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Estética estática. Música chinesa.

Dali religious painting. Extract of Zhang Shengwen’s Huajuan Scroll (1180) held at the National Palace Museum.

Do Japão para a China. Impressiona a postura dos intérpretes das músicasThe legend of Westward Journey (série de TV de 2011) e Adventure of Dali Prince.Optam por uma actuação discreta, quase imóvel. Por vezes, parecem estátuas ou escudeiros dos instrumentos. O que desconcerta.

Zi De Gukin (?).The legend of Westward Journey. China.
Zi De Gukin (?). Adventure of Dali Prince. China.

Pomplamoose e Django Reinhardt

Pomplamoose

Pomplamoose é um grupo musical, um duo elástico, norte-americano. Publicou músicas próprias mas também cover,  com arranjos e interpretações notáveis. A música Les Yeux Noirs inspira-se na música homónima (1940) de Django Reinhardt, célebre guitarrista cigano pioneiro do estilo Gipsy Jazz. Segue a reinterpretação dos Pomplamoose e o original de Django Reinhardt.

Pomplamoose ft. The Vignes Rooftop Revival. Les Yeux Noirs (Dark Eyes). En Français. 2020.
Django Reinhardt & Quintette du Hot Club de France. Les Yeux Noirs. Parlaphone. 1940.

Os Punk e as aulas não presenciais

The Offspring

Este semestre dou aulas por teleconferência. Sou uma imagem digital. Os alunos moram algures do outro lado do ecrã. Não ligam as câmaras. Televisão versus rádio. É este o retorno. A participação dos alunos é mínima. Exceto no intervalo. Digo disparates e eles verdades. Recomeçada a aula, arrefece a comunicação. Para a próxima, a aula vai ser toda um intervalo.

Hoje, durante a aula, abordámos o imaginário grotesco. Deu-se o exemplo dos punk. Lembrei-me da banda The Offspring. Seguem três vídeos. O segundo é um caso sério de grotesco.

The Offspring. Self Esteem. Ao vivo em 1998. Álbum Smash. 1994.
The Offspring. The Kids Aren’t Alright. Americana. 1998.
The Offspring. You’re Gonna Go Far, Kid. Rise and Fall, Rage and Grace. 2008.

Mal-entendido

Curved Air. Air Conditioning. 1970.

Oferecer a uma pessoa uma prenda de que ela não gosta é o cúmulo do mal-entendido. Os Curved Air são uma banda britânica, difícil de classificar, fundada em 1970. Tem um som próprio. Consta entre as primeiras bandas rock a incorporar o violino. Tenho um álbum ao vivo dos Curved Air (1975) que começa com a canção It Happened Today. Assim seja!

Curved Air. It Happened Today. Air Conditioning. 1970. Ao vivo, em 1971.

Através dos nossos ossos

Deep Purple

Nos anos setenta, os Deep Purple eram uma das minhas orações. A partir do álbum Burn (1974), deixei, porém, de rezar pelos ouvidos. Aconteceu o mesmo com os Pink Floyd, a partir do álbum The Wall (1979), e com os Camel, a partir do álbum Moonmadness (1975). Saiu, em agosto, o 21º álbum dos Deep Purple: “Whoosh!”. A banda é composta pelos seguintes membros. Primitivos: Ian Gillan, vocalista, 75 anos; Roger Glove, baixo, 74 anos; Ian Paice, baterista, 72 anos. Mais recentes: Don Airey, teclista, 72 anos; Steve Morse, guitarra, 66 anos. Uma banda enérgica, talentosa, experiente, com uma idade média de 72. anos. Uma longevidade profissional invejável.

Seguem o vídeo de uma sessão de ensaio para a canção “Throw My Bones”, mais o vídeo oficial desta canção, a primeira do álbum “Whoosh!”. Para comparação, o terceiro vídeo recua a uma sessão de ensaio de 1971, para a música “No No No” (do álbum Fireball).

Deep Purple “Throw My Bones” Live Rehearsal Session – New album “Whoosh!”. 2020.
Deep Purple “Throw My Bones” Official Music Video. Album “Whoosh!”. 2020.
Deep Purple. No No No. Take 2. Fireball. 1971. Rehearsal Session for German TV.

Wilco, de Chicago

Wilco é um grupo rock alternativo de Chicago. Ganhou dois Grammy Awards pelo álbum A Ghost is Born (1994). Lembram os Spain (ver https://tendimag.com/2012/02/05/spain-im-still-free/). Ouvi Wilco todo o dia. Duvido, porém, que a selecção das canções seja a melhor.

Wilco. Before us. Ode to joy. 2019.
Wilco. How to fight loneliness. Summerteeth. 1999.
Wilco – At Least That’s What You Said. A ghost is born. 1994. Ao vivo em Barcelona em 2014.

Um mandamento novo

Jean Michel Folon. Aguarela sem título.

As pessoas de diferentes culturas não só falam diferentes linguagens como, facto possivelmente mais importante, habitam diferentes mundos sensoriais (Hall, Edward T., 2003, La Dimensión Oculta, Buenos Aires, Siglo XXI, ed. original 1966 , p. 8).

O Covid-19 criou um mandamento novo: afastai-vos uns dos outros. Apela a um socialização responsável. A publicidade aderiu à sensibilização. Seguem dois anúncios da Heineken em que a cerveja rima com convívio desaproximado.

Marca Heineken. Título: Back to the bars. Agência: Publicis Italy. Direcção: Nicolai Fugisig. Itália, Julho 2020.
Marca: Heineken. Título: Ode to close. Agência: Publicis Italy. Itália, Abril 2020.

A valsa dos valores


Os valores sociais mudam. Muito ou pouco, por vezes, apenas de fachada. Mas mudam. Bernard Cathelat fala em rosa-dos-ventos dos estilos de vida (Styles de vie, 1985). Vários autores estudaram empiricamente as dinâmicas dos valores sociais, por exemplo, Ronald Inglehart (The Silent Revolution, 1977), Pierre Bourdieu (La Distinction, 1979), Alain Girard e Jean Stoetzel (Les valeurs du temps présent, 1983) ou Pascale Weil (A quoi rêvent les années 90 ?, 1993). Os valores axiais estão sempre presentes na sociedade, mas, tal como as teclas de um piano, ora os castigamos, ora os acariciamos. O efeito, o som, é diferente. Assim como o vento agita as folhas, o tempo altera os valores. Parece sentir-se uma aragem nos valores da partilha, da comunhão e da amizade. Os anúncios Quel millionnaire serez-vous, do Euromillions, e Max et Romain, da Bouygues, oferecem-se como indícios. Somam-se a outros com idêntica orientação. Duvido que o murmúrio resulte num ciclone. A partilha, a comunhão e a amizade integram a rosa-dos-ventos dos valores sociais. A nossa sociedade aposta neles? Com que intensidade? A nossa sociedade pós-moderna é moderna, de uma modernidade pintalgada por pirilampos românticos. A partilha, a comunhão e a amizade são pirilampos numa sociedade apostada no progresso, no sucesso, na burocracia, na técnica, na competição, no controlo, na quantofrenia, na prevenção, na aparência, no individualismo, no egoísmo, na ganância e no amor ao poder. Don Quixote e Sancho Pança e Romeu e Julieta não são nossos estandartes. Não é esta a opinião dos visionários da torre gótica da sabedoria. As luzes dos pirilampos podem ofuscar quem vive no pensamento. E, no entanto, o mundo comove-se. Basta viver para sentir. Sentir a experiência do mundo da vida. Não sou herdeiro da scholé, da distância académica à urgência e à necessidade, em suma, da distância à realidade. Parafraseando Goya, a distância à realidade produz monstros. Não são os valores da partilha, da comunhão e da amizade importantes? Sem dúvida, mas não são os mais característicos da nossa sociedade. Nós somos a sociedade dos direitos e o amor é torto.

O anúncio Quel millionnaire serez-vous é falado e em francês. Não é o nosso forte. Passo a resumir. Um grupo de amigos espanta-se com o valor do prémio do “euromilhões”. Que faria cada um caso ganhasse? O último a pronunciar-se garante que o partilharia com os amigos, ou seja, com eles. Descrédito geral. Retira do bolso o bilhete… vencedor. “É vosso!”

Marca: Euromillions. Título: Quel millionnaire serez-vous ?. Agência: Romance. Direcção: Katia Lewkowicz. França, Janeiro 2020.
Marca: Bouygues Telecom. Título: Max et Romain. Agência: BETC. Direcção: Martin Werner. França, Janeiro 2020.

Richard Wright. Uma festa no céu.

Dos quatro membros dos Pink Floyd, dois são ostensivos, David Gilmour e Roger Waters, e dois, discretos, Richard Wright e Nick Mason. A notoriedade coloca sempre o mesmo à frente dos olhos e os outros, nas costas. Neste sentido, a notoriedade enviesa e empobrece.

Richard Wright, falecido em 2008, não era apenas o teclista da banda, era compositor e vocalista. Assinou, por exemplo, cinco das dez músicas do The Dark Side of the Moon, mormente o fabuloso The Great Gig in the Sky. Produziu álbuns a solo antes e depois da separação do grupo: Wet Dream, em 1978, Identity, com Dave Harris, em 1984, e Broken China, em 1996. Retive três músicas: Reaching for the Rail, com Sinead O’Connor; Breakthrough, ao vivo, com David Gilmour, em 2002; e, para culminar, The Great Gig in the Sky (1973).

Richard Wright. Reaching for the Rail. Com Sinead O’Conner. Broken China. 1996.
Richard Wright. Breakthrough. Com David Gilmour. Broken China. 1996. Ao vivo em 2002.
Pink Floyd. The Great Gig in the Sky. Dark Side of the Moon. 1973. Compositor: Richard Wright.

O Camelo e o Ganso-das-neves

Um pé no mundo latino, outro no anglo-saxónico, andamos escachados “sem alternativa em que nos firmar”. O álbum The Snow Goose, dos Camel, saiu no dia 15 de Abril de 1975. Vivia Portugal um período acelerado e conturbado, mas atento ao que se passava no mundo. The Snow Goose foi mais uma pedrada no charco. As rádios passavam-no e repassavam-no, não se inibindo de o passar na íntegra, sem interrupções. O vídeo contempla as três primeiras faixas do álbum. Ao vivo, quase quarenta anos após a edição original, impressiona a serenidade e a qualidade da interpretação. Muitos lembram-se destas músicas; outros ficam a lembrar-se; os demais não lhe sentirão a falta.

Camel. The Great Marsh / Rhayader / Rhayader Goes to Town. The Snow Goose. 1975. Ao vivo em Birmingham em 2014.