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Não desistas!

Pablo Picasso. Dom Quixote. 1955.

As horas e as obras repetem-se. Coloquei este anúncio da Movistar há 10 anos no facebook. Inspirado, encoraja e anima. Sugere que existe um suplemento que nos demove de desistir. Esse suplemento é o Outro! Este anúncio ajuda a subir a corrente. Recoloco-o e volto a recolocá-lo. A repetição não é forçosamente estéril. Na música como na vida.

Nestes dias de recolhimento, aconselho o Dom Quixote de la Mancha. Juntos, Dom Quixote e Sancho Pança configuram um paradigma da humanidade. Separados, duvido!

O contacto, a conexão, entre pessoas capacita, gera sinergia. Torna possível o improvável. Neste anúncio, brilhante, o mundo aproxima-se da figura de um mosaico ou de um puzzle em que as diferentes peças apenas se sobrepõem sem se confundir, mesmo assim o suficiente para completar a acção. As situações e as pessoas interagem de um modo inacabado e imperfeito, mas eficaz. Namoram-se sem se anular, como um beijo de Gustav Klimt. O anúncio multiplica os sinais desta reserva e incompletude. Somos com os outros, conseguimos com os outros, mas não somos os outros, para o bem todos. O ruído preserva a identidade. A unicidade ameaça-a (https://tendimag.com/2017/03/14/com-o-mundo-nas-maos/).

Anunciante: Movistar. Título: Conectados podemos más. Agência: Young & Rubicam Perú; Directora de Produção: Julieta Kropivka. 2010.

Literalmente.

Reese’s Take 5. Rock. 2020.

Quando as palavras perdem as asas da fantasia, o que acontece? A realidade torna-se fantástica? São questões que o anúncio Rock, da Reese’s Take 5, coloca.

Marca: Reese’s Take 5. Título: Rock. Direcção: Harold Einstein. Estados Unidos, Janeiro 2020.

Na Gruta do Rei da Montanha

Theodor Kittelsen, Peer Gynt na Gruta do Rei da Montanha. 1913.

Costumo pedir aos alunos trabalhos que confrontem dois géneros distintos. Dizem que é difícil…

O anúncio Ópera, da Nintendo, realizado por Bruno Aveillan, é extraordinário e a música fabulosa. De quem é a música? Será Na Gruta do Rei da Montanha, de Edvard Grieg (ver vídeo)? A gruta de Grieg está pejada de monstros (trolls). Será que existe alguma relação entre os monstros do anúncio e os “trolls” da música? O pop/rock é permeável a influências. Haverá músicas pop/rock inspiradas em Grieg? Com o mesmo nome? Por exemplo, os Deep Purple, os Rainbow e, entre outros, os Apocalyptica (ver vídeo). O que perfaz três géneros. Vários artistas retrataram a história de Peer na Gruta do Rei da Montanha. Por exemplo, Theodor Kittelsen (ver imagem). Multiplicaram-se os vídeos de animação. Por exemplo, o vídeo da TVP SA, de 1996 (ver vídeo). Acrescente-se que Edvard Grieg compôs esta música (1876) a partir da obra Peer Gynt, do escritor Henrik Ibsen (1867). Somamos seis géneros: publicidade, música clássica, música pop/rock, pintura, cinema de animação e literatura. Material suficiente para um trabalho? Se for do meu interesse e valorizar as minhas competências. Por exemplo, se estiver inclinado para a semiótica da monstruosidade, é um excelente cocktail. Mas, aqui chegados, o que me estimula é comparar Na Gruta do Rei da Montanha, de Edvard Grieg, com a Dança Macabra, de Camille Saint-Saens (1875). São do mesmo género, será possível? Nunca se sabe…

Anunciante: Nintendo / Game Boy Advance. Título: Symphony. Agência: Leo Burnett. Direcção: Bruno Aveillan. França, Maio 2002.
Edvard Grieg. Na Gruta do Rei da Montanha. Peer Gynt. 1876. The Sydney Symphony Orchestra. 2011.
Apocalyptica. Hall Of The Mountain King (Instrumental). Cult. 2001.
Hall Of The Mountain King. Edvard Grieg. TVP SA, 1996.

Vício

Segue o fruto do vício: o último artigo do Tendências do Imaginário do ano 2019.

Dragon Ball Z: Kakarot LIVE ACTION Trailer (RealTrailer). Dec. 2019

Foi lançado, recentemente, um novo videojogo do Dragon Ball Z: Kakarot. No trailer, um jovem adulto recorda a sua relação com o Dragon Ball. Aproxima-se de um otaku, um fã obstinado. O trailer realça esse perfil. O protagonista imita os heróis e os seus gestos. Expõe-se, absorve e “reproduz”. O fenómeno é bom ou mau consoante as perspetivas. Para quem concebeu o trailer, parece desejável. Pessoalmente, não sei. Quando era pequeno, adorava os filmes, os livros e as brincadeiras de cowboys. Comprava livros usados, com ou sem quadradinhos, numa tabacaria do Largo dos Penedos, em Braga. Trocávamos livros de cowboys como quem troca cromos. A imersão não era menor do que face a um ecrã. Percorria quilómetros para ver uma série na televisão espanhola ou portuguesa: Bonanza, Jim West, Daniel Boone… Um western esgotava a geral do cinema Pelicano. Brincávamos aos cowboys, uma espécie de escondidas em que dois grupos se caçavam mutuamente e o toque era substituído pela visão: “mãos ao ar, vi-te primeiro”. No quintal, acertava com flechas feitas com varetas de guarda-chuva nas laranjas metamorfoseadas em índios. Cheguei a lutar com o travesseiro. Boa parte dos meus desenhos retratava cowboys. Tive pistolas de plástico e uma máscara de índio. Até falava com o sotaque dos atores norte-americanos. O cavalo era o meu animal de sonho. Um dia, o meu padrinho diz-me: – Vamos comprar um cavalo. Partimos para a Póvoa de Varzim. Deu as suas voltas e, a um dado momento, entrámos num edifício amplo que tinha cavalos. Falou com as pessoas do local. Regressou: – Só vendem os cavalos com as carroças. Respondi-lhe: – Assim não quero! É assim que se jardinam os sonhos das crianças. Em suma, tal como agora existe o otaku dos anime e dos mangá, eu era um otaku da coboiada. Teve efeitos? Naturalmente. A focagem é, por mais fantástica que seja, um estreitamento e um enviesamento do mundo. Se Armand Mattelard analisasse os livros, as séries e os filmes de cowboys, descobriria, como nas revistas da Walt Disney, falácias e perversidades. Existem eras, os anos cinquenta e sessenta foram a era dos cowboys; seguiu-se a era dos espiões e, um pouco mais tarde, a era dos anime e dos mangá. Há eras e eras, a dos cowboys coincidiu com a guerra fria. Ficaram-me marcas negativas? Tenho o corpo todo torto de andar a cavalo e quando aponto o dedo saem balas. Por acréscimo, fumo como os cowboys da Marlboro.

Série Jim West. 104 episódios, de 17 de Setembro de 1965 a 4 de Abril de 1969.

Vou festejar. Bom Ano!

Conto de Natal

Este é o meu artigo de Natal. Uma curta-metragem superpremiada. Creio que ainda vai a tempo. Boas festas!

“The Present” is a thesis short from the Institute of Animation, Visual Effects and Digital Postproduction at the Filmakademie Baden-Wuerttemberg in Ludwigsburg, Germany. 2014.

Prendas, abraços e elfos

Com duas palavras se escreve a expressão espírito de Natal: prendas e abraços. O anúncio Holiday, da Amazon, prescinde do Pai Natal. Encomendas animadas e efusão humana. O espírito de Natal pede magia. O Pai Natal foi preterido pela maioria das grandes marcas. Como substituto, o elfo. El Corte Inglés retoma a figura do elfo: em 2018, o anúncio chamava-se O pai do El Corte Inglés é um elfo, este ano o anúncio A magia do Natal muda tudo continua a apostar na figura do elfo. O Natal de 2019 ficará na história da publicidade como o Natal dos elfos.

Marca: Amazon. Título: Holiday 2019. Agência: Lucky Generals. Direcção: Henry-alex Rubin. Estados Unidos, Novembro 2019.
Marca: El Corte Inglés Portugal. Título: A magia do Natal muda tudo. Portugal, Dezembro 2019.
Marca: El Corte Inglés Portugal. Título: O pai do El Corte Inglés é um elfo. Portugal, Dezembro 2011

Publicidade. Alternativas ao Pai Natal

Continuo a desfiar a amostra de 16 anúncios do Natal. Visualizámos anúncios com o Pai Natal em pessoa e com pessoas disfarçadas de Pai Natal. Nos próximos oito anúncios, as marcas prescindem do Pai Natal. Enveredam por alternativas típicas do imaginário atual: ET, Guerra das Estrelas, dragões, animais e, naturalmente, crianças, muitas crianças. Incorporo cinco dos oito vídeos. Os links dos três vídeos restantes aparecem no fim do artigo. Basta visionar dois ou três anúncios para ter uma noção das figuras alternativas ao Pai Natal. Palpita-me que a tendência aponta no sentido da erosão e da substituição da figura do Pai Natal. Entre outros motivos, a figura do Pai Natal acusa o desgaste da figura da prenda. Não que não se dê mais prendas. Não que elas não sejam mais caras. Perderam, simplesmente, parte da magia da dádiva, de que fala Marcel Mauss (Ensaio sobre a dádiva, 1925). É ao nível simbólico, subjetivo e afetivo que a falha se cava. A prenda desprende-se paulatinamente do imaginário fabuloso.

Marca: Migros. Título: La chouette Mimi apprend à voler. Agência : Wirz. Direcção : Martin Werner. Suíça, Novembro 2019.
Marca: John Lewis + Waitrose. Título: Edgar The Dragon. Agência: Adam & Eve DDB (London). Direcção: Dougal Wilson. Reino Unido, Novembro 2019.
Marca: McDonald’s. Título: The Gift. Agência: Leo’s Thjnk Tank Berlin. Direcção: Sune Sorensen. Alemanha, Dezembro 2019.
Marca: Fedex. Título: Gift Box. Agência: BBDO. Direcção: Noam Murro. Estados Unidos, Novembro 2019.
Marca: Vale Sul Shopping. Título: Feliz Natal em mim. Produção: Consulado. Direcção: Marcos Boca Ceravolo e Tomas Pessoa Gurgel. Brasil, Novembro 2019.

Apple. The Surprise. Estados Unidos. Nov. 2019.

McDonald’s . Archie the Reindeer . Reino Unido. Dez. 2019.

Posten. In those days. Noruega. Dez. 2019.

A sociedade de sucesso e a flor do lixo

Sucesso, sucesso, sucesso! Estamos condenados ao sucesso. Ser mal sucedido é uma danação. Somos, provavelmente, a sociedade mais fisgada no sucesso. Pelo menos, no micromundo a que pertenço. Próximas só as sociedades de salvação, como a medieval e a moderna. A salvação pode ser encarada como uma espécie de sucesso eterno. Mas, já nesse tempo, o sucesso era decisivo: representava um indício de salvação (Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, 1905).

Nadamos, por palavras, atos e omissões, em lixo. O sucesso e o lixo não são opostos, mas complementares: quanto mais sucesso mais lixo, quanto mais lixo mais sucesso. A nossa sociedade é um monumento ao lixo. Mas não tem o monopólio. O homem medieval, e moderno, usava socos em que enfiava o calçado para o proteger da porcaria das ruas (ver Dois dedos acima da lama: https://tendimag.com/2016/09/30/dois-dedos-acima-da-lama/). O plástico é a nossa perdição e a nossa obsessão. Convive, contudo, com outras ameaças, agora, em segundo plano: os resíduos radioativos, as marés negras, as descargas tóxicas…

O anúncio Make it real, da Square Space, transforma o lixo em arte, e o Ferrão, o monstro resmungão da Rua Sésamo, em artista. Graças a uma fotografia e à Internet, o Ferrão torna-se, num ápice, uma super estrela contrafeita. Santa Senhorinha precisou de mais tempo para calar as rãs. Em suma, uma página profissional na Internet logra prodígios. É esse, precisamente, o negócio da Square Space: disponibilizar páginas de sucesso.

Marca: Squarespace. Título: Make it real / Oscar the Grouch. Estados Unidos, Novembro 2019.

O tema da “arte do lixo” não é uma novidade (A Arte e o Lixo: https://tendimag.com/2013/09/15/7499/). Atente-se, por exemplo, nas esculturas com desperdícios de plástico do português, de renome internacional, Bordalo II (ver galeria). A expressão serve a gregos e a troianos. Para os detractores, denuncia a degradação a que chegou a arte. Para os adeptos, significa a autonomia da arte, contanto relativa e parcial. Quando se faz arte com lixo visa-se a forma e sublima-se o conteúdo. Por outro lado, o recurso ao lixo sublinha que a arte está para além da moral, da religião, da política, da economia e, como diria Pierre Bourdieu (La Distinction, 1979), do gosto bárbaro. A autonomia ergue-se como um baluarte da arte e do artista.

Ontem, um anúncio com o E.T., hoje, com o Ferrão. Será que o Pai Natal vai ter que rivalizar com os heróis infantis dos adultos?

Morrer de prazer

Carlsberg. Snowman. 1998.

Substituindo a garrafa de cerveja por um cigarro, dava um bom anúncio anti-tabaco (AG, 2010).

Publiquei o anúncio Snowman, da Carlsberg, há nove anos no Facebook. Trata-se de um conto de Natal. Uma disforia que dispõe bem. É raro um final infeliz cobrir o coração de ternura e simpatia. Haja talento, inspiração e humanidade! Snowman confronta-nos com o desejo que transcende os limites, incluindo a morte, num contexto de regeneração cósmica: a cabana congeladora, a merenda na floresta, o arroto na água. Não fosse cómico, seria trágico. O anúncio é uma delícia, com sabor a amêndoas com licor.

Anunciante: Carlsberg. Título: Snowman. Agência: Saatchi & Saatchi. Director: David Borthwick. Dinamarca,1998.

O regresso de E.T.

Xfinity. A Holiday Reunion. 2019

Trinta e sete anos depois, um pequeno remake do filme E.T. O extraterrestre visita o amigo, e a família, conhece as novas tecnologias e repete momentos mágicos. Parte, mas deixa um portal para o coração. É uma história de Natal, “a Holiday Reunion”. Para crianças, das mais pequenas às mais crescidas (a geração E.T. ultrapassa os cinquenta anos). Uma aposta forte da marca.