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O Ditador Caprichoso

chatime.pngA paródia arremeda a realidade para a subverter, pela farsa, pela caricatura, pela ironia, pelo sarcasmo. Desarma, por exemplo, o poder cobrindo-o de ridículo. Rir do mal faz bem? A quem? Ao ditador caprichoso ou à vítima indefesa? A resposta não é óbvia (Georges Balandier, O Poder Em Cena, 1ª ed. 1980). O imaginário é complexo. Entre ingredientes, receitas e cozedura, a pastelaria simbólica é imprevisível.

Marca: Cha Time. Título: You’ve Never Had Iced Tea Like This Before. Agência: The Sphere Agency. Direcção: Tyler Clayton. Austrália, Abril 2016.

 

Realidade virtual

8bar eagle woman

No anúncio australiano Eagle Woman, da 8 Bar, uma mulher voa como uma águia e levita como um santo. Sem levitação, o voo seria pesado. Por sinal, já conseguimos imitar o voo dos pássaros, por exemplo, com modalidades desportivas como a asa-delta ou o wingsuit.

Jean Duvignaud, Françoise Duvignaud e Jean-Pierre Corbeau recolheram milhares de relatos de sonhos. Muitos franceses sonham com voar, em particular os membros das novas classes médias (Duvignaud, Jean et alii, La banque des rêves, Paris, Payot, 1979).

Figura órgão de Tibães

Figura do órgão do mosteiro de Tibães.

Não sou dado a profecias, mas, quando a poesia se alucina, não resisto. A realidade virtual apossar-se-à nos próximos tempos da rampa tecnológica. Com que impacto? Creio que antes do Juízo Final, mais do que a imersão num simulacro pré-fabricado, vamos aceder ao espectáculo da própria “alma”, desde a cave até ao sótão (Bachelard, Gaston, La Poétique de l’Espace, Paris, PUF, 1957) e do recalcado ao sublimado. Em suma, o inconsciente e o não-consciente. Todo o icebergue! Uma experiência “terrível”.

Figura órgão de Tibães 2

Figura do órgão do mosteiro de Tibães.

Na sanefa das escadas de acesso ao coro alto do Mosteiro de Tibães, aguarda-nos a seguinte inscrição: “Terribilis este locus iste, vere, hic domus dei est, et porta coeli” (“Este lugar é terrível. Esta é a casa de Deus e a porta do céu”: Oliveira, Paulo, “O coro alto da igreja do mosteiro de Tibães”, Minia, nº13, IIIª série, 2014). Nem terríveis, nem extraordinários, eu e o Paulo Oliveira vamos dar uma aula aberta, com visita, no Mosteiro de Tibães,  subordinada ao tema O espaço fala – O Coro Alto e o Escadório das Virtudes do Mosteiro de Tibães. No âmbito do Programa Doutoral de Estudos Culturais, terá lugar no dia 26 de Abril, às 14:30. Apareça, será bem-vindo.

Marca: 8Bar. Título: Eagle Woman. Agência: DDN Melbourne. Direcção: Tim Bullock. Austrália, Março 2016.

Malmequer

Fireflyman

Desfolhar anúncios publicitários como quem desfolha um malmequer.

Gosto! Anúncio com humor fantástico centrado no tema da luz. A morte que precede a lâmpada Ocedel tem tanto de catastrófico como de risonho e promissor. O anúncio progride sob o signo do amor e da esperança. A figura do homem vaga-lume é luminosa.

Marca: Ocedel. Título: Firefly Man. Agência: Nitto Tokio. Japão, Dezembro 2015.

Não gosto! Anúncio bem concebido e bem realizado, centrado na interacção trágica entre o amor e a morte. Nem sequer falta o “beijo da morte”! A morte é medonha, fatal, e a vida pecadora e frágil. Após décadas de planalto, vislumbram-se montanhas de medo. O medo propaga-se nas nossas sociedades. Porventura, mais do que a liquidez, as condutas de risco e o tribalismo. Não aprecio a educação pelo medo. Já há medo quanto baste! Livrai-nos de sociedades assustadas!

Anunciante: Western Cape Government. Título: The First Kiss. Agência: Y&R Capetown. África do Sul, Março 2016.

Renascimento mecânico

Bajaj v rebirth. Sensação de déjà vu.

Bajaj v rebirth. Sensação de déjà vu.

Alguns profetas proclamaram o fim das narrativas. Entretanto, as narrativas continuam, algumas colossais, tais como o (neo)liberalismo e o terrorismo. Este anúncio indiano é uma narrativa de morte e renascimento, cujos protagonistas são objectos técnicos. O equivalente dos brinquedos de E.T.A. Hoffmann. O heróico porta-aviões Vikrant renasce, por transmutação, no motociclo Bajaj V. A aura dos símbolos também se transfere.

Marca: Bajaj V. Título: Rebirth. Agência: Leo Burnett. Direcção: Rajesh Saathi. Índia, Fevereiro 2016.

Levantar uma tempestade

Estava com saudades de uma boa imagem congelada. A técnica, frozen, esteve em moda mas tornou-se rara. Este anúncio indiano é uma ilustração de um movimento humano típico: acelerar, parar, retroceder e recomeçar, para ver devagar.

Um motorista atravessa a multidão festiva a uma velocidade extrema. Com que discernimento as imagens com comportamentos potencialmente perigosos são para as altas autoridades ora um risco ora uma vacina?

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pulsar-rs200-raise-a-storm-600-94975Marca: Pulsar RS200. Título: Raise a storm. Agência: Ogilvy & Mather Mumbai. Direcção: Vijay Sawant. Índia, Janeiro 2016.

Acima das possibilidades

Estes anúncios polacos do Pekao Bank são inquietantes. Configuram um apelo a “uma vida acima das possibilidades”. Datam de 2007. Se tivessem circulado em Portugal, se calhar, começava a crise antes da crise (financeira global de 2008) e, se calhar, os bancos não faliam a conta-gotas. Agora, as famílias não têm a possibilidade de viver acima das suas possibilidades. Mas, “aguentando”, sobra sempre a possibilidade de sobrealimentar o Estado, com cortes e impostos. Por seu turno, o Estado acode ao sector financeiro, que, por sua vez, empobrece e endivida o país. É a “lei da vida”. O fado e a fava de um povo que Rafael Bordalo Pinheiro tão bem caricaturou. Diógenes (413-323 a.C.) “procurava o homem” com uma lanterna. Antes procurasse o sentido de vergonha das elites.

Há quem confunda solução e causa. A última crise não teve origem no endividamento das famílias nem nas “gorduras” da função pública. Em Portugal, como nos demais países, a crise foi financeira, afectando, sobretudo, os bancos e as seguradoras. Que podia fazer o governo? “De mãos atadas”, a solução óbvia foi concentrar o aumento de impostos e a redução das despesas nos funcionários públicos, nos pensionistas e, de um modo geral, nas famílias. Os cortes nos salários e nas pensões, bem como o aumento de impostos, fazem parte de “solução” e não da causa. Existe uma forma eficaz de confundir causa e solução. Chama-se propaganda.

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bank-pekao-express-cash-loanMarca: Bank Pekao. Título: Fresco. Agência: Leo Burnett (Warsaw). Direcção: Paolo Monico. Polónia, 2007.

bank_pekao_PAPMarca: Bank Pekao. Título: Cameras. Agência: Leo Burnett (Warsaw). Direcção: Paolo Monico. Polónia, 2007.

O diabo e os homens

O anúncio Le diable pleure, da marca Quick, é absurdo e minimalista: um rosto, mãos e um hamburger. Nem por isso deixa de ter impacto. No anúncio do artigo anterior, o diabo foi enganado (https://tendimag.com/2015/12/26/enganar-o-diabo/). Neste, tentado, chora. O diabo mostra-se mais humano.

Por que motivo o diabo tende a ser, na publicidade, masculino, aproximando o homem do lado sinistro do mundo? Na verdade, há diabas. Nunca ouvi falar em “demónias” ou em “satanazas”, mas em diabas, sim. Há uma diaba, bem roliça, em Amarante (https://tendimag.com/2014/05/28/cronica-dos-diabos-de-amarante/). Nas pinturas e nas gravuras do inferno também surgem diabas a atormentar os condenados. No famoso Inferno (c. 1510-1520), da colecção do Museu Nacional de Arte Antiga, distinguem-se duas diabas, ambas com peitos fartos: uma, do lado direito, a importunar uma mulher; a outra, do lado esquerdo, a atestar um homem. Ao endiabrar tanto os homens a publicidade é perversa.

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Inferno. Museu Nacional de Arte Antiga. c. 1510-1520.

Inferno. Museu Nacional de Arte Antiga. c. 1510-1520.

Na publicidade abunda a figura do homem ao volante de um caixão com rodas. Até parece a maior fonte libidinal masculina. Não sabem encontrar outras formas de prazer? Se fosse Freud, diria que parece uma regressão em massa. BMW, Volkswagen, Honda, Toyota, Ford, Audi, Renault, Volvo, Citroen, Fiat, Seat, todos carregam na mesma tecla: o homem e o seu brinquedo favorito.

O desporto, mormente o futebol, rivaliza com o automóvel. O homem a pontapear uma bola. Viril, forte, rápido e ágil. O homem objeto sob o olhar da multidão. O bambino de oro. Os estádios assumem-se como as passerelles de machos com eco nos média. Creio que a maioria dos homens não joga à bola, nem anda atrás dela, nem encara a vida como um desporto ou um espetáculo. Urge corrigir tamanho entorse na identidade masculina.

Os homens são uns animais. Sem dúvida! Não seduzem como outrora. Antigamente seduzir uma mulher era uma “conquista” demorada e incerta. Na publicidade, a sedução tornou-se mágica e tonta. Basta pegar numa chávena de café, num chapéu ou num guarda-chuva. E já está! Sedução instantânea. Mas os romeus e as vedetas não são os homens, mas os perfumes e os desodorizantes: Axe, Old Spice, Acqua di Gio… O homem regressou à natureza artificial: seduz pelo cheiro. Um soupçon aromático e ei-las nos braços. Tamanha idiotice degrada a imagem dos homens.

Estas linhas constituem um exercício meramente gratuito, próprio de quem está em férias. Não têm princípio nem fim. Um divertimento. Deu-me para ensaiar como seria glosar sobre a publicidade em sentido inverso ao habitual. Em suma, uma paródia.

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quick-demoniak-burgers-le-diable-pleureMarca: Quick. Título: Le diable pleure. Agência: Leo Burnett. França, 2008.

 

A sanita e a cocaína

O humor coalhado não ferve, nem gela, não é grosseiro, nem fino, não é pesado, nem leve, é um riso engasgado com uma fornada de absurdo lógico. É natural que um anúncio sobre sanitas decorra numa casa de banho, local escolhido por uma jovem (Milla Jovovich) para inalar cocaína. Para desespero, a cocaína é absorvida pelo dispositivo de autolimpeza da sanita. A sanita ficou pedrada? Qual é a moral da história? Será que, como conclui a Cristina, este anúncio “fala de limpeza e ensina sujidade”.

Uma simples palavra pode espicaçar a memória. A música Cocaíne (1976), de J.J. Cale, já foi contemplada neste blogue (https://tendimag.com/2014/01/12/saudades-caseiras/). Existe, porém, outra música de J. J. Cale que não desmerece: Call me the Breeze (Naturally, 1971; ao vivo, em 2004, com a participação de Eric Clapton). Para suavizar o ritmo, Magnolia, do mesmo álbum.
Para aceder ao vídeos, carregar nas imagens.

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Marca: CWS (Complete Washroom Solution. Título: Say no to dirt. Agência: Jung Von Matt / Allster Werbeagentur GmbH. Alemanha, 2007.

JJ Cale Call me the Breeze

J.J. Cale. Call me the Breeze. Com Eric Clapton. Crossroads Guitar Festival. 2004.

JJ Cale. Magnolia. Naturally. 1971.

Aceleração

“Ce que le vulgaire appelle du temps perdu est bien souvent du temps gagné” (Alexis de Tocqueville, La Démocracie en Amérique, 1835-1840).

O tempo tem muito a dizer ao tempo. Por exemplo, que é menos elástico do que se acredita, não obstante a compressão do espaço e do tempo, que, mais do que diminuir, gera outro espaço e outro tempo. O tempo não é geometria sem centro nem circunferência. O trabalho pede tempo, o cuidado de si, também. Actividade sobre actividade, a disponibilidade pessoal enrola-se numa bola  de sabão prestes a aterrar. A compressão e a policronia têm limites. Qualquer actividade é aviada num despacho qualquer. Despacham-se aulas, textos, júris, consultas, clientes… A curiosidade turística definha numa fotografia apressada. Até a caridade se despacha. E as ideias atropelam-se. Vivemos numa sociedade do presente, simultaneamente, efémera e acelerada. Nesta correria, do gato, biológico, ao telemóvel, digital, vamos despachando tarefas, emoções e sentimentos. O tempo é uma das principais matrizes da vida humana. Na era da compressão, precisamos da sabedoria que a míngua de tempo impede. Neste tempo sem tempo, a qualidade virtualiza-se, fantasiada em índices abstractos e fórmulas matemáticas. O triunfo da urgência acena-nos com o delírio do agir sem tempo, oportunista, órfão do cronómetro, do calendário e da razão. A nossa tragédia destemperada.
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vodafone 2

Marca: Vodafone. Título: Power to you. Agência: Jung von Matt. Internacional, 2013.

Com o universo na mão

iPad

“Este pensamento – a infinitude do Universo – implica não sei que horror secreto; de facto, encontramo-nos errantes no meio desta imensidade a que recusamos qualquer limite, qualquer centro, ou seja, qualquer lugar determinado” (Kepler, Astronomia Nova… De Motibus Stellae Martis, 1609).

Creio ter percebido, enfim, a mensagem de um anúncio: o iPad Pro é uma estrela, com o universo infinito como limite. Com um iPad Pro, temos o universo na mão: “There’s a great big universe in the new iPad Pro. It’s the largest iPad ever and takes your creativity and productivity to an epic scale”. Uma escala épica… Um vídeo de belo efeito. As imagens do universo fascinam-nos de um modo quase religioso.

Marca: iPad. Título: A Great Big Universe. Estados Unidos, Dezembro 2015.