Impossíveis conseguidos ou oportunidades desperdiçadas?

Para Ernst Bloch, a utopia remete para um futuro exequível com raízes no presente que justifica uma esperança mobilizadora. Algures, creio que no livro dedicado a Thomas Münzer, sustenta a seguinte convicção: se a história está repleta de impossíveis realizados, também o está de possíveis não concretizados. Volvidas algumas décadas, os 17 objetivos adotados em 2015 pelos Estados-Membros das Nações Unidas farão parte dos impossíveis conseguidos ou dos possíveis desperdiçados?
A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, adotada por todos os Estados-Membros das Nações Unidas em 2015, define as prioridades e aspirações do desenvolvimento sustentável global para 2030 e procura mobilizar esforços globais à volta de um conjunto de objetivos e metas comuns.
Criatividade e Inteligência Artificial

Se a campanha “Energy That Drives You On / Energia Que Te Impulsiona”, da Lexus, tivesse estreado um mês antes, teria certamente integrado o vídeo Anúncios que nos dão música.
Enquadrado num universo totalmente criado por inteligência artificial, o filme acompanha o veículo enquanto este se move com fluidez de paisagens serenas do campo para ruas dinâmicas da cidade. À medida que viaja, a sua presença desencadeia uma onda de energia contagiante que transforma o ambiente. A arquitetura altera-se subtilmente. A luz reage. Flores desabrocham em parques urbanos. Peixes cintilam na superfície dos rios. Luzes ramificadas espalham-se pelas florestas. O mundo parece energizado pela própria experiência do utilizador (UX), uma metáfora visual para desempenho elétrico e propulsão emocional.
O filme culmina quando o UX chega a uma estação de carregamento ao ar livre ao pôr do sol. Em um momento silencioso e de expectativa, a narrativa pausa, sugerindo que a próxima aventura já está à espera de recomeçar — reforçando a ideia central da campanha: energia não é apenas poder, é possibilidade. (…)
Jakob Mark, Diretor Criativo da AKQA, acrescentou: “Esta campanha demonstra o que é possível quando o trabalho artesanal e a IA são projetados para funcionar como um único sistema. O Virtual Studio nos permitiu construir um mundo imersivo onde cada quadro responde à energia do veículo. Não se trata de substituir a criatividade, mas sim de expandir o que ela pode fazer. Para a Lexus, isso significou proporcionar profundidade emocional, precisão e qualidade cinematográfica numa nova escala.” (Ads of the World, Lexus – Built for Every Kind of Wonder. Consultado em 03.04.2026).
Telemóvel e acidentes nas passadeiras
Entre 2018 e 2022, cerca de 25 000 peões foram atropelados em Portugal nesse período; dos quais aproximadamente 43 % aconteceram em passadeiras. Nesse mesmo período registaram-se 527 mortes de peões em atropelamentos (…) 3 578 atropelamentos de peões foram registados em 2025, um número 258 superior ao de 2024. Apesar desse aumento de atropelamentos totais, o número de feridos graves e de mortes diminuíram em comparação com 2024 (…) Estudos e reportagens baseados em dados da ANSR indicam que Portugal tem uma das mais altas taxas de atropelamentos de peões na Europa Ocidental, muitas vezes em passadeiras. (ChatGPT, 01.04.2026).
A assobiar para a frente
Transeuntes, trabalhadores, palhaços, espantalhos ou esqueletos, para onde vamos a assobiar para a frente? Quem é o flautista?
Cultivar o futuro

Existem várias formas de cultivar, ou conquistar, mundos, sem que as sementes sejam fatalmente armas. A campanha equatoriana “Almax Mandarín” avança o seguinte provérbio: “O melhor momento para plantar uma árvore foi há 20 anos. O segundo melhor momento é agora”. Falta acrescentar que para que as árvores cresçam não basta terra, luz e água; são cada vez mais imprescindíveis bombeiros.
Garnier Ecuador creó para Minutocorp, en el marco del Año Nuevo Chino, la campaña ‘Almax Mandarín’, una propuesta artística que conecta con el sector de empresarios chinos que hoy representan el 77% de las importaciones en Ecuador.
Alterações climáticas. Hipocrisia
Eis um anúncio da Greenpeace deveras oportuno. Em diversos tempos e escalas. Por cá e alhures.
A Eni, uma das maiores empresas de petróleo e gás do mundo, está a utilizar os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno para maquilhar a sua destruição provocada pelos combustíveis fósseis.
Não se pode proteger os desportos de Inverno enquanto um dos maiores patrocinadores dos Jogos estiver a alimentar a crise climática.
Os poluidores não devem subir ao pódio nos Jogos. É tempo de o Comité Olímpico Internacional abandonar o patrocínio do petróleo e do gás.
A beleza masculina na publicidade
A beleza física não é apenas um atributo do gineceu, mas também do androceu, bem como do andrógeno. A publicidade que o diga! Entre muitos outros, o anúncio “Novo Malbec Black Legend | Uma lenda sempre reconhece a outra”, da marca O Boticário, revela-se um excelente exemplo.

Beleza masculina para um produto destinado a homens?! Não é de estranhar. Ocorre o mesmo com os outros géneros. Por exemplo, belezas femininas para produtos destinados a mulheres. Homossexualidade? Nem por isso… Provavelmente, está em jogo um desígnio de projeção e, se possível, de imersão ou envolvimento Quer-se o eu a reconhecer-se, senão sentir-se, no outro.
Subsiste, porém, uma leitura alternativa, não incompatível. Algures, não sei onde, nem quando, mas há quase duas décadas, escrevi o seguinte:
Vários estudos sustentam que a maior parte das compras não se destinam ao próprio, mas a outros. Acresce que quando uma pessoa decide uma compra convoca, frequentemente, o olhar, o gosto e o interesse, de outrem. O ato de comprar encerra, assim, uma componente sacrificial. Quando alguém compra, entrega-se. A compra é uma dádiva de si, que se agudiza nos picos convencionais de generosidade como o Natal. Os anúncios prestam-se a dar uma mão!” (Compra sacrificial).
Comprador e consumidor nem sempre coincidem. Aliás, mesmo quando se compra para si pode ocorrer influência alheia, o dito espelho dos “outros significativos”. O público alvo dos anúncios pode resultar menos quem usa e mais quem interfere na escolha. Se for, por exemplo, a companheira, um toque atraente de masculinidade pode fazer a diferença.
Em termos de género, a publicidade a cosméticos e produtos de beleza tende a ser, não unívoca nem unissexo, mas multidirecional ou ambivalente.
AlmapBBDO, São Paulo. Brasil, janeiro 2026
Este anúncio é sedução pura. Com imagens surpreendentes, a imersão é fatal, inevitável. Confesso que não sabia quem ele era [o ex-jogador de futebol brasileiro Kaká], mas não importou. Mas para o homem que gosta de desporto, importa! É uma mescla de 007 com o homem comum, e ainda assim, extraordinário!
Um anúncio fantástico!
E se restar qualquer dúvida, eu fiquei seduzida. Sim, compraria para alguém.
(Almerinda Van Der Giezen, 15.02.2026)
A Lógica da Batata
No anúncio “Pringleleo / Love at first bite”, da Pringles, as batatas fritas são mais desejáveis do que uma mulher bonita, carente de algo mais atraente do que rapazes. A tentação da batata supera a da maçã.
Refúgio da atrocidade
Quando se procura acontece encontrar-se, eventualmente, o que não se espera e nos choca. Para acompanhar o anúncio “Member of the British Empire”, da The Respite Association, é preciso ter “coração, cabeça e estômago”.
Ser IA ou não ser IA, eis a questão

Mostram-se imagens de paisagens da Islândia a londrinos; são unânimes a considerá-las falsas, geradas pela IA. Apresentam-se a islandeses como falsas; indignam-se, reconhecendo-as. Reside nesta propensão a maior ameaça da IA: menos a tomar o falso como verdadeiro e mais o verdadeiro como falso.
