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O mundo

Imago Mundi, o mais antigo mapa-múndi conhecido, século VI a.C., Babilônia.

“Quem tem uma mãe tem tudo / Quem não tem mãe não tem nada” (Zeca Afonso. Minha Mãe, Baladas e Cancões, 1964).

Não me entusiasma a mobilização para a internacionalização. Tão pouco a obsessão pelo rótulo internacional. Aprecio, no entanto, a internacionalidade. Mas mais do que ouvir, em Portugal, que o Fernando Pessoa, a Amália Rodrigues ou o Rodrigo Leão são internacionais, prefiro ouvir em Paris, em Roma ou em Berlim que são portugueses. Não é apenas uma questão de perspetiva. Não é preciso desaninhar nem acumular milhas para se internacionalizar. Basta fazer obra internacional. Existem instituições altamente responsáveis que pensam de outro modo.

“«O Mundo» é uma compilação lançada internacionalmente em 2006 por Rodrigo Leão”.

Rodrigo Leão – “O Mundo” (2006) – Ao Vivo / Live,

Desaprender

Michel de Montaigne (1533-1592).

Estou a escrever um artigo sobre o questionário para inquérito sociológico. A páginas tantas, dei comigo a folhear os Ensaios de Montaigne (1580). Encontrei estas passagens sobre o ensino e a aprendizagem. A deambulação tem destas artes: encontra-se o que não se procura mas que, por sinal, interessa.

Gostaria também que se tivesse o cuidado de lhe escolher um preceptor com a cabeça mais benfeita do que bem recheada (…) Os professores não param de gritar em nossos ouvidos, como quem entornasse o conhecimento num funil: nossa tarefa seria apenas repetir o que nos disseram (…) Gostaria que ele corrigisse essa prática e que desde o início, segundo a capacidade do espírito que tem em mãos, começasse a pô-lo na raia, fazendo-o provar, escolher e discernir as coisas por si mesmo. Ora abrindo-lhe o caminho, ora deixando-o abrir. Não quero que só o preceptor invente e fale: quero que, quando chegar a vez de seu discípulo, o escute falar (…) A autoridade dos que querem ensinar é, no mais das vezes, nociva para os que querem aprender (Michel de Montaigne, 1580. Ensaios. Livro I, Sobre a educação das crianças).


Que o preceptor faça o menino tudo passar pelo próprio crivo e que nada aloje em sua cabeça por simples autoridade ou confiança. Que os princípios de Aristóteles não lhe sejam princípios, não mais que os dos estoicos ou dos epicuristas; que lhe proponham essa diversidade de julgamentos e ele escolherá, se puder, do contrário permanecerá na dúvida.
Che non men che saper dubbiar m’aggrada / E, não menos que saber, duvidar me agrada (Dante, Inferno, XI, 93) (Michel de Montaigne. Ensaios. Livro I. Capítulo XXV: Sobre a Educação das crianças).

Michel de Montaigne. Essais de Morale. 1580

Quando vejo que me convenci, pela razão de outro, de uma ideia falsa, o que aprendo não é tanto o que ele me disse de novo, nem é de grande proveito a minha ignorância especial, mas em geral aprendo minha debilidade e a traição de meu entendimento, e com isso posso melhorar todo o conjunto. Com todos os meus outros erros faço o mesmo: e sinto nessa regra grande utilidade para a vida. Não olho para a espécie de erro nem para o erro individual como uma pedra em que tropecei. Aprendo a temer meu comportamento em qualquer lugar e trato de melhorá-lo. Saber que dissemos ou fizemos uma tolice é apenas isso; precisamos aprender que não passamos de um tolo, ensinamento bem mais amplo e importante (Michel de Montaigne. Ensaios. Livro I. Capítulo XIII: Sobre a experiência).

Há mais trabalho em interpretar as interpretações do que em interpretar as coisas: e mais livros sobre os livros do que sobre outro assunto: não fazemos mais que glosar uns aos outros. Tudo fervilha de comentários, mas de autores há grande escassez. O principal e mais famoso saber de nossos séculos não é saber compreender os sábios? Não é essa a finalidade comum e última de todos os estudos? Nossas opiniões enxertam-se umas nas outras. A primeira serve de caule à segunda: a segunda à terceira. Assim escalamos, degrau a degrau. E resulta que quem sobe mais alto costuma ter mais honra do que mérito. Pois só subiu um bocadinho, sobre os ombros do penúltimo (Michel de Montaigne. Ensaios. Livro I. Capítulo XIII. Sobre a experiência).

É só nossa fraqueza individual que faz que nos contentemos com o que outros ou nós mesmos encontramos nessa caça ao conhecimento: um mais hábil não se contentará. Há sempre lugar para um sucessor, e até para nós mesmos, e um caminho por outro lugar. Não há fim em nossas investigações. Nosso fim está no outro mundo. É sinal de estreiteza quando o espírito se satisfaz: ou sinal de lassidão. Nenhum espírito poderoso se detém em si mesmo. Sempre se empenha em ir mais longe e vai além de suas forças. Seus impulsos vão além de seus feitos. Se não avança e não se apressa, e não se força e não se choca e se revira, só está vivo pela metade. Suas buscas não têm término nem forma. Seu alimento é o espanto, a caça, a incerteza (Michel de Montaigne. Ensaios. Capítulo XIII: Sobre a experiência)

Vem mais ou menos a propósito a música Mon ami, mon maître, de Serge Lama, um cantor francês.

Serge Lama. Mon ami, mon maître. D’aventures en aventures. 1968. Ao vivo: Bercy 2003.

O Pianista

Władysław Szpilman, o Pianista.

A besta não adormece, a besta nunca dorme (AG).

Władysław Szpilman “Władek” (1911-2000) é um pianista e um compositor judeu polaco. Trabalhava como pianista na rádio polaca, quando o recital do Nocturno nº 20, de Frédéric Chopin, foi interrompido pelo bombardeamento alemão. Foram as pancadas do inferno. Sobrevive, miraculosamente, à guerra. O mesmo não sucede à família, deportada em Treblinka. Publicou em 1946 as suas memórias. O livro foi censurado pelos novos senhores da Polónia. As suas memórias serão reeditadas em 1998, volvidos 43 anos, com o título O Pianista. Tinha Wladyslaz Szpilman 87 anos. Dois anos após a sua morte, estreia, em 2002, o filme O Pianista, que o realizador polaco Roman Polanski dedica, inspirado no livro O Pianista, à vida de Wladyslaw Szpilman. Polanski nem sequer altera o nome do protagonista.

Comove o vídeo com Wladyslaw Szpillman a tocar, em sua casa, com 86 anos, o Nocturno nº 20, de Frédéric Chopin.

Tristeza pasmada

Edvard Munch. Melancholy. 1894.

Zbigniew Preisner é um compositor polaco. A sua música integra mais de 40 filmes. As composições não primam por ser heroicas ou alegres. O certo é que hoje acordei triste. Os sonhos devem ter sido tão bons que fiquei triste ao acordar. Uma tristeza não amargurada, de estimação, de embalar ao colo. Nunca fixaste, à beira mar, um navio que nunca mais desaparece? É isso mesmo, uma tristeza pasmada. Uma tristeza que vicia.

Seguem quatro músicas de Zbigniew Preisner. São curtas. Não dá para o navio passar.

Zbigniew Preisner. Decision 2046. 2004 (Live).
Zbigniew Preisner. Damage. Fatale. 1992.
Zbigniew Preisner. Holocaust. Decalogue 8. 1988-1989

As novas máscaras

“Que a força (sémè) que estava na máscara antiga entre na nova!” (Kono, Guiné, in Balandier, Georges, Afrique Ambigue, 1957).

“A máscara traduz a alegria das alternâncias e das reencarnações,· a alegre relatividade, a alegre negação da identidade e do sentido único, a negação da coincidência estúpida consigo mesmo; a máscara é a expressão das transferências, das metamorfoses, das violações das fronteiras naturais, da ridicularização, dos apelidos [alcunhas]; a máscara encarna o princípio de jogo da vida, está baseada numa peculiar inter-relação da realidade e da imagem, característica das formas mais antigas dos ritos e espetáculos. O complexo simbolismo das máscaras é inesgotável. Basta lembrar que manifestações como a paródia, a caricatura, a careta, as contorções e as “macaquices” são derivadas da máscara. É na máscara que se revela com clareza a essência profunda do grotesco.” (Bakhtin, Mikhail, 1987, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: O contexto de François Rabelais, S. Paulo, Editora Hucitec, p. 35).

James Ensor. Squelette Arrêtant Masques. 1891. Leiloado, em 2016, por 7,4 milhões de euros.

“Fala-se muito em identidades líquidas (Zygmunt Bauman) e polifónicas (Mikhail Bakhtin). Em máscaras, também (Anselm Strauss). Pelos vistos, habituámo-nos a trocar ou a retocar as máscaras consoante transitamos de arena ou de palco. Máscaras que se fazem corpo, que ora se entranham, ora se desprendem (Constantin Stanislavski). Mas o mais intrigante não é que a máscara faça corpo, mas a tendência de o corpo funcionar, ele próprio, como máscara, a máscara que mais bem se ajusta às nossas identidades múltiplas e que, provavelmente, mais bem as costura” (Gonçalves, Albertino: https://tendimag.com/2012/06/10/ave-corpo/).

A máscara tem vida e poderes próprios. Adere, por vezes, ao corpo. A máscara encobre, subverte e exprime. Também protege. Protege o portador e protege os outros. Um professor de antropologia referia, há cerca de quarenta anos, que em África havia réis que nunca tiravam a máscara em público para proteger os súbditos. Alfred Adler não descreve outra realidade: entre os Mundang, dos Camarões, o rosto do rei inspira um receio reverencioso. “O Mundang desvia-se o mais rápido possível de um face a face insuportável com esta figura singular do sagrado que lhe queimaria a pele” (Adler, Alfred, Des Rois et des Masques, Homme, Année 1998, 145. pp. 169-203, p. 169). Com uma máscara, talvez Medusa tivesse um final mais feliz.

Otto Dix. Shock Troops Advance under Gas. The War, 1924.

As novas máscaras, públicas, interpõem-se mais do que interagem. Conjugam vulnerabilidade e exorcismo. São máscaras sem segredo, apenas medo. São colectivas, mas sem potência carnavalesca e com alguns laivos de claustrofobia. Sem arte nem diversidade, lembram as máscaras dos médicos da peste negra e as máscaras de gás dos militares da Primeira Guerra Mundial. As novas máscaras protegem, pelo menos simbolicamente, o portador. Mas, à semelhança das máscaras dos réis africanos, também protegem o outro. Protegem-nos!

Sementes em pó

MDOC Melgaço. Preparação de 2021. Agosto 2020. Via Zé Gomes.

Respeitando as recomendações das autoridades, o MDOC , Festival Internacional de Documentário de Melgaço, não se realizou este ano. Ocorrerá no próximo. Habituei-me a participar no Festival, em particular no ritual da visita guiada ao Espaço Memória e Fronteira. Para enganar a saudade, colhi na página dos  Filmes do Homem meia dúzia de fotografias.

Os dias enrolam-se como num moinho de café. Entram sementes e sai pó. O tempo também tem destas artes. Em 2014, estas fotografias eram um desconsolo: “coitado de mim”. Hoje, passados seis anos, reconsidero: “afinal, não estava assim tão mal; as de costas, até favorecem”. Importa navegar. As memórias não são velas mas ventos. Os tais ventos que movem moinhos, moinhos que transformam as sementes em pó.

Palavra de criança

Auguste Rodin. Le Sommeil. 1894.

É considerada uma das peças mais originais do escultor francês Auguste Rodin (1814-1917). O artista usou um busto feminino de terracota como ponto de partida e recriou-o com gesso, argila, pasta de papel, cera e pregos . O cabelo está coberto de vários tipos de cera, que lhe dão diversos tons amarelados. A pele está impregnada de pequenos pregos, dando o efeito de pigmentação.

Esta obra, executada em 1894, de um realismo impressionante, retrata uma jovem em sono profundo, numa pose que sugere ter adormecido numa meditação relaxante, típica das técnicas orientais (O Sono de Auguste Rodin: http://www.isleep.pt/sono-auguste-rodin/).

Em tempo de pandemia, a brasileira Bradesco Saúde produz vários anúncios de homenagem aos profissionais de saúde (ver “Fascinação”: https://tendimag.com/2020/05/22/cuidados-de-saude/). Em “Décadas”, as crianças idolatram uma profissão por década: 1940s, piloto de avião; 1950s, cantor de rock; 1960s, astronauta; 1970s, jogador de futebol; 1980s, piloto de corrida; 1990s, jogador de basquetebol; 2000s, bombeiro; 2010s, atleta; e 2020s, “médico ou enfermeira”. A verdade das crianças é, como se sabe, a mais verdadeira.

“Durante toda a história da humanidade, acho que sempre existiram atividades ou profissões que inspiraram as crianças em determinado momento. E é nítido que, agora, são os médicos e profissionais de saúde que têm cativado e encantado a todos pela coragem, dedicação e importância social. Acho um insight muito bacana que se materializou num lindo filme, com roteiro e execução impecáveis” (Pernil, ECD da AlmapBBDO; https://www.bradescoseguros.com.br/clientes/noticias/noticia/profissionais-de-saude-ganham-mais-uma-homenagem-bradesco-saude).

Marca: Bradesco Saúde. Título: Décadas. Agência: AlmapBBDO. Brasil, Junho 2020.

A sério

UNESCO

L’UNESCO lance une campagne mondiale pour interroger notre perception de la normalité. Le film de 2’20” s’appuie sur une succession de faits marquants sur la situation dans le monde avant et pendant la pandémie de la Covid-19. Ensemble, ces faits remettent en question nos idées préconçues sur ce qui est “normal”, et suggère que nous avons toléré l’inacceptable depuis trop longtemps. Il est temps d’un vrai changement. Et tout commence par l’éducation, la science, la culture et l’information (UNESCO).

Uma pessoa que diz coisas sérias não ri! O sério é sisudo e o riso, tonto. Imagine alguém a comunicar assuntos sérios às gargalhadas! O sério não ri, assim é desde o barro genético. O anúncio Le Prochain Normal, da UNESCO, aborda assuntos graves da humanidade. O que consideramos normal? Perguntas sérias, muito sérias. Até o formato do anúncio é sacrificial. Como rir num mundo tão sério? O riso é um acto de humor nas suas origens e um acto sério nas suas consequências.

Anunciante : UNESCO. Título : Le Prochain Normal. DDB (Paris). França, Junho 2020.

Maria, Amália e Manolo

Maria Carta (1934-1994), compositora, cantora e atriz italiana, tinha afinidades com Amália Rodrigues (1920-1999). Em 1972, realizaram um recital no Teatro Sistina, em Roma. Cada uma interpretou 18 canções.

A canção Sa Disisperada integra o reportório de Maria Carta. Uma música tradicional de Logaduro, dedicada à emigração, à velhice, à solidão e ao sofrimento. A Itália foi, como Portugal, um país de emigração. Sa Disispirada lembra, pelo cantar e pelo tema, muitas canções portuguesas. Traduzo, livremente, os últimos versos:

Levantem voo como as andorinhas,
voltem,
também estou em sofrimento.
Aqui o sol é esplêndido e o céu é límpido,
mas sentimos a vossa falta,
vós sois as verdadeiras jóias.

Maria Carta. Sa Disisperada (1970?)

Do reportório de Amália Rodrigues constam vários êxitos (Casa da Mariquinhas, É ou não é, Cana Verde, Malhão ou Coimbra). Quatro canções são de origem espanhola e uma, italiana. No corpo, retomado no bis final, destaca-se El Porompompero, rumba composta em 1960 por Juan Solano Pedrero, celebrizada pela voz de Manolo Escobar.

Itália, Espanha e Portugal são países com um profundo traço de união, cinzelado, entre outras dimensões, pela religião. Max Weber nunca duvidou desta identidade dos países do sul no quadro europeu. Itália, Espanha, Portugal, três BIG: Big History, Big Culture and Big Art. PIG or not PIG, we are BIG.

Amália Rodrigues. El Porompompero (Bis finale). Ao vivo, Teatro Sistina, Roma, 1972

Maratona

E se houvesse uma maratona sem meta? Correr para chegar a lado nenhum. Como insectos à volta de um candeeiro.

Pink Floyd – ” Run Like Hell “. The Wall. 1979. Live Earls Court 1980.