A cor do abismo

“Sempre linhas e nunca corpos. Mas aonde encontram eles as linhas na natureza? Eu apenas vejo corpos iluminados e corpos que não são, planos que avançam e planos que recuam… O meu olho nunca percepciona nem delineamentos nem detalhes… O meu pincel não deve ver melhor que eu” (Francisco de Goya, citado Roy, Claude, 1987,  L’Amour de la peinture, Paris, Ed. Gallimard).

31. Goya. Desastres da guerra. Nº 71. Contra o bem geral, c. 1814-15

Goya. Desastres da guerra. Nº 71. Contra o bem geral, c. 1814-15

“Chegamos às salas dedicadas a Goya. Ali vemos Saturno devorando seus filhos, ou os esboços para os tapetes murais; ou, ainda, folheamos os ciclos dos Caprichos ou dos Desastres da Guerra (…). Eis numa estampa do ciclo dos Desastres da Guerra – que se intitula Contra o bem público – aparece acocorado  uma espécie de jurisconsulto , escrevendo fria e indiferentemente num livro. Trata-se ainda de um ser humano? Os dedos terminam em garras, os pés em patas e, em vez de orelhas, lhe cresceram asas de morcego. Mas tampouco é ser pertencente a um mundo onírico, puramente fantástico: no ângulo direito da gravura, grita e se contorce o desespero das vítimas da guerra – é o nosso mundo em que o monstro horripilante ocupa seu lugar dominante. Muita coisa nas estampas de Goya é apenas caricatura, sátira, tendência amarga – mas tais categorias não bastam para a interpretação. Nessas gravuras, ao mesmo tempo, um elemento lúgubre, noturno e abismal, diante do qual nos assustamos e nos sentimos atônitos, como se o chão nos fugisse debaixo dos pés” (Kayser, Wolfgang, O grotesco: configuração na arte e na literatura, São Paulo, Ed. Perspectiva [1957], 1986, pp. 15-16).

Goya. El Aquelarre, Sabat das bruxas. 1819-1823

Goya. O Aquelarre, Sabat das bruxas. 1819-1823

Na história da arte, não há negro mais negro do que as pinturas negras dos últimos anos de vida (1819-1823) de Francisco de Goya (1746-1828). O sonho da razão, gerador de monstros, insinua-se cedo na sua obra. Durante décadas, Goya desancorou a humanidade e pendurou-a no ar em noite de bruxedo, com tons obscuros e corrosivos. No entendimento de Wolfgang Kayser, Goya é o expoente do grotesco. Abriu portas à arte dos séculos XIX e, sobretudo, XX. Teve uma vida atormentada. Como Rembrandt, Vivaldi, Beethoven, Van Gogh ou Nussbaum. Os génios também sofrem!

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Francisco Goya’s The Pilgrimage of St. Isidro (detail) 1821-23

A chamada fase negra de Goya destaca-se como a mais obsessiva, perturbadora e sombria da sua vida. Como a mais original e a mais visionária. Figuras descentradas, desequilibradas, excessivas, desnorteadas, em ambientes nocturnos ou crepusculares, turbulentos e violentos. As pinturas negras, aparentemente inacabadas e com contornos indecisos, assemelham-se às últimas pinturas de Rembrandt, como, por exemplo, A Conspiração dos Batavos sob Claudius Civilis (1666), encomendada e devolvida pela Prefeitura de Amesterdão. Ecoam na pinturas negras de Goya o medo, a morte e a descida aos infernos. “O vazio dos céus” (Rose-Marie & Rainer hagen, 2004, Francisco de Goya, Taschen), p. 64).

Rembrandt. A Conspiração dos Batavos sob Claudius Civilis, 1666 (National Museum, Estocolmo)

Rembrandt. A Conspiração dos Batavos sob Claudius Civilis, 1666.

As pinturas negras tiveram como suporte as paredes dos dois pisos da sua derradeira residência, conhecida por Quinta del Sordo, perto de Santo Isidro. Pintadas nas paredes das paredes da Domus Aurea, já não com a técnica do afresco, mas com a técnica de óleo al secco sobre a superfície de reboco. Uma espécie de graffiti de interior, difícil de deslocar, logo, de vender. As pinturas negras de Goya não foram concebidas para o mercado. Talvez nem ele soubesse qual era a função e destino.

18. Goya. Saturno. 1820-1823

Goya. Saturno. 1820-1823

Apresentamo-nos e revemo-nos mediante desvios e comparações. Não gostava de ser professor como Leonardo da Vinci, o enigmático, Holbein, o teórico,  Rembrandt, o perfeito, ou Jacques-Louis David, o teatral. Gostava de arremedar o Bosch, das tentações, o Bruegel, “dos infernos”, o Bernini, dos êxtases, o Rodin, da potência ou o Magritte, da magia. Gostava, sobretudo, de ensinar como Goya pintou. De qualquer modo, ambos detestamos ser iguais ao original.

Goya inspirou inúmeras obras e estudos. Sugiro duas: O filme Os Fantasmas de Goya (2007), de Milos Forman, e o documentário Goya: Crazy like a Genius (2007), escrito e apresentado por Robert Hughes, dirigido por Ian MacMillan, produzido pela Kultur (http://www.freedocufilms.com/player.php?title=Goya:%20Crazy%20Like%20A%20Genius).

Segue o vídeo A cor do Abismo, com quadros de Goya e música de Adrian Willaert (Vecchie Letrose, sec. XVII) e Aguaviva (La ciudad es de goma, 1971). “Sempre que ouço os Aguaviva, convenço-me que são tetranetos do Francisco de Goya: um tom negro de sofrimento revoltado” (https://tendimag.com/2015/12/22/negro-que-te-quero-negro/). O vídeo data de 2012, mas foi revisto em 2017. Acresce uma galeria com pinturas de Goya.

A cor do abismo: Goya. Albertino Gonçalves, 2012.

A cor do abismo: galeria de imagens.

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