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MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço. Prémio

MDOC-Cartaz da edição de 2019

“Deixem escorrer o crepitar do pensamento” (Álvaro Domingues, Viste aquela galinha gigante?, Público, 29 de Dezembro de 2019.

Mencionei, repetidamente, no Tendências do Imaginário, o festival Filmes do Homem, entretanto, rebatizado, por censura feminista, MDOC – Melgaço International Documentary Film Festival. Procuro fazer o que me apetece e discorrer sobre aquilo que me interessa. Designação à parte, gosto do MDOC. A plataforma UM-Cidades concede, anualmente, por concurso, prémios aos municípios que se destacam pelas boas práticas. Este ano, “na Categoria Município Projeto da região Norte, com menos de 20 mil habitantes, o vencedor foi Melgaço, com o MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço” (Agência Lusa, 15 de Novembro de 2019).

Felicito a Associação Ao Norte e a Câmara Municipal de Melgaço. Para festejar, o Prelúdio do Te Deum (c. 1690) de Marc-Antoine Charpentier, que foi tema das emissões da Eurovisão. Condiz com a vocação internacional do Festival. Charpentier não constava entre os músicos favoritos de Louis XIV. Não obstante, o Te Deum era capaz de fazer marchar os cavalos de bronze das estátuas equestres do Rei Sol.

Marc-Antoine Charpentier. Te Deum – Prelude (c. 1690).

Diabos, diabas e diabinhos

Prenda de Natal. Diabo com diabinho ao ombro. Mistério. Barcelos.

Meia-noite feliz. Nesta freguesia, como em muitas outras, não há missa do galo. Apenas sinos e foguetes. O Natal está passado; agora é todos os dias. Convém dar tempo ao Pai Natal para descer e subir a chaminé. Coube-me um diabo com um diabinho ao ombro, da Mistério, de Barcelos. A minha cara! Há quem me ofereça prendas de que gostam; há, mais raro, quem me ofereça prendas de que gosto. Oferecer-me algo de que gostam e de que gosto é tão improvável como um eclipse solar. Um diabo com um diabinho ao ombro, há quem me conheça! Desertas as “catedrais do consumo” (Jean Baudrillard) e afrouxados os laços de amor (Zygmunt Bauman), regressam os infernos, com diabos e diabas com diabinhos ao colo (ver figuras 2 e 3). Ressurgem os malefícios e as tentações. O pecado.

Provocadora, a Madonna avançou no fio da navalha da moralidade. A primeira vez que a vi foi a cantar Like a Virgin. Vestida de noiva, simula, deitada no palco, algo como um orgasmo. Sustenta-se que a Madonna é polissémica. Mais ou menos polissemia, a Madonna esteve para ser presa no Canadá por causa da coreografia rasteira. Madonna, uma prenda! Segue uma interpretação, ao vivo, em 1984, de Like a Virgin, apresentada na MTV.

Madonna – Like A Virgin (Live MTV VMAs 1984).

O Pai Natal. Questões de género

Virgin Media. Now That’s Christmas. 2019.

Falta visionar dois dos dezasseis anúncios de Natal seleccionados. Ambos evidenciam a sensibilidade de género. No primeiro, da Macy’s, uma rapariga quer ser pai Natal e, no segundo, da Virgin Media, a protagonista é uma drag queen. Esta sensibilidade representa, porventura, a maior ameaça à figura do Pai Natal. Promove a desconsensualização de uma hegemonia.

Nos anos setenta, Alain Touraine e Pierre Bourdieu, entre outros, vaticinaram um futuro auspicioso aos movimentos feministas, ecologistas e regionalistas, alternativos aos movimentos tradicionais, designadamente de classe. Não se enganaram. Estes “novos” movimentos conquistaram poder e influência. Censuram palavras, gestos e símbolos, entre os quais o Pai Natal. Numa crónica do Expresso, Nelson Marques ilustra claramente aquilo que me transcende. Segue um excerto.

“Querido Pai Natal, / Espero que não te importes que te trate assim. Afinal, para mim continuas a ser o velho barrigudo de barbas bancas que não cabe nas chaminés e que se multiplica pelos centros comerciais de todo o mundo, ouvindo os pedidos das crianças que se sentam no teu colo. Não sei durante quanto mais tempo te poderei tratar assim. Parece que a tua existência é uma coisa muito heteronormativa. O futuro, defendem alguns, pertence à Mãe Natal. Ou, melhor ainda, à Pessoa Natal, porque se queremos ser politicamente corretos o melhor mesmo é que o género seja neutro. / Não é coisa que me apoquente, devo confessar. Por mim, até acabávamos com esta tradição, que enganarmos as crianças desde pequenas não é um grande ensinamento para a vida. E talvez não fosse má ideia acabar também com as religiões, que estão na base de tantos males no mundo. É possível que milhões de pessoas se ofendam com a ideia, mas se não quisermos ser tão radicais podemos ao menos discutir o género do Menino Jesus? Porque é que não pode ser uma menina? Porque é que tem sequer de ter um género? E porque é que Deus há de ser um homem? E o Papa? Não está na altura de ser uma mulher?” (Nelson Marques, #género Está na hora de nos despedirmos do Pai Natal?, Expresso, 16.12.2018, excerto; https://expresso.pt/sociedade/2018-12-16-genero.-Esta-na-hora-de-nos-despedirmos-do-Pai-Natal-).

Inferno. Museu Nacional de Arte Antiga. c. 1510-1520.

E o diabo? É verdade que não faltam diabas. Tanto em Amarante (ver Crónica dos Diabos de Amarante; https://tendimag.com/2014/05/28/cronica-dos-diabos-de-amarante/ ), como no inferno (ver imagem do Museu Nacional de Arte Antiga). Em suma, somos pessoas, substantivo feminino neutro.

Isto corrói a imagem de um santo, quanto mais do Pai Natal. A influência da sensibilidade de género na comunicação social, mormente na publicidade, é indubitável. O Pai Natal está em apuros. E não há quem lhe acuda.

Marca: Macy’s. Título: Santa Girl. Agência: BBDO (New York). Direcção: Garth Davis. Estados Unidos, Novembro 2019,
Marca: Virgin Media. Título: Now That’s Christmas. Agência: Rapp. Direcção: Rock Hound. Reino Unido, Novembro 2019.

O Pai Natal na publicidade. Glória e crise.

Júlia Ramalho. Presépio.

A maior mentira dos pais aos filhos não se refere à existência do pai Natal mas à promessa tácita de que as suas prendas os tornarão felizes (Laurent Gounelle, L’Homme que voulait être heureux, 2008).

Tenho andado ausente. Encalhei na Ilha de Sísifo. Perde-se tempo e não se ganha alento. Este artigo é gordo como o Pai Natal. O texto é esquelético mas os exemplos são muitos.

O Pai Natal mágico, risonho e rechonchudo, com barba branca e roupa vermelha, de trenó e na chaminé, é uma enorme fantasia da humanidade, que se espelha na publicidade. Mas tenho a impressão que cada vez menos. Perfila-se uma certa erosão.

No início de Dezembro, identifiquei 16 anúncios de Natal. Todos de grandes marcas. O Pai Natal propriamente dito aparece apenas em três: Coca-Cola, Oreo e Orange. Em outos três anúncios, Rema 1000, Bouygues e NOS, o Pai Natal resume-se a uma pessoa disfarçada. Oito anúncios (Globe Telecom, McDonald’s, Holiday, Migros, Admas Day, John Lewis, Fedex e Posten) recorrem a figuras alternativas ao Pai Natal. Por exemplo, o ET ou o dragão. Os dois anúncios restantes, da Macy’s e da Virgin, envolvem questões de género.

 Do conjunto de anúncios, só encontrei três com a presença do Pai Natal original: o anúncio positivo da Coca-Cola, marca de que o Pai Natal é “embaixador”, o anúncio da Oreo, em que o Pai Natal quase não se vê, sendo o protagonista um duende, e no anúncio dúbio da Orange em que o Pai Natal é armadilhado e capturado por um grupo de crianças.

“En el spot [de Coca-Cola] se ironiza con cariño la conducta de Papá Noel, un hombre extraño que llega de una tierra misteriosa y entra a las casas sin ser invitado, pese a lo cual las personas siempre eligen ver su bondad por encima de todo” (https://www.adlatina.com/publicidad/preestreno-regional-de-la-campa%C3%B1a-navide%C3%B1a-global:-santo-coca-cola-y-santa-claus-proponen-aceptar-las-diferencias).

Marca: Coca-Cola. Título: “What We Share Is Stronger”. Agência: Santo. Direcção: Pucho Mentasti. Argentina, Novembro 2019.

Graças às bolachas Oreo, nasce uma amizade entre um duende e um empregado de uma loja de conveniência que culmina numa viagem no trenó do Pai Natal.

Marca: Oreo. Título: First Christmas. Agência: Martin. Estados Unidos, Novembro 2019.

O anúncio da Orange coloca o Pai Natal numa situação, no mínimo, embaraçosa. Graças às conexões electrónicas, um grupo de crianças, enfants terribles, sequestra o Pai Natal. A crise da imagem do Pai Natal começa a esboçar-se.

Marca: Orange France. Título: #AttrapezNoël – On l’a. Agência: Publicis Conseil. França, Novembro 2019.

Os três anúncios seguintes convocam o “espírito” do Pai Natal, mas o protagonista é um ser humano disfarçado. No anúncio da Rema 1000, o “pai Natal” não consegue entrar na casa inteligente, submetendo-se a uma série de infortúnios. No anúncio da Bouygues, o pai, que imita ao telemóvel o Pai Natal, é surpreendido pela própria filha. No anúncio da NOS, uma rapariga acredita que uma determinada pessoa é o Pai Natal. Esta última acaba por se disfarçar de Pai Natal. Uma “predição criadora”.

Marca: Rema 1000. Título: Crazy Santa. Agência: Try (Oslo). Direcção: Andreas Riiser. Noruega, Dezembro 2019.
Marca: Bouygues Telecom. Título: Papa Noël. Agência: BETC. Direcção: Martin Werner. França, Novembro 2019.
Marca: NOS. Título: A Descoberta. Produção: Ministério dos Filmes. Direcção: Marco Martins. Portugal, Novembro 2019.

O bigode no Dia Internacional do Homem

No dia 19 de Novembro, comemorou-se o Dia Internacional do Homem. Tal como nos últimos vinte anos, não dei pela ocorrência. Nem sabia que existia! Continuaria ignorante não fosse a publicidade, sempre atenta às efemérides.

“Noviembre es el mes del hombre celebrando su día culmen el día 19, Día Mundial del Hombre. Y es el mes donde el bigote toma protagonismo para apoyar a todos esos hombres enfermos de cáncer de próstata con el movimiento #Movember (…)
Gillette vuelve con esta campaña para reivindicar una masculinidad inclusiva, centrándose ahora en un momento clave. La Pubertad, etapa en la que empieza a construirse el hombre que cada uno será en el futuro (…)
La campaña gira entorno a un divertido spot protagonizado por niños que utilizan una canción, a modo de himno (…) Va haciendo que poco a poco éstos se sientan orgullosos de su primer “bigotillo” (https://lapublicidad.net/bigotillo-adolescente-campana-gillette/).

Visto e revisto o anúncio, não vislumbro a ligação ao cancro da próstata. Lembro, em contrapartida, o filme O Clube dos Poetas Mortos (1990). E retenho o mote: “Hay qué ser muy hombre para empezar a ser tú”.

A Gillette pugna por renovar a imagem do homem. Oposta à “masculinidade tóxica”, a “masculinidade inclusiva” é uma expressão chave da campanha. Não a conhecia. Ando distraído. Há palavras como “inclusão” que se tornam intelectualmente angélicas. Resisto. Quero estar onde desejo estar: dentro ou fora. Incluir é, muitas vezes, obrigar a entrar e não deixar sair. Milhões de pessoas morreram de inclusão. Não é boa medicina apagar a memória das palavras, por muito que nos levem ao céu.

Marca: Gillette. Título: A Moustache. Agência: Proximity. Espanha, Novembro 2019.

O murmúrio e o grito

As questões de identidade constituem uma fonte incansável e delicada de discursos. A publicidade não se faz rogada. A propósito, por exemplo, de brinquedos, do cancro da mama ou da assunção de género. Pode significar-se uma identidade discretamente, em modo quase confidencial. Dispensa-se gritar ou arranhar sensibilidades. Há anúncios que transpiram subtileza, outros sopram trombetas num filme mudo.

Marca: Dreamland. Título: Déballe tes rêves. Agência: Mortierbrigade (Bruxelles). Direcção: Marit Weerheijm. Bélgica, Novembro 2019.
Marca: Pink Ribbon. Título: Finally. Agência: Mortierbrigade (Bruxelles). Direcção: Marit Weerheijm. Bélgica, Setembro 2018.

Para aceder ao anúncio seguinte, carregar na imagem.

Anunciante. 22nd San Francisco International Lesbian & Gay Film Festival. Título: Au cinéma. Estados Unidos, 1998.

A desigualdade estética

Apetece-me incorrer em inconveniência. A conveniência, deixo-a para quem lhe convém. O século XX destaca-se pela luta contra a discriminação. Discriminação religiosa, racial, étnica, de género, de orientação sexual… Desenvolveram-se políticas, movimentos e organizações contra a discriminação. Contra todas as discriminações? Não, existe uma que resiste: a discriminação estética. Ser belo ou feio tem efeitos na vida das pessoas. A carreira profissional é influenciada pela fisionomia. O aspecto físico faz diferença, o que é uma injustiça. Não obstante, ninguém faz nada. Não se vislumbra legislação, associação, mobilização ou resistência cívica. Para quando um pacote político pela igualdade estética, uma comissão de promoção da fealdade ou um abaixo-assinado contra o excesso de beleza nas telenovelas portuguesas. Por que hesita a ONU em decretar o Dia Internacional do Feio? Vejo, apenas, um motivo para a indiferença pública em relação à discriminação estética. Como diria A beleza parece sagrada. Não ousamos tocar-lhe.

Marca: Mu Loan. Título: Believe your possibility. Agência: F5 Shanghai. China, 2019.

Não me ajudes!

Mr. Músculo. 2019.

As palavras pesam! Ignora-o quem nunca falou. Os enunciados, “em condições de felicidade”, são performativos (J. L. Austin, How to Do Things with Words, 1962) e legitimam o portador do ceptro (Pierre Bourdieu, Ce que parler veut dire, 1982). As palavras são fontes de poder (Mikhail Bakhtin, Marxismo e Filosofia da Linguagem, 1929).

O anúncio argentino No me ayudes, compartamos, pode não ser um prodígio, mas apresenta duas virtudes:

Releva a perversidade das palavras, incluindo as mais misericordiosas. Ajudar pode significar dominar: ajudo-te na tua obrigação, que, pressupostamente, não compartilho.

Por outro lado, descentra o olhar, deslocando-o para o lar, para a família e para vida privada. Não é nas universidades, na ciência, na arte, na música, na moda, no desporto, na administração pública, nos transportes, na justiça, na comunicação social, na política… que a desigualdade de género mais dói. A mulher no seio da família, no lar, parece ser a gata borralheira da nossa sociedade e dos movimentos sociais que a caracterizam. É irónico que seja uma marca de detergente a levantar o tapete.

Marca: SC Johnson / Mr. Músculo. Título: No me ayudes. Argentina, Setembro 2019.

Lição de género

Benetton. United By Half.

O espírito de missão turva a reflexividade (Albertino Gonçalves).

É insensato publicar um texto como este. Escrever expõe-nos a asneiras íntimas, sem nenhum ganho. Mas, não obstante René Descartes, a doidice está mais bem distribuída do que a razão. Insistir num acto que nos vai prejudicar é estupidez de luxo.

Em sentido lato, discriminar é distinguir. Faculdade indispensável à acção. Num sentido corrente na sociologia, discriminar é avaliar preconceituosamente o outro.

Tu seras un homme, mon fils, da Fondation Des Femmes, prima pela qualidade. Uma sensibilização bem conseguida em torno das relações de género. Merece um comentário detalhado.

Nas últimas cinco décadas, na publicidade, as imagens de género alteraram-se. A supremacia masculina, outrora ostensiva, torna-se mais discreta. O homem sujeito aproxima-se do objecto e a mulher objecto, do sujeito. A submissão feminina já não é o que era. Emerge, entretanto, um novo tipo de anúncio publicitário: a proclamação de género. A moldura das manifestações e das efemérides transita para os anúncios. Seguem dois exemplos desta “nova vaga” (ver, também, Género e Publicidade: https://tendimag.com/2019/08/23/genero-e-publicidade/). Estas mudanças não significam que a publicidade deixou de sustentar o poder masculino garantindo, por fim, a igualdade. O homem não carece aparecer para que o sexismo se insinue. As vias da comunicação são travessas e insuspeitas. Quando os objectos falam, o homem pode saborear o silêncio.

Anunciante: OSFAM GB. Título: #wolmenUnlimited. International Women’s Day. Reino Unido, Março 2017.
Marca: United Colors of Benetton. Título: United By Half. Índia, Março 2017.

O anúncio Tu Seras Un Homme Mon Fils, da Fondation des Femmes, inspira-se no poema de Rudyard Kipling És Um Homem, Se… (If…, ca 1895; ver tradução na parte final do artigo). Uma voz masculina sublinha o modo como um pai deve educar um filho.

“Se em vez de te exaltares, souberes respeitar, escutar, partilhar; se, apesar da derrota, continuas a avançar, tu serás um homem, meu filho; se souberes apoiar sem querer dominar, ser forte sem ser violento; se és capaz de encarar uma mulher sem que ela tenha a temer o teu olhar, tu serás um homem, meu filho; se lutares por todo o lado contra as desigualdades e a violência e tiveres a coragem de quebrar a incidência (?), se recusas que incomodem a tua mãe, a tua irmã ou os teus amigos, bem como todas as mulheres que cruzares na tua vida, então, nesse dia, tu serás verdadeiramente um homem, meu filho! / O assédio e a violência contra as mulheres não dizem apenas respeito às mulheres”.

Anunciante: Fondation des Femmes. Título : Tu seras un homme mon fils. França, Maio 2018.

O anúncio sensibiliza contra o assédio e a violência de que sofrem as mulheres:

“L’idée de cette campagne : adresser les hommes et “futurs hommes” sur les valeurs propices à favoriser l’égalité femmes – hommes dans la société et in fine, mettre un terme à toutes les violences faites aux femmes. Décliné du poème de Rudyard Kipling, le film met en scène des instants de vie entre pères et fils de tous âges, milieux et origines. #TuSerasUnHommeMonFils aborde l’importance de l’éducation aux plus jeunes, au cœur de l’évolution des comportements des hommes envers les femmes » (https://fondationdesfemmes.org/tu-seras-un-homme-mon-fils/).

Para que um filho se torne “verdadeiramente um homem », que posturas e valores deve o pai promover? Colocar-se no lugar do outro é um exercício de reciprocidade recomendável. Troquemos o foco: “que personalidade e que valores deve a mãe promover na relação com a filha para que esta se converta verdadeiramente numa mulher”? Qual o efeito deste desígnio? No mínimo, incómodo. Uma verdadeira mulher? Criada através da relação mãe-filha?

Nós somos animais centrados. Satisfaz-nos, às vezes, enxergar a “metade”. Cantor, homem, filho… O problema é meramente masculino? A mãe não educa os filhos? Não tem influência na respectiva personalidade? Não perfilha preconceitos, incluindo de género? A percepção do mundo por metades pode comportar consequências desastrosas. Recordo a implementação da APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima). “Predestinada” a mulheres, quando os homens, vítimas de violência doméstica, começaram a demandar a APAV, foi uma vergonha de Estado.

Fonte: Christine Mateus. TuSerasUnHommeMonFils : une campagne pour ne pas en faire un macho. Le Parisien ( http://www.leparisien.fr/societe/tuserasunhommemonfils-une-campagne-pour-ne-pas-en-faire-un-macho-29-05-2018-7742571.php).

Este retrato da boa masculinidade convoca o binómio, polémico, protector/vítima. O que me intriga. Intriga-me, também, as qualidades do “verdadeiro homem”, que, preconizadas no anúncio, quase coincidem com os atributos associados pela população francesa a “ser homem”, segundo os resultados do inquérito online promovido pela própria Fondation des Femmes http://www.leparisien.fr/societe/tuserasunhommemonfils-une-campagne-pour-ne-pas-en-faire-un-macho-29-05-2018-7742571.php). Não imagino o que esta correspondência significa. Já me perdi em demasia. Pelo caminho, dispenso a noção de “verdadeiro homem”, cujo cadastro histórico é tremendo.

És Um HOMEM, Se… (Rudyard Kiplin, tradução)
Se és capaz de conservar o teu bom senso e a calma,
Quando os outros os perdem, e te acusam disso,
Se és capaz de confiar em ti, quando te ti duvidam
E, no entanto, perdoares que duvidem,
Se és capaz de esperar, sem perderes a esperança
E não caluniares os que te caluniam,
Se és capaz de sonhar, sem que o sonho te domine,
E pensar, sem reduzir o pensamento a vício,
Se és capaz de enfrentar o Triunfo e o Desastre,
Sem fazer distinção entre estes dois impostores,
Se és capaz de ouvir a verdade que disseste,
Transformada por canalhas em armadilhas aos tolos,
Se és capaz de ver destruído o ideal da vida inteira
E construí-lo outra vez com ferramentas gastas,
Se és capaz de arriscar todos os teus haveres
Num lance corajoso, alheio ao resultado,
E perder e começar de novo o teu caminho,
Sem que ouça um suspiro quem seguir ao teu lado,
Se és capaz de forçar os teus músculos e nervos
E fazê-los servir se já quase não servem,
Sustentando-te a ti, quando nada em ti resta,
A não ser a vontade que diz: Enfrenta!
Se és capaz de falar ao povo e ficar digno
Ou de passear com reis conservando-te o mesmo,
Se não pode abalar-te amigo ou inimigo
E não sofrem decepção os que contam contigo,
Se podes preencher todo minuto que passa
Com sessenta segundos de tarefa acertada,
Se assim fores, meu filho, a Terra será tua,
Será teu tudo que nela existe
E não receies que te o tomem,
Mas (ainda melhor que tudo isto)
Se assim fores, serás um HOMEM.
Rudyard Kipling (ca 1895).

Verticalidade

René Magritte. Golconda. 1953.

C’est d’abord le symbolisme de la verticalité que suggèrent « la voûte étoilée au-dessus de nos têtes » et le simple zénith du ciel azuré diurne. Cette verticalité ascendante est liée à l’une des données les plus caractéristiques de l’anthropologie, mais en même temps elle dépasse en dignité et en puissance cette donnée existentielle. Les anthropologues, les paléontologues, les psychologues généticiens et les poètes (A. Leroi-Gourhan, P. Werner, G. Durand, R. Desoille, M. Montessori, H. Wallon, G. Bachelard) se rencontrent pour affirmer que la verticalité dressée de l’homo sapiens est, selon le mot de Bachelard dans L’Air et les Songes, « une métaphore axiomatique » (Gilbert Durand, « Verticalité et transcendance », Encyclopaedia Universalis : https://www.universalis.fr/encyclopedie/symbolisme-du-ciel/1-verticalite-et-transcendance/).

Marca: MTV. Título: Chuva de Homens. Agência: John Doe (Amsterdam). Direcção: Hein Mevissen. Canadá, 2006.

No anúncio Chuva de Homens, da MTV (2006), os seres humanos caem das nuvens como ícaros ou anjos negro. Ou peixes e sapos (ver excerto do filme Magnólia: https://www.youtube.com/watch?v=TCJsZBK1JKE). Às centenas. É bom sinal, sinal de que a “MTV is in the air”.Temos tendência a pensar o mundo na vertical. A começar pelo sagrado. Deus desceu à terra e Cristo subiu aos céus. A ascensão dos santos, a queda dos anjos e a descida aos infernos constituem um sobe e desce incessante. Nesta “metáfora axiomática”, a horizontalidade converte-se num patamar ou num contraponto.

Uma boa ideia tem a sina de ser, mais cedo ou mais tarde, retomada. No anúncio The Fallen Angel, da Axe (2011), uma dúzia de anjos femininos precipitam-se atraídos pela fragância do desodorizante masculino Axe. É pecado? Pelo menos, renunciam às auréolas. Excelente, o anúncio peca pelo sobressalto de masculinidade.

Marca: Unilever / Axe. Título: The Fallen Angel. Agência: BBH London. 2011.

O anúcio The Fallen Angel foi proibido na República de África do Sul. Não por excesso de masculinidade mas por heresia: os anjos não resistem ao apelo da carne. Segundo a Advertising Standards Authority (South Africa):

The problem is not so much that angels are used in the commercial, but rather that the angels are seen to forfeit, or perhaps forego their heavenly status for mortal desires… This is something that would likely offend Christians in the same manner as it offended the complainant (https://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/africaandindianocean/southafrica/8850294/Deodorant-commercial-banned-for-offending-Christian.html).