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Mafalda Veiga

“E deixar-me devorar pelos sentidos
E rasgar-me do mais fundo que há em mim
Emaranhar-me no mundo
E morrer por ser preciso
Nunca por chegar ao fim
(Mafalda Veiga).

Tenho um nó na palavra. Para escrever cinco letras, preciso de uma dúzia de teclas. Chama-se a isto tremura de mãos e gaguez digital. Desfasada do pensamento, a escrita não discorre, tropeça. Encolhe como o caracol. Gosto da Mafalda Veiga

Mafalda Veiga. Por outras palavras. Zoom. 2011.

Música rara

Armas Järnefelt

Num tempo em que nem Santa Senhorinha consegue calar as rãs, segue uma versão rara de uma música rara: a Berceuse, do finlandês Armas Järnefelt (1869-1958), com interpretação de Risto Vuolanne (contrabaixo).

Armas Järnefelt. Berceuse. 1904. Contrabaixo: Risto Vuolanne. Palacio de la Ópera, A Coruña. Abril 2013.

Wim Mertens

Wim Mertens

Assisti, há muitos anos, a um concerto de Wim Mertens no Theatro Circo em Braga. Gosto de Wim Mertens mas, em casa, há quem goste mais. Dedico-lhe esta música relativamente recente (2016).

Wim Mertens. Old Katarakt. Dust of Truths. 2016. Live at BOZAR, Henri Le Boeuf, Brussels, Belgium – October 21st, 2016.

Salut d’amour

Edward Elgar by May Grafton.

Edward Elgar (1857-1934) consta entre os grandes compositores ingleses. Das suas obras, destacam-se Enigma Variations (1898–99) e Pomp and Circumstance marches (1901–07; 1930). Seguem a versão para pequena orquestra e a versão para piano de Salut d’Amour (1888).

Edward Elgar. Salut d’Amour Op 12. 1888. Ensemble des Deutschen Kammerorchesters Berlin. Violino: Daniel Hope. 2012.
Edward Elgar. Salut d’Amour Op 12. 1888. Piano: Aldo Ciccolini.

O império das mercadorias

Coca-Cola. Open that Coca-Cola. 2021.

A Coca-Cola oferece-se como uma poção mágica (vídeo 1). À semelhança da beberagem do Panoramix (vídeo 2). A primeira resulta numa dança acelerada e colorida, a segunda, numa pancadaria ciclópica. Os objetos, as mercadorias, apoderam-se de nós e transfiguram-nos. Atente-se nos sofás Snug (vídeo 3).

Marca: Coca-Cola. Título: Open that Coca-Cola. Agência: Wieden + Kennedy (London). Direção: Los Perez. Reino Unido, Fevereiro 2021.
Astérix : Le Secret de la Potion Magique – L’Attaque du Village. Excerto. França, 2018.
Marca: Snug. Título: New Realm of Cosy. Agência: Wax/On. Direção: Thomas Ormonde. Reino Unido, Fevereiro 2021.

Roberta Flack

Roberta Flack.

Vacinado ou não, continuo vulnerável.

Roberta Flack. The First Time Ever I Saw Your Face. First Take. 1969.
Roberta Flack. Killing me softly with his song. 1973.

Matar a música. Victor Jara

Victor Jara. Memória.

Há épocas e lugares em que a música e a política se aproximam. O canto politiza-se e a política canta. Aconteceu em Portugal nos anos sessenta e setenta. Esta relação pode degenerar, tornar-se trágica. Victor Jara foi torturado e assassinado em 1973 pelo governo chileno de Pinochet. O Tendências do Imaginário contém várias canções de Victor Jara. Acrescento duas.

Victor Jara. Manifiesto. Manifiesto. 1974. Póstumo.
Victor Jara. Duerme, Duerme Negrito. Pongo en tus manos abiertas. 1969.

A Rosinha dos Limões

Estranho o cérebro que desconhece distâncias e proporções.  Hoje é dia de Super Bowl, com os anúncios mais caros do mundo. O anúncio Last Year’s Lemons, da Bud Light, lembra-me, deste lado do Atlântico, há mais de meio século, A Rosinha dos Limões, de Max. Lembrança tresmalhada.

Marca: Bud Light. Título: Last Year’s Lemons. Agência: Wieden + Kennedy (New York). Estados-Unidos, Janeiro 2021.
Max. A Rosinha dos Limões.

Era uma vez o slow

Aphrodite’s Child. End of the World. End of the World. 1968. Ao vivo em 1968.

A escrita é da ordem do desejo. Sensual e dialógica. A escrita pode, inclusivamente, resgatar as cinzas do prazer. A banda grega Aphrodite’s Child obteve um sucesso apreciável nos anos sessenta e setenta. Era composta por três elementos, dois célebres: Vangelis, teclas, e Demis Roussos, voz e baixo. A interpretação ao vivo de End of the World, em 1968, revela a febre do slow, dança de contato contraposta ao desprendido shake. A dança é um fenómeno cultural. Nos anos setenta, predominavam os bailes nas caves, nos ginásios e nos recintos das festas. Eram animados por grupos musicais. Quando iniciava uma música propícia ao slow, as pessoas afluíam à “pista de dança”. Volvida uma década, nos anos oitenta, predominam as discotecas. Quando abre uma série de músicas lentas, as pessoas abandonam a pista para conversar e beber. De ostensiva, a dança de slow tornou-se discreta. Mas não desapareceu. Atente-se na dança, em 2018, entre a atriz e apresentadora Filomena Cautela e o primeiro ministro António Costa. O slow parece mais difícil de dançar do que “antigamente”. A sintonia e o contato dos corpos asseveram-se complicados e intermitentes.

Filomena Cautela dança um slow com António Costa. 5 Para a Meia-Noite | RTP. Julho 2018.

Marie Laforêt

Marie Laforêt. 1974, France

Je ne m’écoute jamais. Là, j’ai été obligée de le faire pour effectuer le choix de mes chansons et ça été un vrai calvaire. De toute façon, je déteste me voir ou m’entendre (Interview Télé Star, 2005, « Marie Laforêt : Je déteste m’entendre chanter » , Propos recueillis par Fabrice Dupreuilh)

Tanta doçura, tanto laço, tanto amor. Abraça-se o tronco e sorve-se a seiva. As três canções que seguem não cantam o Natal, mas são melodiosas e sentimentais. São dos anos sessenta e setenta, canções de amor, procura e separação. Por Marie Laforêt, uma das meninas bonitas da canção francesa.

Marie Laforêt. Je voudrais tant que tu comprennes. 1966.
Marie Laforêt. Je suis folle de vous. Chansons à aimer. 1968.
Marie Laforêt. Viens Viens. 1973.