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Tapumes à prova de coletes amarelos

Admiro os investigadores e os artistas que conseguem captar o efeito de um fenómeno através de um desvio do olhar. É o caso das fotografias de Baptiste César dos tapumes colocados nas montras de Paris a pensar nos “coletes amarelos”. Agradeço à Adélia ter-me dado a conhecer estas fotografias. Para aceder a uma notícia mais detalhada, bem como a uma galeria de fotografias, carregar na seguinte imagem.

Tapume na Yves Saint-Laurent após os incidentes com os coletes amarelos.

Miserere.

Hoje, fui ao Mosteiro de Tibães. Vi cogumelos brancos, amarelos, castanhos e vermelhos com pintas brancas. Não é que os cogumelos cantam! Hoje, voltei do Mosteiro de Tibães com os cogumelos nos olhos e o Miserere de Allegri nos ouvidos.

Cogumelos no Mosteiro de Tibães. 2018.

Gregorio Allegri. Miserere. 1638. Interpretação: The Choir of Claire College, Cambridge, Timothy Brown. 1995.

RespirAr-te

Respirare_(Subsonica)

Acabei de dar uma aula sobre a relação entre o maneirismo e o surrealismo. Chegado a casa, vejo, como costume, uma selecção de vídeos “frescos”. Deparo-me com o videoclip Respirare, do grupo italiano Subsonica. Não podia vir mais a propósito esta agradável surpresa. Respirare é um vídeo marcado pela criatividade e pela intertextualidade. Convoca várias obras de arte, mormente surrealistas. O mundo gira, naturalmente, mas qual é o eixo?

Grupo: Subsonica. Título: Respirare. Direcção: Donato Sasone. Director de fotografia: Davide De Martis “DeFuntis”. Itália, Novembro 2018.

Sombra

M.C. Escher.Three Spheres II. 1946

M.C. Escher.Three Spheres II. 1946.

A sombra é sombria e assombra. “A sombra é, por um lado, aquilo que se opõe à luz: ela é, por outro lado, a própria imagem das coisas fugidias, irreais e mutáveis” (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Dictionnaire des Symboles, Paris, Editions Robert Laffont S.A.,1982). Incontrolável, a sombra é uma ameaça em potência. Recorde-se o conto A Sombra (1876) de Hans Cristian Anderson : « A sombra tornara-se o mestre, e o mestre tornara-se sombra ». Na parte final do conto, a sombra, agora homem, manda matar o mestre, cada vez mais sombra. A sombra remete, de algum modo, para os nossos recalcamentos. C.G. Jung associa a sombra “a tudo o que o sujeito recusa reconhecer ou assumir e que, contudo, não para de se lhe impor” (La guérison psychologique, Genève, Librairie de Université Georg & Cie, 1953).

manchanegraSuspendendo os academismos, a sombra do anúncio The Shadow, da Intel, desperta fantasmas da infância: o Mancha Negra das revistas aos quadradinhos da Disney, o adversário mais penoso do rato Mickey. Não é propriamente uma sombra, mas parece. O anúncio da Intel sintoniza-se com o ambiente de horror fictício do Halloween, convoca a afeição dos norte-americanos pelo basquetebol, namora a street art e explora primorosamente a imagem espectral da sombra.

Marca: Intel. Título: The Shadow. Produção: Optane Memory + Uproxx. Estados Unidos, Outubro 2018.

O tema das sombras lembra o vídeo Decantação  que fiz, há uns cinco anos, com fotografias de Paulo Pinto e música da compositora e interprete checa Iva Bittova ((https://tendimag.com/2013/03/10/decantacao/).

Albertino Gonçalves. Decantação. Fotografia de Paulo Pinto e música de Iva Bittova. 2013.

Sensualidade tumular

Halloween, Dia de Todos os Santos e Dia dos Fiéis Defuntos formam um interlúdio em que as fronteiras do além se esbatem. Os vivos visitam os mortos e os mortos visitam os vivos. Uma comunidade de vivos e de mortos. Convido-o a um passeio pelos cemitérios da Europa ao encontro de quatro belas esculturas mortuárias que revelam alguma sensualidade e algum erotismo.

 

 

Novas sensações

Royal opera house

A técnica dá a mão à estética. Ocorrem-me, por exemplo, as serigrafias de Andy Warhol. As novas tecnologias audiovisuais permitem ver a realidade como ninguém, pelo seus próprios meios, alguma vez viu. É o caso dos movimentos de dança no anúncio Feel Something New, da Royal Opera House, de Londres.

Marca: Royal Opera House. Título: Feel Something New. Agência: Atomic London. Inglaterra, Setembro 2018.

“Atomic’s striking new campaign and visual identity for the revamped Royal Opera House captures ballet and opera stars with a radical new technique to stunning effect. Captured over an intense three day shoot with photographer Giles Revell, we used a revolutionary technique to capture the shape and colour of movement, blurring the lines between the moving and still image.”

Galeria de imagens: Marey & Muybridge

Esta “técnica revolucionária” “com efeito deslumbrante” lembra inventos e obras de há mais de um século. Em primeiro lugar, a cronofotografia de Etienne-Jules Marey (ca. 1882) e de Eadweard Muybridge, inventor do zoopraxiscópio. Ambos pretendiam estudar a “máquina animal” (ver galeria de imagens Marey e Muybridge; pode consultar, também, Fotografar o movimento do corpo). Lembra, em segundo lugar, os artistas futuristas, com a sua obsessão pelo movimento e pela velocidade (ver galeria de imagens; pode consultar, também, Pneus olímpicos / Futurismo).

Galeria: Futuristas

É uma tentação e um dever colocar algumas barbas brancas nas novíssimas tecnologias!

 

Imaginário Dior

Dior Espelho

Menino e moço, entretinha-me com os passatempos dos jornais: palavras cruzadas, as sete diferenças, o enigma policial… Dividia a missão com a minha tia, cujo vício superava o meu. Ainda não há jornal que lhe escape. Nunca perdi este enlevo pelos passatempos. Quando não os encontro, invento-os. Por que não descobrir as sete semelhanças, ou homologias, numa série de anúncios de marca?

Saiu, há dias, um anúncio da Dior: Joy (A), o mais recente de uma extensa produção. Proponho uma breve comparação com três anúncios congéneres da Dior: B – Addicted Fragrance (2014); C- The Future is Gold (2015); D- The Absolute Femininity (2016). Os tópicos retidos são os seguintes:

1 – Opção por um ambiente específico;
2 – Eleição de um elemento;
3 – Recurso ao fabuloso
4 – Relevância de um gesto
5 – Transição entre mundos
6- Presença de uma diva
7- Emergência de uma aura.

No anúncio Joy (A), o ambiente é uma piscina (1) situada no topo de um prédio. A água é o elemento preponderante (2). Na água, o efeito da roupa evoca uma sereia (3), que transita, com mergulhos sucessivos, entre dois mundos: o sólido e o líquido (5). Na parte final, a roupa solta-se (4) e a protagonista assume-se como mulher de corpo inteiro. A figura feminina não se reduz a uma mulher bela nem tão pouco a uma mulher objecto, é uma diva (6), uma diva da moda e da publicidade, com uma aura (7) cujo perfume transborda do ecrã para público. Cumpre-lhe incorporar e, eventualmente, divinizar as diversas componentes do anúncio. A modelo é Jennifer Lawrence.

Na tabela seguinte, contemplamos os três anúncios restantes (para melhor visualização, carregue na imagem com a tabela).

Imaginário Dior

Fraco passatempo aquele que termina tão depressa. Existem inúmeras informações nos quatro anúncios da Dior que escapam a este esquema. Por exemplo, na parte final do anúncio Addict Fragrance, a figura feminina mantém-se em pose de costas para o espelho; lembra as estátuas das poderosas vestais romanas, as mulheres mais desejáveis e mais inacessíveis de todo o Império. Por seu turno, no anúncio The future is gold, a ascensão lembra a Glória de Santo Inácio, na cúpula da Igreja de Santo Inácio, em Roma. Intertextualidades!

É compensador fazer coisas que parecem fáceis!

Marca: Dior. Título: Joy by Dior. Agência: Dior Inhouse USA.  Direcção: Francis Lawrence. Estados Unidos, Setembro 2018.

Marca: Dior. Título: Addict Fragrance. 2014.

Marca: Dior. Título: The Future is Gold. Direcção: Jean Baptiste Mondino. Internacional, 2014.

Marca: Dior. Título: The Absolute Femininity. 2016.

Cegonhas

 

Álvaro Domingues. Bestiário do imobiliário 2

Fotografia de Álvaro Domingues.

“Somos as cegonhas eléctricas (…) No tempo em que as crianças não percebiam nada de sexo e reprodução, o nosso emprego era transportar bebés no bico. Com a quebra da natalidade, as normas de segurança no transporte de crianças e as incubadoras, ficámos sem emprego. O resto adivinha-se: desde que nos tornamos sedentárias metemo-nos a comprar uma casa que não há como pagar. Ficou para o banco. Que se lixe. Sempre que passamos em cima, cagamos nele” (Álvaro Domingues, Bestiário do Imobiliário II. Punkto (https://www.revistapunkto.com/2013/05/bestiario-do-imobiliario-ii-alvaro_3.html).

Cegonha, escultura na Catedral de Estrasburgo

Cegonha, escultura na Catedral de Estrasburgo.

Os bebés, dizia-se, vinham de França no bico das cegonhas. A cegonha é o símbolo de Estrasburgo. Segundo a lenda, “sob a catedral de Estrasburgo, existia um lago, o Kindelsbrunnen, nome que podia ser traduzido por “poço das crianças”. Neste lago, as almas das crianças por nascer esperavam para vir ao mundo. Um gnomo gentil pegava a alma do recém-nascido com a ajuda de uma rede de ouro e entregava-o, de seguida, à cegonha para que ela pudesse entregá-lo aos pais. Os pais que desejassem um filho deviam colocar alguns pedaços de açúcar no rebordo da sua janela de modo a cativar a cegonha” (Pourquoi dit-on que les cigognes apportent les bébés ?: https://www.youtube.com/watch?v=I0cc6K_Lxlc).

Do outro lado da fronteira, na Alemanha, existe uma versão com um teor mais mitológico:

“A cegonha é a mensageira da deusa Holda, encarregada de reincarnar as almas dos defuntos nos nascituros. Nas grutas ou perto de um ponto de água, “elfos” resgatavam as almas das profundezas da terra, que a deusa reincarnava em nascituros que a cegonha levava, em seguida, aos pais” (Pourquoi dit-on que les cigognes apportent les bébés ?: https://www.youtube.com/watch?v=I0cc6K_Lxlc).

Imagem do filme Cegonhas. 2016.

Imagem do filme Cegonhas. 2016.

Com o tempo, os relatos míticos sofrem alterações. No anúncio Cegonha, da Volkswagen, o carro novo é o bebé que a cegonha terá trazido e do qual não se separa. A mulher também parece estar grávida. Conjugam-se assim dois nascimentos: o mecânico e o humano.

Marca: Volkswagen. Título: Cegonha. Agência: AlmapBBDO (São Paulo). Direcção: Claudio Borrelli. Brasil, Julho 2018.

Se me encomendassem um print para acompanhar este anúncio, não andaria longe do seguinte: o carro com fraldas electrónicas, a cegonha no capot em pose de Vitória de Samocrácia; o pai, ao volante, confuso; a mãe, ao lado, como uma Vénus de Willendorf; no banco traseiro, os filhos, mais um lugar vago para a próxima cegonha.

Filmes do Homem / A cumplicidade dos objetos

Filmes do Homem. Identidade, Memória, Fronteira.. 2018. Catálogo.

Filmes do Homem. Identidade, Memória, Fronteira.. 2018. Catálogo.

De 30 de Julho a 5 de Agosto, ocorre, em Melgaço, o Festival Filmes do Homem, organizado pela Câmara Municipal e pela associação Ao Norte. “Um evento de referência no território nacional e internacional”. Além do cinema, o Festival contempla outras actividades, tais como a fotografia. Articula-se, entre outras entidades, com o Museu do Cinema, o Espaço Memória e Fronteira, a Torre da Menagem, a Casa da Cultura, a Porta de Lamas e o Museu de Castro Laboreiro.

Melgaço, um dos municípios mais envelhecidos do País, insiste em ser dinâmico e ambicioso. Colaboro com os Filmes do Homem desde a origem. Nos últimos anos, foi incluída uma exposição de fotografia. O Álvaro Domingues  e eu próprio temos escrito os textos para os catálogos. No dia 30 de Julho, pelas 19:30, na Casa da Cultura, vão ser lançadas publicações com as fotografias e os textos correspondentes a três exposições.

Para aceder ao pdf do Catálogo dos Filmes do Homem, de 2018, carregar na imagem acima ou no seguinte endereço: file:///C:/Users/Utilizador/Downloads/Cat%C3%A1logo%20Filmes%20do%20Homem.pdf

Para aceder ao pdf do texto “A cumplicidade dos objectos”, carregar na imagem abaixo (uma mulher a preparar a terra) ou no seguinte endereço: Albertino Gonçalves. A cumplicidade dos objectos. Exposição Pedra e Pele, de João Gigante. Filmes do Homem 2018.

A amanhar a terra. Exposição a Pedra e a Pele. João Gigante. Filmes do Homem, 2018.

A amanhar a terra. Exposição A Pedra e a Pele. João Gigante. Filmes do Homem, 2018.

Mulher protagonista

Na publicidade, a imagem da mulher objecto submissa foi árvore que já deu fruto. Populariza-se a imagem da mulher protagonista. Algumas vezes, com brilhantismo. Atente-se nos prints da campanha da Stabilo Boss (Título: Highlight the Remarkable; Agência DDB. Alemanha, Abril 2018).

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“Highlight the remarkable. Edith Wilson
The First Lady who assumed her husband’s presidential responsibilities after he was paralyzed by a stroke.”

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“Highlight the remarkable. Lise Meitner.
Discoverer of nuclear fission who male partner was awarded with the Nobel Prize.”

stabilo_boss_katherine_3

“Highlight the remarkable. Katherine Johnson.
The NASA mathematician responsible for the calculations resulting in Apollo 11’s safe return to earth.”