Archive | Fevereiro 2016

Alegorias do tempo

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Dvein

O anúncio Sculpture, dos Dvein, apresenta uma criatura híbrida, biface, assumidamente simbólica:

Overall the sculpture embodies the duality found in everybody. The sculpture presents what the future expects from us and what we have left behind, all in a visual metaphor made of this elements.We have two faces, one facing the past and the other one facing the intriguing future, an artificial construction of what is expected.The tentacles represent the organic order of the past, developing in unexpected ways, and the future is represented by the bust, geometric, perfectly handmade, but menacing and attracting. All charged by a motor, life, propelling us forward” (Dvein).

Marca: rdio. Título: Sculpture. Direcção: Dvein. 2014.

Composições híbridas combinando partes humanas, animais e técnicas surpreendem-nos cada vez menos. Curiosamente, figuras híbridas como as actuais já existem há séculos. Pense-se, por exemplo, nas quimeras das iluminuras ou nos desenhos pantagruélicos de Desprez (ver Criaturas Pantagruélicas 1). Recuemos, portanto, das luzes do bestiário multimédia para as sombras do paganismo românico. As figuras bifaces e trifaces não são raras (ver Três faces e um pescoçoAs três faces de Cristo; e As duas faces: imagens de Cristo). Encontram-se, por exemplo, nos cachorros das igrejas românicas, como o “Janus”, “companheiro” de São Martinho, na igreja de San Martin de Artaíz (séc. XII)

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Igreja de San Martin de Artaíz. Navarra. Séc. XII.

“El dios Jano me mira con miradas extrañas y diferentes. Según donde me coloque hay matices en ella. Mirada profunda y fija iluminada por la luz. Mirada de complicidad medio en sol medio en sombra.Los tres rostros del tiempo nos hablan del pasado, del presente y del futuro. Siempre en cambio. Siempre con matices. Siempre inmutable. Tres y uno. Dios pagano cristianizado. Tres rostros distintos. Tres rostros iguales. Tres personas distintas y un solo Dios verdadero, dice su credo.
Muy fuerte parece que fue la influencia romana en esta zona, pues por cinco veces a lo largo de los siglos XII, XIII y XIV, los representantes de la Iglesia Católica tuvieron que acudir a plasmar ante sus gentes esta figura y convencerles de que era la representación del Padre, del Hijo y del Espíritu Santo” (Simeón Hidalgo Valencia, Artaíz – Luz Equinoccial: http://simeonhidalgo.over-blog.com/tag/artaiz/2).

 

15.  Iglesia de San Martín de Tours. Ardanaz (Izagaondoa, Navarra). Janus. Sec. xiv.

Iglesia de San Martín de Tours. Ardanaz (Izagaondoa, Navarra). Janus com as chaves do tempo. Sec. xiv.

Há formas de representar o tempo que resistem ao tempo.É o caso da imagem de Janus. O mesmo sucede, ao nível cósmico, com a simbologia do falo.

14. Igreja de San Martin de Artaíz. Falo

Igreja de San Martin de Artaíz. Falo.

Iniciámos o artigo com um híbrido pós-moderno (Sculpture, dos Dvein). Terminámos  numa igreja românica de Navarra. Esta errância é fado de quem não usa bússola. Pode invocar-se a comparação, confrontar o diferente. Mas não convence. Comparamos como o burguês Jourdan de Molière falava em prosa sem o saber.  Os meus colegas acham graça quando afirmo que a minha sociologia é vadia. Sou, porém, o único discípulo. Concordo que é mais avisado traçar o caminho antes de partir e, se possível, prever o fim. Menos surpresas, menos descobertas e mais resultados esperados. No que me diz respeito, basta-me aprender. Entretanto, faça-se o caminho ao caminhar (António Machado).

“Eis o nosso estado verdadeiro; é o que nos torna incapazes de saber com segurança e de ignorar totalmente. Nadamos num meio termo vasto, sempre incertos e flutuantes, empurrados de um lado para o outro. Qualquer objeto a que pensemos apegar-nos vacila e nos abandona, e se o perseguirmos foge à
perseguição. Escorrega-nos entre as mãos numa eterna fuga. Nada se detém por nós” (Blaise Pascal).

Galeria de imagens da Igreja de San Martín de Artaíz. Séc. XII. Navarra.

 

Memória

LOBO ANTUNES 1A imaginação é a memória fermentada. Quando se perde a memóriaperdese a faculdade de imaginar (António Lobo Antunes).

A memória não é reacionária. A memória é o principal recurso de que dispomos para aprender que o futuro é imprevisível. O futuro é imprevisível não obstante as prospetivas, os projetos, os programas e as medidas inadiáveis. O futuro é imprevisível apesar das ciências, das técnicas e dos peritos. Relancem o olhar para trás! O que aconteceu às previsões e aos projetos mais robustos? Erraram, felizmente. Que vai ser da Europa daqui a dez anos? A memória não é reaccionária, “lembra” que o presente e o futuro são relativos e incertos. Recordar e imaginar faz bem à sabedoria e à capacidade de decisão.

Segue uma canção grega de Mikis Theodorakis, Asma Asmaton (Mauthausen), interpretda por Maria Farantouri. Com imagens do Holocausto.

Positividade

FAD Create

Fiquei agradavelmente surpreendido pela campanha “construye tu mundo” da ONG espanhola FAD (Fundación de Ayuda contra la Drogadicción). Acrescento, por isso, um segundo anúncio. Repito o que escrevi acerca do primeiro: é possível fazer anúncios de consciencialização de elevada qualidade apostando na criatividade positiva.

“Try! Create a why not, a just because. Create a place to be, create a nonsense. Create what you like, but create something, because the more things you create in your life, the less room is left for drugs” FAD, Create).

Anunciante: FAD. Título: Create. Agência: Publicis, Spain. Direcção: Marc Coronas & Lorena Medina. Espanha, Março 2015.

Peixes voadores

 

Johnnie Walker. Fish

Há anúncios que fazem cócegas no diafragma, regalam a vista e desafiam o raciocínio. Humor, estética e imaginação. FlyBoardFishing, da Fishersman’s Friend, surpreende uma sequência  de voo em flyboard e pescaria de mergulho. Tudo graças ao sopro de um velho com pulmões invejáveis. De perder o fôlego! Fish, da Johnnie Walker, estreado em 2003, é uma obra-prima da publicidade. “Antes do primeiro passo”, os seres humanos nadam, entre saltos e mergulhos, como golfinhos, num movimento semelhante ao do pescador do anúncio FlyBoardFishing. De suster o fôlego! No anúncio Fish, carregar em HD.

Marca: Fisherman’s Friend. Título: FlyBoardFishing. Agência: Walker Zurich. Direcção: Axel Laubscher. Suíça, Fevereiro 2016.

Marca: Johnnie Walker. Título: Fish. Agência: BBH London. Direcção: Daniel Kleinman.  Reino Unido, 2003.

 

 

Nem apocalípticos, nem integrados

Chris Cunningham

Chris Cunningham

Retomando o artigo precedente, as cabeças boquiabertas grotescas do vídeo Magma,dos Dvein, lembram muitas outras obras. Por exemplo, o vídeo musical Come To Daddy (1997), de Chris Cunningham, para os Aphex Twin. Desconcertante. Trata-se de um vídeo musical que se tornou um clássico, tal como outros vídeos dirigidos por Chris Cunningham: Only You (1998) dos Portishead, Frozen (1998) da Madonna e All is Full of Love (1999) da Bjork.

Umberto Eco

Umberto Eco

Por um tempo, convém distrair a memória para dar oportunidade a outros pensamentos. Para não cair na vertigem das listas (Umberto Eco, 2009). Gosto do Umberto Eco. Autor de uma obra vasta e diversificada. Felizmente, não se deixou seduzir pela moda de se concentrar em uma ou duas ideias. Apesar de ser um grande erudito, não cita apenas autores germânicos. Frequentava os arquivos, mas não dispensava observar o mundo da vida (ver, por exemplo, Viagem na Irrealidade Quotidiana, de 1983). Perdemos um sábio! Não faltam, porém, escritores de artigos e mestres em infografia burocrática. A minha mulher ofereceu-me, há anos, A Vertigem das Listas e o meu filho ofereceu-me, há meses, o último livro do Umberto Eco: O Número Zero (2015). Conhecem bem as minhas taras.

Aphex Twin. Come To Daddy. Dir. Chris Cunningham. 1997.

Aflição

Pink Floyd. The Wall.

Pink Floyd. The Wall.

Auguste Rodin. A tempestade. 1886-1901.

Auguste Rodin. A tempestade. 1886-1901.

Mais um vídeo dos Dvein, desta vez um vídeo musical. Dos Dvein para os The Vein. Uma erupção de rostos perturbadores. Lembram outros rostos, por exemplo, o Grito, de Edvard Munch, a Tempestade, de Auguste Rodin ou a animação do filme The Wall, dos Pink Floyd. Mas lembram, sobretudo, os rostos de Francis Bacon (ver galeria de imagens). Convém, no entanto, precisar que mais do que pelos rostos, o vídeo dos Dvein sobressai pelo movimento, o fluxo magmático, em que estes se movem, se debatem, se desfiguram e se transformam. Um trabalho técnico e criativo notável.

Dvein. Magma. 2013.

Francis Bacon: galeria de imagens

 

Velho do Restelo

FAD Sala de espera

A publicidade dita de consciencialização suscita algumas reservas. Às vezes, engana-se no alvo. Em vez de denegrir o produto ou o processo, denigre o consumidor ou o portador (por exemplo, o alcoólatra ou o condutor infrator). Aponta ao vício ou ao dano e acerta na vítima. É certo que as vítimas não são anjos, mas nós também não somos os reis magos. A publicidade de consciencialização pode produzir efeitos nocivos. Acerta-se na vítima e falha-se o objetivo. Descuida-se a adesão e a eventual conversão das vítimas. Alguns anúncios sofrem de excesso de focalização. Têm mais palas do que olhos. Embrenham-se em túneis do entendimento. Mas o efeito mais nocivo de alguma publicidade de consciencialização prende-se com o modo, com a orgânica, dos anúncios. Raros resistem ao rebaixamento das vítimas, dos “protagonistas”. Para lutar contra um vício ou uma mentalidade, serão imprescindíveis imagens de uma mulher a vomitar na cara de outra?

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Theodor W. Adorno

Um homem a agredir à paulada uma mulher transeunte? Comparar alguém a um zombie? Pavonear um carro carnavalesco com um coro de doentes com cancro da boca, da garganta e dos pulmões? Cena mais grotesca do que as aberrações dos filmes Galerie des Monstres (1924) e Freaks (1932). Vale a pena ler A Personalidade Autoritária (Adorno et alii,1950), principalmente a parte relativa à Escala F (F de fascista; ver artigo de Theodor Adorno, em anexo).

Acrescem questões de foro ético, senão civilizacional: é desejável amesquinhar os outros? E exibir publicamente a miséria alheia? Com meios de comunicação que atingem toda a população? Que atitudes e que valores queremos promover? Um estudo de Esmeralda Cristina Tauber mostra que a maioria das crianças não percebe estes anúncios. E os adultos? Eu também não. Maquiavel sustentou que os meios justificam os fins. Se o disse, pelos vistos, nunca o escreveu. No entanto, para justificar os meios com os fins não é preciso dizer nem escrever, basta fazer.

Gosto de desconversar. O anúncio espanhol La gran sala de espera, da FAD (Fundación de Ayuda contra la Drogadicción) representa o tipo de anúncio de consciencialização digno de particular apreço. Os toxicodependentes são caracterizados como pessoas comuns, sem o mínimo sinal de distinção. Nenhuma degradação, nenhum estigma. O slogan dirige-se a todas as pessoas, toxicodependentes ou não: “los que esperan el momento perfecto para hacer algo que sepan que quizás nunca lo sea. No esperes para construir”.

Anunciante: FAD. Título: La gran sala de espera – Chica. Agência: Publicis. Direcção: Toño Mayor. Espanha, Fevereiro 2016.

T. W. Adorno, La théorie sous-jacente à la construction de l’échelle d’évaluation des potentialités fascistes (échelle F), Tumultes 2004.2 (n° 23), p. 99-122.

Destribalizar

Syd Barret (1946-2006)

Syd Barret (1946-2006)

Em “tempo de tribos” (Michel Maffesoli), destribalizar é arriscado. Há tantas tribos! Umas cristalizadas e sólidas, outras moles e passageiras. Todas adubam a comunhão e a identidade. Destribalizar pode perfurar tecidos com laços frouxos e compromissos leves (Zigmunt Bauman).O défice de laços sociais, eventualmente a solidão, afasta-nos do húmus da interacção social (Michel Maffesoli).  As tribos constituem uma componente importante da vida social. Mas subsistem outras componentes. Por exemplo, os nichos e os grupos primários (Charles Cooley), tais como os retiros, a família e os amigos. Na aritmética social, meia dúzia de laços íntimos pode rivalizar com uma chuva de participações tribais. De qualquer modo, a destribalização comporta custos: menos solidariedades mecânicas, menos ecos simbólicos e menos combustões instantâneas. Acresce que a destribalização, o isolamento, é encarada como um ato suspeito, imputável à soberba, à melancolia, à misantropia, à depressão, ao autismo, à esquizofrenia ou a um outro distúrbio mental qualquer. A que propósito vem este reportório? A memória de Syd Barrett, membro fundador e mentor dos Pink Floyd, que foi substituído pelo amigo David Gilmour. Um dos compositores mais criativos da história do rock. Segue o vídeo Shine on crazy diamond, uma homenagem dos Pink Floyd a Syd Barrett.

Pink Floyd. Shine on crazy Diamond. Wish you were here. 1975.

Via indireta

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Há uma solução de amostragem ilustrada pelo seguinte provérbio: se não consegues chegar directamente às pulgas, procura os cães”. No anúncio Avós, do Continente, o princípio não é o mesmo mas não se afasta: se as mercadorias se destinam a crianças, o melhor é dar o protagonismo aos avós. O provérbio do segundo anúncio, Faster than Ronaldo, da Hot Internet, é mais óbvio: seja qual for a mercadoria, Cristiano Ronaldo é solução.

Marca: Continente. Título: Grandparents. Agência: Fuel Lisbon. Direcção: Alexandre Montenegro. Portugal, Janeiro 2015.

Marca: Hot. Título: Faster than Ronaldo. Israel, Fevereiro 2016.

 

A corrida dos mortos vivos

Brooks

“Sou um morto / Ainda vivo.” (Jacques Brel. La Chanson de Van Horst. J’Arrive. 1968).

A fronteira entre a vida e a morte é tão certa quanto incerta. Há quem visite o mundo dos mortos (Dante), há quem ressuscite (Lázaro) e há quem, como os zombies e as almas penadas, viva com um pé em cada lado. Nem todos temem o triunfo da morte: decapitado e ressuscitado, Epistémão não se importava de voltar para o inferno (François Rabelais, Pantagruel). Comunicamos com a morte nos cemitérios, com recurso à feitiçaria e nas mesas girantes. As almas errantes desassossegam em busca de sossego. A morte é sinistra para quem a teme. A morte é silêncio e alvoroço, ceifeira e espantalho, fatalidade e caos. No imaginário grotesco, a morte é, simultaneamente, medonha e risonha. Esta ambivalência percorre os videojogos, os vídeos musicais, o cinema e a publicidade.

No anúncio The Rundead, da Brooks, a morte descai para o lado espantalho. A ameaça inicial é o prelúdio de um delírio burlesco. À medida que correm com as sapatilhas Brooks, os zombies sofrem uma metamorfose: os corpos revitalizam-se e a relação com os vivos melhora. Este é o primeiro anúncio da marca. Bons auspícios! Os egípcios colocavam uma diversidade de objectos nos túmulos para os acompanhar na última travessia. Quando eu morrer, quero um par de sapatilhas no caixão, de preferência Brooks.

Marca: Brooks. Título: The Undead. Agência: Leo Burnett. Direcção: Björn Rühmann. USA, Fevereiro 2016.