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Coro salgado

Leonard CohenDizem que o Leonard Cohen morreu. Não acredito! Só morre quem não vive. Há mais de trinta anos, apreciava ir, à noite, para a areia junto ao mar. A tiracolo, numa sacola de cabedal, o gravador que utilizava para as entrevistas. Sobrava sempre uma cassette com canções de Leonard Cohen. Ouvia-o, mais o coro salgado.

Leonard Cohen. Night Comes On. Various Positions. 1984.

Leonard Cohen. Take This Longing. The Best of Leonard Cohen. 1961.

Tecnofilia surrealista

Samsung Galaxy

Por que tantas crianças, do ventre à puberdade? As crianças são o futuro; e o futuro é uma criança. “O mundo pula e avança, como uma bola colorida, nas mãos de uma criança” (António Gedeão). E tanta água? Para quê tanta água. A água é o berço da vida, o alfa da estética e a fonte do prazer. Mergulhar! Não há melhor imersão, de preferência, virtual. Consegue distinguir real e irreal? O irreal é “mais real do que o real” e o real desrealiza-se. O futuro começa agora, o impossível, esse, começa com a Samsung!

Um belo anúncio, complexo, mas consistente. Um rodopio de imagens, sem pontas soltas. Afinal, “o essencial [não] é invisível aos olhos” (Principezinho). Prepare-se para uma mão-cheia de prazeres. Samsunganize-se! Faça o que não pode! Seja normal!

Marca: Samsung. Título: The new normal. Agência: Leo Burnett. Direcção: Mark Zibert. Estados Unidos, Abril 2017.

Nos videojogos, o futuro já começou. O impossível tornou-se banal. Segue um trailer, notável, do Starcraft, Resmastered – We are under Attack (2017). O anúncio da Samsung é eufórico, o do Starcraft, disfórico. Desta vez, é a sério: os extraterrestres invadem o planeta. Prepare-se para uma chuva de emoções fortes. As emoções decorrem cada vez menos das relações entre humanos e cada vez mais das relações com as máquinas. Starcrafte-se!

Starcraft. Remastered- We are under Attck. 2017.

Repelir mosquitos vs. caçar pokémons

Ananse Química

É assim que imagino Gregor Mendel (1822-1884), Joseph Pasteur (1822-1895) ou Alexander Fleming (1881-1995). No Brasil, os cientistas da Ananse Química pensam bem! As pequenas invenções são as nossas grandes conquistas, as nossas grandes virtudes. Ser cientista é muito mais do que andar em skypapers (pedipapers com asas) a caçar pokémons.

 

 

Marca Ananse Química: Título: Safe collection – Amazon Warriers. Agência: Little George. Brasil, Junho 2017.

As misericórdias do milénio

Atomic Lab

Atomic Lab

As campanhas de generosidade estão imparáveis. A Burger King Argentina, com a colaboração da agência David, promoveu, no dia 5 de Julho de 207, uma recolha de fundos. Os preços dos menus Stacker baixaram para metade do preço e os lucros reverteram a favor da organização Atomic Lab, que imprime e distribui gratuitamente próteses 3D. Estas campanhas caritativas por parte de empresas e organizações não-governamentais alegram-me o coração mas afligem-me a razão. A Coca-Cola, a Burger King e demais marcas vão ser as misericórdias do novo milénio? Com o Estado Social reduzir-se a uma espécie em vias de extinção?

Marca: Burger King Argentina. Título: A dos manos. Agência: David. Direcção: Lara Allerano. Argentina, Julho 2017.

Um silêncio de morte: Goya.

Goya. O Fuzilamento de 3 de Maio de 1808. 1814.

Goya. O Fuzilamento de 3 de Maio de 1808. 1814.

Goya ficou surdo em 1793, aos 46 anos de idade. Faleceu volvidos 35 anos, em 1828, com 82 anos. Pintou e gravou até à morte. Goya desfrutava, por altura da doença, de excelente reputação junto da corte e da aristocracia. No reinado de Carlos IV, foi nomeado “Primeiro Pintor da Câmara do Rei”. Não lhe faltavam encomendas. Era um homem abastado. Com a surdez, a vida de Goya altera-se significativamente. Em busca de liberdade de criação, aposta na produção para o mercado. A série Caprichos foi um fracasso. Granjeou-lhe a animosidade da Igreja e da Santa Inquisição. A primeira edição da série Os Desastres da Guerra ocorreu apenas em 1863, 35 anos após a sua morte. As pinturas negras só foram trasladadas das paredes da Casa del Sordo para tela entre 1874 e 1878. Cada vez mais isolado, a sua obra torna-se sombria mas expressiva.

Goya é o artista da morte. Rivaliza com Hans Baldung (1480-1545); James Ensor (1860-1949), Otto Dix (1891-1969) ou Felix Nussbaum (1904-1944). O Três de Maio de 1808 em Madrid (1814) é uma obra-prima universal, representação ímpar da guerra, da violência e da morte. Curiosamente, não encontrei na obra de Goya nenhuma vanitas, segundo os padrões tradicionais: caveiras descarnadas em naturezas mortas ou associadas a figuras consagradas, como São Jerónimo ou Santa Maria Madalena.

Na obra de Goya, a morte não é seca, é húmida, com pele, carne, ossos e, eventualmente necrófilos (Schmit, Juliana, “O imaginário do cadáver em decomposição”, Ilha do Desterro v. 68, nº 3, p. 083-097, Florianópolis, set/dez 2015, p. 84). Principal protagonista dos quadros e das gravuras de Goya, a morte tem vida. Por um lado, os cadáveres de Goya lembram os transi; Por outro, os corpos vivos acusam o toque da morte, como nas pinturas de Hans Baldung. Não é preciso estar morto para andar com a morte.

Goya. Dois velhos a comer sopa, 1819-1823

Goya. Dois velhos a comer sopa, 1819-1823

No seu conjunto, a obra de Goya é uma vanitas. Há personagens cujas cabeças deixam entrever caveiras e corpos em que a pele e a carne não escondem o esqueletos: Os Dois velhos a comer a sopa, o rosto do Tio Paquete, os corpos das Velhas.

Nas estampas 3 (Aqui tampoco) e 56 (Al cementerio) dos Desastres da Guerra, as personagens centrais têm feições cadavéricas, quase se confundindo com uma imagem da morte. Se o corpo vivo é um espectro, o corpo morto é um desassossego. Comunica e acusa. Incomoda. Vêem-se cadáveres nauseabundos nas estampas 12 (Para eso habeis nacido) e 18 (Enterrar e callar); requintes da barbárie humana nas estampas 16 (se aprovechan),  37 (Esto es peor) e 39 (Grande Hazaña com muertos); nem os animais  dão tréguas aos mortos (estampa 73, Las resultas).

As 82 estampas da série Os desastres da guerra (1810-1815) foram concebidas durante a Guerra da Independência (1808-1814) entre espanhóis e franceses. Arriscando o  anacronismo, pode-se encarar Goya como um repórter de guerra fora do teatro das operações. Não fotografa mas cria estampas, segundo a sua arte e a sua visão dos acontecimentos. Não toma partido. O que é raro. Sendo mais exacto, toma o partido das vítimas, espanholas ou francesas. Para Goya, a guerra é mortífera: destrói os vivos e os mortos; degrada os corpos e os espíritos. A guerra desperta os monstros e deprava a dignidade humana. As estampas  ilustram este eclipse da humanidade: violações (estampa 11, Ni por esas), pilhagem e profanação dos cadáveres (estampa 16, Se aprovecham), desde o calçado e as roupas até aos testículos (estampa  aos dentes (Caprichos, estampa 12, A caza de dientes).

Ceder a uma tentação é pecado ou salvação? Aspirar, por exemplo, a aceder à essência de uma obra a partir de um elemento particular, uma espécie de chave mestra. Há quem sustente que a estampa 69 (Nada. Ello dirá) dos Desastres de Guerra possui essa virtude. Um cadáver, parcialmente fora do túmulo,  escreve, numa placa, a palavra “nada”. Entre corpos e rostos grotescos, vislumbra-se uma balança com os pratos invertidos, sinal de ausência de justiça.

Goya. Los Desastres de la Guerra - No. 69 - Nada. Ello dirá

Goya. Los Desastres de la Guerra – No. 69 – Nada. Ello dirá

Importa resgatar o quadro de Juan de Valdés Leal, Finis Gloriae Mundi (1672), que Goya, supostamente, conhecia. Numa cripta, o corpo de um bispo , repasto de insectos, é rodeado por outros cadáveres, igualmente em decomposição e por esqueletos, caveiras e ossos Ao centro, uma balança pondera os vícios (Ni más) e as virtudes (Ni menos). Em suma, os quadros de Goya e de Valdés Leal confrontam-nos com corpos e balanças, num entorno fantasmagórico. Como apraz a um transi, em ambos os casos figura uma inscrição: “Finis Gloriae Mundi” e “Nada”, as quatro letras do vazio do mundo.

Juan de Valdés Leal. Finis Gloriae Mundi, 1672

Juan de Valdés Leal. Finis Gloriae Mundi, 1672

A propósito da estampa 69 (Nada. Ello dirá) dos Desastres de Guerra, Laurent Matheron, um dos primeiros biógrafos de Goya, conta o seguinte episódio:

Em muitas ocasiões, o artista formulou claramente a sua profissão de fé. Um dia, o bispo de Granada, de visita ao seu atelier, na sua Casa de Campo, parou diante de um quadro representando um espectro meio saído do túmulo escrevendo com a sua mão descarnada, sobre uma página que os seus olhos cavados não podiam ver, a palavra : Nada! Fantasmas, com formas indecisas, povoavam o fundo da tela; um deles segurava balanças cujos pratos vazios estavam invertidos. O bispo contemplou durante algum tempo esta composição e exclama: Nada! Nada! Ideia sublime! Vanitas vanitatum, et omnia vanitas! Goya, já velho e surdo, pergunta a um dos assistentes o que tinha dito o Prelado. Ah! exclama por seu turno, desatando a rir, pobre Monsenhor! como ele me compreendeu (Matheron, Laurent, 1858, Goya, Paris, Schulz et Thuillié, sem paginação. Minha tradução a partir da edição original).

Na arte funerária proliferam as inscrições com avisos e pedidos. Não conheço nenhuma tão lapidar como o “nada” de Goya. Não somos nada e nada seremos. Quando muito, lixo. Basura.

Para terminar, recomendo o pequeno documentário Francisco de Goya. Los desastres de la guerraÁlbum de Juan Agustín Ceán Bermúdez, The British Museum, dirigido por José Mauel Matillam, 2008.

 

O triunfo da teratologia

meet-graham-hed-2017

O anúncio Meet Graham, da Transport Accidente Commission (Victoria, Austrália), não é um anúncio qualquer. Acaba de ganhar o Grande Prémio do Júri, do Festival de Cannes, de 2017. É, todo ele, impatante. A sobrevivência aos acidentes de trânsito requer um corpo adaptado, um corpo monstruoso como o de Meet Graham. O futuro não se escreve com linhas esbeltas mas com  massas e dobras adiposas. Especialistas em colisões e uma artista, Patricia Picinnini, deram corpo a esta criatura à prova de choque, por sinal, peça de museu. A opção é simples: ou monstros, ou mortos. Ressalve-se, no entanto, que esta “antecipação do futuro” vale para as estradas. Nos corredores do Homo Academicus, é diferente; só um hiper-monstro consegue resistir aos encontros entre pares. Neste caso, a língua deve medir, no mínimo, metro e meio, para lamber as botas; as costas muito largas e moles, para amortecer os golpes; o cérebro ínfimo, para não se afundar nas areias movediças do pensamento. Para um comentário mais completo a este anúncio: http://edition.cnn.com/2016/07/25/health/graham-human-body-sculpture-car-accident/index.html.

Anunciante: Transport Accident Commission – TAC Victoria. Título: Meet Graham. Agência: Clemenger BBDO Melbourn. Austrália 2016.

 

Desconforto

Gravity Cat

Descontrolo gravitacional, caos e vertigem, uma trilogia do desconforto. “Desconforto”, palavra pouco escrita e muito vivida. O trailer Gravity Cat Live Action, do videojogo Gravity Rush 2, para a PS4, provoca, precisamente, uma sensação de desconforto. Desconforto mais do que estranhamento. As sequências iniciais dos filmes Laranja Mecânica e Matrix, bem como a sequência final do filme Blade Runner, causam estranheza e desconforto. Mas quando são observadas pela vigésima vez, a familiaridade aumenta e a estranheza diminui. Mas o desconforto, esse, permanece.

“Vigésima vez”? Há filmes, músicas e livros que revisito dezenas de vezes. Não têm conta as vezes que folheei Os Pensamentos de Pascal. Em contrapartida, há sucessos em que nem sequer toco. Um bom filme, uma boa música e um bom livro são “obras abertas” (Eco, Umberto, A Obra Aberta, 1ª ed. 1962) a reexploração interminável. Um sucesso é, até prova do contrário, um sucesso, uma perda de tempo em potência.

Conheço mal o mundo dos videojogos, mas percebe-se que um jogador pode passar dezenas de vezes pela mesma situação. Faz parte do tipo de progressão, pautada pela repetição e pelo retorno. Ao cabo de muitas passagens, o que se mantém? O estranhamento ou o desconforto?

Aventuro-me a uma ideia peregrina: a sensação de desconforto faz parte da própria dinâmica do jogo. O jogador sai, para exaltação ou alívio, de situações desconfortáveis. O desconforto e a incerteza são componentes do jogo, nomeadamente, dos jogos agonísticos (Caillois, Roger, 1958, Les Jeux et les Hommes: Le masque et le vertige, Paris, Gallimard).

Para terminar, só uma pergunta. Quem é o energúmeno que, com sol vaidoso e vento pasmado, à beira-mar, se empenha a escrever um artigo no blogue? Só um viciado. Ou talvez não! O futuro também nos determina: corrigir testes; verificar a candidatura de um megaprojecto; alinhavar uma videoconferência para uma universidade brasileira; seriar as candidaturas a um mestrado; preparar a apresentação de um livro… Tudo para a semana! Nestas circunstâncias, escrever um artigo no blogue pode oferecer-se como um pretexto autodeterminado, algo legítimo, para atrasar tanta urgência heterodeterminada. Desconforto é uma palavra que muito se vive e pouco se escreve.

Marca: Playstation 4 – Gravity Rush 2. Título: Gravity Cat. Agência: Hakuhodo Inc., Tokio. Direcção: Show Yanagisawa. Japão, Janeiro 2017.

Descarrilar

AIME cogs

Andar sobre carris pode ser bom ou mau. Quando uma economia anda sobre carris parece que é bom. Quando os seres humanos andam sobre carris é mau sinal, é sinal de desumanização, de que a decisão transitou do homem para a engrenagem que construiu. Este cenário distópico assombra a literatura e o cinema ocidentais. Que fazer? A resposta do anúncio Cogs, da AIME, não pode ser mais clara: o que faz falta é descarrilar. Descarrilas tu, descarrilo eu… Mas, atenção, que descarrilar não é fácil. Imagino-me na ponte sobre a Estação Saint-Lazare em Paris: os comboios descarrilam para logo encarrilhar. Mas há muito quem tenha conseguido descarrilar: Don Quixote, Caravaggio, Mozart, Goya, Van Gogh, Francis Bacon…

O realizador deste anúncio, Laurent Witz, ganhou, em 2014, o Óscar pela melhor curta-metragem de animação com o filme Mr Hublot.

Marca: AIME. Título: Cogs. Agência: M&c Saatchi (sydney). Direcção: Laurent Witz. Austrália, Junho 2017.

Mr Hublot. Por Laurent Witz & Alexandre Espigares. Curta-metragem. Ganhou o Óscar pela melhor curta-metragem em  2014.

A Super Avó

Mai 1968

Paris. Maio 1968

“Sejam realistas, peçam o impossível” (slogan de Maio 1968). Já não sou realista; contento-me com o desejável. Se rir é apanágio do homem (François Rabelais), partilhar é próprio de todos os animais, incluindo o homem. Dê, mas olhe a quem! Para salvar vidas, não precisa dos poderes da Super Avó (Super Gran), A fazer fé na Cruz Vermelha Francesa, basta vontade e dinheiro.

Anunciante: Croix-Rouge Française. Título: Aidez-nous à sauver des vies. Agência : Altmann + Pacreau. Direcção : David Bertram. Junho 2017.

Super Gran. Reino Unido, 1985-1987.

Abrir as janelas

Jean-Pierre Rampal Muppet

Após uma reunião, deixamo-nos conversar à porta de um edifício barroco. Falou-se de flauta e de flautim (piccolo). De Vivaldi e do concerto per piccolo em dó menor p. 78 – 2 Largo (ver https://tendimag.com/2012/01/08/relatorio-in-c-major-rv-443-largo/). Convocou-se Jean-Pierre Rampal, um intérprete de flauta incontornável. Falou-se, por último, de um vídeo com Jean-Pierre Rampal e Miss Piggy, na série Os Marretas. Arejar faz bem! Liberta o espírito.

Antonio Vivaldi. Concerto para flauta em lá menor. P.77 – 2. Jean-Pierre Rampal: Vivaldi, les concertos pour flûte-piccolo. 1988.

Jean-Pierre Rampal & Miss Piggy. The Muppet Show Ep. 106.