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Carne

Francis Bacon. Three Studies for Figures at the Base of a Crucifixion 3. 1944.

Não nos livramos do mal. Alimenta-nos. Deve ser isto o pecado da carne.

“Our relationship with animals is broken. In factory farms and slaughterhouses, their bodies are turned into products, their individuality and suffering ignored. Our own global crisis makes clear just how interconnected our lives are, just how much looking after ourselves means looking after one another. As we hope for our new normal, animals in factory farms hope for theirs too. Together we can create a new normal for animals” (https://mercyforanimals.org/newnormal/) .

Anunciante: Mercy for animals. Título: New Normal. Agência: Camisa 10 Propaganda. Direção: Raphael Dias. Brasil, abril 2021.

Estética de género

Gustav Klimt. Retrato de Adele Bloch-Bauer. 1907.

A Dove preza a valorização estética das belezas menos belas (vídeo 1). Seria equilibrado incluir, nesta equação cosmética, os homens? Não são, a priori, elegíveis? O milagre é apenas feminino? Na verdade, existe uma linha masculina de produtos Dove. Numa amostra de cinquenta anúncios Dove, uma meia dúzia contempla homens. Quais são os tópicos? A notícia da gravidez (vídeo 2), a feminização da masculinidade (vídeo 3), um pintor de mulheres (vídeo 4), momentos paternos (vídeo 5)… Não há beleza masculina alternativa? A beleza dos “feios, porcos e maus”? O valor da beleza conjuga-se, sobretudo, no feminino. A igualdade é fatalmente desigual. Acontece-me ficar confuso: todas as mulheres são belas, umas mais que outras, mas aquelas que são menos belas são as mais belas de todas. A Dove não desconhece o poder da beleza, relativiza-o.

Marca: Dove. Título: It’ on Us. Agência: LOLA Mullen Lowe Madrid. Direção: Lourens Van Rensburg. Espanha, março 2021.
Marca: Dove. Título: First Fatherhood moments. Estados-Unidos, junho 2015.
Marca: Dove. Título: Slow. Agência: Ogilvy & Mather (Brasil). Direção: Carlão Busatto. Brasil, 2013.
Marca: Dove. Título: Real Beauty Sketches. Agência: Ogilvy (São Paulo). Direção: John x Carey. Brasil, 2013.
Marca: Dove. Título: Calls for dads. Estados-Unidos, 2014.

Alteração climática

Salla 2032. Finlândia

E se Salla, povoação polar da Finlândia, se candidatar aos Jogos de Verão de 2032? Graças, precisamente, às alterações climáticas! A população antecipa o evento, aclimata-se. Humor on the rocks, glaciar. Estranha-se, mas não se entranha. Um arrepio. Acusamos o embate, o alarme, de uma ficção caricata e bem contada. Espantoso é este anúncio tão polar ser brasileiro. A agência Africa, de São Paulo, tem um portfólio ímpar.

House of Lapland / Supported by Fridays for Future. Título: Save Salla. Agência: Africa (São Paulo). Brasil, fevereiro 2021.

Carnaval magro.

Pieter Bruegel. A Luta entre o Carnaval e a Quaresma. 1559.

Este Carnaval foi cabisbaixo. A Quaresma começou mais cedo. Espero que haja Ressurreição. Jane Monheit interpreta The Girl from Ipanema (A Garota de Ipanema), de António Carlos Jobim e Vinicius de Morais (1967). Acrescento If (2001), também de Jane Monheit.

Jane Monheit. The Girl from Ipanema (A Garota de Ipanema), de António Carlos Jobim e Vinicius de Moraes. 1967. Ao vivo no Jazz Open Stuttgart. Alemanha. 2003.
Jane Monheit. If. Come dream with me. 2001.

Esperança alcoólica

Johnnie Walker. 200 Years . Astronaut.

Com a exacerbação da Covid-19, os anúncios publicitários tendem a ser de alerta ou de promessa. O anúncio brasileiro Astronauta, da marca de Whisky Johnnie Walker, é uma celebração cósmica enrolada numa esperança hiperbólica com malte. “A vida vai se encher de possibilidades outra vez”.

Marca: Johnnie Walker. Título: Astronaut. Agência: Alma BBDO São Paulo. Direção: Gabriel & Quemuel. Brasil, Janeiro 2021.

Os gatos de Gustavo Rosa

01. Gustavo Rosa

Gustavo Rosa (1946-2013) é um artista plástico brasileiro. Admiro o humor dos seus desenhos singelos e coloridos. Tudo cabe nos seus quadros: pessoas, animais, coisas… Dizem que se assemelha a Aldemir Martins, Di Cavalcanti e Fernando Botero. No meu entendimento, os desenhos de Gustavo Rosa assemelham-se aos desenhos de Gustavo Rosa. Sobretudo, os gatos. São inconfundíveis. Segue uma pequena amostra.

Galeria de imagens: os Gatos de Gustavo Rosa

Nove meses

Gustavo Rosa. Ela grávida laranja amarelo. 1971.

O José Neves enviou-me o anúncio 9 meses, da Volkswagen. Interpretar é jogar o jogo. Um coro trágico recita notícias pandémicas. Um automóvel segue o seu destino. O coro silencia-se e o automóvel estaciona junto a um hospital. Sai um casal. O homem ajuda a mulher grávida. O ambiente ambarino, “o âmbar de um tempo humano e divino” (https://tendimag.com/2017/06/28/despasmar-o-prazer/), é complementado pela tranquilidade do azul celeste. Apesar das ameaças, o Volkswagen transporta, seguro e sereno, a vida. O anúncio é marcado pelo sentido de oportunidade: nove meses de gravidez, nove meses de pandemia. Recorre a dualidades clássicas: a morte e a vida: a ameaça e a proteção. Não obstante o momento trágico, o anúncio emana esperança: “apesar de todo, la luz siempre encontra el caminho”.

Marca: Volkswagen España. Título: 9 meses. Espanha, dezembro 2020.

Nelson Ned. “Cantigas do andarilho”

Nelson Ned. Tudo Passará. 1969.

Vadio, por vício. Mas não flaneur, à maneira dos intelectuais parisienses que oscilavam entre o Quartier Latin, Montmartre e Montparnasse. Desejo perder-me. Num mundo maior que o mundo, sinto-me um ninguém infinito. Demando a cave para desempoeirar o esquecimento. Cabeça torta, olhar desfocado e corpo desequilibrado, não espero acertar no paraíso, terreno ou celestial. Nem com a ajuda de um andarilho. O paraíso terreno está talhado para quem, lanço a lanço, sobe as escadas do tempo.

Nelson Ned, cantor e compositor brasileiro, media 90 cm. Foi o primeiro latino a ultrapassar o milhão de discos nos Estados Unidos. Canções como Tudo Passará e Domingo à Tarde são ecos da atmosfera sonora dos discos pedidos, das quermesses e dos altifalantes da minha juventude. São músicas que a idade canta. Pautas de felicidade.

Nelson Ned. Tudo Passará. Tudo Passará. 1969.
Nelson Ned. Domingo à tarde. Tudo Passará. 1969.

Com os olhos na pele

Detail of a portrait of the Dominican Cardinal and renowned biblical scholar Hugh of Saint-Cher painted by Tommaso da Modena in 1352

O que é belo? O que é feio? Quem é belo? Quem é feio? Quem passa despercebido? Quando, onde, perante que público? A beleza já não é o que era? “A beleza está nos nossos olhos” (Oscar Wilde).

“Observe a face turva
O olhar tentado e atento
Se essas são marcas externas
Imagine as de dentro.”
(Elza Soares e Pitty, Na Pele, 2017)

Segue uma canção áspera, Na Pele, de Elza Soares e Pitty. Acrescento a apresentação de Elza Soares, “De que planeta veio Elza Soares”, no canal Sincopado: Música e História, por Felipe Tadeu Breier (13/12/2020), aluno do mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, da Universidade do Minho.

Elza Soares e Pitty. Na Pele. Na Pele. 2017.
De que planeta veio Elza Soares, canal Sincopado: Música e História, por Felipe Tadeu Breier (13/12/2020).

Na Pele

Olhe dentro dos meus olhos

Olhe bem pra minha cara

Você vê que eu vivi muito

Você pensa que eu nem vi nada

Olhe bem pra essa curva

Do meu riso raso e roto

Veja essa boca muda

Disfarçando o desgosto

A vida tem sido água

Fazendo caminhos esguios

Se abrindo em veios e vales

Na pele leito de rio

A vida tem sido água

Fazendo caminhos esguios

Se abrindo em veios e vales

Na pele leito de rio

Contemple o desenho fundo

Dessas minhas jovens rugas

Conquistadas a duras penas

Entre aventuras e fugas

Observe a face turva

O olhar tentado e atento

Se essas são marcas externas

Imagine as de dentro

A vida tem sido água

Fazendo caminhos esguios

Se abrindo em veios e vales

Na pele leito de rio

Elza Soares e Pitty (2017).

Ainda bem! Maria Bethânia

Maria Bethânia

Uma amiga passou várias semanas no Brasil. Regressou fascinada com a música brasileira. Cantarolava as cassetes que me convidava a ouvir. Paris cantava brasileiro no coração de uma libanesa. Acontece-me peneirar o passado. Há coisas que fiz que agora não faria. Ainda bem que fiz!

Maria Bethânia. As Canções Que Você Fez Para Mim (Ao Vivo), “Noite Luzidia (Ao Vivo)”. Canecão, 2001.