Archive | Emigração RSS for this section

“A (re)construção da figura do emigrante”

jose-malhoa-o-emigrante-1918

José Malhoa. O emigrante. 1918.

O jornal Público de hoje (05.03.2017; online 04.03.2017) inclui o artigo “A (re)construção da figura do emigrante”, da autoria de Ana Cristina Pereira. Também estou na fotografia. Ninguém como a Ana Cristina Pereira para nos estimular a falar. É uma jornalista amiga do tempo. As coisas acontecem quando estão prontas para acontecer. Mais do que discorrer sobre pessoas, gosta de aprender com as pessoas, de as sentir no mundo. O resultado traduz-se em livros e artigos inconfundíveis.

Para aceder ao artigo, carregar no seguinte endereço: https://www.publico.pt/2017/03/04/sociedade/noticia/a-re-construcao-da-figura-do-emigrante-1763881.

 

Era uma vez a morte

william-blake-death-on-a-pale-horse-c-1800

William Blake. Death on a pale horse, c 1800.

Às vezes, as ideias nascem por cesariana. Há quem sonhe com a própria morte. Vejo-me tão trespassado que até me custa acordar. Mas os oráculos garantem que é bom sinal: “Sonhar com a própria morte tem um significado positivo por isso não se preocupe e fique com medo, pois, sonhar com morte é sinal de prosperidade e saúde, vida longa, é sinal de que algum acontecimento grande poderá acontecer em sua vida” (http://significadodossonhosonline.net/significado-dos-sonhos-com-morte.html). Pior do que sonhar com a própria morte é viver a própria morte. É o que sucede com o simulacro do anúncio Your Funeral do Institut Belge pour la Sécurité Routière: arautos fúnebres e almas atónitas. Uma emoção do outro mundo.

Quando andava na escola primária alguns professores gritavam tão alto que nem se ouvia o sino. Além da acústica, preponderava a mecânica pedagógica: palmatória, régua, cana. Há quem sustente que o melhor método para inculcar uma ideia a alguém é bater-lhe com a cabeça na parede. Chama-se a esta forma de sensibilização propedêutica de choque. Não sei a que propósito vem este arrazoado. Há quem tenha falhas de pensamento e há quem tenha excessos. No meu caso, tenho fumarolas vulcânicas.

O anúncio Insoutenable, da Sécurité Routière francesa, faz jus ao título. Uma história bem contada de um acidente rodoviário, talhada para um voyeurismo abutre. Mikhail Bakhtin falava em realismo grotesco. Insoutenable releva de um hiper-realismo grotesco, no sentido de Wolfgang Kayser. Provoca náuseas. A cabeça contra a parede! Não sei se este género de anúncio é um novo tipo de vacina. De qualquer modo, Insoutenable conquistou um Leão de Ouro no Festival Internacional de la Créativité de Cannes, categoria Cyber, em 2011. Não será má ideia levar o gosto à revisão.

Portugal desenvolveu uma modalidade de prevenção rodoviária original: a prevenção rodoviária musicada. Escute-se a canção Vem Devagar Emigrante, de Graciano Saga.

Anunciante: Institut Belge pour la Sécurité Routière. Título: Enterrement. Agência: 20something Annonceur. Bélgica, Abril 2014.

Anunciante: Sécurité Routière. Título: Insoutenable. Agência: Lowe. França, 2010.

Graciano Saga. Vem Devagar Emigrante. 1994.

Querido mês de Agosto

Emigrantes portugueses no alojamento, em França. Espaço Memória e Fronteira. Melgaço.

Emigrantes portugueses no alojamento, em França. Espaço Memória e Fronteira. Melgaço. O rádio, o vinho e as cartas pornográficas: uma trilogia lúdica.

O querido mês de Agosto, ponto alto do ciclo anual da emigração, está a terminar; apertam-se corações (ver Maria da Conceição Gonçalves, Em busca do berço perdido, dissertação de mestrado em Sociologia, Universidade do Minho, 2002). Os emigrantes em França, dos anos sessenta e setenta, apreciavam ouvir música. Era uma fonte importante de prazer. Quase todos possuíam um gira-discos ou um rádio. Nos anos setenta, um banco português promoveu em França uma campanha de sucesso que consistiu em oferecer aos clientes um disco de 45 rotações.

Compilei oito canções dos anos sessenta. Canções populares, ao gosto dos franceses e dos emigrantes.

Adamo. Tombe la neige. 1963.

Allain Barrière. Elle était si jolie. 1963.

Charles Aznavour. La bohême. 1965.

Christophe. Aline. 1965.

Claude-François. Comme d’habitude. 1967.

Françoise Hardi. Tous les garçons et les filles. 1962.

Hervé Villard. Capri c’est fini. 1966.

Hugues Aufray. Céline. 1966.

 

 

A Emigração e os Mistérios do Macabro

György Ligeti.

György Ligeti.

A Marta enviou, para me animar, esta interpretação, pela soprano canadiana Barbara Hannigan, da obra Mysteries of the Macabre, do húngaro Györgi Ligeti (1974–77, edição revista de 1996). Música inspirada no macabro é uma tentação. Se for música contemporânea, maior o pecado. Admiro a competência desenvolta e a excelência jovial. Atributos que países com pouca terra e muito mar se esquecem de cultivar, pescam. Com Barbara Hannigan e a Orquestra Sinfónica de Londres, tudo parece fácil.

Barbara Hannigan

Barbara Hannigan.

Há sinais de que as universidades estão a sintonizar-se com o mercado de emprego. Mercado internacional, naturalmente. Não devem, porém, ignorar o próprio mercado. Não só atender aos alunos que “coloca”, mas também aos alunos que “recruta”. Importa, quando existe, não esquecer a vocação: o ensino superior. Há tendências preocupantes. Por exemplo, a proporção de pessoas formadas em música e nas artes que demandam o estrangeiro, para aprofundar, complementar ou especializar a formação e a carreira. E para trabalhar, também.

A Marta é uma actriz de teatro com um currículo notável. Exportou-se, o ano passado, para Londres. Há países que enxofram, adubam e enterram os talentos como se fossem batatas, na expectativa de que nasçam, algures, aos magotes, profissionais virtuosos, empreendedores exemplares e símbolos nacionais. A exportação de portugueses comporta vantagens e inconvenientes. Paradoxalmente, muitos fazem falta no País. Às vezes, ocorre-me que um país sem almas é o resultado de um país sem alma. Graças a Deus, temos muitas alminhas. Andamos com uma lanterna à procura, mas não é do homem. E acomodamo-nos! Tanto e tão depressa que não chega a ser “dor a dor que deveras (se) sente.”

Carregar na imagem para aceder ao vídeo.

LigetiGyörgy Ligeti. Mysteries of the Macabre. 2015.

Imagens e Clivagens

Imagens e ClivagensO livro Imagens e Clivagens – Os Residentes face aos Emigrantes foi publicado, pela Afrontamento, em 1996. Há quase vinte anos. Esqueço-me dele, como, aliás, dos outros, mas tenho-lhe profundo respeito. Foi um bico de obra, como mais nenhum. Empenhado em sustentar o seguinte pensamento de Jean-Paul Richter (1763-1825): “O homem não revela melhor o seu próprio carácter do que ao descrever o carácter do outro” (Jean-Paul Richter, 1763-1825).

Disponibilizo estes excertos,sobretudo, para acesso por parte dos alunos. A paginação do capítulo 8 deixa a desejar.

Imagens e clivagens. Índice
Imagens e clivagens. Introdução
Imagens e clivagens. Capítulo 8
Imagens e Clivagens. Quadro LXI