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Cápsulas de emoções

Incorporei o vídeo “Emoções Confortáveis” no Tendência do Imaginário em 10 de junho de 2015. Subsistem, porém, algumas dificuldades de reprodução. Recoloco uma versão alargada (31 em vez de 26 minutos) a partir do meu canal no YouTube.

“Emoções Confortáveis: O Barroco Na Publicidade” é uma compilação de anúncios destinada a projeção em contínuo numa instalação da exposição Vertigens do barroco em Jerónimo Baía e na actualidade, em 2007, no Mosteiro de São Martinho de Tibães. Como complemento, recomendo o texto Vertigens do Presente: A Dança do Barroco na Era do Jazz, incluído no respetivo catálogo.

Emoções Confortáveis: O Barroco Na Publicidade. Por Albertino Gonçalves para a Exposição Vertigens do barroco em Jerónimo Baía e na actualidade, Mosteiro de São Martinho de Tibães, 2007

Tudo bem?

Em Portugal, uma média de três pessoas morrem por suicídio todos os dias. No entanto, sendo um dos tabus mais profundos da sociedade, a morte (especialmente a autoinfligida) raramente é discutida. Não se fala sobre ela.
O suicídio existe na nossa realidade quotidiana, muitas vezes despercebido, enquanto nos esquecemos de que criar espaço, iniciar conversas e prestar atenção é uma responsabilidade partilhada.
Todos os dias, depois de um simples olá, perguntamos “Tudo bem?” – sem esperar pela resposta. É neste breve e quotidiano momento que devemos aprender a parar, a ouvir e, finalmente, a fazer as perguntas difíceis – aquelas que podem mudar vidas.
Este foi o ponto de partida da campanha: criar espaço para um tema fragmentado e desconfortável na conversa do dia a dia. Com o lançamento do 1411 (a primeira linha de apoio nacional de prevenção do suicídio em Portugal, disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana), a campanha reformulou a prevenção como uma responsabilidade social coletiva. (https://www.adsoftheworld.com/campaigns/esta-tudo-bem).

Carregar na imagem seguinte para aceder ao vídeo do anúncio.

SNS24 / Linha Nacional de Prevenção do Suicídio – Está tudo bem? Agência: Tangity. Direção: Augusto Fraga. Portugal, dezembro 2025

Atom Heart Mother. Um Tesourinho Persistente

O YouTube surpreendeu-me com uma interpretação memorável de um dos meus tesourinhos persistentes, o Atom Heart Mother (1970), obra sui generis demasiado ignorada dos Pink Floyd, pela Orchestre Philharmonique de Radio France, num concerto no Théâtre du Chatelet, em fevereiro de 2012, sob a direção de Jean-Jacques Justafré, que conclui, comovido, quase em lágrimas.

Para quem tiver, como eu, algum tempo a “perder”, seguem três vídeos:

  • O primeiro é uma gravação de uma homenagem ao Pink Floyd “Primitive Mother” ao vivo no Chicken George, Kobe, Japão, 27 de outubro de 2016. Duração: 15:39;
  • O segundo é interpretado pela Orchestre Philarmonique de Radio France, no Théâtre du Chatelet, em 2012, com uma duração de perto de 30 minutos;
  • O terceiro contempla o lado A completo do LP, de 1970, remasterizado em 2011.
Homenagem ao Pink Floyd “Primitive Mother” ao vivo no Chicken George, Kobe, Japão, 27 de outubro de 2016
Orchestre Philharmonique de Radio France – Atom Heart Mother (ooriginal Pink Floyd. 1970). Théâtre du Chatelet. Direção: Jean-Jacques Justafré. 2012. 29:47
Pink Floyd – Atom Heart Mother. 1971. 23:43

A Boémia na Rua

Place de la Contrescarpe. Paris

Em setembro de 2025, a Place de la Contrescarpe, no Quartier Latin, em Paris, transbordou dopamina. Um conjunto de 30 músicos e cantores entoou e encenou a Bohemian Rhapsody, dos Queen. Empolgante! Agradeço a partilha deste link à Helena Lages, aluna de uma das primeiras turmas de que fui professor na Universidade do Minho, no início dos anos 1980′.

Bohemian Rhapsody, dos Queen, na Place de la Contrescarpe, em Paris, em setembro 20255, por, entre outros, Mickey Callisto e Julien Cohen. Realização de Julien Cohen.  

Voz de Lama

No Natal, algumas lâmpadas fundem. Não se repara. Como é de esperar, brilham e apagam-se. Estas perdas de luz não desiludem, a época é de indesilusão. E luz por Luz! Não, não se repara, nem se substitui. Por elas não seja! Talvez para o ano, se houver Natal.

Junto três canções (de luzes fundidas?): “Je voudrais tant que tu sois là”, de Serge Lama, “L’Indifférence”, de Gilbert Bécaud (com Serge Lama), e “Ce soir mon amour”, de Georges Moustaki.

Serge Lama – Je voudrais tant que tu sois là. L’enfant au piano, 1977
Gilbert Bécaud (& Serge Lama) – L’indifférence. Original: Olympia 77, 1977
Georges Moustaki – Ce soir mon amour. Les amis de Georges, 1974

(A)VUELOS

Acabo de ver este anúncio da Iberia. Não resisto a partilhá-lo. Uma das muitas coisas que o Natal costuma ter bom é alguma publicidade.

Anunciante: Iberia. Título: El vuelo de Clara y Mateo. Agência: McCann. Espanha, dezembro 2025

Passagem

A Deputación de Pontevedra solicitou à Diana Gonçalves a realização de um vídeo de um minuto (apropriado para divulgação online) para assinalar o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher (25 de novembro). Resultou a curtíssima metragem “O machismo vese claro cando enfocas, e ti velo?”. Num dia de nevoeiro sebastiânico, a ponte adquire um protagonismo inspirador. Graças aos planos e ângulos de filmagem, significa, melhor, proporciona sentir o confronto entre a clausura envolvente e a passagem libertadora.

O machismo vese claro cando enfocas, e ti velo?. Guión y dirección: Diana Gonçalves. Producción: Raia Creativa. Deputación de Pontevedra, 25.11.2025

Ouroboros

“Car Je est un autre” (Arthur Rimbaud, “Lettre du voyant”, 1871)

Ouroboros. Iluminura de breviário do século XIV

Até onde irá a nossa plasticidade? E a reciclagem?

Anunciante: Southern Highlands Matters / Reject Repoly. Título: Little Plastics. Agência: Superlunar. Direção: Superlunar. Austrália, novembro 2025
Anunciante: Volkswagen Group France. Título: Car paradise. Agência: DDB Paris. Direção: Julien Beuvry. França, novembro 2025

Abstinência social. Contos de solidão e mal viver

Vincent Van Gogh. Sorrowing Old Man (At Eternity’s Gate). Detalhe. 1890

Das 417 visualizações que o Tendências teve ontem, 15 de novembro, 7 incidiram sobre o artigo “Contos de solidão e mal viver”. O título despertou-me a curiosidade e fui espreitar. Não engana: o assunto é mesmo a abstinência social, o isolamento e a fata de convívio, principalmente dos mais velhos. Na altura, sentia-me só. Aliás, ainda me sinto, embora menos. Instalada a solidão, a morte social, resulta difícil livrar-se dela. Entre nós e os outros ergue-se como que um véu deveras complicado de rasgar. Recoloco o artigo.

Podem repetir os sábios que não existem velhos, que velhos são os trapos. Mas o envelhecimento persiste. Até os trapos envelhecem. Sinto-me a envelhecer: as pernas pesam, os olhos turvam-se e a memória esquece-se. A rede de relações encolhe, como um polvo na panela, rumo à solidão. E nós insistimos que não há velhos, que velhos são os trapos. Recorremos à esconjuração retórica, como se o envelhecimento fosse uma figura de estilo ou um descuido da perfeição. Como se não rezássemos todos no templo do abraço perdido…

Quem me mergulhou neste estado de desentendimento lamentável foi o Nick Cave. Dos três anúncios que seguem, o último é o mais confrangedor: os netos “visitam” o avô mas para assistir a uma emissão de futebol facultada aos idosos por um canal televisão.

Anunciante: Re-Engage. Título: Stella. Direcção: Izzy Burton. Reino Unido, Dezembro 2019
Anunciante: Silver Line. Título: Visiting Gramps. Agência: M&C Saatchi. Direcção: Chris Thomas. Reino Unido, Abril 2015
Marca: Direct TV. Título: En casa del abuelo. Equador, Novembro 2016
Nick Cave & The Bad Seeds – Into my arms. The Boatman’s Call. 1997. Live in Copenhagen.

Anunciação do Outono

Almerinda Van Der Giezen. Anunciação do Outono. Outubro 2025

Quando repouso os olhos na fotografia “Anunciação do Outono”, de Almerinda Van Der Giezen, ressoa a poesia do subestimado Paul Verlaine (1844-1896). Principalmente, os poemas “Chanson d’Automne” e “Il pleure dans mon coeur”. Verlaine foi um expoente na valorização da sonoridade na composição. As palavras de “Chanson d’Automne” expressam montonia, languidão e melancolia; em “Il pleure dans mon coeur”, convocam e ritmam a queda da chuva.

A primeira estrofe de “Chanson d’Automne” foi escolhida como código para avisar, por rádio, a Resistência Francesa do desembarque dos Aliados na Normandia no final da Segunda Grande Guerra (6 de junho de 1944).

No Jardin du Luxembourg, em Paris, pontifica, num recanto discreto, um busto de Paul Verlaine. Sonho voltar a fazer-lhe companhia, sentado num banco de madeira protegido por sebes de arbustos.

Imagem: Paul Verlaine

Seguem os dois poemas cantados. Para a transcrição em francês e em português, consultar 8 poemas de Paul Verlaine, em 3 tradutores. Acrescento a canção “Je suis venu te dire que je m’en vais”, single de 1973, do Serge Gainsbourg, que estimo como um dos melhores tributos a Paul Verlaine.

Paul Verlaine – Chanson d’Automne, Poèmes Saturniens, 1866. Canção: Léo Ferré, 1964
Paul Verlaine – Il pleure dans mon coeur, Romances sans paroles, 1874. Canção: Marc Robine 2002
Serge Gainsbourg – Je suis venu te dire que je m’en vais. Single, 1973