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Ganância

Centrepoint

A publicidade tira-me do sério. Soltar as rédeas à ganância, onde é que tal se viu? Ganância, muita ganância, se faz favor, que as nossas tendas estão à espera. Creio que até Hieronymus Bosch assinava esta procissão de pecados. Quem resiste à cobiça e à gula? Nem as crianças, senhor.

Marca: Centrepoint. Título : Unleash Greed. Agência : BBDO Dubai. Dezembro 2017.

Rejuvenescimento

Coca-cola-zero-2018O anúncio First Taste estreia amanhã, 15 de Janeiro. Como quase todos os anúncios da Coca-Cola, está bem feito e propõe um conceito claro: a libertação graças à magia da bebida. O anúncio é uma retoma de um anúncio homónimo de 2006. A narrativa é a mesma. Mr Hadley, institucionalizado num hospício, prova, pela primeira vez, Coca-Cola. O efeito supera os espinafres do Popeye ou a poção mágica do Astérix. No anúncio de 2006, declara-se à mulher amada, assume a paternidade, pratica nudismo, faz uma tatuagem, dá um beijo à Mona Lisa, mergulha, anda de mota, partilha a cama com gémeas, participa numa corrida de touros e destaca-se na multidão. O anúncio de 2018 acrescenta um cortejo carnavalesco; o contacto com um homossexual e o delírio de um concerto de música. Tudo condiz, até a canção Break Free, dos Queen.

Marca: Coca-Cola. Título: First Taste. Agência: Mccann EMEA. Direcção: Albert Uria. Reino Unido, Janeiro 2018.

O tema do rejuvenescimento é fruto da época, de mão dada com o foco na juventude (ver As idades da vida: https://tendimag.com/2016/12/23/as-idades-da-vida/). Subsistem, porém, anúncios excelentes que encaram a velhice como uma idade aprazível, sem precisar da máquina do tempo (ver Entre gerações: https://tendimag.com/2017/09/27/entre-geracoes-2/).

Marca: Coca-Cola. Título: First Taste. Agência: Wieden+Kennedy, Amsterdam. Direcção: Dante Ariola. Holanda, 2006.

Em ambos os anúncios, o rejuvenescimento convoca um quadrado de valores: virilidade; potência; desejo; libertação. Atente-se em figuras tais como o galanteio, a paternidade, o nudismo, a tatuagem, o beijo, o mergulho, a motorizada, as gémeas, os touros… Não sou discípulo de Freud, nem de Jung, nem de Lacan, mas qual seria a leitura de um perverso com inclinação para o disparate? O quadro de valores remeteria para o sexo. Mais metáfora, menos metáfora, seríamos confrontados com um “rejuvenescimento sexual, ver orgástico”. Orgasmo? Nada que faça corar a publicidade. Não obstante, não há dúvida que só um perverso poderia perfilhar tão inconveniente interpretação. Não é verdade?

Os dois anúncios culminam na condução, solitária ou em grupo, de uma motorizada. A motorizada está associada à virilidade, à potência e à libertação. Num anúncio notável de Taiwan, Dream, o rejuvenescimento é significado pelo regresso à condução de motorizada em grupo. É um prazer recolocá-lo.

Marca: TC Bank. Título: Dream. Agência: Ogilvy Taiwan. Direcção: Thanonchai. Taiwan, Março 2011.

Do mais forte ao mais fraquinho: o gato, o rato e o pintainho.

Luís Sepúlveda. História de um gato e de um rato que se tornaram amigos. Ilustração de Paulo Galindro.

Luís Sepúlveda. História de um gato e de um rato que se tornaram amigos. Ilustração de Paulo Galindro.

Nos contos e nas fábulas, felinos e roedores ora são complementares, como na fábula de Esopo; ora ficam amigos, como no conto de Luís Sepúlveda (História de um gato e de um rato que se tornaram amigos), ora se envolvem em brigas intermináveis, como o Tom e o Jerry. E qual é a relação dos gatos com as aves? Silvestre, o gato, não dá tréguas a Tweety, o canário. No anúncio Best Friends, da Deli-Catz, o gato e o pintainho são amigos inseparáveis. Até que um dia a fome come a amizade. Este anúncio aposta no desencanto. Fantasia à parte, o mais fraco é o mais fraco. A galinha pôs o ovo… E o gato papou-o todo. Gosto de anúncios impertinentes que rematam em rabo de peixe absurdo. Alimente o seu gato se não quer que ele lhe coma o passarinho. O meu rapaz mais velho tem um gato, o Moriarty, que não precisa ter fome para morder e rasgar tudo quanto é papel. É o seu luxo! Dava para mascote de uma instituição que não me ocorre o nome.

Marca: Deli-Catz. Título: Best friends. Agência: Adam&Eve DDB (London). Direcção: Keith Schofield. Reino Unido, Setembro 2017.

A dança das deusas

Nina Paley. Goddesses. Dez. 2017.

Nina Paley. Goddesses. Dez. 2017.

Este artigo é uma prenda da São. Tantos prodígios tem este mundo e tão poucos nos divertem. A chave do humor, e do prazer, é como o ovo de Colombo: basta uma pitada de engenho. As 24 Free Goddess Gif de Nina Paley (http://blog.ninapaley.com/) desenferrujam, após milénios de imobilidade, o corpo. A partir das imagens de Nina Paley, alguém (Emely Hesse?) montou o seguinte vídeo:

Emily Hesse. Yes. Best thing I’ve seen this year and we’re only five days in.

O aprendiz de feiticeiro. A técnica entre Deus e o diabo

rSstubhub

De tecnofílicos e de tecnofóbicos, todos temos um pouco. Sonhamos com casas, carros e robots inteligentes, mas também temos pesadelos com máquinas que se revoltam contra o criador. A máquina que expande o Homem é a mesma que o pode destruir. Face à máquina, o Homem vive esquartejado entre a apoteose e o Apocalipse. O anúncio Machines, da StubHub, com a qualidade da The Mill, pende para a rebelião das máquinas num alvoroço de desregramento técnico. Este é um dos maiores medos, e fantasmas, da humanidade. Nas catacumbas do entendimento, o Homem hesita como o burro de Buridan: a técnica é bênção de Deus ou pacto com o diabo? O Homem é um aprendiz de feiticeiro. Sabe-o há muito tempo. O anúncio progride a um ritmo alucinante, mas sobra tempo para o humor: antes de morrer, no desfolhar do livro da vida, o protagonista, inteira-se de uma falha na sua passagem pelo mundo: nunca foi a um concerto da Sia!

Marca: StubHub. Título : Machines. Produção : Epoch Films / The Mill. Internacional, 2007.

Pinga-amor

Macy's. Wrong size. 2017

Cupido tem as suas preferências: dispara setas junto aos cacifos das escolas, nos parques, nas esplanadas, nas festas, nas praias… A publicidade acrescenta um novo lugar de atracção: as grandes superfícies. Baseado na Theory of Shopping, de Daniel Miller (Cornell University Press, 1998), escrevi algures (no prefácio ao livro de José Escaleira & José Carlos Loureiro, 1998, Feiras e Mercados de Viana, Grupo Desportivo e Cultural dos Trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo) que a compra releva menos de um acto egoísta e mais de um gesto de amor. Estava longe de imaginar as grandes superfícies como ninhos da libido hipermoderna.

Marca: Macy’s. Título: The Wrong Size. Agência: BBDO New York. Novembro 2017.

Madalena Iglesias, ídolo português dos anos sessenta, venceu o Festival RTP da Canção de 1966 com a canção Ele e Ela. Um pingo de amor musical.

Madalena Iglesias. Ele e Ela. Festival RTP da Canção de 1966.

Feliz Natal!

Marca: Indie Junior. Título: Horse. Agência: Leo Burnett (Lisboa). Direcção: Telmo Vicente. Portugal, 2014.

Bendito aborrecimento

L'Ennui

Quando um anúncio parodia uma “performance de arte contemporânea”, respira requinte. Quando desafia as conveniências fazendo humor com um tema como a deficiência, é brilhante. Graças a uma estranha alquimia, o incómodo cede o lugar à confiança e à esperança. “Poder aceder”, a liberdade de acesso, significa aceder a tudo, até ao indesejável. L’ennui afirma-se como um anúncio original, inteligente e criativo. Desprende-se apenas uma sombra. O anúncio lembra uma folha caída de uma cultura europeia outonal.

Anunciante: Jaccede. Título : L’ennui. Agência : TBWA/PARIS. Direcção: Hugues de la Bosse. França, Dezembro 2017.

Histórias mal contadas

Francisco Goya. Witches Sabbath. 1789

Francisco Goya. Witches Sabbath. 1789

Quem não teve a tentação de emendar o final de um conto?

Na História da Carochinha, o João Ratão não ficou “cozido e assado no caldeirão”. Caiu no caldeirão e comeu tanto, tanto, que, para além de nada sobrar para os convidados, teve que fazer dieta durante sete anos.

Na versão de Perrault, “Capuchinho Vermelho despe-se e vai meter-se na cama, onde ficou muito espantada de ver as formas da avó em camisa de noite; e disse-lhe: «Avó, que grandes braços tem!» «É para melhor te abraçar, minha filha.» «Avó, que grandes pernas tem!» «É para correr melhor, minha pequena.» «Avó, que grandes orelhas tem!» «É para escutar melhor, minha pequena.» «Avó, que grandes olhos tem!» «É para ver melhor, minha pequena.» «Avó, que grandes dentes tem!» «É para te comer.»” Mas o lobo mau não comeu a Capuchinho. Eu estava lá para ver. Ao ouvir as respostas do lobo, a Capuchinho aproximou-se e deu-lhe um beijo; e o lobo mau transformou-se num príncipe maravilhoso, dono da floresta e de todas as terras em redor, mais rico do que o rei Bico de Tordo.

Por altura do Natal, nasceu, durante a noite, um pequeno bode negro com cornos graúdos. Não havia quem lhe fizesse frente: o cão, o homem, os obstáculos, a vaca… Mas eis que surge um monstro de lata com olhos de dragão. As ovelhas afastam-se, mas o pequeno bode negro não arreda pé, até que, a um dado momento, desiste. Desiste? Não, não desistiu, na verdade tinha mais que fazer do que estar a olhar para aquela coisa rolante. Estava atrasado a um encontro com as bruxas.

Marca: Volskswagen. Título: Baby ram. Agência: Adam & Eve/DDB. Direcção: Nick Gordon. Alemanha, Novembro 2017.

Dúvidas íntimas

À primeira vista, o anúncio Gueule de Nain, da Media Markt, parece pós-moderno. À última vista, continua a parecer pós-moderno. Na recente mesa redonda Identidades & Territórios (Universidade do Minho, 06 de Dezembro de 2017), permiti-me uma provocação: duvidar da existência de um período histórico singular apelidado pós-modernidade. Mas como este anúncio é pós-moderno, a pós-modernidade existe.

Identidades & Territórios. 06.12.2017

Anões de jardim adquirem vida na ausência dos donos da casa. O vómito de um gato, cujo nome deve ser Shrek, é o acto inaugural. Segue-se uma festa, com música, bebida, dança, sexo, objectos técnicos, desvarios e excessos. Como é costume, os anões de jardim têm atitudes e comportamentos estranhamente humanos. François Rabelais (1494-1553) poderia subscrever a orgia, E.T.A. Hoffman (1776-1822), a vitalização dos bonecos e Tex Avery (1908-1980), o humor absurdo. Em suma, um anúncio que convoca algumas perplexidades.

Se as pessoas são líquidas, fragmentadas, polifónicas e híbridas, por que é que, passados vinte ou trinta anos, quando encontro alguém ele me parece a mesma pessoa? Será que a sua identidade oscila como um boneco teimoso?

Marca: MediaMarkt. Título: ZIPFELRAUSCH. Alemanha, Novembro 2017.

Continua a nossa sociedade empenhada no futuro, eventualmente com menos projecto e mais balanço? Será a nossa sociedade mais pós ou mais pré? A maior parte das nossas preocupações não deixam de se debater com o futuro.

Por que rara alquimia a sociedade é órfão de narrativas quando às narrativas da modernidade se acrescentam as narrativas da pós-modernidade?

Como é que uma injunção, o carpe diem (Horácio, 65 a.C – 8 a.C.; ver poema) caracteriza uma sociedade quando o atributo é transversal à humanidade. Não há como fazer escala no após I Guerra Mundial.

E, em termos de hibridismo, são os biomecanóides e os pós-humanos assim tão distantes das metamorfoses de Ovídeo e dos sonhos cómicos (songes drolatiques) de François Desprez?

François Desprez. Songes drolatiques de Pantagruel. 1565.

François Desprez. Songes drolatiques de Pantagruel. 1565.

Acabei de ser convidado para participar num programa de televisão. Declinei. Uma pessoa que não sabe o que é não deve expor-se. E eu não sei se sou pré-moderno ou pós-moderno. Moderno consta que ninguém é. Toda esta confusão é muito grave. Entretanto, tive uma epifania. As epifanias servem para saber quem somos e para onde vamos. Que o diga São Paulo! Pois, finalmente, sei quem sou. Sou um pós-moderno à moda antiga, à moda dos maneiristas e dos barrocos. Parafraseando John F. Kennedy, na modernidade, sou pós-moderno!

Não sei que me diga! Ainda estou confuso. Mas, repito, o anúncio da Media Markt é excelente.

Tradução do poema de Horácio

Colha o dia, confia o mínimo no amanhã.
Não perguntes, saber é proibido, o fim que os deuses darão a mim ou a você,
Leuconoe, com os adivinhos da Babilônia não brinque.
É melhor apenas lidar com o que cruza o seu caminho.
Se muitos invernos Júpiter te dará ou se este é o último, que agora bate nas rochas da praia com as ondas do mar.
Tirreno: seja sábio, beba seu vinho e para o curto prazo reescale suas esperanças.
Mesmo enquanto falamos, o tempo ciumento está fugindo de nós.
Colha o dia, confia o mínimo no amanhã.
Podemos sempre ser melhores. Basta pensarmos melhor.

(http://claudialins58.blogspot.pt/2009/08/carpe-diem-o-poema-completo-de-horacio.html).