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A música entre nós

Sem a música, o mundo seria um erro (Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos, 1889)

Henri Matisse. La musique. 1910.

A música toca-nos. É uma ponte para afetos e memórias. O anúncio Crafting Memories – since 1925, da Bang & Olufsen, incide, precisamente, sobre esta relação entre a música e a memória partilhada. Recordo quando ouvi, pela primeira vez, a música Fast Car, da Tracy Chapman, no sótão da casa de uns primos a quem quero bem.

Marca: Bang & Olufsen. Título: Crafting Memories – since 1925. Agência: Camp David Film. Direcção: Stina Lütz. Dinamarca, Novembro 2020.
Tracy Chapman. Fast Car. Tracy Chapman. 1988.

Com auscultadores sem fios

Slade. Slade Smashes.1980.

A técnica tem uma característica interessante: permite usos inapropriados. Nos encontros e nas reuniões, dava jeito colocar uns auscultadores sem fios e migrar para outras paisagens sonoras. A música suave não se presta a esta audição clandestina. Corre-se o risco de adormecer. O ideal é uma música brutal. Mas temos que nos treinar a não “abanar o capacete”. É uma tentação usar auscultadores nas aulas por videoconferência. Em quarenta alunos, apenas um tinha a câmara ligada. No ecrã, dezenas de bolachas. Dar uma aula acompanhado pelos Slade deve ser empolgante. Retenho quatro músicas, ao todo 15 minutos. É muito atendendo à vossa disponibilidade, mas pouco comparado com a duração de uma reunião ou de uma aula. E parece-me ser mais divertido.

Slade. Cum On Feel The Noize. Sladest. 1973.
Slade. Coz I luv you. Play It Loud. 1970.
Slade. My Oh My. The Amazing Kamikaze Syndrome. 1983.
Slade. Run Runaway. The Amazing Kamikaze Syndrome. 1983.

As botas do Cristiano Ronaldo

Cristiano Ronaldo

Um novo anúncio da Nike. Ou do Cristiano Ronaldo. Diz-se das duas maneiras. Mais umas botas da Nike associadas a Cristiano Ronaldo. O mais ilustre dos portugueses. Um herói que entra, por acréscimo, no mundo fantástico e artístico da animação.

Marca: Nike. Título: Christiano Ronaldo. Produção: Dirty Robber. Direcção: Caleb Woods. Internacional, Outubro 2020.

Sedução salgada

Cyrano de Bergerac.

Tudo parece outra coisa neste anúncio. O piropo parece galante e a beleza parece cativa da sedução. Até um “favorzinho” parece um cavalo de Tróia. Para uma perspectiva feminina da relação entre piropo e assédio, ver “Piropo é assédio ou sedução?” (https://jornaldeca.pt/piropo-assedio-ou-seducao/).

Cliente: São Paulo Alpergatas, SA. Título: Favorzinho. Agência: ALMAPBBDO. Direcção: Clovis Mello. Brasil, Novembro 2008.

A dança das máscaras

Bugiada e Mouriscada. São João de Sobrado. Valongo

Conversa parva:

No mês de Agosto, há trinta anos, estava a banhos numa praia a sul da Zambujeira. Obrigava-me a uma boa caminhada. Um dia, um velhote, com um garrafão de água, ultrapassa-nos numa descida. Na subida, é a nossa vez de o ultrapassar. Digo-lhe: “a subir custa mais”. “Ná senhor ná! Fui atleta”, e desata a correr rampa acima. Não é fácil prever quando se despoleta a mola humana! Numa máscara cabe o infinito.

As máscaras gostam de música e de dança. Com música dos Dead Can Dance, os vídeos seguintes conjugam máscaras, música e dança.

Sugiro uma visita à fotogaleria “Como as sociedades se reinventam para a distância social da covid-19” do jornal Público: https://www.publico.pt/2020/08/07/fotogaleria/sociedades-reinventam-pandemia-covid19-402133

Dead Can Dance. ACT II: The Invocation. Dionysus, 2018.
Dead Can Dance. Kiko. Anastasis. 2012. Imagens do filme Samsara (2011), realizado por Ron Fricke

Sementes em pó

MDOC Melgaço. Preparação de 2021. Agosto 2020. Via Zé Gomes.

Respeitando as recomendações das autoridades, o MDOC , Festival Internacional de Documentário de Melgaço, não se realizou este ano. Ocorrerá no próximo. Habituei-me a participar no Festival, em particular no ritual da visita guiada ao Espaço Memória e Fronteira. Para enganar a saudade, colhi na página dos  Filmes do Homem meia dúzia de fotografias.

Os dias enrolam-se como num moinho de café. Entram sementes e sai pó. O tempo também tem destas artes. Em 2014, estas fotografias eram um desconsolo: “coitado de mim”. Hoje, passados seis anos, reconsidero: “afinal, não estava assim tão mal; as de costas, até favorecem”. Importa navegar. As memórias não são velas mas ventos. Os tais ventos que movem moinhos, moinhos que transformam as sementes em pó.

A sério

UNESCO

L’UNESCO lance une campagne mondiale pour interroger notre perception de la normalité. Le film de 2’20” s’appuie sur une succession de faits marquants sur la situation dans le monde avant et pendant la pandémie de la Covid-19. Ensemble, ces faits remettent en question nos idées préconçues sur ce qui est “normal”, et suggère que nous avons toléré l’inacceptable depuis trop longtemps. Il est temps d’un vrai changement. Et tout commence par l’éducation, la science, la culture et l’information (UNESCO).

Uma pessoa que diz coisas sérias não ri! O sério é sisudo e o riso, tonto. Imagine alguém a comunicar assuntos sérios às gargalhadas! O sério não ri, assim é desde o barro genético. O anúncio Le Prochain Normal, da UNESCO, aborda assuntos graves da humanidade. O que consideramos normal? Perguntas sérias, muito sérias. Até o formato do anúncio é sacrificial. Como rir num mundo tão sério? O riso é um acto de humor nas suas origens e um acto sério nas suas consequências.

Anunciante : UNESCO. Título : Le Prochain Normal. DDB (Paris). França, Junho 2020.

O homem com a criança no olhar

Kate Bush, menina surpreendente, frágil e firme, teve formação de pianista e violinista. Com 15 anos de idade, cativou a atenção de David Gilmour. Impressionado pelas suas composições disponibilizou-lhe o estúdio, ajudou-a em gravações e, no momento propício, abordou a editora EMI, que assinou contrato com Kate Bush. Kate Bush foi uma “protegida” de David Gilmour. O primeiro disco demorou. Kate Bush funda o conjunto  KT Bush Band, esmera-se na composição e estuda mímica e dança. O professor de dança, Lindsay Kemp, era também professor de David Bowie. A formação estava cinzelada: criação artística, voz e interpretação únicas; coreografia, dança e mímica invulgares. Com o corpo leve e ágil. Em 1978, lança o primeiro álbum: The Kick Inside. Um triunfo: alcança o terceiro lugar no hit-parade britânico, o segundo na Bélgica, na Finlândia, na Nova-Zelândia e o primeiro lugar na Holanda e em Portugal.

A canção Wuthering Heights ascendeu trepou as tabelas. No Reino Unido, Kate Bush foi a primeira autora-compositora-intérprete a atingir um primeiro lugar. Em 1979, Kate Bush faz a sua primeira tournée. Apesar do sucesso, será a última. As tournées não são compatíveis com a criação artística, a qualidade de vida e a dedicação à família, nomeadamente ao filho. Continuará, no entanto, a publicar discos: uma dezena, no conjunto.

Seguem duas canções, Wuthering Heights e The man with the child in his eyes,  ambas do álbum: The Kick Inside. O maior sucesso e aquela que mais impressionou David Gilmour. Naquele tempo, considerava-me vacinado contra o espanto. Soberba de parvo!

Kate Bush. Wutherin Heights. The Kick Inside. 1978.
Kate Bush .The Man with the Child in His Eyes. The Kick Inside. 1978. Ao vivo em 1979.

A arqueologia do prazer

Peter Frampton

Peter Frampton não é o Fred Mercury, nem o Eric Clapton. Mal seria. É um bom guitarrista em maré de bons guitarristas. Conheceu um franco sucesso com o álbum duplo ao vivo Frampton Comes Alive, publicado em 1976. “É considerado o álbum ao vivo mais vendido da História” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Frampton_Comes_Alive!).

De anos em anos, coloco a agulha na faixa Do You Feel Like We Do. Se estou impaciente, começo logo no minuto quatro. Em 1976, vivia em Paris. A minha aparelhagem era um móvel “La voix de son maître”, do tamanho de uma cómoda, com coluna incorporada e, no interior, o gira-discos e o rádio. Uma arqueologia do prazer. Creio que o desgosto, a “eurrância”, radica na mudança de aparelhagem. Hormonas à parte, “La voix de son maître” é outra acústica.

Peter Frampton. Do you feel like we do. Frampton comes alive. 1976.

Corpos

Corpos Danone

Há corpos e corpos. E usos do corpo. Em casa, na rua e na publicidade. Há corpos Axe, corpos Dove, corpos Hornbach, corpos Nike, corpos Old Spice, corpos Victoria’s Secret, corpos Kelvin Klein, corpos azeite Gallo… Os corpos Danone costumam ser corpos Danone (vídeo 1). Mas também existem corpos Danone reflexivos (vídeo 2). Mais os corpos Danone que se comem e bebem (imagem 1). Os corpos Danone não desafiam o confinamento. Em contrapartida, os corpos C&A “misturam-se, ousam e divertem-se”, sem sombra de distanciamento social (vídeos 3 e 4). Pouco prováveis na actualidade, datam de 2016.

Corpos Danone. Com Madalena Brandão. Portugal, 2018.
Corpos Danone. Corpos Danone inspirados em corpos reais. Portugal, 2019.
Marca: C&A. Título: Misture, ouse e divirta-se. Agência: ALMAP BBDO. Direcção: Jones + Tino. Brasil, 2016.
Marca: C&A. Título: Misture, Ouse e Recomece. Brasil. 2016.