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Os gatos são como a felicidade

Roberto Chichorro., Janela com gato e mulher de vermelho. 2010.

Os gatos são como a felicidade. Sabe-se quando se afastam, não se sabe quando voltam (AG)

O anúncio Katzen, da Netto, apresenta gatos a fazer compras. É uma paródia dos gatos virais na Internet: o OMG Cat (23 942 793 visualizações); Surprised Kitty (78 935 700 visualizações); No No Cat (12 843 138 visualizações); o Keyboard Cat (55 947 719 visualizações); ou o gato Maru (23 854 637 visualizações).

A banda sonora do anúncio é uma adaptação da música Magic Fly dos Space, uma banda francesa dos anos setenta, por sinal, muito desconhecida. Acrescento duas músicas menos alegres dos Space: Blue Tears e Secret Dreams, ambas do álbum Magic Fly (1977).

Marca: Netti Marken-Discount. Título: Netto-katzen. Direcção: Brian Lee Hughes. Alemanha, Junho 2016.
Space. Blue Tears. Magic Fly. 1977.
Space. Secret Dreams. Magic Fly. 1977.

Paródia pornográfica

Figura 1. Pornhub. Baterade. 2019

O anúncio mais recente da Pornhub, uma empresa multinacional de pornografia, é, assumidamente, uma paródia do anúncio Hilltop da Coca-Cola (1971). Digo paródia para não pensar implante de criatividade alheia. Mudam-se as garrafas e acrescenta-se um ou outro rosto com cio. Até a música é a mesma. Ressalve-se o plano final, que transforma um coro numa colina numa espécie de Land Art pornográfica (ver Figura 1 e Galeria de obras de Robert Smithson).

Marca: Pornhub. Título: Baterade. Agência: Officer & Gentleman. Direcção: David Triviño. Espanha, Abril 2019.
Marca: Coca-Cola. Título: Hilltop. Agência: McCann Erickson. Estados Unidos, 1971.

Galeria: Robert Smithson. Obras de Land Art.

Superstar

Pietro Perugino. Madalena, ca 1500.

Recorremos à linguagem religiosa para dizer o mundo e a vida. Confessada ou inconfessadamente, latente ou patente. No anúncio do artigo precedente (Receitas Milagrosas), o religioso permanecia latente, subentendido. Na “série bíblica”, da campanha da Renault Argentina, o religioso é patente, explícito.

No primeiro anúncio, um homem (Jesus) aborda uma prostituta, chamada Madalena. Ela lava-lhe os pés (Evangelho de Lucas) e ele perdoa-lhe os pecados (Evangelho de Marcos). Separam-se, Madalena como prostituta perdoada e penitente. O homem (Jesus) desloca-se num Renault Clio dourado (ver Maria Madalena: O Corpo e a Alma).

Marca: Renault Clio. Título: Jésus et les pêcheurs. Agência: Agulla & Baccetti. Direcção: Marcelo Szechtman. Argentina, 2000.

O segundo anúncio inicia com uma ceia, a “última ceia”. “Jesus” conduz um automóvel com dois ladrões (o bom e o mau?). Capturados pelas autoridades, os automóveis formam uma cruz. O responsável, ao jeito de Pôncio Pilatos, lava as mãos. “Jesus” ressurge ao volante de um Renault Clio. Se o primeiro anúncio foca Madalena, este centra-se na crucificação.

Marca: Renault Clio. Título: La última Cena. Agência: Agulla & Baccetti. Direcção: Marcelo Szechtman. Argentina, 2000.

No terceiro anúncio, “Jesus” estaciona o Renault Clio e entra numa casa escura tumular. Encontra um idoso despedido da vida. “Jesus” ilumina e anima a casa e o idoso. O idoso chama-se Lázaro. Estamos, sem dúvida, perante uma ressurreição.

Marca: Renault Clio. Título: Lázaro. Agência: Agulla & Baccetti. Direcção: Marcelo Szechtman. Argentina, 2000.

Não sei se estes anúncios relevam de uma catequese secularizada ou de uma publicidade evangélica. Alguma coisa será.

Comida pornográfica. Anúncio censurado

Devour. Food Porn. 2019

As línguas evoluem graças a dinâmicas internas, externas e entrelaçadas. O surgimento de uma nova palavra ou de uma nova sintaxe é natural. Mas há casos estranhos. Por exemplo, o termo “adição” para designar a dependência à droga, ao álcool, ao jogo, ao sexo, à Internet… Na língua inglesa, “addiction” significa “an inability to stop doing or using something, especially something harmful: drug addiction” (Cambridge Dictionary). Na língua portuguesa, adição é sinónimo de soma. “Addiction”, em inglês, e adição, em português, não possuem, como diria Ferdinand Saussure, o mesmo valor. O inglês contempla o adjectivo addicted: “unable to stop taking drugs, or doing something as a habit”. E o português? Adicionado? Adido? Aditado? Talvez, adicto. As línguas evoluem para cima, para baixo, por dentro e por fora. O português e, pelos vistos, o francês evoluem muito de fora para dentro, por enxertos e injecções importados via marítima. No anúncio Porn Food, da Devour, as legendas em francês convocam, inicialmente, o termo tradicional accro (preso); acaba, todavia, com a palavra addiction (dependência). Não é um problema português, nem francês, mas uma atitude própria de “lorpalândias”. Habilidades de jornalistas? De professores? De cientistas? De artistas? De políticos? De tradutores? Há quem sinta dificuldades em se exprimir em português. Não desfazendo, uns barbarian addicts. Cá com os meus tamanquinhos, só quando me faltarem as palavras é que vou pescar estrangeirismos. À “adição” e ao “adicto”, prefiro dependência, dependente, vício, viciado, vicioso e viciar.

Porn Food é um anúncio cuidado. Não é por menos, paga uma fortuna para passar nos intervalos do Super Bowl. Trata-se de uma paródia dos estereótipos sobre as dependências recorrendo ao próprio produto. Uma ironia arriscada. Por sinal, durante o Super Bowl passa, não esta versão longa, mas, segundo a Adweek, uma versão de 30 segundos sem a palavra Porn; ou, segundo notícia mais recente do Observador, nem sequer essa miniatura. Liminarmente censurado! Assim anda o mundo: aqui, adita-se, lá, subtrai-se.

“Devour created two versions of its Super Bowl spot, a longer spot that uses the word “porn” and a shorter version that doesn’t, since the word “porn” isn’t supposed to be uttered during a Big Game spot. The Kraft-Heinz brand released the longer version of the ad earlier this month. Today, the company has unveiled the shorter 30-second spot that will run during the third quarter of the Super Bowl” (Adweek, 31.01.2019: https://www.adweek.com/brand-marketing/heres-the-30-second-censored-version-of-devours-food-porn-super-bowl-spot/).
“Vieram a público dois anúncios criados para o Super Bowl banidos pela CBS. Um fala do uso medicinal da canábis, outro de “food porn”. Nunca vão ver a luz do dia no Big Game (…)A tradição de eliminar anúncios de cariz sexual também se manteve na edição número 53 do Big Game. No passado, já aconteceu com as publicidades criadas por páginas como o site pornográfico PornHub, o site de encontros online Man Crunch ou com a Bud Light, uma versão mais leve das famosas cervejas Budweiser. Este ano não foi excepção e a CBS baniu uma publicidade chamada “Food Porn” criada pela Devour, uma marca de comida congelada (Observador, 02.02.2019: https://observador.pt/2019/02/02/canabis-e-food-porn-os-dois-anuncios-banidos-do-super-bowl-deste-ano/).

Marca: Devour. Título: Food Porn. Agência: David Miami. Estados Unidos. Janeiro 2019.

Anime

Mike Diva. Japanese Donald Trump Commercial. 2016.

Os manga e os anime constam entre os produtos culturalmente ancorados, neste caso de origem japonesa, cuja difusão cresceu e se globalizou a um ritmo impressionante. Povoam o mundo gráfico e audiovisual, designadamente a Internet. Não adquirem, porém, uma presença correspondente nas universidades e noutros templos do conhecimento.

O Tendências do Imaginário dedicou poucos artigos aos manga e aos anime. É tempo de recuperar, com a ajuda de um especialista: o meu rapaz mais novo. Seguem dois vídeos. O primeiro, dirigido por Mike Diva, é uma paródia viral centrada na figura de Donald Trump, porventura o mais mediático e o mais globalizado dos presidentes norte-americanos. O segundo vídeo, da Mercedes Benz, atarda-se, seis minutos, numa perseguição automóvel fantástica e alucinante.

Direcção: Mike Diva. Tema: Japanese Donald Trump Commercial. 2016.
Marca: Mercedes Benz. Título: NEXT A-Class. Produção: Hakuhodo, AOI Pro., Production I.G. Direcção: Mizuho Nishikubo. Japão, Novembro 2012.

Fino, compacto e absorvente

O anúncio vietnamita Mỏng manh mạnh mẽ, da Laurier LSSG, é uma paródia da saga 007. Uma paródia criativa. É verdade que todas as paródias são criativas, mas umas são mais criativas do que outras. Não temos um herói mas uma heroína, muita acção, uma caricatura das tecnologias digitais, um vilão e o inevitável gadget multifunções: um penso higiénico fino, compacto e absorvente.

Marca: Laurier Super Slimguard. Título: Slim but strong. Agência: Dinosaur. Vietname, Agosto 2018.

Escorropichar

O anúncio Lost in the black forest, da McCafé, lembra-me a palavra escorropichar. Trata-se de uma paródia dos filmes e das séries de terror, devidamente compassada pelo escorropichar dos copos. Bebe-se, até à última gota do café, a náusea, o medo e o susto. Há anos dei o nome de “emoções confortáveis” a uma instalação. Neste anúncio, as emoções mostram-se desconfortáveis. Confortáveis/desconfortáveis. A vida não se pinta a preto e branco. O desconfortável e o estranho podem revelar-se compensadores. Pela excitação da pasmaceira. O nosso mundo é acelerado, coalhado, tribal! Mesmo assim, desejamos mais excitação e mais emoção. O preto deste anúncio pode tornar-se cinzento e até mais branco que o branco. O disgusto pode ser uma delícia.


Marca: McCafé. Título: Lost in the black forest. Agência:TBWA. Direcção: Hungry Beards. França, Dezembro 2018.

O tamanho do poder

Na fantasia histórica, não existe baixinho mais célebre do que Napoleão Bonaparte. O psicólogo Alfred Adler chamou, inclusivamente, “complexo de Napoleão” ao sentimento de inferioridade associado à estatura. Na realidade, considerando a época, Napoleão não era assim tão baixinho. Media entre 1,68 metros, medidos pelo seu médico. Na primeira metade do século XIX, o homem tinha em média 1,62 metros: 6 a 7 cm menos que Napoleão. A ideia de Napoleão como anormalmente baixo pode decorrer de uma ilusão: aparecia em público rodeado pela guarda imperial, composta por autênticos gigantes. A moldura não lhe era favorável. Existem várias explicações. Acrescento duas. Tendemos a associar o poder à altura. Abraham Lincoln (1.93) e Charles de Gaulle (1,96) são dois casos exemplares. Mas abundam as “excepções”. A estatura corporal e a estatura política de Napoleão revelam-se divergentes, o que o rebaixa. Por outro lado, pode-se conjecturar que as elites eram mais altas do que a população em geral. Entre as elites, Napoleão era comparativamente baixo, como se comprova no quadro de Nicolas Gosse:

Nicolas Gosse - Napoleon receives the Queen of Prussia at Tilsit, July 6, 1807

Nicolas Gosse – Napoleon receives the Queen of Prussia at Tilsit, July 6, 1807.

Na imaginação publicitária, Napoleão é mesmo baixinho. No segundo anúncio, Napoleon, do Al Balad Newspaper, é associado a uma criança que se esforça por trepar à mesa de bilhar. No primeiro anúncio, Follow the leader, da Garmin, Napoleão conduz, invisível, um carro minúsculo. Vale-lhe o GPS. No fim do anúncio, Napoleão e o seu ”pónei” contrastam com a envergadura da guarda imperial e respectivos cavalos.

Marca: Garmin. Título: Follow the leader. Estados Unidos, 2008.

Marca: Al Balad Newspaper. Título: Napoleon. Agência H&C Leo Burnett Beirut. Direcção: Carlos Lascano. Líbano, Março de 2009.

Telemóvel Superstar. Parada de mitos

Não sei se o homem e a mulher são religiosos, mas adoram ídolos e símbolos. Até na cozedura do pão! O anúncio Phone History, da Three, comprova-o o valor dos ídolos e dos símbolos. O naufrágio do Titanic, a fome na pré-história, as esposas de Henrique VIII, a Serpente de Eva, o incêndio de Roma, Moisés no mar Vermelho, todos estes episódios teriam sido diferentes se, no seu tempo, existissem telemóveis. Nem roda, nem máquina a vapor. Glória! Graças ao telemóvel, vivemos uma viragem excepcional na história da humanidade. Vai mais uma paródia de um mito? O rei Don Sebastião, o Encoberto, foi finalmente descoberto graças ao GPS de um telemóvel. Estava à espera de um barco no Entroncamento.

O anúncio é criativo e o ritmo das sequências é admirável. Felizes as marcas que se expõem ao próprio humor.

Marca: Three. Título: Phone History. Agência: Wieden+Kennedy (London). Direcção: Ian Pons Jewell. Reino Unido, Outubro 2018.

 

Extremos

Vangelis in 1974

Vangelis em 1974

Uma centelha basta para aquecer o dia! Ouvir, por exemplo, a música Ask the mountains, do Vangelis (Voices, 1995). Engana a melancolia.Valoriza o anúncio Underwater World, da Ariston Aqualtis (2006) e desafia as montanhas no vídeo homónimo. É um sonho erguer o olhar e não tropeçar com burocratas, confrades e marialvas… Nem com o Zé Povinho a empurrar a encosta. Soltemos o olhar!

Marca: Ariston Aqualtis. Título: Underwater world. Agência: Buf Film Master. Direcção: Dario Piana. Itália, Março 2006.