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A última ceia

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Onde está o sagrado?

Marca: Burger King. The Last Meal. Agência: Buzzman. Direcção: Ivan Grbovic. França, Janeiro 2018.

Reciclagem. O conto na idade da técnica

Audi forever

Este é um tempo mágico, bondoso e generoso. Até os ímpios se comovem com um cântico de Natal. Os bodes ostentam cornos de rena e os bonecos de neve derretem pedagogia. Tudo é fantástico, inclusivamente este conto reciclado da Audi.

Marca: Audi. Título: For And Ever. Agência: Proximity Barcelona. Espanha, Dezembro 2017.

O Natal presta-se à recomposição e ao bricolage. Recordo as montras de Paris, mais a “cultura de massas” com paladar a Kitsch. Lembro, com respeito, a consoada dos emigrantes sem bacalhau, couves e broa. Apreciavam, nos anos setenta, a música de Demis Roussos.

“Era o cantor de Forever and ever, o companheiro de banda de Vangelis nos Aphrodite’s Child e uma das vozes (e rostos) mais populares do rock europeu da década de 1970” (Jornal Público, 26.01.2015: Morreu Demis Roussos, o cantor que ajudou a criar a banda-sonora dos anos 1970).

Todos temos o nosso gosto. O gosto é a estrela, o grande guia, do banquete da vida.

Demis Roussos. Forever And Ever. Forever And Ever. 1973.

Natal andróide

Edeka. Christmas. 2117

Num mundo disfórico entregue às máquinas, um andróide deixa-se cativar por alguns vestígios de vida humana num cartaz e num filme com a ceia de Natal. Começa uma odisseia da máquina em busca do humano. Simula a ceia de Natal com manequins, mas não resulta, falta o espírito. Acaba por reconhecer a paisagem numa fotografia de um jornal.  Por vales e montanhas, encontra finalmente a família humana que o acolhe com generosidade.

Este anúncio lembra filmes tais como O Planeta dos Macacos (1968), Blade Runner (1982), Equilibrium (2002) ou WALL-E (2008). E convoca uma série de mitos mais ou menos contemporâneos:

– A superação e a dominação do homem, aprendiz de feiticeiro (Goethe, 1797), pelas suas próprias obras, nomeadamente computadores e andróides;

– As máquinas assumem-se mais humanas do que os humanos, propiciando um espelho, mais ou menos deformado, da condição humana;

– Uma ovelha negra redentora galga fronteiras e vence obstáculos contribuindo para a emancipação, mais ou menos fugaz e inconsequente, dos oprimidos.

Marca:  Edeka. Título: Will we celebrate Christmas in 2117? Agência: Jung von Matt. Alemanha, Novembro 2017.

Tolerância covarde

Ministère de l'Éducation Nationale

La mise au point é um anúncio promovido pelo Ministère de l’Éducation Nationale (França) dedicado ao bullying nas escolas. É, antes de mais, um anúncio sóbrio, o que é raro nos anúncios de denúncia. Sente-se a opressão quotidiana que sufoca as vítimas. O seu medo da próxima série de agressões, ao mesmo tempo iminente e imprevisível. Uma angústia escrita com letras de maldade. O bullying não é um quisto, é uma mancha que nos polui e nos degrada. A vítima podia ser nosso filho; o agressor, também. O anúncio centra-se na figura da testemunha que é incitada a falar. Apresenta duas vozes: a da vítima e a da testemunha. A voz da testemunha revela a dificuldade em assumir uma posição. Abordámos a questão da testemunha de bullying no artigo O Dilema da Testemunha (https://tendimag.com/2017/10/23/o-dilema-da-testemunha/).

Quando acordo maldisposto, surpreendo-me a pensar inconveniências. Por exemplo, que, em relação ao bullying, como em relação a outras formas de violência, há por parte de todos nós uma certa tolerância covarde. Mas se em vez de ocorrer na realidade, acontecer no ecrã, a reacção afigura-se-me outra: intolerância heróica, ou seja, o oposto. Tolerantes covardes na realidade; intolerantes heróicos face ao ecrã.

Anunciante: Ministère de l’Éducation Nationale. Título : La mise au point. França, Novembro 2017.

Festa batráquia

Para o Halloween, enquanto as bruxas e os zombies não chegam, recomendo a curta-metragem Garden Party. Fabulosa! Com sapos, animais associados ao mal, à morte e à bruxaria. O vídeo é longo (7 minutos) e lento. Mas tem uma estética e uma narrativa prodigiosas. O desfecho, cirurgicamente anunciado, é surpreendente. Trata-se de uma curta-metragem mega premiada: cerca de 30 prémios. Imagino quanto os autores se divertiram durante a produção.

Garden Party. Direcção: Florian Babikian; Vincent Bayoux; Victor Caire; Théophile Dufresne; Gabriel Grapperon; Lucas Navarro. MOPA, 2016.

Os sapos não são apenas criaturas do mal, são também beijoqueiros. No anúncio Water Frog, da Vitamin, um sapo anda à procura da princesa, mas não lhe serve uma qualquer, deve beber Vitaminwater Zero Glow. Para aceder ao anúncio, carregar na imagem ou no seguinte endereço: http://www.culturepub.fr/videos/vitaminwater-frog/.

Vitamin

Marca: Vitaminwater. Título: Frog. Agência: CP+B. Direcção: Bryan Buckley. USA, 2011.

 

 

Coisa ruim

Blood normal

O anúncio Blood normal, da Libresse/Bodyform, é uma pedra no charco da publicidade de consciencialização. Contra o tabu da menstruação, com uma rara qualidade de orquestração simbólica, sensual e sentimental (vídeo 1). Remeto o comentário do anúncio para o artigo Não, a menstruação não é um líquido azul, de Paula Cosme Pinto no Expresso de 20/10/2017. Um manifesto a partir de outro manifesto.

Se o sangue é vermelho, por que o pintam de verde e azul? Por que se oculta com tanto empenho o sangue menstrual?

A nossa sociedade sofre de hemofobia. Século após século, passou-se do espectáculo do sangue, nos coliseus e nas praças de execução pública, ao desmaio à simples vista de uma gota. Para uma marca, mostrar sangue comporta riscos. Pode afastar clientes em vez de os cativar. Opta-se pelo eufemismo, pela alegoria, pela metáfora ou, simplesmente, pela omissão. Mas o anúncio Blood normal não aborda apenas o sangue, incide sobre um tipo específico, o sangue menstrual, uma realidade natural que, desde as primeiras sociedades, provoca transtorno e receio, senão pavor, mormente no homem. O fluxo menstrual é associado à poluição, à magia negra e ao sobrenatural. Noutros termos, a “coisa ruim”.

Quase todas as excreções, secreções e outras exportações corporais são vergonhosas e resguardadas dos sentidos: a mucosidade, a saliva, o suor, o vómito, a urina e os excrementos. Saem do corpo e ao corpo não regressam.

Salvaguardadas as devidas distâncias, vislumbra-se, ao nível da publicidade, uma certa homologia entre o sangue menstrual e as necessidades do bebé. O xixi e o cocó são como o Godot da peça de Samuel Beckett, nunca aparecem! Quando se alude ao xixi, ou este se escondeu (vídeo 2) ou foi absorvido pela fralda. À semelhança do fluxo menstrual, o xixi veste-se de verde ou azul. Nunca cor de xixi! A presença do cocó ou do xixi é indiciada por pistas indirectas: o cheiro, os trejeitos faciais, os sinais de desconforto… A censura dos excrementos e das excreções na publicidade tende a ser bífida: verbaliza  sem visualizar.

Associar os anúncios a tampões e pensos higiénicos aos anúncios a fraldas é promíscuo e deselegante. Admito-o! Não obstante, o pensamento não é um desfile de cerimónia.

Hoje, permito-me abusar da incorporação de vídeos. Quatro! Para além do Blood Normal, da Libresse, Onde está o xixi?, da Dodot, uma versão da busca do xixi fantasma, bem como Baby faces (ready when you’re not), da Aldi, e Pampers wipes pooface, da Pampers, duas “versões” do mesmo tema: a expressão facial do “alívio” pueril.

Marca: Libresse. Título: Blood Normal. Agência: AMV BBDO. Direcção: Daniel Wolfe. Internacional, Outubro 2017.

Marca: Dodot. Título: Onde está o xixi?, Agência: Y&R MAD. Portugal / Espanha, Junho 2017.

Marca: Aldi. Título: Baby faces (ready when you’re not). Agência: BMF (sydney). Direcção: Scott Pickett. Austrália, 2012.

Marca: Pampers. Título: Pampers wipes pooface. Agência: Saatchi & Saatchi (London). Reino Unido, 2015.

O eclipse da velhice

Karthik - Goolgle +. Idades da Vida

01. Karthik – Goolgle +. Idades da Vida

Acabo de reescrever um artigo sobre a representação das idades da vida na Idade Média e na Idade Moderna (https://tendimag.com/2016/12/23/as-idades-da-vida/). O homem medieval cresce até atingir um planalto em que o adulto e o idoso permanecem, à mesma altura, até à morte (ver figura 2).

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02. Bartholomeus Anglicus,. The six ages of man. Livre des propriétés des choses. 1480

A Idade Moderna altera esta representação da curva da vida: ascensão até ao topo adulto e declínio até ao túmulo (ver figura 3). Os dois lados da curva não têm o mesmo valor: o esquerdo é agradável e forte, o direito é sofrido e fraco…

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03. As idades do homem. Impressão: Vosthem. Final do séc. XVI

Concentrar-se num segmento etário é uma tentação para a publicidade, que namora a elipse do envelhecimento. A publicidade banha-se na fonte da juventude.

O anúncio português Ariel apresenta A começa com uma criança a gatinhar, depois a andar, culminando com uma mulher a correr que acaba por se transformar numa atleta equipada com as cores nacionais. Energia, eficácia, progresso e performance. Para a embaixadora da marca, a atleta de alta competição Patrícia Mamona, os melhores resultados estão garantidos. Uma ascensão sem queda (figura 4).

As idades da vida

04. Fragmento das idades da vida

A vida é caprichosa: quanto mais se aponta, menos se acerta. Absorto com um hipotético efeito secundário ao nível da representação das idades, por pouco não esqueço o essencial. O anúncio da Ariel está bem concebido e bem realizado. É um bom anúncio. Foi apenas abordado por uma memória fresca  num comentário lateral que não lhe faz justiça, mas que produz, paradoxalmente, conhecimento. Coincidências e manhas da razão! Gosto de vários pormenores do anúncio:  a mesma criança a gatinhar e a dar os primeiros passos; a “metamorfose” da mulher antes do triplo salto e, insista-se, um guião votado ao amanhecer da vida.

Antes de virar a página, dois apontamentos. Primeiro, “a representação da velhice na publicidade” dava um bom tema de dissertação. Segundo, a observação não se reduz a “ver” o que “lá está”, importa “ver” o que “lá não está”. A realidade também se quer imaginada.

Marca: Ariel. Título: Ariel apresenta A+. Agência: Carat Portugal. Portugal, Outubro 2017.

Com a morte no bolso

Artigo revisto.

Tendências do imaginário

Insisto na ferida que nos últimos anos mais magoou a minha cidadania. O problema é que a falta de respeito pela dignidade das pessoas é algo que se pega e que se paga.

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“Não há dúvida que na Idade Média se falava mais francamente e mais frequentemente do que hoje da morte e da agonia. A literatura popular da época comprova-o. Os mortos, ou a morte em pessoa, aparecem em numerosos poemas (…) A Vida queixa-se que a Morte espezinha os seus filhos. A Morte gaba-se das suas vitórias. Em comparação com a época contemporânea, a morte dos jovens e dos velhos era nesse tempo menos dissimulada, mais omnipresente e mais familiar (Elias, Norbert, La Solitude des Mourants, Paris, Christian Bourgois Ed, 1988, p. 26).

Norbert Elias engana-se, pelo menos, em parte. Mais de 20% da população actual vive sob permanente ameaça ou assédio de morte. Deve ser um…

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A dança da consciência

Jules Massenet

Jules Massenet

“A música faz dançar as consciências” (Cormann, Enzo in Bretonnière, Bernard, 2000, Petit Dictionnaire du Thêatre, Editions Thêatrales). Deixemo-las, pois, dançar. A frustração encostada ao desejo, a vontade ao compromisso, a investigação ao ensino… “Leve, levemente, como quem chama por mim”.

André Massenet. Méditation. Opéra Thais. 1894. Intérprete : André Rieu.

Michel Colombier. Emmanuel. Wings. 1971

Vangelis. 12 O’clock. Heaven and Hell. 1975.

Amor a três

O anúncio Beach, da BMW, é um concentrado de humor absurdo. Apresenta o trio do costume: o homem, a mulher e o carro, num amor a três. Ao volante, o homem; a reboque, a mulher. Entre ambos, o beijo. Um beijo trepidante, com perfume a maresia. Assim pode começar uma moda: a moda do beijo radical.

Acrescento uma imagem humorística bem gizada. Insólita e desproporcionada. Nem por isso deixa de inquietar o pensamento. Nesta viragem das universidades para a investigação e a internacionalização, que lugar sobra para os estudantes?

Marca: BMW. Título: Beach. Agência: KBS. Direcção: Pretty Bird. USA, Outubro 2017.

Slavery. Not Much Has Changed. Eatliver.com

Slavery. Not Much Has Changed. Eatliver.com