(A)VUELOS
Acabo de ver este anúncio da Iberia. Não resisto a partilhá-lo. Uma das muitas coisas que o Natal costuma ter bom é alguma publicidade.
Passagem

A Deputación de Pontevedra solicitou à Diana Gonçalves a realização de um vídeo de um minuto (apropriado para divulgação online) para assinalar o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher (25 de novembro). Resultou a curtíssima metragem “O machismo vese claro cando enfocas, e ti velo?”. Num dia de nevoeiro sebastiânico, a ponte adquire um protagonismo inspirador. Graças aos planos e ângulos de filmagem, significa, melhor, proporciona sentir o confronto entre a clausura envolvente e a passagem libertadora.
Ouroboros
“Car Je est un autre” (Arthur Rimbaud, “Lettre du voyant”, 1871)

Até onde irá a nossa plasticidade? E a reciclagem?
Abstinência social. Contos de solidão e mal viver

Das 417 visualizações que o Tendências teve ontem, 15 de novembro, 7 incidiram sobre o artigo “Contos de solidão e mal viver”. O título despertou-me a curiosidade e fui espreitar. Não engana: o assunto é mesmo a abstinência social, o isolamento e a fata de convívio, principalmente dos mais velhos. Na altura, sentia-me só. Aliás, ainda me sinto, embora menos. Instalada a solidão, a morte social, resulta difícil livrar-se dela. Entre nós e os outros ergue-se como que um véu deveras complicado de rasgar. Recoloco o artigo.
Podem repetir os sábios que não existem velhos, que velhos são os trapos. Mas o envelhecimento persiste. Até os trapos envelhecem. Sinto-me a envelhecer: as pernas pesam, os olhos turvam-se e a memória esquece-se. A rede de relações encolhe, como um polvo na panela, rumo à solidão. E nós insistimos que não há velhos, que velhos são os trapos. Recorremos à esconjuração retórica, como se o envelhecimento fosse uma figura de estilo ou um descuido da perfeição. Como se não rezássemos todos no templo do abraço perdido…
Quem me mergulhou neste estado de desentendimento lamentável foi o Nick Cave. Dos três anúncios que seguem, o último é o mais confrangedor: os netos “visitam” o avô mas para assistir a uma emissão de futebol facultada aos idosos por um canal televisão.
Anunciação do Outono

Quando repouso os olhos na fotografia “Anunciação do Outono”, de Almerinda Van Der Giezen, ressoa a poesia do subestimado Paul Verlaine (1844-1896). Principalmente, os poemas “Chanson d’Automne” e “Il pleure dans mon coeur”. Verlaine foi um expoente na valorização da sonoridade na composição. As palavras de “Chanson d’Automne” expressam montonia, languidão e melancolia; em “Il pleure dans mon coeur”, convocam e ritmam a queda da chuva.

A primeira estrofe de “Chanson d’Automne” foi escolhida como código para avisar, por rádio, a Resistência Francesa do desembarque dos Aliados na Normandia no final da Segunda Grande Guerra (6 de junho de 1944).
No Jardin du Luxembourg, em Paris, pontifica, num recanto discreto, um busto de Paul Verlaine. Sonho voltar a fazer-lhe companhia, sentado num banco de madeira protegido por sebes de arbustos.
Imagem: Paul Verlaine
Seguem os dois poemas cantados. Para a transcrição em francês e em português, consultar 8 poemas de Paul Verlaine, em 3 tradutores. Acrescento a canção “Je suis venu te dire que je m’en vais”, single de 1973, do Serge Gainsbourg, que estimo como um dos melhores tributos a Paul Verlaine.
Insinuação estética
“Os privilégios da beleza são imensos. Afeta inclusivamente quem não a reconhece.” (Jean Cocteau. Les enfants terribles. Paris, Grasset, 1929, p. 19)
Quando a beleza passar perto, abram as janelas! Seguem mais duas canções da norueguesa Ane Brun.
Ao vivo, que te quero vivo

Gosto de me lembrar da Patti Smith, a “musa do punk”, a encher o palco, nos anos 70 encher o palco, nos anos 70. Uma magricelas que me recorda outros magricelas: o Mick Jagger e a Linda Perry, das 4 Non Blondes, que reconhecidamente inspira. Seguem 3 interpretações da Patti Smith: Gloria, 25th Floor e Free Money. Because The Night e Mother Rose já estão contempladas nos artigos Três em um e Infância. Acrescento What’s Up, das 4 Non Blondes.
Jogar às cartas com o Diabo 1. Purgatório
Não se consegue pentear um diabo que não tem cabelos (Provérbio belga)

O Tendências do Imaginário é, desde a criação em agosto de 2011, uma espécie de oxímetro que afere a minha atividade vital, os seus altos, baixos, derivas e vazios. Também se oferece como um memorando ou diário regular. Por sinal, útil, porque não quero esquecer. As memórias dão alento e sentido à vida. São veio e vento!
Imagem: Com João Gigante e Álvaro Domingues. Alvaredo, agosto 2025
Faz, precisamente, quatro anos, que tive alta de um internamento hospitalar complicado que durou três semana. Não posso dizer que conheci a morte [creio que ninguém o pode], mas passei a saber, aliás como muitos, o que significa [estar a] morrer.

Joguei às cartas [em vez de xadrez] com o diabo [ou a morte]. Por trapaça ou desembaralho, vinguei. E choveu no inferno! Como Dante ou Epistémon, regressei, embora chamuscado.
Os artigos de agosto de 2021 foram redigidos durante este “renascimento”. Para proveito próprio, retomo-os. Retenho os onze publicados entre os dias 3 e 18. Arrumo-os em quatro grupos.
Imagem: Albertus Pictor, Death playing chess. Mural. 1480
- Resgate: “regresso” e “alívio, dias 3 e 4;
- Regeneração: “Sara”, “reincidência” e “aleijados, dias 5, 6 e 7;
- Apelo: “abrigo”, “embarcados” e “a tua mão”, dias 6 e 8;
- Trauma: ”sofrimento”, “anjo da guarda” e “raiva”, dias 9, 17 e 18.

Nos meses de julho e agosto, a vida tendeu a mudar e o mundo a virar do avesso.
- O discurso torna-se esquelético, esfíngico e estético. Palavras, apenas as suficientes para partilhar ideias e sentimentos;
- Primazia à subjetividade, menos pretensão “científica” e mais poesia, música e artes;
- Nada de hierarquias temáticas. Sem assuntos maiores ou menores, todas as sementes podem dar flores e nada escapa ao humor;
- Aceitação dos outros, sem ilusões;
- Enfim, depois de dez anos sempre a piorar, os últimos quatro a melhorar.

Existe, pelo menos, uma porta do inferno no purgatório. Publiquei só dois artigos em julho, antes do internamento (dias 4 e 6). Acamado, com escassa motricidade, os principais estímulos resumiam-se à incontinência da televisão, ao refúgio do portátil e ao desconforto físico. Corpo, imagens, poesia e música compunham o mundo vital. Não surpreende, portanto, o destaque que lhes é reconhecido. Ironicamente, convoco, ainda, os pés, tão prestáveis, mas agora entorpecidos. Um dia após o último artigo, dei entrada nas urgências do Hospital. Concederam-me expeditamente alta [talvez para morrer em casa]. Volvida uma semana, a 15 de julho, retornei moribundo. Afortunadamente, além do Diabo, tinha um Anjo à minha espera.
PURGATÓRIO
Recoloco, portanto, os artigos Ideologia a domicílio e Da excelência dos pés, os únicos publicados no mês de julho de 2021. O texto propriamente dito quase desaparece. Predominam os conteúdos: a música (In Loving Memory), o anúncio (Les Pieds) e um excerto do poema Dans ma maison, de Jacques Prévert. Estava saturado dos ecrãs e, pelos vistos, os pés tinham potencialidades fantásticas, ironicamente, fora do alcance dos meus. Pouco convivia. Apenas com a esposa, o filho e a empregada, progressivamente conformados com a presença de um quase cadáver. Acreditavam no inevitável. A despedida resultou extremamente longa e o luto quase antecipado. Todos menos a vítima! Mal diagnosticado e medicado, estava a morrer há tanto tempo que não lhe via o fim. Só nos últimos momentos, rodeado por médicos impotentes e uma enfermeira, ex-aluna chorosa como Madalena, resigmado, se dispôs a entregar a alma ao Diabo. Inesperadamente, antes da última badalada, um anjo interveio surgiu. Afinal, existem na terra.
[Carregar nas imagens seguinteses para aceder artigos.]
Artigo Ideologia a domicílio – 4 de julho de 2021

Artigo Da excelência dos pés – 6 de julho de 2021

Nem de aqui, nem de além (cópia)
[Artigo publicado há 2 anos, em 10 de julho de 2023]

“Ayer soñé que podía y hoy puedo” (Facundo Cabral)

Prefiro abraçar o próximo a chegar longe. Um abraço franco e aberto para deixar o outro desconcertar-me. Por exemplo, Facundo Cabral. Argentino, “mensageiro mundial da paz” pela UNESCO em 1996, foi assassinado a tiro no dia 9 de julho de 2011, na Guatemala, fez ontem 12 anos. Estimava-o como um Diógenes contemporâneo.
Me gustan los que se callan
No Soy de aqui, ni soy de allá
Facundo Cabral
Me gustan los que se callan
Y me gustan los que cantan
Y de tanto andar conmigo
Me gusta lo que me pasa
Me pasan cosas como esta
Aunque no tenga importancia andar contándole a todos todas las cosas que pasan
Porque uno no vive solo
Y lo que a uno le pasa le está sucediendo al mundo
Única razón, y causa
Pues todito es tan perfecto, porque perfecto es Dios
Que se mueve alguna estrella cuando arranco una flor
Por eso si hay uno, hay dosSupe del diablo la noche al que al hambriento dije no
También esa noche supe que el diablo es hijo de Dios
Ando solo por la vida con un tono y dominante
Modestamente cantor sin pretención de enseñar
Porque si el mundo de redondo, no sé que es ir adelanteAndar y andar, siempre andando nada más que por andar
No vine a explicar al mundo
Solo lo vine a tocar
No quiero juzgar al hombre, al hombre quiero contar
Mi condición es la vida y mi camino cantar
Cantar, y comentar la vida
Es mi manera de andarUn día llegué a Tandíl
Y conocí a un anciano que a falta de inteligencia se le dió por ser muy sabio
Le pregunté por Jesús una noche al lindo viejo
Y esa misma noche lo conocí
Cuando me alcanzó un espejoYo bailo con mi canción y no con la que me toca
Yo no soy la libertad, pero si el que la provoca
Si ya conozco el camino, por qué voy a andar acostado
Si la libertad me gusta, pa’ qué voy a vivir de esclavoElegir
Yo siempre elijo más que por mí, por mi hermano
Y si he elegido ser águila es por amor al gusano
Prefiero seguir a pie y no en caballo prestado
Alguien por una manzana, pa’ siempre quedó endeudadoSiempre se llega primero el que va más descargado
El día que yo me muera no habrá que usar una balanza
Pues pa’ velar a un cantor con una milonga alcanzaDoy la cara al enemigo la espalda al buen comentario
Porque el que acepta un halago empieza a ser dominado
El hombre le hace caricias al caballo, pa’ montarloPerdón si me propasé y me puse moralejo
Nadie puede dar consejos
No hay hombre que sea tan viejo
Me pongo el Sol al hombro
Y el mundo es amarilloMe gusta andar
Pero no sigo el camino pues lo seguro ya no tiene misterio
Me gusta ir con el verano muy lejos
Pero volver donde mi madre en inviernoY ver los perros que nunca me olvidaron
Y los caballos, y los abrazos que me dan mis hermanosMe gusta
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Me gusta el Sol Alicia y las palomas
El buen cigarro y la guitarra española
Saltar paredes y abrir las ventanas
Y cuando llora una mujerMe gusta el vino tanto como las flores
Y los conejos pero no los tractores
El pan casero y la voz de Dolores
Y el mar mojandome los piesNo soy de aquí
Ni soy de allá
No tengo edad
Ni por venir
Y ser feliz, es mi color de identidadMe gusta estar tirado siempre en la arena
O en bicicleta perseguir a Manuela
O todo el tiempo para ver las estrellas
Con la María en el trigalNo soy de aquí
Ni soy de allá
No tengo edad
Ni por venir
Y ser feliz, es mi color de identidad
Música da Grécia Antiga
As árvores com raízes profundas são as que sobem mais alto

A música não tem margens nem fundo. Navegamos e revemo-nos nas águas sem pressa de ancorar. Os ventos sopram para a Grécia Antiga. O timoneiro é Gregorio Paniagua, nascido em Madrid em 1944. Celebrizou-se como músico e musicólogo. Estudou violoncelo e viola de gamba, bem como direção de orquestra. Tocava, também, outros instrumentos musicais tais como a vihuela, o alaúde e a sanfona.
Autorretrato de Gregorio Paniagua
Em 1954, fundou, com irmãos e primos, o ensemble Atrium Musicae com que se apresentou à volta do mundo. Estudou, recuperou e interpretou repertórios de música antiga. Para esta “arqueologia”, criou uma oficina onde recria os instrumentos musicais da época. Publicou cerca de 20 álbuns. O mais célebre é, porventura, o dedicado à música da Grécia Antiga, recolhida em papiros. Destacam-se, também, as coletâneas de música árabe andaluza, pré-colombiana e medieval.
“L’ enfant terribile nasceu um ano antes da era atómica. Desde então, dedicou-se à arqueologia musical, especializando-se em musicologia e realizando suas próprias transcrições em concerto, baseadas nas fontes musicais originais de cada época. Ele também reconstruiu instrumentos musicais antigos em sua própria oficina, utilizando-os em suas apresentações e gravações.
Aos 22 anos, as nove Musas, filhas de Zeus e Mnemosine, o incentivaram a seguir um caminho diferente, e ele decidiu abandonar os estudos de medicina e se especializar em violoncelo no último ano de ambos os cursos. Decidiu não se tornar médico nem violoncelista, dedicando-se à musicoterapia (à qual dedicou sua tese de doutorado: Tarântula-Tarantela, HarmoniaMundi, 1976 ) e ao estudo de códices e manuscritos musicais antigos, a fim de se dedicar à ” arte de viver da arte” , em suas próprias palavras. Fundou o ATRIUM MUSICAE em 1964.
Gregorio Paniagua, na minha opinião, nunca se cansa de sua hiperatividade; seu dom para a música é inato. (GREGORIO PANAGUA. ATRIUM MUSICAE – COMPOSITOR, FUNDADOR E DIRETOR).
Seguem 5 das 25 faixa que compõem o álbum Musique de la Grèce Antique, editado em 1979 pela Harmonia Mundi (França).
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Não creio que seja necessário percebermos de musicologia para apreciar “música erudita”. A música é uma linguagem universal e, sobretudo, uma jexperiência sensorial.
Estas peças musicais da Grécia Antiga transcendem-nos no tempo e também nos cânones musicais, tal como os conhecemos. O que transforma a experiência num estado de espírito. Pede-nos aquele “silêncio” intemporal e expectante, como quando queremos ouvir o som da água, do vento e das próprias pedras. Ideal para escutar num templo, cheio de memórias nos seus muros e com uma abóbada a ampliar as ressonâncias do tempo.
A segunda peça foi a que mais me apelou aos sentidos. Curta mas surpreendente, nos seus sons compassados e quase cintilações dissonantes vindas de um estranho mas fascinante instrumento.
Por outro lado, a quarta peça, com uma abertura caótica e alucinante, seguida de lamúrios nos sons e nos cânticos, desenhou uma história trágica no meu imaginário.
O importante é abrirmo-nos para o desconhecido, e, mais importante ainda, permitir-nos sentir. Apenas. São essas memória que nos mantêm verdadeiramente vivos.
(Almerinda Van Der Giezen)
