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Um português na China

Sprite China

Deve ser isto a globalização mágica! “Uma noite no museu” e o português Paco Cruz a dirigir um anúncio chinês. Paco Cruz, com uma carreira notável, formou-se na Escola das Artes, da Universidade Católica do Porto.

Marca: Sprite. Título: Giveaway. Agência: Ogilvy & Mather Shanghai. Direcção: Paco Cruz. China, Maio 2017.

A minha geração

Franz Marc. Die großen blauen Pferde. 1911.

Franz Marc. Grandes cavalos azuis. 1911.

O anúncio Pilot da Blu é digno de partilha: imagens soberbas, paródia inspirada e a habitual surpresa final. Num mundo ambíguo, conduzir manadas continua a exigir perícia; mas o cavalo é, agora, um helicóptero e o cowboy, uma cowgirl.  O anúncio “Pilot” apresenta-se como uma réplica, no feminino, do “mundo Marlboro”, “um lugar onde a liberdade corre sem limites” ( ver anúncio Marlboro). Blu, por seu turno,  “representa o indivíduo”:

“It’s hard to be yourself in a world that’s constantly trying to make you into someone else. It’s easy to slip and find yourself marching to the beat of someone else’s drum. blu stands for the individual. Whoever you are, however you want to express it, that’s okay. As long as you’re being true to you.”

Em tempo de cavalos mecânicos, o cigarro já não é o que era, é electrónico. Mas tu deves ser verdadeiramente tu. Um cavalo azulado, como os cavalos de Franz Marc!

kandinsky “Lyrisches” (Reiter zu Pferd), 1911.

Wassily Kandinsky. Lírico. 1911.

O anúncio “Pilot” parece piscar o olho à minha geração (ver The Who, My Generation, 1965), que não sei se conduz a manada, se é cavaleiro ou cavalgadura, se Don Quixote cansado. Num aspecto concordo com o anúncio: quando a minha geração tirar a máscara, surgirá um rosto de mulher. A minha geração tem outra história: aquela que escreveram as mulheres.

A acompanhar, canção Cavalo à Solta, de Fernando Tordo. Porque sim!

Marca: Blu. Título: Pilot – Just you & Blu. Agência: The Corner. Direcção: Romain Gavras. Reino Unido, 2016.

Fernando Tordo. Cavalo à Solta. Poema de Ary dos Santos. 1971.

Não lutem pela escravidão

O anúncio Restart Your Speech, da Amnistia Internacional Portugal, estreou há dias. A paródia, o pastiche e a bricolagem são bons recursos de humor. Neste caso, não nos deixam indiferentes, mas também não nos dão vontade de rir.

Man Ray (1890-1976) - 1936 Dora Maar

Man Ray (1890-1976). Dora Maar. 1936.

“Numa altura em que os discursos de ódio, de medo e de divisão ganham dimensão um pouco por todo o mundo, a Amnistia Internacional Portugal propõe aos líderes mundiais e aos cidadãos comuns que se unam a uma só voz, hoje, amanhã e todos os dias por mais amor e por menos ódio. / “Não lutem pela escravidão. Lutem pela liberdade. Vocês, as pessoas, têm o poder. O poder de criar felicidade. Vocês, as pessoas, têm o poder de fazer desta vida uma aventura maravilhosa. Vamos usar esse poder. Vamos todos unirmo-nos” / São estas as icónicas palavras de Charlie Chaplin no filme “O Grande Ditador”, de 1940” (Amnistia Internacional Portugal).

Anunciante: Amnistia Internacional Portugal. Título: Restart Your Speech. Agência: Havas Lisboa. Produção: Krypton. Portugal, Abril 2017.

We are all monsters!

Beinecke MS 287. Hours, Use of Rome. End of the 15th century (Flanders).

Beinecke MS 287. Hours, Use of Rome. End of the 15th century (Flanders).

Os monstros sofrem. Não conseguem relaxar. Os media, a alcofa da inteligência contemporânea, estão atulhados de falhas. Quando chove é uma lástima. Nem o balouço soporífero do comboio consola a Múmia, a Morte, o Lobisomem e o Cientista Maluco, figuras emblemáticas do cinema dos anos vinte e trinta do século passado. Somos monstros num dia de chuva. Híbridos, variáveis, ocos por dentro e vazios por fora, mas absorventes. Anúncio original com caracterização apurada e  humor hilariante.

Marca: Spectrum. Título: Monsters: Train. Agência: O Positive. Direcção: David Shane. USA, Abril 2017.

Post scriptum:

A frase “todos somos monstros” provocou alguma estranheza. Não é denotativa: nem tudo é literal no mundo da escrita. É verdade que peca por se embrulhar fluxo grotesco do texto. Mas é um pecado menor. Somos nós quem cria os monstros. São ficções, ou fantasmas, do nosso imaginário. Quando reais costumam ser humanos. Se não criamos os monstros à nossa imagem, enxertamos-lhes características que nos são próprias. Por exemplo, a hibridez e a volubilidade (ver Zygmunt Bauman e, cinquenta anos antes, Mikhail Bakhtin); o vazio e a sofreguidão, consubstanciados na tendência para a absorção omnívora. Acresce que os monstros do anúncio, extravagâncias imaginadas, se comportam como humanos. Para desanuviar as sombras,  os monstros deixaram, entretanto, de se cingir ao susto e à exorbitância para se tornar adoráveis, no cinema, nos videojogos, na publicidade… São muitos os exemplos, assinalo apenas três: o E.T., o Yoda e o Shrek.  A comunicação humana raramente é literal ou linear. Costuma ser polissémica, polifónica e orquestral. As frases mais marcantes da humanidade não são nem lineares, nem literais. Tão pouco são incongruentes ou caóticas. Há quem aspire a outras performances: “Fazer coisas com palavras”, diria J. L. Austin (1962). A frase “o inferno são os outros”, de Jean-Paul Sartre, não é literal, nem é abstrusa; destaca-se, porém, na história das ideias do século XX. “O inferno são os outros” é parecido com “nós somos monstros”, muda apenas o sujeito e a conjugação verbal.

 

Um lugar para dois

Du telecom

Parodiar o cinema é uma doença infantil da publicidade. A Du Telecom, dos Emirados Árabes Unidos, fez uma dúzia de anúncios, muito premiados, a ridicularizar diversos géneros de filmes. Escolho três: Too Silly; Too Scary; Too Boring. Acrescento o recente The man sitted next to you, que parodia o público. Em suma, convém ir ao cinema acompanhado. Dedico estes anúncios ao meu especialista de cinema: Nelson Zagalo.

Marca: Du Telecom. Título : Too Silly. Agência: Leo Burnet Dubai. Direcção: Ali Ali. Emirados Árabes Unidos, 2015.

Marca: Du Telecom. Título : Too Boring. Agência: Leo Burnet Dubai. Direcção: Ali Ali. Emirados Árabes Unidos, 2014.

Marca: Du Telecom. Título : Too Scary. Agência: Leo Burnet Dubai. Direcção: Ali Ali. Emirados Árabes Unidos, 2014.

Marca: Du Telecom. Título : The man sitted next to you. Agência: Leo Burnet Dubai. Direcção: Ali Ali. Emirados Árabes Unidos, Fevereiro 2017.

Horror pedagógico

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Hans Von Gesdorff. Field book of surgery. The wounded man. Strasburg. 1528.

De temps en temps, les Français me dépassent ! Hoje, vesti-me de crítico, como o actor de  Stanislavski (A Construção da Personagem, ca. 1930). Revejo o anúncio Déja-vu 2, da Agence de la Biomédecine, e percebo cada vez menos. Trata-se de uma paródia dos filmes de terror de série B. Uma paródia obtusa de um género obtuso. De noite, na floresta, uma jovem expansiva e ingénua afasta-se do grupo e é vítima de uma série de facadas e machadadas desferidas por um serial killer. O público-alvo do anúncio são os jovens entre os 15 e os 25 anos, grupo suposto aterrorizar-se ou gozar com o anúncio. O assunto é, contudo, sério: a doação de órgãos e tecidos:

Dans le contexte de l’évolution de la réglementation sur le don d’organes et de tissus, l’Agence de la biomédecine renouvelle une prise de parole à destination des jeunes. Une prise de parole qui a pour objectif de continuer à les sensibiliser sur le sujet du don d’organes et de tissus, mais aussi à les informer sur la loi en vigueur, notamment concernant le principe méconnu du consentement présumé et les modalités d’expression du refus » (Agence de la Biomédecine).

Afigura-se-me que estamos perante um anúncio de consciencialização que aposta na circulação, porventura, numa “epidemia” viral. A extensidade sobrepõe-se à intensidade, l’effet au sujet. Esta opção é vulgar na publicidade de consciencialização. Propagar é o objectivo! E o disgusto é um bom mensageiro.

Para terminar, um pergunta tão mesquinha quanto perversa: naquele corpo feminino, coberto de golpes, sobra algum órgão apto para doação? Et voilà!

Anunciante: Agence de la Biomédecine. Título : Déjà-vu 2. Agência : DDB Paris. Direcção: Steve Rogers. França, Novembro 2016.

Trampolim

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Os anúncios de Natal da John Lewis fazem parte da tradição. Caracterizam-se pela qualidade, pela generosidade e pela ternura. O anúncio deste ano, Buster The Boxer, para além de proclamar o Natal, foi publicado próximo das eleições presidenciais dos Estados Unidos. Presta-se, deste modo, a ser alvo de paródia.

Marca: John  Lewis. Título: Buster The Box. Agência: adam&eve DDB (London). Direcção: Dougal Wilson. Reino Unido, Novembro 2016.

John Lewis Christmas Advert. Donald Trump and Hillary (JOE.ie.Remix). Novembro 2016.

A Cruz

La croixEste anúncio assenta num trocadilho entre a Cruz de Cristo e “A Cruz” da imprensa (La Croix). Promove uma transferência simbólica de uma para outra devoção. “A Cruz” (La Croix) reforça-se com o contágio da Cruz (de Cristo). “La Croix ce n’est pas uniquement ce que vous croyez”. Para caracterizar o religioso basta, neste anúncio, o coro e a oração. Passa-se, sem demora, de um coro e de uma oração religiosos para um coro e uma oração desportivos. Junto o excelente texto de Macel Mauss sobre a oração (1909), em pdf: Marcel Mauss. A Oração. 1909.

Marca: La Croix. Título: La Croix, ce n’est pas uniquement ce que vous croyez. Agência: BETC. França, Janeiro 2016.

À prova de fantasmas

HathiTenho andado à volta da figura dos fantasmas. Ainda estou nos primeiros passos. Encontram-se coisas engraçadas, como, por exemplo, este anúncio indiano da Hathi Cement. Um espírito deprimido entusiasma-se e morre pela segunda vez. Pelo meio, temos direito a uma paródia do muito parodiado Odyssey, da Levi’s (ver https://tendimag.com/2011/09/16/libertacao/).

Marca: Hathi Cement. Título: Run. Agênccia: Ogilvy & Mather Mumbai. Direcção: Prasoon Pandey. Índia, 2007.

O Ditador Caprichoso

chatime.pngA paródia arremeda a realidade para a subverter, pela farsa, pela caricatura, pela ironia, pelo sarcasmo. Desarma, por exemplo, o poder cobrindo-o de ridículo. Rir do mal faz bem? A quem? Ao ditador caprichoso ou à vítima indefesa? A resposta não é óbvia (Georges Balandier, O Poder Em Cena, 1ª ed. 1980). O imaginário é complexo. Entre ingredientes, receitas e cozedura, a pastelaria simbólica é imprevisível.

Marca: Cha Time. Título: You’ve Never Had Iced Tea Like This Before. Agência: The Sphere Agency. Direcção: Tyler Clayton. Austrália, Abril 2016.