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Labirinto de cegos

The Blind Leading the Blind, Pieter Brueghel the Elder, 1568.

Pieter Brughel. O Cego Conduzindo Cegos. 1568

Jean_Martin,_Les_Aveugles,_1937,_huile_sur_toile,_Lyon,_musée_des_Beaux-Arts

Jean Martin. Os Cegos. 1937. Lyon, Musée des Beaux Arts.

Há anúncios orientais, como este da Top Charoen Optical, que me ultrapassam. Que ligação existe entre quatro ladrões pitosgas e um banco de esperma? Uma empresa óptica. Nada como o absurdo para converter um deficiente visual. O disgusto pede óculos. O resto é imaginação desinibida. Apenas uma perplexidade: por quê o esperma como figura da desgraça?

Este anúncio tailandês lembra-me algumas obras de arte. Com mais de quatro séculos, o quadro de Pieter Brueghel, “um grupo de cegos conduzido por um cego” (1568), permanece actual. O quadro de Jean Martin, “os cegos” (1937; Lyon, Musée des Beaux Arts), condiz com a arte da desventura característica do Período entre as Duas Guerras Mundiais.

Marca: Top Charoen Optical. Título: The Bank. Agência: J. Walter Thompson Bangkok. Tailândia, 2003.

Sermão de Joana d’Arc às pombas

Sauvez la France

Lá vai uma, lá vão duas, três pombas a descansar
Uma é minha, outra é tua, outra é de quem a agarrar
(José Afonso, Avenida de Angola, 1970).

Sauvez la France é um anúncio contra a abstenção nas eleições presidenciais francesas do dia 23 de Abril de 2017. Convoca o sentimento de identidade nacional. Mas, que identidade nacional? Que versão? Partilhada por que segmento da população? Existem várias interpretações da identidade nacional francesa. Não o admitir significa esquecer a história do país, atrofiar o presente e não estar preparado para o futuro. “Salvar a França”, de quê e de quem? Do voto? Do “inimigo interno”? Dos próprios franceses?

Este anúncio combate a abstenção. É empolgante. É também ideologicamente implicado (engagé). Reconheço-me na imagem da França veiculada pelo anúncio. Mas não ignoro que uma parte muito expressiva dos cidadãos franceses não se revê em algumas das frases compiladas. Duvido, cada vez mais, que alguém ganhe em se apoderar de uma identidade nacional. Quando pensa que ganha, já está a perder. As últimas frases vêm na crista da onda do texto; são cativantes, mas falsas. Se existe tanta gente empenhada em jardinar as identidades nacionais, é porque a horta rende.

Anunciante: Collectif Sauvez la France. Título: Sauvez la France. França, Abril 2017.

José Afonso. Avenida de Angola. Traz outro amigo também. 1970.

III Encontro Minho-Galiza

Ponte de Valença-Tuy

Ponte entre Valença e Tuy

Sábado, 01 de Abril, decorre em Tomiño o III Encontro Minho Galiza organizado pelo Centro de Estudos Galegos, pelo Centro de Estudos Comunicação e Sociedade e pelo Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, todos da Universidade do Minho. Entre os convidados, figuram os cantores Pedro Abrunhosa e Ses. Junto o cartaz e o programa. Estão convidados.

Cartaz III Encontro Minho Galiza

04 Programa

 

Erótica ecológica

Léo Ferré 2

Léo Ferré

No artigo “divergência”, escrevi: “quanto mais me retiro da sociedade menos lhe sinto a falta”. Não devia ter escrito tal coisa. É um convite ao alheamento, à melancolia e à misantropia, quando a nossa sociedade se afirma tão inclusiva, empreendedora e pró-activa. Cumpre-me rectificar: “quanto mais me retiro da sociedade menos lhe sinto o cheiro”. Ganha-se em fertilidade, declinação e conveniência. Resgato-me convocando a erótica, talvez a mais envolvente das artes humanas.

No presente artigo, inverto a rotineira ordenação dos géneros. Primeiro, a canção; depois, o anúncio. C’est extra (1969) é uma canção erótica de Léo Ferré. O erotismo estava no vento em França na viragem dos anos sessenta para os anos setenta. Recorde-se, por exemplo, a canção Je t’aime… moi non plus (1967-1969) de Serge Gainsbourg, bem como os filmes O Último Tango em Paris (1972), Emanuelle (1974), Histoire d’O (1975) ou Bilitis (1977).

Encontrar um vídeo erótico condizente com a canção de Léo Ferré é tão fácil que se torna difícil. O mais avisado é reduzir o universo. Bruno Aveillan é um expoente do erotismo na publicidade, cuja obra está quase toda publicada no Tendências do Imaginário. Improvável encontrar uma novidade. Mas os pecadores também têm epifanias: Bruno Aveillan assinou, há  cinco meses, o anúncio Feelings para a Peugeot, com máquinas desejadas, natureza, humanos e animais. Mais do que uma erótica humana ou do que uma erótica dos objectos, trata-se de uma erótica ecológica.

Escrevo junto ao mar. Lembro-me de um grupo de franceses que, há cerca de quarenta anos, cantavam, como desalmados, pelas ruas de Vila Praia de Âncora: “ça sent la mer d’ici”. Não confundir com “ça sent la merde ici”. Um coro monofónico mas polissémico.

Léo Ferré. C’est extra. 1969.

Marca: Peugeot 3008. Título: Feelings. Direcção: Bruno Aveillan. Novembro 2016.

Ninho

Serra. Prado. Melgaço

Lugar da Serra. Prado. Melgaço.

Rui Táboas, amigo de infância, acaba de publicar, no blogue Tesourinhos da Escola Primária de Prado (https://www.facebook.com/groups/1383722761649439/), esta fotografia do lugar da Serra. Nasci na casa com uma fiada de três janelas, na linha da carroça. Não consigo datar a fotografia. Provavelmente ainda não tinha nascido. O muro à esquerda foi demolido ainda era criança. A casa mais baixa também foi restaurada e ampliada por essa altura. Lembro-me de trincar a língua a saltar para a areia da obra. Ainda tenho a cicatriz. Foi mesmo há muito tempo.

De que são feitas as raparigas?

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What are girls made of?, da Nike, é mais um anúncio polarizado pelo Dia Internacional da Mulher. De algum modo, pensamento e sentimento acontecem por agenda e por medida. Um anúncio assumido e sedutor. Particularmente feliz a aposta na juventude, na música e na poesia. É, por acréscimo, um anúncio russo! Faltam anúncios russos no Tendências do Imaginário.

Marca: Nike. Título: What are girls made of? Agência: Wieden + Kennedy (Amsterdam). Rússia, Março 2017.

 

De rir a chorar

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Ontem como hoje, na Europa e no mundo, há funerais festivos e há funerais macabros. E outros ainda difíceis de classificar. Existem muitos anúncios publicitários com funerais. Começo por reter dois a pender para o risonho.

O ser humano delira. Dá-lhe para dançar e rir quando é suposto ensimesmar e chorar. No primeiro anúncio, um funeral com lágrimas e dança (ver anúncio português semelhante: https://tendimag.com/2014/02/20/a-um-morto-nada-se-recusa/). No segundo, o humor resulta mais vulgar: o velório passa colectivamente das lágrimas às gargalhadas. Passar de uma emoção à emoção oposta parece ser apanágio do homem. Talvez porque os extremos estão mais próximos do que se pensa.

Marca: Spotify. Título: Play this at my funeral. Agência: Wieden + Kennedy. USA, Fevereiro 2007.

Marca: Tages Anzeiger. Título: L’Enterrement. Agência: McCann Erikson. Suíça, 1998.

A isabel comentou este artigo relembrando o vídeo Doing It To Death, dos The Kills. Já o tinha colocado no Tendências do Imaginário (https://tendimag.com/2016/11/02/grao-a-grao-meio-milhao/). Mas o vídeo é extraordinário e a coreografia, fantástica. Vou recolocá-lo. O comentário da Isabel vem a preceito, também o vou colocar.

 “Embora não seja novidade no tendimag, suponho que este é um dos casos difíceis de classificar: https://www.youtube.com/watch?v=498zUzNGQxY (…) Quando os mortos têm um sentido de humor fora do comum e se tem um relação próxima com eles, o que fazer? Chorar de saudades ou rir com saudades? Não me parece assim tão difícil de compreender, só sentindo. Não deixa de ser uma homenagem, num sentido ou noutro. Ou oscilando” (Isabel Vilela).

The Kills. Doing It To Death. Ash & lce. 2016.

Porco-espinho

porco-espinho

Com tanta liquidez de afectos, até apetece abraçar um porco-espinho.

Marca: H2OH. Título: Porco-espinho. Agência: Almap/BBDO São Paulo. Brasil, 2009.

Nem a morte nos separa

Publicado originalmente em Tendências do imaginário:
Amantes de Valdaro. Neolítico. Mântua, Itália. Neste tempo em que a inteligência anda tão estúpida, urge recuperar a sabedoria. “A sisudez é a armadura dos parvos” (Montesquieu). Pompeia. Descobertos no norte de Itália, em Mântua, os Amantes de Valdaro são um caso raro de esqueletos adultos abraçados. Se não…

Andróide

androide-3Anunciam-se tempos em que mais vale dar ouvidos a um andróide do que a um humano. Com vontade mas sem sensibilidade.

“I am faster than you, stronger than you. Certainly I will last much longer than you. You may think that I am the future. But you’re wrong. You are. If I had a wish, I wish to be human. To know how it feels. To feel, to hope…”.

Marca: Johnnie Walker. Título: Human (Android). Agência: BBH London. Direcção: Dante Ariola. Reino Unido, 2006.