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We are all monsters!

Beinecke MS 287. Hours, Use of Rome. End of the 15th century (Flanders).

Beinecke MS 287. Hours, Use of Rome. End of the 15th century (Flanders).

Os monstros sofrem. Não conseguem relaxar. Os media, a alcofa da inteligência contemporânea, estão atulhados de falhas. Quando chove é uma lástima. Nem o balouço soporífero do comboio consola a Múmia, a Morte, o Lobisomem e o Cientista Maluco, figuras emblemáticas do cinema dos anos vinte e trinta do século passado. Somos monstros num dia de chuva. Híbridos, variáveis, ocos por dentro e vazios por fora, mas absorventes. Anúncio original com caracterização apurada e  humor hilariante.

Marca: Spectrum. Título: Monsters: Train. Agência: O Positive. Direcção: David Shane. USA, Abril 2017.

Post scriptum:

A frase “todos somos monstros” provocou alguma estranheza. Não é denotativa: nem tudo é literal no mundo da escrita. É verdade que peca por se embrulhar fluxo grotesco do texto. Mas é um pecado menor. Somos nós quem cria os monstros. São ficções, ou fantasmas, do nosso imaginário. Quando reais costumam ser humanos. Se não criamos os monstros à nossa imagem, enxertamos-lhes características que nos são próprias. Por exemplo, a hibridez e a volubilidade (ver Zygmunt Bauman e, cinquenta anos antes, Mikhail Bakhtin); o vazio e a sofreguidão, consubstanciados na tendência para a absorção omnívora. Acresce que os monstros do anúncio, extravagâncias imaginadas, se comportam como humanos. Para desanuviar as sombras,  os monstros deixaram, entretanto, de se cingir ao susto e à exorbitância para se tornar adoráveis, no cinema, nos videojogos, na publicidade… São muitos os exemplos, assinalo apenas três: o E.T., o Yoda e o Shrek.  A comunicação humana raramente é literal ou linear. Costuma ser polissémica, polifónica e orquestral. As frases mais marcantes da humanidade não são nem lineares, nem literais. Tão pouco são incongruentes ou caóticas. Há quem aspire a outras performances: “Fazer coisas com palavras”, diria J. L. Austin (1962). A frase “o inferno são os outros”, de Jean-Paul Sartre, não é literal, nem é abstrusa; destaca-se, porém, na história das ideias do século XX. “O inferno são os outros” é parecido com “nós somos monstros”, muda apenas o sujeito e a conjugação verbal.

 

Um lugar para dois

Du telecom

Parodiar o cinema é uma doença infantil da publicidade. A Du Telecom, dos Emirados Árabes Unidos, fez uma dúzia de anúncios, muito premiados, a ridicularizar diversos géneros de filmes. Escolho três: Too Silly; Too Scary; Too Boring. Acrescento o recente The man sitted next to you, que parodia o público. Em suma, convém ir ao cinema acompanhado. Dedico estes anúncios ao meu especialista de cinema: Nelson Zagalo.

Marca: Du Telecom. Título : Too Silly. Agência: Leo Burnet Dubai. Direcção: Ali Ali. Emirados Árabes Unidos, 2015.

Marca: Du Telecom. Título : Too Boring. Agência: Leo Burnet Dubai. Direcção: Ali Ali. Emirados Árabes Unidos, 2014.

Marca: Du Telecom. Título : Too Scary. Agência: Leo Burnet Dubai. Direcção: Ali Ali. Emirados Árabes Unidos, 2014.

Marca: Du Telecom. Título : The man sitted next to you. Agência: Leo Burnet Dubai. Direcção: Ali Ali. Emirados Árabes Unidos, Fevereiro 2017.

Horror pedagógico

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Hans Von Gesdorff. Field book of surgery. The wounded man. Strasburg. 1528.

De temps en temps, les Français me dépassent ! Hoje, vesti-me de crítico, como o actor de  Stanislavski (A Construção da Personagem, ca. 1930). Revejo o anúncio Déja-vu 2, da Agence de la Biomédecine, e percebo cada vez menos. Trata-se de uma paródia dos filmes de terror de série B. Uma paródia obtusa de um género obtuso. De noite, na floresta, uma jovem expansiva e ingénua afasta-se do grupo e é vítima de uma série de facadas e machadadas desferidas por um serial killer. O público-alvo do anúncio são os jovens entre os 15 e os 25 anos, grupo suposto aterrorizar-se ou gozar com o anúncio. O assunto é, contudo, sério: a doação de órgãos e tecidos:

Dans le contexte de l’évolution de la réglementation sur le don d’organes et de tissus, l’Agence de la biomédecine renouvelle une prise de parole à destination des jeunes. Une prise de parole qui a pour objectif de continuer à les sensibiliser sur le sujet du don d’organes et de tissus, mais aussi à les informer sur la loi en vigueur, notamment concernant le principe méconnu du consentement présumé et les modalités d’expression du refus » (Agence de la Biomédecine).

Afigura-se-me que estamos perante um anúncio de consciencialização que aposta na circulação, porventura, numa “epidemia” viral. A extensidade sobrepõe-se à intensidade, l’effet au sujet. Esta opção é vulgar na publicidade de consciencialização. Propagar é o objectivo! E o disgusto é um bom mensageiro.

Para terminar, um pergunta tão mesquinha quanto perversa: naquele corpo feminino, coberto de golpes, sobra algum órgão apto para doação? Et voilà!

Anunciante: Agence de la Biomédecine. Título : Déjà-vu 2. Agência : DDB Paris. Direcção: Steve Rogers. França, Novembro 2016.

Trampolim

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Os anúncios de Natal da John Lewis fazem parte da tradição. Caracterizam-se pela qualidade, pela generosidade e pela ternura. O anúncio deste ano, Buster The Boxer, para além de proclamar o Natal, foi publicado próximo das eleições presidenciais dos Estados Unidos. Presta-se, deste modo, a ser alvo de paródia.

Marca: John  Lewis. Título: Buster The Box. Agência: adam&eve DDB (London). Direcção: Dougal Wilson. Reino Unido, Novembro 2016.

John Lewis Christmas Advert. Donald Trump and Hillary (JOE.ie.Remix). Novembro 2016.

A Cruz

La croixEste anúncio assenta num trocadilho entre a Cruz de Cristo e “A Cruz” da imprensa (La Croix). Promove uma transferência simbólica de uma para outra devoção. “A Cruz” (La Croix) reforça-se com o contágio da Cruz (de Cristo). “La Croix ce n’est pas uniquement ce que vous croyez”. Para caracterizar o religioso basta, neste anúncio, o coro e a oração. Passa-se, sem demora, de um coro e de uma oração religiosos para um coro e uma oração desportivos. Junto o excelente texto de Macel Mauss sobre a oração (1909), em pdf: Marcel Mauss. A Oração. 1909.

Marca: La Croix. Título: La Croix, ce n’est pas uniquement ce que vous croyez. Agência: BETC. França, Janeiro 2016.

À prova de fantasmas

HathiTenho andado à volta da figura dos fantasmas. Ainda estou nos primeiros passos. Encontram-se coisas engraçadas, como, por exemplo, este anúncio indiano da Hathi Cement. Um espírito deprimido entusiasma-se e morre pela segunda vez. Pelo meio, temos direito a uma paródia do muito parodiado Odyssey, da Levi’s (ver https://tendimag.com/2011/09/16/libertacao/).

Marca: Hathi Cement. Título: Run. Agênccia: Ogilvy & Mather Mumbai. Direcção: Prasoon Pandey. Índia, 2007.

O Ditador Caprichoso

chatime.pngA paródia arremeda a realidade para a subverter, pela farsa, pela caricatura, pela ironia, pelo sarcasmo. Desarma, por exemplo, o poder cobrindo-o de ridículo. Rir do mal faz bem? A quem? Ao ditador caprichoso ou à vítima indefesa? A resposta não é óbvia (Georges Balandier, O Poder Em Cena, 1ª ed. 1980). O imaginário é complexo. Entre ingredientes, receitas e cozedura, a pastelaria simbólica é imprevisível.

Marca: Cha Time. Título: You’ve Never Had Iced Tea Like This Before. Agência: The Sphere Agency. Direcção: Tyler Clayton. Austrália, Abril 2016.

 

O homem e o touro

Sculpture, outside EU offices in Brussels, of Europa riding the bull .

Sculpture, outside EU offices in Brussels, of Europa riding the bull .

Um homem montado num touro, em queda livre. Eis uma ideia preciosa. Insolitamente, o homem devora uma barra Butterfinger enquanto cai vertiginosamente. Um bom pretexto para imagens fabulosas, numa paródia do rodeo e do paraquedismo. O voo do touro e do cavaleiro lembra o rapto de Europa por Zeus que, disfarçado de touro, desliza sobre a água com Europa no dorso. Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

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Marca: Butterfinger. Título: Cowboy. Agência: Gps Advertising. Direcção: Armando Bo. USA, Fevereiro 2016.

Cowboy, da Butterfinger, integra o lote dos cinquenta anúncios do Super Bowl. Foi dirigido pelo argentino Armando Bo, figura consagrada do cinema e da publicidade. Em 2014, ganhou o Óscar do melhor argumento original, pelo filme Birdman. Costuma recorrer a paródias surpreendentes, desligadas, por vezes, dos produtos publicitados. Voltaremos, em breve, ao trabalho de Armando Bo. Comecemos por acrescentar o anúncio brasileiro Great Preparation, da Budweiser, uma paródia do western Spaghetti e das artes marciais orientais.

Marca: Budweiser. Título: Great Preparation. Agência: Africa. Direcção: Armando Bo. Brasil, 2012.

 

Rotação

“Uma tentação assombrava o Pinga Letras. Deixar de escrever. Não tem a quem, pelo menos, alguém que se sinta. Escrever é um engajamento; parar, um desprendimento. Escrever é coisa de sísifos, de moinhos de água. Página a página, a pedra mói sem pausas. Um dia, deixa de escrever, e ninguém dá por isso. É verdade que cultiva um estilo próprio: nota-se à primeira frase; à segunda ou à terceira enfastia. Metáforas, paradoxos, subentendidos, intertextualidades… E algumas ideias. Quem quer ideias? Não há ideias como as de cada um… Ponto final! A originalidade é um estorvo. Bastam ecos e massagens. Por outro lado, em textos curtos, as ideias parecem raquíticas. São bonsais do pensamento. Falta-lhes o incenso, o sermão e a procissão. O melhor é regressar à incubação de livros, esses transoceânicos da sabedoria fadados à insolação da inteligência. Um livro! Daqueles que passam, num ápice, de contribuições importantes a lixo de estantes. Um livro, com introdução e conclusão, mais um ano dos vinte que restam. Uma promessa, um sacrifício, uma mercadoria. E o Pinga Letras não parava de cogitar: um dia, talvez recomece do ponto de partida. Será um grande avanço. E entusiasma-se. Vai ser um grande livro, na crista do vento e com título apelativo: A Liquidez Conjugal na Era da Coca-cola” (Apontamentos de um limpa para brisas, 2016).

Michael Kenna, nascido em 1953 na Inglaterra, é um fotógrafo residente nos Estados Unidos. A sua fotografia, enigmática, despojada e minuciosa, acusa influências orientais, nomeadamente do Japão. Segue uma pequena galeria de imagens.

O surfista e o tubarão

Tubarão 3

Os desportos de equilíbrio, deslize e aventura estão na moda. No ar, na água e no solo: skate, surf, windsurf, kitesurf, asa delta, parapente, esqui… Por sua vez, os hamburgers, da KFC, assumem-se como uma poção mágica. Não obstante tanta proeza, este anúncio (vídeo 1) é uma paródia, por sinal, polémica, de um ataque de um tubarão a um surfista durante uma competição na África do Sul (vídeo 2).

Marca: Kentucky Fried Chicken | KFC South Africa. Título: Mick Fanning Fights off Shark. África do Sul, Outubro 2015.

Surfista atacado por um tubarão durante o J Bay Open na África do Sul em 2015.