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Saint Germain

Maçaneta cacto: https://www.facebook.com/isabel.a.silva.5030/posts/10219668670740087

Em tempo de epidemia, arrumar a casa é uma tentação. A cave, com 180m2 de tralha, é uma prioridade. Graças ao meu sentido apurado de organização, uma quinzena de cds originais andava submersa no caos dos bens dispensados:  Air, Enya, Kraftwerk, Serge Gainsbourg, Kate Bush, Goldfrapp, Luz Casal, Mozart e o único cd que possuo do Saint Germain. Saint Germain tem uma música muito própria entre o Acid Jazz, a Música Eletrónica e o Nu Jazz. Lembra alguns músicos nórdicos, nomeadamente o norueguês Nills Petter Molvaer. Pressinto que estou a acertar ao lado dos vossos gostos. A culpa é da arrumação.

Saint Germain. Sure Thing. Tourist. 2000.
Saint Germain. Rose Rouge. Tourist. 2000.
Saint Germain. Montego Bay Spleen. Tourist. 2000.

e-ternamente

Michelangelo. Pietà. 1499. Pormenor.

NA MÃO DE DEUS

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despôjo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto…
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

Antero de Quental. Os sonetos completos de Anthero de Quental. 1886.

Charles Trenet. Chanson d’automne. Poema de Verlaine. Ao vivo, 1968.

Billie Eilish

Billie Heilish.

Adolescente, no topo de vendas, a chorar lágrimas pretas, foi o suficiente para uma birra preconceituosa com Billie Eilish. Beber lágrimas pretas era demasiado para a minha cabeça redonda. É certo que conheço apenas o videoclip When the party’s over (2018): um concentrado de alta qualidade. Sou teimoso, mas sei dar o braço a torcer. Billie Eilish lançou ontem, 13 de Fevereiro, uma nova canção, No time to die, para o próximo filme da saga 007. Uma maravilha! O preconceito cega. Voltei a ouvir When the party’s over, e gostei.

Albertino e Fernando

Billie Eilish. “No Time To Die”, the theme song for the 25th James Bond film. Lançado a 13 de Fevereiro de 2020.
Billie Eilish. When the party’s over. When we all fall asleep, where do we go? 2018.

Diabolus in Musica

Guitarra com combustível.

Existem anjos que moram no purgatório. Impacientes, sobem e descem a escada: ora inalam enxofre ora respiram ar condicionado. Estes anjos conhecem tudo: o churrasco do inferno, o maná do céu e o fumeiro do purgatório. O Alberto conhece este mundo e os outros. Quando sinto falta de espanto procuro o Alberto. Pasme-se com uma guitarra elétrica cuja caixa é uma lata de combustível da Sacor, talhada para concertos infernais. Se as chamas desfalecerem, soltam-se uns pingos de gasolina. Com esta inspiração ainda vamos criar uma banda chamada Hellite.

Fiz, há meses, uma comunicação intitulada “Música do Inferno”, concentrada na Idade Média e no Renascimento. Mas existe música infernal na atualidade. Por exemplo, a música dos norte-americanos Slayer, acabados de acabar. Independentemente de gostar ou não da música, interessa-me o fenómeno. Não se ganha em virar a cara, porque pode a cabeça ficar torta. Segue um anúncio e uma música dos Slayer.

Anunciante: Slayer. Título: Giveaway: Enter to Win Repentless Hell-p. Agência: Kolle Rebbe. Alemanha, Janeiro 2020.
Slayer. Hell Awaits / The Antichrist. Hell Awaits. 1985. Live In Anaheim, CA / 2002.

Terra

João Gigante, do Livro Pedra e Pele. 2018.
Aguaviva. Pon tu cuerpo a tierra. Poetas Andaluces de Ahora. 1975.

Há ideias que são como relâmpagos. Vêm e vão, mal as conseguimos agarrar. Estava a limpar o computador, quando me deparo com a fotografia de João Gigante. Acudiu-me a soturna canção Pon tu cuerpo a tierra, dos Aguaviva. Da terra não vimos, porque não somos carvalhos, mas para a terra vamos. Vamos apanhar batatas.

“Somos os que aqui estamos”

Variação da população residente em Portugal Continental. 1960-2001 e 2001-2011. Fonte INE. Elaboração UMVI. O Interior em números.

Nas últimas décadas, o despovoamento foi monstruoso. É verdade que as migrações sempre existiram. Mas não tão desequilibradas. É difícil inverter a tendência. Despovoamento gera despovoamento: problemas de escala, de mercado, de emprego, de natalidade e de envelhecimento. A meu ver, despovoamento rima com fracasso político. Nem tudo neste País tem que ir a banhos. A intervenção política não se pode confinar à ponta da língua e à disponibilização de cuidados paliativos. Convém estancar a necrópole das aldeias de Portugal. As pessoas, essas, não desistem. Resistem à inércia de partir. Para o estrangeiro, para as cidades, para onde calha, com a promessa de uma vida melhor. Existe a tendência para imaginar a vida no interior e nas margens do País como um entorpecimento ou uma hibernação. Uma espécie de presépio. É uma ilusão ótica. Face à adversidade, as pessoas abraçam a vida, multiplicam os projetos e somam iniciativas. Pode faltar investimento de Estado, sobra vontade, criatividade e esforço humano. A metade da população que partiu não é melhor do que a metade da população que ficou.

Congratulo-me com o anúncio espanhol Yo Me Quedo, da empresa Correos Market. Porque é raro um anúncio dedicado ao despovoamento e pela aposta na sobriedade estética, por exemplo, os enquadramentos são naturais, bem como as roupas dos entrevistados.

Marca: Correos Market. Título: Yo Me Quedo. Agência: Contrapunto BBDO. Direcção: Félix Fernández de Castro. Espanha, Dezembro 2019.

A dança dos espíritos abençoados

Gluck. Orphée et Euridice. Opéra en trois actes. 1774.

É mais fácil colocar um anúncio publicitário do que uma música clássica. Esta é, no entanto, um bom amparo contra nuvens pasmadas. Ao procurar dois excertos da ópera Orfeo ed Euridice, do compositor alemão C. W. Gluck (1714-1787), surgem tantos arranjos, versões instrumentais e interpretações que apetece arrepiar caminho. Retive uma versão para piano da “Melodia”, interpretada pela catalã Noelia Rodiles. A segunda escolha foi óbvia: a versão para flauta da “Dança dos Espíritos Abençoados”, interpretada por Jean-Pierre Rampal, um dos melhores flautistas do séc. XX.

Gluck- Sgambati melody from Orfeo ed Euridice live at the Tonhalle Düsseldorf, Feb. 2016. Piano: Noelia Rodiles.
Gluck. Dança dos Espíritos Abençoados. Ópera Orfeo ed Euridice. Flauta: Jean-Pierre Rampal.

A Cavatina pedagógica

Crianças Pensantes. Charlie Brown.

Logo, espera-me uma aula. Preparo-me. Rascunho apontamentos, que não vou utilizar, e ouço música, que passa ao lado. Música que me inspire a lograr que os alunos gostem de alguma coisa. O firmamento dos gostos mudou. Não basta que uma maçã seja boa, é preciso que haja vontade de a trincar. Consola-me pressentir que a Bruxa Malvada não faria melhor. A música de hoje é a Cavatina, composta por Stanley Myers, em 1970. Ficou célebre pela versão do filme The Deer Hunter (1978) e pela interpretação de John Williams. Desta vez, temos um duo: Manuel Barrueco e, curiosamente, Steve Morse, do último Deep Purple.

Manuel Barrueco & Steve Morse. Catavina. Nilon & Steel. 2001. Compositor: Stanley Myers (1970).

Virar costas a Castela

Padrão dos Descobrimentos. Lisboa.

Virar costas à latinidade não traz bom vento. Insensatez de Estado, cenoura do povo e oportunismo do resto.

Conhece Angelo Branduardi? Não? E a Billie Eilish? A cereja no bolo do terceiro milénio é a avaliação assente na ignorância electronicamente ruidosa. O Angelo Branduardi é uma espécie de José Afonso da Itália. Ao prestar-lhe atenção, paramos, por um momento, de coçar o mainstream. Boiar na corrente é cómodo, mas nada pessoal. Sem cabeça, coração e estômago, com raízes gastas, sob uma tempestade de gadgets e emblemas, arriscamos o excesso semiótico e o distúrbio gastro-identitário.

Viramos costas à latinidade com o freio nos dentes. Afigura-se estúpido desvalorizar o que somos.

Angelo Branduardi. La Luna. La Luna. 1975.
Angelo Branduardi. Alla Fiera Dell’ Est. Alla Fiera Dell’ Est. 1976. Ao vivo em 1996.
Angelo Branduardi. La Pulce D’Acqua. La Pulce D’Acqua. 1977. Ao vivo em 1983.

Azul

Man Ray. Le violon d’Ingres. 1924.

Acontece-me pasmar a ver anúncios da viragem do milénio. Muita criatividade e menos técnica. Esta equação deve ser uma ilusão, mas merecia um estudo. Os anúncios que seguem, ambos do Greenpeace, lembram Hieronymus Bosch e o surrealismo. Nos oceanos, há crude para todos. Naquele tempo (1990 e 2000), pouco se falava do plástico.

Hoje, fui nomeado cidadão de honra do concelho de Melgaço, minha terra natal. Ainda estou emocionado.

Anunciante: Greenpeace. Título: La Poire. Internacional, 1990.
Anunciante: Greenpeace. Título: Oil. Agência: Giovanni FCB. Brasil, 2000.