Abrenúncio
Estas leituras estão-me a dar nó em cima de nó. Sem entrançar! Demasiada luz alheia e escuridão própria. E não há lua que me alivie. Nestes casos, importa digerir lentamente, mas, mística e labiríntica, esta absorção não é pera doce. Sinto-me ignorante e sem discernimento. Se não considerasse necessária a penitência, diria que estou a ficar masoquista. Assim, temo as consequências. Abrenúncio! Talvez seja a falta de coca-cola…
Este estado de desgraça conduziu-me a experimentar a visualização de uma amostra de progressivo. O Tendências do Imaginário contempla apenas três canções dos Genesis: a primeira, “I know What I Like”, num artigo de 2014 (https://tendimag.com/2014/08/27/genesis/).; as seguintes, “Dancing with the Moonlit Knigh” e “The Carpet Crawlers”, noutro, de 2016 (https://tendimag.com/2016/07/05/genesis-2/). O link das duas primeiras foi, entretanto, desativado. Recoloco duas, por sinal, excelentes interpretações ao vivo.
Às voltas. O Ouroboros

A propósito da folia, música e dança de origem portuguesa (ver A folia portuguesa), comentou-se que continuava a inspirar novas versões, aludindo a Rita Ribeiro a um grupo célebre, sem, contudo, se lembrar do nome. Tão pouco consigo adivinhar.
Posteriormente, acudiu-me que a Rita talvez estivesse a pensar nos britânicos Penguin Cafe Orchestra. Por acaso, dias antes, ao escutar o álbum Ummagumma (1969), dos Pink Floyd ,tinha-me ocorrido que a música “The Narrow Way, Part I” prenunciava um pouco o estilo dos Penguin, cujo primeiro álbum, Music from the Penguin Cafe, foi lançado em 1976.
Às voltas com a noção de circularidade na teoria do imaginário do Gilbert Durand, a música Perpetuum Mobile, dos Penguin, acabou, também, por ressoar nos meus ouvidos.
Enfim, penso ilustrar, numa próxima comunicação, a referida noção de circularidade com a gravura do M. C. Escher “Um Encontro” (1944), que, por sinal, é capa do livro da Rita As lições dos aprendizes (2001)…

Tantas voltas que a serpente, o Ouroboros, dá! Até acaba por morder a própria cauda, renovando o ciclo.
Amigos imaginários

Promovida em jeito de anúncio de Natal, The Boy & The Octopus é uma curta-metragem “mais-que-perfeita” da Disney. Caprichada, carinhosa e criativa quanto baste, inspira-se noutras figuras infantis “mais-que-célebres”. A amizade, imaginária ou não, costuma ser boa companhia. Amigos imaginários, quem os não teve?
O que é um amigo imaginário?
Dito pelo ChatGPT:
ChatGPT
“Um amigo imaginário é uma figura criada pela imaginação de uma pessoa, geralmente uma criança, que interage com ela como se fosse uma entidade real. Esse “amigo” pode ter uma forma específica (humana, animal, ou até algo completamente fantástico) e desempenhar um papel importante no mundo interno e nas brincadeiras da criança.
Características de um amigo imaginário:
- Criação subjetiva: Ele existe apenas na mente de quem o cria [Mas pode ser percebido como real].
- Companheirismo: Muitas vezes, o amigo imaginário serve como um confidente ou parceiro para aventuras imaginativas.
- Flexibilidade: Ele pode mudar de personalidade, aparência ou função de acordo com as necessidades e criatividade da criança.
- Função emocional: Oferece conforto, ajuda a lidar com sentimentos ou situações difíceis, como solidão, medo ou mudanças.
Por que as crianças criam amigos imaginários?
• Desenvolvimento da criatividade: É uma manifestação natural da imaginação e da habilidade de criar histórias.
• Exploração social: Permite que a criança pratique interações sociais e explore conceitos como amizade e resolução de conflitos.
• Autonomia emocional: O amigo imaginário pode ajudar a criança a processar emoções e desenvolver uma compreensão do mundo ao seu redor.
O amigo imaginário é algo normal?
Sim, é absolutamente normal, especialmente em crianças entre os 2 e 7 anos. Não é sinal de problemas psicológicos; pelo contrário, pode indicar uma mente criativa e saudável. Em alguns casos, até adultos podem ter figuras imaginárias para refletir ou lidar com situações emocionais.
Esses amigos costumam desaparecer com o tempo, geralmente quando a criança cresce e começa a investir mais nas relações reais” (ChatGPT, 19.11.2024).
Dança animal na publicidade 3. Girinos
Um bailado com girinos! Por que não? Em criança, como o menino do vídeo, também pasmava a observar o movimento gracioso dos ” cabeçudos” nas águas mais paradas do rego perto de casa. Vale a pena esperar 25 segundos pela espantosa coreografia coletiva que culmina o anúncio “Tadpoles”, da Freeview. A canção You Really Got Me, dos The Kinks, estreou em 1964.
Dança animal na publicidade 2. Camaleão
Se a dança do orangotango, da dinamarquesa Rynkeby, é musculada, a do camaleão, da britânica Berocca, é estilosa, se não dengosa. Compreende-se: a bebida com “Berocca, contendo vitaminas B1 e B2, ajuda a libertar energia e ácido pantoténico, o que contribui para o desempenho mental”. Bebidas diferentes, efeitos e danças diferentes. A canção, Beware Breaks, é de Panjabi MC (2002).
Cantoria animal na publicidade 5
Na série de cantorias animais na publicidade falta algo, não falta? Isso mesmo, um duo romântico! O anúncio Cat & Budgie, da Freevieu TV, colmata essa falha.
Sublimação da pedra
Chove! As ideias pingam. Acontece-me desconversar:
– Devíamos fazer mais exames médicos. Conhecíamo-nos melhor. Se ando meio torto, não é por causa do computador, mas por causa da pedra na vesícula. Inclina-me para a direita.
Reacção pronta do meu rapaz mais novo:
– A tua sorte é não fazeres exames à cabeça!
Só uma música invulgar dos anos setenta me pode recuperar.
Steve Harley & Cockney Rebel. Sebastian. The Human Menagerie. 1973. A montagem do vídeo não é da minha autoria.
O feitiço da mercadoria
“Quem dá aos pobres empresta a deus”; “quem dá o que tem a mais não é obrigado”; “quem dá o que tem acaba a pedir”. Três provérbios, três filosofias de vida: a economia da salvação; a economia da distribuição; e a economia da perdição. Três visões distintas mas compatíveis: quem dá o que tem não é obrigado a mais, mas pode acabar a pedir.
A dádiva é um “fenómeno social total”, imprescindível à coesão e à reprodução sociais, cujos princípios e regras Marcel Mauss abordou no Ensaio sobre a dádiva (1925). A dádiva e a contradádiva geram um fluxo de comunicação e comunhão que entrelaça, interna e externamente, os grupos e as sociedades (ver Malinowski, Bronislav, Argonautas do Pacífico Ocidental, 1922).
O anúncio Mum’s Birthday, da Cadbury’s permite-me repetir uma ideia que me é cara: a compra pode não ser um ato de egoísmo ou de alienação, pode relevar de uma dádiva de si, de uma entrega pessoal e, eventualmente, de um gesto sacrificial. Com a mercadoria segue uma parte do comprador. O anúncio da Cadbury’s ilustra, primorosamente, em escassos segundos, uma realidade que escapa aos aristocratas do espírito. A criança dá amor com sacrifício pessoal. O vendedor é cúmplice: não impede o sacrifício da criança, apenas devolve, “profissionalmente”, o troco: o unicórnio, jóia prima do tesouro infantil. A mãe também entra, emocionada, no jogo: aquele chocolate sabe a amor. Receber é uma arte.
Marca: Cadbury’s. Título: Mum’s Birthday. Agência: VCCP. Direcção: Frédéric Planchon. Reino Unido, Janeiro 2018.
Do mais forte ao mais fraquinho: o gato, o rato e o pintainho.

Luís Sepúlveda. História de um gato e de um rato que se tornaram amigos. Ilustração de Paulo Galindro.
Nos contos e nas fábulas, felinos e roedores ora são complementares, como na fábula de Esopo; ora ficam amigos, como no conto de Luís Sepúlveda (História de um gato e de um rato que se tornaram amigos), ora se envolvem em brigas intermináveis, como o Tom e o Jerry. E qual é a relação dos gatos com as aves? Silvestre, o gato, não dá tréguas a Tweety, o canário. No anúncio Best Friends, da Deli-Catz, o gato e o pintainho são amigos inseparáveis. Até que um dia a fome come a amizade. Este anúncio aposta no desencanto. Fantasia à parte, o mais fraco é o mais fraco. A galinha pôs o ovo… E o gato papou-o todo. Gosto de anúncios impertinentes que rematam em rabo de peixe absurdo. Alimente o seu gato se não quer que ele lhe coma o passarinho. O meu rapaz mais velho tem um gato, o Moriarty, que não precisa ter fome para morder e rasgar tudo quanto é papel. É o seu luxo! Dava para mascote de uma instituição que não me ocorre o nome.
Marca: Deli-Catz. Título: Best friends. Agência: Adam&Eve DDB (London). Direcção: Keith Schofield. Reino Unido, Setembro 2017.
O Coração da Terra. Os Direitos do Homem
A Declaração Universal dos Direitos do Homem fez esta semana 70 anos. A Amnistia Internacional celebrou a efeméride com um belo anúncio. Os defensores dos direitos humanos marcam presença em todas as paisagens. Bem haja! Os abusadores, também, em todas as paisagens. Abusos inumanos.
Num encontro recente, do Mestrado de Comunicação, Arte e Cultura, ouviram-se canções de Chico Buarque e do José Afonso contra a repressão política. Acudiu-me o chileno Victor Jara, designadamente as canções Te Recuerdo Amanda (1969) e El Derecho de Vivir en Paz (1971). Como Victor Jara lembra Victor Jara, acrescento a canção Manifesto (1974). Após o golpe militar dirigido por Augusto Pinochet, Victor Jara foi preso, esmagaram-lhe as mãos com coronhadas e, no dia 16 de Setembro de 1973, foi executado no estádio de Chile, em Santiago. O seu corpo, com 44 marcas de bala, foi abandonado num matagal.
Conheci a obra de Victor Jara há mais de quarenta anos. Directamente ou através da voz de Violeta Parra e Joan Baez. Continua a sensibilizar-me. Ainda conservo dois vinis do Victor Jara. Nesse tempo, acontecia-me pensar com o coração.
Anunciante: International Amnisty. Título: Universal Declaration of Human Rights. Agência: Eallin. Direcção: Mustashrik. Reino Unido, Dezembro 2017.
Victor Jara. Te Recuerdo Amanda. Pongo en Tus Manos Abiertas. 1969.
Victor Jara. El Derecho de Vivir en Paz. El Derecho de Vivir en Paz. 1971.
Victor Jara. Manifiesto. Manifiesto. 1974.



