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Barreiras e erupções

Je prends mes désirs pour des réalités car je crois à la réalité de mes désirs / Tomo os meus desejos por realidade porque acredito na realidade dos meus desejos (slogan de Maio 68)

Marca: Deutsch Telekom. Título: Bubbles. Agência: MUW Saatchi & Saatchi (Bratislava). Direção: Alex Feil. Alemanha, novembro 2024

Dança animal na publicidade 4 e 5. Galinhas

O anúncio “French Cancan”, da empresa criadora de aves Le Gaulois, foi denunciado pela Protection Mondiale des Animaux de Ferme (PMAF) por sugerir que as galinhas são criadas num ambiente festivo, digamos numa espécie de Moulin Rouge, “o que contrasta dramaticamente com a vida sombria das galinhas criadas intensivamente em edifícios industriais”.

Marca: Le Gaulois. Título: French Cancan. Agência: Leo Burnett (Paris). França, 2007

No anúncio “Chicken”, da Mercedes-Benz, as condições ultrapassam em exigência a dança do varão. As galinhas movem-se sem sair do sítio. Amortecem os impulsos exteriores, afastando-se apenas delicadamente uns ligeiros centímetros em torno de um ponto fixo.

Marca: Mercedes-Benz. Título: Chicken – Magic Body Control. Agência: Jung Von Matt/Neckar Stuttgart. Direção: Daniel Warwick. Alemanha, 2014

Acrescento uma nota a pensar em quem se estima responsável pela saúde moral alheia. Se o primeiro anúncio sugere uma mentira que justifica censura, este presta-se a interpretações suscetíveis de lhe reconhecer ressonâncias eróticas. Pode, assim, atentar contra os bons costumes, mormente a proteção devida às crianças, cada vez mais imaginativas e sugestionáveis. Talvez seja de ponderar restringir o horário de transmissão.

Enfim, as galinhas, que cacarejam, esgaravatam, põem ovos e criam pintainhos, destacam-se como uma figura importante do imaginário infantil. Qualquer perversão corre o risco de comprometer o desenvolvimento psicossocial das crianças. Fica o desafio! O anúncio estreou há 11 anos e já ultrapassou 30 milhões de visualizações. Talvez ainda se vá a tempo de (r)emendar…

Este texto é um exemplo da deriva, ou flatulência, mental a que se pode expor um espírito ocioso.

Afetados. Horror e Humor

Por falar em possessões e bruxarias, seguem três poções de horror e humor.

Marca: Citröen Saxo. Título: Vampires. Agência: Euro RSCG. Direção: Enda Mc Callon. Espanha, 1997
Marca: Saturn. Título: Students vs Vampires. Produção: Ratfilms. Direção: Manes Dürr. Alemanha, 2012
Marca: National. Título: As Bruxas. USA, 2000

Jardinar a conjugalidade

Saiu há dias o anúncio Obey Your Hands, da Hornbach, uma rede alemã de lojas de bricolage que aposta numa publicidade cómica, desinibida e insólita. Obey Your Hands convoca um caso excessivo de alucinação cinestésica: a sensação de que um órgão corporal se está a mover, adquire vida própria.

O Tendências do Imaginário comporta uma dezena de anúncios desta marca. Deu-me vontade de explorar mais. Encontrei Garden, de 2001, uma delícia não tanto por ridicularizar a masculinidade mas pelo modo como “brinca com coisas sérias”, tais como a morte e o homicídio.

Marca: Hornbach. Título: Garden. Agência: Stemtag. Alemanha, 2001
Marca: Hornbach. Título: Obey Your Hands. Agência: HeimatTBWA Berlin. Direção: Steve Rogers. Alemanha, agosto 2024

Aveiro épico

No passado domingo, dia 4 de agosto, Aveiro descobriu-se épico: o público do Vagos Metal Fest entoou em coro, mais ou menos afinado, a canção The Bard’s Song: In the Forest, dos Blind Guardian.

Coloco dois vídeos do mesmo evento para mostrar que não se trata de um artifício (fake) produzido com recurso à Inteligência Artificial.

Blind Guardian – The Bard’s Song – In the Forest Live Vagos Metal Fest, Portugal (04-08-2024)
Blind Guardian – The Bard’s Song: In the Forest (Vagos Metal Fest 2024 – Portugal)

Crise da reflexividade crítica e autodestruição

A quem nunca tem dúvidas e raramente se engana

Francisco de Goya. Episódio na guerra da independência espanhola, ca. 1810

El sueño de la razón produce monstruos (Francisco de Goya)

Preocupam algumas dinâmicas e tendências atuais. Em particular, a crescente mobilização em termos raciais, étnicos, religiosos, nacionalistas… com pretensas estirpes naturais, “antropológicas” e “biológicas”. Por exemplo, vários maniqueísmos tais como filias e fobias sionistas e islamistas.

“Hegel observa em algum lugar que todos os grandes fatos e pessoas da história mundial acontecem, por assim dizer, duas vezes. Ele esqueceu de acrescentar: uma vez como tragédia, a outra como farsa” (Karl Marx, O 18 Brumário de Luís Bonaparte, 1ª ed. 1852). Nada impede, porém, que se repitam como tragédias, eventualmente maiores.

Imagem: Francisco de Goya. Visión fantasmal, ca.1801

Parece estar em curso um eclipse do propriamente político e do espírito (auto) crítico. O regresso à identificação e ao pensamento automáticos e estereotipados. Convém recordar o mundo e, especialmente, a Europa antes da primeira e da segunda guerras mundiais.

Imagem: Francisco Goya (atribuído a). O colosso. Após 1808

Para complicar, a história também revela que a mera razão não é suficiente para enfrentar o delírio simbólico. Sem o sustento e o fermento do imaginário e do emocional pouco consegue. O racional carece de uma centelha irracional para se manter aceso, para motivar e mover os seres humanos.

Existem anúncios de consciencialização que se propõem, e podem, ajudar. É o caso do anúncio “The 100th Edition”, do jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung. Foi galardoado com vários prémios, entre os quais o Grande Prémio, na categoria “impresso”, no âmbito dos 2024 New York Festivals Advertising Awards.

Imagem: Francisco de Goya. Pátio de um manicómio. 1794

Hegel e Marx podem estar certos. É plausível que a história se repita de um modo cíclico ou em espiral. Mas existe uma realidade que não obedece a este retorno. Não só não recua como não para de avançar: a capacidade humana de autodestruição.

Anunciante: Frankfurter Allgemeine Zeitung. Título: The 100th Edition. Direção:  Scholz & Friends. Alemanha, junho 2024

Caminhei, caminhei. Hino do povo Rom

“Djelem Djelem” (Caminhei Caminhei) é o hino do povo Rom (cigano), desde 1971. Uma belíssima canção, interpretada neste vídeo, com brio, pelos Barcelona Gipsy Klezmer Orchestra, banda criada em 2012. Nem sombra de inglês.

Max Theodor Gotz. Death Comes To The Fortune-Telling Gypsy. After the dance of death in Erfur. 1750

Barcelona Gipsy Klezmer Orchestra – Djelem Djelem. Imbarca. 2013

A albarda e a liberdade jovial

Continuo a colocar música alemã. Uma pequena greve ao inglês. Presta-se a sondar outros horizontes. Há hegemonias que lembram albardas [e palas] irresistíveis. Por birra, aplico-me a deixá-las descansar, por um tempo, a um canto. Há quem não acuse o peso das albardas. De tão habituados, integram a sua identidade. Pois, a mim, incomodam-me, sobretudo quando sobra alguém a querer sentar-se em cima.

O Zé Povinho – Depois das eleições, à vontade do seu dono, O Antonio Maria, 1880

Berge – Wir sind frei. Vor uns die Sinnflut. 2015
Berge – Für die Liebe. Für die Liebe. 2019
Berge – Das Heiligste der Welt (Unplugged). Für die Liebe. 2019

Caixa de ferramentas

Retomemos a música proveniente da Alemanha. Anna Loos é uma cantora e atriz alemã. Apareceu, desde 1996, em mais de 50 filmes e é vocalista, desde os anos 2010, do grupo rock Silly, fundado em 1977. Digna de registo a diferença de visual entre os vídeos.

Anna Loos – Ich will dass du weißt (feat Deutsches Filmorchester Babelsberg). 2019
 Anna Loos – Werkzeugkasten. Werkzeugkasten. 2018
Anna Loos – Kaputt. Werkzeugkasten. 2018

Ruínas de estimação

Sarah Connor, batizada Sarah Terenzi, é uma compositora e cantora nascida em 1980 na Alemanha. Considerada uma das melhores vocalistas germânicas, acumulou prémios, publicou uma dezena de álbuns e vendeu mais de 15 milhões de cópias. Canta em inglês e em alemão. Embora os 15 primeiros vídeos a aparecer no YouTube sejam de canções em inglês, selecionei 4 canções em alemão. O terceiro vídeo, da canção Bedingugslo, é uma delícia. Uma amiga francesa sustentava que a língua alemã proporcionava uma sonoridade muito própria à poesia e à música. Dá para perceber?

Sarah Connor – Ruiniert. HERZ KRAFT WERKE. 2019. Live in Hamburg / 2019
Sarah Connor – Das Leben ist schön. Muttersprache. 2015. Live in Dresden. 2016
Sarah Connor – Bedingungslos. Muttersprache. 2015
Sarah Connor – Kommst du mit ihr. Muttersprache. 2015. HERZ KRAFT WERKE (Special Deluxe Edition. 2019