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Corpos grotescos

Voiz. The Secret.

Entupido, lento e mole. Não me apetece nada, nem avaliar trabalhos, nem escrever um artigo sobre a cumplicidade dos objectos. Nada? Talvez um post no blogue. A razão tem manhas; a não razão, também. Je suis enrhumé. Nas últimas semanas, as visualizações diárias provenientes de França ascendem a 250, bastante acima de Portugal. Tanto catequizo contra a lusa estrangeirice, e o blogue teima em ser visitado, sobretudo, por estrangeiros. Portugal sempre sobrevalorizou o estrangeiro. Na minha infância, ia-se a um baile porque a orquestra era espanhola. Um circo digno desse nome tinha leões, macacos e estrangeiros. Até o nosso herói nacional era um tudo nada estrangeiro: de Moçambique. Não admira que em documentos oficiais se estipule que um artigo numa revista estrangeira vale por dois artigos numa revista portuguesa. Tirando a prova dos nove, isto significa que uma revista científica estrangeira vale por duas revistas científicas portuguesas. De tolo e de conde Andeiro, todos temos um pouco.

Tudo isto é grotesco. O anúncio tailandês The Secret, da Voiz, também é grotesco, por sinal, de excelente colheita. Brilhou no Festival de Cannes onde conquistou vários “leões”. É rabelaisiano, boschiano, maneirista, surrealista, mais o resto da lista. A intuição de base, um casal em que a mulher tem um olho na testa e o homem, uma boca no pescoço, é explorada com mão de génio.

Encontrar músicas para curtas-metragens grotescas não é fácil. Escolhi três compositores: Shostakovich, Mussorgsky e Rebekka Clarke. Se há domínios em que somos pitosgas, a música é um deles. Afeiçoamo-nos a um género e não variamos. Não nos cansamos de ratificar os gostos. Na arte, já nos familiarizamos com a importância da estética do feio. Nestes excertos, comprova-se que se pode compor boa música com sons desagradáveis.

Marca: Voiz. Título: The Secret. Agência: Ogilvy Group Thailand. Direcção: Wuthisak Anarnakaporn. Tailândia, Junho 2018.

Dmitri Shostakovich. Two Pieces for String Quartet: II. Polka – Part 2/2. 1931.

Modest Mussorgsky. Pictures at an Exhibition: Gnomus. 1874.

Rebecca Clarke. Grotesque for viola and cello. C. 1916.

A sobrevivência da paz

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Acabado de sair, este anúncio é impressionante. Uma obra de arte.

Con dirección del ganador del Oscar Armando Bo, escrita por Carlos Bayala y Richard Flintham, de New London Agency, y con música de Brian Eno, Strange Animal es una metáfora de los últimos 50 años de la historia colombiana.

En el cortometraje se ve a una paloma luchar por la vida. La representación más simple de la lucha de Colombia en su búsqueda de la paz. Sola y desesperadamente tratando de respirar, en medio de la jungla colombiana, la paloma está limitada, parece casi muerta. Lo que sigue es su viaje, doloroso pero edificante (http://www.adlatina.com/publicidad/%E2%80%9Cstrange-animal%E2%80%9D-lo-nuevo-de-armando-bo-y-new)

Título: Stange Animal. Agência: Rebolucion, Anonymous Content e New London. Direcção: Armando Bo. Junho 2018.

O festim dos macacos

Ver a realidade através de frases é ser intelectual? Prefiro vê-la pelos teus olhos.

Jan Brueghel o Velho. O festim dos macacos. 1621. Foto Fernando

01. Jan Brueghel o Velho. Festim dos macacos. 1621. Foto Fernando.

O meu rapaz mais novo está de visita ao meu rapaz mais velho. Na Casa de Rubens, em Antuérpia, descobriu o Festim dos Macacos, de Jan Brueghel o Velho (c. 1621). Enviou-mo. É uma alegoria da vaidade humana.

Jan Brueghel the Elder. Festim de Macacos. 1620's

02. Jan Brueghel o Velho. Alegoria da vaidade. Festim de Macacos. C. 1621.

Os macacos estavam em voga nos séculos XVI e XVII. Na pintura (Figura 3) e nas festas. Nas procissões do Corpo de Deus, a espécie mais prezada era o bugio (não confundir com os bugíos do São João de Sobrado).

David_Teniers_(II)_-_Smoking_and_drinking_monkeys.C. 1660

03. David Terniers (II). Macacos a beber e a fumar. C. 1660.

Há imagens que me apetece ouvir. A singerie de Jan Brueghel o Velho lembra-me algumas composições dedicadas a animais:

La Fête de l’Ane. Música medieval. Clemencic Consort.
Jean-Philippe Rameau. La Poule. 1728.
Louis-Claude Daquin. Le Coucou. 1735.
Nikolai Rimsky-Korsakov. Flight of the Bumblebee. 1899-1900.
Camille Saint-Saens. O Carnaval dos Animais. 1887…

Mas decidi-me por Dimitri Shostakovich, menos pelos macacos e mais pelo festim.

Dimitri Shostakovich.  Taiti Trot (Tahiti Trot), Op. 16. 1927.

Dimitri Shostakovich. Jazz Suite No. 2- VI. Waltz 2.opus. 1938.

O espírito de Erasmo

Universidade Erasmus de Roterdão

Universidade Erasmus de Roterdão

Hoje, as estrelinhas portaram-se bem. Estou feliz! O meu rapaz mais velho vai ser professor na Universidade de Roterdão. Começa com as mesmas disciplinas que eu comecei em 1982. Agora somos colegas internacionais.

A vida é uma vigília (música 1), mas ousa sonhar (musica 2). A vida é uma passagem (música 3), mas importa voar (música 4). Quanto ao resto… (música 5).

The Piano Guys. Arwens vigil. The Piano Guys. 2012.

Yanni, Charles Adams. To the One Who Knows. Dare to Dream, 1992.

Ludovico Einaudi. Passaggio. Le Onde. 1996.

Jonas Kvarnström. Fly (da banda sonora de Intouchables). 2012.

David Garrett. Nothing Else Matters. Free. 2006. Cover de Metallica,

Pompa e Circunstância 1

edward elgar

Edward Elgar (1857-1934)

Cansado. Até dar aulas cansa. Dispenso letras e números. Talvez música. Um concerto de música clássica que pareça um concerto de música popular. Edward Elgar? A Marcha de Pompa e Circunstância nº 1 (Terra de Esperança e Glória), de 1901. Os ingleses têm destes arrebatamentos com carga nacionalista. Não desligue antes do segundo minuto.

Elgar. Marcha de Pompa e Circunstância nº 1 (Terra de Esperança e Glória). Proms 2012. BBC Synphony Orchestra. Royal Albert Hall, 8 de Setembro de 2012.

Triunfo

Dedico este pequeno texto ao José Viriato Capela e ao Henrique Barreto Nunes.

Denis van Alsloot. Ommeganck.  Bruxelas. 1615

Denis van Alsloot. Ommeganck em Bruxelas no dia 31 de maio de 1615. A imagem está em alta resolução. Pode carregar e aumentar.

Uma semana antes do Pentecostes, era costume celebrar, em Bruxelas, Notre-Dame du Sablon, protectora da cidade. A procissão (Ommegang, em flamengo) era imponente, uma extensa e variegada expiação colectiva. À semelhança da procissão do Corpo de Deus, convocava a participação, e o contributo, das principais instituições, cujos membros eram dispostos em meticulosa e ostensiva hierarquia. Cada corpo envergava o seu traje com a respectiva cor. Quanto mais poderosos, mais próximos da imagem da santa (ver quadro 1, de Denis van Alsloot).

Denis van Alsloot. The Ommeganck in Brussels on 31 May 1615. The Triumph of Archduchess Isabella

Denis van Alsloot. The Ommeganck in Brussels on 31 May 1615. The Triumph of Archduchess Isabella. A imagem está em alta resolução. Pode carregar e aumentar.

No seu clímax, a procissão serpenteava pela Grande Place de Bruxelas. À semelhança do Corpo de Deus, a procissão intercala cenários diversos, senão opostos: agora, o fausto religioso, político e corporativo; logo, a folia carnavalesca, grotesca e diabólica. A procissão incorpora, por exemplo, crianças fantasiadas de demónios. É neste cenário que espreita uma tarasque, ou seja, uma parente da Serpe da Bugiada de Sobrado e das cocas de Monção, de Amarante e de muitas procissões do Corpo de Deus.

Denis van Alsloot. The Ommeganck in Brussels on 31 May 1615. The Triumph of Archduchess Isabella. Detalhe

Denis van Alsloot. The Ommeganck in Brussels on 31 May 1615. The Triumph of Archduchess Isabella. Detalhe.

No segundo quadro, o olhar de Denys van Alsloot concentra-se no Triunfo da Arquiduquesa Isabel (1556-1633), integrado na procissão (Ommegang) de Notre-Dame du Sablon. Os carros alegóricos, os gigantes e os dragões ilustram o esplendor barroco. Pintores e escultores consagrados dedicavam-se a conceber estas artes efémeras. Giuseppe Arcimboldo despendia o seu tempo e a sua arte no esboço de figuras excêntricas para os triunfos e outras festividades da corte dos imperadores Habsburgos (ver imagens). Embora os carros alegóricos versem sobre a natividade ou sobre o anúncio a Maria, trata-se de uma demonstração de poder. Em nome dos deuses do céu, celebram-se os deuses da terra.

Em Portugal, havia celebrações parecidas. Por iniciativa da realeza, do clero ou da nobreza. Frequentemente, em conjunto. No livro Artes e Artistas em Portugal (1892, Lisboa, Livraria Ferreira), Sousa Viterbo entrega-se a uma espécie de inventário histórico das festas nacionais que oscilam entre o cerimonioso, o barroco e o grotesco (junto um excerto com o capítulo IV). Manuela Milheiro tem uma obra notável, bem documentada e meticulosa, sobre Braga: A Cidade e a Festa no Século XVIII (2003, Guimarães, Núcleo de Estudos de População e Sociedade). Está acessível no repositório da Universidade do Minho (https://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/848 ).

Sousa Viterbo. Artes e Artistas em Portugal. Capa e Capítulo IV. 1892.

 

Personas mayores

Paraguay

Numa sociedade da eterna juventude, a publicidade não aposta em imagens de velhos. Mas existem! O anúncio paraguaio Una enfermedad que no tiene cura, do Club Cerro Portenho, mostra duas super abuelas gémeas nonagenárias locas por el fútbol. Desconheço a origem de tamanha vitalidade paraguaia. Se fosse em Portugal, apontava para as políticas de empreendedorismo e de envelhecimento activo, que transformam os velhos em seniores, em “personas mayores”. Se acabaron los chistes por hoy. Me duele la espalda.

Marca: Club Cerro Portenho. Título: Una enfermedad que no tiene cura… Agência: Oniria. Paraguai, Janeiro 2018.

A sorte e o azar

Tendências do Imaginário é um blogue ciumento. Por sua vontade, escrevia só para ele. Mas acontece-me escrever em página alheia. O Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS) criou o Communitas (http://www.communitas.pt/), um Think Tank (círculo de reflexão), onde publiquei , no dia 3 de Janeiro, um artigo com o título: A sorte e o azar. Trata-se de um comentário a partir de quatro fotografias que estimei emblemáticas do ano 2017. Apresento o artigo deste modo:

Escolher e comentar quatro fotografias do ano 2017 é um desafio. Ademais, não é arte que cultive. As fotografias são de 2017, mas podiam ser de outros anos, mormente, dos anos que se aproximam. Os temas resumem-se a questões simples: como enfrentar calamidades sem preparar as populações? Como idolatrar e, simultaneamente, exorcizar a técnica? Em termos de identidade, pode-se ser e não ser? Por que persistimos em ser tão desiguais no apoio à miséria alheia?”

Para aceder ao artigo, carregar no endereço http://www.communitas.pt/ideia/a-sorte-e-o-azar/ ou na seguinte imagem.

Manifestação pró-independência na Praça Catalunha, em Barcelona © Albert Gea Reuters (Visão 2.05.2017).

Manifestação pró-independência na Praça Catalunha, em Barcelona © Albert Gea Reuters (Visão 2.05.2017).

A última ceia

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Onde está o sagrado?

Marca: Burger King. The Last Meal. Agência: Buzzman. Direcção: Ivan Grbovic. França, Janeiro 2018.

Reciclagem. O conto na idade da técnica

Audi forever

Este é um tempo mágico, bondoso e generoso. Até os ímpios se comovem com um cântico de Natal. Os bodes ostentam cornos de rena e os bonecos de neve derretem pedagogia. Tudo é fantástico, inclusivamente este conto reciclado da Audi.

Marca: Audi. Título: For And Ever. Agência: Proximity Barcelona. Espanha, Dezembro 2017.

O Natal presta-se à recomposição e ao bricolage. Recordo as montras de Paris, mais a “cultura de massas” com paladar a Kitsch. Lembro, com respeito, a consoada dos emigrantes sem bacalhau, couves e broa. Apreciavam, nos anos setenta, a música de Demis Roussos.

“Era o cantor de Forever and ever, o companheiro de banda de Vangelis nos Aphrodite’s Child e uma das vozes (e rostos) mais populares do rock europeu da década de 1970” (Jornal Público, 26.01.2015: Morreu Demis Roussos, o cantor que ajudou a criar a banda-sonora dos anos 1970).

Todos temos o nosso gosto. O gosto é a estrela, o grande guia, do banquete da vida.

Demis Roussos. Forever And Ever. Forever And Ever. 1973.