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Um buraco no muro

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Fotografia de David LaChapelle para a Diesel. 1995.

Vinte e dois anos após a fotografia com dois marinheiros a beijar-se (Diesel, 1995), David LaChapelle dirige o novo anúncio da marca: Make Love Not Walls. Próximo, nos anos oitenta, de Andy Warhol, David LaChapelle é uma referência no domínio da fotografia e da realização de vídeos musicais.

Make Love Not Walls, da Diesel, tem concitado rasgados elogios. A qualidade da imagem condiz com a fama do realizador. Uma explosão de cores sobre o cinzento do muro. A dança, o movimento e a fusão tornam o anúncio empolgante. A música parece talhada à medida. Os graffitis, os anos sessenta, o amor, o desejo e a sexualidade desafiam preconceitos e barreiras.

#makelovenotwalls trata de derrubar as paredes mentais e físicas que nos separam, e deixar todos os lados se unir em nome da unidade e do amor. [A marca] Diesel quer derrubar essas paredes mostrando que um amanhã mais brilhante e emocionante é possível (Diesel. Make Love Not Walls).

A história de Make Love Not Walls  é simples: uma abertura no muro dá azo a uma quase orgia: dança, libertação, comunhão e sexo. O anúncio assume-se contra a opressão e a discriminação. Para um velho do Restelo, sobram dois reparos tímidos e fugazes como fagulhas. Primeiro, a libertação, a comunhão e o amor tendem a aparecer mais associados a uma orientação sexual específica. Uma questão de impacto? Segundo, o vídeo fragiliza ou reforça a imagem do “profeta do muro”? Pressuponho, com algum risco de erro, que o anúncio visa promover, antes de mais, a imagem da Diesel. Não resisto a recolocar um anúncio da Levi’s em que um casal também arrasa “paredes mentais e físicas”.

Marca: Diesel. Título: Make Love Not Walls. Agência: Anomaly Amsterdam. Direcção: David LaChapelle. Holanda, Fevereiro 2017.

Marca: Levi’s. Título: Odyssey. Agência:  Bartle Bogle Hegarty. Direcção: Jonathan Glazer. Reino Unido, Janeiro 2002.

O último tango na cozinha

mrclean_cleanerofyourdreams17Lembra-se de O último tango em Paris, de Bernardo Bertolucci? Estreou em 1973. Os espanhóis vinham a Portugal só para o ver. E da manteiga, também se lembra? Um pico de vendas nos lacticínios. Mas não há glória que dure sempre. A erótica do detergente substitui a erótica da manteiga, no anúncio Cleaner of your dreams, da marca Mr. Clean. Um bailado alucinado com fantasmas excitantes.

Marca: Mr. Clean. Título: Cleaner of your dreams. Agência: Leo Burnett Toronto. Estados Unidos, Janeiro 2017.

Beleza real

dove-logoPara a Dove, o belo não é um ser modelado, belos somos nós. As sucessivas campanhas da Dove giram em torno da noção de “beleza real”. O anúncio “Beauty on your own terms” (Reino Unido, 2016) inscreve-se nessa tendência. O mesmo parece não suceder com o anúncio, recente, “It has to be my way” (China, 2017). Mostra como a China acolheu a sociedade de consumo. Resulta menos óbvio o conceito de beleza que celebrizou a Dove.

Marca: Dove. Título: Beauty on your own terms. Agência: Havas Helia London. Reino Unido; Outubro 2016.

Marca: Dove. Título: My Hair: It has to be my way. Agência: Ogilvy & Mather Shanghai. China, Janeiro 2017.

Acrescentar um novo elemento de informação é sempre recomendável. Um terceiro anúncio da Dove revela que a “beleza real” chegou, afinal, há alguns anos à China, embora de um modo algo indirecto e complicado, menos assertivo.

Marca: Dove. Título: Flat nose. Agência: Ogilvy & Mather Shanghai. China, Dezembro 2012.

Discriminação in utero

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AMCV – Associação de Mulheres Contra a Violência

Assim começa a discriminação.

“Já chegaram os resultados dos testes. O vosso bebé tem uma condição genética que pode suscitar vários desafios: preconceito, discriminação, violência física, psicológica, sexual, violação, sequestro, vinda forçada para o mercado (…) sexual. O vosso bebé é do sexo feminino. É uma rapariga”

Pressupõe-se que os bebés que nascem com outra “condição genética” não estão expostos a estes desafios? Negligenciáveis, não serão! É urgente enfrentar a violência independentemente da “condição” em que a vítima nasce.

Anunciante: AMVC – Associação de Mulheres Contra a Violência. Agência: FUEL LISBOA. Direcção: Fred Oliveira. Portugal, Dezembro de 2016.

Perfeição

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Perfeito é aquilo que nunca precisará de ser refeito (André Gide. Oeuvres complètes. 1933).

Duvidava da perfeição até encontrar este anúncio. Perfeito é algo que se perfez. Perfazer significa “conduzir qualquer coisa até ao seu completo desenvolvimento” ou “completar uma soma até que não falte nada”. Pois este anúncio perfez-se: tem tudo e não lhe falta nada.

Kate e Peter estão talhados um para o outro, mas não se conhecem. O cão dela chama-se Robin; o cão dele, Hood. Os sapatos prediletos de Kate foram desenhados pelo bisavô de Peter. O verso tatuado no braço de Kate pertence à canção preferida de Peter. Ela está a ler “Growing fruits”, ele, “Preserving fruits”. Quando ela veste azul, ele azul veste… O próprio ambiente coincide. Os cães condizem com os donos, ou vice-versa. Os quadros encaixam uns nos outros e a realidade encaixa-se nos quadros. E as cores? Não cansam de se casar umas com as outras. Mas Peter e Kate, apesar de tão próximos, permanecem alheios um ao outro. Até que o milagre do amor acontece. Uma alcoviteira? Uma flecha de Cupido? Uma agência de encontros? O mensageiro foi um brinco da Tous. Kate e Peter viram-se e, como previsto, apaixonaram-se. O todo ficou composto. Não são daqueles casais que começam perfeitos e acabam desfeitos. A perfeição existe, vi-a com os meus olhos. É um anúncio publicitário, onde tudo se harmoniza sem vestígio de falha. Esta história, mais do que terna, é geométrica. Com a actriz Gwyneth Paltrow, vencedora de um Óscar em 1998.

Marca: Tous. Título: Tender Stories Nº5. Agência: SCPF Madrid. Direcção: Victor Carrey. Espanha, Novembro 2016.

Amor laboral

bireleys-j-walter-thompson-bangkok-branding-in-asiaNão gosto de amores de torre do castelo; ele rasteiro, ela nas nuvens. Gosto mais dos amores duplex; ele na rua e ela à varanda, tipo Romeu e Julieta. Mas do que gosto mesmo é dos amores rés-do-chão; de bares, bailes e vielas; ambos à altura do corpo. Como no anúncio tailandês  Just One Sipe, da Bireleys. Um amor laboral, esforçado, com pele, carne e osso. O anúncio é fantástico: breve e acelerado, com uma urgência de palavras e uma orgia de objectos. A alteração de velocidade, música e carga sentimental, a meio do anúncio, é digna de registo. Longos ou curtos, os vídeos orientais ensinam-nos como criar e contar histórias.

Marca: Bireleys. Título: Just One Sipe. Agência: JWT Bangkok. Tailândia, Dezembro de 2016

Comer e gritar por mais

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Um homem muito homem a chorar? Onde se viu? Por um hamburger? Muito estranho. Está na moda publicar anúncios por episódios. Presumo que este é o primeiro: homens muito homens choram por um hamburger. Falta o segundo: homens muito homens rendem-se ao sexy-appeal de um hamburger carnal, com ou sem Perrier. Brincadeira à parte, o anúncio Brings the toughest to tears, da Wendy’s, é admirável: criativo, ousado, desconcertante, bem humorado e tecnicamente esmerado.

Marca: Wendy’s. Título: Brings the toughest to tears. Agência: Augusto NZ. Direcção: James Anderson. Nova Zelândia, Novembro 2016.

O bailado dos pepinos

Este anúncio da Hungarian Dance Academy é delicioso, com alguma malícia à mistura. Lembra os contos de fadas. Uma bailarina esforça-se para abrir, enquanto dança, um frasco de pepinos. Não consegue. Uma desilusão. Há falta de homens no bailado! Para aceder ao anúncio, carregar na imagem.

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Anunciante: Hungarian Dance Academy. Título: Ballet needs boys. Agência: Leo Burnett Budapest. Direcção: Milos Ili, Imre Juhasz. Hungria, 2004.

O período

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A assunção da menstruação anda no vento. No anúncio Blood, da Libress, o lema é No blood shoud hold us back (https://tendimag.com/2016/10/05/sangue/). O anúncio brasileiro da Kotex insta as mulheres a não se inibir por causa da menstruação. Sustenta que o período não é um obstáculo. Os exemplos escolhidos têm impacto: uma chefe de cozinha, uma surfista, uma repórter… “Tratemos al período como lo que es. Algo natural, saludable. No un problema. Si, el período existe. No te detengas”.

Menos recente, o anúncio chinês da Kotex é bem humorado. Convoca gatos, porque “os gatos são sensíveis” e “as mulheres são tão sensíveis como os gatos”. Traçado o desenho, falta o teste. A evidência empírica não engana: os gatos só se sentem confortáveis com pensos higiénicos Kotex. Caso contrário, andam de lado, curvados ou de rastos.

Marca: Kotex. Título: No te detengas. Agência: Ogilvy & Mather Rio de Janeiro. Direcção: BABYS. Brasil, Setembro 2016.

Marca: Kotex. Título: Kotex’s Cat Video. Agência: Ogilvy & Mather Asia. China, 2014.

Perfume e erotismo

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Por que motivo o perfume aparece associado ao erotismo? Afloramos o tema no artigo “Perfume, comunicação e personalidade” (2014; endereço: https://tendimag.com/2014/04/05/perfume-comunicacao-e-personalidade/). Retomo uma passagem de Georg Simmel:

“o perfume (…) acrescenta à personalidade algo completamente impessoal, algo que vem do exterior mas que se lhe incorpora tão bem que dela parece se desprender. Aumenta a esfera da pessoa causando uma impressão semelhante aos fogos do diamante e aos reflexos do ouro. Quem se aproxima mergulha nesta atmosfera; fica de algum modo preso na esfera da personalidade. Tal como as peças de vestuário, o perfume encobre a personalidade realçando-a” (Simmel, Georg, 1981,Sociologie et Epistémologie, Paris, PUF, p. 237-238).

O perfume envolve a pele para a tornar mais apetecível. No jogo de sedução, o destino é a pele e o perfume, uma máscara. Segundo Georg Simmel, o cheiro é o mais intrometido dos sentidos. Invade, sem cerimónia, o espaço pessoal, a “esfera de intimidade”. Pode-se desviar a vista, tapar os ouvidos, evitar o contacto, mas afastar o cheiro torna-se mais complicado.

Nós somos construtores de catedrais, estradas e estádios de futebol, mas também somos construtores de verdades. Associamos, desde a antiguidade, o perfume ao erotismo. Este anúncio resume-se a mais uma réplica. A vida é feita de pequenos ecos, que educam as mentes e os corpos. Se é suposto o perfume ser erótico, o que o desmente? Se, no futuro, as organizações governamentais, as organizações não governamentais e algumas empresas rotularem, por exemplo, os perfumes como tóxicos, é possível que tóxicos venham a ser.

Sondemos, de forma abreviada, alguns contributos de psicólogos.

“Determinados perfumes podem fazer-nos descair para o domínio do erotismo graças à presença – discreta mas ambígua – de notas animais, como as almíscares ou a algália”. Um parênteses: convém evitar confundir animalidade e erotismo. As “notas animais” geram, quando muito, efeitos humanos

“O perfume de amor não existe (…) numa relação amorosa, a acção desenrola-se em dois tempos. Primeiro, a etapa da sedução, onde se opera uma primeira aproximação dos corpos: somos, então, autorizados a penetrar na esfera do outro, no seu espaço privado, que é, também a sua zona de aromatização (parfumage), onde se captam realmente as fragâncias (…) Quando a relação erótica se instala, instala-se uma outra alquimia. Neste momento, temos sede de carne, de vida à nossa frente… O corpo a corpo esquece o perfume, a excitação exige os odores do corpo verdadeiro e rejeita os artifícios exteriores” (…) Atente-se, também, na reputação das feromonas, sinais odorosos emitidos pelos animais destinados à sedução e à reprodução, cuja existência no homem foi comprovada, mas de modo algum o efeito.” (Ces parfums érotiques. Psychologies. Décembre 2003, pp. 1-2. Endereço: http://www.psychologies.com/Beaute/Parfums/Articles-et-Dossiers/Ces-parfums-erotiques/4).

Um último apontamento. Uma pessoa quando mergulha no perfume de outrem compartilha uma atmosfera olfactiva. Nesta troca há quem não resista a marcar o cheiro do parceiro. Na rua ou em casa, o outro desdobra-se em dois, tantos quantos os perfumes que transporta.

Marca: Ranking. Título: Introducing S&X, The new fragance from Ranking & Azzi. Reino Unido, Outubro 2016.