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Prazer submerso

H&M

Descabidos, ranhosos, mesquinhos. Uma cacofonia de palpites desconexos. O génio de prever o passado. É o novo maná.

O “desvio à norma” é uma tradição na publicidade, por exemplo em termos de etnicidade, género e ou estética. O anúncio Enjoy the silence, da H&M, convoca uma mulher, que se regera num mar de silêncio. Um caso notável de estetização.

Marca: H&M. Título: Enjoy the silence. Agência: Forsman & Bodenfors. Direção: Amber grace Johnson. Internacional, Maio 2021.

Estética de género

Gustav Klimt. Retrato de Adele Bloch-Bauer. 1907.

A Dove preza a valorização estética das belezas menos belas (vídeo 1). Seria equilibrado incluir, nesta equação cosmética, os homens? Não são, a priori, elegíveis? O milagre é apenas feminino? Na verdade, existe uma linha masculina de produtos Dove. Numa amostra de cinquenta anúncios Dove, uma meia dúzia contempla homens. Quais são os tópicos? A notícia da gravidez (vídeo 2), a feminização da masculinidade (vídeo 3), um pintor de mulheres (vídeo 4), momentos paternos (vídeo 5)… Não há beleza masculina alternativa? A beleza dos “feios, porcos e maus”? O valor da beleza conjuga-se, sobretudo, no feminino. A igualdade é fatalmente desigual. Acontece-me ficar confuso: todas as mulheres são belas, umas mais que outras, mas aquelas que são menos belas são as mais belas de todas. A Dove não desconhece o poder da beleza, relativiza-o.

Marca: Dove. Título: It’ on Us. Agência: LOLA Mullen Lowe Madrid. Direção: Lourens Van Rensburg. Espanha, março 2021.
Marca: Dove. Título: First Fatherhood moments. Estados-Unidos, junho 2015.
Marca: Dove. Título: Slow. Agência: Ogilvy & Mather (Brasil). Direção: Carlão Busatto. Brasil, 2013.
Marca: Dove. Título: Real Beauty Sketches. Agência: Ogilvy (São Paulo). Direção: John x Carey. Brasil, 2013.
Marca: Dove. Título: Calls for dads. Estados-Unidos, 2014.

Gravidez e carreira profissional

Paula Rego. Pregnant Rabbit Telling Her Parents.1982.

Uma primeira leitura do anúncio A Career-Limiting Move separou-me os fusíveis. Nossa Senhora das Candeias! Só a repetição até à última letra acendeu a inteligência. Afinal, o significado deste stop motion é óbvio:

Anna Mantzaris directs a funny and important stop motion piece for Global Women New Zealand, in time for International Women’s Day 2021. Anna uses her signature style with humour and imperfect characters, to raise awareness of the “Motherhood Penalty” that significantly impacts women in the workplace in New Zealand. The short shows there is almost nothing a woman can do in the workplace that is more career-limiting than having a baby (http://www.passion-pictures.com/uk/animation-studios/project/global-women/).

Como pode uma mulher condenar a carreira profissional? Cortar a gravata ao patrão? Criar o caos no escritório? Surripiar uma bolacha ao patrão e regurgitá-la? Nem pensar! Fatal, mesmo, é engravidar. Talvez cortar o equivalente simbólico da gravata.

Anunciante: Global Women. Título: A Career-Limiting Move. Agência: Saatchi & Saatchi NZ. Direção Anna Mantzaris. Nova-Zelândia, março 2021.

Desigualdades desiguais

Quino.

Género, raça, etnia, território, idade, política, capital social, capital físico, nacionalidade, língua, saúde, profissão, migrações, rendimentos, educação, beleza, gosto… Um sem fim de fatores de desigualdade social. Cada um com a sua capacidade de mobilização. Existe uma desigualdade na luta pela igualdade. Há fatores mais desiguais que outros. Uma lista de anúncios pela igualdade revela que existem fatores quase ausentes enquanto que outros sobrecarregam lista.

O anúncio indiano The Divide, da Paytm, propõe um dispositivo engenhoso para mapear as desigualdades de género. O resultado não engana.

Marca: Paytm. Título: The Divide. Agência: Dentsu Impact. Direção: Ruchi Narain. Índia, março 2021.

Espelho de aumento

Master of the Coronation of the Virgin. De mulieribus claris, Marcia, circa 1403.

“Não aprecio anúncios de promoção a categorias sociais. A discriminação positiva é discriminação”, de raça, etnia, nacionalidade, religião, política, profissão, estatuto, saúde, conhecimento, estética, desporto, idade e, neste caso, género. Por apreciáveis que sejam, não aprecio. Mas não censuro. Como escreve Norman Rush (2015), “a discriminação positiva é uma expressão curiosa. É a desigualdade ao serviço da igualdade” (Corps subtils, Paris: Rivages). Não é menos verdade que a sociedade não é uma folha de papel milimétrico onde se traçam riscos de boa vontade. A sociedade, incluindo o universo feminino, é rugosa, diferenciada e imprevisível. As dobras da desigualdade não são fáceis de engomar. O critério predominante de seleção de anúncios do Tendências do Imaginário não é o tema, o dilema ou a ideologia, mas a qualidade. O anúncio First of Many — Women’s History Month 2021, da Google, é excelente, ressuma qualidade, da primeira até à última imagem. Imagens de uma elite.

Marca: Google. Título: First of Many – Women’s History Month. Estados-Unidos, maio 2021.

Beijos

O amor é a invenção de tudo, uma originalidade inesgotável (Fernando Namora).

Gustav Klimt. Girlfriends. 1916-1917.

O título do anúncio da Nettflix é L’Amour. C’est Tout. O amor é tudo, para todos, sem apropriação, nem discriminação positiva ou negativa. Não é? A canção La Vie en Rose é uma escolha acertada.

Marca: Nettflix. L’amour c’est tout. França, fevereiro 2021.

O armário

Egon Schiele. Weibliches (Couple de femmes amoureuses). Liebespaar. 1915.

“Sair do armário”, assumir-se perante si e perante os outros (familiares, vizinhos, os outros). Descobrir-se, transformar um estigma num emblema. “Sair do armário” é uma noção que costuma aplicar-se ao percurso identitário dos homossexuais. No anúncio mexicano The Best Gift (2021), da Doritos, não é o filho, homossexual, quem se assume mas o pai. Paulatinamente e com alguma dramatização. Episódio a episódio, esboça-se um olhar das relações de género. O anúncio está no vento. Pelo tipo, um anúncio de sensibilização, e pelo tema, a homossexualidade.

O anúncio canadiano Girlfriend (2005), da Toyota, aborda, também, a homossexualidade, mas de um modo distinto. A homossexualidade é, agora, feminina. O humor substitui a gravidade, com recurso a um registo curto e compacto: Girlfriend dura 39 segundos, The Best Gift, 2:16. Enfim, The Best Gift mostra uma conversão, Girlfriend aposta numa surpresa. Ambos encaram positivamente a homossexualidade.

Marca: Doritos. Título: The Best Gift. Agência: Slap Buenos Aires. Direção: Nico Perez Veiga. México, Janeiro 2021.
Marca: Toyota. Título:Girlfriend. Agência: Saatchi & Saatchi. Direção: Erich Joiner. Canadá, 2005.

Com os olhos na pele

Detail of a portrait of the Dominican Cardinal and renowned biblical scholar Hugh of Saint-Cher painted by Tommaso da Modena in 1352

O que é belo? O que é feio? Quem é belo? Quem é feio? Quem passa despercebido? Quando, onde, perante que público? A beleza já não é o que era? “A beleza está nos nossos olhos” (Oscar Wilde).

“Observe a face turva
O olhar tentado e atento
Se essas são marcas externas
Imagine as de dentro.”
(Elza Soares e Pitty, Na Pele, 2017)

Segue uma canção áspera, Na Pele, de Elza Soares e Pitty. Acrescento a apresentação de Elza Soares, “De que planeta veio Elza Soares”, no canal Sincopado: Música e História, por Felipe Tadeu Breier (13/12/2020), aluno do mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, da Universidade do Minho.

Elza Soares e Pitty. Na Pele. Na Pele. 2017.
De que planeta veio Elza Soares, canal Sincopado: Música e História, por Felipe Tadeu Breier (13/12/2020).

Na Pele

Olhe dentro dos meus olhos

Olhe bem pra minha cara

Você vê que eu vivi muito

Você pensa que eu nem vi nada

Olhe bem pra essa curva

Do meu riso raso e roto

Veja essa boca muda

Disfarçando o desgosto

A vida tem sido água

Fazendo caminhos esguios

Se abrindo em veios e vales

Na pele leito de rio

A vida tem sido água

Fazendo caminhos esguios

Se abrindo em veios e vales

Na pele leito de rio

Contemple o desenho fundo

Dessas minhas jovens rugas

Conquistadas a duras penas

Entre aventuras e fugas

Observe a face turva

O olhar tentado e atento

Se essas são marcas externas

Imagine as de dentro

A vida tem sido água

Fazendo caminhos esguios

Se abrindo em veios e vales

Na pele leito de rio

Elza Soares e Pitty (2017).

Sedução salgada

Cyrano de Bergerac.

Tudo parece outra coisa neste anúncio. O piropo parece galante e a beleza parece cativa da sedução. Até um “favorzinho” parece um cavalo de Tróia. Para uma perspectiva feminina da relação entre piropo e assédio, ver “Piropo é assédio ou sedução?” (https://jornaldeca.pt/piropo-assedio-ou-seducao/).

Cliente: São Paulo Alpergatas, SA. Título: Favorzinho. Agência: ALMAPBBDO. Direcção: Clovis Mello. Brasil, Novembro 2008.

A espuma do desejo e a aritmética da fecundidade

Sou um demógrafo descontinuado. Na licenciatura em Sociologia, optei pela especialização em Demografia. Sete disciplinas, com excelentes professores: Alain Girard (Théories Démographiques; Prospective Démographique), Léon Gani (Démographie), Thérèse Hibert (Analyse Démographique I e II), Alain Norvaez (Méthodes Quantitatives) e Catherine Rollet (Démographie du Tiers Monde). Neste texto breve, a facilidade de acesso à informação justifica o recurso a estatísticas francesas.
Apresentei, com o José Machado e a Rita Ribeiro, no dia 11 de setembro, no Jardim do Solar dos Castros, em Vila Nova de Cerveira, o livro Demografia: É Tempo? de dar mais Tempo à Natalidade e aos Fluxos Migratórios, da autoria de Fernando Cabodeira, editado pela Afrontamento.. Carregar nos gráficos para os aumentar.

O decréscimo da natalidade concita vários temas. Por exemplo, a estabilidade e a confiança no futuro; as políticas natalistas; e a participação das mulheres na vida activa. Proponho uma alternativa romântica: ter ou não ter filhos depende do desejo. A fecundidade diminui porque diminui o desejo de ter filhos. O problema é profundo.

Desde os anos sessenta, Portugal e a Europa conheceram períodos de prosperidade, segurança e esperança, tais como os anos sessenta e os anos noventa. Mas a fecundidade manteve a tendência negativa. A confiança é, apenas, um dos motivos plausíveis.

Fonte: PORDATA.

As políticas natalistas estão na ordem do dia. Prémios ao nascimento, subsídios e demais almofadas. Esforço ingrato. As políticas multiplicam-se e a fecundidade declina. A França, com o índice de fecundidade mais elevado da Europa, configura uma exceção. Iniciou, nos anos setenta, uma política natalista pioneira e arrojada. Se na maioria dos países europeus a fecundidade desceu, em França manteve-se numa espécie de planalto (1978, 1.89 filhos por mulher; 2017, 1,90; ver gráfico 1). Mas as medidas natalistas beneficiaram de outros contributos.

A França afirma-se, em 2008, como um dos países europeus com mais imigração, se incluirmos a segunda geração (ver Gráfico 2).

Fonte: INSEE.

A fecundidade das mulheres imigrantes supera a das “francesas”. Em 2008, o índice de fecundidade ascendia a 1,89, nas mulheres nascidas em França, e 2,89, nas mulheres nascidas no estrangeiro. A incidência dos nascimentos provenientes de mães imigrantes não cessa de aumentar: 16,7%, em 1977, e 22,8% em 2017 (fonte: Tableau T38bis, Insee 2017). Na Ile-de-France (região parisiense), em cada cem nascimentos, 48 têm pelo menos um dos pais estrangeiro. Retenha-se que, por pequena que seja, existe uma dimensão cultural, ver civilizacional, que influencia a fecundidade em França.

Mudemos de assunto. A actividade profissional feminina não começou nos anos sessenta. Em França, no período entre as duas Guerras Mundiais, a taxa de actividade feminina rondava os 38%. Este valor desce no pós-guerra e só será recuperado nos anos 90.

No gráfico 3, observa-se o aumento regular da taxa de actividade das mulheres (15-64), entre 1975-2017.  Regressaremos a este gráfico.

3. Taxa de atividade: por sexo e idade (%). França, 1975-2017.

Fonte: INSEE.

Os portugueses apresentam duas séries estatísticas distintas para a mesma realidade: os censos e as estimativas por inquérito.

Fonte: INE.
Fonte: INE. PORDATA.

Do censo de 1981 para o censo de 2011 (gráfico 4), a taxa de atividade feminina sobe 11,2 pontos percentuais (de 38,2 para 51,0). Nas estimativas dos inquéritos ao emprego (gráfico 5), a diferença, entre 1983 e 2019, resume-se a 3 pontos percentuais (de 51,7 para 54,7). A evolução da taxa de atividade masculina diminui significativamente. Do censo de 1981 para o censo de 2011, a taxa desce 16,8 pontos percentuais. Nas estimativas, 14,4 pontos percentuais. A taxa de atividade masculina desce mais do que sobe a taxa de atividade feminina. Algo semelhante, embora menos vincado, sucede em França (ver gráfico 3).

Importa descobrir o óbvio. Para fazer um filho são precisas duas pessoas: um homem e uma mulher. A quebra da atividade, mais acentuada nos homens (Ver, para a França, o gráfico 3) repercute-se no índice de fecundidade. Envolve, sobretudo, os mais jovens. Entre 1983 e 2019, o grupo etário “menos de 25 anos” é o único grupo etário em que diminui de um modo persistente a taxa de atividade (ver gráfico 6). Desce para quase metade: 67,6%, em 1983, e 34.2%, em 2019. Este decréscimo prende-se com o aumento da escolaridade e com o “prolongamento da adolescência”. A independência dos jovens adultos é tardia. Começam a trabalhar, casam-se e adiam o aumento da família, o que torna problemático, por exemplo, o nascimento do terceiro filho. São económicas as causas deste fenómeno? Diria que são culturais. A economia permite muitas possibilidades. Possibilidades que a cultura escolhe.

A evolução da fecundidade depende da taxa de actividade feminina? Do prolongamento da adolescência? Das políticas demográficas? Estão associados, mas o desejo é decisivo. No Inquérito à Fecundidade, promovido pelo INE, em 2013, as mulheres dos 18 aos 49 anos de idade e os homens dos 18 aos 54 anos de idade, residentes em Portugal, têm em média, 1.03 filhos (fecundidade realizada); pensam vir a ter, em média, 0,74 filhos; assim, o numero médio de filhos que têm e que ainda pensam vir a ter é 1,78 (fecundidade final esperada) (INE, Inquérito à Fecundidade, 2013). Não é uma perspetiva animadora. É a espuma do desejo.

O que mudou, no século XX, foi a condição e a identidade da mulher. Mudou a sua relação com o outro, com a família, com cônjuge, com os filhos, com os colegas e os amigos. Mudou a relação com a casa, com o trabalho e com o lazer. Mudou a relação com o tempo, com o corpo, com o sacrifício e com o prazer. Mudou a autoimagem. Mudou, também, a condição masculina. Uma mudança cultural. O declínio da fecundidade faz parte deste “processo civilizacional”. São novos os laços, as dinâmicas e as âncoras simbólicas. Esta evolução mobiliza o desejo. Águas profundas. A intervenção quer-se mais da ordem da massagem do que da mensagem. Mais contextual do que pontual. Envolvente. O contrário do que se está a fazer. Neste mundo, para motivar é preciso valorizar. Para valorizar é preciso embeber simbolicamente. Quem se lembra, nos últimos sessenta anos, de uma iniciativa simbólica valorativa da figura do casal procriador? Dos outros casais a promoção é, no mínimo, todos os meses? O nevoeiro tem estas artes: enxerga-se bem na encosta e mal junto ao rio. A quem serve o estrabismo social?

Fonte INE / PORDATA.

O Japão debate-se com um índice de fecundidade baixo: 1,36 filhos por mulher, em 2019. Adivinha-se sinais de uma aposta numa intervenção desmultiplicada e ambiental para estimular a fecundidade. A célebre série de anime Naruto prossegue, mas o novo herói é o filho de Naruto. Crescem os manga e os anime em que o herói é familiar: pais e filhos. Talvez seja a hora de tomar um chá de benchmarking.