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Sensibilidades da sensibilização

NABS.

Desde sempre conotada com a área da economia, a publicidade tornou-se refém da sua própria vitalidade neste campo. Contudo, o seu contributo no domínio das questões sociais e ambientais tem vindo a aumentar. E parece não existir, ainda, um espaço de reflexão e de legitimação. Apesar disso, a publicidade de carácter social tem-se desenvolvido na directa proporção de questões como o marketing social e a responsabilidade social das empresas, temas de crescente actualidade no espaço comunitário e mundial (Sara Teixeira Rego de Oliveira Balonas, A publicidade a favor de causas sociais. Evolução, caracterização e variantes do fenómeno em Portugal. Tese de Mestrado Ciências da Comunicação. Novembro, 2016).

01. Marca: Banco Espírito Santo. Título: BES Ronaldo – Conta Rendimento CR 3,25%, Agência: BBDO Portugal. 2009.

A publicidade de carácter social, de sensibilização, conhece um franco crescimento. Nas duas vertentes: uma primeira que envolve a “responsabilidade social” das empresas, em que a marca se associa à causa social,  e uma segunda que se cinge apenas às causas sociais propriamente ditas. Em ambas as modalidades, sobressai o recurso à fantasia (e.g. animação, ficção, objetos ou animais) ou à “idolatria” (e.g. estrelas do desporto, da comunicação social ou do espetáculo). Apostam na adesão estética, emocional e, em particular, não-lógica. Por ação não-logica, entende-se (Vilfredo Pareto, Tratado de Sociologia, 1916) a prática que consiste em recorrer a uma sumidade num dado domínio como referência noutro a que é alheio, por exemplo, um astro de futebol como conselheiro da bolsa. O princípio é simples: se uma pessoa é boa numa esfera espera-se que o seja nas demais. Na linguagem da literatura de fantasia, trata-se de uma transferência da aura do ídolo, por exemplo, do Cristiano Ronaldo, o máximo em tudo, para o produto, por exemplo, o Banco Espírito Santo (ver anúncio 1).

Os anúncios com figuras públicas comportam o risco de resultar mais notório o embaixador do que a embaixada, de a figura que dá a cara ofuscar tanto a campanha como o produto ou a entidade promotora. Atente-se na conclusão deste estudo realizado pela NOVADIR, em 2007:

“Segundo esta sondagem realizada pela Novadir, a campanha de sensibilização “O Cancro da Mama no Alvo da Moda” (promovida pela Associação Laço com o apoio da Roche e da Lanidor e envolvendo diversas figuras públicas) e a campanha “Sensibilização para Deixar de Fumar com Diogo Infante” (promovida pela Pfizer e Sociedade Portuguesa de Pneumologia), são claramente as mais recordadas, quer pela classe médica quer pela população.

A campanha “O Cancro da Mama no Alvo da Moda” é a mais recordada espontaneamente, obtendo um índice de recordação similar quer junto da população quer junto da classe médica (15%). Já a campanha “Sensibilização para Deixar de Fumar”, a 2ª campanha mais recordada, obtém um índice de recordação espontânea consideravelmente mais elevado junto da classe médica do que junto do público em geral (14% e 8%, respectivamente, recorda-se desta campanha).

A campanha “Passa a Palavra”, que visa sensibilizar a população em geral para o cancro do colo do útero (doença que vitima anualmente cerca de 15.000 mulheres na Europa e 378 mulheres em Portugal), também protagonizada por uma figura pública (Júlia Pinheiro) tem um nível de recordação espontânea de 8% junto dos médicos inquiridos, enquanto que este índice é de 4% para a população geral (…)

São várias as “figuras públicas” que no dia-a-dia “são a cara” de diversas campanhas de sensibilização social. De acordo com esta sondagem realizada junto da população, Júlia Pinheiro e Diogo Infante são as figuras públicas associadas a estas campanhas de maior notoriedade junto dos portugueses (17% e 16%, respectivamente). Já para a Classe Médica, são Diogo Infante e Rosa Mota as “figuras” mais recordadas.

Esta recordação das “figuras públicas” coexiste com uma “associação confusa” face às campanhas que protagonizam. Júlia Pinheiro, figura mais recordada pela população, obtém indices de “recordação confusa” muito elevados: 88% dos inquiridos que se recordam da participação da Júlia Pinheiro nestas campanhas associa, incorrectamente, a sua participação à campanha do “Cancro da mama no alvo da moda” e apenas 37% a associa correctamente à campanha que protagoniza – Passa a palavra (Cancro Cólo do útero).” (Marktest. O impacto das campanhas de sensibilização com figuras públicas: https://www.marktest.com/wap/a/n/id~f02.aspx).

02. Anunciante: National Advertising Benevolent Society (NABS). Título: This Job Can Break You If You Let It. Agência: Cossette. Direção: Esward Andrews. Canadá, outubro 2021.

Nas campanhas que convocam ídolos pode, portanto, ocorrer uma “confusão” entre a estrela e o estrelado, o embaixador e a embaixada. O público pode reter mais o Cristiano Ronaldo do que a marca Banco Espírito Santo; as bolachas que dançam o French Can Can do que a campanha This Job Can Break You If You Let It, da National Advertising Benevolent Society (NABS), do Canadá (anúncio 2).

03. Anunciante: Hop Hop Public Health. Título: Lil Sugar. Agència: Area 23/New York. Direção: Paulo Garcia. Estados-Unidos, outubro 2021.

Nem sempre a publicidade de carácter social envereda pela fantasia e pelo recurso a ídolos. Pode optar por se focar na realidade em causa: inundações em terra, plásticos no mar, crianças subnutridas, mulheres agredidas, náufragos no Mediterrâneo, vítimas da guerra, acidentes rodoviários, fumadores moribundos… A realidade substitui a fábula! Uma “realidade que nunca é “nua e crua”, mas sempre encenada, construída e trabalhada. Estamos perante um efeito de realidade!

04. Anunciante: Sandy Hook Promise. Título: Teenage Dream. Agência: BBDO New York. Direção: Henry-Alex Rubin. Estados-Unidos, setembro 2021.

Coloco quatro anúncios de sensibilização recentes. Nenhum vinculado à responsabilidade social das empresas. Apenas causas: os dois primeiros anúncios, de prevenção da saúde mental no trabalho (anúncio 2) e do açúcar disfarçado nos alimentos (anúncio 3), apostam no efeito fantasia; os últimos apostam no efeito de realidade alertando para as vítimas dos tiroteios nas escolas dos EUA (anúncio 4) e para a despistagem precoce do cancro da mama (anúncio 5).

05. Anunciante: Coppafeel!. Título: Know Yourself. Agência: Fold7. Direção: Jess Khol. Reino Unido, setembro 2021.

Alívio

Prunelax. Buried. 2021.

Os anúncios Casket (caixão) e Buried (sepultado), para o laxativo Prunelax, aproximam-se do cúmulo do grotesco. Um disgusto, duas piadas curtas a tresandar mau gosto. O tema, a disenteria, propicia-se. Num escasso minuto (2X30s), convocam os principais tópicos do rebaixamento, do “baixo material e corporal”:

Lugares rasteiros e de absorção – a terra, o túmulo, o caixão, o corpo, o nariz, o ventre e os pés;

Protagonistas – o cadáver, a velha, a coveira, o cego (defeituoso) e o animal (cão);

Fenómenos e práticas – diarreia, flatulência, pestilência, lambidela, exumação, queda, susto, pavor, alívio e riso.

Um dos traços mais caraterísticos do grotesco consiste no cotejo dos opostos. Neste caso, o enquadramento funciona como contraste: remete para símbolos valorizados pelo imaginário coletivo: a igreja, o sagrado religioso; a floresta, o santuário natural. Como diz o provérbio: “No melhor pano cai a nódoa”.

Obscuros, macabros e quase demoníacos, estes dois anúncios da Prunelax sugerem uma mudança na estratégia de marketing e publicidade. Uma inversão na imagem da marca. “Prunelax relaunches using ‘dark humour’ in disruptive new campaign” (Campaign Brief: https://campaignbrief.com/prunelax-relaunches-using-dark-humour-in-disruptive-new-campaign-via-five-by-five-global/ ). Meses antes, os anúncios evidenciavam-se leves, luminosos e quase angélicos (ver vídeos 3 e 4). Casket e Buried foram publicados nos meses de agosto e setembro; Say Goodnight To Constipation e Overnight Relief , em março e junho. A alusão a uma viragem estratégica resume-se a uma hipótese relativamente fundada. Carece, contudo, de mais informação. Existem leituras alternativas plausíveis. Por exemplo, os primeiros anúncios são de origem australiana, os segundos norte-americana, o que não é inócuo. As marcas podem adotar políticas de publicidade distintas consoante os momentos mas também as filiais e as agências. Convém desconfiar das causalidades únicas e lineares.

Marca: Prunelax. Título: Casket. Agência: Five by Five Global. Direção: Armand de Saint-Salvy. Austrália, agosto 2021.
Marca: Prunelax. Título: Buried. Agência: Five by Five Global. Direção: Armand de Saint-Salvy. Austrália, setembro 2021.
Marca: Prunelax. Título: Say Goodnight To Constipation (?). Estados-Unidos, junho 2021.
Título: Overnight Relief. Estados-Unidos, agosto 2021.

Super-homens paralímpicos

Manuel Mendes conquista a medalha de bronze na maratona, para deficientes motores, dos Jogos Paralímpicos Rio2016.

Na véspera da abertura dos Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020 (de 24 de agosto a 5 de setembro de 2021), estreou o anúncio We the 15, promovido pela International Paralympic Committee (IPC) e pela International Disability Alliance (IDA).

WeThe15 is sport’s biggest ever human rights movement to end discrimination. We aim to transform the lives of the world’s 1.2 billion persons with disabilities who represent 15% of the global population. Launching at the Tokyo 2020 Paralympic Games, We The15 plans to initiate change over the next decade by bringing together the biggest coalition ever of international organisations from the world of sport, human rights, policy, communications, business, arts and entertainment (We the 15: https://www.wethe15.org/).

O anúncio consiste numa série de sequências com performances de desportistas com deficiência. Acrescento os trailers Super. Human, divulgado um mês antes, e We’re The Superhumans, destinado aos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiros de 2016, ambos publicados pelo Channel 4, no mês de julho de 2021 e 2016, respetivamente. Partilhando, aproximadamente, o mesmo formato, os três vídeos são impressionantes. Relevo, em particular, o último, do Rio de Janeiro, pela aceleração vertiginosa das imagens.

International Paralympic Committee (IPC) & International Disability Alliance (IDA). We the 15. Agosto de 2021.
Anunciante: Channel 4. Super. Título;: Super. Human. Agência: 4Creative/London. Direção: Bradford Young. Reino Unido, Julho 2021.
Marca: Channel 4. Título: We’re The Superhumans. Agência: 4Creative/London. Direção: Dougal Wilson. Reino Unido. 2016.

Transcrevo, e recomendo, um excerto do livro Estigma, de Erving Goffman, editado em 1963, que propõe uma tipologia das estratégias, atitudes e comportamentos sociológicos e psicológicos dos estigmatizados, entre os quais os deficientes, face aos outros e a si próprios, que distingue este género de iniciativas, incluindo os presentes trailers. Erving Goffman consta entre os meus dez sociólogos preferidos.

Erving Goffman. Estigma, 1963; excerto do capítulo 1. Estigma e Identidade Social.

“A característica central da situação de vida, do indivíduo estigmatizado pode, agora, ser explicada. É uma questão do que é com freqüência, embora vagamente, chamado de “aceitação”. Aqueles que têm relações com ele não conseguem lhe dar o respeito e a consideração que os aspectos não contaminados de sua identidade social os haviam levado a prever e que ele havia previsto receber; ele faz eco a essa negativa descobrindo que alguns de seus atributos a garantem. Como a pessoa estigmatizada responde a tal situação? Em alguns casos lhe seria possível tentar corrigir diretamente o que considera a base objetiva de seu defeito, tal como quando uma pessoa fisicamente deformada se submete a uma cirurgia plástica, uma pessoa cega a um tratamento ocular, um analfabeto corrige sua educação e um homossexual faz psicoterapia. (Onde tal conserto é possível, o que freqüentemente ocorre não é a aquisição de um- status completamente normal, mas uma transformação do ego: alguém que tinha um defeito particular se transforma em alguém que tem provas de tê-lo corrigido.) Aqui, deve-se mencionar a predisposição à “vitimização” como um resultado da exposição da pessoa estigmatizada a servidores que vendem meios para corrigir a fala, para clarear a cor da pele, para esticar o corpo, para restaurar a juventude (como no rejuvenescimento através do tratamento com gema de ovo fertilizada), curas pela fé e meios para se obter fluência na conversação. Quer se trate de uma técnica prática ou de fraude, a pesquisa, freqüentemente secreta, dela resultante, revela, de maneira específica, os extremos a que os estigmatizados estão dispostos a chegar e, portanto, a angústia da situação que os leva a tais extremos. Pode-se citar um exemplo: “Mias Peck (uma assistente social de Nova York, pioneira de trabalhos em beneficio de pessoas com dificuldades auditivas) disse que outrora eram muitos os curandeiros e charlatães que, desejosos de enriquecer rapidamente, viam na Liga (para os que tinham dificuldades de audição) um frutífero campo de caça, ideal para promoção de gorros magnéticos, vibradores miraculosos, tímpanos artificiais, sopradores, inaladores, massageadores, óleos mágicos, 11 bálsamos e outros remédios que curam tudo, garantidos, positivos, à prova. de incêndio, e permanentes para a surdez incurável. Anúncios de tais artifícios (até a década de 20, quando a Associação Médica Americana decidiu promover uma campanha de investigação) atacavam os que tinham dificuldades de audição, pelas páginas da imprensa diária, inclusive revistas bem conceituadas.” O indivíduo estigmatizado pode, também, tentar corrigir a sua condição de maneira indireta, dedicando um grande esforço individual ao domínio de áreas de atividade consideradas, geralmente, como fechadas, por motivos físicos e circunstanciais, a pessoas com o seu defeito. Isso é ilustrado pelo aleijado que aprende ou reaprende a nadar, montar, jogar tênis ou pilotar aviões, ou pelo cego que se torna perito em esquiar ou em escalar montanhas. O aprendizado torturado pode estar associado, é claro, com o mau desempenho do que se aprendeu, como quando um indivíduo, confinado a uma cadeira de rodas, consegue levar uma jovem ao salão, numa espécie de arremedo de dança. Finalmente, a pessoa com um atributo diferencial vergonhoso pode romper com aquilo que é chamado de realidade, e tentar obstinadamente empregar uma interpretação não convencional do caráter de sua identidade social. A criatura estigmatizada usará, provavelmente, o seu estigma para “ganhos secundários”, como desculpa pelo fracasso a que chegou por outras razões: “Durante anos, a cicatriz, o lábio leporino ou o nariz disforme foram considerados como uma desvantagem, e sua importância nos ajustamentos social e emocional inconscientemente abarcava tudo. Essa desvantagem era o “cabide” no qual o paciente pendurava todas as insuficiências, todas as insatisfações, todas as protelações e todas as obrigações desagradáveis da vida social, e do qual veio a depender não somente como forma de libertação racional da competição mas ainda como forma de proteção contra a responsabilidade social. “Quando esse fator é removido por cirurgia, o paciente perde a proteção emocional mais ou menos aceitável que ele oferecia e logo descobre, para sua surpresa e inquietação, que a vida não é fácil de ser levada, mesmo pelas pessoas que têm rostos “comuns”, sem máculas. Ele está despreparado para lidar com essa situação sem o apoio de uma “desvantagem”, e pode-se voltar para a proteção menos simples, mas semelhante, de padrões de comportamento de neurastenia, conversão histérica, hipocondria ou estados de ansiedade 12 aguda.” O estigmatizado pode, também, ver as privações que sofreu como uma bênção secreta, especialmente devido à crença de que o sofrimento muito pode ensinar a uma pessoa sobre a vida e sobre as outras pessoas: “Mas agora, distante da experiência do hospital, posso avaliar o que aprendi. (Escreve uma mãe permanentemente inválida devido à poliomielite.) Porque aquilo não foi somente sofrimento: foi também um aprendizado através dele. Sei que a minha consciência das pessoas aumentou e se aprofundou, que todos os que estão perto de mim podem contar com minha mente, meu coração e minha atenção para os seus problemas. Eu não poderia ter descoberto isso correndo numa quadra de tênis.” De maneira semelhante, ele pode vir a reafirmar as limitações dos normais, como sugere um esclerático múltiplo: “Tanto as mentes quanto os corpos saudáveis podem estar aleijados. O fato de que pessoas “normais” possam andar, ver e ouvir não significa que elas estejam realmente vendo ou ouvindo. Elas podem estar completamente cegas para as coisas que estragam sua felicidade, totalmente surdas aos apelos de bondade de outras pessoas; quando penso nelas não me sinto mais aleijado ou incapacitado do que elas. Talvez, num certo sentido, eu possa ser um meio de abrir os seus olhos para as belezas que estão à nossa volta: coisas como um aperto de mão afetuoso, uma voz que está ansiosa por conforto, uma brisa de primavera, certa música, uma saudação amistosa. Essas pessoas são importantes para mim e eu gosto de sentir que posso ajudá-las.” E um cego escreve: “Isso levaria imediatamente a se pensar que há muitos acontecimentos que podem diminuir a satisfação de viver de maneira muito mais efetiva do que a cegueira. Esse pensamento é inteiramente saudável. Desse ponto de vista, podemos perceber, por exemplo, que um defeito como a incapacidade de aceitar amor humano, que pode diminuir o prazer de viver até quase esgotá-lo, é muito mais trágico do que a cegueira. Mas é pouco comum que o homem com tal doença chegue a aperceber[1]se dela e, portanto, a ter pena de si mesmo.” Escreve um aleijado: “À proporção que a vida continuava, eu soube de muitos, muitos tipos diferentes de desvantagens, não apenas físicas, e comecei a perceber que as palavras da garota aleijada no 13 excerto acima (palavras de amargura) bem poderiam ter sido pronunciadas por jovens mulheres que se sentiam inferiores e diferentes por sua feiúra, incapacidade de ter filhos, impossibilidade de relacionamento com outras pessoas, ou muitas outras razões.”

Erving Goffman, Estigma, 1963; excerto do capítulo 1. Estigma e Identidade Social. Tradução de Mathias Lambert. Versão brasileira. Sem espaços entre parágrafos).

Limiares do tempo

Luigi Russolo. A revolta. 1911 (futurismo)

A NOS lançou dois anúncios que convocam imaginários distintos: Estou Além (2019) e O Amanhã (2021). Esta diferença não é excecional. Não mais do que campanhas que mantêm, anos a fio, a mesma orientação: a Nike, a Hornbach, a Cartier, a Citroen, a Old Spice…

Saliento alguns tópicos característicos dos dois anúncios da NOS.

Primeiro, o anúncio Estou Além:

  • Desassossego;
  • Indivíduos unidos à distância numa rede tribal;
  • Pressa de chegar;
  • Valorização do presente;
  • Coro, comunhão;
  • António Variações.

O anúncio Estou Além aproxima-se de um imaginário pós-moderno com contornos dionisíacos.

Marca: NOS 5G. Título: Estou além. Produção: Ministério dos Filmes. Direção: Marco Martins. Portugal, novembro 2019.

O discurso do anúncio O Amanhã é eloquente e repetitivo:

“O que aí vem é uma página em branco (…) temos vontade de futuro (…) a ideia do amanhã faz-nos estremecer (…) faz-nos querer, e então abraçamos esta viagem e avançamos sem amarras, sem olhar para trás (…) Temos vontade de futuro, vontade de mudar o mundo (…) sem olhar para trás. E sempre que for preciso, podemos ir ao nosso fundo e relembrar: de que somos feitos? De coragem, liberdade e coração. Levamos na bagagem toda a inteligência, toda a ciência, toda a emoção. Da descoberta, da conquista, de navegar sem ver a terra à vista. O que aí vem é uma página em branco. E nós vamos escrevê-la. Com toda a nossa força, arte e engenho. Hoje, mais do que nunca. Temos vontade de futuro. De virar a página. De fazer, pela primeira vez, tudo o que ninguém fez”.

No anúncio O Amanhã, os protagonistas surgem isolados, longe da multidão turbulenta do final do anúncio Estou Além. O presente é uma página em branco. O ser humano aposta no futuro. Reúne competência e potência para concretizar os seus desígnios (coragem, liberdade, inteligência, força e engenho). Conquistador do amanhã, “faz, pela primeira vez, tudo o que ninguém fez”.
Este imaginário não é pós-moderno. Porventura, futurista (ver, em baixo, manifesto futurista de Marinetti). O herói do anúncio O Amanhã resulta prometeico, “caracterizado pelo desejo de se ultrapassar, pelo gosto do esforço e pelas grandes iniciativas, pela fé na grandeza humana” ((https://wish.brussels/forum/viewtopic.php/community/7a8c44-lille-aix-en-provence-avion?7a8c44=personnage-prom%C3%A9th%C3%A9en).

Marca: NOS. Título: O amanhã. Agência: Havas Different. Produção: Ministério dos Filmes. Direção: Marco Martins. Portugal, Abril 2021.

Manifesto do Futurismo ( Filippo Tommaso Marinetti, 1909)

  1. Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e da temeridade.
  2. A coragem, a audácia, a rebelião serão elementos essenciais de nossa poesia.
  3. A literatura exaltou até hoje a imobilidade pensativa, o êxtase, o sono. Nós queremos exaltar o
    movimento agressivo, a insônia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofetão e o soco.
  4. Nós afirmamos que a magnificência do mundo enriqueceu-se de uma beleza nova: a beleza da
    velocidade. Um automóvel de corrida com seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a
    serpentes de hálito explosivo… um automóvel rugidor, que correr sobre a metralha, é mais bonito que a
    Vitória de Samotrácia.
  5. Nós queremos entoar hinos ao homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra,
    lançada também numa corrida sobre o circuito da sua órbita.
  6. É preciso que o poeta prodigalize com ardor, fausto e munificiência, para aumentar o entusiástico
    fervor dos elementos primordiais.
  7. Não há mais beleza, a não ser na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser
    uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças desconhecidas,
    para obrigá-las a prostrar-se diante do homem.
  8. Nós estamos no promontório extremo dos séculos!… Por que haveríamos de olhar para trás, se
    queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Nós já
    estamos vivendo no absoluto, pois já criamos a eterna velocidade onipresente.
  9. Nós queremos glorificar a guerra – única higiene do mundo – o militarismo, o patriotismo, o gesto
    destruidor dos libertários, as belas ideias pelas quais se morre e o desprezo pela mulher.
  10. Nós queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academia de toda natureza, e combater o
    moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária.
  11. Nós cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação;
    cantaremos as marés multicores e polifônicas das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o
    vibrante fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas elétricas; as
    estações esganadas, devoradoras de serpentes que fumam; as oficinas penduradas às nuvens pelos fios
    contorcidos de suas fumaças; as pontes, semelhantes a ginastas gigantes que cavalgam os rios,
    faiscantes ao sol com um luzir de facas; os piróscafos aventurosos que farejam o horizonte, as
    locomotivas de largo peito, que pateiam sobre os trilhos, como enormes cavalos de aço enleados de
    carros; e o voo rasante dos aviões, cuja hélice freme ao vento, como uma bandeira, e parece aplaudir
    como uma multidão entusiasta.
  12. É da Itália, que nós lançamos pelo mundo este nosso manifesto de violência arrebatadora e
    incendiária, com o qual fundamos hoje o “Futurismo”, porque queremos libertar este país de sua fétida
    gangrena de professores, de arqueólogos, de cicerones e de antiquários.
  13. Já é tempo de a Itália deixar de ser um mercado de belchiores. Nós queremos libertá-la dos
    inúmeros museus que a cobrem toda de inúmeros cemitérios.
  14. Museus: cemitérios!… Idênticos, na verdade, pela sinistra promiscuidade de tantos corpos que não
    se conhecem. Museus: dormitórios públicos em que se descansa para sempre junto a seres odiados ou
    desconhecidos! Museus: absurdos matadouros de pintores e escultores, que se vão trucidando
    ferozmente a golpes de cores e linhas, ao longo das paredes disputadas!
  15. Que se vá lá em peregrinação, uma vez por ano, como se vai ao Cemitério no dia de finados… Passe.
    Que uma vez por ano se deponha uma homenagem de flores diante da Gioconda, concedo…
  16. Mas não admito que se levem passear, diariamente pelos museus, nossas tristezas, nossa frágil
    coragem, nossa inquietude doentia, mórbida. Para que se envenenar? Para que apodrecer?
  17. E o que mais se pode ver, num velho quadro, senão a fatigante contorção do artista que se esforçou
    para infrigir as insuperáveis barreiras opostas ao desejo de exprimir inteiramente seu sonho?… Admirar
    um quadro antigo equivale a despejar nossa sensibilidade numa urna funerária, no lugar de projetá-la
    longe, em violentos jatos de criação e de ação.
  18. Vocês querem, pois, desperdiçar todas as suas melhores forças nesta eterna e inútil admiração do
    passado, da qual vocês só podem sair fatalmente exaustos, diminuídos e pisados?
  19. Em verdade eu lhes declaro que a frequência diária aos museus, às bibliotecas e às academias
    (cemitérios de esforços vãos, calvários de sonhos crucificados, registro de arremessos truncados!…) é
    para os artistas tão prejudicial, quanto a tutela prolongada dos pais para certos jovens ébrios de
    engenho e de vontade ambiciosa. Para os moribundos, para os enfermos, para os prisioneiros, vá lá:- o
    admirável passado é, quiçá, um bálsamo para seus males, visto que para eles o porvir está trancado…
    Mas nós não queremos nada com o passado, nós, jovens e fortes futuristas!
  20. E venham, pois, os alegres incendiários de dedos carbonizados! Ei-los! Ei-los!… Vamos! Ateiem fogo
    às estantes das bibliotecas!… Desviem o curso dos canais, para inundar os museus!… Oh! a alegria de
    ver boiar à deriva, laceradas e desbotadas sobre aquelas águas, as velhas telas gloriosas!… Empunhem
    as picaretas, os machados, os martelos e destruam sem piedade as cidades veneradas!

Estética de género

Gustav Klimt. Retrato de Adele Bloch-Bauer. 1907.

A Dove preza a valorização estética das belezas menos belas (vídeo 1). Seria equilibrado incluir, nesta equação cosmética, os homens? Não são, a priori, elegíveis? O milagre é apenas feminino? Na verdade, existe uma linha masculina de produtos Dove. Numa amostra de cinquenta anúncios Dove, uma meia dúzia contempla homens. Quais são os tópicos? A notícia da gravidez (vídeo 2), a feminização da masculinidade (vídeo 3), um pintor de mulheres (vídeo 4), momentos paternos (vídeo 5)… Não há beleza masculina alternativa? A beleza dos “feios, porcos e maus”? O valor da beleza conjuga-se, sobretudo, no feminino. A igualdade é fatalmente desigual. Acontece-me ficar confuso: todas as mulheres são belas, umas mais que outras, mas aquelas que são menos belas são as mais belas de todas. A Dove não desconhece o poder da beleza, relativiza-o.

Marca: Dove. Título: It’ on Us. Agência: LOLA Mullen Lowe Madrid. Direção: Lourens Van Rensburg. Espanha, março 2021.
Marca: Dove. Título: First Fatherhood moments. Estados-Unidos, junho 2015.
Marca: Dove. Título: Slow. Agência: Ogilvy & Mather (Brasil). Direção: Carlão Busatto. Brasil, 2013.
Marca: Dove. Título: Real Beauty Sketches. Agência: Ogilvy (São Paulo). Direção: John x Carey. Brasil, 2013.
Marca: Dove. Título: Calls for dads. Estados-Unidos, 2014.

Chover no molhado

Former presidents, first ladies urge Americans to get shots in new Ad Council campaign. Mars 2021.

É tempo de mobilização para a vacina. No anúncio It’ up to you, da Ad Council, os “embaixadores” são presidentes. Os casais Clinton, Obama, Bush e Carter defendem o interesse da vacinação. Chover no molhado? Este é um assunto em que nunca choverá o suficiente.

Anunciante: Ad Council and and COVID Collaborative. Título: It’s up to you. Agência: SJR. Estados-Unidos, março 2021.

Perguntas impertinentes:

Por que aparecem presidentes em vez de médicos, cientistas ou epidemiologistas? São mais competentes no que respeita a vacinas?

Por que aparecem quatro presidentes em vez de um? Dizem praticamente o mesmo. Repetir  o mesmo argumento torna-o mais verdadeiro ou mais convincente?

Vilfredo Pareto aborda estas questões no Trattato di sociologia (1916).

Lagartos. As alterações climáticas

T-shirt. Aquecimento global.

“O lagarto andou à roda, à roda, à roda, até que abocanhou a cauda. Mordeu, mordeu, mordeu… Ficaram os dentes” (Albertino Gonçalves).

As alterações climáticas sentem-se, mas, por vezes, não se pensam; pensam-se, mas, por vezes, não se age. É a perspetiva dos seguintes anúncios:

  • The climate is changing, da Singapore’s national water, alerta para o cuidado a ter com a água.
  • Face à l’urgence climatique, les discours ne suffisent pas, do Greenpeace France, denuncia a inconsequência dos discursos (políticos).

As alterações climáticas são uma onda gigante que ameaça afundar-nos.

Anunciante: Singapore’s national water. Título: The climate is changing. Agência: Tribal Worldwide Singapore. Singapura, março 2021.
Anunciante: Greenpeace France. Face à l’urgence climatique, les discours ne suffisent pas. Agência: Strike. Direção: Strike & fix STUDIO. França, março 2020.

Solidão e indiferença

Gloria Friedmann. Les Contemporains. 2007

O modo como as galinhas colocam a cabeça quando prestam atenção não engana. Revelam uma capacidade de concentração superior à de muitos humanos. Dedico-lhes este artigo.

Gloria Friedmann. Le compteur du Temps. Dijon. 2020.

Multiplicam-se os anúncios relativos à vacinação. Alguns são esdrúxulos, outros singelos. O anúncio Parce qu’on rêve tous de se retrouver, do Ministère des Solidarités et de la Santé, de França, é bem concebido. Dispõe-se em três tempos: visita – reencontro – sonho. Cumpre à vacina tornar o sonho realidade. A canção Je reviens te chercher (1967), de Gilbert Bécaud, acompanha o anúncio. Uma bela canção. Mas prefiro, do mesmo cantor, L’Indifférence (1977). As vacinas podem combater a solidão, mas de pouco servem face à indiferença.

Anunciante: Ministère des Solidarités et de la Santé. Título: Parce qu’on rêve tous de se retrouver. Agência: MullenLowe Paris. Direção: Olivier Desmettre. França, Março 2021.
Gilbert Bécauid. L’INdifférence. 1977.

Espelho de aumento

Master of the Coronation of the Virgin. De mulieribus claris, Marcia, circa 1403.

“Não aprecio anúncios de promoção a categorias sociais. A discriminação positiva é discriminação”, de raça, etnia, nacionalidade, religião, política, profissão, estatuto, saúde, conhecimento, estética, desporto, idade e, neste caso, género. Por apreciáveis que sejam, não aprecio. Mas não censuro. Como escreve Norman Rush (2015), “a discriminação positiva é uma expressão curiosa. É a desigualdade ao serviço da igualdade” (Corps subtils, Paris: Rivages). Não é menos verdade que a sociedade não é uma folha de papel milimétrico onde se traçam riscos de boa vontade. A sociedade, incluindo o universo feminino, é rugosa, diferenciada e imprevisível. As dobras da desigualdade não são fáceis de engomar. O critério predominante de seleção de anúncios do Tendências do Imaginário não é o tema, o dilema ou a ideologia, mas a qualidade. O anúncio First of Many — Women’s History Month 2021, da Google, é excelente, ressuma qualidade, da primeira até à última imagem. Imagens de uma elite.

Marca: Google. Título: First of Many – Women’s History Month. Estados-Unidos, maio 2021.

Mulheres no poder

Posthumous painted portrait of Cleopatra VII of Egypt, from Herculaneum, Italy. 1st century AD.

A Maria Beatriz, pioneira da Sociologia em Portugal, partilhou este vídeo sobre o protagonismo político de mulheres. Por princípio, não aprecio publicidade promotora de uma categoria social. A discriminação positiva é discriminação. Mas, para além da massagem, o vídeo The women are coming proporciona uma aprendizagem. Não imaginava!

British Columbia Women’s Institute. Women are coming. Janeiro 2021.