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A herança de Sísifo

Alzheimer

No anúncio português Amor, da AHDPA, um homem maquilha-se. Treina para maquilhar a mulher, doente de Alzheimer, no aniversário que reúne a família. A mulher adere com agrado. O anúncio centra-se nos pequenos gestos. São gestos que constroem o triângulo humano: olhar a beleza; sorrir com prazer; e amar com o coração. Estética, humor e amor. A doença de Alzheimer é alarmante e temível. Se uma despedida magoa, o alheamento quotidiano aproxima-se do castigo de Sísifo.

Excelente anúncio da agência Havas. Pela sensibilidade. Não é fácil abordar o tema. Requer criatividade, tacto e consciência dos limites.

Anunciante: AHDPA – Associação Humanitária dos Doentes de Parkinson e Alzheimer. Título: Amor. Agência: Havas. Direcção: Leone Niel e Gui Branquinho. Portugal, Abril 2018.

A segunda juventude: os super avós

An Old Man in Military Costume; Rembrandt Harmensz. van Rijn (Dutch, 1606 - 1669); about 1630–1631

Rembrandt. Um homem de idade em traje militar. (detalhe). C. 1630-1631. Rembrandt pintou dezenas de retratos com pessoas de idade.

A publicidade acrescentou às idades da vida os super avós. São fantásticos! São incríveis! São super jovens. “A idade é apenas um número. Uma pessoa é tão velha quanto velha se sinta.”

Durante séculos, os velhos eram simplesmente velhos. Entretanto, alguém se inteirou que “velhos são os trapos”. Em poucas décadas, os velhos tornaram-se pessoas de idade, idosos, terceira idade, quarta idade, seniores, elders em inglês, aînés no Québec e personas mayores em Espanha. Aqui e além, aflora o termo segunda juventude. Livrai-nos, senhor, se não estiveres muito ocupado, da burocracia baptismal.

Lembro-me dos anciãos com respeito, carinho e alguma poesia. Quando as nuvens brilham, penso: lá está ele a fazer fogueiras no céu. Fazia fogueiras com tudo e em qualquer sítio. Era a sua perdição e a sua penitência. Dava-nos, generoso, o prazer de as apagar. À pressa ou devagar. Foi um super avô. Resistente e inquieto. Até à última chama. Cresci com ele. Ensinou-me o sonho e o modo de o trazer no bolso.

Marca: Tivoli. Título: 175 Years of Magic. Agência: &Co (Dinamarca). Direcção: Casper Balslev. Dinamarca, Maio 2018.

Fobias

TyC Sports 2018

O canal de televisão argentino TyC Sports destaca-se pelos anúncios politicamente ousados. Em 2016, visou, por ocasião da Copa América, a xenofobia de Donald Trump. Nas vésperas do Campeonato do Mundo de Futebol, na Rússia, no próximo Junho, lança um anúncio que visa, agora, a homofobia de Vladimir Putin. Os anúncios assumem a paixão do futebol como uma paixão de homens entre homens, paixão que ronda uma espécie de erotismo tribal masculino. Ser homem é partilhar, paroxisticamente, emoções com carga corporal. As objecções ao anúncio Putin contribuíram, entretanto, para a sua retirada da Internet.

Marca: TyC Sports. Título: Putin. Agência: Mercado McCann. Argentina, Maio 2018.

Marca: TyC Sports. Título: Trump. Agência: Mercado McCann. Argentina, Maio 2016.

A Academia

del álbum, Gente en su sitio - De todas las razones que me dan. Gente en su sitio. 1986

Fig 1. Quino. Gente en su sítio.

Gulliver convidou-me a visitar à Academia de Lagado. Os sábios são competentes em tudo. Todos sabem demais, todos são capazes de colocar o ovo em qualquer lugar. Investigam muito, ensinam pouco e aprendem menos. Nesta orgia da inteligência, proliferam concursos e escasseiam obras. Na primeira visita de Gulliver à Academia de Lagado, nem todas as aberrações se manifestam inconsequentes. Visionárias e pioneiras, esperam, por vezes, séculos para atingir os resultados. Um exemplo:

“O primeiro mecânico que avistei pareceu-me um homem magríssimo: tinha a cara e as mãos cheias de gordura, a barba e o cabelo crescidos, com uma roupa e uma camisa cor da pele; entregava-se, havia oito anos, a um curioso projecto, que consistia, segundo ele, em recolher os raios do sol, a fim de os encerrar em frascos hermeticamente fechados, os quais podiam servir para aquecer o ar quando os estios fossem pouco quentes; declarou-me que outros oito anos seriam suficientes para fornecer aos jardins dos ricos proprietários raios de sol por preço módico” (Jonathan Swift, Gulliver, 1726).

Reconhecemos nestes “frascos hermeticamente fechados” cheios de raios de sol os painéis e as baterias solares. Assim os concebeu, antes do tempo, o académico Jonathan Swift, doutorado pela Universidade de Oxford.

Quino visitou, possivelmente, a Academia de Lagado. Atestam-no as seguintes gravuras:

A Cruz, a Paixão, o Transi e a Boca do Inferno

Geertgen tot Sint Jans. Crucifixion (c. 1490).

Fig 1. Geertgen tot Sint Jans. Crucifixion (c. 1490). Fotografia.

A família não trouxe, da viagem à Escócia, apenas a fotografia do quadro Art Cabinet with Anthony van Dyck’s ‘Mystic Marriage of St Catherine, de Willem van Haecht (https://tendimag.com/2018/05/01/a-nobreza-da-arte/). Trouxe, entre outras, uma fotografia do quadro Crucifixion (c. 1490) do pintor holandês Geertgen tot Sint Jans. Não conhecia o quadro, mas já tinha reparado em duas obras do autor (ver figuras 3 e 4). O quadro intriga-me, e cativa-me, pelas suas peculiaridades.

A cena da crucificação inclui os episódios da Paixão (o Calvário), desde a apresentação a Herodes até ao sepultamento e à ressurreição. Não é vulgar.

Junto à cruz, não nos deparamos com o crânio habitual, a “morte seca”, mas com um transi, um cadáver em decomposição. Não recordo ter visto um transi numa pintura da crucificação.

Geertgen tot Sint Jans. The Crucifixion with St Jerome and St Dominic and Scenes from the Passion. 1490

Fig 2. Geertgen tot Sint Jans. The Crucifixion with St Jerome and St Dominic and Scenes from the Passion. 1490.

Ainda menos me lembro, desculpem o non sense, de um quadro com a crucificação em que a cruz está assente no abismo, na boca do inferno. Será uma alusão ao Limbo (https://tendimag.com/2017/10/05/o-triunfo-sobre-a-morte-san-martin-de-artaiz/)? Será um atalho para o Juízo Final (https://tendimag.com/2017/09/19/a-ressurreicao-da-imagem-marten-de-vos/)? Honestamente, desconheço.

 

Pedestais

Na Bélgica, pátria do Astérix, do Tintim, do Achille Talon e do Gastão da Bronca, resolveram colocar pessoas em pedestais para criar “monumentos humanos”. A Lusitânia também é a pátria do Zé Povinho, do menino Tonecas, do Chico Fininho e da Maria Papoila. De país para país, variam o sentido de humor e a relação com as alturas. Na Bélgica, colocam pessoas em pedestais. Parece que Bruxelas, a corte da Comunidade Europeia, tem falta de pessoas em pedestais. Na Lusitânia, semi-periférica, faltam pedestais para tantos candidatos. O problema não é tanto colocar pessoas em pedestais mas apear quem teima em se perpetuar. Os nossos pedestais, tão elevados, são invejáveis: o marquês de Pombal, em Lisboa, o Monumento aos Heróis da Guerra Peninsular, no Porto, a estátua de Santos da Cunha, em Braga. Três pedestais, três rotundas. Afigura-se-me que o pedestal está para Portugal, com o bacalhau está para o português. O anúncio Human Monument é da Thalys, uma empresa de transporte ferroviário a alta velocidade.

Para aceder ao anúncio, carregar na seguinte imagem.

Thalys

Marca: Thalys. Título: Human monuments. Agência: Rosepark. Direcção: Julian Nodolwsky. Bélgica, Abril 2018.

Solidão na velhice

Eric Lacombe. Shades of Melancholy

Eric Lacombe. Shades of Melancholy.

As pessoas de idade que vivem sós constam entre as categorias sociais mais vulneráveis. Carecem cuidado, no sentido de atenção e apoio. O seu número aumenta a um ritmo exponencial. Vai ser defendida, em breve, na Universidade do Minho uma dissertação de doutoramento em Sociologia dedicada, precisamente, ao “impacto das redes sociais na Qualidade de Vida dos indivíduos com 50 e mais anos que residem sós em Portugal: um estudo no âmbito do projeto SHARE”. Não é, porém, esta dissertação que justifica este artigo, mas o falso anúncio Without You, para a Tupperware.

Não há categoria social imune à publicidade. Um homem de idade que perdeu a companheira vive só, diminuído por algumas incapacidades e rodeado por “fantasmas” do passado, tais como a correspondência, os chinelos ou o avental. Resgata-o uma aparição luminosa: o Tupperware, uma ponte no tempo, que, como um psicopompo, liga o aqui e o além, o agora e o outrora. Talvez não salve a alma, mas reconforta o corpo e a mente.

Proporciona-se, ou talvez não, ouvir a canção Mr. Lonely (1964), de Bobby Vinton, um dos intérpretes de Blue Velvet (1963).

Marca: Academy of Media Arts Cologne / Tupperware. Título: Without You. Direcção: Fabian Epe. Alemanha, Março 2018.

Bobby Vinton. Mr. Lonely. Roses are red. 1964.

Bobby Vinton. Blue Velvet. Blue on Blue. 1963.

Estágio de campo em Melgaço

Nos dias 5 e 6 de Maio, há Estágio de Campo em Melgaço, organizado pela Câmara Municipal de Melgaço e pelo Departamento de Sociologia da Universidade do Minho, com o apoio do NECSUM, Núcleo de Estudos dos Estudantes de Sociologia da Universidade do Minho. O que vamos fazer? Viajar, observar, interagir e reflectir. Vamos dar e receber. Os alunos do Mestrado em Sociologia e os finalistas da licenciatura em Sociologia são os principais parceiros desta iniciativa. Insistem que querem ver fotografias para ponderar a decisão e estragar a surpresa. Segue um ramalhete de imagens minimamente identificadas.

Sábado, de manhã, instalação na Pousada da Juventude, no Centro de Estágios de Melgaço.

 

Durante a manhã, trilho do rio Minho.

 

À tarde, visita ao Espaço Memória e Fronteira,

 

ao Museu do Cinema

e ao castelo e à torre de menagem.

As termas do Peso são um local propício a uma pausa, com um breve concerto de guitarra e canto, na Fonte Velha.

A tarde termina no miradouro de Arbo, na Galiza.

À noite, na Casa da Cultura, ocorre a apresentação do livro Volta a Portugal, com a participação do autor: Álvaro Domingues. A apresentação, a cargo de Albertino Gonçalves, será precedida por um momento de guitarra clássica interpretado por Francisco Berény.

Na manhã de domingo, espera-nos Castro Laboreiro, com a subida ao castelo e as cascatas do rio Laboreiro.

A tarde começa em Lamas de Mouro, sítio ideal para uma pausa e recreio.

Com o corpo e o espírito refrescados, é o momento para uma reunião, no auditório da Porta de Lamas, para uma avaliação do ano lectivo.

De regresso à Vila de Melgaço, um Alvarinho de Honra no Solar do Alvarinho oferecido pela Câmara Municipal: vinho alvarinho, presunto, chouriço e broa, tudo produtos locais.

E, para terminar, o regresso a Braga.

A sereia brasileira

Renault Capture

Tem saudade de um anúncio brasileiro belo e inteligente? Esta Sereia, da Renault, é um consolo. Tentado por uma sereia, o condutor não sabe agarrar-se ao volante como Ulisses ao mastro. Perde o carro, salva a virtude. Quem não perde a virtude é o Brasil, um dos países mais exímios na arte da publicidade.

Marca: Renault Brasil. Título: Sereia que conduz. Agência: DPZ&T Brasil. Direcção: Rodrigo Saavedra. Brasil, Abril 2018.