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Fazer política por outros meios

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« Todas as análises políticas, económicas e climáticas tendem a revelar que a terra gira no sentido do inferno” (Marc Lévy, 2004, Sept Jours pour une éternité, Paris, Robert Laffont, p. 19).

Os três candidatos às eleições presidenciais francesas com mais intenções de voto nas sondagens são alvo de suspeitas e acusações:

« Marine le Pen, presidente do Front Nacional, é indigitada em três casos politico-financeiros: os assistentes europeus, o financiamento das campanhas e a subavaliação do seu património” (http://www.lemonde.fr/les-decodeurs/article/2017/02/02/les-trois-affaires-qui-menacent-marine-le-pen-et-le-front-national_5073473_4355770.html).

“M. Macron é suspeito de ter utilizado os recursos do ministério da economia para preparar a sua candidatura à eleição presidencial no início do ano 2016 (…) Estas alegações fundamentam-se em informações fornecidas pelos jornalistas Marion L’Hour e Frédéric Says. No seu livro Dans l’enfer de Bercy (JC Lattès), lançado no dia 25 de Janeiro de 2017, afirmam que o ministro da economia “utilizou, para si, 80% do pacote anual das despesas de representação atribuídas ao seu ministério”  (pelo menos 120 000 dos 150 000 euros) antes da sua demissão do governo no dia 30 de Agosto de 2016” (http://www.lemonde.fr/les-decodeurs/article/2017/02/03/emmanuel-macron-peut-il-etre-inquiete-dans-l-affaire-des-frais-de-bouche_5074081_4355770.html).

François Fillon é suspeito de “desvio de fundos públicos, abuso de bens sociais, tráfico de influências… Não obstante as suas explicações, o candidato dos Republicanos não dissipou as zonas de sombra (…) O candidato dos Republicanos para as eleições presidenciais (…) foi duramente atingido pelas acusações de emprego fictício da mulher, publicadas no dia 25 de Janeiro pelo jornal Le Canard enchaîné” (http://www.lemonde.fr/les-decodeurs/article/2017/02/01/les-affaires-fillon-pour-ceux-qui-n-ont-rien-suivi_5072939_4355770.html#3oFpFBru0DQsHsZg.99).

Nos três casos, os acusadores são jornalistas, com destaque para o jornal Le Canard enchaîné. Sob suspeita, os candidatos não serão provavelmente julgados antes das eleições. O povo francês descobre-se refém desta justiça oportunista: a acusação é formulada em período eleitoral ou pré-eleitoral.

Entretanto, segundo uma sondagem recente (Odoxa, 1 e 2 de março), Emmanuel Macron tem 27% de intenções de voto, Marine le Pen, 25,5% e François Fillon, 19%. Os três somam 71,5% das intenções de voto.

Face a este cenário, sinto-me numa situação de duplo vínculo, desafiado a fazer surf num pântano. Como o burro de Burídan, não sei para que lado me virar. Os políticos desonestos devem ser denunciados, com direito a julgamento segundo as normas e os princípios do direito. Os jornalistas não são juízes nem procuradores. Serão, quando muito, testemunhas. Quanto ao povo, não é jornalista, nem juiz, nem procurador.

Este cenário é uma mixórdia infestante. Na presente conjuntura jornalístico-jurídico-política, tudo parece misturar-se, tudo parece apodrecer. A propensão para amalgamar política, justiça, jornalismo, moral e ciência tem-se revelado uma ameaça tóxica para a democracia. Os exemplos não datam de agora. Acodem à memória o período de Terror da Revolução Francesa, a Rússia de Estaline ou a Alemanha de Hitler. Bem como os regimes das figuras de Estado constantes no anúncio Candel, da Amnistia Internacional. Exemplos não faltam!

As eleições são políticas e assim devem continuar. Os candidatos são políticos, não são santos. Nunca votei em santos! Se quiser devotar, devoto-me a Santa Maria Madalena, a penitente. Duvido que os políticos que mais aprecio tenham lugar cativo no céu. “Quem dentre vós não tiver pecado, que atire a primeira pedra'” (João: 8.1-11). Em política, não temo as prostitutas, temo os atiradores de pedras. Desde Adão, somos feitos de um barro que é propenso a defeitos. Basta escarafunchar para encontrar ruindade. Não me dêem políticos desonestos, não me dêem instituições fáceis de abusar, não me dêem paladinos do bem! Dêem-me o que não tenho! E não soprem tanto na vela da democracia.

Anunciante: Amnesty International. Título: Candle. Agência: TBWA (Paris). França, 2005.

Sob suspeita

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Jean-Jacques Rousseau

Prefiro ser um homem de paradoxos que um homem de preconceitos (Jean-Jacques Rousseau [1762], Émile, La Pléiade, IV, pág. 323).

Um anúncio de consciencialização que incide, sem eufemismos nem artifícios, num problema específico é uma dádiva rara. Que obstáculos enfrenta uma pessoa, nomeadamente uma mulher, que pretende retomar a actividade profissional? A “campanha contra os preconceitos” da associação Tissons la Solidarité encena um diálogo desigual entre uma mulher à procura de emprego e o responsável pelos recursos humanos da empresa, que sabe o que quer. Não quer, por exemplo, contratar quem interrompeu a carreira profissional. Pelos vistos, é mau sinal, sinal de dúvida acerca da motivação da candidata. Findo o crivo, resta à candidata agradecer a mortificação do eu a que foi submetida. O disparate não reside nos preconceitos do responsável pelos recursos humanos. Este é apenas um intérprete da política laboral desta e de outras empresas. Explícito, este anúncio não é hiper-real. Mas é duro. Consciencializar não é ameaçar, mas enquadrar e esclarecer. O preconceito, o estigma e a injustiça no trabalho amesquinham a nossa cidadania.

Anunciante: Tissons la Solidarité. Título: Entretien avec Mathilda May. Agência : Publicis Conseil. Direcção : Jérome Bonnel. França, Fevereiro 2017.

 

Era uma vez a morte

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William Blake. Death on a pale horse, c 1800.

Às vezes, as ideias nascem por cesariana. Há quem sonhe com a própria morte. Vejo-me tão trespassado que até me custa acordar. Mas os oráculos garantem que é bom sinal: “Sonhar com a própria morte tem um significado positivo por isso não se preocupe e fique com medo, pois, sonhar com morte é sinal de prosperidade e saúde, vida longa, é sinal de que algum acontecimento grande poderá acontecer em sua vida” (http://significadodossonhosonline.net/significado-dos-sonhos-com-morte.html). Pior do que sonhar com a própria morte é viver a própria morte. É o que sucede com o simulacro do anúncio Your Funeral do Institut Belge pour la Sécurité Routière: arautos fúnebres e almas atónitas. Uma emoção do outro mundo.

Quando andava na escola primária alguns professores gritavam tão alto que nem se ouvia o sino. Além da acústica, preponderava a mecânica pedagógica: palmatória, régua, cana. Há quem sustente que o melhor método para inculcar uma ideia a alguém é bater-lhe com a cabeça na parede. Chama-se a esta forma de sensibilização propedêutica de choque. Não sei a que propósito vem este arrazoado. Há quem tenha falhas de pensamento e há quem tenha excessos. No meu caso, tenho fumarolas vulcânicas.

O anúncio Insoutenable, da Sécurité Routière francesa, faz jus ao título. Uma história bem contada de um acidente rodoviário, talhada para um voyeurismo abutre. Mikhail Bakhtin falava em realismo grotesco. Insoutenable releva de um hiper-realismo grotesco, no sentido de Wolfgang Kayser. Provoca náuseas. A cabeça contra a parede! Não sei se este género de anúncio é um novo tipo de vacina. De qualquer modo, Insoutenable conquistou um Leão de Ouro no Festival Internacional de la Créativité de Cannes, categoria Cyber, em 2011. Não será má ideia levar o gosto à revisão.

Portugal desenvolveu uma modalidade de prevenção rodoviária original: a prevenção rodoviária musicada. Escute-se a canção Vem Devagar Emigrante, de Graciano Saga.

Anunciante: Institut Belge pour la Sécurité Routière. Título: Enterrement. Agência: 20something Annonceur. Bélgica, Abril 2014.

Anunciante: Sécurité Routière. Título: Insoutenable. Agência: Lowe. França, 2010.

Graciano Saga. Vem Devagar Emigrante. 1994.

Mais vida

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Aquarius. Nos morimos por vivir.

Morremos para viver? A tradução adequada do espanhol “nos morimos por vivir” talvez seja “estamos mortos por viver”. “Nos morimos por vivir” é um anúncio de sensibilização da Coca-Cola Journey España para a marca Aquarius. Incide sobre a doação de órgãos em Espanha, “o primeiro país do mundo em doação de órgãos”. Aposta na vitalidade e na jovialidade coroadas por um gesto que renova a vida: a doação de órgãos, a passagem da chama. Este anúncio, na linha de outros congéneres, suscita uma questão inconveniente mas difícil de contornar: por que motivo a qualidade e a criatividade das campanhas de sensibilização governamentais e de organizações não governamentais (ONG) tendem a ficar aquém das campanhas de sensibilização lançadas por entidades privadas? Por que é que umas conseguem fazer dois em um (sensibilizar e cativar para a marca) quando outras nem um conseguem alcançar (sensibilizar)?

Marca: Aquarius. Título: Nos morimos por vivir. Agência: McCann. Espanha, Janeiro de 2017.

Deflorestação

sos-mata-atlanticaEstou constipado. Os franceses distinguem vários tipos de constipação, um deles é a constipação do cérebro (rhume de cerveau). Creio que me calhou essa! As ideias saem nasaladas. Por precaução, vou escrever o mínimo.

O Brasil é uma potência ao nível da publicidade. Gosto destes dois anúncios de sensibilização contra o abate de árvores. Dirigidos por Sérgio Amon, são minimalistas, inteligentes e incisivos. A propósito, ainda há árvores de Natal que são pinheiros?

Marca: Jovem Pan FM. Título: Tree. Agência: AlmapBBDO. Direcção: Sérgio Amon. Brasil, 1998.

Anunciante: Fundação SOS Mata Atlântica. Título: People. Agência: F Nazca S&S. Direcção: Sérgio Amon. Brasil, 2002

A morte entre as mãos de uma criança

brady-campaignA publicidade tem picos temáticos, tais como os jogos olímpicos ou o campeonato do mundo de futebol. Acrescente-se o Halloween. Semanas antes, em Outubro, disparam os anúncios alusivos a mortos ou, eventualmente, à morte. O estilo vai do humor, amiúde negro, à sátira, passando pela paródia e pela ironia.

O anúncio Toddlers Kill, da Brady Campaign to Prevent Gun Violence, não é um rebento do Halloween, mas é sinistro, satírico e irónico, substituindo, num registo jornalístico, o slogan clássico “Guns don’t kill people, people do” por um novo slogan, absurdo: “Guns dont’kill people. Toddlers kill people”.

Anunciante: The Brady Campaign to Prevent Gun Violence. Título: Toddlers Kill. Agência: McCann Erickson (New York). Estados Unidos, Outubro 2016.

Rosa

issue-cancroGosto de anúncios apostados na vida. Dispenso arautos da morte alheia. Neste Outubro, Mês Internacional de Luta conta o Cancro da Mama, a empresa Issue e a ONG FUCA juntam-se num gesto de solidariedade.

La marca de coloración para el pelo Issue presenta una campaña realizada en colaboración con la ONG de lucha contra el cáncer FUCA. Tiñamos Octubre de Rosa invita a la gente a teñirse un mechón de su pelo de color rosa y compartir una selfie en redes sociales con el hashtag #ISSUEyFUCAdeRosa. Por cada foto publicada Issue hará una donación a la entidad. Para promocionar esta iniciativa se realizó un spot protagonizado por mujeres que sobrevivieron al cáncer, donde la premisa es que el pelo más hermoso es aquel que sobrevive a esa enfermedad. El spot fue dirigido por Maureen Hufnagel para Hachiko Films (http://www.adlatina.com/publicidad/%E2%80%9Cti%C3%B1amos-octubre-de-rosa%E2%80%9D-preestreno-de-issue-y-fuca).

Anunciante: Issue Group. Título: Tíñamos octubre de rosa. Produção: Hachiko Films.  Direcção: Maureen Hufnage. Argentina

 

 

Fábricas de exterminação

Em 2006, o Ministério da Saúde francês e o INPES lançaram o anúncio The Factory, que apresenta uma fábrica de cadáveres dizimados pelo fumo dos cigarros. A associação de ideias é uma forma selvagem de pensamento. Esta fábrica de cadáveres do tabaco lembra outras “fábricas” exterminadoras: a peste negra; as guerras napoleónicas; a Primeira Guerra Mundial; a pneumónica; os campos de concentração nazis e soviéticos. Ao nível da ficção, também abundam os exemplos. Retenho o vídeo musical We Don’t Need No Education, dos Pink Floyd. Neste tipo de anúncios, pessoas parecem não retratar pessoas mas pré-cadáveres. Sobra uma estranha forma de humor. Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

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Marca: Ministère de la Santé & INPES. Título: The Factory. Agência: FCB (Paris). Direcção: Stephan Prehn. França, 2006.

O próximo anúncio é diferente. É feito por pessoas para pessoas, sendo provável um fumador reconhecer-se nas situações focadas. Integram, empaticamente, a sua experiência quotidiana. Reconforta uma pessoa sentir-se gente, não ser convidado a olhar para um anúncio com os pés na cova, eventualmente, com uma ponta de humor sinistro.

Marca: Ministère de la Santé, INPes, Tabac Info Service, França, 2012.

Distração Fatal

att-the-unseenThe Unseen, da AT&T, é um anúncio de prevenção rodoviária. Especial. Alerta sobre os riscos decorrentes de usos abusivos dos próprios produtos: atender ao telemóvel ou escrever mensagens enquanto se conduz. Não é a primeira vez que a AT&T recorre a este esquema (ver Close to Home, It Can Wait, 2015). É uma opção em expansão. Estamos perante uma nova modalidade, engenhosa, de publicidade de consciencialização.

O anúncio é primoroso. Os contextos, os protagonistas e os comportamentos são gizados e caracterizados ao mais ínfimo pormenor. Normais, as pessoas são encantadoras. O pai leva as filhas à escola. A mãe dá pela falta do cão. Liga ao marido. Este não atende, “it can wait”. Estaciona o carro para falar. Um rapaz “aparece” no banco de trás. Conversam. O rapaz desaparece. “Só”, o pai atende o telemóvel enquanto conduz. Atropela uma criança, aquela que lhe tinha aparecido no carro. “ You’re never alone on the road”. “Distracted Driving is never OK”. A aparição da vítima releva de uma espécie de premonição. Constitui o momento fulcral do anúncio. A premonição, crença arreigada na nossa história e na nossa cultura, não funcionou como aviso mas como prenúncio de morte. Em suma, um anúncio com impacto.

Marca: AT&T. Título: The Unseen. Agência: BBDO New York. Direcção: Frederic Planchon. USA, Setembro 2016.

Preparar a morte

 

Gustave Klimt. A Morte e a Vida. 1915

Gustave Klimt. A Morte e a Vida. 1915

Le go est le jeu du mensonge.On encercle l’ennemi de chimères pour cette seule vérité qu’est la mort (Shan Sa, La Joueuse de go, Paris, Folio, 2001, p. 294).

Há quem prepare a morte, a “única certeza”! Mas a morte é uma certeza incerta. Sabemos que morremos, mas não sabemos nem quando, nem como. Preparar a morte é cuidar da vida.

No Smoking Campaign: Sunny Leone é um anúncio da World Health Organization. Sou alérgico a anúncios anti tabaco, mas simpatizo com este. Original, criativo, agradável. É extenso, mas passa depressa. O argumento é pedagógico: se fumas, não fornicas! Se fumasses menos, conhecias o paraíso antes de morrer. Trocaste Eva por uma beata. Até o último pedido se esfumou. O moribundo não preparou a morte. Não programou a vida para a morte. Um cigarro a mais, onze minutos de vida a menos, segundo a suposta sabedoria da ciência de serviço. Mais fumo, menos vida e menos sexo. Um anúncio contundente!

O anúncio está falado em hindi. Para uma versão com legendas em francês, pode aceder ao seguinte endereço: http://www.culturepub.fr/videos/world-health-organization-anti-tabac-11-minutes/.

Anunciante: World Health Organization. Título: No Smoking Campaign: Sunny Leone. Direcção: Vibhu Puri. Índia, 2016.