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O lenço e o telemóvel

Norbert Elias

Norbert Elias

No Processo civilizacional (1939), Norbert Elias adopta uma abordagem indirecta. Para apreender as mudanças nos usos e nos costumes no Ocidente, desde a Idade Média, recorre aos livros de boas maneiras. Quando vários livros mencionam uma prática a evitar, isso significa que essa prática é, embora indesejável, corrente. Se, com o tempo, essa prática desaparecer dos livros de boas maneiras, isso pode significar que essa prática deixou de ser problema, passando outras a estar em foco. Vários autores aludem, por exemplo, a formas impróprias de limpar o nariz à mesa:

“Se um homem à mesa limpa o nariz com a mão e não sabe que não o deve fazer, então, acredita, ele é um idiota (The babies book. 1475).

“O homem que limpa a garganta pigarreando quando come e o que se assoa na toalha da mesa são ambos mal-educados, isto vos garanto” (Rhodes, Hugh, Boke of Nurture. Ca 1550).

O lenço, introduzido no Renascimento, foi, durante décadas, de uso raro. Erasmo menciona-o:

“Assoar-se com um boné ou com um pedaço do casaco é próprio de um camponês; no braço ou no cotovelo, de um comerciante de salgados. Não é muito mais asseado assoar-se com a mão para em seguida a limpar na roupa. É mais decente servir-se de um lenço, afastando-se, caso esteja presente uma pessoa honorável.” (Erasmo, De civilitate morum puerilium, 1530).

Assoar-se à mão, ao braço, à roupa ou à toalha são comportamentos criticados pelos livros de boas maneiras. Representam práticas efectivas. Quando, mais tarde, a menção a estas incivilidades desaparece, isso pode significar que caíram em desuso, passando a atenção a incidir noutras actividades antes toleradas e agora censuradas, tais como tocar na comida com as mãos.

Estas palavras funcionam como um atalho, algo despropositado, para os dois anúncios da Roxy Cinema, uma cadeia de salas de espectáculos dos Emirados Árabes Unidos. Os anúncios Bomb e Western, da série Silence your phone, procedem a uma paródia de determinado tipo de filmes para censurar a intrusão dos toques de telemóvel durante as sessões de projecção. Como diria Norbert Elias, se existe a censura é porque existe a prática. Se existem práticas não censuradas é porque são toleradas, por exemplo, a luz do ecrã do telemóvel e o batuque das mensagens.

Marca: Roxy Cinema. Título: Silence your phone (Bomb). Agência: Misfits. Emirados Árabes Unidos, Abril 2017.

Marca: Roxy Cinema. Título: Silence your phone (Western). Agência: Misfits. Emirados Árabes Unidos, Abril 2017.

Aborrecimento empreendedor

Wavo

Honoré de Balzac observa que o aborrecimento “nasceu num dia da Universidade(1844, Un début dans la vie). Trata-se, naturalmente, da Universidade do século XIX. Julien Green acrescenta que “o aborrecimento é uma das faces da morte” (Journal, 1922-1998, Plon). Vêm estas citações a propósito dos anúncios Helium Suit e Garbage Slide, da Wavo, dos Emirados Árabes Unidos: o “aborrecimento é perigoso”, sobretudo quando é empreendedor.

Marca: Wavo. Título: Boredom is dangerous: Helium Suit. Agência: Mifitis. Emirados Árabes Unidos, Outubro 2017.

Marca: Wavo. Título: Boredon is dangerous: Garbage Slide. Agência: Mifitis. Emirados Árabes Unidos, Outubro 2017.

Amor a três

O anúncio Beach, da BMW, é um concentrado de humor absurdo. Apresenta o trio do costume: o homem, a mulher e o carro, num amor a três. Ao volante, o homem; a reboque, a mulher. Entre ambos, o beijo. Um beijo trepidante, com perfume a maresia. Assim pode começar uma moda: a moda do beijo radical.

Acrescento uma imagem humorística bem gizada. Insólita e desproporcionada. Nem por isso deixa de inquietar o pensamento. Nesta viragem das universidades para a investigação e a internacionalização, que lugar sobra para os estudantes?

Marca: BMW. Título: Beach. Agência: KBS. Direcção: Pretty Bird. USA, Outubro 2017.

Slavery. Not Much Has Changed. Eatliver.com

Slavery. Not Much Has Changed. Eatliver.com

 

A mama extraterrestre

Saído esta semana, o anúncio Spaceship, da Rakunoh Mother, provocou uma enorme contestação. Pelo ar bélico da nave espacial? Porque o leite e a vaca roçam o sagrado? Pela ousadia da mama a ultrapassar o estilo de Jean Paul Gaultier? Adivinharam! O motivo é a mama da vaca: “A Japanese TV advert selling milk has been blasted by viewers who think it should be banned – or at least have the giant nipple pixelated” (Mirror, 28.09.2017: http://www.mirror.co.uk/news/world-news/viewers-call-milk-advert-showing-11254231).

Marca: Rakunho Mother. Título: Spaceship. Japão, Setembro de 2017.

Não há recanto em que os sapos da censura se coíbam de coaxar. Desta vez, coube ao Japão, o país dos anime. Se gosto dos anime? Não desgosto, mas, a bem dizer, não provei o suficiente. Não tenho gostos nem induzidos nem deduzidos. Aprecio, por exemplo, algumas músicas dos anime. Não soam estranhas. Acrescento dois excertos do Boku No Hero Academia (direcção: Kenji Nagasaki; roteiro: Yōsuke Kuroda; desenho: Yoshikiko Umakoshi; e música: Yuki Hayashi).

 

 

Distopia

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Será este o nosso futuro? Condiz, pelo menos, com a ficção científica. O anúncio Eat the ice cream, da Halo Top, é desagradável, muito desagradável. Não é o primeiro, nem será o último. Há muitos anúncios no mesmo registo. Importa rever o provérbio: afinal, apanham-se moscas com vinagre.

Marca: Halo Top. Título:  Eat the ice cream. Agência: Red Tettemer O’Connell + Partners. Direcção: Mike Diva. Estados Unidos, Setembro 2017

Usar a cabeça

 

Shampoo Malaio

Como fazer um anúncio publicitário a um champô feminino numa sociedade em que as mulheres não podem mostrar o cabelo? A solução é simples. Aplica-se o champô na cabeça da mulher e mostram-se os cabelos de um homem. Sobra ainda uma história de amor perfumada.

Produção: MTAS Production (?). Malásia, 2017.

Telhas solidárias

Tsuruya

Dar de caras com a criatividade é uma experiência invulgar. Graças ao anúncio Sticking together, no matter what, da Tsuruya, arriscamos não voltar a ver os telhados com os mesmos olhos: menos matéria e mais forma.

Marca: Tsuruya. Título:  Sticking together, no matter what. Agência: ADK Tokio. Direcção: Daisuke Shibata. Japão, Agosto 2017.

Sem palavras

Um anúncio português culto, desconcertante e macabro. Para aceder ao vídeo, carregar na imagem ou no seguinte endereço: http://www.culturepub.fr/videos/4-hands-scriptwriting-festival-kitchen/.

Anúncio Português

Anunciante: Portugues Film Academy. Título: Kitchen. Agência: FCB Lisbon. Direcção: Mário Patrocínio. Portugal, Agosto 2017.

Corrida de ecotaxis

Cycle rickshaw

Há quem goste de cerveja com amendoins, tremoços ou camarão da costa; prefiro com humor. O anúncio The Race, da beIN SPORTS, é generosamente oriental. Um humor franco e aberto, abdominal, mais gargalhada do que contracção facial. Narrativa curta, sem subentendidos. Aposta na imagem. Parafraseando René Descartes (“le bon sens est la chose du monde la mieux partagée (Discours de la Méthode, 1637), o humor é a coisa do mundo mais bem repartida. Há quase tantos tipos de humor e de riso quantas as formas de estar no mundo: negro, amarelo, azedo, doce, picante, envergonhado, ingénuo, cínico, sobranceiro, tímido, farto, enigmático, grotesco, trágico… Afigura-se-me que também existe um humor oriental.

Este anúncio confirma que os países do extremo-oriente cultivam a paixão pelo futebol; apreciam a selecção portuguesa; e admiram Cristiano Ronaldo, a mudança mais rápida da corrida de ecotaxis (cycle rickshaws).

 

Marca: beIN SPORTS. Título: The race. Agência: RedDot. Direcção: Mike Harvey. Singapura, Agosto 2017.

O novo Sísifo

Carlsberg Everest

Um humor amoral, sem prólogo, epílogo, catarse, ou expiação, alicerçado numa minudência cósmica, é, no meu preconceito, humor das gentes do norte. Um humor destilado, como o whisky ou a cerveja. É um humor fino e espirituoso, sem anjos nem bestas, nos antípodas do riso farto e rasteiro. Temos humor e cerveja, falta a música. Há tantas músicas nórdicas! Opto por dois excertos da Suite Peer Gynt (1875), do compositor norueguês Edvard Grieg: Amanhecer (parte I) e Na Gruta do Rei da Montanha (parte IV).

Tenho o vício de colar adjacências ao tema principal, neste caso ao anúncio. Às vezes, acabam por ser as mais relevantes. É o caso presente.

Marca: Carlsberg. Título: Everest. Agência: Fold7 Creative. Estados Unidos, 2011.

Edvard Grieg. Amanhecer. Peer Gynt. Orkiestra Filharmonii Narodowej.

Edvard Grieg. Na Gruta do Rei da Montanha. Peer Gynt. Berliner Philharmoniker. 2010.