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Amanhã é sempre longe demais

Fonte - WWF

Mapa global da pegada ecológica do consumo. Fonte – WWF

Estamos a destruir o planeta. “Somos a primeira geração que está a destruir o planeta e a última que o pode salvar”. Todos sabemos. Mas do saber ao decidir vai um passo, um passo que não damos. O homem é um animal capaz de se auto castigar. Se o presente foge, o “amanhã é sempre longe de mais” (Radio Macau).

Resistência. Amanhã é sempre longe demais. Ao vivo em Lisboa. Cover dos Radio Macau.

O homem é dado à descrença. Não fala a língua do poder, nem o poder fala a língua dele. Quem muito fala, fica rouco. E a mão cheia de poderes globalizados, em que cena do anúncio aparecem? A este nível, o homem comum sente-se tão impotente que poucos sonhos o mobilizam e muitos pesadelos o atormentam. Mas a propaganda e a publicidade insistem que o mundo está nas nossas mãos! Recomecemos: “Somos a primeira geração que está a destruir o planeta e a última que o pode salvar”. Quem está a destruir o planeta? A nossa geração? A nossa geração tem as costas largas. Cumpre-lhe, naturalmente, fazer o que estiver ao seu alcance. Salvar o planeta? Em 2017, a China (27,6%) e os Estados Unidos (15,2%) emitiram 42.8% do dióxido de carbono do planeta. Mas estou convencido que a nossa geração, com a tal responsabilidade que lhe cabe,vai converter os fariseus e salvar o planeta.

Consta que o anúncio Fight for your world, da WWF, é a primeira grande encomenda da agência Uncommun Creative Studio. Felicito-a! O trabalho é notável. Esmerado. E o texto, eloquente e incisivo.

Tanya Steele, chief executive of WWF UK, said: “The decisions made over the next few years will determine the future of our world and the wildlife we share it with. We have a window of opportunity to act and show we care – as citizens, as consumers and as individuals. That opportunity starts now and leads up to the end of 2020, when global decisions on biodiversity loss, climate change and sustainable development will be made. This window is rapidly closing. The time to fight for your world is now.”

Nils Leonard, co-founder of Uncommon, added: “If we could watch our planet in this second, and see our impact upon it in real time, it would scare us. It would be the understanding that every choice we make, no matter how small it might seem, has a huge impact. These little choices are how we fight the biggest battles, they are the way for all of us to make a difference. Not making a choice, is a choice: in every decision, of every day, you are either for the world or against it.” (campaign: https://www.campaignlive.co.uk/article/wwfs-bold-ad-uncommon-urges-people-fight-world/1497550).

Anunciante: WWF. Título: Fight for your world. Agência: Uncommun Creative Studio. Direcção: Daren Rabinovitch. Reino Unido, Outubro 2018.

Imaginário Dior

Dior Espelho

Menino e moço, entretinha-me com os passatempos dos jornais: palavras cruzadas, as sete diferenças, o enigma policial… Dividia a missão com a minha tia, cujo vício superava o meu. Ainda não há jornal que lhe escape. Nunca perdi este enlevo pelos passatempos. Quando não os encontro, invento-os. Por que não descobrir as sete semelhanças, ou homologias, numa série de anúncios de marca?

Saiu, há dias, um anúncio da Dior: Joy (A), o mais recente de uma extensa produção. Proponho uma breve comparação com três anúncios congéneres da Dior: B – Addicted Fragrance (2014); C- The Future is Gold (2015); D- The Absolute Femininity (2016). Os tópicos retidos são os seguintes:

1 – Opção por um ambiente específico;
2 – Eleição de um elemento;
3 – Recurso ao fabuloso
4 – Relevância de um gesto
5 – Transição entre mundos
6- Presença de uma diva
7- Emergência de uma aura.

No anúncio Joy (A), o ambiente é uma piscina (1) situada no topo de um prédio. A água é o elemento preponderante (2). Na água, o efeito da roupa evoca uma sereia (3), que transita, com mergulhos sucessivos, entre dois mundos: o sólido e o líquido (5). Na parte final, a roupa solta-se (4) e a protagonista assume-se como mulher de corpo inteiro. A figura feminina não se reduz a uma mulher bela nem tão pouco a uma mulher objecto, é uma diva (6), uma diva da moda e da publicidade, com uma aura (7) cujo perfume transborda do ecrã para público. Cumpre-lhe incorporar e, eventualmente, divinizar as diversas componentes do anúncio. A modelo é Jennifer Lawrence.

Na tabela seguinte, contemplamos os três anúncios restantes (para melhor visualização, carregue na imagem com a tabela).

Imaginário Dior

Fraco passatempo aquele que termina tão depressa. Existem inúmeras informações nos quatro anúncios da Dior que escapam a este esquema. Por exemplo, na parte final do anúncio Addict Fragrance, a figura feminina mantém-se em pose de costas para o espelho; lembra as estátuas das poderosas vestais romanas, as mulheres mais desejáveis e mais inacessíveis de todo o Império. Por seu turno, no anúncio The future is gold, a ascensão lembra a Glória de Santo Inácio, na cúpula da Igreja de Santo Inácio, em Roma. Intertextualidades!

É compensador fazer coisas que parecem fáceis!

Marca: Dior. Título: Joy by Dior. Agência: Dior Inhouse USA.  Direcção: Francis Lawrence. Estados Unidos, Setembro 2018.

Marca: Dior. Título: Addict Fragrance. 2014.

Marca: Dior. Título: The Future is Gold. Direcção: Jean Baptiste Mondino. Internacional, 2014.

Marca: Dior. Título: The Absolute Femininity. 2016.

Tecno-imaginário

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Tecnicidade, religiosidade; funcionalidade, ficcionalidade; potência, sentido; dão as mãos numa sociedade polifónica. A obra de Bruno Aveillan joga com esta espécie de tecno-imaginário (Georges Balandier). São exemplo os anúncios  Attachez vos ceintures, da Sécurité Routière, e Shape your time, da Cartier, ambos com imagens lentas, próprias destas danças.

Marca: Sécurité Routière. Título: Attachez vos ceintures. Agência: La Chose. Direcção: Bruno Aveillan. França, 2017.

Marca: Cartier. Título: Shape your time. Agência: Marcel (Publicis) / Wam. Direcção: Bruno Aveillan. França, Julho 2015.

À espera de São Valentim

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O anúncio A love song, da The Climate Coalition, é soberbo. Graças à imagem, à música e à palavra. A música é um original dos Elbow e o poema, um original (I’ve Heard Talk) de Anthony Anaxagorou. As primeiras imagens desfilam com o Blade Runner no retrovisor, nomeadamente, a inesquecível sequência final. Um relance à ficha técnica do anúncio suporta o déjà vu. A agência que produziu o anúncio,  uma curta-metragem, é a Ridley Scott Associates Films. Ridley Scott foi o realizador, entre outros, de Alien (1979), 1492 – A Conquista do Paraíso (1992), Gladiador (2000), Prometheus (2012) e, naturalmente, Blade Runner (1982).

Este ano, sugeri aos alunos de Sociologia da Arte um trabalho inovador: escolher, analisar e comparar, seja para aproximar, seja para contrastar, duas obras de géneros distintos, por exemplo pintura e publicidade. Não é difícil, basta estar atento. Neste anúncio temos, pelo menos, duas obras de géneros distintos passíveis de diálogo: a sequência final do filme Blade Runner e a sequência inicial do anúncio A Love Song. Este anúncio, um poema audiovisual, convoca, certamente, outras obras de outros géneros. A intertextualidade é profusa e vadia.

Anunciante: Climate Coalition. Título: A love song. Agência: Ridley Scott Associates Films. Direcção: Stuart Rideout. Reino Unido, Fevereiro 2017.

I’ve Heard Talk – By Anthony Anaxagorou

I’ve heard talk of a quiet violence
waiting at the water’s edge
where children learn the earth by golden shores
and gulls decorate shadows with all their height.

I’ve heard the mountains speak of their agony
a gripping smog hurting their stone –
the sparrow and the wren salvage hope from the wind
casting their song over the ears of morning,

I’ve seen the mountaineer conquer
the obstinacy of rock with the smallest
of hands, breath leaving his mouth
like an eruption of ampersands.

I’ve heard the forest’s thin call
as it’s left to shudder under its heavy load,
I remember a time it would climb
to paint the world with its green

where now will the lovers go to know each other’s palms?
How will kisses announce themselves to lips
if the path we’ve walked for so long
becomes lost to the noise we share?

I’ve seen how the willow holds its perennial lean
while cliffs frail as deceit drop to the sea.
A rainbow bought and sold for its skin
is worn like victory by another skyscraper.

Lakes still embrace shoals of fish
while icebergs melt like snow on lips.
Seasons start to run from each other
while love’s left to shiver on the edge of a leaf.

But there’s still time to rescue the tranquillity
the fragile space between parks, pitches and sea –
the cosmos in all its wonderment and us,
a blink in its starry eye.

I’ve heard of this kind of dying before
slow, white and expansive. I’ve followed
the groan and made my lungs from the trail.

We are building new rain,
We are harbouring less sight
an infant tilts his head skywards
and asks his mother what’s beyond
she takes him by the hand and says

we will shape the brilliant and new
I very much like you have been saved so many times by a view
yesterday the sun whispered into the moon’s ear
and the moon trembled, turning white with fear.

Anthony Anaxagorou