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Vozes

Shell Shock, A Requiem of War. Ópera. Compositor: Nicholas Lens. Livret: Nick Cave, 2014.

As músicas Flamma Flamma – The Fire Requiem (1994) e Was Hast Du Mit Meinem Herz Getan (Orrori Dell’ Amore, 1995), compostas pelo belga Nicholas Lens, surpreendem: vozes mágicas, estranhas, excessivas, do outro mundo. Acrescento o teaser da ópera, também de Nicholas Lens, Shell Shok – A Requiem of War (2014), em memória da Primeira Grande Guerra. Meus amores, meus horrores!

Nicholas Lens. Flamma Flamma – The Fire Requiem. 1994.
Nicholas Lens. Was Hast Du Mit Meinem Herz Getan. Orrori Dell’ Amore. 1995.
Teaser. Shell Shock – A Requiem of War. Ópera. Compositor : Nicholas Lens. Livret : Nick Cave, 2014.

Boas maneiras: os conselhos de Erasmo

Hans Holbein. Erasmus of Rotterdam. Detail, c.1532

“Homem inteligente não urina contra o vento” (Erasmo de Roterdão)

Hoje, nada de anúncios publicitários. Aprender com os antigos é humildade que não está no vento. Erasmo de Roterdão é o autor do Elogio da Loucura (1511). Mas escreveu mais obras, entre as quais a Civilidade Pueril (1530), manual de boas maneiras destinado às crianças. Norbert Elias cita-o, abundantemente, no Processo Civilizacional (1939). Trata-se de um livro pequeno organizado em tópicos. Seguem quatro: o riso, a urina, a flatulência e a bebida.

O riso

Rir de tudo o que se faz ou é dito eis coisa de bobalhão, mas, não rir de nada já é estupidez.

Rir de palavra ou gesto obsceno espelha um caráter malicioso.

A explosão de risada, aquela que mexe o corpo inteiro e que os gregos denominavam “sacudir”, não cabe bem em idade alguma e muito menos em criança.

Rir como imitando o relincho de cavalo não é decente. Igualmente indecoroso aquele que ri, escancarando a boca e arregaçando as faces com os dentes em amostra, a guisa de um esgar canino ou de sorriso sardônico.

A face deve irradiar alegria sem deformar os traços da boca nem sugerir devassidão. Somente os tolos exclamam: “Ah! Eu enlouqueço de tanto rir! Eu estou caindo de risada! Morro de rir!”.

Se calha mesmo algo de tão hilariante e irresistível, mesmo para os desinteressados, então que se cubra o rosto com um lenço ou com a mão.

Rir sozinho e sem motivo aparente é coisa tida como amostra de tolice e de desequilíbrio.

Se tal ocorrer, prescrevem os bons modos que se decline a razão da hilaridade. Na hipótese de não convir dar o motivo, necessário se faz inventar qualquer pretexto a fim de evitar a suspeita de que alguém está a rir da pessoa dele.

A urina

Reter a urina é prejudicial para a saúde. É de bom costume vertê-la em lugar reservado.

Flatulência

Há quem aconselha que a criança deve apertar as nádegas para reprimir a flatulência. Nada de educação nisso. Pode até parecer urbanidade, mas, estás a provocar uma disfunção.

Se for possível afastar-se um pouco, então alivie-se isoladamente. Caso contrário, de acordo com um antigo costume, dissimula, com a tosse, a crepitação. De outro lado, por que não preceituar que se esvazie o intestino, já que retardar tal situação é mais danoso que comprimir o ventre?

Bebida

Principiar a refeição bebendo é hábito dos alcoólatras que bebem não por sede e, sim, por impulso. Isso, além de inconveniente, prejudica a saúde.

Não há necessidade alguma de tomar líquido logo depois de ter tomado sopa ou bebido leite.

Aliás, beber mais de duas ou três vezes, no decorrer da refeição, não é elegante nem saudável para as crianças. Bebam uma única vez ao começar o segundo prato, principalmente se for um assado. Depois, no final da refeição, bebam, mas sorvendo o líquido com moderação, não engolindo de um sorvo nem fazendo aquele rumor típico de cavalo.

O vinho e a cerveja, que têm igual teor inebriante, prejudicam a saúde das crianças e depravam os costumes.

Preferível mesmo é que a juventude, por ser mais acalorada, beba apenas água.

De acordo com a idade dos menores é mais adequado tomar água ferventada. Se tal não se adequar ao clima e a outras coisas mais, então bebam cerveja menos forte ou vinho mais suave diluído em água.

Pelo mais, eis alguns dos prêmios que contemplam pessoas dadas ao vinho: dentes amarelados, pálpebras caídas, olhos embaciados, estupor mental, velhice prematura.

Antes de beber, engole a comida. Nunca aproximar o copo dos lábios sem, primeiro, tê-lo limpado com o guardanapo ou com o lenço, principalmente se um dos convivas te apresenta o próprio copo ou se todos bebem da mesma taça.

Erasmo de Roterdão. De civilitate morum puerilium (Civilidade pueril), 1530.

Senilidade intelectual

Ontem, fiz uma comunicação, hoje, outra, sobre “a música do inferno no imaginário medieval”. Tema insólito, indício, quem sabe, de senilidade intelectual. Ninguém acredita na existência do inferno. Ainda menos, na música do inferno. Mas o inferno existe no imaginário e na experiência do mundo. Século após século, a pegada do inferno é incomensurável.

Em jeito de ponte entre a Idade Média e os nossos dias, a comunicação culmina com o trailer do videojogo Agony (2018). O inferno teima em aquecer as nossas almas. A descida ao inferno no videojogo Agony é um tormento vertiginoso. A banda sonora condiz: arrisca desagradar. Mas, apesar das novas tecnologias, pouco se distingue das pinturas medievais. Atente-se no inferno do tríptico O Juízo Final (1467-71), de Hans Memling. O mesmo tormento, a mesma turbulência, as mesmas vertigens.

O “regime da palavra” anda esquisito. Nunca tantos falaram tanto para dizer tão pouco. Um excesso de formatação e de ladainha na Metrópolis do espírito. Uma orfandade do sentido. A ciência está muito regrada, à espera dos robots inteligentes. Nunca pensei que a ciência ingurgitasse tanta burocracia. Uma incontinência para colmatar uma avaliação que analisa as obras como melões na feira e uma perspectiva de desenvolvimento futuro que não se enxerga.

Albertino Gonçalves e Fernando Gonçalves

Agony. Videojogo. 2018.

A harpa e a gaita de fole

A harpa é um instrumento musical antigo. Na Suméria, no início do segundo milénio antes de Cristo, já se tocava harpa (Figura 1). No imaginário medieval, a harpa era um instrumento celestial, tocado pelos anjos (Figura 2) e pelo rei David (Figura 3), muitas vezes pintado a afinar a harpa como quem harmoniza o mundo (Figura 4). Mas o diabo toca tudo, toca todos os instrumentos, incluindo a harpa. Quando não ele, uma criatura que lhe seja próxima. Por exemplo, o burro (Ver O Burro e Harpa: https://tendimag.com/2012/11/20/o-burro-e-a-harpa/). A própria harpa pode ser símbolo do mal, como na Mesa dos Pecados Capitais (1505-1510) ou no inferno do Jardim das Delícias Terrenas (1503-1515), ambos de Hieronymus Bosch (Figura 5 e 6). A iluminura do saltério de St. Rémy esboça uma topografia da música: nas alturas, destaca-se a harpa, nas baixezas, o tambor (Figura 7). Mas o instrumento mais característico do diabo é a gaita de fole. Atente-se na sereia de Beauvais (Figura 8), na dança da morte de Pinzolo (9) ou no demónio que transforma a cabeça de um monge numa gaita de fole (Figura 10).

Xavier de Maistre é um harpista francês. Segue a sua interpretação de Asturias (Leyenda), de Isaac Albéniz.

Dediquei o dia a este artigo. Não parece. Mas ainda bem! Não pensei em mais nada.

Xavier de Maistre. Asturias (Leyenda), de Isaac Albéniz (1892).

Os ossos não enganam: a dança dos esqueletos

Figura 1. Franciszek Lekszycki . Dança macabra. Cracóvia, Polónia. Século XVII. Curiosamente, as danças da morte neste quadro e no seguinte contemplam apenas mulheres. Lembram as naves das loucas (ver
https://tendimag.com/2014/07/29/michel-foucault-e-a-nave-dos-loucos/ )

“Nenhum homem há naquele ponto que não desejara muito uma de duas: ou não ter nascido, ou tornar a nascer de novo, para fazer uma vida muito diferente. Mas já é tarde, já não há tempo” (Padre António Vieira).

The dance of death. Oil painting. Sec. XVII. Credit: Wellcome Library, London. Wellcome Images images@wellcome.ac.uk http://wellcomeimages.org.

“Para nascer Portugal: para morrer o mundo” (Padre António Vieira). A despedida é fado, o afastamento o corolário. Despedi-me da aldeia para estudar em Braga; de Braga para estudar em Paris; de Paris para trabalhar em Braga. O que mais custa na despedida não é a adaptação ao novo destino, é o afastamento de um pedaço de vida. É um vazio que trespassa o esqueleto. Partir e repartir é cavar cemitérios de amizades e desbastar florestas de rotinas. Partir empobrece! Suspende-se a familiaridade do mundo da vida. Afastei-me sempre voluntariamente. Volto a pressentir a semente do alheamento. Mas imagino esta nova travessia diferente. Não perco a familiaridade do mundo, nem os amigos; apenas aqueles que não tenho. Há três contingências a que os ossos não se habituam: à água do mar, à febre de protagonismo e ao feiticismo da sabedoria. Prevejo afastar-me aos poucos num alheamento a prestações. Como os intérpretes da Sinfonia do Adeus, de Joseph Haydn, que se retiram do palco sem que a música deixe de cumprir a sua promessa. A Dança dos Esqueletos, de Walt Disney (1929), precede A Sinfonia do Adeus (1772) de Joseph Haydn (no vídeo, a deserção dos intérpretes começa no minuto 4).

Walt Disney. A Silly Shimphony: The Skeleton Dance. 1929.
Joseph Haydn. Sinfonia 45. A Sinfonia do Adeus. 1772.

Voar com asas de sal

Ontem, dia 5 de Abril, apresentei uma comunicação, “Jogos de espelhos entre emigrantes e residentes, em Monção, no Colóquio “Emigração para França na década de 60”, organizado pela Mulher Migrante – Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade (AMM). Há 25 anos que não investigo sobre a emigração. Desde então o pouco que escrevi releva do restolho e do resíduo. Levava, porém, no bolso dois assuntos marginais a abordar se se proporcionasse. Não foi o caso. Regressaram, carinhosamente, tão secretos como partiram. Mas já é tempo de os desembolsar e colocar no Tendências do Imaginário, o meu repositório de ideias pardas.

A expressão “viúvas de vivos” tornou-se numa palavra mestre. Ilumina e obscurece, como todas as palavras mestre. Nas décadas de 50, os portugueses emigraram em massa, mormente para França. A crónica falta de gente no País. Mas, nos primeiros tempos, faltaram sobretudo homens. E as companheiras, por vezes vestidas de negro, arcaram com a responsabilidade, e o trabalho, da “casa”, da família, dos filhos, das propriedades, da agricultura… Se, ao partir, os emigrantes foram uns “heróis”, ao ficar, as mulheres foram umas “heroínas”. Mas, para além das casadas, sobraram, também, as solteiras, que detêm a sua parte na história. Faltavam, de facto, mancebos na comunidade. Em 1981, apesar da correcção decorrente da emigração feminina massiva a partir de meados dos anos 60, a curva de masculinidade ainda acusa o desequilíbrio nas idades “mais férteis”. Em Melgaço, entre os 25 e os 35 anos, havia cerca de 40 homens para 100 mulheres (Gráfico 1).

Gráfico 1. Curva de masculinidade. Melgaço, 1981.

O quadro 1 evidencia a disparidade da incidência da emigração em função do género. Segundo um inquérito, dos 866 entrevistados com mais de 60 anos residentes em Melgaço, 72,9% dos homens, contra 10,8% das mulheres, foram emigrantes. A distância acentua-se nas freguesias da montanha (Alto Mouro): 90,5% contra 9.5%.

Este desequilíbrio na relação de masculinidade tem consequências na vida das pessoas. Na minha infância, nas noites mais amenas, após o jantar, as mais jovens costumavam passear em grupo. Se a memória não me engana, compunham bouquets de seis e mais moças. Caminhavam sós ou acompanhadas por um rapaz, porventura, o sobrinho do padre. Cava-se uma falha no mercado matrimonial. É certo que os homens não desaparecem. Estão, apenas, longe. Mas, antes das trombetas da globalização, já era possível estar-se longe e perto. “Presente ausente”.

Nas freguesias de montanha, onde não era hábito a mulher emigrar, as solteiras preparavam-se durante o ano para os encontros estivais. Durante as férias de verão, processa-se uma concentração e uma aceleração do mercado matrimonial. Esta efervescência da “escolha do cônjuge” beneficiava da profusão de festas, eventos, casamentos, baptizados, passeios e idas a banhos. Organizavam-se, inclusivamente, bailes em caves improvisadas. Findo “o querido mês de Agosto”, casados, comprometidos ou livres, os homens repartiam e as mulheres ficavam.

Apesar da proximidade da lonjura e dos calores de verão, algum desequilíbrio teimava em persistir na repartição por sexo. Estou convencido que este desequilíbrio contrariou a propensão para a homogamia: os operários casam com operárias, os professores com professoras… Propiciou, extraordinariamente, num lugar por um tempo, alguma exogamia: o aumento de casamentos fora da classe.

Creio que estes temas ganhariam em ser estudados. A informação talvez não esteja na Internet. Vai todos os dias ao cemitério e não volta.

Este é um dos dois apontamentos. Guardo o segundo para mais tarde. Acrescento duas canções. Uma francesa que costuma cantar em inglês canta francês e uma brasileira canta espanhol. Acompanharam a escrita do artigo, não têm por que se despedir dele.

Simone. Procuro olvidarte. Bésame. 1991.
Charlotte Gainsbourg. L’un part, l’autre reste. L’Un reste, l?Autre part. 2005.

Sobre rodas

Bertha Benz. Motorwagen.

Em 2018, por altura do Dia Internacional da Mulher, a Mercedes-Benz dos Estados-Unidos lançou um anúncio intitulado “First Driver” dedicado a Bertha Benz, mulher do inventor e empresário do primeiro automóvel (ver vídeo 1). Este ano, por altura do Dia Internacional da Mulher, a Mercedes-Benz alemã lança um anúncio intitulado “The journey that change everything” dedicado, também, a Bertha Benz. Para o próximo ano, por altura do Dia Internacional da Mulher, não estranhará se a Mercedez-Benz lançar um anúncio intitulado “Visita à família em quatro rodas”, dedicado, mais uma vez, a Bertha Benz. A consumar-se esta eventualidade, consolida-se uma saga internacional com Bertha Benz como protagonista.

Marca: Mercedes-Benz. Título: The First Driver. Agência: R/GA. Estados Unidos, Agosto 2018.

Os dois anúncios partilham a mesma protagonista e a mesma história: a viagem de cerca de 60Km em automóvel até à residência da mãe. Ela própria cuidou que o evento justificasse uma grande cobertura mediática e publicitária. Bertha Benz, uma mulher notável, é uma referência para a marca Mercedes-Benz, bem como para a emancipação da mulher. Nestes anúncios, Bertha Benz é uma dupla embaixadora.

Marca: Mercedes-Benz. Título: The Journey That Changed Everything. Agência: antoni garage. Direcção: Sebastian Strasser. Alemanha, Março 2019.

Os dois anúncios são semelhantes no conteúdo, mas bastante distintos no estilo. First Driver, a preto e branco, acusa um pendor clássico. The journey that change everything comporta, a começar pelo título, uma propensão barroca, por vezes, grotesca. A acção é exuberante e sobram as personagens feias, porcas e más. Esta diversidade no estilo intriga. Poucos anos atrás, a Mercedes-Benz primava por cultivar uma imagem robusta, ver previsível. Recentemente, a saída de um novo anúncio gera expectativa. Não se consegue adivinhar, à partida, qual é o estilo, o conteúdo e o público-alvo. A publicidade da Mercedes-Benz parece ter adoptado uma estratégia de comunicação poliédrica e polifónica.

Primavera

Giuseppe Arcimboldo. Primavera. 1563.

Pressente-se a Primavera. Antonio Vivaldi dedicou-lhe uma composição e Giuseppe Arcimboldo, vários quadros. As obras de Vivaldi e de Arcimboldo sofreram, ambas, um longo eclipse histórico. Apenas foram redescobertas na primeira metade do século XX.

A. VIVALDI: «Filiae maestae Jerusalem» RV 638. Ph. Jaroussky / Ensemble Artaserse,

Procissão erótica

A academia é bipolar: Excitante para quem adere ao jogo, depressiva para quem o dispensa.

Figura 1. Trois phallus portant une vulve couronnée en procession. Enseigne en plomb, fin du XIVe siècle, Paris, Musée National du Moyen Âge.

Deus existe? A morte existe? E o sexo existe? Três nós cegos do nosso entendimento dados a recalcamentos e sublimações. Existem véus que não cobrem a realidade mas toldam o olhar, como cataratas no cristalino. Por conveniência, hipocrisia, pudor. No entanto, o sexo existe! Faz parte do triângulo da nossa obsessão quotidiana: Deus, morte e sexo. Com duas faces tensas: sol e lua, diurno e nocturno, taça e gládio, carne e espírito. Como redimir a alma quando a verdade é pecadora?

O Museu de Cluny, perto da Sorbonne, possui uma peça rara e ousada: uma insígnia erótica, do século XIV ou XV, composta por três falos antropomórficos que conduzem, em procissão solene, numa espécie de andor, uma vulva coroada (Figura  1). Presa no chapéu ou na capa, presume-se que esta insígnia, ou amuleto, era utilizada em espaços e situações especiais, tais como os prostíbulos e os rituais de fertilidade. Esta escultura em chumbo é minúscula. Mas a arte e o imaginário não se medem aos palmos. Segue uma pequena reportagem.

Les incroyables trésors de l’Histoire : Les pin’s érotiques du moyen-âge. Musée de Cluny. Le Point. França, Outubro 2013.

Desigualdade nas imagens de género

Tantos pénis pintados e esculpidos e tão poucas vaginas!… Uma discriminação que remonta a tempos imemoriais. Na pré-história a representação do pénis concorre com as esculturas de Vénus (Fig 1 a 3). Até os monólitos pecam por excesso. No antigo Egipto, os jardineiros da religião viram-se gregos para podar os falos das estátuas de deuses e faraós (Fig 4 e 5). Por seu turno, no império romano, os tintinábulos pendurados à entrada das casas eram compostos por falos inconfundíveis, eventualmente, voadores (Fig 6, 7 e 8).

Que fazer? Multiplicar as imagens de vaginas? Eliminar as relativas ao pénis? Cortar e tapar o sexo das esculturas e das pinturas com uma folha de figueira? “Vestir” a nudez do Juízo Final original de Michelangelo na Capela Sistina (ver Vestir os Nus: https://tendimag.com/2012/11/13/vestir-os-nus/)? Ou, ao jeito medieval, enveredar pela castração (Fig 9 a 11)?

Marca: ONF (Office National du Film du Canada). Título : Dessine-moi un Pénis. Agência : Rethink (Canada). Canadá, Março 2019.

No anúncio Dessine-moi un pénis, a ONF, um organismo público canadiano de produção e distribuição de filmes, estima que semelhante discrepância de género provém da nossa ignorância acerca do clítoris. Nem sequer o sabemos desenhar.

12. A flying penis copulating with a flying vagina. Gouache Credit: Wellcome Library, London. Wellcome Images.

Na realidade, segundo as estatísticas, existem na população mais vaginas do que pénis. O problema reside, porventura, no imaginário. Mas deixemos as retóricas. O guache A flying penis copulating with a flying vagina (Fig 12), da Welcome Collection, sugere uma solução paritária: um pénis para uma vagina ou uma vagina para um pénis, sem prejuízo de outras localizações e sexualidades.