Dança animal na publicidade 4 e 5. Galinhas
O anúncio “French Cancan”, da empresa criadora de aves Le Gaulois, foi denunciado pela Protection Mondiale des Animaux de Ferme (PMAF) por sugerir que as galinhas são criadas num ambiente festivo, digamos numa espécie de Moulin Rouge, “o que contrasta dramaticamente com a vida sombria das galinhas criadas intensivamente em edifícios industriais”.
No anúncio “Chicken”, da Mercedes-Benz, as condições ultrapassam em exigência a dança do varão. As galinhas movem-se sem sair do sítio. Amortecem os impulsos exteriores, afastando-se apenas delicadamente uns ligeiros centímetros em torno de um ponto fixo.
Acrescento uma nota a pensar em quem se estima responsável pela saúde moral alheia. Se o primeiro anúncio sugere uma mentira que justifica censura, este presta-se a interpretações suscetíveis de lhe reconhecer ressonâncias eróticas. Pode, assim, atentar contra os bons costumes, mormente a proteção devida às crianças, cada vez mais imaginativas e sugestionáveis. Talvez seja de ponderar restringir o horário de transmissão.
Enfim, as galinhas, que cacarejam, esgaravatam, põem ovos e criam pintainhos, destacam-se como uma figura importante do imaginário infantil. Qualquer perversão corre o risco de comprometer o desenvolvimento psicossocial das crianças. Fica o desafio! O anúncio estreou há 11 anos e já ultrapassou 30 milhões de visualizações. Talvez ainda se vá a tempo de (r)emendar…
Este texto é um exemplo da deriva, ou flatulência, mental a que se pode expor um espírito ocioso.
Afetados. Horror e Humor
Por falar em possessões e bruxarias, seguem três poções de horror e humor.

Jardinar a conjugalidade
Saiu há dias o anúncio Obey Your Hands, da Hornbach, uma rede alemã de lojas de bricolage que aposta numa publicidade cómica, desinibida e insólita. Obey Your Hands convoca um caso excessivo de alucinação cinestésica: a sensação de que um órgão corporal se está a mover, adquire vida própria.
O Tendências do Imaginário comporta uma dezena de anúncios desta marca. Deu-me vontade de explorar mais. Encontrei Garden, de 2001, uma delícia não tanto por ridicularizar a masculinidade mas pelo modo como “brinca com coisas sérias”, tais como a morte e o homicídio.

Crise da reflexividade crítica e autodestruição
A quem nunca tem dúvidas e raramente se engana

El sueño de la razón produce monstruos (Francisco de Goya)
Preocupam algumas dinâmicas e tendências atuais. Em particular, a crescente mobilização em termos raciais, étnicos, religiosos, nacionalistas… com pretensas estirpes naturais, “antropológicas” e “biológicas”. Por exemplo, vários maniqueísmos tais como filias e fobias sionistas e islamistas.

“Hegel observa em algum lugar que todos os grandes fatos e pessoas da história mundial acontecem, por assim dizer, duas vezes. Ele esqueceu de acrescentar: uma vez como tragédia, a outra como farsa” (Karl Marx, O 18 Brumário de Luís Bonaparte, 1ª ed. 1852). Nada impede, porém, que se repitam como tragédias, eventualmente maiores.
Imagem: Francisco de Goya. Visión fantasmal, ca.1801

Parece estar em curso um eclipse do propriamente político e do espírito (auto) crítico. O regresso à identificação e ao pensamento automáticos e estereotipados. Convém recordar o mundo e, especialmente, a Europa antes da primeira e da segunda guerras mundiais.
Imagem: Francisco Goya (atribuído a). O colosso. Após 1808
Para complicar, a história também revela que a mera razão não é suficiente para enfrentar o delírio simbólico. Sem o sustento e o fermento do imaginário e do emocional pouco consegue. O racional carece de uma centelha irracional para se manter aceso, para motivar e mover os seres humanos.

Existem anúncios de consciencialização que se propõem, e podem, ajudar. É o caso do anúncio “The 100th Edition”, do jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung. Foi galardoado com vários prémios, entre os quais o Grande Prémio, na categoria “impresso”, no âmbito dos 2024 New York Festivals Advertising Awards.
Imagem: Francisco de Goya. Pátio de um manicómio. 1794
Hegel e Marx podem estar certos. É plausível que a história se repita de um modo cíclico ou em espiral. Mas existe uma realidade que não obedece a este retorno. Não só não recua como não para de avançar: a capacidade humana de autodestruição.
A albarda e a liberdade jovial

Continuo a colocar música alemã. Uma pequena greve ao inglês. Presta-se a sondar outros horizontes. Há hegemonias que lembram albardas [e palas] irresistíveis. Por birra, aplico-me a deixá-las descansar, por um tempo, a um canto. Há quem não acuse o peso das albardas. De tão habituados, integram a sua identidade. Pois, a mim, incomodam-me, sobretudo quando sobra alguém a querer sentar-se em cima.
O Zé Povinho – Depois das eleições, à vontade do seu dono, O Antonio Maria, 1880
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Retomemos a música proveniente da Alemanha. Anna Loos é uma cantora e atriz alemã. Apareceu, desde 1996, em mais de 50 filmes e é vocalista, desde os anos 2010, do grupo rock Silly, fundado em 1977. Digna de registo a diferença de visual entre os vídeos.
Ruínas de estimação
Sarah Connor, batizada Sarah Terenzi, é uma compositora e cantora nascida em 1980 na Alemanha. Considerada uma das melhores vocalistas germânicas, acumulou prémios, publicou uma dezena de álbuns e vendeu mais de 15 milhões de cópias. Canta em inglês e em alemão. Embora os 15 primeiros vídeos a aparecer no YouTube sejam de canções em inglês, selecionei 4 canções em alemão. O terceiro vídeo, da canção Bedingugslo, é uma delícia. Uma amiga francesa sustentava que a língua alemã proporcionava uma sonoridade muito própria à poesia e à música. Dá para perceber?




