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Adão, José & cia

BoticárioNascemos para ser pais! Cada vez menos. Nascemos para falhar! Cada vez mais. Nascemos, fatalmente, para ser filhos. Mas existem efemérides que nos resgatam. Por um dia, somos pais ideais. Hoje, domingo, 12 de Agosto, é o Dia dos Pais no Brasil.

Marca: O Boticário. Título: Pais; Agência: AlmapBBDO. Direcção: Luciano Podcaminsky & Heitor Dhalia. Brasil, Agosto 2018.

Vento do Norte

Led Zeppelin IV. Capa.

Led Zeppelin IV. Capa.

“Imaginar-me-ia dificilmente que o diabo fosse misantropo” (Johann Paul Friedrich Richter dito Jean-Paul, 1763-1825).

Debate-se na sociologia a existência de actores ou, em alternativa, de agentes. Com recurso a palavras mágicas tais como “habitus” e “agência”. Em Moledo, pasmam os corpos e derretem os neurónios. Nem reactores, nem reagentes. Só ovos estrelados com protector solar. Tanto prazer em massa sem descarga energética. Nem o anúncio Supermodel, da LG, me consegue animar. Opto por colocar os Led Zeppelin nos auscultadores e dar uns pontapés na espuma do mar. Nem actores, nem agentes, só ovos estrelados. Nem sequer mexilhões. E eu, misantropo, à espera, à espera do vento do Norte ou das nuvens do Sul.

Marca: LG. Título: Supermodel. Agência: Young & Rubican. Direcção: Dave Klaiber. Austrália, Abril 2012.

Led Zeppelin. Black Dog. Led Zeppelin IV. 1971

Sugestão

 

Francis Picabia - Love Parade (1917)

Francis Picabia. Love Parade. 1917.

“O nosso cérebro é uma esponja que se embebe com sugestões” (Francis Picabia, Jésus-Chist Rastaquouère, 1920).

Este anúncio é sugestivo. A sugestão pode ser mais potente do que a realidade. Sobretudo quando se trata de sexo, o maior alcoviteiro da sugestão humana. O anúncio Love Life – Aquarium é mais do que aquilo que mostra. É vulgar? Tão vulgar como nós, preservativos a rebentar de indignação. E a figura da menina? Não sei que diga, talvez uma Capuchinho Vermelho da pós-modernidade ou da sexualidade na idade da técnica. De qualquer modo, este anúncio tem o selo do Secretariado Federal da Saúde Pública da Suíça. Uma dupla garantia.

Marca: Love Life. Título: Aquarium. Agência: Rod Kommunikation AG Zurich. Direcção: David Constantin. Suíça, Fevereiro 2018.

Futebol e natalidade

Futebol e fecundidade. Da Internet.

O envelhecimento demográfico preocupa os países ocidentais. Os baixos valores da natalidade, também. O combate ao envelhecimento não é óbvio. Perante o envelhecimento pelo topo, pouco ou nada se pode fazer, a não ser assegurar um “entardecer da vida” condigno. Ao nível da natalidade, o cenário é diferente. Podem adoptar-se muitas iniciativas. Por exemplo, o incentivo à imigração. A França avançou, há décadas, com uma política consistente e persistente de “apoio à família”. Conseguiu inverter a tendência. A taxa de fecundidade é a mais elevada da União Europeia. Portugal é o lanterna vermelha. Em Portugal, as autarquias mostram-se empenhadas na promoção da natalidade, implementando medidas em áreas tais como a protecção da gravidez, o combate à discriminação no trabalho, o ajustamento da actividade profissional (horários, trabalho a tempo parcial), a guarda de crianças e o apoio material aos pais… Quer-me parecer, por maledicência congénita, que o governo português se mostra activo numa frente em que pouco há a fazer, o envelhecimento, e hesita numa frente em que muito há a fazer, a natalidade (estas questões foram abordadas por Fernando Cabodeira, na sua dissertação de doutoramento em Sociologia, pela Universidade do Minho, em 2017: Alto Minho – Horizonte 2040 – Prospectiva Demográfica e Social).

Se a natalidade resiste à política, nada como recorrer a quimeras, à magia e a outros fenómenos fertilizantes. Consta que um apagão pode propiciar picos de nascimentos nove meses depois. Parece ter sucedido no Estados Unidos (http://www.revistaportuaria.com.br/colunas/480) e no Uganda (https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2009/03/090313_ugandanatalidadegd). Durante um apagão, pouco ou nada se faz, nem sequer ver televisão. Por que não sexualizar, com os preservativos perdidos na escuridão? A interpretação trágica do efeito do apagão manifesta-se poética: acreditando que o apagão é o fim do mundo, as pessoas despedem-se com amor, muito amor. Sobre “os filhos do apagão, não existem provas convincentes.

Bebé football

Filhos da bola. Da Internet.

O futebol é outro mundo. Investigadores da Fundação Althaia, de Barcelona, sustentam que uma vitória num jogo de futebol pode estimular a procriação. Em 2009, o Barcelona foi campeão da Europa. Pelos vistos, os catalães decidiram festejar com sexo. Fala-se na “geração Iniesta”, o jogador que marcou um golo sensacional contra o Chelsea. Nove meses depois, verifica-se um aumento de 16% nos nascimentos (http://www.famili.fr/,football-quand-succes-rime-avec-bebe,422327.asp).

Estes fenómenos maravilhosos tendem, como as aparições dos santos, a propagar-se e a replicar-se. Crescem e multiplicam-se. Os finlandeses venceram surpreendentemente a Inglaterra por 2 a 1 no Europeu de 2016. Nove meses depois, observa-se um pico de nascimentos. “Nunca fizemos tantas epidurais”, garante o Dr. Thorvaldsson, que esteve na origem da “notícia”. Feitas as contas, it’s a fake!

Ao ganhar o europeu de 2016, a selecção nacional deu motivos para uma chuva de partos. Na verdade, nove meses depois não se registou nada de extraordinário em termos de natalidade. Excitados pela trindade da paixão (desporto, sexo e identidade), os portugueses reagem de um modo original: pegam na bandeira e vão apitar para a rua. Em vez de um orgasmo a dois, temos um orgiasmo em massa.

Os anúncios da Hyundai (Boom, Mundial de 2014) e da Chicco (Baby Boom, Mundial de 2018) pescam, com ritmo e humor, nestas águas da bola e da barriga. São as empresas privadas quem valoriza a natalidade. As campanhas governamentais pró-natalidade são raras. São ofuscadas por tópicos concorrentes de elevado desinteresse público. Neste panorama, entre as entidades que mais apregoam a natalidade estão as fraldas Dodot e os bebés Evian.

A terminar, a Canção de Embalar, do José Afonso. Para deitar um pouco de ternura na fervura.

Marca: Chicco. Título: Baby Boom. Agência: Pink Lab. Direcção: Igor Borghi. Itália, Julho 2018.

Marca: Hyundai. Título : The Boom. Agência : Innocean Worldwide Americas. Estados Unidos, 2014.

José Afonso. Canção de Embalar. Cantares de Andarilho. 1968.

Mulher protagonista

Na publicidade, a imagem da mulher objecto submissa foi árvore que já deu fruto. Populariza-se a imagem da mulher protagonista. Algumas vezes, com brilhantismo. Atente-se nos prints da campanha da Stabilo Boss (Título: Highlight the Remarkable; Agência DDB. Alemanha, Abril 2018).

stabilo_boss_edith_1

“Highlight the remarkable. Edith Wilson
The First Lady who assumed her husband’s presidential responsibilities after he was paralyzed by a stroke.”

stabilo_boss_lise_2

“Highlight the remarkable. Lise Meitner.
Discoverer of nuclear fission who male partner was awarded with the Nobel Prize.”

stabilo_boss_katherine_3

“Highlight the remarkable. Katherine Johnson.
The NASA mathematician responsible for the calculations resulting in Apollo 11’s safe return to earth.”

A passerelle electrónica

This coke is a franta

Faço tantos anos quanto os dois últimos dígitos do ano de nascimento. Tenho direito a uma birra inconveniente. A publicidade dedicada a categorias sociais é antiga: raças, etnias e povos, corporações, congregações e exércitos, partidos, elites e clubes, movimentos, minorias, deslocados e vítimas. Nos espaços públicos, em campos de concentração, em paradas. Em praticamente tudo que comunica: exposições, campanhas, competições, propaganda, comunicação social, discursos, imagens, publicidade. Nas coisas e nos espíritos. Prolifera a mostra, positiva ou negativa, das diferenças identificáveis e reclamáveis. Somos confrontados com uma agonística do jogo social, uma exibição da diferença: selectiva (brilham estes e não aqueles), polémica (choque de interesses e narrativas) e elíptica (a maioria das pessoas não existe). Mobilizam-se os próprios e os parceiros; desvalorizam-se uns e valorizam-se outros; espeta-se a verdade nos olhos dos indecisos. Esta culinária é o pão nosso da Sociologia. Parte das nossas investigações foca esta passerelle da agonística social, que adquire especial visibilidade no terceiro milénio, com as novas tecnologias, o reforço da emocionalização, a reemergência das causas no “fim das narrativas e da história”, a reflexividade social e o oportunismo dos caçadores e alquimistas dos valores sociais). Peço desculpa à Coca-Cola, com ou sem Fanta! À Airbnb e a tantas outras marcas socialmente responsáveis. Mantenho alguma reserva a este tipo de anúncios. Não aprecio a exibição do ser humano aos retalhos, em pose, no palco ou no ecrã. Dispenso que me pintem e repintem os olhos. A propaganda nazi foi ignóbil; dispenso o inverso.

O anúncio brasileiro This Coke is a Fanta, da Coca-Cola, conquistou um Leão de Ouro em Cannes. Retomo o anúncio dinamarquês All That We Share, da TV 2. Ilustra as virtualidades de desmontar e baralhar as categorias sociais. Este artigo trouxe-me à memória o poema Parasitas (1885), de Guerra Junqueiro.

Pronto! Não consegui evitar uma birra aniversariante. Acredito que as exibições colectivas, estas e outras, desenham o mapa social em que nos relemos e movemos todos dias. Por outro lado, confesso-me céptico a propósito da bondade da “mercadorização” das causas e das categorias sociais.

Marca: Coca-Cola. Título: This Coke is a Fanta. Agência: David the Agency (São Paulo). Direcção: Vero Von (Landia). Brasil, Junho 2018.

Marca: TV2. Título: All That We Share. Dinamarca. Janeiro 2017.

PARASITAS (Guerra Junqueiro)

No meio duma feira, uns poucos de palhaços
Andavam a mostrar em cima dum jumento
Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,
Aborto que lhes dava um grande rendimento.

Os magros histriões, hipócritas, devassos,
Exploravam assim a flor do sentimento,
E o monstro arregalava os grandes olhos baços,
Uns olhos sem calor e sem entendimento.

E toda a gente deu esmola aos tais ciganos;
Deram esmola até mendigos quase nus.
E eu, ao ver este quadro, apóstolos romanos,
Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz.
Que andais pelo universo há mil e tantos anos
Exibindo, explorando o corpo de Jesus.

As férias e a natalidade

Spies travel

O artigo Fecundidade (https://tendimag.com/2018/06/20/fecundidade-2/) aguçou-me a curiosidade para os anúncios dedicados à natalidade. Consultei, com as entradas Natalidade e Fertilidade, duas bases de anúncios: Culturepub e Ads of the world. Resultado: uma meia dúzia de anúncios, alguns de questionável qualidade. Pelos vistos, o assunto não é relevante. Em cada acto sexual, 200 a 500 milhões de espermatozóides procuram o óvulo. Não é por falta de espermatozóides e de óvulos que os bebés não nascem. Estamos a falar de heterossexualidade. Ora, o prefixo hetero não está na moda. Nem nos organismos de governo, nem nas organizações não-governamentais, nem nas empresas altamente responsáveis. Os bebés, antes de nascer, não têm voz, nem votam, nem pertencem a grupos de pressão. É forçoso admitir que, na publicidade, o marcador dos bebés se resume às fraldas. A pesquisa vale o que vale, aponta, no entanto, para uma inexplicável negligência. Entretanto, a agência de viagens Spies Rejser descobriu que as férias são amigas da natalidade.

Marca: Spies Travel. Título: Do it for Denmark. Dinamarca, Março 2014.

Marca: Spies Travel. Título: Do it for Mom. Agência: Robert/Boisen & Like-Minded. Direcção: Niels Norlov. Dinamarca, Setembro 2015.

Fecundidade

First Time

Este anúncio é vertiginoso. A música e a imagem entrelaçam-se a um ritmo alucinante. Neste anúncio barroco e orgiástico, retenho, a contra-ciclo, o pezinho do bebé. Pelos vistos, os orgasmos também podem ser produtivos. Na realidade, há cada vez mais garrafas de champagne e cada vez menos crianças.

Marca: Moët & Chandon. Título: First Time. Agência: Ogilvy (Paris). Direcção: Manu Cossu. França, Junho 2018.

A boca e o resto

Young Henrys 2

De tanto badalar, o badalo perde o sino. O género justifica, neste anúncio, uma espécie de paródia com final inesperado. Após várias tentativas kitsch apostadas em criar produtos “femininos”, empoderadores da mulher, a australiana Young Henrys propõe uma nova cerveja, a Lady Beer, que sabe a igualdade”:  “The Young Henrys Newtowner, made for your mouth, not your genitals”. Humor, irreverência, provocação, politicamente incorrecto, sentido de marca?

Marca: Young Henrys. Título: Lady Beer. Agência: Unko. Austrália, Maio 2018.

A comédia e a tragédia

Mosaic showing theatrical masks of Tragedy and Comedy. Roman artwork, 2nd century CE.

Mosaic showing theatrical masks of Tragedy and Comedy. Roman artwork, 2nd century CE.

As relações de género são uma tentação para publicidade actual. Acontece, por vezes, a quantidade gerar variedade. Por exemplo, variedade de registos. Os anúncios The Real You Matters, da SBS, e Streetguard, da Tracking Systems de Mexico, aludem a problemas graves: a insegurança das mulheres nas ruas e a discriminação sexual no emprego. Um adopta um registo cómico, o outro, um registo dramático. O primeiro convida a rir a pretexto de situações de vulnerabilidade laboral, tais como a gravidez ou a homossexualidade. O segundo publicita a descoberta de um escudo protector na ameaça da escuridão urbana: um novo comando que activa os alarmes dos carros em redor. Este anúncio é intrigante. Importa, naturalmente, capacitar as potenciais vítimas com meios adequados de defesa. Mas esta solução técnica comporta riscos. O controlo do acesso aos comandos não se adivinha fácil. Se caírem em mãos impróprias, por exemplo de bandos urbanos, o que sucede? O baile da meia-noite no bairro dormitório? Todas as noites passam a noite de S. João? As técnicas costumam oscilar entre o diabo e o bom Deus. Importa saber como aproveitá-las.

“A través de nuevos e innovadores productos integradores de tecnología, Tracking Systems de México, empresa de Grupo UDA, fomenta la prevención y brinda soluciones a empresas en cuatro áreas indispensables como: Logística, Tráfico, Seguridad, y Atención al Cliente” (http://naciontransporte.com/tracking-systems-de-mexico/).

Marca: SBS. Título: The Real You Matters. Agência: Havas Melbourne. Direcção: Carl Sorheim. Austrália, Maio 2018.

Marca: The Tracking Systems de Mexico. Título: Streetguard. Agência: Ogilvy Mexico. Direcção: Mónica G. Carter. México, Maio 2018.