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A medalha e a bolacha

Ontem, 26 de Outubro, foi dia de cerimónia.

Duas bolachas apaixonam-se num mundo sem salvação. O João bolacha é devorado pelo monstro horrível. Mas a Maria Bolacha vinga-se. É a história contada numa bela curta-metragem de animação da Magic.

Throne of Eldraine Official Trailer – Magic: The Gathering. Setembro 2019.

Fernando e Albertino.

As flores do mal

Caim e Abel. Século XV.

Não procurem mais o meu coração, as bestas comeram-no (Charles Baudelaire. Les Fleurs du Mal. 1857).

Que besta devo adorar ? Que imagem santa atacar ? Que corações destroçarei? Que mentira devo sustentar? Em que sangue marchar ? (Arthur Rimbaud. Une Saison en enfer. 1873).

Somos filhos de Caim. O mal está arreigado na arqueologia do ser. Quem não pisou uma formiga? Quem não fez mal a uma mosca? Quem amou o próximo como a si mesmo? Não resistimos à maldade. Empolga-nos a crueldade nos cartoons, nos filmes, nos anime, nos videojogos e nas campanhas eleitorais. Os programas de informação mostram o mal e esquecem o bem. Cordeiros do demo, apascentamos a ruindade. Somos consumidores do mal.

O anúncio Ski, da Laca 5Star, brinda-nos com um cocktail do mal num cálice de expiação. “Uma explosão de sabores e texturas ». O mal sabe bem. À semelhança do anúncio ski, T-Rex, da Collective du Lait, faz parte de uma série de anúncios. Ensina que o mais fraco (tu e eu) resulta grotescamente vulnerável ao mal. Para concluir, o anúncio Dumb Ways to Die, da Metro Trains Melbourn, é uma ternura de dança macabra à moda do terceiro milénio.

O mal é uma tentação? Algo de bom deve ter! Recorrendo a línguagem suculenta de Thomas Müntzer, o monge revolucionário líder da Guerra dos Camponeses (1524-1525): o bem e o mal lembram “duas serpentes que fornicam em conjunto”. O bem e o mal dançam no mesmo baile. O mais avisado é aprender a « homeopatia do mal », a lidar com a “parte do diabo” (Michel Maffesoli). Até porque, a fazer fé na sabedoria popular, “há males que vêm por bem”.

Marca : Lacta 5Star. Título : Ski. Agência : Wieden + Kennedy (Brasil). 2018.
Marca: Collective du Lait. Título : T-Rex. Agência : DDB (Vancouver). Direcção : Rouairi Robinson. Canadá, 2005.
Marca: Metro trains. Título: Dumb ways to die. Agência: McCann-Erikson Melbourne. Austrália, 2012.

Extremos

Vangelis in 1974

Vangelis em 1974

Uma centelha basta para aquecer o dia! Ouvir, por exemplo, a música Ask the mountains, do Vangelis (Voices, 1995). Engana a melancolia.Valoriza o anúncio Underwater World, da Ariston Aqualtis (2006) e desafia as montanhas no vídeo homónimo. É um sonho erguer o olhar e não tropeçar com burocratas, confrades e marialvas… Nem com o Zé Povinho a empurrar a encosta. Soltemos o olhar!

Marca: Ariston Aqualtis. Título: Underwater world. Agência: Buf Film Master. Direcção: Dario Piana. Itália, Março 2006.

A dança das deusas

Nina Paley. Goddesses. Dez. 2017.

Nina Paley. Goddesses. Dez. 2017.

Este artigo é uma prenda da São. Tantos prodígios tem este mundo e tão poucos nos divertem. A chave do humor, e do prazer, é como o ovo de Colombo: basta uma pitada de engenho. As 24 Free Goddess Gif de Nina Paley (http://blog.ninapaley.com/) desenferrujam, após milénios de imobilidade, o corpo. A partir das imagens de Nina Paley, alguém (Emely Hesse?) montou o seguinte vídeo:

Emily Hesse. Yes. Best thing I’ve seen this year and we’re only five days in.

Dúvidas íntimas

À primeira vista, o anúncio Gueule de Nain, da Media Markt, parece pós-moderno. À última vista, continua a parecer pós-moderno. Na recente mesa redonda Identidades & Territórios (Universidade do Minho, 06 de Dezembro de 2017), permiti-me uma provocação: duvidar da existência de um período histórico singular apelidado pós-modernidade. Mas como este anúncio é pós-moderno, a pós-modernidade existe.

Identidades & Territórios. 06.12.2017

Anões de jardim adquirem vida na ausência dos donos da casa. O vómito de um gato, cujo nome deve ser Shrek, é o acto inaugural. Segue-se uma festa, com música, bebida, dança, sexo, objectos técnicos, desvarios e excessos. Como é costume, os anões de jardim têm atitudes e comportamentos estranhamente humanos. François Rabelais (1494-1553) poderia subscrever a orgia, E.T.A. Hoffman (1776-1822), a vitalização dos bonecos e Tex Avery (1908-1980), o humor absurdo. Em suma, um anúncio que convoca algumas perplexidades.

Se as pessoas são líquidas, fragmentadas, polifónicas e híbridas, por que é que, passados vinte ou trinta anos, quando encontro alguém ele me parece a mesma pessoa? Será que a sua identidade oscila como um boneco teimoso?

Marca: MediaMarkt. Título: ZIPFELRAUSCH. Alemanha, Novembro 2017.

Continua a nossa sociedade empenhada no futuro, eventualmente com menos projecto e mais balanço? Será a nossa sociedade mais pós ou mais pré? A maior parte das nossas preocupações não deixam de se debater com o futuro.

Por que rara alquimia a sociedade é órfão de narrativas quando às narrativas da modernidade se acrescentam as narrativas da pós-modernidade?

Como é que uma injunção, o carpe diem (Horácio, 65 a.C – 8 a.C.; ver poema) caracteriza uma sociedade quando o atributo é transversal à humanidade. Não há como fazer escala no após I Guerra Mundial.

E, em termos de hibridismo, são os biomecanóides e os pós-humanos assim tão distantes das metamorfoses de Ovídeo e dos sonhos cómicos (songes drolatiques) de François Desprez?

François Desprez. Songes drolatiques de Pantagruel. 1565.

François Desprez. Songes drolatiques de Pantagruel. 1565.

Acabei de ser convidado para participar num programa de televisão. Declinei. Uma pessoa que não sabe o que é não deve expor-se. E eu não sei se sou pré-moderno ou pós-moderno. Moderno consta que ninguém é. Toda esta confusão é muito grave. Entretanto, tive uma epifania. As epifanias servem para saber quem somos e para onde vamos. Que o diga São Paulo! Pois, finalmente, sei quem sou. Sou um pós-moderno à moda antiga, à moda dos maneiristas e dos barrocos. Parafraseando John F. Kennedy, na modernidade, sou pós-moderno!

Não sei que me diga! Ainda estou confuso. Mas, repito, o anúncio da Media Markt é excelente.

Tradução do poema de Horácio

Colha o dia, confia o mínimo no amanhã.
Não perguntes, saber é proibido, o fim que os deuses darão a mim ou a você,
Leuconoe, com os adivinhos da Babilônia não brinque.
É melhor apenas lidar com o que cruza o seu caminho.
Se muitos invernos Júpiter te dará ou se este é o último, que agora bate nas rochas da praia com as ondas do mar.
Tirreno: seja sábio, beba seu vinho e para o curto prazo reescale suas esperanças.
Mesmo enquanto falamos, o tempo ciumento está fugindo de nós.
Colha o dia, confia o mínimo no amanhã.
Podemos sempre ser melhores. Basta pensarmos melhor.

(http://claudialins58.blogspot.pt/2009/08/carpe-diem-o-poema-completo-de-horacio.html).

Sexualidades alternativas

True easter bunny

Associados à  lua, as lebres e os coelhos ligam-se à velha divindade Terra-Mãe, ao simbolismo das águas fecundas e regeneradoras, da vegetação, da renovação perpétua da vida sob todas as suas formas (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire des Symboles).

Uma relação heterobestial entre um coelho e uma galinha resulta num coegalinho hermafrodita, que põe ovos pascais sem pecado, para escárnio dos pacóvios e deleite dos citadinos. Como são bons os coelhos e os ovos de chocolate! São símbolos de fecundidade que se derretem na boca. Dizem que faz mal! Nada como se deixar tentar. Tudo, menos augar. O anúncio True easter bunny convida-nos, de uma forma criativa e agradável, à descoberta da origem do coelho da Páscoa.

Marca: Netto Marken-Discount.Título: True easter bunny. Agência: Jung von Matt. Alemanha, Março 2017.

Van Gogh animado

loving-vincentO meu rapaz mais novo volta a desafiar-me com o trailer do tão aguardado filme Loving Vincent. Trata-se de uma obra com financiamento coletivo a partir da plataforma Kicstarter. Dedicado a Vincent Van Gogh, é o primeiro filme de animação com pintura a óleo. Doze pinturas por segundo, a cargo de uma centena de pintores especializados. Confesso que não imaginava um filme de animação com o traço de Van Gogh. Em boa hora! Uma iniciativa extraordinária da Breakthru Films, vencedora de um óscar. Assim se saltam limites. Junto o trailer acompanhado pelo behind the scenes. Página do filme: http://lovingvincent.com/.

Loving Vincent. Trailer. Breakthru Films. Directores: Dorota Kobiela & Hugh Welchan.

Loving Vincent. Behind the scenes.

O morto agarra-se ao vivo

“Temos de sofrer não só da parte dos vivos como ainda da parte dos mortos. Le mort saisit le vif” (Karl Marx, Le Capital, Livre 1, Préface de la première édition, 1867).

borrowed-time-pixarDevo esta curta-metragem ao meu rapaz mais jovem. Em boa hora! Nos primeiros passos do blogue, limitava-me a uma base de anúncios publicitários. Sobrava tempo para outros formatos, por exemplo, curtas-metragens e vídeos musicais. Hoje, acompanho uma dúzia de bases de anúncios. “É maior o passo do que a perna”.

Borrowed Time tem a chancela da Pixar. É um colecionador de prémios. Gustavo Santaolalla, vencedor de dois oscars, compôs a música. A história não podia ser mais bem contada.

Qual é o alcance de um sentimento de culpa que não tem razão de ser? Como o ultrapassar? Como desfiar o novelo da memória? Como colar os fragmentos do espelho? Que segredam os objectos? É preciso peregrinar até ao abismo da dor? Estrear um ritual único? Bater à porta do inferno para reacender a alma? Há algo de cósmico nesta curta-metragem. Abarca o mundo e a vida com um punhado de pormenores.

Borrowed Time. Pixar. Andrew Coats & Lou Hamou-Lhadj. 2015 (?)

O amor da morte pela vida

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A curta-metragem “The Life of Death”, de Marsha Onderstijn (Holanda), é vagarosa. Sossega. Convida-nos a manter o espírito em vigília. A morte lembra Midas. Tudo que tocava transformava-se em ouro. A morte tudo que toca perde a vida. Há séculos que se alude ao beijo, ao abraço, ao sopro ou ao toque da morte. Nesta curta-metragem, a morte toma-se de amores por um veado e, por extensão, pela vida. A recompensa de Midas revelou-se um pesadelo; a potência da morte, uma prisão. Não pode tocar sem matar, incluindo quem gosta. Como em todas as pequenas e boas histórias, os dados estão lançados: o veado abraça a morte e morre. Matar por impotência e morrer por amor. Esta relação entre a morte e o veado enquadra-se num intervalo da ordem do mundo, uma espécie de limbo para a morte. Para que conste, houve um tempo em que a morte amou a vida e a vida amou a morte.

Obrigado, Celeste! Este vídeo é uma pérola.

Marsha Onderstijn. The Life of Death. Holanda, 2012.

Ecrãs de sonho

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Afastemos o mal para demandar a antecâmara do paraíso: a publicidade. Os ecrãs, não sei se nos perseguem, se os perseguimos, mas não paramos de os encontrar. Os ecrãs Samsung levitam, à espera da menina dos sonhos, à espera do sonho. Os ecrãs são o lugar por onde passa o sonho, o lugar do sonho. O resto é animação, engenho e arte.

Marca: Samsung. Título: Holiday Dreams. Agência: R/GA. Direcção: Ben Steiger Levine & Martin Allais. USA, Dezembro 2014.