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Um bar do outro mundo

Lega double face mask , D.R.CONGO. Old collection – Catawiki.

No além, existe um bar frequentado por mortos célebres, entre os quais Shakespeare, John Lennon, Frida Kahlo, a Princesa Diana, Che Guevara e Steve Jobs. Numa espécie de sessão de grupo, cada cliente revela a causa da sua morte. Chega a vez de um jovem, que, embaraçado, confessa que morreu “texting”, a teclar no telemóvel. “Estúpido”! Exclamam, em conjunto, os outros clientes. O vício é tão terrível que o jovem, mesmo morto, continua agarrado ao telemóvel. O anúncio The Afterlife Bar, da Transport Accident Comission, é criativo, consistente e incisivo. A realizadora tem 20 anos de idade.

Pelos vistos, o telemóvel nasceu com uma semente do mal. Socorre-nos o exorcismo mediático dos pecados e das ameaças que rondam os incautos. Mas o exorcismo coexiste com a celebração. O telemóvel é o maior maná, a maior pérola técnica, da história da humanidade. É acessível, mágico, adorado, disponível e fácil de consumir. Colmatou abismos, egoístas, lúdicos e comunicacionais, antes insuspeitos. Oferece-se, no entanto, como uma máscara bifacial: perfeito no geral, perigoso no particular; benéfico, por princípio, maléfico, por consequência.

Oportuno, o anúncio Netflix, da Bouygues Telecom, aponta soluções para contrariar o vício do telemóvel. A bateria e a televisão, por exemplo. O vídeo, que dura 90 segundos, assume-se como um jogo: contém 20 referências as séries Netflix. Enfim, existem pormenores que sensibilizam: Bella Ciao, uma das canções mais emblemáticas da resistência italiana durante a Segunda Grande Guerra.

Marca: Transport Accident Commission Victoria. Título: The Afterlife Bar. Agência: Taboo. Direcção: Alyssa De Leo. Austrália, Agosto de 2019.
Marca: Bouygues Telecom. Título: Netflix. Agência: BETC Paris. Direcção: Adrien Armanet. França, Julho 2019.

Não é por mal! A discriminação natural

Chew. Diversity. 2016.

Acometem-me, por vezes, arrufos de sociólogo. Excessivos, como hoje.

Por discriminação natural entendo uma discriminação que releva da atitude natural, noção cara à sociologia fenomenológica, designadamente de Alfred Schutz (Collected Papers. I The Problem of Social Reality, 1962). Uma atitude é natural quando dispensa o recuo reflexivo. Assume-se como parte da “ordem natural do mundo”. Os comportamentos são considerados como garantidos (taken for granted). No anúncio The Look, da P&G (Procter & Gamble), as condutas são naturais, não são “calculadas”. Nenhum protagonista toma posição ou emite uma opinião. O anúncio dispensa, aliás, a palavra.

Existem, na área da comunicação e da sociedade, duas especialidades que se sobrepõem: a proxémica e a cinética. A proxémica debruça-se sobre os usos sociais do espaço, mormente as relações entre pessoas, com destaque para as distâncias e as proximidades. Que intervalos respeitamos numa fila de espera? Como nos distribuímos numa praia? Como nos acomodamos numa sala de aula? Como nos arrumamos num elevador? Os estudos de Edward T. Hall são a principal referência da proxémica. Menciono os dois primeiros livros: The Sillent Language (1959) e The Hidden Dimension (1966). As posições no espaço completam-se com a mobilidade e a gestualidade, domínio de estudo da cinética. Gregory Bateson foi um dos autores pioneiros (Balinese Character, a Photographic Analysis, 1942). Nas aulas, assinalo o papel da cinestesia do olhar na condução de uma entrevista: para cima, para baixo, na horizontal, para a direita, para a esquerda, no centro, a cinestesia do olhar indicia o que se passa na mente dos entrevistados: imagem construída, memória auditiva… É um truque que funciona! Gregory Bateson e Edward T. Hall são membros fundadores da célebre Escola de Palo Alto.

O anúncio The Look oferece-se como um caso raro que combina a fenomenologia da atitude natural, a proxémica e a cinética, num exercício centrado na comunicação não-verbal que encena uma espécie de racismo incorporado. Nada se diz com choque, antes com inteligência e sensibilidade. Guardo este anúncio na minha caixa de originalidades geniais. Penso projectá-lo como inspiração e exemplo nas aulas.

Genial e subtil, The Look pede mais do que um visionamento.

Marca: P&G (Procter & Gamble). Título: The Look. Agência: BBDO (New York). Direcção: Malik Vitthal. Estados Unidos, Junho 2019.

A ternura dos sessenta


Creedence Clearwater Revival.

Percorro a aldeia com passos de velho e cabeça de criança. Aqui, lançava para-quedas que subiam. Perto, agarrava-me a uma motorizada para ganhar balanço com os patins. Ali, matava laranjas com um arco improvisado a partir de um guarda-chuva. Além, treinava os tombos para as habilidades de bicicleta… Ternura dos sessenta. Ouvia-se música em qualquer sítio, incluindo uma casa em construção sem portas nem janelas. A ementa musical era reduzida: Beatles, Rolling Stones, The Doors, Moody Blues, Deep Purple e um grupo com nome estranho e sucesso fantástico: os Creedence Clearwater Revival. O passado não descansa, amadurece. Seguem três cristalizações.

Creedence Clearwater Revival. Proud Mary. Bayou Country. 1969.
Creedence Clearwater Revival. Who’ll stop the rain. Cosmo’s factory. 1970. Clip de 1969.
Creedence Clearwater Revival. Have you ever seen the rain. Pendulum. 1970.

Beleza e libertação

Julia Roberts. Lancôme. 2018

“A beleza desperta a alma para agir” (Dante Alighieri).

Bruno Aveillan consta entre os melhores realizadores de anúncios publicitários. O Tendências do Imaginário inclui cerca de 40 anúncios com a sua assinatura. Desenvolveu um estilo próprio. Minucioso, talha os pormenores que nem diamantes. O olhar de Bruno Aveillan combina a câmara de filmar e a câmara fotográfica. Embeleza a beleza. É um operário de afrodites, com ou sem Adónis. A banda sonora é cuidada até à última nota. Há combinações memoráveis. No anúncio La vie est belle, da Lancôme, a música eleita é Diamonds, um cover de Rihanna, pelo australiano Josef Salvat, por sinal, já utilizado noutros anúncios, incluindo da Sony.

Para apreciar a mão de Bruno Aveillan, proponho um exercício: comparar o anúncio de 2018 com o anúncio da Lancôme, de 2016. Partilham o mesmo título, La vie est belle, e a mesma protagonista: Julia Roberts, embaixadora da marca desde 2009. O anúncio de 2016 foi dirigido por James Gray (realizador dos filmes Os donos da noite, 2007; Amantes, 2008; Era uma vez em Nova York, 2013; e Laços de sangue, 2013). O convite não é para hierarquizar, mas relevar as diferenças. Aos dois anúncios da Lancôme, acrescento duas interpretações ao vivo de Josef Salvat: Shoot and run e Night swim, esta mais despojada, acompanhada apenas pela guitarra eléctrica. Pertencem ao álbum Night Swim, de 2016.

Marca: Lancôme. Título: La vie est belle. Agência : Publicis 133. Direcção : Bruno Aveillan. França, Agosto 2018.
Marca: Lancôme. Título: La vie est belle. Direcção : James Gray. França, Fevereiro, 2016.
Josef Salvat. Shoot and Run. Night Swim. 2016. Ao vivo.
Josef Salvat. Night Swim. Night Swim. 2016. Ao vivo.

Comprar o arco-íris

Apple. Color Flood. 2018

Say it with colour! Resulta mais bonito e mais tentador. Há anúncios que são autênticas explosões de cores. Por exemplo, o Balls e o  Petals Volcano, da Sony Bravia (ver https://tendimag.com/2013/11/05/erupcao-de-cores/). O anúncio Big Ad, da Carlton Draugh (https://tendimag.com/2017/11/20/epico-de-massas/), é mais parecido com o anúncio do dia, o Color Flood, do iPhone XR da Apple. Nestes dois últimos anúncios, pessoas coloridas formam, como peças de um puzzle, massas dinâmicas. Ao Color Flood, acrescento um anúncio congénere da Sony Bravia: More Brilliance More Beauty. A publicidade consta entre as actividades mais coloridas do nosso tempo. Bom dia! Bom ano! A beleza vitaliza.  

Marca: Apple. Título: Color Flood. Direcção: Rupert Sanders. Estados Unidos, Dezembro 2018.
Marca: Sony. Título: Balloons. Agência: DDB (Berlim). Alemanha, Setembro 2016.

Homenagem aos professores

Este anúncio é uma magnífica homenagem aos professores. Tem a marca do planeta do Principezinho. Tive bons professores. Estão a ensinar os anjos a voar sem asas. Sinto-lhes a falta. As ideias gostam de voar, nas nuvens ou nas aulas.

Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

Teacher Training

Anunciante: Teacher Training. Título: Sonhos. Agência: Delaney Lund Knox Warren & Partners (London). Reino Unido, 1999.

Noite dos medos. O Carnaval macabro

Noite dos Medos. Melgaço. Noite de 31 de Outubro de 2018. Produção: Rádio Vale do Minho.

A segunda edição da Noite dos Medos de Melgaço ultrapassou as expectativas. Centenas de pessoas partilharam medos numa catarse colectiva respaldada na tradição. Nenhum medo escapou, nem sequer “os medos que metem medo a um susto”. Numa noite para aquecer, com chamas e queimadas, o protagonista foi o corpo, mascarado, pintado, representado, dançado e comunicado. Revitaliza-se, tribalmente, a memória e reinventa-se o passado.

Acrescento duas músicas a condizer: The End, dos The Doors, e Highway to Hell, dos AC/DC. Faltavam no Tendências do Imaginário. Dispus os vídeos por ordem de estreia. A menor qualidade do som e da imagem do vídeo dos The Doors é compensada pelo facto de se tratar de uma actuação ao vivo no próprio ano do lançamento da música (1967).

The Doors. The End. The Doors. 1967.

AC/DC, Highway to Hell. Original: Highway to Hell. 1979.

Alimentação e diálogo cultural

Gargantua. Gravura de Gustave Dore. 1854.

Gargantua. Gravura de Gustave Doré. 1854.

“Qual é a importância de todas essas imagens do banquete?
Já explicamos que elas estão indissoluvelmente ligadas às festas, aos atos cómicos, à imagem grotesca do corpo; além disso, e da forma mais essencial, elas estão ligadas à palavra, à conversação sábia, à verdade alegre. Já notamos enfim a sua tendência inerente à abundância e à universalidade (…). Na absorção de alimentos, as fronteiras entre o corpo e o mundo são ultrapassadas num sentido favorável ao corpo, que triunfa sobre o mundo (…) Essa fase do triunfo vitorioso é obrigatoriamente inerente a todas as imagens de banquete. Uma refeição não poderia ser triste. Tristeza e comida são incompatíveis (enquanto que a comida e a morte são perfeitamente compatíveis) (…) O triunfo do banquete é universal, é o triunfo da vida sobre a morte. Nesse aspecto, é o equivalente da concepção e do nascimento” (Bakhtin, Mikhail, 1987, A cultura popular na idade média e no renascimento, São Paulo, Hucitec, pp. 245 e 247).

E não digo mais! Apenas o seguinte: o banquete é um dos principais lugares de comunhão. Comunhão com o outro, comunhão com o mundo e comunhão com a transcendência. No banquete, serve-se e come-se o pão e o vinho. O vocabulário do banquete, do comer, é, porventura, o mais rico independentemente da língua. O anúncio Zomer, da Plus Supermarkets, foi particularmente feliz ao eleger a troca alimentar como charneira do diálogo cultural.

Marca: Plus Supermarkets. Título: Zomer. Agência: JWT Amsterdam. Direcção: Ismael ten Heuvel. Holanda, Agosto 2018.

Contacto à distância

Quino

Quino

Gregarismo humano: as pessoas têm tendência a fazer companhia a quem a tem; logo, a não fazer companhia a quem não a tem. Respeitamos a solidão.

Quem dera escrever como o Quino desenha. Um homem e uma mulher não param de falar ao telemóvel. Regressados a casa, permanecem em silêncio ou aproveitam o facto de estar juntos para cada um comunicar pelo telemóvel com outras pessoas. Estamos telemobilizados, formatados para o contacto à distância.

Se fosse o Quino, fazia dois desenhos: 1) uma série de ilhas, cada uma com uma pessoa a falar ao telemóvel; 2) um casal a dormir com a cabeça repousada em almofadas com forma de telemóvel. Como não sou o Quino, limito-me a partilhar anúncios publicitários. Existem muitos anúncios dedicados aos usos do telemóvel. Alguns, de consciencialização, encenam catástrofes, designadamente acidentes rodoviários. O motivo dos anúncios da Levi’s e da Durex afigura-se-me mais interessante e, porventura, mais grave: a insularidade afectiva do ser humano.

Este artigo nasceu pequeno. Para não descarregar a bateria.

Marca: Levi’s. Título: Sea of Blue. Agência: FCB West. Estados Unidos, Fevereiro 2017.

Marca: Durex. Título: Turn off to turn on. Internacional, Março 2014.

Umbilicados, narcisistas e egoístas

The Universal Man, Liber Divinorum Operum of St. Hildegard of Bingen, 1165

The Universal Man, Liber Divinorum Operum of St. Hildegard of Bingen, 1165

Andamos precisados de uma onfalectomia (intervenção cirúrgica para a extracção do umbigo). Esta sociedade é a mais umbilical de toda a História. Nunca se umbilicou tanto. Mais que líquidos, plásticos, tribais ou pós-humanos, somos umbilicados. Não confundir com narcisistas. Narciso vê a sua imagem pelos seus olhos. O umbilicado vê o mundo pelo seu umbigo. Narciso mata-se, o umbilicado faz birra. Por seu turno, o egoísta zela pelos seus interesses, é heterocentrado, concentra-se nos outros; o umbilicado atende aos seus impulsos, é autocentrado, concentra-se em si mesmo. O egoísta conquista, o umbilicado reclama. Os umbilicados são o grau zero da solidariedade e da acção colectiva. Nós sem laços. Mais vale plantar pedras na serra da Peneda do que apascentar umbilicados na cidade.

Gerard van Kuijl. Narcissus. 1645.

Gerard van Kuijl. Narcissus. 1645.