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Delirium Litterarium

Joaquim Costa

Joaquim Costa publicou um novo livro: Delirium Litterarium, pela Chiado Editora. Foi apresentado no dia 25 na Biblioteca Lúcio Craveiro, em Braga. Ainda não o li, mas sei que o posso recomendar. O Joaquim Costa domina a preciosa arte do pensamento e da escrita. Dedico-lhe dois vídeos musicais, ambos da BGKO. O Joaquim sabe que há música a leste de Portugal.

Barcelona Gipsy Klezmer Orchestra. Djelem Djelem. Imbarca. 2013.

Barcelona Gipsy balKan Orchestra. Vicolo Klezmer (Medley). Live Officine Corsare – Torino 2016.

Diálogo ao espelho

Conrad of Megenberg, ‘Buch der Natur_, Germany ca. 1434.

Conrad of Megenberg, ‘Buch der Natur_, Germany ca. 1434.

A Isabel Vilela sugere-me este momento de humor português: “Não faleci nada”, dos Gato Fedorento. Apesar de recalcado e mórbido, o tema da morte presta-se ao humor. Existem limites, mas respira-se, pelo menos, enquanto não vem um corte ou uma bomba. Respira-se menos com temas de maior sensibilidade pública, tais como o nacionalismo, a religião, o género ou as conquistas da humanidade. Alguns assuntos são tão polémicos que até parece que só um lado se pode expressar.

Gato Fedorento. Série Lopes da Silva. Não faleci nada.

Uma pessoa disse o que não devia ter dito. Por ser quem é; por ser onde foi. Eis um “crime”, no sentido durkheimiano da palavra: uma “ofensa à consciência colectiva”. Como reagem as democracias mais democráticas? 1) Dão ampla publicidade ao que não devia ter sido dito e a quem o disse; 2) Punem quem disse o que disse por ter dito o que disse; e 3) Passada a purga, termina o espectáculo. Há temas tabu, não há? Um destes dias, ainda vamos usar mordaças descartáveis. Em nome dos princípios e dos valores fundamentais advogados pelos “novos bem pensantes” (Michel Maffesoli).

Os tempos não correm de feição ao respeito pelo outro e à liberdade de pensamento. O direito à diferença significa, à partida, que o outro tem direito a uma identidade e a uma idiossincrasia próprias. Uma opinião diferente não se resume a uma qualquer variação da nossa, por muito que isso nos contrarie e desagrade. O pensamento conveniente, normalmente o nosso, sempre foi o mais arreigado inimigo da liberdade de expressão. Esta nossa incapacidade para nos descentrar deve provir do pecado original. Por muito que te custe, um pensamento diferente, se é diferente, pode não ser o teu. A tua intolerância aduba a intolerância alheia, e vice-versa. Quer-me parecer que, hoje, crescem ideias profanas que se tomam por religiosas. Não gosto de apóstolos. Censurar, corrigir, sancionar ou castigar as ideias dos outros, nomeadamente aquelas que colidem com os nossos princípios e valores fundamentais, é tarefa fácil. Salazar e Franco fizeram-no muito bem. Estaline, Hitler e Mussolini fizeram-no ainda melhor. Kim Il-Sung e companhia continuam a fazê-lo, com todo o rigor. É certo que o direito de expressão não é absoluto. Existem direitos de expressão mais ou menos generosos. O mais generoso que conheço é o seguinte: eu tenho direito à opinião, e tu também tens direito à minha. Um diálogo ao espelho. O dito que foi dito é, no mínimo, uma enorme grosseria. Mas a minha opinião, aquela a que tenho direito, é apenas uma opinião. Sempre que alguém for castigado por não pensar como eu, estou a abrir mão da liberdade. Espero que quem disse o que disse não venha um dia a estar em condições de, por simetria, nos corrigir. A nós, os paladinos intermitentes da liberdade! Nada que não tenha acontecido antes. Nada que não aconteça.

No após 25 de Abril de 1974, andei metido na política. Fiz um discurso sobre este tema num comício numa antiga garagem de autocarros no lugar do Peso, em Melgaço. Portugal andava conturbado e febril. Algumas pessoas acharam o discurso deslocado. Retomei o assunto. É um risco, uma opinião atirada ao charco.

Com o mundo nas mãos

Conectados. Estudiantes.O contacto, a conexão, entre pessoas capacita, gera sinergia. Torna possível o improvável. Neste anúncio, brilhante, o mundo aproxima-se da figura de um mosaico ou de um puzzle em que as diferentes peças apenas se sobrepõem sem se confundir, mesmo assim o suficiente para completar a acção. As situações e as pessoas interagem de um modo inacabado e imperfeito, mas eficaz. Namoram-se sem se anular, como um beijo de Gustav Klimt. O anúncio multiplica os sinais desta reserva e incompletude. Somos com os outros, conseguimos com os outros, mas não somos os outros, para o bem todos. O ruído preserva a identidade. A unicidade ameaça-a.

Anunciante: Movistar. Título: Conectados. Agência: Young & Rubicam Perú; Directora de Produção: Julieta Kropivka. Perú, 2010.

Gosto deste anúncio da Movistar. Já o tinha colocado há sete anos no Facebook. Hoje, a conversa é diferente. Acrescento três canções associadas à congregação de vontades: With a little help from my friends, do Joe Cocker; Canta amigo canta, do António Macedo e, porque na Itália também se canta, Insiemi, de Toto Cutugno. Todas ilustram a nossa incomensurável capacidade de sonhar em conjunto.

António Macedo. Canta amigo canta. 1974.

Toto Cuttugno. Insiemi. 1990.

Joe Cocker. With a little help from my friends. 1968.

A máscara da vida: As fotografias post mortem

Post mortem 01

Post mortem 01.

“É impossível conhecer o homem sem lhe estudar a morte, porque, talvez mais do que na vida, é na morte que o homem se revela (…) É nas suas atitudes e crenças perante a morte que o homem exprime o que a vida tem de mais fundamental” (Morin, Edgar, L’Homme et la Mort, Paris, Seuil, 1951). Com ou sem filtros, a morte é o nosso espelho; e as sociedades caracterizam-se pelo modo como tratam os seus mortos.

Post mortem 02

Post mortem 02.

A relação com a morte altera-se com a passagem do tempo. Na Idade Média, a morte era omnipresente. Agonizava-se e trespassava-se em companhia, nomeadamente, dos familiares e dos vizinhos. Assistiam à agonia e à morte tanto os adultos como as crianças.

Post mortem 03

Post mortem 3.

Hoje, afastamo o cadáver, bem como o moribundo. Morre-se cada vez mais em hospitais, atendido por profissionais de saúde, numa agonia solitária. Existem cerimónias fúnebres em que o corpo do defunto sai quase diretamente do hospital para o cemitério, com escala na igreja. Em breve, não se morre, desaparece-se! Entre dissimulações, eufemismos e recalcamentos, “tudo se passa na cidade como se ninguém morresse” (Ariès, Philippe, 2000, O homem perante a morte, Lisboa, Publicações Europa-América). O luto é abreviado e a expressão pública do sofrimento contida. A consequência não se faz esperar: deixamos de estar preparados para a morte. A nossa morte e a morte alheia. Os enfermeiros queixam-se desta impreparação, de ter que acudir a todos, moribundos e familiares.

Post mortem 04

Post mortem 04

O modo como se encara a morte condiciona a qualidade dos últimos momentos de vida (Rodrigues, Welberg Menezes, Do outro lado da Morte, entre o Medo e a Esperança: Narrativas Biográficas de pessoas em fim de vida. Mestrado em Sociologia, Universidade do Minho, 2016). O exílio da morte comporta custos individuais e colectivos por avaliar. O exorcismo da morte alimenta fantasmas que, embora não se manifestem aos sentidos, estão activos. Povoam as catacumbas do nosso desconforto ontológico.

No livro A Solidão dos Moribundos, Norbert Elias sugere que a transformação da nossa relação com a morte condiz com as tendências seculares do processo civilizacional do Ocidente: contenção da violência e da agressividade, resguardo da sexualidade, aumento da esfera da intimidade, estilização da alimentação, apuramento da higiene… Estas tendências prosseguem, nos nossos dias com processos tão banais como o combate à transpiração, aos odores corporais, aos pelos e às rugas. Removemos cheiros, pelos e rugas; escondemos moribundos e os mortos; damos caça ao animal que subsiste em nós, mas, para nosso infortúnio, ainda não logramos eliminar a morte. Esta é a nossa tragédia.

Para além da impreparação para a morte, também estamos a ficar mal preparados para o nascimento, para a reprodução. Estamos, em suma, mal preparados para o essencial. Em contrapartida, sentimo-nos à vontade no lazer, no turismo, no desporto, no consumo, na moda, no egoísmo, na comunicação, na arte e na cultura.

Post mortem 07

Postmortem 07.

As fotografias post mortem testemunham esta mudança, em menos de um século, da atitude perante a morte. Hoje, suscitam estranheza e comoção. Na viragem do século XIX para o século XX, eram correntes. Em muitos casos, o falecido está depositado na urna (fotografias 1 e 2). As fotografias valem, sobretudo, como memória. São, também, partilhadas com o objetivo de comunicar e certificar o óbito. Noutros casos, as fotografias são alvo de cuidadosa encenação: o morto aparece de pé; com objetos de estimação; com animais domésticos; com familiares… Os mortos vestem a máscara da vida.

Post mortem 08

Post mortem 8

Impunha-se retratá-los com se estivessem vivos. Os dispositivos mecânicos ajudavam a fixá-los na posição desejada (fotografias 08, 09, 11 e 12). Recorre-se a cosméticos para “dar vida” ao rosto e, quando se proporciona, pintam-se as pupilas nas pálpebras (fotografias 04, 08 e 10). Curiosamente, a técnica fotográfica contribui para uma maior nitidez dos corpos dos mortos. Durante o período de exposição à objectiva, os vivos, ao contrário dos mortos, movimentam-se, resultando mais baços e com os contornos menos definidos (ver fotografias 07, 08, 13 e 14).

Post Mortem 09

Post mortem 09.

Nas fotografias post mortem, predominam as crianças. Por um lado, era frequente não haver nenhuma fotografia da criança falecida. Era a única e derradeira ocasião. Por outro lado, morriam muitas crianças. Na segunda metade do século XIX, a mortalidade infantil é elevada: em França, ronda os 200 por mil (em termos percentuais, cerca de sessenta vezes mais do que o valor atual: 3,3 por mil, em 2014). O risco de morte entre um e cinco anos de idade aproxima-se dos 100 por mil. A esperança de vida ronda os 40 anos nos homens e os 45 anos nas mulheres (Meslé, France & Vallin, Jacques, Reconstitution de tables annuelles de mortalité pour la France au XIXe siècle, Population,  Année 1989, Volume 44  Numéro 6  pp. 1121-1158).

Post Mortem 10

Post Mortem 10.

A fronteira entre a vida e a morte é complexa. Se as fotografias post mortem surgem como crepusculares, trata-se de um crepúsculo ambíguo: a sombra tem luz. A despedida reanima o falecido. Torna-se, por vezes, um desafio discernir, nas fotografias, os vivos dos mortos. Alguns cadáveres esperaram oito dias pela fotografia: o limiar entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos é frágil e versátil.

As fotografias post mortem incluem vivos e mortos. Algumas contemplam retratos de pessoas ausentes, provavelmente familiares desaparecidos. São retratos com retratos (Figura 13).

“Tirar fotografias aos vivos segurando o retrato dos mortos era também uma prática comum no final do séc. XIX (…) Nestes retratos de retratos, assinalava-se a presença virtual de um familiar, que estava fisicamente ausente, remetendo-nos para a força rememorativa e a eficácia fantasmática da fotografia: a existência fotográfica permitia reunir numa só prova fotográfica os mortos e os vivos” (Correia, M. L. (2016). No negativo: morte e fotografia. In M. L. Martins; M. L. Correia; P. Bernardo Vaz & Elton Antunes (eds.), Figurações da morte nos média e na cultura: entre o estranho e o familiar (pp. 207-226). Braga: CECS).

Post mortem 13

Post mortem 13.

Convocar numa fotografia, para além do morto, os vivos e outros mortos memoráveis significa desenhar uma comunidade de vivos e de mortos, noção que Carmelo Lison-Tolosana aplica às povoações (Antropología Cultural de Galicia (Madrid, Akal, 1971) e que, em tempos, associámos às casas (Gonçalves, Albertino & Nunes, João Arriscado (1986), “Casa, comunidade e espaço institucional”, Minho: terras e gente, Cadernos do Noroeste, Universidade do Minho, pp. 100-112).  Com as fotografias de antepassados nas salas e nos corredores, as casas configuravam simbolicamente, não vai muito tempo, comunidades de vivos e de mortos.

Post mortem 14

Post mortem 14.

As fotografias post mortem constituem um exemplo de vida social do morto, de existência para além da morte. Apresentam-se também como um indício do que pode significar a noção de comunidade de vivos e de mortos. Ficção científica à parte, não podemos matar os mortos, quando muito esquecê-los.

Liberdade excêntrica

Liberté sol

O anúncio mexicano “Vamos a hablar”, da Cerveza Sol”, é um despertador de vontades. Atropelam-se imagens e palavras, ao som de um ritmo heróico. A inversão dos preconceitos e dos chavões desenha um espaço de liberdade. Ser livre é ser diferente? “Um bicho raro”. Mas os outros existem! Não param de contar, avaliar e constranger. Será a excentricidade, e, de algum modo, a solidão, a condição da liberdade? Somos livres sem os outros? Livres de quê? Vem-me à memória, a contracorrente, uma frase de André Malraux (Les chaînes qu’on abat, 1971): “A liberdade consiste em poder escolher as cadeias”. O anúncio “Vamos a hablar” é romântico. Nada de estranho. Observa-se alguma reincidência romântica na pós-modernidade.

Este anúncio lembra-me várias canções dedicadas à liberdade. “Libre” (1972), de Nino Bravo, é uma canção que alcançou um enorme sucesso nos anos setenta. Enferrujou com os anos. Mesmo assim, num único site ultrapassa 5 milhões de visualizações. Nino Bravo faleceu, com 28 anos, vítima de um acidente rodoviário.

Marca: Cerveza Sol. Título: Vamos a hablar. Agência: Talent Comunicação e Planejamento Lda. Direcção: Cisma. México, 2016-2017.

Nino Bravo. Libre. Mi Tierra. 1972.

“A (re)construção da figura do emigrante”

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José Malhoa. O emigrante. 1918.

O jornal Público de hoje (05.03.2017; online 04.03.2017) inclui o artigo “A (re)construção da figura do emigrante”, da autoria de Ana Cristina Pereira. Também estou na fotografia. Ninguém como a Ana Cristina Pereira para nos estimular a falar. É uma jornalista amiga do tempo. As coisas acontecem quando estão prontas para acontecer. Mais do que discorrer sobre pessoas, gosta de aprender com as pessoas, de as sentir no mundo. O resultado traduz-se em livros e artigos inconfundíveis.

Para aceder ao artigo, carregar no seguinte endereço: https://www.publico.pt/2017/03/04/sociedade/noticia/a-re-construcao-da-figura-do-emigrante-1763881.

 

O banquete

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Victor Hugo.

“Se eu fosse Homero ou Rabelais, diria: Esta cozinha é um mundo cuja chaminé é o sol.
É, de facto, um mundo. Um mundo onde se movimenta toda uma república de homens, de mulheres e de animais. Os rapazes, as criadas, os cozinheiros, os carros de mercadorias dispostos nas mesas, os tachos nos fogões, as caçarolas que cacarejam, os fritos que gemem, os cachimbos, as cartas, as crianças que brincam, e os gatos, e os cães e o dono da casa que vigia. Mens agitat molem [O espírito move a matéria]” (Victor Hugo. Le Rhin. Lettres à un ami. Tome I. Bruxelles, Société des Bibliophiles Belges, 1842, p. 30).

Minha mestre e companheira enviou-me este anúncio canadiano da President’s Choice: EatTogether. Parece-me um desafio não confesso: um anúncio a transbordar de tão boas intenções não cabe nas minhas palavras (sarcásticas, irónicas, negativas, críticas).

Se me perguntarem qual é a forma de reunião humana mais marcante, hesito entre a festa, a celebração religiosa, o desporto, a guerra e o banquete.

“Esta cozinha é um mundo cuja chaminé é o sol”. Como sugere Victor Hugo o banquete é cósmico, uma troca com o mundo. Come-se o que se trabalha, por exemplo, o que se cultiva. “Devora-se o devorador”, por exemplo, a caça. Confraterniza-se, solta-se a língua, bebe-se em honra de Dionísio. Os corpos excedem-se, tocam-se, ouvem-se, cheiram-se, desejam-se, partilham-se. O banquete é um acelerador da intercorporalidade. Comer, beber e outros trânsitos orgânicos convocam o baixo material e corporal que tudo transforma e regenera. O banquete é político: serve para significar e cultivar relações e conhecimentos. O banquete é comunicação e comunhão. Encena uma utopia festiva da abundância, da universalidade e da igualdade. Tanto quanto me afiança a memória, este é um resumo do pensamento de Mikhail Bakhtin acerca do banquete (ver Bakhtin, Mikhail, 1987, A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento, Capítulo 4, S. Paulo, Ed. HUCITEC).

A magnitude social do banquete evidencia-se no modo como compassa os ciclos e os percursos de vida. Banquetes de São Miguel, de São Martinho, da matança do porco, do Natal, do Carnaval, do santo padroeiro e dos santos populares. Banquetes de baptismo, de comunhão, de casamento, de bodas, de grupos, de reencontros, de sucessos… Os momentos altos da vida celebram-se com um banquete.

“When we eat together, good things happen. Whether it’s poutine, pad thai, paella, or pemmican. Nothing brings us together like eating together” (http://eattogether.presidentschoice.ca/).

Mas um banquete é mais do que sentar umas tantas pessoas à volta da mesa, da comida e da bebida. A isso, costuma chamar-se uma refeição.

Marca : President’s Choice. Título : Eat Together. Agência: Jonh st. Direcção: Michael Clowater. Canadá, Dezembro 2016.

Partilha

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A peça de teatro norte-americana The Melting Pot data de 1908. Não confundir com a peça The Shield de 2017.

Se fosse fácil derrubar barreiras e baralhar diferenças, não estaríamos a ver este anúncio.

Marca: TV2. Título: All That We Share. Dinamarca. Janeiro 2017.

Transi 6: Os mortos vivos

Com este artigo termina a série Transi: Corpos em decomposição. Os artigos anteriores foram: Transi 1. As artes da morte; Transi 2: O corpo em decomposição; Transi 3: Viver com os mortosTransi 4: A didáctica da morte e Transi 5: A vida a prazo.

“A morte é um problema dos vivos. Os mortos não têm problemas. De entre as muitas criaturas na Terra que morrem, só para os homens morrer é um problema. Compartem com os restantes animais o nascimento, a juventude, a maturidade, a enfermidade, a velhice e a morte. Mas apenas eles de entre todos os seres vivos sabem que vão morrer” (Elias, Norbert, La soledad de los moribundos, México, Fondo de Cultura Económica, [1982] 1989, p. 10).

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Fig 50. Transi ou Zombie? Horae ad usum pictaviensem. Manuscrito. 1455-1460. Biblioteca Nacional de França.

Mudemos de olhar para terminar em rabo de víbora.

Este texto é manifestamente parcial. A obsessão macabra resume uma faceta da Idade Média. O homem medieval também foi um apaixonado pela vida. Entregou-se aos prazeres do corpo, à dança, à ebriedade, à sexualidade, ao riso, à extravagância, à transgressão, à vitalidade, à festa, ao convívio, à confusão, ao sonho. Em diversas dimensões: na linguagem, na arte, na praça pública, no Carnaval, na missa do burro, no teatro. Não é o momento de desenvolver esta vertente. O livro de Mikhail Bakhtin A cultura cómica popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais (São Paulo, Hucitec, 2008) pode colmatar esta falha.

Walker - The Walking Dead _ Season 5, Episode 15 - Photo Credit: Gene Page/AMC

Fig 51. Walker – The Walking Dead. Season 5. Episode 15. Photo Credit: Gene Page/AMC.

Os vampiros, os Frankenstein, as múmias, os passageiros crepusculares e, sobretudo, os zombies lembram os transi. O sucesso destas criaturas é inegável. Aparecem no cinema, nos videojogos, nos vídeos musicais, nas séries de televisão, na publicidade, nas fotografias, nos posters, nas t-shirts, nas tatuagens e, até, nos brinquedos. Ficção ou não, são imagens de outrora e de agora. São os nossos fantasmas.

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Fig 52. Rick Genest.

O homem medieval e o homem moderno distinguem-se quanto à identificação ou à projecção nas imagens da morte? A diferença é mais de grau do que de natureza. Quando no séc. XV, uma mulher grávida observa uma mulher grávida figurada numa dança da morte, pode admitir: aquela é como eu; eu sou como aquela; ou eu sou aquela. Historiadores consideram que a terceira alternativa é credível. Sucederá o mesmo com um espectador actual perante uma investida de zombies num filme? Ontem como hoje, somos propensos a identificar-nos com as vítimas. Mas também com os carrascos, banais ou monstruosos. Como vítimas, pense-se na síndroma de Estocolmo, mas também como espectadores (Faivre, Bernard, Martyrs, bourreaux et spectateurs, Paris, Armand Colin, 2010), sendo a passagem de espectador a actor frequente. Atente-se na violência no desporto (Murphy, Patrick; Williams, John; Dunning, Eric. O futebol no banco dos réus. Oeiras, Celta, 1994). No que respeita à identificação com a vítima e com o carrasco a diferença parece não ser intransponível.

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Fig 53. Fonte da Juventude. Fresco. 1500. Saluzzo, Castello della Manta, Sala Baronale.

Algumas personalidades medievais tornaram-se célebres ao mandar esculpir transi a partir do seu corpo em decomposição, real ou imaginado. Na actualidade, desenha-se uma tendência para tatuar transi na própria pele. O caso mais célebre é o de Rick Genest. Nem sequer faltam os necrófilos (Fig 52)! Os transi passeiam-se, hoje, de um modo inédito.

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Fig 54.George Grosz. Glad to be back. 1943.

Transumanista ou não, matar a morte está na agenda. Já matamos a morte nos videojogos e vários mega projectos apostam nesse sentido. Não é uma aspiração nova. A ideia da fonte da juventude apontava para uma forma de inverter a velhice num ciclo vital interminável. Era uma solução bioquímica.  Mas neste século a técnica é mais milagrosa. De pouco serve a lição de George Grosz: feliz, a morte não pára de renascer (Fig 54). As pessoas morrem, mas as coisas também. Nunca os objectos técnicos morreram tanto e tão depressa. O nosso século não é da eternidade, mas da obsolescência. Vamos continuar a transitar, com os olhos postos na imortalidade.

Transi 4: A didáctica da morte

(Continuação dos artigos Transi 1: As artes da Morte; Transi 2: O corpo em decomposição; e Transi 3: Viver com os mortos.

A didáctica da morte

Não é só de actos e de factos que vive o homem. Também desenvolve ideias e crenças. Perfilha um imaginário que atribui sentido à vida e ao mundo. A Igreja medieval elegeu a morte como charneira da fé e da relação com o mundo dos cristãos. Algumas mudanças, mormente ao nível da religiosidade privada, revelaram-se decisivas. Por exemplo, o entendimento de que a salvação ou a condenação da alma não esperam pelo juízo final, concentrando-se nos derradeiros instantes de vida do moribundo (Ariès, Philippe, Historia de la muerte en Occidente, Barcelona, El Acantilado, [1975] 2000, pp. 43-51). As Ars Moriendi testemunham esta antecipação da prova para o momento pontual da morte.

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Fig 34. Souabe Amants Trepassés. 1470. Strasbourg. Musée de l’Oeuvre Notre Dame.

É possível contra-argumentar que esta não era a posição oficial da Igreja. O puritano Richard Baxter (1615-1691)  “traduziu pragmaticamente” o mestre Calvino, o suficiente, porém, para Max Weber considerar o livro Christian Directory (1678) como um “compêndio de teologia moral puritana” capaz de fazer a ponte entre o Calvinismo, a ética protestante e o espírito do capitalismo (Weber, Max, A ética protestante e o espírito do capitalismo, Lisboa, Editorial Presença, 1996 [1904]). A interpretação e a tradução podem ir além, desviar-se ou ficar aquém do interpretado. Algo semelhante ocorreu com a antecipação da prova de salvação e as Ars Moriendi.

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Fig 35. Pilares e tecto da Capela de São João. Por J.M. Rosier. Palácio dos Papas. Avignon.

Entre o mundo oficial e o mundo da vida cresce um purgatório de mundos oficiosos. O que se coaduna, paradoxalmente, com a “detenção do monopólio dos bens de salvação” por parte da Igreja (Weber, Max, Economia y Sociedad, México, Fondo de Cultura Económica, 1983 [1922]; Bourdieu, Pierre, “Genèse et structure du champs religieux”, Revue Française de Sociologie, XII, 1971, 295-334).

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Fig 36. Igreja de Sta Maria. Beram, Croácia. Dança da Morte datada de 1474.

Proclamamos o nosso século como o século da imagem. Pois, os séculos XII a XV  também foram séculos da imagem.  Consagraram-se, ceteris paribus, como um período ímpar de criação e propagação de imagens. Tanto no centro como na periferia da Igreja, na Capela Sistina como nas igrejas mais recônditas. É costume associar-se a catequese pela imagem ao barroco. No fim da Idade Média, as paredes e os tectos das igrejas transbordavam com pinturas e esculturas educativas (Figuras 35 e 36).

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Fig 37. Dieric Bouts. Martírio de Santo Erasmus. Triptíco. 1458.

As iluminuras conquistaram as margens dos saltérios e dos livros de horas. A morte, com comoção e conotação variáveis, é tópico recorrente. As esculturas, as pinturas, as gárgulas, os livros, os sermões,  as execuções públicas, os mistérios e as moralidades não enganavam quanto ao propósito: evitar o vício e abraçar a virtude, para amparo da alma.

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Fig 38. Execução de Olivier IV de Clisson no dia 2 de Agosto de 1343. Segundo miniatura atribuída a Loyset Liedet.

As hagiografias e as pregações incidem mais sobre a morte do que sobre a vida dos santos. A Santa Ágata, arrancaram os seios; a Santa Luzia, os olhos; a São Telmo, os intestinos (Figura 37); São Pedro Mártir sobreviveu vários dias com um cutelo cravado na cabeça (Figura 39); a São Bartolomeu, esfolaram-no vivo (A festa de São Bartolomeu de Cavez); a São Dinis de Paris, cortaram-lhe a cabeça, o que não o impediu de percorrer com a cabeça nas mãos uma  distância considerável… Nestas imagens macabras, desfilam moribundos, cadáveres e corpos mutilados.

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Fig 39. Ambrogio Bergognone. São Pedro Mártir, c. 1490.

A Igreja erigiu a morte como pedra angular da doutrina, da iconografia, da hagiografia, da retórica e dos rituais religiosos. A antecipação da prova de salvação  para o leito da morte teve consequências vastas e profundas, consubstanciadas, por exemplo, na popularidade dos memento mori e das ars moriendi. A viragem religiosa dos últimos séculos da Idade Média centrou a vida na morte.

“O espectáculo dos mortos, cujos ossos afloravam à superfície dos cemitérios como o crâneo de Hamlet, não impressionava mais os vivos do que a ideia da sua própria morte. Os mortos resultavam-lhes tão familiares quanto familiarizados eles estavam com a sua própria morte” (Ariès, Philippe, História de la muerte en occidente, op. cit., p. 42).

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Fig 40. São Dinis. Horae ad usum parisiensem, ditas Horas de Carlos VIII. 1475.

A degradação dos corpos não espera pela morte; começa no “vale de lágrimas” saturado com a peste e a lepra;  a violência e as guerras;  as camadas de cadáveres; e nas palavras e imagens que deformam os corpos e definham as almas. A degradação dos corpos começa em vida. “O horror não está reservado à decomposição post mortem: está intra vitam” (Ariès, Philippe, Historia de la morte en occidente, p. 53).

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Fig 41. Ilustração da peste a partir da Bíblia de Toggenburg. 1411.

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Fig 42. Leproso agitando um chocalho. Barthélémy L’Anglais. Livre des propriétés des choses. Séc. XV.

Estes traços da mundividência medieval – a focagem da vida na morte, o espectáculo dos mortos e a degradação corporal em vida – proporcionam um novo olhar sobre os transi que se apresentam, a esta luz, menos insólitos ou, se se preferir, menos aberrantes.