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Confinamento desconfinado

Gustave Courbet. Les Cribleuses de Blé. 1854.

Confinamento desconfinado. Uma peneira esburacada. Estas palavras turvam-me o pensamento. Há dias publiquei um gráfico que comparava o número de infetados por 100 000 habitantes nos países da Europa. Portugal estava numa posição delicada. Volvidos poucos dias, a situação piorou: Portugal é o país com mais casos por milhão de habitantes a nível mundial. Avoluma-se o número de infetados, de hospitalizados e de mortos. Que incómodos rivalizam com o internamento nos cuidados intensivos ou a agonia nas instituições de idosos? Que efeitos colaterais rivalizam com a doença? Com as filas de ambulâncias às portas das urgências? Os mortos não sofrem traumas pedagógicos, assimétricos ou identitários. A morte não é reversível. Para os mortos, não há futuro perdido. Não admira que num confinamento desconfinado, o essencial pareça depender de cada um e de todos nós. Decretos coletivos com responsabilidade individual. A avaliação das consequências é uma arte, a arte de decidir.

The Beatles. Don’t Let Me Down. Hey Jude. 1970.
The Beatles. Come Together. Abbey Road. 1969.

Música das esferas

René Magritte. Voice of Space. 1931

O dinamarquês Rued Langgaard (1893-1952) compôs Música das Esferas entre 1916 e 1918. Original, experimental e sem sucesso imediato. Existem muitas músicas a que me habituei a chamar “músicas das esferas”. Lembro os Tangerine Dream, Jean-Michel Jarre e, especialmente o Klaus Schulze. Retenho, por enquanto, duas músicas: Tubular Bells II, de Mike Oldfield; e Mammagamma, de The Alan Parsons Project. Acrescento um terceiro vídeo com a Música das Esferas, de Rued Langgaard.

Mike Oldfield. Tubular Bells II. Ao vivo em Edinburgh Castl. Parte 1. 1992.
The Alan Parson Project. Mammagamma. Eye in the sky. 1982.
Rued Langgaard. Music of the Spheres. 1916-1918.

Oremos

Salvador Dali. Angelus. 1932.

“O PÚBLICO sabe que a excepção de manter as escolas abertas, caso o Governo avance para um novo confinamento geral, se deve a dois factores: a importância do ensino presencial no processo de aprendizagem; e a conclusão de que os alunos obedecem melhor às regras sanitárias e estão mais protegidos de contaminações dentro das escolas – uma certeza que é fundamentada com a baixa incidência de casos de covid-19 nos estabelecimentos de ensino” (https://www.publico.pt/2021/01/08/politica/noticia/regresso-confinamento-geral-mantera-escolas-abertas-1945463).

Alguém pode dizer a este ignorante qual é a “incidência de casos de covid-19 nos estabelecimentos de ensino” em Portugal? Tantos por 100 000… Presumo que existe quem saiba. Dispenso os pormenores da polémica da escolha do procurador europeu nacional na Procuradoria da União Europeia. Receio nunca me encontrar com esse senhor. O mesmo não garanto em relação à Covid-19. Informem-me, por favor, sobre importâncias importantes. Dispenso os intermináveis tangos palacianos. Sejam políticos, que ser político é missão nobre!

Apraz-me saber que os “alunos (…) estão mais protegidos de contaminações dentro das escolas”. Mais protegidos do que na Irlanda, na Alemanha ou na Holanda, que fecham as escolas, embora alcancem incidências de infetados próximas de Portugal: respetivamente, 455,6; 319; 757,9; e 517 por 100 000 habitantes (https://www.ecdc.europa.eu/en/covid-19/country-overviews). Serão as escolas portuguesas especialmente protetoras? Será a sociedade portuguesa mais mórbida, mais ameaçadora? Talvez seja um milagre. Oremos.

Pieter Bruegel The Elder. The parable of the blind. 1568.

Falar com as imagens

Busto da República

Há católicos que falam com as imagens dos santos. Mais, afigura-se-lhes que estes lhes respondem. Em casa, tenho um busto da República original. Herança de meu avô. Acontece-me falar com ela. Às vezes, tento dialogar. Perdeu o cocuruto. Não tem vida fácil. Gostava muito de lhe dedicar uma canção. Mas não sei cantar. Peço a outros. Por exemplo aos The Who.

The Who. I’am Free. Tommy. 1969. Ao vivo em Kilburn, em 1977.

As imagens interpelam-nos, o busto da República interpela-nos. Num século, perdeu o cocuruto. É vulnerável. A república é vulnerável.

Washington. 06.01.2021.

Netos da revolução, filhos do esquecimento

Elton John, Marc Bolan & Ringo Starr. Londres. 1973.

Gosto de escavar como um arqueólogo indisciplinado. Por exemplo, na história do rock. Numa sociedade acelerada, cinquenta anos representa muito tempo. Quem ouviu os T. Rex? Uma banda de rock inglesa, com um som próprio, ativa entre 1967 e 1977. The Slider foi o álbum mais vendido em 1972 no Reino Unido. A banda dissolveu-se em 1977 na sequência da morte num acidente de automóvel do vocalista Marc Bolan.  Em dez anos, produziram treze álbuns.

T. Rex. Cosmic Dancer. Electric Warrior. 1971.
T. Rex (com Elton John). Get it on. Electric Warrior. 1971
T. Rex. Children of revolution. Single. 1972.

Agarrar o vento e sentar-se ao sol

Giulio Parigi. O espelho de Arquimedes. 1599-1600.

Cativar o sol e o vento é arte antiga. Arquimedes engenhou, durante o cerco romano a Siracusa, um espelho côncavo cujos raios solares incendiaram os barcos inimigos. O vento soprava nas velas romanas e o sol grego queimava os cascos.

O anúncio The Collectors, da Energy Upgrade California, propõe múltiplas formas, efetivas ou poéticas, de capturar o vento e o sol. Brilhante e original. Belas imagens, bom ritmo, boa música. Um oásis de prazer nas dunas da Internet! Sejam louvadas as energias eólica e solar!

Marca: Energy Update California. Título: The Collectors. Produção: The Corner Shop. Direção: Peter Thwaites. Estados-Unidos, novembro 2020.

Com os olhos na pele

Detail of a portrait of the Dominican Cardinal and renowned biblical scholar Hugh of Saint-Cher painted by Tommaso da Modena in 1352

O que é belo? O que é feio? Quem é belo? Quem é feio? Quem passa despercebido? Quando, onde, perante que público? A beleza já não é o que era? “A beleza está nos nossos olhos” (Oscar Wilde).

“Observe a face turva
O olhar tentado e atento
Se essas são marcas externas
Imagine as de dentro.”
(Elza Soares e Pitty, Na Pele, 2017)

Segue uma canção áspera, Na Pele, de Elza Soares e Pitty. Acrescento a apresentação de Elza Soares, “De que planeta veio Elza Soares”, no canal Sincopado: Música e História, por Felipe Tadeu Breier (13/12/2020), aluno do mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, da Universidade do Minho.

Elza Soares e Pitty. Na Pele. Na Pele. 2017.
De que planeta veio Elza Soares, canal Sincopado: Música e História, por Felipe Tadeu Breier (13/12/2020).

Na Pele

Olhe dentro dos meus olhos

Olhe bem pra minha cara

Você vê que eu vivi muito

Você pensa que eu nem vi nada

Olhe bem pra essa curva

Do meu riso raso e roto

Veja essa boca muda

Disfarçando o desgosto

A vida tem sido água

Fazendo caminhos esguios

Se abrindo em veios e vales

Na pele leito de rio

A vida tem sido água

Fazendo caminhos esguios

Se abrindo em veios e vales

Na pele leito de rio

Contemple o desenho fundo

Dessas minhas jovens rugas

Conquistadas a duras penas

Entre aventuras e fugas

Observe a face turva

O olhar tentado e atento

Se essas são marcas externas

Imagine as de dentro

A vida tem sido água

Fazendo caminhos esguios

Se abrindo em veios e vales

Na pele leito de rio

Elza Soares e Pitty (2017).

A mulher com cabelo aos caracóis. Caetano Veloso.

Betsabé banha-se numa fonte do jardim. O rei David observa-a seduzido. Tiveram uma  relação sexual. Casada com Urias, Betsabé engravidou. David mandou Urias para frente da batalha para ser morto. Salomão foi um dos filhos de Betsabé. Esta é uma história bíblica com pendor shakespeariano. Segue, no final do artigo, a passagem da Bíblia (Samuel 11).

Galeria: Iluminuras com mulher a tomar banho no jardim

Cismei encontrar uma iluminura de Betsabé com cabelos encaracolados. Betsabé aparece em muitas iluminuras. Retenho quatro (ver galeria). A primeira segue o modelo-padrão: Betsabé banha-se nua e o rei David observa. A segunda acrescenta uma alusão: um homem, em princípio Urias, sai do palácio com uma carta na mão, a carta que dita a sua morte. A terceira iluminura multiplica os cenários: o banho de Betsabé, o adultério e a morte de Urias. Na quarta iluminura, a mulher tem cabelos eventualmente encaracolados, mas não se vê David. O enquadramento é semelhante às demais iluminuras com Betsabé, mas a ausência de David só permite afirmar que se trata de uma cena de higiene. Não é uma iluminura, mas na pintura Betsabé observada pelo rei David, de Jan Matsys, nos cabelos, presos, esboçam-se alguns caracóis.

5. Matsys, Jan. Bathsheba Observed by King David. Primeira metade do século XVI.

Todo este desvio para quê? Para introduzir a canção Debaixo dos Caracóis dos seus Cabelos, de Caetano Veloso.

Caetano Veloso. Debaixo dos Caracóis dos seus Cabelos. Programa de televisão com Roberto Carlos. 1992.

Bíblia – Samuel 11

  1. “Na primavera, época em que os reis saíam para a guerra, Davi enviou para a batalha Joabe com seus oficiais e todo o exército de Israel; e eles derrotaram os amonitas e cercaram Rabá. Mas Davi permaneceu em Jerusalém.
  2. Uma tarde Davi levantou-se da cama e foi passear pelo terraço do palácio. Do terraço viu uma mulher muito bonita, tomando banho,
  3. e mandou alguém procurar saber quem era. Disseram-lhe: “É Bate-Seba, filha de Eliã e mulher de Urias, o hitita”.
  4. Davi mandou que a trouxessem e se deitou com ela, que havia acabado de se purificar da impureza da sua menstruação. Depois, voltou para casa.
  5. A mulher engravidou e mandou um recado a Davi, dizendo que estava grávida.
  6. Em face disso, Davi mandou esta men­sagem a Joabe: “Envie-me Urias, o hitita”. E Joabe o enviou.
  7. Quando Urias chegou, Davi perguntou-lhe como estavam Joabe e os soldados e como estava indo a guerra;
  8. e lhe disse: “Vá descansar um pouco em sua casa”. Urias saiu do palácio e logo lhe foi mandado um presente da parte do rei.
  9. Mas Urias dormiu na entrada do palácio, onde dormiam os guardas de seu senhor, e não foi para casa.
  10. Quando informaram a Davi que Urias não tinha ido para casa, ele lhe perguntou: “Depois da viagem que você fez, por que não foi para casa?”
  11. Urias respondeu: “A arca e os homens de Israel e de Judá repousam em tendas; o meu senhor Joabe e os seus soldados estão acampados ­ao ar livre. Como poderia eu ir para casa para comer, beber e deitar-me com minha mulher? Juro por teu nome e por tua vida que não farei uma coisa dessas!”
  12. Então Davi lhe disse: “Fique aqui mais um dia; amanhã eu o mandarei de volta”. Urias ficou em Jerusalém, mas no dia seguinte
  13. Davi o convidou para comer e beber e o embriagou. À tarde, porém, Urias saiu para dormir em sua esteira, onde os guardas de seu senhor dormiam, e não foi para casa.
  14. De manhã, Davi enviou uma carta a Joabe por meio de Urias.
  15. Nela escreveu: “Ponha­ Urias na linha de frente e deixe-o onde o com­bate estiver mais violento, para que seja ferido e morra”.
  16. Como Joabe tinha cercado a cidade, colocou Urias no lugar onde sabia que os inimigos eram mais fortes.
  17. Quando os homens da cidade saíram e lutaram contra Joabe, alguns dos oficiais da guarda de Davi morreram, e morreu também Urias, o hitita.
  18. Joabe enviou a Davi um relatório completo da batalha,
  19. dando a seguinte instrução ao men­sageiro: “Ao­ acabar de apresentar ao rei este relatório,
  20. pode ser que o rei fique muito indignado e lhe pergunte: ‘Por que vocês se aproximaram tanto da cidade para com­bater? Não sabiam que eles atirariam flechas da muralha?
  21. Em Tebes, quem matou Abimeleque, filho de Jerubesete? Não foi uma mulher que da muralha atirou-lhe uma pedra de moinho, e ele mor­reu? Por que vocês se aproximaram tanto da muralha?’ Se ele perguntar isso, diga-lhe: E mor­reu também o teu servo Urias, o hitita”.
  22. O mensageiro partiu e, ao chegar, contou a Davi tudo o que Joabe lhe havia man­dado falar,
  23. dizendo: “Eles nos sobrepujaram e saíram contra nós em campo aberto, mas nós os fizemos retroceder para a porta da cidade.
  24. Então os flecheiros atiraram do alto da muralha contra os teus servos e mataram alguns deles. E morreu também o teu servo Urias, o hitita”.
  25. Davi mandou o mensageiro dizer a Joabe: “Não fique preocupado com isso, pois a espada não escolhe a quem devorar. Reforce o ataque à cidade até destruí-la”. E ainda insistiu com o mensageiro que encorajasse Joabe.
  26. Quando a mulher de Urias soube que o seu marido havia morrido, chorou por ele.
  27. Pas­sado o luto, Davi mandou que a trouxessem para o palácio; ela se tornou sua mulher e teve um filho dele. Mas o que Davi fez desagradou ao Senhor”.
    (https://www.bibliaon.com/david_e_bate-seba/).

O diabo apaixonado. A mulher e o diabo

Jacques Le Grant. – Le livre des bonnes moeurs. XVe siècle. Musée Condé de Chantilly.

No imaginário cristão, o diabo seduz, preferencialmente, a mulher. Tudo indica que está mais exposta à tentação demoníaca. O destino começa no início: foi Satanás, Arimane, sob a figura de serpente, quem tentou a primeira mulher e esta, o primeiro homem. O Martelo das Feiticeiras (Heinrich Kraemer & James Sprengerm, 2004, O Martelo das Feiticeirass, Rio de Janeiro, Editora Rosa dos Ventos, 1ª edição 1486) assegura existir um “maior número de mulheres supersticiosas do que de homens” (p. 114). “Por serem mais fracas na mente e no corpo, não surpreende que se entreguem com mais frequência aos atos de bruxaria” (p. 113). São mais crédulas, socorrem-se mais de poderes maléficos e passam a palavra, prestam-se ao contágio. Com estas e outras sentenças,

“Só em 1485, apenas no distrito de Worms, 85 feiticeiras foram entregues às chamas. Em Genebra, em Basileia, em Hamburgo, em Ratisbona, em Viena, e em muitas outras cidades, ocorreram execuções do mesmo género. Em Hamburgo, entre outros, queimou-se vivo um médico que salvou uma mulher em trabalho de parto abandonada pela parteira. No ano 1523, em Itália, após uma bula contra a feitiçaria aprovada pelo papa Adriano VI, só a diocese de Como assistiu à queima de cem bruxas” (Albert Réville. Histoire du Diable, ses origines, sa grandeur et sa décadence, à propos d’un récent ouvrage allemand. Revue des Deux Mondes, Paris, 2e période, tome 85, 1870, pp. 101-134: III).

Francisco Goya. El Aquelarre. 1797–1798.

“Passaram anos e anos / Sobre esta roda da vida, / Farinha que foi moída, / Vai-se a ver são desenganos” (Fernando Assis Pacheco, Pedro Só). Passaram anos e anos e o imaginário mudou. O Martelo das Feiticeiras tornou-se símbolo de um pesadelo histórico. No anúncio Match Made in Hell, o diabo não só seduz como é seduzido. Por intermédio de uma agência de encontros, Match, o diabo e a donzela envolveram-se num namoro aprazível. Um par, à partida, improvável, uma nova forma de amor. Já no século XVIII, se discorria sobre a figura do “diabo apaixonado” (Cazotte, Jacques, Le diable Amoureux, Paris, 1772; traduzido para português por Camilo Castelo Branco; na imagem, capa da edição de 1845, da autoria de Edouard de Beaumont).

Marca: Match. Título: Match Made in Hell. Agência: Maximum Effort. Direção: Ryan Reynolds. Estados-Unidos, Dezembro 2020.

O inverno do Coronavírus e os heróis do sofá

Achille Talon. Por Greg. Banda desenhada franco-belga.

O anúncio Corona Winter, do governo da Alemanha (zusammen gegen corona) sublinha que, em tempos de pandemia, para ser herói basta não sair de casa. Só os parvos não são heróis. No anúncio, falado em alemão, uma pessoa de idade recorda os tempos da pandemia. Não descobri legendas em inglês. Segue a tradução do discurso do protagonista:

“Penso que foi no inverno 2020 que todos os olhos do país se fixaram em nós. Acabava de fazer 22 anos e prosseguia estudos de engenharia em Chemnitz quando a segunda vaga começou. 22 anos…Com essa idade, quer-se festejar, estudar, encontrar pessoas, isso tudo… Sair para beber uns copos. Mas o destino tinha outros projectos para nós. Um perigo invisível ameaçava tudo em que acreditávamos. De um momento para outro, o destino do país estava nas nossas mãos. Então, agarrámos a coragem com as duas mãos e fizemos o que era esperado de nós. A única coisa a fazer. Não fizemos nada. Absolutamente nada. Tão preguiçosos como guaxinins. Dias e noites, mantínhamos os nossos rabos em casa e combatíamos a propagação do Coronavírus. O sofá era o nosso campo de batalha. A paciência, a melhor arma. Confesso que me apetece rir sozinho ao pensar neste período. Era o nosso destino. Foi assim que nos tornámos heróis. No período do Coronavírus durante o Inverno de 2020”.

Anunciante: Zusammen gegen corona. Título: Corona Winter. Alemanha, novembro 2020.

Encontrei, entretanto, no Twittter, uma versão com legendas em inglês: