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O aperto de mão em tempos de pandemia

A publicidade não está imune ao coronavírus. Multiplicam-se os anúncios que aludem à pandemia. Com mais ou menos propósito. Nalguns casos, é preciso algum esforço para descobrir a ligação. Seleccionei dois anúncios em língua portuguesa. O primeiro, brasileiro, Keep your distance, da Universidade do Futebol, assinala como um gesto, a recusa do aperto de mão, pode mudar de sentido, de feio para bom, de ofensa para consciência, consoante o contexto. O segundo, português, It’s Victor Fault, da Lobby, inspira-se na origem, presumivelmente vampírica, do vírus. Dois vampiros conversam sobre as vantagens e as desvantagens do coronavírus. A agência aproveita para fazer auto-promoção.

Marca: Universidade do Futebol. Título: Keep your distance. Agência: Liberdade. Direcção executiva: Fabiana Zat Livardi. Brasil, Março 2020.
Marca: Lobby. Título: It’s Victor Fault. Agência: Lobby. Portugal, Março 2020.

900 000 visualizações

O blogue Tendências do Imaginário ultrapassou 900 000 visualizações, 282 000 visitas e 3 040 artigos. A distribuição das visualizações por países pouco se alterou ao longo dos anos. O gráfico 1 contempla o conjunto das visualizações, desde o início em 2011 (carregar nos gráficos para aumentar a imagem).

Visualizações por país. Desde 2011.

Quatro países (Brasil, 38%; Portugal, 23,9%; Estados-Unidos, 8,5%; e Espanha, 7,5%) somam perto de quatro quintos (77,9%) das visualizações. Não obstante, o Tendências do Imaginário é um blogue global. O mapa 1 ilustra a cobertura ao nível do planeta. Pela perspectiva, pelo conteúdo e pelo estilo, o Tendências do Imaginário é um blogue internacional. Podia estar sediado em Austin, Antuérpia ou Seul que pouco ou nada, de fundo, se alteraria. Mas está escrito em português.

Cobertura à escala mundial

O gráfico 2 destaca os dez artigos mais visualizados.

Dez artigos com mais visualizações

O blogue assenta-me bem. Prefiro a criação solitária e sou viciado em jogos de letras. Mas afasta-me dos outros, dos colegas, do convívio e do progresso colectivos. Torno-me mais hermético do que um eremita.

A principal falha reside na publicação de artigos em revistas nacionais e internacionais. O blogue não é complementar mas concorrente. Opto por escrever e editar no blogue. Detesto pedir. A auto-proposta ou a resposta a chamadas é, no meu sentimento, andar com o texto numa bandeja. Um artigo do blogue com 2 154 consultas alcança um valor razoável. Persiste o prejuízo profissional: não dá para registar pontos na caderneta da carreira. Para o Homo Academicus, um artigo não vale pelo seu conteúdo mas pelo livro ou pela revista onde se insere. Continuo a publicar artigos em livros e revistas, sempre que sou convidado. Admito que esta atitude enferma de romantismo anarquista, senão reaccionário. Os outros, amigos e colegas, tendem a ser diferentes, têm direito a ser diferentes. Para minha penitência.

O Tendências do Imaginário pede tempo, requer atenção e exige dedicação. Mas dá prazer. Obrigado pela tua visita! “Amigo maior que o pensamento”, “Traz outro amigo também”, sabendo que o “vento nos leva”.

José Afonso. Traz outro amigo também. Traz outro amigo também. 1970.
Mea Culpa Jazz. Le vent nous portera. Cover dos Noir Désir (2001). 2017.

As gavetas da autofagia. Fabio Zanon

Fabio Zanon

Viver em casa quase sem contacto exterior resume, há anos, o meu quotidiano. O coronavírus veio transformar um reflexo anti-social lamentável num gesto cívico louvável. Trata-se de uma ressignificação. Exploro, com renovada energia, os nichos domésticos. Os LP estão em prateleiras, os CD em gavetas. Quanto mais baixa a gaveta, menos uso tem. Abri a última gaveta e retirei um disco do brasileiro Fabio Zanon (violão), dedicado, quase todo, a Francisco Tárrega (1852-1909). Encalhei na faixa 14. Não é de Tárrega mas de Alexandre de Faria, compositor brasileiro contemporâneo: Prelude for Guitar. Eyes of Recollection (1997). Nestas “descobertas”, sinto-me parasita de mim mesmo, entregue a uma espécie de autofagia tardia. Tanto vivi que cansei. Mas empenho-me a abrir e a fechar gavetas.

Para amaciar o gosto, começa-se com a Balada para Martin Fierro (Aire Sueño), composta por Ariel Ramirez (Argentina) e interpretada por Fabio Zanon (2018).

Balada para Martin Fierro (Aire Sueño). Compositor: Ariel Ramirez (Argentina). Interprete: Fabio Zanon (2018).
Prelude for Guitar. Eyes of Recollection. Compositor: Alexandre de Faria. Interprete: Fabio Zanon (1997).

Vaca carnívora

Anunciante: Unimed Curitiba. Título: Vaconça. Agência: Bronx. Brasil, Dezembro 2019.

“Desde que comecei a rir de mim mesmo, nunca mais me aborreci” (Georges Bernard Shaw).

Quando embirro com um assunto, sou pior que uma criança. A ameaça dos herbívoros, não prevista na Bíblia, abala os meus padrões tradicionais de entendimento. Não fui educado para percecionar uma vaca como um agente perigoso. Ressalvo as vacas realmente loucas, desenfreadas pelos caminhos a escornear tudo que apareça. Casos raros. Para mim, a vaca é um animal gentil que bafeja o divino. Dócil e belo. No Líbano, quando se pretende lisonjear uma mulher, diz-se que “tem os olhos bonitos como os de uma vaca” (عيون جميلة مثل بقرة: euyun jamilat mithl baqara).

Ao observar o animal na imagem (uma “vaconça”), debato-me com duas dúvidas:

– Trata-se de uma vaca disfarçada de carnívoro para não ser identificada como fonte de Metano e factor de catástrofe planetária? Um caso de camuflagem ou metamorfose bestial?

– Resulta a pele felina de experiências alimentares? Nos cortejos londrinos, era costume alterar a refeição dos cavalos a fim de que os excrementos fossem de cor discreta. Se a dieta afecta os excrementos, também pode mudar a pele. Atente-se nas intoxicações. Têm-se testado várias dietas para vacas. Há dietas que reduzem a emissão bovina de Metano para metade. Desconfio que comendo ração para gato uma vaca adquira uma pele de felino. Afigura-se-me, também, que se dessem de comer plástico às vacas resolver-se-iam dois grandes problemas da humanidade.

Guillermo Mordillo

Publicidade. Alternativas ao Pai Natal

Continuo a desfiar a amostra de 16 anúncios do Natal. Visualizámos anúncios com o Pai Natal em pessoa e com pessoas disfarçadas de Pai Natal. Nos próximos oito anúncios, as marcas prescindem do Pai Natal. Enveredam por alternativas típicas do imaginário atual: ET, Guerra das Estrelas, dragões, animais e, naturalmente, crianças, muitas crianças. Incorporo cinco dos oito vídeos. Os links dos três vídeos restantes aparecem no fim do artigo. Basta visionar dois ou três anúncios para ter uma noção das figuras alternativas ao Pai Natal. Palpita-me que a tendência aponta no sentido da erosão e da substituição da figura do Pai Natal. Entre outros motivos, a figura do Pai Natal acusa o desgaste da figura da prenda. Não que não se dê mais prendas. Não que elas não sejam mais caras. Perderam, simplesmente, parte da magia da dádiva, de que fala Marcel Mauss (Ensaio sobre a dádiva, 1925). É ao nível simbólico, subjetivo e afetivo que a falha se cava. A prenda desprende-se paulatinamente do imaginário fabuloso.

Marca: Migros. Título: La chouette Mimi apprend à voler. Agência : Wirz. Direcção : Martin Werner. Suíça, Novembro 2019.
Marca: John Lewis + Waitrose. Título: Edgar The Dragon. Agência: Adam & Eve DDB (London). Direcção: Dougal Wilson. Reino Unido, Novembro 2019.
Marca: McDonald’s. Título: The Gift. Agência: Leo’s Thjnk Tank Berlin. Direcção: Sune Sorensen. Alemanha, Dezembro 2019.
Marca: Fedex. Título: Gift Box. Agência: BBDO. Direcção: Noam Murro. Estados Unidos, Novembro 2019.
Marca: Vale Sul Shopping. Título: Feliz Natal em mim. Produção: Consulado. Direcção: Marcos Boca Ceravolo e Tomas Pessoa Gurgel. Brasil, Novembro 2019.

Apple. The Surprise. Estados Unidos. Nov. 2019.

McDonald’s . Archie the Reindeer . Reino Unido. Dez. 2019.

Posten. In those days. Noruega. Dez. 2019.

A rosa pequenina

As Jornadas do Órgão Histórico da Oliveira (ver imagem) conduziram-me ao mural da Isabel Maria Fernandes. Encontrei uma segunda preciosidade: a Cajuina, de Caetano Veloso, numa excelente interpretação ao vivo.

Music video by Caetano Veloso performing Cajuina. (C) 2012 Universal Music Ltda

Bálsamo para sofridos

Maria Bethânia

Ando devagar porque já tive pressa.

Esqueci o pensamento na cadeira do dentista. Quatro anestesias! Muita mecânica. Tive direito a óculos de realidade virtual, por causa do laser. Ainda dói a área intervencionada. Estou melhor? Espero. Valha a Maria Bethânia, um bálsamo para os sofridos.

Maria Bethânia. Tocando em Frente. 1990. Programa da TV Pantanal.
Maria Bethânia. As Canções Que Você Fez Para Mim. Noite Luzidia. Ao vivo. Canecão. 2001.

Memórias de um subvivente

Gastão. Walt Disney.

Já se respira o espírito do Natal! Sempre caloroso. Amor para dar e defeitos para corrigir. Como nos livros de Charles Dickens ou nos anúncios da Lotaria Espanhola.

Quem tem uma vida meio vazia, com a memória folgada, consegue lembrar-se de minudências. Há meio século, a lotaria de Natal animava as pessoas. Comprar o bilhete inteiro e repartir as cautelas era um ritual. Cada um podia adquirir várias cautelas e pertencer a vários grupos. Na aldeia, junto à fronteira, tínhamos lotaria a dobrar. A lotaria espanhola, mormente a dos Reis, congregava tantos devotos quanto a nacional. Na Páscoa, repartiam-se os trabalhos da lavoura, no Natal reparte-se a sorte, em pequenas doses, palpáveis, de esperança. Por um tempo, o milagre anda à solta.

Anunciante: Spanish Christmas Lottery. Título: Pilar. Agência: BBDO Punto (Madrid). Direcção: Rafael López Saubidet. Espanha, Novembro 2019.
Anunciante: Spanish Christmas Lottery. Título: Ramón. Agência: BBDO Punto (Madrid). Direcção: Rafael López Saubidet. Espanha, Novembro 2019.

As potencialidades sonoras dos sapos

Os sapos comem a lua durante o eclipse e são animais de estimação das bruxas. São o lado feio da beleza. As rainhas malvadas são tranformadas em sapos e os sapos, em príncipes. No escuro e na água, os sapos coaxam alto e bom som, com efeitos sonoros especiais. Os anúncios que valorizam o som são, normalmente, criativos, envolventes e, por vezes, aterradores. Graças ao anúncio Can You Solve The Mystery?, do Australian Museum, sempre que ouvir um carro ou uma motorizada a passar na estrada, fico na dúvida se não será um sapo.

Marca: Australian Museum. Título: Can You Solve The Mystery? Agência: 303 MullenLowe. Austrália, Novembro 2019.
O coachar do sapo cururu (Rhinella jimi). Mais de 2 milhões de visualizações.

Beber inspiração

Budweiser. King of Halloween.

Observa-se alguma sazonalidade nos anúncios publicitários. No Natal, solidariedade, amor e carinho; durante o Superbowl, anúncios milionários; no Dia Internacional da Mulher, manifestos feministas; no Halloween, os anúncios “metem medo a um susto”.

John Carpenter é uma referência na realização de filmes de terror. Omar Calabrese (A Idade Neo-barroca, 1987) estima que John Carpenter criou, no filme The Thing (1982), um expoente da monstruosidade: um monstro que não se mostra; vazio, parasita os seres envolventes adquirindo a sua forma. John Carpenter acaba de ser homenageado pela marca de cerveja Budweiser no anúncio brasileiro King of Halloween.

“King of Halloween es un homenaje a John Carpenter, productor y guionista de la película de terror Halloween II, y como anoche se celebró Halloween, la marca de cerveza realizó un comercial que recuerda esa historia de terror: alguna vez Carpenter admitió que la cerveza y la máquina de escribir fueron sus compañeras al escribir la secuela de una de las películas más famosas del mundo” (https://www.adlatina.com/publicidad/para-ver:-%C3%A1frica-y-budweiser-celebraron-halloween-con-un-homenaje).
“Resolvemos marcar essa data com uma homenagem a um dos roteiristas responsáveis por um dos filmes de suspense e terror mais lembrado pelas pessoas. Voltamos no tempo para relembrar essa icônica história de John Carpenter e mostrar que Budweiser também serve de inspiração para as histórias de cinema”, afirmou Alice Alcântara, gerente de marketing de Budweiser” (https://propmark.com.br/anunciantes/budweiser-convida-para-sessao-de-halloween-numa-das-ultimas-locadoras-de-video-do-pais/).

A Budweiser homenageia John Carpenter, mas também o promove a embaixador da marca: John Carpenter escreve Halloween II com a companhia de uma Budweiser. O anúncio mostra-se à altura da homenagem e do embaixador.
John Carpenter fumava. O que inspira uma imagem característica do Halloween na qual me reconheço: beber inspiração e fumar morte. A publicidade presta-se a baptizar subjectividades!

Marca: Budweiser. Título: King of Halloween. Agência: Africa. Produção: Boiler Filmes. Direcção: Sérgio Gordilho. Brasil, 31 de Outubro 2019.