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Mais vida

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Aquarius. Nos morimos por vivir.

Morremos para viver? A tradução adequada do espanhol “nos morimos por vivir” talvez seja “estamos mortos por viver”. “Nos morimos por vivir” é um anúncio de sensibilização da Coca-Cola Journey España para a marca Aquarius. Incide sobre a doação de órgãos em Espanha, “o primeiro país do mundo em doação de órgãos”. Aposta na vitalidade e na jovialidade coroadas por um gesto que renova a vida: a doação de órgãos, a passagem da chama. Este anúncio, na linha de outros congéneres, suscita uma questão inconveniente mas difícil de contornar: por que motivo a qualidade e a criatividade das campanhas de sensibilização governamentais e de organizações não governamentais (ONG) tendem a ficar aquém das campanhas de sensibilização lançadas por entidades privadas? Por que é que umas conseguem fazer dois em um (sensibilizar e cativar para a marca) quando outras nem um conseguem alcançar (sensibilizar)?

Marca: Aquarius. Título: Nos morimos por vivir. Agência: McCann. Espanha, Janeiro de 2017.

Deflorestação

sos-mata-atlanticaEstou constipado. Os franceses distinguem vários tipos de constipação, um deles é a constipação do cérebro (rhume de cerveau). Creio que me calhou essa! As ideias saem nasaladas. Por precaução, vou escrever o mínimo.

O Brasil é uma potência ao nível da publicidade. Gosto destes dois anúncios de sensibilização contra o abate de árvores. Dirigidos por Sérgio Amon, são minimalistas, inteligentes e incisivos. A propósito, ainda há árvores de Natal que são pinheiros?

Marca: Jovem Pan FM. Título: Tree. Agência: AlmapBBDO. Direcção: Sérgio Amon. Brasil, 1998.

Anunciante: Fundação SOS Mata Atlântica. Título: People. Agência: F Nazca S&S. Direcção: Sérgio Amon. Brasil, 2002

A morte entre as mãos de uma criança

brady-campaignA publicidade tem picos temáticos, tais como os jogos olímpicos ou o campeonato do mundo de futebol. Acrescente-se o Halloween. Semanas antes, em Outubro, disparam os anúncios alusivos a mortos ou, eventualmente, à morte. O estilo vai do humor, amiúde negro, à sátira, passando pela paródia e pela ironia.

O anúncio Toddlers Kill, da Brady Campaign to Prevent Gun Violence, não é um rebento do Halloween, mas é sinistro, satírico e irónico, substituindo, num registo jornalístico, o slogan clássico “Guns don’t kill people, people do” por um novo slogan, absurdo: “Guns dont’kill people. Toddlers kill people”.

Anunciante: The Brady Campaign to Prevent Gun Violence. Título: Toddlers Kill. Agência: McCann Erickson (New York). Estados Unidos, Outubro 2016.

Rosa

issue-cancroGosto de anúncios apostados na vida. Dispenso arautos da morte alheia. Neste Outubro, Mês Internacional de Luta conta o Cancro da Mama, a empresa Issue e a ONG FUCA juntam-se num gesto de solidariedade.

La marca de coloración para el pelo Issue presenta una campaña realizada en colaboración con la ONG de lucha contra el cáncer FUCA. Tiñamos Octubre de Rosa invita a la gente a teñirse un mechón de su pelo de color rosa y compartir una selfie en redes sociales con el hashtag #ISSUEyFUCAdeRosa. Por cada foto publicada Issue hará una donación a la entidad. Para promocionar esta iniciativa se realizó un spot protagonizado por mujeres que sobrevivieron al cáncer, donde la premisa es que el pelo más hermoso es aquel que sobrevive a esa enfermedad. El spot fue dirigido por Maureen Hufnagel para Hachiko Films (http://www.adlatina.com/publicidad/%E2%80%9Cti%C3%B1amos-octubre-de-rosa%E2%80%9D-preestreno-de-issue-y-fuca).

Anunciante: Issue Group. Título: Tíñamos octubre de rosa. Produção: Hachiko Films.  Direcção: Maureen Hufnage. Argentina

 

 

Fábricas de exterminação

Em 2006, o Ministério da Saúde francês e o INPES lançaram o anúncio The Factory, que apresenta uma fábrica de cadáveres dizimados pelo fumo dos cigarros. A associação de ideias é uma forma selvagem de pensamento. Esta fábrica de cadáveres do tabaco lembra outras “fábricas” exterminadoras: a peste negra; as guerras napoleónicas; a Primeira Guerra Mundial; a pneumónica; os campos de concentração nazis e soviéticos. Ao nível da ficção, também abundam os exemplos. Retenho o vídeo musical We Don’t Need No Education, dos Pink Floyd. Neste tipo de anúncios, pessoas parecem não retratar pessoas mas pré-cadáveres. Sobra uma estranha forma de humor. Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

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Marca: Ministère de la Santé & INPES. Título: The Factory. Agência: FCB (Paris). Direcção: Stephan Prehn. França, 2006.

O próximo anúncio é diferente. É feito por pessoas para pessoas, sendo provável um fumador reconhecer-se nas situações focadas. Integram, empaticamente, a sua experiência quotidiana. Reconforta uma pessoa sentir-se gente, não ser convidado a olhar para um anúncio com os pés na cova, eventualmente, com uma ponta de humor sinistro.

Marca: Ministère de la Santé, INPes, Tabac Info Service, França, 2012.

Distração Fatal

att-the-unseenThe Unseen, da AT&T, é um anúncio de prevenção rodoviária. Especial. Alerta sobre os riscos decorrentes de usos abusivos dos próprios produtos: atender ao telemóvel ou escrever mensagens enquanto se conduz. Não é a primeira vez que a AT&T recorre a este esquema (ver Close to Home, It Can Wait, 2015). É uma opção em expansão. Estamos perante uma nova modalidade, engenhosa, de publicidade de consciencialização.

O anúncio é primoroso. Os contextos, os protagonistas e os comportamentos são gizados e caracterizados ao mais ínfimo pormenor. Normais, as pessoas são encantadoras. O pai leva as filhas à escola. A mãe dá pela falta do cão. Liga ao marido. Este não atende, “it can wait”. Estaciona o carro para falar. Um rapaz “aparece” no banco de trás. Conversam. O rapaz desaparece. “Só”, o pai atende o telemóvel enquanto conduz. Atropela uma criança, aquela que lhe tinha aparecido no carro. “ You’re never alone on the road”. “Distracted Driving is never OK”. A aparição da vítima releva de uma espécie de premonição. Constitui o momento fulcral do anúncio. A premonição, crença arreigada na nossa história e na nossa cultura, não funcionou como aviso mas como prenúncio de morte. Em suma, um anúncio com impacto.

Marca: AT&T. Título: The Unseen. Agência: BBDO New York. Direcção: Frederic Planchon. USA, Setembro 2016.

Preparar a morte

 

Gustave Klimt. A Morte e a Vida. 1915

Gustave Klimt. A Morte e a Vida. 1915

Le go est le jeu du mensonge.On encercle l’ennemi de chimères pour cette seule vérité qu’est la mort (Shan Sa, La Joueuse de go, Paris, Folio, 2001, p. 294).

Há quem prepare a morte, a “única certeza”! Mas a morte é uma certeza incerta. Sabemos que morremos, mas não sabemos nem quando, nem como. Preparar a morte é cuidar da vida.

No Smoking Campaign: Sunny Leone é um anúncio da World Health Organization. Sou alérgico a anúncios anti tabaco, mas simpatizo com este. Original, criativo, agradável. É extenso, mas passa depressa. O argumento é pedagógico: se fumas, não fornicas! Se fumasses menos, conhecias o paraíso antes de morrer. Trocaste Eva por uma beata. Até o último pedido se esfumou. O moribundo não preparou a morte. Não programou a vida para a morte. Um cigarro a mais, onze minutos de vida a menos, segundo a suposta sabedoria da ciência de serviço. Mais fumo, menos vida e menos sexo. Um anúncio contundente!

O anúncio está falado em hindi. Para uma versão com legendas em francês, pode aceder ao seguinte endereço: http://www.culturepub.fr/videos/world-health-organization-anti-tabac-11-minutes/.

Anunciante: World Health Organization. Título: No Smoking Campaign: Sunny Leone. Direcção: Vibhu Puri. Índia, 2016.

 

O capital apostólico

Coke unlabeled cans comboNo que respeita à publicidade, a Coca-Cola costuma esmerar-se. A campanha da Coca-Cola Middle East não desmerece. Somos filhos de Maio e herdeiros dos profetas. Abraçamos causas. Para a Coca-Cola, é ponto assente. Os anúncios de consciência e salvação estão em voga. Tecnicamente apurados e subtilmente pedagógicos, ensinam-nos, por exemplo, que a visão é o sentido decisivo na discriminação. Apagam-se as luzes e logo se apagam o racismo, a xenofobia e o preconceito. Há quem discorde. Georg Simmel advoga que é o cheiro, e não a visão, “o sentido desagregador ou anti-social por excelência” (Georg Simmel, Sociologie des sens, 1912). Este anúncio da Coca-Cola é um filme. Um simulacro de uma performance, de uma experiência ou de um “apanhado”. “Labels and designs are only for cans not for people”. Dado o mote, estamos confrontados com um novo tipo de capital: o capital apostólico. Este tipo de anúncio é mais fácil de comentar do que de criticar. A empresa faz o que lhe interessa com os recursos de que dispõe. O anúncio surpreende, envolve e agrada. Não é sobranceiro, categórico, acusador, descompensador, nem previsível, como é o caso de parte da publicidade de sensibilização paga pelos contribuintes.

Marca: Coca-Cola Middle East. Título: Remove Labels this Ramadan.  Agência: Memac Ogilvy Dubai. Middle East, Julho 2016.

Aproveito para adicionar um anúncio que a Amnistia Internacional lançou há dias. Denuncia a violência policial no Brasil por altura dos Jogos Olímpicos.

Marca: Amnesty International. Título: The police are breaking records in Rio. Agência: Ogilvy & Matter (Amsterdam). Internacional, Julho de 2016.

Fogo e chuva

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Com a indignidade no bolso.

Ando, há alguns dias, com a indignidade no bolso. Artes da besta civilizacional. Uma cruzada dos Fdp: Filhos do poder! Sugam o dinheiro e devolvem o asco. Alguém ensine a diferença entre razão técnica e razão política. Sempre que os homens as confundiram, o mundo entrou em colapso.

Quando a estupidez redentora me aflige, recorro à música. No cantinho dos discos de vinil, três álbuns do James Taylor. Escolho duas canções:  You’ve Got A Friend, ao vivo, e Sweet Baby James, ambas do álbum Sweet Baby James (1970).

James Taylor. You’ve Got a Friend. Sweet Baby James. 1970. Ao vivo, em 2009, quase quarenta anos após a primeira edição.

James Taylor. Sweet Baby James. Sweet Baby James. 1970.

Ilusão sobre rodas

“A vida não é excogitação da moral: ela quer ilusão, vive da ilusão” (Friedrich Nietzsche, Humano, Demasiado Humano, 1886)

Há imagens reais graças à imaginação. A ilusão no anúncio da Nur Die não é bem uma ilusão. É imediatamente decifrável. A ilusão radica no modo como é fabricada. Neste caso, mais relevante do que a ilusão, é a maneira de a produzir. Ao jeito dos quadros de Arcimboldo. Distintas são as ilusões propostas por Escher. Mergulham-nos  em mundos impossíveis sensorialmente plausíveis. Para aceder ao anúncio, carregue na imagem.

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Marca: Nur Die. Título: The look of love. Agência: Jung von Matt. Alemanha, 2000.