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Cemitério da Consolação

Os olhos,
não pintes os olhos;
A pele,
A pele excita o vento;
As mãos,
Guarda as mãos para mim.

01. Solitudo. Francisco Leopoldo da Silva. Escultura em granito. Cemitério da Consolação em São Paulo. 1922.

O meu próximo livro intitula-se “A Morte na Arte”. Falta-me escrever o último capítulo dedicado às esculturas veladas. Há mais de um ano, e não há meio de começar. Aproveito para descobrir uma arte rara. Nos museus, nas igrejas e nos cemitérios. No Cemitério da Consolação, em São Paulo, no Brasil, desencantei esta “Solitudo”: uma escultura velada em granito natural, material, por sinal, raro.


02. Solitudo. Francisco Leopoldo da Silva. Escultura em granito. Cemitério da Consolação em São Paulo. 1922.

“Obra em granito natural e que representou a expressão do modernismo que chegava a São Paulo na década de 20. Essa escultura foi o primeiro nu feminino, colocado em 1922 no Cemitério da Consolação, onde se encontra a provocante “Solitudo”: uma mulher envolta num véu translúcido que mais realça suas formas exuberantes, seminudez mais forte porque é sugerida e não mostrada”. Fonte: Monumentos de São Paulo: http://www.monumentos.art.br/monumento/solitudo).

Saco de batatas

A jornalista Paula Telo Alves cita o Tendências do Imaginário no editorial de O Contacto, Jornal do Luxemburgo, intitulado Sinais de Fumo, a propósito do projecto do governo luxemburguês no sentido de tornar obrigatória a instalação de detectores de fumo em todas as casas, incluindo as privadas. Para aceder ao artigo de Paula Telo Alves, carregar na seguinte imagem.

Esqueleto fumador.

No ano 2018, 18,8% das visitas ao Tendências do Imaginário provêm de Portugal; menos de metade do Brasil, 44,4%, e o mesmo que os Estados-Unidos, 18,6%. Relativizando, em Portugal, 26 visitas por 10 000 habitantes, e no Brasil, 3 por 10 000 habitantes. Confesso que já não sei para quem escrevo.

Cabe aos fumadores uma pesada sobrecarga fiscal. Não é segredo. No entanto, entre os fumadores não predominam as classes médias nem as classes altas. As classes populares estão sobre-representadas. O imposto sobre o tabaco é tudo menos solidário. Configura um imposto focado, por que só atinge um segmento da população, e um “imposto cego e injusto porque afecta os contribuintes de igual forma, apesar das disparidades dos rendimentos disponíveis”. É uma solução de recurso que colide com o princípio da progressividade fiscal. Pagam os mais pobres para todos. Duvido que esta equação seja constitucional. Mas deve ser. Os grandes textos como a constituição costumam ser poliglotas. Uma pessoa faz uma pergunta numa língua e a resposta vem noutra.

Em muitos países, a legislação e a propaganda anti-tabaco parecem desafiar as liberdades e garantias constitucionais. Sustenta-se que é para proteger os não-fumadores, vítimas do fumo intrusivo. Este argumento da discriminação de alguns para proteger os outros é antigo. Há noventa anos, protegia-se a raça. Durante a Idade Média e a Idade Moderna, a Inquisição “salvou” muitos heréticos de si mesmos. O homem permanece feito da mesma massa. Os nichos da intolerância e do totalitarismo são fáceis de construir. A privacidade tem-se manifestado, historicamente, a principal presa do totalitarismo. Totalitarismo e privacidade são antagónicos. 

Creio nos interpretes da constituição mais do que o turista inglês acredita na limpeza das ruas do Porto. 

 

“Um inglês descia a avenida dos Aliados. Depara-se com um imprevisto no passeio. Observa e pensa:

  • Isto parece cocó, mas cocó no Porto não pode ser.
  • Com a ponta do guarda-chuva toca na anomalia.
  • Isto é mole como cocó, mas cocó no Porto não pode ser.
  • Com a ponta do guarda-chuva extrai uma amostra que aproxima do nariz:
  • Isto cheira a cocó, mas cocó no Porto não pode ser
  • Aproxima a ponta do guarda-chuva e prova.
  • É mesmo cocó, ainda bem que não pisei.

Aflige-me que tantas organizações governamentais, para-governamentais e não-governamentais se empenhem sistemática e ostensivamente em associar o fumador, acima de dois milhões de pessoas em Portugal, à morte, ao morrer e ao morto. Além de mórbido é macabro. Se esta propensão não é uma afronta à dignidade dos cidadãos, então qual é o significado constitucional de dignidade? Como é possível que um Estado democrático divulgue “ameaças de morte” aos seus cidadãos por “crime de fumo”? Como é possível que as campanhas anti-tabaco se resumam, essencialmente, a ameaças de morte? Será que existem responsáveis que acreditam que o mundo é um videojogo?

O cigarro e a morte
O cigarro, a cinza, o fumo e a morte.

Tantas organizações anti-tabaco e nenhuma pró-fumador! Este desequilíbrio desassossega-me: O que impede os fumadores de se mobilizar através de organizações e associações? A resposta mais sensata encontro-a num apontamento de Karl Marx acerca dos camponeses:

“Os pequenos camponeses constituem uma imensa massa, cujos membros vivem em condições semelhantes mas sem estabelecerem relações multiformes entre si. Seu modo de produção os isola uns dos outros em vez de criar entre eles um intercâmbio mútuo (…). Uma pequena propriedade, um camponês e sua família; ao lado deles, outra pequena propriedade, outro camponês e outra família. Algumas dezenas de elas constituem uma aldeia e algumas dezenas de aldeias constituem um Departamento. A grande massa da nação francesa é, assim, formada pela simples adição de grandezas homólogas, da mesma maneira que batatas em um saco constituem um saco de batatas.” (Karl Marx, O 18 Brumário de Luis Bonaparte, 1852).

Pulverizados enquanto massa, os fumadores portugueses constituem, tal como os camponeses de Karl Marx, um saco de dois milhões de batatas. 

O fumador suicida ou o cigarro mortal

O esplendor da carne

Claude Monet. Nature morte, le quartier de viande. 1864

Sempre admirei os sábios que dialogam teorias como quem fala do tempo. No que me respeita, ainda estou na infância do entendimento. Brinco às teorias. Não sei teorizar sem conhecer. Um pequeno pecado epistemológico. Ultrapassa-me desenrolar um novelo e voltar a enrolar outro novelo com o mesmo fio. Igual na substância, mas diferente na forma! Os fios das crianças têm na ponta um papagaio de papel: sabem se voa ou não.

Marca: McDonald’s Brasil. Título: Novos McNífico com 10 Bacons e Gran McNífico Bacon. Agência: DPZ&T. Direcção: Marcello Lima. Brasil, Janeiro 2019.

O anúncio Novos McNífico com 10 Bacons e Gran McNífico Bacon, da McDonald’s Brasil, estetiza o bacon, resgata-o da vulgaridade sem da vulgaridade o retirar. Não estará a estetização da carne associada à tentação da carne e ao ritual da sua consumição?  A estetização da carne tem um extenso lastro histórico que a McDonald’s retoma. Pintores tais como Rembrandt, Desportes, Goya, Van Gogh, Monet e Bacon dedicaram algumas pinceladas à exposição artística da carne.

Maldade por maldade

Tomás Santa Rosa (1909-1956)

A maldade e a estupidez existem? Insistem” (inspirado em Marcel Camus).

Pergunta retórica: pode uma pessoa boa ser má? Desde que se convença que está a fazer uma bondade. As maldades por bondade são as mais temíveis. Maldade por maldade, prefiro uma maldade que não tenha que louvar.

Tomás Santa Rosa, stage design for the Mancenilha ballet, 1953.

O pintor brasileiro Tomás Santa Rosa (1909-1956) não tem qualquer culpa neste relambório. Entendi, simplesmente, colocar dois quadros seus. Apetece-me também colocar, sem razão, um minuto da conversa de Jacques Brel sobre a estupidez, a maior alavanca da maldade. Vale a pena ouvir um dos melhores cantores do século XX. Pode aceder à canção L’Air De La Bêtise no seguinte endereço: https://www.youtube.com/watch?v=zR52xwAC7jM.


Extrait : Jacques Brel, interviewé par Henry Lemaire, printemps 1971
Réalisation : Marc Lobet – Via YouTube.

A lua de Natal

Adoração dos Reis Magos, Retábulo da Sé de Viseu, Vasco Fernandes (act. 1501-1542) e Francisco Henriques (act. 1500-1518).
Barry & Beth Hall. Journey of the Magi, do album: A Feast Of Songs – Holiday Music From The Middle Ages. 2002.

Nasceu o menino. Há tanto tempo! O quadro Adoração dos Reis Magos, do início do século XVI (Retábulo da Sé de Viseu, no Museu Grão Vasco, por Vasco Fernandes e Francisco Henriques) é o único que contempla um “quarto rei mago”: um chefe índio com oferendas para o menino Jesus. Vivia-se o rescaldo da descoberta do Brasil. O quadro testemunha uma capacidade de adicionar o outro, por sinal, no domínio do sagrado.
A música, alusiva à viagem dos réis, é singela (dura menos de dois minutos) mas encantadora.
A lareira, o fogo, aquece os seres humanos. Aquece os corações; aquece os fígados. Os corações, para o amor e os fígados, para a violência. A par do nascimento do menino, ocorreu o massacre dos inocentes e a fuga de Maria, José e o Menino, ainda enfaixado, para o Egipto, o seu refúgio. Os contemporâneos de Herodes não podem aprender connosco, aprendamos nós com eles!
Feliz Natal e um excelente Ano Novo.

Humanidade e inclusão

Herman Kuypers (Holanda). Babel try out. Anos 2000

Herman Kuypers (Holanda). Babel try out. Anos 2000. Babel, a história de um projecto de inclusão que acabou em segregação.

O anúncio Neymar Jr. and Teacher Kids alcança o alvo. A Humanity & Inclusion assegura, racional e emocionalmente, a mensagem. O jogador de futebol Neymar Jr. é o “embaixador”. Não sei se é um exemplo de ensino-aprendizagem, mas revela-se um bom actor. As crianças, por sinal, desfavorecidas são um suplemento de comunicação e sensibilidade. A manutenção das línguas é uma boa opção. O anúncio tem tanta qualidade que ouso desconversar. Diz Neymar Jr.: “Se eles podem ensinar, eles podem aprender”. Naturalmente! Mas na minha imaginação existem pessoas que ensinam como trombas de água e aprendem como desertos.

Anunciante: Humanity & Inclusion. Título: Neymar Jr. and Teacher Kids. Agência: Herezie (Paris). França, Outubro 2018.

Diálogo

Condenações

Sou pelos Direitos do Homem e pela dignidade humana. Sou contra o fanatismo e as ideias que matam. O anúncio Condenações, da CBN, é pedagógico e oportuno, mas o mundo das ideias não é um mundo a preto e branco.

Marca: CBN. Título: Condenações. Agência: Energy BBDO. Direcção: NOBRE. Brasil, Outubro 2018.

Circulação

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Nesta sociedade da (hiper)informação, perdemos o hábito de descobrir. O mundo passa pela ponta do nariz à velocidade de um espirro. Uma obra que não circula é uma obra que não existe. Só os estúpidos, e os distraídos, produzem ou procuram o que não circula. Quem corre na autoestrada da vida com rodas quadradas, o mais avisado é sentar-se.

Mas o astronauta de chocolate existe, e é uma delícia! E a cidade de chocolate! E a explosão de sabores e texturas! Nada como uma dentada galáctica com um dilúvio de caramelo.

Marca: Lacta 5Star. Título: Astronauta! Agência: Wieden + Kennedy Brasil. Produção: Lobo. Brasil, Maio 2018.

Marca: Lacta 5Star. Título: Cidade de Chocolate! Agência: Wieden + Kennedy Brasil. Produção: Lobo. Brasil, Abril 2018.

A máquina da felicidade

Ford Trucks

Gosto deste anúncio brasileiro. Não lhe falta nenhum parafuso. O que é a felicidade? Casar, aprender, jogar, recordar, ter filhos, conduzir. Alterando a ordem das peças da engrenagem, resulta uma nova versão das idades da vida. Na última fase, a velhice, recorda-se, revive-se a memória. Curiosamente são as máquinas e os artefactos que despoletam a felicidade: o anel; o candeeiro; as sapatilhas; a grafonola; a flor; o tablet; e o camião. Será este o nosso conceito de felicidade? Creio que não anda longe.

Marca: Ford. Título: Gears. Agência: GTB Brasil. Produção: Zombie Studio. Direcção: Paulo Garcia. Brasil, Setembro 2018.

O amor dos meus amores

Sociedade pantagruélica. o. Suspiro das Trevas. Fotografia de Fernando Gonçalves.

A gula. Suspiro das Trevas. Fotografia de Fernando Gonçalves.

Ontem, a propósito do imaginário Dior, interpretei quanto baste para uma semana. Interpretar aborrece. O excesso de interpretação faz doer a coluna desde o occipital até ao cóccix. Hoje, limito-me a ouvir. Os dedos tropeçaram-me no álbum Cripple Crow (2005), de Devendra Barnhart. Por acaso, ao pesquisar anúncios de perfumes, deparei com um anúncio da Kenzo com música do Devendra Barnhart. Vamos, portanto, ouvir Devendra Barnhart. É norte-americano, nasceu em 1981, e é membro destacado do estranho movimento New Weird America, a que pertencem também os Animal Collective. Como curiosidade cor-de-rosa, namorou com Natalie Portman. Em 2004, actuou em Braga, no âmbito do Festival para Gente Sentada.

Comercial Madly Kenzo! Feminino Eau de Toilette. Sephora Brasil. 2012.

Devendra Barnhart. Cripple Crow. Cripple Crow. 2005.

Devendra Barnhart. Inaniel. Cripple Crow. 2005.

Devendra Barnhart. Baby. What Will Be Will Be. 2009.

Natalia Lafourcade & Devendra Barnhart. Amor, amor de mis amores, Mujer Divina, 2012.