Archive | Fevereiro 2016

Dvein: Imaginar a Moda

Dorna. Purity.

“Formed in Barcelona in 2007, Dvein is a collaborative collective that pushes the limits of live action and CGI storytelling, helmed by creative directors Teo Guillem and Carlos Pardo. With a background in fine art and design, the collective merges the physical with the digital world to craft sleek visual effects infused with their own distinctive, organic aesthetic. With an experimental, design-driven culture at its core, Dvein combine live action with animation to pursue a unique visual language in all their work across cinema, broadcast, music video, art and installation” (http://www.dvein.com/info/about).

Admiro o trabalho, extenso, dos Dvein. O que mais impressiona é a construção, tecnicamente apurada, de objectos e imagens disformes em compulsiva mutação. Omar Calabrese diria “monstruosidades”.

Estes três vídeos são dedicados à moda.

O primeiro, Factory, para Jean Paul Gaultier, estreado em Janeiro de 2016, comporta uma negociação entre estilos: dos Dvein e de Jean Paul Gaultier. Inovar na tradição, eis a questão.

Marca: Jean Paul Gaultier. Título; Factory. Agência: Melle nöi. Direcção: Dvein. França, Janeiro 2026.

O segundo, o anúncio Purity, para a Dorna, presta-se mais ao jeito dos Dvein, mormente a apetência pela estetização de fluídos.

Marca: Dorna. Título: Purity. Agência: Ogilvy Frankfurt. Direcção: Dvein. 2015.

O terceiro vídeo regista uma projecção de hologramas durante um desfile da Diesel (Liquid Space). O final com a imagem a entrar na garrafa é genial.

Dvein. Diesel’s Liquid Space fashion show. Florença. 2007.

Regressaremos noutros artigos à obra dos Dvein.

Humildade

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Wim Mertens

Tenho andado ocupado com actividades que não me vão ficar na memória. Lixo biográfico! Retive, isso sim, um concerto de Wim Mertens. Há longos anos. Seguem duas músicas: uma ao vivo e a outra ilustrada.

Wim Mertens. Often a bird. Tenerife. Tenerife Symphony Orchestra. 2008.

Wim Mertens. Humility. After Virtue.1988.

O homem e o touro

Sculpture, outside EU offices in Brussels, of Europa riding the bull .

Sculpture, outside EU offices in Brussels, of Europa riding the bull .

Um homem montado num touro, em queda livre. Eis uma ideia preciosa. Insolitamente, o homem devora uma barra Butterfinger enquanto cai vertiginosamente. Um bom pretexto para imagens fabulosas, numa paródia do rodeo e do paraquedismo. O voo do touro e do cavaleiro lembra o rapto de Europa por Zeus que, disfarçado de touro, desliza sobre a água com Europa no dorso. Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

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Marca: Butterfinger. Título: Cowboy. Agência: Gps Advertising. Direcção: Armando Bo. USA, Fevereiro 2016.

Cowboy, da Butterfinger, integra o lote dos cinquenta anúncios do Super Bowl. Foi dirigido pelo argentino Armando Bo, figura consagrada do cinema e da publicidade. Em 2014, ganhou o Óscar do melhor argumento original, pelo filme Birdman. Costuma recorrer a paródias surpreendentes, desligadas, por vezes, dos produtos publicitados. Voltaremos, em breve, ao trabalho de Armando Bo. Comecemos por acrescentar o anúncio brasileiro Great Preparation, da Budweiser, uma paródia do western Spaghetti e das artes marciais orientais.

Marca: Budweiser. Título: Great Preparation. Agência: Africa. Direcção: Armando Bo. Brasil, 2012.

 

O que é nacional é bom

O anúncio Resources, da WeatherTech, incita os norte-americanos a consumir norte-americano. O anúncio Not Backing Down, da Budweiser, destaca como qualidade da cerveja a não importação (NOT IMPORTED). São anúncios votados a uma audiência gigantesca, dentro e fora dos Estados-Unidos.


Marca: Budweiser. Título: Not backing down. Agência: Anomaly New York. USA, Fevereiro 2016.

Lembram-se do slogan de uma marca de bolachas: “o que é nacional é bom”? Foi antes do euro.


Marca: Nacional. Slogan: O que é nacional é bom. 1988.

A questão do proteccionismo é complexa. Tem várias faces. A Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores apresenta as seguintes reivindicações ao Ministro da Agricultura:

 4.  Solicitar que o senhor ministro pressione a Comissão Europeia no sentido de iniciar no imediato reuniões técnicas com as autoridades russas, de forma a pôr término ao embargo russo à carne de porco europeia;

5. Exigir a assinatura urgente do contrato de exportação de carne de porco portuguesa para a China e Coreia do Sul;

8. Incentivar o consumo da carne de porco, exigindo que todas as cantinas públicas comprem carne de porco proveniente de animais criados e abatidos em Portugal (http://www.suinicultura.com/fpas2013/index.php?nid=401, 08 de Fevereiro de 2016)”.

Perfilhando o espírito da lusofilia mercantil, a Associação Empresarial de Portugal e o Ministério da Agricultura lançaram, no âmbito de um protocolo celebrado em 2011, o programa, pouco discreto, “COMPRO o que é nosso”. O que é nacional é tão bom!

 

 

 

 

Renascimento mecânico

Bajaj v rebirth. Sensação de déjà vu.

Bajaj v rebirth. Sensação de déjà vu.

Alguns profetas proclamaram o fim das narrativas. Entretanto, as narrativas continuam, algumas colossais, tais como o (neo)liberalismo e o terrorismo. Este anúncio indiano é uma narrativa de morte e renascimento, cujos protagonistas são objectos técnicos. O equivalente dos brinquedos de E.T.A. Hoffmann. O heróico porta-aviões Vikrant renasce, por transmutação, no motociclo Bajaj V. A aura dos símbolos também se transfere.

Marca: Bajaj V. Título: Rebirth. Agência: Leo Burnett. Direcção: Rajesh Saathi. Índia, Fevereiro 2016.

Comprar o que é nosso

There’s a huge natural resource right here in America.It’s not the land, water, or power sources – it’s the people.At WeatherTech®, we celebrate American workers.

Marca: WeatherTech. Título: Resources. Agência: Pinnacle Advertising. USA, Fevereiro 2016.

Mais um anúncio para a Super Bowl. A WeatherTech, uma empresa norte-americana de acessórios de automóveis, desafia os norte-americanos a consumir norte-americano. Porque a gente merece. Trata-se de uma iniciativa de pendor proteccionista. Nada que a tradição do país não justifique. Nem todos são paladinos do mercado livre como a Comunidade Europeia, adepta da política da abertura recíproca dos mercados. De qualquer modo, atendendo ao objectivo, o anúncio está bem conseguido. A oportunidade cria o ladrão: não resisti a fazer um gráfico com as taxas de crescimento do produto interno bruto da União Europeia (a 19), dos Estados-Unidos e de Portugal. Só para exercitar a vista. Curiosamente, e com alguma perversidade, esta apologia do trabalho e do trabalhador norte-americanos traz-me à memória o elogio do trabalho nos selos de correio dos países da União Soviética.

Gráfico: Evolução da taxa do PIB da União Europeia (19 membros), dos Estados-Unidos e de Portugal, entre 2004 e 2014.
Evolução da Taxa do Produto Interno Bruto 2004-2014
Fontes: http://ec.europa.eu/eurostat/tgm/download.do?tab=table&plugin=1&language=en&pcode=tec00115 e http://www.multpl.com/us-gdp-growth-rate/table/by-year.

 

 

Discos pedidos

 

Temos uma Europa de cidadãos, não temos uma Europa dos cidadãos. As decisões nunca moraram tão longe, nem se concentraram tanto. Esperava-se que a União Europeia aproximasse os povos, afinal separa-os. Abertura ao exterior, clausura interna. Nunca senti Portugal tão longe da Itália. Os italianos deixaram de compor música? De fazer filmes? De escrever livros? Ressalvando a moda, o “Vaticano” e o programa Erasmus, instalou-se uma ignorância recíproca. Recordo que no programa de discos pedidos Quando o Telefone Toca, do Rádio Clube Português, ainda no tempo de Salazar, as canções italianas figuravam entre as mais concorridas. Era o programa preferido de minha tia, que, volvido meio século, vai reouvir Non Ho L’eta (1964), de Gigliola Cinquetti, Non Son Degno di Te (1965), de Gianni Morandi; ou L’Arca di Noe (1969), de Sergio Endrigo. Entre os filmes anunciados nas casas de cinema era habitual constar um ou outro italiano. Nos livros publicados pelo Círculo dos Leitores, criado em 1971, os autores italianos destacavam-se. O que aconteceu? Um colapso da arte ou um colapso do gosto? A jangada de pedra ibérica está a afastar-se da jangada de mármore italiana? A não ser colapso da arte nem do gosto, será um problema de comunicação associável à arquitectura europeia? Uma comunidade plural que pretende falar a uma só voz corre o risco de ficar afónica.

Gigliola Cinquetti, Non Ho L’eta. Original 1964.

Gianni Morandi, Non Son Degno di Te: =riginal 1965.

Sergio Endrigo, L’Arca di Noe. Original 1969.

 

Great is great; small is beautiful.

cartoon-crowd-computer-room-10547481A aranha tece redes. A rede abriga aranhas. Valham-nos os fios de Ariana. A expansão das teias digitais é diversificada. Ora emergem redes galácticas, ora florescem páginas de ancoragem local. Nas primeiras, a gente espalha-se, nas segundas, aconchega-se. Aproxima-se o próximo. Great is great; small is beautiful.

Marca: Grupo Laureate. University of Europe Laureate. Título: For all you are. For all you can be. Agência: Grey Madrid. Direcção: Fever. Espanha, 2016.

Pisar o risco

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A morte é central no imaginário grotesco. A gravidez e o nascimento, também. Multiplicam-se os anúncios que recorrem a estes temas. Umas vezes, aproximando-os, como no anúncio Champagne da XBOX (ver O parto na modernidade avançada ), outras, separando-os, como no anúncio Ultrasound, da Doritos, para o Superbowl. Gravidez e parto, sem morte, mas com gula. O apetite excessivo associado à gravidez; o apetite deslocado do pai; o apetite prodigioso de bebé, no ventre da mãe. Tudo possível graças às maravilhas mágicas da técnica. O anúncio mergulha-nos no âmago do grotesco: a gravidez, o nascimento, a gula, o corpo e a técnica. Faltam, por exemplo, a morte, a religião e o poder. Alguém anda a saltitar nos limiares da conveniência? Trata-se de uma obsessão do grotesco: pisar o risco.

Marca: Doritos. Título: Ultrasound. Direcção: Peter Carstairs. Austrália, 2016.

Quatro patas e uma cauda

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“Recorro aos animais para ensinar os homens” (Jean de La Fontaine, Dedicace a Monseigneur Le Dauphin, Fables, Livre Premier).

A Eduarda enviou de Bruxelas o anúncio Wiener Stampede, da Heinz Ketchup, do Superbowl 2016. O Superbowl é a final da liga de futebol americano, o evento desportivo com maior audiência nos Estados Unidos e o segundo a nível mundial (ultrapassado pela final da liga dos campeões da UEFA). A emissão de um anúncio de 30 segundos pode custar 5 milhões de dólares. São “anúncios de topo”. O anúncio Wiener Stampede, da Heinz ketchup, apresenta uma debandada de hot dogs com quatro patas. O nosso entusiasmo com estas correrias colectivas deve envolver algum arquétipo tribal guerreiro. De qualquer modo, funciona. Acrescento um segundo anúncio, também da Superbowl, Doritos Dogs, da Doritos, que destaca a astúcia e a persistência caninas.

Marca: Heinz. Título: Wiener Stamped. Agência: David / Miami. Direcção: Jeff Low. USA, Janeiro 2016.

Marca: Doritos. Título: Doritos dogs. Agência: Direcção: Jacob Chase. USA, Novembro 2015.