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"Somos os que aqui estamos"

Variação da população residente em Portugal Continental. 1960-2001 e 2001-2011. Fonte INE. Elaboração UMVI. O Interior em números.

Nas últimas décadas, o despovoamento foi monstruoso. É verdade que as migrações sempre existiram. Mas não tão desequilibradas. É difícil inverter a tendência. Despovoamento gera despovoamento: problemas de escala, de mercado, de emprego, de natalidade e de envelhecimento. A meu ver, despovoamento rima com fracasso político. Nem tudo neste País tem que ir a banhos. A intervenção política não se pode confinar à ponta da língua e à disponibilização de cuidados paliativos. Convém estancar a necrópole das aldeias de Portugal. As pessoas, essas, não desistem. Resistem à inércia de partir. Para o estrangeiro, para as cidades, para onde calha, com a promessa de uma vida melhor. Existe a tendência para imaginar a vida no interior e nas margens do País como um entorpecimento ou uma hibernação. Uma espécie de presépio. É uma ilusão ótica. Face à adversidade, as pessoas abraçam a vida, multiplicam os projetos e somam iniciativas. Pode faltar investimento de Estado, sobra vontade, criatividade e esforço humano. A metade da população que partiu não é melhor do que a metade da população que ficou.

Congratulo-me com o anúncio espanhol Yo Me Quedo, da empresa Correos Market. Porque é raro um anúncio dedicado ao despovoamento e pela aposta na sobriedade estética, por exemplo, os enquadramentos são naturais, bem como as roupas dos entrevistados.

Marca: Correos Market. Título: Yo Me Quedo. Agência: Contrapunto BBDO. Direcção: Félix Fernández de Castro. Espanha, Dezembro 2019.

A dança dos espíritos abençoados

Gluck. Orphée et Euridice. Opéra en trois actes. 1774.

É mais fácil colocar um anúncio publicitário do que uma música clássica. Esta é, no entanto, um bom amparo contra nuvens pasmadas. Ao procurar dois excertos da ópera Orfeo ed Euridice, do compositor alemão C. W. Gluck (1714-1787), surgem tantos arranjos, versões instrumentais e interpretações que apetece arrepiar caminho. Retive uma versão para piano da “Melodia”, interpretada pela catalã Noelia Rodiles. A segunda escolha foi óbvia: a versão para flauta da “Dança dos Espíritos Abençoados”, interpretada por Jean-Pierre Rampal, um dos melhores flautistas do séc. XX.

Gluck- Sgambati melody from Orfeo ed Euridice live at the Tonhalle Düsseldorf, Feb. 2016. Piano: Noelia Rodiles.
Gluck. Dança dos Espíritos Abençoados. Ópera Orfeo ed Euridice. Flauta: Jean-Pierre Rampal.

A Cavatina pedagógica

Crianças Pensantes. Charlie Brown.

Logo, espera-me uma aula. Preparo-me. Rascunho apontamentos, que não vou utilizar, e ouço música, que passa ao lado. Música que me inspire a lograr que os alunos gostem de alguma coisa. O firmamento dos gostos mudou. Não basta que uma maçã seja boa, é preciso que haja vontade de a trincar. Consola-me pressentir que a Bruxa Malvada não faria melhor. A música de hoje é a Cavatina, composta por Stanley Myers, em 1970. Ficou célebre pela versão do filme The Deer Hunter (1978) e pela interpretação de John Williams. Desta vez, temos um duo: Manuel Barrueco e, curiosamente, Steve Morse, do último Deep Purple.

Manuel Barrueco & Steve Morse. Catavina. Nilon & Steel. 2001. Compositor: Stanley Myers (1970).

Virar costas a Castela

Padrão dos Descobrimentos. Lisboa.

Virar costas à latinidade não traz bom vento. Insensatez de Estado, cenoura do povo e oportunismo do resto.

Conhece Angelo Branduardi? Não? E a Billie Eilish? A cereja no bolo do terceiro milénio é a avaliação assente na ignorância electronicamente ruidosa. O Angelo Branduardi é uma espécie de José Afonso da Itália. Ao prestar-lhe atenção, paramos, por um momento, de coçar o mainstream. Boiar na corrente é cómodo, mas nada pessoal. Sem cabeça, coração e estômago, com raízes gastas, sob uma tempestade de gadgets e emblemas, arriscamos o excesso semiótico e o distúrbio gastro-identitário.

Viramos costas à latinidade com o freio nos dentes. Afigura-se estúpido desvalorizar o que somos.

Angelo Branduardi. La Luna. La Luna. 1975.
Angelo Branduardi. Alla Fiera Dell’ Est. Alla Fiera Dell’ Est. 1976. Ao vivo em 1996.
Angelo Branduardi. La Pulce D’Acqua. La Pulce D’Acqua. 1977. Ao vivo em 1983.

Azul

Man Ray. Le violon d’Ingres. 1924.

Acontece-me pasmar a ver anúncios da viragem do milénio. Muita criatividade e menos técnica. Esta equação deve ser uma ilusão, mas merecia um estudo. Os anúncios que seguem, ambos do Greenpeace, lembram Hieronymus Bosch e o surrealismo. Nos oceanos, há crude para todos. Naquele tempo (1990 e 2000), pouco se falava do plástico.

Hoje, fui nomeado cidadão de honra do concelho de Melgaço, minha terra natal. Ainda estou emocionado.

Anunciante: Greenpeace. Título: La Poire. Internacional, 1990.
Anunciante: Greenpeace. Título: Oil. Agência: Giovanni FCB. Brasil, 2000.

Não me consigo desligar

Hoje regressei de Melgaço. Dormi na casa de infância. Não acontecia há décadas. Melgaço anda a mimar-me. Durante a viagem, ouvi Damien Rice. Segue uma canção ao vivo (The Blower’s Daughter) e um vídeo musical (I Don’t Want To Change You, creio que uma adaptação).

Damien Rice. The Blower’s Daughter. Álbum O. 2002. Ao vivo: Sessions@AOL, 2003.
Damien Rice. I Don’t Want To Change You. Álbum My Favourite Faded Fantasy, 2014.

Heitor Villa-Lobos por Francisco Berény Domingues

Hoje, vou à terra, ao lançamento do livro de fotografias Quem Fica, de João Gigante, com um texto do Álvaro Domingues e outro meu. É sobre Prado, a minha freguesia natal. Por falar no Álvaro e em Prado, gostava de voltar a ouvir o Francisco Berény Domingues em Melgaço.

Choros Nrº1 (1920) – Heitor Villa-Lobos (1887-1959) played by Francisco Berény Domingues. Recorded live for Tübingen International Guitar Competition 2019.

Sanfona

Organistrum do Pórtico da Glória da Catedral de Santiago de Compostela. c. século XII. Espanha

Se bem me lembro, quando era criança, na minha terra, havia pessoas que tocavam sanfona. É um instrumento musical medieval com uma sonoridade própria. O meu rapaz mais novo mostrou-me esta interpretação de sanfona. Dá para ouvir? Sanfoniza-te!

Andrey Vinogradov. Aequilibrium. Hurdy-Gurdy Aequilibrium. 2018. Medieval Tune. Hurdy-Gurdy With Organ.

Original

Boa música, belas imagens, um vídeo musical notável, que opta pelo arabesco aparentemente pós-humanizado.

U2. Original of the species. How to Dismantle an Atomic Bomb. 2004.

Música para não ouvir na areia

Revisitemos Paris com a pianista franco-georgiana Khatia Buniatishvili. Há três semanas, no dia 14 de Julho, dia nacional da França, Khatia Buniatishvili toca Mozart, músico barroco, acompanhada pela Orchestre Nationale de France, no Champs de Mars, junto à Torre Eiffel (vídeo 1). O ambiente é excessivo, barroco. Até a torre Eiffel parece um anjo tocheiro… Mais artifício do que artefacto. Só faltou o Jean-Michel Jarre.

Paris é uma cidade barroca? Nem por isso. Nada a ver com cidades barrocas como Roma ou Braga. A relação histórica da França com o barroco é complicada. Existem vários exemplares barrocos em Paris. Por exemplo, a capela da Sorbonne ou a igreja dos Invalides. O insuficiente para fazer de Paris uma cidade barroca. Paris é gótico e neoclássico. Gótico, da Notre Dame, da Sainte Chapelle e da torre de Saint Jacques. Neoclássico, da Igreja da Madeleine, da praça da Concorde ou do Arco de Triunfo.

Paris não é barroco? Talvez. Menos ao nível do monumento e mais ao nível do acontecimento. Paris é uma das capitais mais destacadas do efémero, o efémero caro ao barroco dos séculos XVII e XVIII: triunfos, festas, festivais de água e luz, efemérides, concertos, bailes, paradas, desfiles e procissões… Paris é barroco, por exemplo, no que respeita à moda: roupas, joias, adereços, perfumes, protagonistas, desfiles, anúncios publicitários… Paris também é barroco na política: recordo a cerimónia da visita ao Panthéon por François Mitterrand, em 1981, recém-eleito Presidente da República (ver https://tendimag.com/2015/01/04/sociologia-sem-palavras-15-a-encenacao-do-poder/). Paris é ainda barroco pela cultura: recordo vários eventos, entre os quais a efémera Fête de la Musique, uma iniciativa do ministro da cultura Jacques Lang, no início dos anos oitenta: na noite de 21 de Junho, data de início da Primavera, qualquer pessoa ou grupo pode tocar música nas ruas de Paris.

Acrescento dois vídeos em que Khatia Buniatishvili toca Schubert (vídeo 2) e Beethoven (vídeo 3).

Khatia Buniatishvili – Mozart Piano Concerto no.23 (14 Juillet 2019).
Khatia Buniatishvili – Schubert: Impromptu No. 3 in G-Flat Major, Op. 90, D. 899.
Khatia Buniatishvili. Largo from Beethoven’s Piano Concerto No. 1 in C Major, Op. 15.