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Um bolo em forma de caixão

Sidónios

“Entre as especialidades servidas nesta Casa destacam-se os célebres Sidónios (em homenagem a Sidónio Pais, morto em 1918), bolos em forma de caixão, feitos de amêndoa, açúcar e ovos” (https://olharvianadocastelo.blogspot.com/2011/03/casa-brasileira-mais-antiga-confeitaria.html). Estamos a falar da Confeitaria Brasileira, em Viana do Castelo.

Sidónio Pais em Câmara Ardente. Ilustração Portugueza (23 Dez 1918).

É assunto assente em Viana do Castelo, terra do bolo Sidónio, e em Caminha, terra do Sidónio Pais, que o nome do bolo remete para o presidente da primeira República Sidónio Pais, sepultado no Panteão Nacional, e a forma de caixão, para o seu assassinato no dia 14 de Dezembro de 1918. A memória colectiva tem destas artes: faz, caso disso, acontecer o passado.

Sempre gostei dos Sidónios. Cumpre-me respeitar um novo ritual: fazer da boca um panteão.

Mais inesperado do que o previsto

Pepsi. Encounter. 2019.

Muitos anúncios são paródias. Temas não faltam. Mais importante do que a paródia é o modo surpreendente como é rematada. É neste golpe final que reside o seu fascínio e a sua genialidade. Alguns anúncios a surpresa ultrapassa as expectativas: mostram-se mais inesperados do que o esperado.

Uma paródia dos mil e um “encontros imediatos” com extraterrestres não passa de mais uma entre muitas. Mas se, ao comando de um andróide, o extraterrestre for um peluche, tipo Gremlin, “pepsidependente”, então o anúncio arrisca-se a ficar na memória. Quando um homem mascarado de palhaço entra num banco logo acode a lenda urbana dos palhaços assassinos. Mas o palhaço dirige-se à caixa multibanco e levanta dinheiro com o cartão de crédito… O episódio condiz com as nossas expectativas? Quando aguardamos uma monstruosidade, a normalidade perturba-nos. Estes exemplos revelam que o efeito de estranhamento, eventualmente, grotesco não reside nos fenómenos em si, normais ou anormais, mas na relação que estabelecemos com esses fenómenos.

Marca: Pepsi. Título: The encounter. Agência: Goodby Silverstein & Partners. Estados Unidos, Janeiro 2019.
Marca: London Film Academy. Título: Clown. Agência: F/Nazca Saatchi & Saatchi. Reino Unido, Março 2018.

Música antiga

Mosteiro de Monserrat. Barcelona. Catalunha. Espanha.

Há muito homem para aquém da pós-modernidade. Outros mundos, outras narrativas, outros delírios. O homem nunca foi culturalmente raquítico. À margem das “feiras e das festas medievais” em voga, gosto da música dita antiga.

Llibre Vermell. Original. Pág. 6. Ca. 1399.

Jordi Savall, catalão, compositor, director e instrumentista de viola de gamba, é um dos expoentes da interpretação de músicas antigas originais. Criou, em 1974, com a esposa Monserrat Figueras, o Ensemble Hespèrion XXI. É uma tentação acolher a obra de Jordi Savall no Tendências do Imaginário. “Los Set Gotsx”  e “Stella Splendens” integram as dez composições, todas anónimas, compiladas no Liibre Vermeil de Monserrat, um manuscrito iluminado de finais do séc. XIV, guardado no Mosteiro de Montserrat, perto de Barcelona . Não obstante a “cantilena” do poeta Sebastião da Gama e do cantor Francisco Fanhais, ainda não cortaram o bico ao rouxinol (ver https://tendimag.com/2011/10/16/cronica-de-um-pais-depenado/). Às vezes, faz bem sentir o outro no nosso harmónio, escapulir desta nossa maravilha de fim dos tempos.

Anónimo. Los Set Gotsx. Llibre Vermell de Monserrat. Interpretação: Hesperion XXI (dir. Jordi Saval) e La Cappella Reial de Catalunya.
Anónimo. Stella Splendens. Llibre Vermell de Monserrat. Interpretação: Hesperion XXI (dir. Jordi Saval) e La Cappella Reial de Catalunya.

O esplendor da carne

Claude Monet. Nature morte, le quartier de viande. 1864

Sempre admirei os sábios que dialogam teorias como quem fala do tempo. No que me respeita, ainda estou na infância do entendimento. Brinco às teorias. Não sei teorizar sem conhecer. Um pequeno pecado epistemológico. Ultrapassa-me desenrolar um novelo e voltar a enrolar outro novelo com o mesmo fio. Igual na substância, mas diferente na forma! Os fios das crianças têm na ponta um papagaio de papel: sabem se voa ou não.

Marca: McDonald’s Brasil. Título: Novos McNífico com 10 Bacons e Gran McNífico Bacon. Agência: DPZ&T. Direcção: Marcello Lima. Brasil, Janeiro 2019.

O anúncio Novos McNífico com 10 Bacons e Gran McNífico Bacon, da McDonald’s Brasil, estetiza o bacon, resgata-o da vulgaridade sem da vulgaridade o retirar. Não estará a estetização da carne associada à tentação da carne e ao ritual da sua consumição?  A estetização da carne tem um extenso lastro histórico que a McDonald’s retoma. Pintores tais como Rembrandt, Desportes, Goya, Van Gogh, Monet e Bacon dedicaram algumas pinceladas à exposição artística da carne.

Delhia de France. Três dedos de música

Delhia de France.

Estava no céu
E vi uma gaivota
Que me mergulhou no mar
Estava no mar
E vi um peixe
Que me atirou contra as rochas
Estava nas rochas
E vi um caranguejo
Que me arrastou para a areia
Estava na areia
E vi um ser humano
Que não me viu.

Os dias sucedem-se ora burocraticamente académicos e tensos, ora academicamente burocráticos e lentos. Não sobra espaço para a deriva do pensamento. Nestes tempos de coágulo mental, a música é boa companheira. Não é ciumenta e sabe ser pouco intrusiva.

Ouvi pela primeira vez a cantora alemã Delhia de France no anúncio Earth Rising, da Sony (https://tendimag.com/2019/01/05/o-nascer-da-terra/). Cativou-me.

Ontem, 7 de dezembro, a Dra. Ana Macedo concluiu, com brio, as provas de doutoramento em Estudos Culturais. Tive o gosto de ser orientador. Dedico-lhe estes três dedos de música.

Robot Koch and Savannah Jo Lack – Heart as a River (feat Delhia de France). 2016.
Delhia de France. Blank. Moirai. 2018.
Delhia de France. Waterfalls. Moirai. 2018.

Comprar o arco-íris

Apple. Color Flood. 2018

Say it with colour! Resulta mais bonito e mais tentador. Há anúncios que são autênticas explosões de cores. Por exemplo, o Balls e o  Petals Volcano, da Sony Bravia (ver https://tendimag.com/2013/11/05/erupcao-de-cores/). O anúncio Big Ad, da Carlton Draugh (https://tendimag.com/2017/11/20/epico-de-massas/), é mais parecido com o anúncio do dia, o Color Flood, do iPhone XR da Apple. Nestes dois últimos anúncios, pessoas coloridas formam, como peças de um puzzle, massas dinâmicas. Ao Color Flood, acrescento um anúncio congénere da Sony Bravia: More Brilliance More Beauty. A publicidade consta entre as actividades mais coloridas do nosso tempo. Bom dia! Bom ano! A beleza vitaliza.  

Marca: Apple. Título: Color Flood. Direcção: Rupert Sanders. Estados Unidos, Dezembro 2018.
Marca: Sony. Título: Balloons. Agência: DDB (Berlim). Alemanha, Setembro 2016.

Beleza interior

Beleza interior. René Magritte, Décalcomanie, 1966, © Photothèque R. Magritte / Banque d’Images, Adagp, Paris, 2016

Alguém disse que era bonito por dentro. A beleza interior costuma “compensar” a falta de beleza exterior. A beleza interior não é acessível às endoscopias, colonoscopias e outras “viagens ao interior do corpo”. Não é palpável. Assim como a música não se vê mas ouve-se, a beleza interior não se vê mas verbaliza-se. Como bons católicos, todos temos um anjo da guarda, a graça e beleza interior. Este parágrafo pretende ser um longo mot d’esprit.
O humor, o riso e o mot d’esprit eram apreciados nas cortes dos séculos XVII e XVIII. Havia profissionais para o efeito: os bobos. E muitos amadores. Algumas pessoas ficaram célebres pela qualidade dos seus mots d’esprit. Além dos mots d’esprit, os nobres prezavam os banquetes, a arte efémera, a música, a dança e a água de rosas.
Luigi Boccherini foi compositor e violoncelista. Nasceu em Itália em 1743 mas veio para Espanha, para a corte de Carlos III, com cerca de 26 anos. Permanecerá em Espanha até à morte (1805). O seguinte episódio ilustra o nível de autonomia de um compositor no século XVIII. Carlos III mostra desagrado por uma passagem de uma composição. Molestado pela intrusão, Boccherini, em vez de eliminar, dobrou a passagem. Carlos III despediu-o.
Boccherini produziu uma obra considerável, designadamente quartetos e quintetos para cordas. A influência da música espanhola é óbvia. À semelhança de Antonio Vivaldi, acabou a vida na miséria e a sua obra foi menosprezada durante dois séculos, tendo sido “redescoberta” nos anos trinta. Vale a pena “assistir” a dois excertos, um fandango e um minueto, de música clássica para cordas, com acompanhamento de castanholas.

Luigi Boccherini. Fandango. The Carmina Quartet plays the fourth movement (“Fandango”) from Boccherini’s Guitar Quintet G. 448 in D Major. With Rolf Lislevand, guitar and Nina Corti, castanets”.
Luigi Boccherini. “Minuet from the String Quintet in E Major, Op 11 No 5, performed by the Camerata Eduard Toldrà. Barcelona, on the 28th of February 2016. Dance and Choreography by Belen Cabanes”.

Maldade por maldade

Tomás Santa Rosa (1909-1956)

A maldade e a estupidez existem? Insistem” (inspirado em Marcel Camus).

Pergunta retórica: pode uma pessoa boa ser má? Desde que se convença que está a fazer uma bondade. As maldades por bondade são as mais temíveis. Maldade por maldade, prefiro uma maldade que não tenha que louvar.

Tomás Santa Rosa, stage design for the Mancenilha ballet, 1953.

O pintor brasileiro Tomás Santa Rosa (1909-1956) não tem qualquer culpa neste relambório. Entendi, simplesmente, colocar dois quadros seus. Apetece-me também colocar, sem razão, um minuto da conversa de Jacques Brel sobre a estupidez, a maior alavanca da maldade. Vale a pena ouvir um dos melhores cantores do século XX. Pode aceder à canção L’Air De La Bêtise no seguinte endereço: https://www.youtube.com/watch?v=zR52xwAC7jM.


Extrait : Jacques Brel, interviewé par Henry Lemaire, printemps 1971
Réalisation : Marc Lobet – Via YouTube.

Misericórdia

Algures na fronteira da Hungria.

No dia 21 de Março de 2017, uma embarcação sai da Líbia rumo à Europa. Naufraga no Mediterrâneo. Centenas de sobreviventes são resgatados pelo barco Aquarius. No barco, uma mulher grávida de oito meses e meio dá à luz uma menina, baptizada Mercy (misericórdia). A canção Mercy (Eurovisão 2018), do duo Madame Monsieur, centra-se neste episódio, que se ergue como um símbolo de esperança sob fundo de tragédia. Mas existem outros símbolos. Por exemplo, o corpo de um menino que deu à costa. A esperança renasce e submerge. Renasce da destruição e sucumbe à destruição. Fé, esperança e caridade são as três virtudes teologais. Espera-se de um cristão que partilhe a fé, promova a esperança e pratique a caridade. A canção Mercy é filha da esperança. Tem a virtude de focar as centenas de milhares de migrantes que chegam a bom porto. Outros não resistem à travessia ou perdem, paradoxalmente, a esperança chegados ao destino, enrolados em interesses, ideologias e arame farpado.

Madame Monsieur. Mercy. Álbum: Vu d’ici. 2018.

A canção Mercy Street, de Peter Gabriel pouco ou nada tem a ver com a canção Mercy do duo Madame Monsieur. Uma acentua a esperança, outra, a melancolia, uma esperança submersa, soturna e refractada. Três rios desaguam no estuário do desespero: eros, tanatos e culpa. Nenhum resolvido. Os outros de Peter Gabriel somos nós.

Peter Gabriel. Mercy Street. Àlbum: So. 1986.

Sem palavras

O anúncio italiano Every people matters, da ONG Emergency, é uma história sem palavras fácil de entender. Um refugiado vende rosas. Ninguém compra. À porta de um restaurante, inteira-se que um cliente é vítima de um ataque cardíaco. Consegue socorrê-lo. Será médico? É um ser à parte, ora desvalorizado, ora ignorado. Não há migrações sem consequências. É possível aproveitá-las, mas é mais fácil deixá-las degradar.
Dizem que o Natal é todos os dias. Nunca acaba. Não há festa tão elástica. Abre semanas antes com a incontinência das compras, acaba semanas depois sem dinheiro para os saldos. Prefiro o São João. Seis meses antes do Natal, começa e acaba de um dia para o outro, sem tempo para dívidas. Comparadas com a lareira do Natal, as fogueiras de São João ardem mais em menos tempo.

Anunciante: Emergency. Título: Every person matters. Agência: Ogilvy & Mather (Milan). Direcção: Gigi Piola. Itália, Janeiro 2018.