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Inexoravelmente: a mulher e o desporto

Nescau Strong girls

De onde sopra o vento? As mensagens repetem-se e reverberam no pensamento. A publicidade insiste no valor ímpar do sexo feminino. O desporto também ajuda. Segundo a Nescau, produz mulheres “fortes e confiantes”:

“Campaign, created by Ogilvy Brazil, seeks to empower young women through sport. The idea came up after NESCAU® carried out a survey on girls’ attitude towards sports activities, stressing the importance of sports practice to boost confidence. The aim is to raise consumers’ awareness of the role of sport in young women’s development and ability to face the challenges of adult life. The main idea behind the movie is to show that, much in the same way sports turn boys into men, it can also turn girls into strong and confident women”.

Já tenho saudades das minhas lembranças. Acrescento uma raridade: Isabelle Mayereau, Inexorablement (Déconfiture, 1979).

Marca: Nescau. Título: Strong girls. Agência: Ogilvy & Matter Brasil, Rio do Janeiro. Direcção: Daniel Lombardi. Brasil, Março 2017.

Isabelle Mayereau. Inexorablement. Déconfiture. 1979.

O homem desfolhado

Fiat Love affair

Nos últimos tempos, a publicidade mostra-se ginecêntrica. Um efeito do Dia Internacional da Mulher?  Alguns anúncios são, no mínimo, ambíguos. Embora focados no gineceu, podem revelar-se androcentrados. Sabe-se que um anúncio de mulheres pode ser construído pelo e para o olhar dos homens (Goffman, Erving,  Gender Advertisements, 1976). Por seu turno, a promoção das mulheres pode subordinar-se a uma pauta de valores associados aos homens. O caminho para a vitória pode passar pela adopção dos modos e das metas típicos  do adversário. “Bater o outro no seu próprio terreno” (ver Goffman, Erving, Stigma, 1963).

O anúncio Love Affair, da Fiat, caracteriza-se por um humor complexo. Baralha as cartas das relações de género. Quem é predador? Ele, que se aproxima, ou ela, que controla? Quem é objecto? Ele que se despe ou ela que o incita a despir? O feitiço virou-se contra o feiticeiro, no caso dele ou no caso dela? Para “domesticar” o “macho”, a mulher precisou fazer-se homem? O anúncio não parece androcêntrico, e conservador? Predominam atitudes e valores patriarcais tais como o galanteio, o cavalheirismo, a protecção, a delicadeza, a elegância… Mas resultam caricaturados. Rimo-nos deles, e rindo, desarmámo-los.

Marca: Fiat. Título: Love Affair. Agência: Doner. USA, Março 2017.

Contrição

skol Reposter

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
…………..
E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

(Luís de Camões, Sonetos)

Há anúncios publicitários que parecem um acto de contrição. No Reposter da Skol, o máximo torna-se mínimo e o mínimo, máximo. Mudam as vontades, as imagens e as palavras, mas a gramática permanece, a gramática da alteridade estereotipada. De qualquer modo, os posters mudaram graças à arte e ao design exclusivamente femininos. Senhora do seu corpo e da sua vontade, a mulher não serve cerveja, “toma” cerveja.

Marca: Skol. Título: Reposter. Agência: F/Nazca Saatchi & Saatchi. Brasil, Março 2017.

Sexualidades

Magnum ceremony

Uma cerimónia esplendorosa! Com este balanço, todos os passos vão dar ao altar. A “surpresa” concede mais brilho ao caminho. A homossexualidade, ver o mundo LGBT, tornou-se tema destacado da publicidade actual. Depois da Diesel (https://tendimag.com/2017/02/21/um-buraco-no-muro/), da Nike (Vídeo 2), da SJ Swedish Railways (https://wordpress.com/post/tendimag.com/31215) ou da Coca-Cola (Vídeo 3), a Magnum sustenta a diversidade da sexualidade e do amor. Ao primeiro anúncio, podia-se pensar num capricho de uma grande marca; afinal, deve ser investimento. O tema vende junto dos públicos alvo!

Marca: Magnum. Título: Ceremony. Agência: LOLA MullenLowe. Direcção: Martin Werner. Espanha, Março 2017.

Marca: Nike. Título: We believe in the power of love. Direcção: Luca Finotti. Internacional, Feveiro 2017.

Marca: Coca-Cola. Título: Pool Boy. Agência: Santo (Buenos Aires). Argentina. Março 2017.

 

Mulheres incríveis

Contrex

“Nós somos invencíveis. Nada nem ninguém nos pode parar. Não há limites àquilo que podemos realizar. Marchamos sem armadura, sem estrelas nos nossos ombros. Ninguém nos obriga, mas ninguém nos pode impedir. Porque, sim, nós somos invencíveis. Mas não o nosso corpo. Dá-lhe todos os dias os minerais de que precisa: cálcio, magnésio, Contrex. O vosso corpo é a favor!”

O anúncio “Nous sommes invencibles”, da Contrex, representa uma inovação na imagem de marca da empresa. O foco são as mulheres, mas já não se fala de “elegância”, a Meca peregrinada durante décadas. Quem se atem às palavras julga tratar-se de um anime ou de um hino de samurais. Limitar a interpretação a este tópico seria injusto. Tomar a árvore, delirante, pele floresta. As imagens apresentam-se em dissonância com as palavras: corpos esgotados e desalentados. O anúncio é um poema de palavras e imagens. A alma invencível mora num corpo vencido. Só um druida pode acudir ao desequilíbrio. Assim como a poção mágica de Panoramix dá força a Axtérix, a água de Contrex dá potência ao corpo das mulheres. Resultado: uma alma invencível em corpo inabalável.

Marca: Contrex. Título: Nous sommes invencibles. Agência: Marcel. França, Março 2017.

De que são feitas as raparigas?

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What are girls made of?, da Nike, é mais um anúncio polarizado pelo Dia Internacional da Mulher. De algum modo, pensamento e sentimento acontecem por agenda e por medida. Um anúncio assumido e sedutor. Particularmente feliz a aposta na juventude, na música e na poesia. É, por acréscimo, um anúncio russo! Faltam anúncios russos no Tendências do Imaginário.

Marca: Nike. Título: What are girls made of? Agência: Wieden + Kennedy (Amsterdam). Rússia, Março 2017.

 

Silêncio, que quero falar!

Woman interrupted

O anúncio da Woman Interrupted sustenta que as mulheres são vítimas de interrupção nas trocas verbais com homens. Carece investigação: as mulheres interrompidas pelos homens, as mulheres pelas mulheres, os homens pelas mulheres e os homens pelos homens. Aguardo os resultados. Confesso que, neste capítulo, acontece-me interromper as pessoas, não sei se mais as mulheres ou os homens. Deve ser uma questão de ansiedade. Mas o meu maior pecado não é esse: normalmente, não interrompo, desligo! Desligo com assiduidade e com boa consciência, sem discriminação de género.

Anunciante: Woman Interrupted. Título: An app that detects manterruption. Agência: BETC São Paulo. Brasil, Março 2017.

Transformação

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Multiplicam-se os anúncios com pessoas LGBT. O Paul’s Journey, da SJ Swedish Railways, é especial. Como diria Edgar Morin (1967, Commune en France, Paris, Fayard), é stendhaliano: tem o sentido do detalhe. Durante uma viagem de comboio, gesto a gesto, assiste-se a uma transformação da aparência identitária.

 

Marca: SJ Swedish Railways. Título: Paul’s Journey. Agência: TBWA Stokholm. Direcção: Anders Hallberg. Suécia, Março 2017.

Sob suspeita

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Jean-Jacques Rousseau

Prefiro ser um homem de paradoxos que um homem de preconceitos (Jean-Jacques Rousseau [1762], Émile, La Pléiade, IV, pág. 323).

Um anúncio de consciencialização que incide, sem eufemismos nem artifícios, num problema específico é uma dádiva rara. Que obstáculos enfrenta uma pessoa, nomeadamente uma mulher, que pretende retomar a actividade profissional? A “campanha contra os preconceitos” da associação Tissons la Solidarité encena um diálogo desigual entre uma mulher à procura de emprego e o responsável pelos recursos humanos da empresa, que sabe o que quer. Não quer, por exemplo, contratar quem interrompeu a carreira profissional. Pelos vistos, é mau sinal, sinal de dúvida acerca da motivação da candidata. Findo o crivo, resta à candidata agradecer a mortificação do eu a que foi submetida. O disparate não reside nos preconceitos do responsável pelos recursos humanos. Este é apenas um intérprete da política laboral desta e de outras empresas. Explícito, este anúncio não é hiper-real. Mas é duro. Consciencializar não é ameaçar, mas enquadrar e esclarecer. O preconceito, o estigma e a injustiça no trabalho amesquinham a nossa cidadania.

Anunciante: Tissons la Solidarité. Título: Entretien avec Mathilda May. Agência : Publicis Conseil. Direcção : Jérome Bonnel. França, Fevereiro 2017.

 

Um buraco no muro

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Fotografia de David LaChapelle para a Diesel. 1995.

Vinte e dois anos após a fotografia com dois marinheiros a beijar-se (Diesel, 1995), David LaChapelle dirige o novo anúncio da marca: Make Love Not Walls. Próximo, nos anos oitenta, de Andy Warhol, David LaChapelle é uma referência no domínio da fotografia e da realização de vídeos musicais.

Make Love Not Walls, da Diesel, tem concitado rasgados elogios. A qualidade da imagem condiz com a fama do realizador. Uma explosão de cores sobre o cinzento do muro. A dança, o movimento e a fusão tornam o anúncio empolgante. A música parece talhada à medida. Os graffitis, os anos sessenta, o amor, o desejo e a sexualidade desafiam preconceitos e barreiras.

#makelovenotwalls trata de derrubar as paredes mentais e físicas que nos separam, e deixar todos os lados se unir em nome da unidade e do amor. [A marca] Diesel quer derrubar essas paredes mostrando que um amanhã mais brilhante e emocionante é possível (Diesel. Make Love Not Walls).

A história de Make Love Not Walls  é simples: uma abertura no muro dá azo a uma quase orgia: dança, libertação, comunhão e sexo. O anúncio assume-se contra a opressão e a discriminação. Para um velho do Restelo, sobram dois reparos tímidos e fugazes como fagulhas. Primeiro, a libertação, a comunhão e o amor tendem a aparecer mais associados a uma orientação sexual específica. Uma questão de impacto? Segundo, o vídeo fragiliza ou reforça a imagem do “profeta do muro”? Pressuponho, com algum risco de erro, que o anúncio visa promover, antes de mais, a imagem da Diesel. Não resisto a recolocar um anúncio da Levi’s em que um casal também arrasa “paredes mentais e físicas”.

Marca: Diesel. Título: Make Love Not Walls. Agência: Anomaly Amsterdam. Direcção: David LaChapelle. Holanda, Fevereiro 2017.

Marca: Levi’s. Título: Odyssey. Agência:  Bartle Bogle Hegarty. Direcção: Jonathan Glazer. Reino Unido, Janeiro 2002.