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Antecipação do surrealismo no século XVI: Lorenz Stoer

Em férias, a criatividade perde o cio. Sobram algumas rotinas respeitantes a compromissos de escrita e ao restauro do Tendências do Imaginário, uma canseira imperativa, devido à antiguidade e ao alcance do blogue. Urge recuperar e gravar vídeos desaparecidos. Este resgate de artigos (do mesmo dia) trouxe duas surpresas: as visualizações aumentaram 62% e o peso de Portugal subiu de 30 para 43%.

Imagem: Lorenz Stoer – Sem título. Geometria et Perspectiva, 1567

Arquitectura de Paisagem na Geometria Maneirista: Lorenz Stoer, artigo colocado em 15 de agosto de 2013, representa o tipo de incursão que mais me motiva: a exploração de artistas, ao mesmo tempo, desconcertantes e precursores, mas pouco conhecidos. Sempre que possível, proponho galerias de imagens e vídeos musicados. O resultado pode ser interessante.

Calma e Tranquilidade

Há vários dias que me encontro atolado num cúmulo de burocracia com abuso do cidadão. Para quê? Para pedir alguma regalia? Nem por isso, apenas para colaborar generosamente com uma instituição pública. Em suma, a crónica salvaguarda do aparelho e das aparências face a eventuais “escrutínios”.

Quanto se menospreza o cidadão, que, aliás, insatisfeito, pede mais! Papagueamos a democracia que descuidamos. Não se pede a um membro de um governo que, como político, decida bem e promova boas iniciativas, mas, em contrapartida, que não tenha ponta por onde se lhe pegue, a qualquer pretexto. Desde sempre, nem sombra de “ilegalidade”, “informalidade”, “irregularidade” ou ” suspeita”. Só falta exigir “santidade”, aos governantes e aos governados. Às declarações de registo criminal e de compromisso, anexe-se o upload com uma declaração de fé. Portugal e os Portugueses não precisam de vangloriar-se de tamanho zelo burocrático. Já é sobejamente reconhecido no estrangeiro.

Importa temperar este estado de alma com música apropriada. Talvez alguns mantras hipnóticos, em pequenas doses. Aprecio o trio Deva Premal (alemã; voz e teclas), Miten (indiano, voz e guitarra) e Manose (Nepalês, flauta). O que é preciso é “calma e tranquilidade”, nome da canção, com letra em português, que coloco em primeiro lugar. Acrescento “Aad Guray” e “Gayatri Mantra”.

Deva Premal (Nuremberga, Alemanha; 1970) é uma cantora reputada pela sua música espiritual e meditativa do tipo New Age, que envolve mantras ancestrais numa atmosfera contemporânea. / Deva é parceira de vida e de música de Miten, que conheceu no Ashram de Osho em Pune, na Índia, em 1990. Juntos, compõem músicas e realizam concertos à volta do mundo./ Deva recebeu formação musical clássica, mas cresceu cantando mantras em sua casa na Alemanha — um lar imerso na espiritualidade oriental. Seus álbuns têm liderado as paradas de New Age em todo o mundo desde o lançamento de The Essence, que inclui o Mantra Gayatri. A sua gravadora, Prabhu Music, já vendeu mais de 900.000 cópias. (Wikipedia, em espanhol, 03.08.2026).

Deva Premal & Miten (com Manose) – Calma e Tranquilidade. Soul in Wonder. 2007. Do CD/DVD “In Concert”, 2009
Deva Premal & Miten (com Manose) – Aad Guray.  CD/DVD “In Concert”, 2009
Deva Premal & Miten (com Manose) – Gayatri Mantra. Satsang: A Meditation. 2002. Do CD/DVD “In Concert”, 2009

O Cabelo e o Violino. Pantene e Pachelbel

“Crysalis” é um belíssimo anúncio, ao nível áudio e vídeo, da Pantene, de 2009, com uma história à tailandesa, que culmina com o cânone de Pachelbel. Colocado no Tendências do Imaginário no longínquo dia 14 de julho de 2012, oferece uma boa oportunidade para começar o dia com uma pequena centelha no coração.

Imagem: Johann Pachelbel (1653-1706)

O Personal Jesus de Nina Hagen

São Paulo, no Brasil, é uma das cidades onde o Tendências tem mais visualizações. Lá, perto da nossa meia noite, ainda não são 20 horas. Não é, portanto, demasiado tarde para acrescentar outro “artigo do dia 13 de julho”: Pare, escute e sente-se, publicado em 2020. Não dá para ignorar: inclui uma canção da Nina Hagen. Pois, não há 1 sem mais 4, para fazer 5.

Nina Hagen – Personal Jesus. Personal Jesus, 2010. Cover dos Depeche Mode. Recorded live on NDR Talk Show in Germany, 16/07/2010
Nina Hagen – I Am Born To Preach The Gospel. Personal Jesus, 2010. Cover de Washington Phillips. Personal Jesus 15th Anniversary Colored Vinyl (16.07.2025)
Nina Hagen – I’m Gonna Live The Life. Revolution Ballroom, 1993. From the RTL late show “Nachtshow”, 1993
Nina Hagen Band – “Naturträne”. Nina Hagen Band, 1978. Live on Rockpalast (TV Show) in Dortmund Germany, December 9th 1978

Surrealismo grotesco

Durante a sunset party da Academia Sénior do Município de Braga. Fraião, 27.06.2026. Fotografia de Maria Afonso

Ontem, selecionei quatro “artigos do dia” (27 de junho). Recoloquei apenas dois: “A roseira dos cravos”, de 2014, e “Pintar o campesinato: o Luttrel Psalter”, de 2016, ambos com imagens medievais. Divertido numa sunset party com os alunos de Cidadania, da Academia Sénior do Município de Braga, adiei “Matar o vício”, de 2018, e “A ceia dos pobres (eventualmente chocante)”, de 2013, para o dia seguinte. Ainda considerei colocá-los fora de horas, enquanto Portugal empatava com a Colômbia, mas sabia que arriscava provocar pesadelos…

“Matar o vício” e “A ceia dos pobres” relevam de uma espécie de surrealismo grotesco, mais próximo da conceção de Wolfgang Kayser (Das Groteske. Seine Gestaltung in Malerei und Dichtung, 1957) do que da de Mikhail Bakhtin (A cultura popular na Idade Média e no Renascimento, 1941).

Na versão de Wolfgang Kayser, o grotesco gera um sentimento corrosivo de estranheza, em que o mundo familiar se revela, insolitamente, ameaçador e inquietante. Sério e visceral, provoca confusão, desorientação, mal-estar e angústia. Os quadros da chamada fase negra de Francisco de Goya representam um bom exemplo.

Em Mikail Bakhtin o grotesco é, pelo contrário, carnavalesco, animado por um movimento de rebaixamento coletivo, cómico e regenerador. Embora fantástico, desconcertante e excessivo, tende a resultar afirmativo e esperançoso.

Os vários livros de François Rabelais com os gigantes Gargantua e Pantagruel como protagonistas oferecem-se, agora, como um exemplo eloquente.

Em “Matar o vício”, o ambiente dos anúncios da revista Men’s Health é fantasmático, claustrofóbico e sinistro, com a figura do duplo, o outro eu, a insinuar-se como um intruso ambíguo, perturbador e ameaçador, senão fatal.

Com “A ceia dos pobres”, transitamos da publicidade para o cinema. O filme Viridiana (1960), de Luis Buñuel, encena uma paródia da Última Ceia, de Leonardo da Vinci, que frisa a blasfémia.

O filme Um Cão Andaluz (1928), de Luis Buñuel e Salvador Dali, destaca-se como um marco incontornável da história do cinema. Não se pode afirmar que propicie boa disposição. Deveras criativo, desconcerta e impressiona, cravando-se, indelével, na memória. Um cúmulo emblemático do surrealismo grotesco ao jeito de Kayser. Não aconselhável a pessoas sensíveis.

Surrealismo grotesco, eis uma noção que pode manifestar-se interessante!

A Paixão da Roseira que dá Cravos Vermelhos

Para entender a roseira que parece dar cravos na pintura O Jardim do Paraíso, do Mestre do Alto Reno, não basta ver com o coração, como é proposto no artigo “A roseira dos cravos” (27.06.2014). Importa recorrer também à razão: as flores e os frutos vermelhos, neste caso rosas ou cravos, bem como o pintassilgo (próximo na imagem), costumam funcionar como imagens-signo que aludem à Paixão.

Imagem: Mestre do Alto Reno – O Jardim do Paraíso, 1410-20. Städel Museum. Detalhe

Chuva de notas, pingos de música

Ontem, tivemos direito a breves interlúdios de chuva. Recordaram-me Schubert, um dos compositores que mais se inspira na água. Uma amiga de uma amiga costuma dizer que Schubert lhe lembra a chuva. Já coloquei algumas obras de Schubert: Ave Maria, Impromptu In G-Flat Major, D899, Op. 90 No. 3; e Serenata D. 954. Venham mais quatro! A chuva acabou por trazer, finalmente, um artigo de raiz, apesar de parco em palavras.

Imagem: Gustave Caillebotte – L’Yerres, pluie, 1875.

Franz Schubert – Piano Quintet in A Major, Op. 114, D 667 – “The Trout”: II. Andante. Intérpretes: Anne-Sophie Mutter, Daniil Trifonov, … 2017
Franz Schubert- Impromptu Op. 142 No. 2 in A-Flat Major. Piano: Eric Lu, 2025
Franz Schubert – Piano Sonata in A Major D. 664, II. Andante. Piano: Paul Lewis, 2022
Franz Schubert – Mass No. 6 in E flat major. Soprano: Bertrand de Billy. Salle Pleyel (Paris), 2013

Milagres?

Em terras americanas pode mesmo acontecer tudo? Como nos filmes da Filmakademie Baden-Wuerttemberg?…

Fox Sports – Miracle / Do You Believe? Everything Can Happen on Home Soil. Agência: Special U.S. Direção: Lance Accord. USA, maio 2026
Black Stallion / Spec Ad / “Who is the father?”. Direção: Lars Timmermann. Filmakademie Baden-Wuerttemberg. Alemanha, 2018

Para aceder a outros exemplos de filmes da Filmakademie Baden-Wuerttemberg, pode consultar os seguintes artigos do Tendências do Imaginário:

Jogos e brincadeiras (30.10.2012)

Perdidos e achados (10.01.2013)

Humor estranho (31.10.2013)

Aspirações (25.08.2015)

ABC da morte (01.11.2016)

Limites da fidelidade (06.08.2018)

Eros e Thanatos (26.09.2018)

O prazer dos mortos (30.11.2018)

Lágrimas do Paraíso (29.11.2018)

Conto de Natal (23.12.2019)

Pilhas de salvação (15.05.2021)

A Banheira Fantasma

O mal espalha-se no espírito do tempo como a água por baixo da porta. No início, quase nada. Um pouco de humidade. Quando a inundação começa, é tarde demais (Christian Bobin, La Plus Que Vive, 1996).

O anúncio “DIY Odyssey”, da Hornbach, releva da arte. Alucinante, propõe, antes de mais, um coro e uma coreografia impressionantes. Aprecio os anúncios da Hornbach. Costumam ser criativos e divertidos. O Tendências do Imaginário contempla cerca de uma dezena.

Marca: Hornbach. Título: DIY Odyssey / The Square Meter. Agência: HeimatTBWA, Berlin. Direção: Lope Serrano. Alemanha, agosto 2025

Vulnerabilidade informática e inteligência artificial

Message in a bottle. Cartoonist – Pete Dredge. Via Cartoonstock

Comecei o dia sem acesso a uma conta do correio eletrónio. A meio da tarde, o problema continuava. Preocupei-me porque a receção dos e-mails tem consequências práticas. Para me inteirar da situação, recorri ao parceiro mais à mão, o ChatGPT, cujas respostas merecem, naturalmente, reservas, mas nem mais nem menos do que as dos humanos com que me relaciono.

Perguntei: “Aconteceu algum problema hoje ao Outlook?”

“Sim – hoje (10 de julho de 2025) o Outlook enfrentou uma falha global que afetou milhões de utilizadores. Houve dificuldades generalizadas para iniciar sessão e enviar ou receber mensagens, tanto no Outlook.com como nas apps desktop e móveis.
O que sabemos:

  • Os problemas começaram nas primeiras horas da manhã (UTC) ou final da noite de 9 de julho;
  • Aproximadamente 60‑62 % dos relatos indicavam falhas de login; os restantes referiam lentidão e erros de licença ou autenticação;
  • A Microsoft confirmou que o problema não foi causado por ciberataque, mas sim por falha técnica — possivelmente relacionada com atualizações ou bibliotecas internas — e está a aplicar correções;
  • À medida que o dia avançou, muitas regiões começaram a ver retorno dos serviços, com os sistemas a estabilizarem gradualmente.” (ChatGPT, 10.07.2025).

Aguardei, mais sossegado, cerca de uma hora até o correio eletrónico voltar a funcionar.

Entretanto, pensei nos Kraftwerk. Tudo me lembra alguma coisa, mesmo que não tenha nada a ver. Seguem três músicas dos Kraftwerk ainda não contempladas no Tendências do Imaginário.

Kraftwerk – Radioactivity. Radio-Aktivität, 1975. Ao vivo
Kraftwerk – Hall of Mirrors. Trans-Europa Express, 1977
Kraftwerk – Neon Lights. Die Mensch-Maschine, 1978