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O aguilhão da inteligência

AbelhaConcentração! Muita concentração… O teste é manhoso. Na sala, nem um murmúrio. Apenas o zumbido de uma abelha, que pousa no ombro. Veio para ficar. Longos minutos, pele contra patas, braços contra asas. Estaremos perante uma nova técnica de alavancagem de testes? Algo como um aguilhão à inteligência? Vinte garantido. Esta experiência, recente e verídica, lembra o anúncio, antigo, da companhia de seguros Centraal Beheer, protagonizado por um funâmbulo e uma abelha.

Marca: Central Beheer. Título: Wasp. Agência: Result/DDB. Direcção: Paul Vos. Holanda, 1999.

We are all monsters!

Beinecke MS 287. Hours, Use of Rome. End of the 15th century (Flanders).

Beinecke MS 287. Hours, Use of Rome. End of the 15th century (Flanders).

Os monstros sofrem. Não conseguem relaxar. Os media, a alcofa da inteligência contemporânea, estão atulhados de falhas. Quando chove é uma lástima. Nem o balouço soporífero do comboio consola a Múmia, a Morte, o Lobisomem e o Cientista Maluco, figuras emblemáticas do cinema dos anos vinte e trinta do século passado. Somos monstros num dia de chuva. Híbridos, variáveis, ocos por dentro e vazios por fora, mas absorventes. Anúncio original com caracterização apurada e  humor hilariante.

Marca: Spectrum. Título: Monsters: Train. Agência: O Positive. Direcção: David Shane. USA, Abril 2017.

Post scriptum:

A frase “todos somos monstros” provocou alguma estranheza. Não é denotativa: nem tudo é literal no mundo da escrita. É verdade que peca por se embrulhar fluxo grotesco do texto. Mas é um pecado menor. Somos nós quem cria os monstros. São ficções, ou fantasmas, do nosso imaginário. Quando reais costumam ser humanos. Se não criamos os monstros à nossa imagem, enxertamos-lhes características que nos são próprias. Por exemplo, a hibridez e a volubilidade (ver Zygmunt Bauman e, cinquenta anos antes, Mikhail Bakhtin); o vazio e a sofreguidão, consubstanciados na tendência para a absorção omnívora. Acresce que os monstros do anúncio, extravagâncias imaginadas, se comportam como humanos. Para desanuviar as sombras,  os monstros deixaram, entretanto, de se cingir ao susto e à exorbitância para se tornar adoráveis, no cinema, nos videojogos, na publicidade… São muitos os exemplos, assinalo apenas três: o E.T., o Yoda e o Shrek.  A comunicação humana raramente é literal ou linear. Costuma ser polissémica, polifónica e orquestral. As frases mais marcantes da humanidade não são nem lineares, nem literais. Tão pouco são incongruentes ou caóticas. Há quem aspire a outras performances: “Fazer coisas com palavras”, diria J. L. Austin (1962). A frase “o inferno são os outros”, de Jean-Paul Sartre, não é literal, nem é abstrusa; destaca-se, porém, na história das ideias do século XX. “O inferno são os outros” é parecido com “nós somos monstros”, muda apenas o sujeito e a conjugação verbal.

 

Máquinas desejantes

Convém ouvir baixinho, que a cruz ainda não recolheu.

Mordillo. Virgílio

Mordillo. “Cada um é arrastado pelo seu próprio desejo” (Virgílio).

José Gonzalez. Heartbeats. Veneer. 2003.

Sexualidades alternativas

True easter bunny

Associados à  lua, as lebres e os coelhos ligam-se à velha divindade Terra-Mãe, ao simbolismo das águas fecundas e regeneradoras, da vegetação, da renovação perpétua da vida sob todas as suas formas (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire des Symboles).

Uma relação heterobestial entre um coelho e uma galinha resulta num coegalinho hermafrodita, que põe ovos pascais sem pecado, para escárnio dos pacóvios e deleite dos citadinos. Como são bons os coelhos e os ovos de chocolate! São símbolos de fecundidade que se derretem na boca. Dizem que faz mal! Nada como se deixar tentar. Tudo, menos augar. O anúncio True easter bunny convida-nos, de uma forma criativa e agradável, à descoberta da origem do coelho da Páscoa.

Marca: Netto Marken-Discount.Título: True easter bunny. Agência: Jung von Matt. Alemanha, Março 2017.

O voo do avestruz

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“Não se teria jamais atingido o possível, se não se houvesse tentado o impossível” (Max Weber, 2004, Ciência e Política: Duas Vocações, São Paulo, Editora Cultrix, p. 123).

Costuma dizer-se “enfiar a cabeça num buraco como um avestruz”. Mas o avestruz não enfia a cabeça em nenhum buraco; em caso de ameaça, coloca a cabeça junto ao solo com o pescoço esticado para se camuflar, à distância, como um arbusto ou uma pequena rocha. Quem enfia a cabeça na areia somos nós, os seres humanos. Tanto que as nossas cabeças ficam a chocalhar. O avestruz voa? Graças à realidade virtual e ao sonho. A ilusão e o sonho tornados vontade e a vontade, técnica e magia. Mais ou menos como voam os seres humanos. Mas há muito quem nem sequer descole.

O voo constitui um dos tópicos preferidos do Tendências do Imaginário. O anúncio da Samsung, Ostrich, é brilhante. A ideia é original e inesperada. A técnica soberba. A história bem contada, a sequência com a sombra no solo do avestruz voador perseguida pelos outros avestruzes é espantosa. O slogan é intemporal: Do what you can’t.

Marca: Samsung. Título: Ostrich. Agência: Leo Burnett Chicago. Direcção: Matthijis Van Heijningen. USA, Março 2017.

 

Rare Bird. Flight. As your mind Flies By. 1970.

Um lugar para dois

Du telecom

Parodiar o cinema é uma doença infantil da publicidade. A Du Telecom, dos Emirados Árabes Unidos, fez uma dúzia de anúncios, muito premiados, a ridicularizar diversos géneros de filmes. Escolho três: Too Silly; Too Scary; Too Boring. Acrescento o recente The man sitted next to you, que parodia o público. Em suma, convém ir ao cinema acompanhado. Dedico estes anúncios ao meu especialista de cinema: Nelson Zagalo.

Marca: Du Telecom. Título : Too Silly. Agência: Leo Burnet Dubai. Direcção: Ali Ali. Emirados Árabes Unidos, 2015.

Marca: Du Telecom. Título : Too Boring. Agência: Leo Burnet Dubai. Direcção: Ali Ali. Emirados Árabes Unidos, 2014.

Marca: Du Telecom. Título : Too Scary. Agência: Leo Burnet Dubai. Direcção: Ali Ali. Emirados Árabes Unidos, 2014.

Marca: Du Telecom. Título : The man sitted next to you. Agência: Leo Burnet Dubai. Direcção: Ali Ali. Emirados Árabes Unidos, Fevereiro 2017.

Humor mórbido

O século XXI também ri da morte. Ri dos mortos e dos vivos; ri dos mortos vivos e dos vivos mortos. Um humor dispensado, por vezes, pelos cangalheiros de Estado. É assombrosa a quantidade de anúncios anti tabaco a gravitar na Internet, quase todos caveira, fumo e cinzas. A vanitas dos guardiões do templo. Com a caveira ora a rir, ora a penar.

Carregar nas imagens para aceder aos vídeos dos anúncios.

Antitabaco Snowboard

Anunciante: Anti Tabac. Título: Snowboard. Agência: FCB New York. USA, 2017.

Antitabaco Birthday

Anunciante: Anti Tabac. Título: Birthday. Agência: FCB New York. Direcção: Peter Sluzlka. USA, 2017.

Cinzas

Anunciante: Anti Tabac. Título: Pool. Agência: FCB New York. USA, 2017.

O homem desfolhado

Fiat Love affair

Nos últimos tempos, a publicidade mostra-se ginecêntrica. Um efeito do Dia Internacional da Mulher?  Alguns anúncios são, no mínimo, ambíguos. Embora focados no gineceu, podem revelar-se androcentrados. Sabe-se que um anúncio de mulheres pode ser construído pelo e para o olhar dos homens (Goffman, Erving,  Gender Advertisements, 1976). Por seu turno, a promoção das mulheres pode subordinar-se a uma pauta de valores associados aos homens. O caminho para a vitória pode passar pela adopção dos modos e das metas típicos  do adversário. “Bater o outro no seu próprio terreno” (ver Goffman, Erving, Stigma, 1963).

O anúncio Love Affair, da Fiat, caracteriza-se por um humor complexo. Baralha as cartas das relações de género. Quem é predador? Ele, que se aproxima, ou ela, que controla? Quem é objecto? Ele que se despe ou ela que o incita a despir? O feitiço virou-se contra o feiticeiro, no caso dele ou no caso dela? Para “domesticar” o “macho”, a mulher precisou fazer-se homem? O anúncio não parece androcêntrico, e conservador? Predominam atitudes e valores patriarcais tais como o galanteio, o cavalheirismo, a protecção, a delicadeza, a elegância… Mas resultam caricaturados. Rimo-nos deles, e rindo, desarmámo-los.

Marca: Fiat. Título: Love Affair. Agência: Doner. USA, Março 2017.

O post da meia noite

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Meia noite, na parvónia voam em vassouras as teclas de mau agoiro. No ecrã, surge, repescado e apressado, um mini-post.

A citröen é uma referência na publicidade. O povo francês tem sentido de humor, excelentes mimos (e.g. Marcel Marceau), cineastas (e.g. Jacques Tati) e actores (e.g. Fernandel). Este anúncio não renega a tradição.

Marca: Citroen. Título: Bip bip. Agência: H. Direcção: Thorsten Herken. França, 2011.

 

O carro do morto

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Les Très Riches Heures du Duc de Berry, pelos Irmãos Limbourg, activos em França entre 1399 e 1416.

Que mais desejar no momento da partida? Uma boa cerimónia fúnebre, cântico, a presença dos próximos e uma viúva inconsolável, não com despedida do falecido mas com a perda do automóvel. Como última vontade, o falecido conduzirá no além. Um memorável momento de humor macabro.

Com o devido recolhimento, acrescento a canção In the death car (Arizona Dream, 1993), de Goran Bregovic. “In the death car we are alive”.

Marca: Infiniti. Título: Eulogy. Agência: TBWA. Direcção: Joe Pytca. USA, 1997.

Goran Bregovic. In the death car, Arizona Dream, 1993. Ao vivo em Poznan, 1997.