Arquivo | Género RSS for this section

Com os olhos na pele

Detail of a portrait of the Dominican Cardinal and renowned biblical scholar Hugh of Saint-Cher painted by Tommaso da Modena in 1352

O que é belo? O que é feio? Quem é belo? Quem é feio? Quem passa despercebido? Quando, onde, perante que público? A beleza já não é o que era? “A beleza está nos nossos olhos” (Oscar Wilde).

“Observe a face turva
O olhar tentado e atento
Se essas são marcas externas
Imagine as de dentro.”
(Elza Soares e Pitty, Na Pele, 2017)

Segue uma canção áspera, Na Pele, de Elza Soares e Pitty. Acrescento a apresentação de Elza Soares, “De que planeta veio Elza Soares”, no canal Sincopado: Música e História, por Felipe Tadeu Breier (13/12/2020), aluno do mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, da Universidade do Minho.

Elza Soares e Pitty. Na Pele. Na Pele. 2017.
De que planeta veio Elza Soares, canal Sincopado: Música e História, por Felipe Tadeu Breier (13/12/2020).

Na Pele

Olhe dentro dos meus olhos

Olhe bem pra minha cara

Você vê que eu vivi muito

Você pensa que eu nem vi nada

Olhe bem pra essa curva

Do meu riso raso e roto

Veja essa boca muda

Disfarçando o desgosto

A vida tem sido água

Fazendo caminhos esguios

Se abrindo em veios e vales

Na pele leito de rio

A vida tem sido água

Fazendo caminhos esguios

Se abrindo em veios e vales

Na pele leito de rio

Contemple o desenho fundo

Dessas minhas jovens rugas

Conquistadas a duras penas

Entre aventuras e fugas

Observe a face turva

O olhar tentado e atento

Se essas são marcas externas

Imagine as de dentro

A vida tem sido água

Fazendo caminhos esguios

Se abrindo em veios e vales

Na pele leito de rio

Elza Soares e Pitty (2017).

Sedução salgada

Cyrano de Bergerac.

Tudo parece outra coisa neste anúncio. O piropo parece galante e a beleza parece cativa da sedução. Até um “favorzinho” parece um cavalo de Tróia. Para uma perspectiva feminina da relação entre piropo e assédio, ver “Piropo é assédio ou sedução?” (https://jornaldeca.pt/piropo-assedio-ou-seducao/).

Cliente: São Paulo Alpergatas, SA. Título: Favorzinho. Agência: ALMAPBBDO. Direcção: Clovis Mello. Brasil, Novembro 2008.

A espuma do desejo e a aritmética da fecundidade

Sou um demógrafo descontinuado. Na licenciatura em Sociologia, optei pela especialização em Demografia. Sete disciplinas, com excelentes professores: Alain Girard (Théories Démographiques; Prospective Démographique), Léon Gani (Démographie), Thérèse Hibert (Analyse Démographique I e II), Alain Norvaez (Méthodes Quantitatives) e Catherine Rollet (Démographie du Tiers Monde). Neste texto breve, a facilidade de acesso à informação justifica o recurso a estatísticas francesas.
Apresentei, com o José Machado e a Rita Ribeiro, no dia 11 de setembro, no Jardim do Solar dos Castros, em Vila Nova de Cerveira, o livro Demografia: É Tempo? de dar mais Tempo à Natalidade e aos Fluxos Migratórios, da autoria de Fernando Cabodeira, editado pela Afrontamento.. Carregar nos gráficos para os aumentar.

O decréscimo da natalidade concita vários temas. Por exemplo, a estabilidade e a confiança no futuro; as políticas natalistas; e a participação das mulheres na vida activa. Proponho uma alternativa romântica: ter ou não ter filhos depende do desejo. A fecundidade diminui porque diminui o desejo de ter filhos. O problema é profundo.

Desde os anos sessenta, Portugal e a Europa conheceram períodos de prosperidade, segurança e esperança, tais como os anos sessenta e os anos noventa. Mas a fecundidade manteve a tendência negativa. A confiança é, apenas, um dos motivos plausíveis.

Fonte: PORDATA.

As políticas natalistas estão na ordem do dia. Prémios ao nascimento, subsídios e demais almofadas. Esforço ingrato. As políticas multiplicam-se e a fecundidade declina. A França, com o índice de fecundidade mais elevado da Europa, configura uma exceção. Iniciou, nos anos setenta, uma política natalista pioneira e arrojada. Se na maioria dos países europeus a fecundidade desceu, em França manteve-se numa espécie de planalto (1978, 1.89 filhos por mulher; 2017, 1,90; ver gráfico 1). Mas as medidas natalistas beneficiaram de outros contributos.

A França afirma-se, em 2008, como um dos países europeus com mais imigração, se incluirmos a segunda geração (ver Gráfico 2).

Fonte: INSEE.

A fecundidade das mulheres imigrantes supera a das “francesas”. Em 2008, o índice de fecundidade ascendia a 1,89, nas mulheres nascidas em França, e 2,89, nas mulheres nascidas no estrangeiro. A incidência dos nascimentos provenientes de mães imigrantes não cessa de aumentar: 16,7%, em 1977, e 22,8% em 2017 (fonte: Tableau T38bis, Insee 2017). Na Ile-de-France (região parisiense), em cada cem nascimentos, 48 têm pelo menos um dos pais estrangeiro. Retenha-se que, por pequena que seja, existe uma dimensão cultural, ver civilizacional, que influencia a fecundidade em França.

Mudemos de assunto. A actividade profissional feminina não começou nos anos sessenta. Em França, no período entre as duas Guerras Mundiais, a taxa de actividade feminina rondava os 38%. Este valor desce no pós-guerra e só será recuperado nos anos 90.

No gráfico 3, observa-se o aumento regular da taxa de actividade das mulheres (15-64), entre 1975-2017.  Regressaremos a este gráfico.

3. Taxa de atividade: por sexo e idade (%). França, 1975-2017.

Fonte: INSEE.

Os portugueses apresentam duas séries estatísticas distintas para a mesma realidade: os censos e as estimativas por inquérito.

Fonte: INE.
Fonte: INE. PORDATA.

Do censo de 1981 para o censo de 2011 (gráfico 4), a taxa de atividade feminina sobe 11,2 pontos percentuais (de 38,2 para 51,0). Nas estimativas dos inquéritos ao emprego (gráfico 5), a diferença, entre 1983 e 2019, resume-se a 3 pontos percentuais (de 51,7 para 54,7). A evolução da taxa de atividade masculina diminui significativamente. Do censo de 1981 para o censo de 2011, a taxa desce 16,8 pontos percentuais. Nas estimativas, 14,4 pontos percentuais. A taxa de atividade masculina desce mais do que sobe a taxa de atividade feminina. Algo semelhante, embora menos vincado, sucede em França (ver gráfico 3).

Importa descobrir o óbvio. Para fazer um filho são precisas duas pessoas: um homem e uma mulher. A quebra da atividade, mais acentuada nos homens (Ver, para a França, o gráfico 3) repercute-se no índice de fecundidade. Envolve, sobretudo, os mais jovens. Entre 1983 e 2019, o grupo etário “menos de 25 anos” é o único grupo etário em que diminui de um modo persistente a taxa de atividade (ver gráfico 6). Desce para quase metade: 67,6%, em 1983, e 34.2%, em 2019. Este decréscimo prende-se com o aumento da escolaridade e com o “prolongamento da adolescência”. A independência dos jovens adultos é tardia. Começam a trabalhar, casam-se e adiam o aumento da família, o que torna problemático, por exemplo, o nascimento do terceiro filho. São económicas as causas deste fenómeno? Diria que são culturais. A economia permite muitas possibilidades. Possibilidades que a cultura escolhe.

A evolução da fecundidade depende da taxa de actividade feminina? Do prolongamento da adolescência? Das políticas demográficas? Estão associados, mas o desejo é decisivo. No Inquérito à Fecundidade, promovido pelo INE, em 2013, as mulheres dos 18 aos 49 anos de idade e os homens dos 18 aos 54 anos de idade, residentes em Portugal, têm em média, 1.03 filhos (fecundidade realizada); pensam vir a ter, em média, 0,74 filhos; assim, o numero médio de filhos que têm e que ainda pensam vir a ter é 1,78 (fecundidade final esperada) (INE, Inquérito à Fecundidade, 2013). Não é uma perspetiva animadora. É a espuma do desejo.

O que mudou, no século XX, foi a condição e a identidade da mulher. Mudou a sua relação com o outro, com a família, com cônjuge, com os filhos, com os colegas e os amigos. Mudou a relação com a casa, com o trabalho e com o lazer. Mudou a relação com o tempo, com o corpo, com o sacrifício e com o prazer. Mudou a autoimagem. Mudou, também, a condição masculina. Uma mudança cultural. O declínio da fecundidade faz parte deste “processo civilizacional”. São novos os laços, as dinâmicas e as âncoras simbólicas. Esta evolução mobiliza o desejo. Águas profundas. A intervenção quer-se mais da ordem da massagem do que da mensagem. Mais contextual do que pontual. Envolvente. O contrário do que se está a fazer. Neste mundo, para motivar é preciso valorizar. Para valorizar é preciso embeber simbolicamente. Quem se lembra, nos últimos sessenta anos, de uma iniciativa simbólica valorativa da figura do casal procriador? Dos outros casais a promoção é, no mínimo, todos os meses? O nevoeiro tem estas artes: enxerga-se bem na encosta e mal junto ao rio. A quem serve o estrabismo social?

Fonte INE / PORDATA.

O Japão debate-se com um índice de fecundidade baixo: 1,36 filhos por mulher, em 2019. Adivinha-se sinais de uma aposta numa intervenção desmultiplicada e ambiental para estimular a fecundidade. A célebre série de anime Naruto prossegue, mas o novo herói é o filho de Naruto. Crescem os manga e os anime em que o herói é familiar: pais e filhos. Talvez seja a hora de tomar um chá de benchmarking.

Desejo

Giorgio Armani.

Desejo e leveza. Cor e movimento. A atriz Cate Blanchett, vencedora de um óscar. Um cover de klaus Nomi. Um anúncio que é um regalo.

Marca: Giorgio Armani. Título: Sì. Direcção: Fleur Fortuné. Janeiro 2019.
Klaus Nomi. You don´t own me. Klaus Nomi. 1981.

Masculinidades. Toxicidades.

O homem oscila entre o mole e o duro, percorrendo toda a escala de Mohs. Depende dos momentos e das perspectivas. Os anúncios We Believe: The Best Men Can Be, da Gillette, e What is a man? A response to Gillette, da Egard Watches, constituem casos ilustrativos. O primeiro compraz-se com o lado negativo do homem, o segundo, com o lado positivo. Que lhes preste! Afigura-se-me que a ambos falta ironia, a faculdade de estar dentro e de estar fora, de falar sabendo que se pode estar calado.

Marca: Gillette. Título: We Believe: The Best Men Can Be. Estados-Unidos, Janeiro 2019.
Marca: Egard Watches. Título: What is a man? A response to Gillette. Estados-Unidos, Janeiro 2019.

As malhas do género

Libresse. #wombstories. 2020.

Três anúncios excelentes,

Tem vindo a crescer o número de anúncios dedicados ao género. Abrangem todas a categorias: transgénero, homossexual, lésbica, heterossexual… A maioria propõe anúncios de promoção. Existem, no entanto, anúncios que, embora centrados no género, não visam a promoção de uma categoria, mas a exposição da sua condição,  sem visar uma “vantagem competitiva”. Parece ser o caso do anúncio Womb Stories, da Libresse. “Histórias de úteros”, com dores e prazer, amor e horror, que revelam uma relação contraditória com corpo e a mente. O anúncio é impactante. A combinação de sequências filmadas e de animação funciona magistralmente.

“And yet the same research found that half of women feel society wants them to keep silent about their experiences, while half of women felt staying silent about their issues damaged their mental health. This leads to a damaging silence around a range of difficult and sensitive issues that women face every day. The physical concern may be treated, but the emotional dimension is often left unheard and overlooked” (https://www.lbbonline.com/news/libresse-tells-a-wombstory-no-ad-has-told-before-in-latest-taboo-busting-ad).

Marca: Libresse. Título: #wombstories. Agência: AMV BBDO. Direcção: Natasha Braier. Reino Unido, Julho 2020.

O anúncio #ShareTheLoad, da Ariel, adopta um discurso feminista num país, a Índia, patriarcal. Teve um impacto mediático e social considerável. Ganhou vários prémios. Trata-se de um anúncio que promove, assumidamente, a condição feminina.

Marca: Ariel. Título: #ShareTheLoad. Agência: BBDO India. Índia, Fevereiro 2016.

O anúncio Francesca, da Diesel, é um misto de exposição de uma condição e promoção de uma categoria.

“No mês do orgulho LGBTQI+, a DIESEL apresenta seu novo filme “Francesca”, dirigido por Francois Rousselet e realizado com o Conselho da Diversity, associação italiana comprometida com a promoção da inclusão social.
O filme criado pela Publicis Itália mostra cenas de uma jovem transgênera e sua jornada durante o processo de transição de gênero. Vemos Francesca, que nasceu menino, se transformar em uma linda mulher, enquanto acompanhamos seu cotidiano, as descobertas dos elementos que compõem o universo feminino e sua relação com a fé, que a leva a buscar a vida em um convento” (https://www.youtube.com/watch?v=535_479z-hM).

Marca: Diesel. Título: Francesca. Agência: Publicis (Itália). Direcção: François Rousselet. Internacional, Junho 2020.

Homofobia na Rússia

No dia 1 de Julho, ocorrerá um referendo na Rússia, com várias propostas a votação. A mais notória é a possibilidade de o presidente (Vladimir Putin) poder renovar mais dois mandatos. Entre as demais propostas, consta o princípio de um casamento apenas entre um homem e uma mulher. Enquadrado nesta perspectiva, o anúncio russo Adopção, da Agência da Informação Federal, posiciona-se contra a adopção de crianças pelos homossexuais. Para aceder ao anúncio, carregue na imagem ou utilize o seguinte endereço: http://www.culturepub.fr/videos/agence-d-information-federale-adoption-2/.

Agência de Informação Federal. Adopção. Rússia, 2020.

Desigualdade perante o sono

Ariel

A publicidade interessa-se pelas questões de género. Retomando os termos de Louis Althusser, a publicidade não inventa, nem descobre os problemas de género, reinventa-os e vulgariza-os. O anúncio indiano Share the Load é refinado e persuasivo. Algo paira no ar. Sente-se. A um ritmo lento e magnético. Tudo se precipita nos derradeiros segundos. O problema: a mulher tem falta de dormir; “71% das mulheres dormem menos do que os homens devido às ocupações domésticas”. E a solução: repartir as tarefas, partilhar a lavagem da roupa, sem esquecer Ariel, o terceiro elemento. Os anúncios orientais têm o dom de expressar a vida quotidiana sob uma luz mágica.

Marca: Ariel. Título: Share de Load. Agência: BBDO India. Direcção: Shimit Amin. Índia, Março 2020.

Frida Kahlo. Fotografias.

Frida Kahlo. Pensando na Morte. 1943.

No dia 8 de Março, lembrei-me de Frida Kahlo, uma mulher sofrida e uma artista notável. Na última anotação no diário, escreve: “Espero que la salida sea gozosa y espero nunca más volver” (Espero que a partida seja feliz e espero nunca mais voltar). Uma forma radical de despedida do mundo. A Internet contém muitas fotografias de Frida Kahlo. Partilho algumas.

Convém ter algum cuidado com as fotografias que a Internet disponibiliza. As seguintes fotografias são ambas verdadeiras? Existe uma montagem? Em qual delas?

Frida Kahlo com Diego Rivera.
Frida Kahlo com Trotsky.

Encapar a realidade

Time. Women. Março 2020.

Quando ocorre uma efeméride, costumo recolher os anúncios alusivos. No Dia Internacional da Mulher, não fui bem sucedido. Provavelmente, por vício do olhar ou erro de lugar. Retive o poster da Time, comemorativo dos 100 anos do direito a voto das mulheres. Acompanho o meu reconhecimento com a canção Four Women (1966), da Nina Simone, num vídeo relativamente raro e antigo, que não consegui datar.

Nina Simone. Four Women. Wil is the Wind. 1966. Ao vivo (talvez, em Paris, em 1977).