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Por quem tocam os sinos?

Umberto Boccioni. Pianist and Listener, 1908.

Umberto Boccioni. Pianist and Listener, 1908.

A McDonald’s publicou um anúncio ousado, demasiado ousado. Estou admirado! Uma criança caminha com a mãe e procura encontrar pontes de identificação com o pai, falecido. Só o consegue no McDonald’s. A indignação das associações não se fez esperar. Estou admiradíssimo! As associações? As novas guardiãs da opinião? Algumas de tão puritanas lembram-me confrarias. A McDonald’s devia ter juízo! A morte é um assunto tabu. A morte? Duvido. Ando com os bolsos carregados de cemitérios em jeito de publicidade anti-tabaco. Mas o luto, é outra coisa. O luto, naturalmente. Já não há respeito! “Tristeza! Passamos metade da vida à espera daqueles que amaremos e a outra metade a deixar os que amamos” (Victor Hugo, Tas de pierres, 1901). Insistimos em exorcizar os mesmos demónios. Já aborrece! Alguém ouviu falar do luto da inteligência? Pelo sim, pelo não, com a preventiva água benta, segue o anúncio Dead Dad, da McDonald’s. Para memória futura. A McDonald’s já pediu desculpa e palpita-me que o anúncio vai ser retirado de circulação. Indignação, auto da fé e cinzas.

Marca: McDonald’s. Título: Dead Dad. Agência: Leo Burnett (London). Reino Unido, Maio 2017.

Umberto Boccioni. Luto. 1910.

Umberto Boccioni. Luto. 1910.

A degradação humana

A degradação e a violência do ser humano em cinco fotografias da Getty Images escolhidas pela agência DDB Argentina (imagens em alta resolução, carregar para aumentar).

“La idea es mostrar la contraposición entre la sensibilidad social y artística de una fotografía” (…). “De esta forma, muestra las injusticias del mundo que tanto sensibilizan sin dejar de lado la belleza y calidad que contienen las fotos, ya que fueron capturadas por los mejores fotógrafos que trabajan para Getty Images” (DDB Argentina).

1. Lixo. Getty Images. DDB Argentina. A partir de Adlatina.

1. Lixo. Getty Images. DDB Argentina. A partir de Adlatina.

2. Pobreza. Getty Images. DDB Argentina. A partir de Adlatina.

2. Pobreza. Getty Images. DDB Argentina. A partir de Adlatina.

3. Soldado. Getty Images. DDB Argentina. A partir de Adlatina.

3. Soldado. Getty Images. DDB Argentina. A partir de Adlatina.

4. Ataque. Getty Images. DDB Argentina. A partir de Adlatina.

4. Ataque. Getty Images. DDB Argentina. A partir de Adlatina.

5. Corno. Getty Images. DDB Argentina. A partir de Adlatina.

5. Corno. Getty Images. DDB Argentina. A partir de Adlatina.

Crepúsculo

Lucky Luke. O cow-boy solitário.

Morris. Lucky Luke. O cow-boy solitário.

“Crepúsculo: Símbolo intimamente ligado à ideia do Ocidente, o lugar em que o sol declina, se apaga e morre. Exprime o fim de um ciclo e, por conseguinte, a preparação de uma renovação. As grandes proezas mitológicas, prelúdio de uma revolução cósmica, social ou moral, tiveram o seu desfecho no decurso de uma viagem para Oeste: Perseu procurando matar a Górgona, Hércules o monstro do Jardim das Hespérides, Apolo levantando voo junto dos Hiperbóreos, etc.

O crepúsculo é uma imagem espácio-temporal: o instante suspenso. O espaço e o tempo vão emborcar ao mesmo tempo num outro mundo e noutra noite. Mas esta morte do Um é anunciadora do outro: um novo espaço e um novo tempo sucederão aos antigos. A marcha para Oeste é a marcha rumo ao futuro, mas mediante transformações tenebrosas. Para além da noite, aguardam novas auroras.

O crepúsculo reveste também, por si, e simboliza a beleza nostálgica de um declínio e do passado. É a imagem e a hora da melancolia e da nostalgia” (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire des Symboles, Paris, Ed. Robert Laffont, 1969, p. 311-312).

Marca: Sumol. Título: Fruit Bubbles. Agência: Brandia Central (Lisboa). Portugal, 2009.

O crepúsculo e a melancolia constituem tópicos marcantes da criação cultural e artística.  Não há como escolher. Segue um anúncio português da Sumol, uma meia dúzia de pinturas e dois vídeos musicais. Por último,  uma brincadeira desmiolada: a lenda da criação da Luz Eléctrica.

Galeria de imagens: Impressões crepusculares.

“A marcha para Oeste é a marcha para o futuro”. A expressão inglesa go west é, contudo, uma espécie de busto com duas faces. Pode ser uma bússola apontada para uma terra prometida. A expressão está historicamente associada à colonização, para Oeste, dos Estados Unidos. Go West é título de filmes de Buster Keaton (1925) e dos Marx Brothers (1940), bem como da canção dos Village People (1978), retomada pelos Pet Shop Boys (1993). O significado corrente da expessão go west na língua inglesa é, porém, o oposto: ir para Oeste é ser destruído ou morto.

Pet Shop Boys. Go West. 1993.

Lenda da Criação da Luz Eléctrica

Crepúsculo e Aurora gostavam um do outro. Mas a noite e o dia não os deixavam namorar. Rogaram ao sol e à lua, mas nada. O sol e a lua não paravam de rodar.  Um dia, a lua e o sol cansaram-se de tanta volta. Estacionaram um frente ao outro. Foi o mais longo e escuro eclipse de sempre. Nem se via um pirilampo. Crepúsculo e Aurora aproveitaram para se encontrar, não sei se ao meio-dia se à meia-noite. Desta união, nasceu a Luz Eléctrica, que brilha quando quer, seja noite, seja dia.

Anne Dudley. Moments in love. A Different Light. 2001.

O coro dos sapos

Plague of frogs, Pamplona Bible, Navarre 1197 (Amiens, Bibliothèque municipale, ms. 108, fol. 42v

Praga de sapos. Bíblia de Pamplona. Navarra. 1197.

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Songes drolatiques de Pantagruel, François Desprez, Paris, 1564.

Não tenho particular apreço pelos sapos. Nem para beijar, nem para engolir. Mas gosto de os ver no ecrã. Quem não tem saudades do Cocas?

A Budweiser apostou na figura do sapo, desde os anúncios Frogs e Tongue lashing frogs, ambos de 1995, até ao anúncio Bud Light Frogs, de Maio 2017.

No imaginário ocidental, o sapo é um símbolo crepuscular, associado à lua, à água, à terra e, por vezes, à bruxaria, ao diabo e à morte.

Marca: Bud Light. Título: Bud Light Frogs. Agência: Mcgarrybowen. Reino Unido, Maio 2017.

Marca: Budweiser. Título: Tongue lashing frogs. Agência: DDB Needham. USA, 1995.

Marca: Budweiser. Título: Frogs. Agência: D’Arcy Masius Benton & Bowles. USA, 1995.

Preconceito em cadeia

Man Ray, Ella Raines, 1947

Man Ray, Ella Raines, 1947.

Há um tipo de razão que custa aos homens admitir: a razão dos outros.

Para aceder ao anúncio, carregar na seguinte imagem ou no endereço http://www.culturepub.fr/videos/anti-racisme-le-banc/.

Racismo em cadeia

Anúncio: Anti Racismo. Título: O Banco. Agência: BDDP. Espanha, 1996.

A minha geração

Franz Marc. Die großen blauen Pferde. 1911.

Franz Marc. Grandes cavalos azuis. 1911.

O anúncio Pilot da Blu é digno de partilha: imagens soberbas, paródia inspirada e a habitual surpresa final. Num mundo ambíguo, conduzir manadas continua a exigir perícia; mas o cavalo é, agora, um helicóptero e o cowboy, uma cowgirl.  O anúncio “Pilot” apresenta-se como uma réplica, no feminino, do “mundo Marlboro”, “um lugar onde a liberdade corre sem limites” ( ver anúncio Marlboro). Blu, por seu turno,  “representa o indivíduo”:

“It’s hard to be yourself in a world that’s constantly trying to make you into someone else. It’s easy to slip and find yourself marching to the beat of someone else’s drum. blu stands for the individual. Whoever you are, however you want to express it, that’s okay. As long as you’re being true to you.”

Em tempo de cavalos mecânicos, o cigarro já não é o que era, é electrónico. Mas tu deves ser verdadeiramente tu. Um cavalo azulado, como os cavalos de Franz Marc!

kandinsky “Lyrisches” (Reiter zu Pferd), 1911.

Wassily Kandinsky. Lírico. 1911.

O anúncio “Pilot” parece piscar o olho à minha geração (ver The Who, My Generation, 1965), que não sei se conduz a manada, se é cavaleiro ou cavalgadura, se Don Quixote cansado. Num aspecto concordo com o anúncio: quando a minha geração tirar a máscara, surgirá um rosto de mulher. A minha geração tem outra história: aquela que escreveram as mulheres.

A acompanhar, canção Cavalo à Solta, de Fernando Tordo. Porque sim!

Marca: Blu. Título: Pilot – Just you & Blu. Agência: The Corner. Direcção: Romain Gavras. Reino Unido, 2016.

Fernando Tordo. Cavalo à Solta. Poema de Ary dos Santos. 1971.

Labirinto de cegos

The Blind Leading the Blind, Pieter Brueghel the Elder, 1568.

Pieter Brughel. O Cego Conduzindo Cegos. 1568

Jean_Martin,_Les_Aveugles,_1937,_huile_sur_toile,_Lyon,_musée_des_Beaux-Arts

Jean Martin. Os Cegos. 1937. Lyon, Musée des Beaux Arts.

Há anúncios orientais, como este da Top Charoen Optical, que me ultrapassam. Que ligação existe entre quatro ladrões pitosgas e um banco de esperma? Uma empresa óptica. Nada como o absurdo para converter um deficiente visual. O disgusto pede óculos. O resto é imaginação desinibida. Apenas uma perplexidade: por quê o esperma como figura da desgraça?

Este anúncio tailandês lembra-me algumas obras de arte. Com mais de quatro séculos, o quadro de Pieter Brueghel, “um grupo de cegos conduzido por um cego” (1568), permanece actual. O quadro de Jean Martin, “os cegos” (1937; Lyon, Musée des Beaux Arts), condiz com a arte da desventura característica do Período entre as Duas Guerras Mundiais.

Marca: Top Charoen Optical. Título: The Bank. Agência: J. Walter Thompson Bangkok. Tailândia, 2003.

Sermão de Joana d’Arc às pombas

Sauvez la France

Lá vai uma, lá vão duas, três pombas a descansar
Uma é minha, outra é tua, outra é de quem a agarrar
(José Afonso, Avenida de Angola, 1970).

Sauvez la France é um anúncio contra a abstenção nas eleições presidenciais francesas do dia 23 de Abril de 2017. Convoca o sentimento de identidade nacional. Mas, que identidade nacional? Que versão? Partilhada por que segmento da população? Existem várias interpretações da identidade nacional francesa. Não o admitir significa esquecer a história do país, atrofiar o presente e não estar preparado para o futuro. “Salvar a França”, de quê e de quem? Do voto? Do “inimigo interno”? Dos próprios franceses?

Este anúncio combate a abstenção. É empolgante. É também ideologicamente implicado (engagé). Reconheço-me na imagem da França veiculada pelo anúncio. Mas não ignoro que uma parte muito expressiva dos cidadãos franceses não se revê em algumas das frases compiladas. Duvido, cada vez mais, que alguém ganhe em se apoderar de uma identidade nacional. Quando pensa que ganha, já está a perder. As últimas frases vêm na crista da onda do texto; são cativantes, mas falsas. Se existe tanta gente empenhada em jardinar as identidades nacionais, é porque a horta rende.

Anunciante: Collectif Sauvez la France. Título: Sauvez la France. França, Abril 2017.

José Afonso. Avenida de Angola. Traz outro amigo também. 1970.

III Encontro Minho-Galiza

Ponte de Valença-Tuy

Ponte entre Valença e Tuy

Sábado, 01 de Abril, decorre em Tomiño o III Encontro Minho Galiza organizado pelo Centro de Estudos Galegos, pelo Centro de Estudos Comunicação e Sociedade e pelo Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, todos da Universidade do Minho. Entre os convidados, figuram os cantores Pedro Abrunhosa e Ses. Junto o cartaz e o programa. Estão convidados.

Cartaz III Encontro Minho Galiza

04 Programa

 

Erótica ecológica

Léo Ferré 2

Léo Ferré

No artigo “divergência”, escrevi: “quanto mais me retiro da sociedade menos lhe sinto a falta”. Não devia ter escrito tal coisa. É um convite ao alheamento, à melancolia e à misantropia, quando a nossa sociedade se afirma tão inclusiva, empreendedora e pró-activa. Cumpre-me rectificar: “quanto mais me retiro da sociedade menos lhe sinto o cheiro”. Ganha-se em fertilidade, declinação e conveniência. Resgato-me convocando a erótica, talvez a mais envolvente das artes humanas.

No presente artigo, inverto a rotineira ordenação dos géneros. Primeiro, a canção; depois, o anúncio. C’est extra (1969) é uma canção erótica de Léo Ferré. O erotismo estava no vento em França na viragem dos anos sessenta para os anos setenta. Recorde-se, por exemplo, a canção Je t’aime… moi non plus (1967-1969) de Serge Gainsbourg, bem como os filmes O Último Tango em Paris (1972), Emanuelle (1974), Histoire d’O (1975) ou Bilitis (1977).

Encontrar um vídeo erótico condizente com a canção de Léo Ferré é tão fácil que se torna difícil. O mais avisado é reduzir o universo. Bruno Aveillan é um expoente do erotismo na publicidade, cuja obra está quase toda publicada no Tendências do Imaginário. Improvável encontrar uma novidade. Mas os pecadores também têm epifanias: Bruno Aveillan assinou, há  cinco meses, o anúncio Feelings para a Peugeot, com máquinas desejadas, natureza, humanos e animais. Mais do que uma erótica humana ou do que uma erótica dos objectos, trata-se de uma erótica ecológica.

Escrevo junto ao mar. Lembro-me de um grupo de franceses que, há cerca de quarenta anos, cantavam, como desalmados, pelas ruas de Vila Praia de Âncora: “ça sent la mer d’ici”. Não confundir com “ça sent la merde ici”. Um coro monofónico mas polissémico.

Léo Ferré. C’est extra. 1969.

Marca: Peugeot 3008. Título: Feelings. Direcção: Bruno Aveillan. Novembro 2016.