais de técnicas de ponta, computadores incluídos. Deus não fez, neste mundo, obra perfeita. O que fez desfaz-se. Não faltam porém divindades de barro em busca da perfeição. São os piores inimigos da humanidade.

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Pássaro alimenta uma cria proveniente do ovo de um cuco.

Neste País de mil leis, uma operadora não tem prazo para acudir a uma participação de avaria! E nem sequer é possível denunciar o contrato. Por causa da fidelização. Quando o poder político e o poder económico se sentam no mesmo banco, o melhor é o consumidor não se pôr a jeito. Para a próxima, pense duas vezes antes de avariar, não vá carregar dois burros às costas.

Esta abstinência digital lembrou-me quatro músicas dedicadas a animais. Na primeira, os burros zurram; na segunda, as galinhas esgaravatam; na terceira, os cucos parasitam; e na quarta, os zangões zumbem.

La Fête de l’Ane. Excerto. Música medieval. Clemencic Consort.

Jean-Philippe Rameau. La Poule. 1728. Sir Neville Merrimer.

Louis-Claude Daquin. Le Coucou. 1735. Trevor Pinnok.

Nikolai Rimsky-Korsakov. Flight of the Bumblebee. 1899-1900. David Garrett.

Uma gota de água

bavariaUma gota de água é um das expressões mais belas das línguas latinas. E é versátil. Como uma gota de água no oceano, um infinitamente nada. A gota de água que faz transbordar o copo, um ocasionalmente tudo. Vem este devaneio a propósito do anúncio The Drop, da Bavaria (2009). Original, turbulento, airoso e jovial, com estética e humor a preceito. Um ramalhete de qualidades raramente próximas. Com uma gota de cerveja…

Marca: Bavaria. Título: The Drop. Agência: Selmore. Direcção: Matthijs Van Heijningen. Holanda, 2009.

Um ano novo cheio de ideias próprias!

 

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Ano novo, cabeça nova. A gata não se engana: é tempo de cuidar das ideias. Coitada da gata! Alvo de violência simbólica! Estou a pensar enveredar pela carreira de artista. Já são 35 anos de carreira académica. Vou fazer instalações. Esta, com uma gata sábia com um rolo de papel higiénico na cabeça, chama-se: Upside down 3. Para compensar, dedico uma música à minha gata. Chama-se Dueto Para Gatos, atribuído a Rossini, mas que, de facto, resulta de uma compilação de excertos das suas óperas.

Perfeição

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Perfeito é aquilo que nunca precisará de ser refeito (André Gide. Oeuvres complètes. 1933).

Duvidava da perfeição até encontrar este anúncio. Perfeito é algo que se perfez. Perfazer significa “conduzir qualquer coisa até ao seu completo desenvolvimento” ou “completar uma soma até que não falte nada”. Pois este anúncio perfez-se: tem tudo e não lhe falta nada.

Kate e Peter estão talhados um para o outro, mas não se conhecem. O cão dela chama-se Robin; o cão dele, Hood. Os sapatos prediletos de Kate foram desenhados pelo bisavô de Peter. O verso tatuado no braço de Kate pertence à canção preferida de Peter. Ela está a ler “Growing fruits”, ele, “Preserving fruits”. Quando ela veste azul, ele azul veste… O próprio ambiente coincide. Os cães condizem com os donos, ou vice-versa. Os quadros encaixam uns nos outros e a realidade encaixa-se nos quadros. E as cores? Não cansam de se casar umas com as outras. Mas Peter e Kate, apesar de tão próximos, permanecem alheios um ao outro. Até que o milagre do amor acontece. Uma alcoviteira? Uma flecha de Cupido? Uma agência de encontros? O mensageiro foi um brinco da Tous. Kate e Peter viram-se e, como previsto, apaixonaram-se. O todo ficou composto. Não são daqueles casais que começam perfeitos e acabam desfeitos. A perfeição existe, vi-a com os meus olhos. É um anúncio publicitário, onde tudo se harmoniza sem vestígio de falha. Esta história, mais do que terna, é geométrica. Com a actriz Gwyneth Paltrow, vencedora de um Óscar em 1998.

Marca: Tous. Título: Tender Stories Nº5. Agência: SCPF Madrid. Direcção: Victor Carrey. Espanha, Novembro 2016.

Animais animados

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Mordillo.

Gosto da obra do realizador brasileiro Sérgio Amon. Uma obra imensa. Nos seus anúncios costumam aparecer animações com animais: tartaruga, avestruz, formiga… Animais adoráveis em situações surpreendentes. O humor faz bem, aquece!

Marca: Brahma Beer. Título : Avestruz. Agência : F/Nazca S&S. Direcção: Amon. Brasil, 2003.

Marca: Philco do Brasil. Título: Formigas I. Agência : F/Nazca S&S. Direcção: Amon. Brasil, 1995.

Quinologia

Quino é um dos meus mestres. Se alguém perguntar se quero ler um livro disto ou daquilo, a resposta é imediata: um livro de Quino. Pena tê-los relido todos. Seguem quatro desenhos de Quinologia pura. Hoje, o meu rapaz mais novo está doente. Quero vê-lo sorrir.

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1. Em busca da identidade perdida. Quino. Cada um no seu lugar.

 

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2. Cooperação. Quino. Cada um no seu lugar.

 

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3. Auto-realização. Quino. Cada um no seu lugar.

 

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4. Esperança de vida. Quino. Cada um no seu lugar.

 

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5. Impacto social. Quino. Cada um no seu lugar.

Selfesses: auto-retratos traseiros

culotte-madeinfrance-art-sarahvieilleEm tempo de obsessão pelo corpo e pela expressão corporal, não há recanto carnal que não seja digno de cuidado e exibição. O corpo fala, por todos os poros. Nem as partes mais íntimas se esquivam ao olhar público. Qualquer órgão ou pedaço de pele justifica filmagem, fotografia e divulgação. Trata-se de uma sobre identidade carnal contagiosa. Neste quadro, o rabo, outrora recatado, ascende às luzes da ribalta. La Bobette, marca francesa de culottes (calcinhas) deu um passo em frente: abriu, com sentido de oportunidade empreendedora, um concurso de auto-retratos do rabo em Instagram. As selfies abrem a porta às selfesses. A nossa outra reflexividade. O rabo merece! Mas desencante-se quem pensa que vivemos no limiar dos tempos. A estética do rabo tem milénios. Contemporânea é, oscilando entre a farsa e a tragédia, a febre dos concursos, tantas vezes simulacros de democracia, burocracia e peritagem.

Marca: La Bobette. Título: Selfesse. Direcção: Marion Dupas. Produção: Frenzy Picture. França, Novembro 2016.

Espírito de Natal

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Poor vs. Rich. funny-pictures-blog.com.

Existem realidades separadas que lucram em aparecer juntas. Nenhuma perde sentido e ambas o potenciam. Acontece com os anúncios da Cruz Vermelha da Bélgica e da Cultura, da França. Juntos, confirmam o contraste entre a sociedade da escassez e a sociedade da abundância. No primeiro, Le Dilemme, a família tem que optar entre celebrar o aniversário ou pagar a conta da electricidade. No segundo,  kdorigami, a embalagem sobrepõe-se ao conteúdo da prenda. “Avec Cultura, le papier cadeau est déjà un cadeau”. Em suma, duas figuras distantes: o oprimido e o blasé, a “cultura do pobre” (Oscar Lewis) e a “classe ociosa” (Thornstein Veblen).

Anunciante: Croix Rouge de Belgique. Título: Dilemme. Agência: Publicis Brussels. Direcção: David Greenwood. Bélgica, Novembro 2016.

Marca: Cultura. Título: Kdorigami. França, Novembro 2016.

Os gatos e os automóveis

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O que há de comum entre um gato e um automóvel? Ambos dão voltas. Segundo o anúncio russo Cats, o Smart fourfour dá voltas mais apertadas. É recordista na classe. Se o anúncio ao Smart pendura objectos nas caudas dos gatos, a Kotex cola-lhes fitas adesivas em diversas partes do corpo. O resultado é estranho (ver https://tendimag.com/2016/10/14/o-periodo/). Pobres gatos! E o pior ainda está para vir. No anúncio Funny Cat, o gato fica perdido de amores por um Toyota Corolla. Para andar no automóvel, repete acidente após acidente. Assim, desfruta do carro a caminho da clínica veterinária. As desventuras do gato fisgado provoca um misto de humor e compaixão. Que os gatos têm sete vidas atesta-o a parte final do anúncio: a pata do gato irrompe da sepultura.

Marca: Smart. Título : Cats. Agência : Decembrist. Direcção : Ivan Egorov. Rússia, Novembro 2016.

Marca: Toyota Corolla. Título: Cat. Agência: Saatchi & Saatchi New Zealand. Direcção: Hamish Rothwell. Nova Zelândia, Outubro 2012.