Arquivo | cidadania RSS for this section

Sociedade de choque

Emmaus

Isto de chocar e ser chocado tem que se lhe diga. Nos circos romanos, o choque era colectivo. Os bobos destacavam-se na arte de chocar. Há meio século, o choque banalizou-se. Chocam as mini-saias, os hippies, a pornografia, os escândalos, o preço do petróleo e a ida à lua. Mais os filmes “eventualmente chocantes” como Laranja Mecânica, A Grande Farra, O Último Tango em Paris ou O Exorcista. Mas, no cômputo global, as pessoas chocavam-se relativamente pouco. Hoje, chocamos sem pausa. Há algumas décadas, a Benetton dizia chique com choque; agora, tudo se manifesta impactante. Um noticiário sem novidades, reportagens, entrevistas e comentários chocantes atravessa uma flat season. A Internet enreda-se em mensagens chocantes. Os políticos, os movimentos sociais e os publicitários não olham a meios para criar impacto, ou seja, para nos chocar e sensibilizar. Já não somos como o “rei pasmado” de Gonzalo Torrente Ballester. Todos temos direito ao choque! Andamos abalados, quando não achocalhados.

Anunciante: Emmaüs. Título: Article 13 – L’horreur ne prend jamais de vacances. França, Julho 2017.

O anúncio L’horreur ne prend jamais de vacances, do movimento Emmaüs, pretende chocar:  “parce que l’horreur ne prend pas de vacances. Une campagne choc d’#Emmaüs pour la liberté de circulation”. Consegue-o, de uma forma surpreendente: centenas de presumíveis “cadáveres” testemunham a tragédia dos refugiados, não obstante o artigo 13º da Declaração Universal dos Direitos do Homem: 1) Toda a pessoa tem o direito de livremente circular e escolher a sua residência no interior de um Estado. 2) Toda a pessoa tem o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar ao seu país.

supertramp Crisis

O anúncio da Emmaüs lembra o expressionismo alemão: os banhistas, banais, estão cercados pela morte. Lembra, também, a capa do álbum Crisis What Crisis (1975) dos Supertramp. Com a imagem da capa, segue a primeira faixa do álbum: Easy Does It.

Supertramp. Easy does it. Crisis What Crisis. 1975.

À mexicana!

Sidral mundetÀ mexicana! À portuguesa! À francesa! À americana!… Expressões banais de que desconfio. Individualizam o colectivo, atribuem-lhe propriedades de pessoas, criam figuras que se reificam como almas cristalizadas. Transformam o plural polifónico em unidade monológica. Estas fantasias identitárias não são neutras. São interessadas. Não é fácil despir estas fardas simbólicas. O anúncio A la Mexicana, de Sidral Mundet, tem condão de, ao assumir uma inversão de valores, evidenciar a ambiguidade do todo e a arbitrariedade das partes. A expressão a la mexicana, habitualmente negativa, é, nesta campanha, virada do avesso. Enfatizam-se, agora, os sucessos e respectivos embaixadores. O objectivo consiste em mobilizar pro-activamente os mexicanos.

Marca: Sidral Mundet. Título: #alamexicana. Agência: Onlyif. México, Março 2016.

Marca: Sidral Mundet. Título: A la mexicana. Agência: Onlyif. México, Junho 2017.

Lançamento Sidral Mundet “A La Mexicana”. Junho 2017.

O Clube Pepsi-Cola.

O anúncio Vending Machine, da Pepsi, é uma paródia do filme Clube dos Poetas Mortos (1989). No final do anúncio ocorre, à boa maneira das paródias, um deslocamento, que subverte o original: a solidariedade oferece-se às avessas; e os membros do novo clube não bebem poesia, mas Pepsi-Cola.

Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

Pepsi. Vending Machine. 2000.

Marca: Pepsi-Cola. Título: Vending Machine. Agência: CLM & BBDO. Direcção: Kinka Usher. França, 2000.

Descarrilar

AIME cogs

Andar sobre carris pode ser bom ou mau. Quando uma economia anda sobre carris parece que é bom. Quando os seres humanos andam sobre carris é mau sinal, é sinal de desumanização, de que a decisão transitou do homem para a engrenagem que construiu. Este cenário distópico assombra a literatura e o cinema ocidentais. Que fazer? A resposta do anúncio Cogs, da AIME, não pode ser mais clara: o que faz falta é descarrilar. Descarrilas tu, descarrilo eu… Mas, atenção, que descarrilar não é fácil. Imagino-me na ponte sobre a Estação Saint-Lazare em Paris: os comboios descarrilam para logo encarrilhar. Mas há muito quem tenha conseguido descarrilar: Don Quixote, Caravaggio, Mozart, Goya, Van Gogh, Francis Bacon…

O realizador deste anúncio, Laurent Witz, ganhou, em 2014, o Óscar pela melhor curta-metragem de animação com o filme Mr Hublot.

Marca: AIME. Título: Cogs. Agência: M&c Saatchi (sydney). Direcção: Laurent Witz. Austrália, Junho 2017.

Mr Hublot. Por Laurent Witz & Alexandre Espigares. Curta-metragem. Ganhou o Óscar pela melhor curta-metragem em  2014.

Momentos musicados

Amazon Music Unlimited

“La música es capaz de llevarse nuestras tristezas en su ritmo y melodía. Evoca recuerdos de amantes perdidos o de amigos fallecidos. Incita a los personajes que llevamos dentro: al niño a jugar, al monje a orar, a la vaquera a moverse al compás, al héroe a superar todos los obstáculos” (Don Campbell, 1998, El Effecto Mozart, Barcelona, Ediciones Urano, p. 7).

Regresso à música e às pressupostas afinidades emocionais. A Amazon criou um novo music streaming, do tipo Spotify ou Pandora. Chama-se Music Unlimited. Inicia com “40 milhões de canções, uma para cada momento”. O que significa que cada canção tem o seu momento próprio ou cada momento tem a sua canção própria. Cada momento é um concentrado único, de actos, palavras, sentimentos e emoções. A cada momento corresponde uma música em particular. E a fada Amazon sabe como os juntar.

Vai um déjà lu? Não resisto a repetir. Haja paciência!

A publicidade é omnívora. Não olha a conteúdos. No limite, qualquer serve. Os anúncios da Amazon dedicados a momentos musicados mostram um gato, um cão e bebés: numa casa de banho e num carro.

Na publicidade, para comunicar emoções, nada melhor do que animais, animações, objectos e crianças. Tudo indica que a comunicação de emoções agradece um ar de inocência.

Apetece fazer uma sondagem. Com quem se identifica mais? 1. O gato; 2. O cão; 3. Os bebés. Responda na parte reservada aos comentários.

Fumar pode matar o seu filho antes de ele nascer

Fumar pode matar o seu filho antes de ele nascer.

Além de me repetir, sou teimoso. Não me calo! Hoje deparei com uma nova imagem no maço de cigarros. Vou pedir à Amazon uma música para cada imagem. Com música, talvez a caderneta das desgraças alcance maior efeito.

Marca: Amazon Music Unlimited. Título: Rearranging the bathroom. Agência: Above+Beyond. Reino Unido, Maio 2017.

Marca: Amazon Music Unlimited. Título: Road trip. Agência: Above+Beyond. Reino Unido, Maio 2017.

Marca: Amazon Music Unlimited. Título: Sugar rush. Agência: Above+Beyond. Reino Unido, Maio 2017.

Por ora, ainda nos deixam morrer

the-real-bears1

Os novos sábios sabem tudo; eu nem sequer sei o que sei.

Os fumadores podem respirar: aguardam mais imposto mas menos publicidade. Na roda dos inimigos públicos, é a vez do açúcar e dos refrigerantes. Tudo indica que os impostos sobre o tabaco e os refrigerantes se fundamentam na ciência. A velha máxima de Henri Poincaré, “de julgamentos de facto não se pode derivar julgamentos de valor”, é suplantada pela máxima “contra factos não há argumentos”. Retocando Habermas, estamos confrontados com a “política como ciência e técnica”.

Caricatura de Celeste Semanas

Caricatura de Celeste Semanas.

O Artigo 104º.4 da Constituição da República Portuguesa afirma o seguinte: “A tributação do consumo visa adaptar a estrutura do consumo à evolução das necessidades do desenvolvimento económico e da justiça social, devendo onerar os consumos de luxo”. O Artigo 104º.1 menciona “a diminuição das desigualdades” e o princípio da “progressividade” dos impostos. Em Portugal, as classes baixas consomem tantos refrigerantes e mais tabaco do que as classes altas. Nestes dois impostos, não se vislumbra nem progressividade fiscal, nem sobrecarga dos consumos de luxo, apenas necessidade de Estado. Num país com uma elevada desigualdade de rendimentos, o imposto sobre o tabaco e sobre os refrigerantes penaliza, ao contrário do IVA, do IUC ou do IMI, as classes baixas. Meio século após o “imposto do isqueiro”, adivinha-se um imposto sobre a pastilha elástica (tem açúcar e provoca aerofagia). Sem desconversar, há impostos piores. Com tamanha sabedoria política, técnica e científica a cuidar da nossa saúde, a eternidade está por um fio. Por ora, ainda nos deixam morrer.

Anunciante: Center for Science in the Public Interest. Título: The Real Bears. Agência: Colorado. Direcção: Lucas Zanotto. USA, 2012.

Preconceito em cadeia

Man Ray, Ella Raines, 1947

Man Ray, Ella Raines, 1947.

Há um tipo de razão que custa aos homens admitir: a razão dos outros.

Para aceder ao anúncio, carregar na seguinte imagem ou no endereço http://www.culturepub.fr/videos/anti-racisme-le-banc/.

Racismo em cadeia

Anúncio: Anti Racismo. Título: O Banco. Agência: BDDP. Espanha, 1996.

A minha geração

Franz Marc. Die großen blauen Pferde. 1911.

Franz Marc. Grandes cavalos azuis. 1911.

O anúncio Pilot da Blu é digno de partilha: imagens soberbas, paródia inspirada e a habitual surpresa final. Num mundo ambíguo, conduzir manadas continua a exigir perícia; mas o cavalo é, agora, um helicóptero e o cowboy, uma cowgirl.  O anúncio “Pilot” apresenta-se como uma réplica, no feminino, do “mundo Marlboro”, “um lugar onde a liberdade corre sem limites” ( ver anúncio Marlboro). Blu, por seu turno,  “representa o indivíduo”:

“It’s hard to be yourself in a world that’s constantly trying to make you into someone else. It’s easy to slip and find yourself marching to the beat of someone else’s drum. blu stands for the individual. Whoever you are, however you want to express it, that’s okay. As long as you’re being true to you.”

Em tempo de cavalos mecânicos, o cigarro já não é o que era, é electrónico. Mas tu deves ser verdadeiramente tu. Um cavalo azulado, como os cavalos de Franz Marc!

kandinsky “Lyrisches” (Reiter zu Pferd), 1911.

Wassily Kandinsky. Lírico. 1911.

O anúncio “Pilot” parece piscar o olho à minha geração (ver The Who, My Generation, 1965), que não sei se conduz a manada, se é cavaleiro ou cavalgadura, se Don Quixote cansado. Num aspecto concordo com o anúncio: quando a minha geração tirar a máscara, surgirá um rosto de mulher. A minha geração tem outra história: aquela que escreveram as mulheres.

A acompanhar, canção Cavalo à Solta, de Fernando Tordo. Porque sim!

Marca: Blu. Título: Pilot – Just you & Blu. Agência: The Corner. Direcção: Romain Gavras. Reino Unido, 2016.

Fernando Tordo. Cavalo à Solta. Poema de Ary dos Santos. 1971.

O museu, a porta e a ponte

Nelson Leirner. A Pacavoa (2010) Madeira e lona com jabuti empalhado. Bienal de São Paulo

Nelson Leirner. A Pacavoa (2010) Madeira e lona com jabuti empalhado. Bienal de São Paulo

A porta abre e fecha; separa. A ponte liga; une. A ponte e a porta unem e separam mundos. A partir desta metáfora, Georg Simmel escreveu um dos textos mais brilhantes da Sociologia: “Brücke und Tür” (1909) in Das Individuum und die Freiheit, Berlin, Wagenbach, 1984, p. 7-11). Pois, da porta e da ponte vai tratar este artigo.

As aplicações cognitivas implementadas graças ao Watson, da IBM, prometem revelar-se úteis nos museus, aumentando a interacção com as obras e a satisfação dos visitantes. O anúncio brasileiro The Voice of Art / With Watson ilustra estas potencialidades que acalentam a esperança de uma maior afluência aos museus.

Marca: IBM Brasil. Título: The Voice of Art / With Watson. Agência: Ogilvy São Paulo. Direcção: Alexandre Charro e Leandro HBL. Brasil, Abril 2017.

Há meio século, Pierre Bourdieu  (com Alain Darbel e a colaboração de Dominique Schnapper, L’Amour de l’Art: Les musées d’art européens et leur public, Paris, Ed. de Minuit, 1966) registava a controvérsia em torno da organização dos museus e da sua relação com o público. Os herdeiros da cultura legítima, principais clientes dos museus, resistiam ao aumento da informação nos acessos, nas salas e junto às obras, encarada como uma intrusão. Informação que os “bárbaros”, os excluídos da cultura legítima e da linguagem da arte, agradeciam como bússola de navegação num ambiente estranho.

O engenho The Voice of Art, com o Watson, parece vocacionado para a divulgação e dessacralização da arte. Neste sentido, assevera-se útil, sobretudo, para quem, “bárbaro”, carece de intérprete. Por outro lado, é intrusivo. O que acontece ao silêncio, condição de contemplação, quando os visitante não param de falar para uma máquina, ao jeito de um telemóvel? Imagine-se a cacofonia produzida pelas pessoas munidas com este engenho frente à Mona Lisa!

A pressão sobre os museus no sentido do crescimento do número de visitantes e do aumento da sustentabilidade tem-se acentuado. Congeminam-se iniciativas e ensaiam-se soluções. Criam-se lojas. Perversamente muitos visitantes demoram-se mais na compra de recordações do que na exposição propriamente dita). Abrem-se restaurantes. Em Braga, existem, pelo menos, dois: no museu D. Diogo de Sousa e no Mosteiro de Tibães. Promovem-se eventos. Aposta-se nos serviços educativos. Pretende-se erguer pontes sustentadas.

Quem visita os museus?

Gráfico 1. Bourdieu. Frequência dos museus

Pierre Bourdieu, Alain Darbel e Dominique Schnapper realizaram inquéritos, nos anos sessenta, sobre a frequência dos museus em vários países europeus. Segundo os resultados obtidos, observa-se uma clara diferenciação consoante as habilitações literárias (ver Gráfico 1; carregar para aumentar). A probabilidade de ir a um museu no período de um ano sobe, sistematicamente, de 2,3% no caso dos entrevistados com o “primeiro ciclo do ensino básico” para 80,1% nos entrevistados com “estudos superiores”. Um abismo sem pontes.

Desde os anos sessenta, a visita a museus expandiu-se em todos os níveis de escolaridade, mas as desigualdades não desapareceram. Verificou-se uma espécie de translação das diversas posições. Com o Miguel Bandeira, a Rita Ribeiro, o José Machado, o Esser Jorge Silva, a Luísa Fernandes e o Samuel Silva, empreendemos , no âmbito da avaliação de Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura, um inquérito a uma amostra, por quotas, de 756 residentes no concelho de Guimarães. Os resultados expressos no Gráfico 2 são distintos dos apresentados no Gráfico 1: não se trata de saber se o entrevistado foi ou não, durante o ano de referência, a um museu, mas se foi, pelo menos uma vez na vida, a um determinado museu. Retenho as respostas relativas a quatro espaços museológicos. Do mais ao menos “visitado”: o Paço dos Duques (86,3%), a Citânia de Briteiros (67,1%), o Museu Alberto Sampaio (66,2%) e o Museu Martins Sarmento (62,9%).

Guimarães. Visita a espaços museológicos por escolaridade

Desenham-se vários perfis: por um lado, o Museu Alberto Sampaio e o Museu Martins Sarmento. As respostas dispõem-se segundo uma escada típica do efeito da escolaridade: num primeiro degrau, as pessoas que não completaram o 1º ciclo do ensino básico (26%); segue-se um patamar, com as pessoas que completaram o 1º, o 2º e o 3º ciclos do ensino básico (entre 47 e 64%); por último, o cume é ocupado pelas pessoas que completaram o secundário e o ensino superior (acima de 77%). As habilitações literárias influenciam a frequência destes museus; quanto mais elevada for a escolaridade, maior a probabilidade de visita.

Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento

Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento. Guimarães.

Na Citânia de Briteiros, a diferenciação segundo as habilitações literárias esbate-se: o V de Cramer é baixo (0,15; p<0,005). Exceptuando os diplomados pelo ensino superior (82%), os restantes níveis de escolaridade situam-se num mesmo patamar (entre 60 e 68%). Não se trata de uma encosta, mas de um planalto. A diferenciação segundo a escolaridade resulta pouco expressiva.

Com uma afluência elevada, o Paço dos Duques ocupa uma posição intermédia: nem encosta, nem planalto. Ressalvando os inquiridos que não completaram o 1º ciclo do ensino básico, os demais situam-se no “último andar”, acima de 78%. Neste patamar, esboça-se, contudo, uma escada que lembra, embora com degraus menos pronunciados, os museus Alberto Sampaio e Martins Sarmento.

O Paço dos Duques antes do restauro. Foi utilizado como Quartel Militar entre 1807 e 1935

O Paço dos Duques antes do restauro. Foi utilizado como Quartel Militar entre 1807 e 1935.

Paço dos Duques de Bragança. Guimarães.

Paço dos Duques de Bragança. Guimarães.

Os museus Alberto Sampaio e Martins Sarmento são espaços clássicos, com uma colecção histórica valiosa. O Museu Alberto Sampaio teve, em 2016, 89 000 visitantes.

Construído no século XV, o Paço dos Duques foi restaurado durante o Estado Novo, no âmbito de uma política que visava a adesão popular e a catequese pela “história”. Em 2016, ultrapassou os 700 000 visitantes, destacando-se como um dos museus mais visitados do País.

A Citânia de Briteiros é um caso à parte. Trata-se de um sítio arqueológico ímpar, ao ar livre, procurado por diversos motivos, alguns laterais, tais como o recreio, o namoro e a festa de São Romão.

Capela de São Romão na Citânia de Briteiros. Guimarães.

Capela de São Romão na Citânia de Briteiros. Guimarães.

Arrisquemos alguns apontamentos.

As escolas desempenham um papel crucial na descoberta dos museus. Aponta nesse sentido a baixa percentagem de visitantes sem o 1º ciclo do ensino completo, valor muito aquém do patamar composto pelos três ciclos do ensino básico. Acontece nos museus Alberto Sampaio e Francisco Sarmento, bem como no Paço dos Duques. As escolas propiciam o primeiro passo, que é, segundo o provérbio, o mais difícil.

Não convém subestimar as malhas da identidade. Um espaço museológico do qual “fazemos parte”, que é nosso, não tem portas. A Citânia de Briteiros aproxima-se desta abertura. Por outro lado, um espaço museológico que faz parte de nós, que nos define, é um símbolo que, mais ou menos imaginário, compõe a nossa identidade. Situado na Colina Sagrada, o Paço dos Duques aproxima-se deste tipo de alquimia semiótica.

Museu Alberto Sampaio. Claustro.

Museu Alberto Sampaio. Claustro.

Cerca de um terço dos vimaranenses nunca visitou o Museu Alberto Sampaio (33,6%) nem o Museu Martins Sarmento (37,1%). Representa um enorme caudal de público potencial! Cativá-lo é uma tentação. Mas, em termos de crescimento do número de visitas, o que fazer? Apostar nos excluídos, nos herdeiros ou nos convertidos? O que é mais fácil? Convencer alguém que já foi três vezes ao museu a ir uma quarta ou aquele que nunca foi ao museu a decidir-se pela primeira vez? A resposta não é óbvia, até porque os museus assumem outras funções sociais e culturais para além da mera contabilização das visitas.

Nelson Leirner. O Porco. 1966.

Nelson Leirner. O Porco. 1966.

Retomemos o anúncio. Uma mulher confessa: “Eu gosto de arte, mas eu nunca tive a oportunidade de ir a um museu. Não é um ambiente que fala comigo!” Este testemunho é “arte”, foi fabricado para o anúncio: “Não é um ambiente que fala comigo” é uma frase nevrálgica. De qualquer modo, somos revisitados pelo dilema da porta e da ponte.

A equipa responsável pela avaliação do impacto de Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura promoveu 21 inquéritos a outros tantos eventos. No conjunto, foram entrevistadas 7 365 pessoas (ver Guimarães 2012, Impactos Económicos e Sociais, Relatório final, p. 111). Separando os eventos ao ar livre (44,8% dos entrevistados) dos eventos em recinto coberto (55,2% dos entrevistados), obtém-se o seguinte gráfico.

Espaços dos eventos

Apenas um em cada cinco inquiridos com o ensino básico assistiu a eventos em recinto coberto (20,2% e 21,1%). Esta proporção sobe para um terço nos inquiridos com o ensino secundário (33,5%) e para quase metade nos inquiridos com o ensino superior (45,2%). Parte destas diferenças pode ser imputada a outros factores: os eventos em recinto coberto podem não ser iguais aos eventos ao ar livre. Uns têm portas, os outros praças e ruas. Mesmo ao nível dos eventos culturais, a porta constitui um meio de divisão do mundo.

Os museus têm portas que abrem e fecham. Abrem para os eleitos e fecham-se para os excluídos. As portas dos museus delimitam mundos; o mundo natural da vida quotidiana e o mundo extraordinário do património preservado. Fossem os dois lados idênticos e não haveria necessidade de portas. Nem de portas, nem de pontes! Mas não são idênticos, permanecem significativamente diferentes. Uma pessoa que nunca foi a um museu, como a entrevistada do anúncio, pressente que, para além daquela porta, lá dentro, está “um mundo que não fala para ela”, um mundo que não é o dela, que pertence a outros. Aventurar-se, forçar a porta num assomo de boa vontade, pode traduzir-se num misto de desorientação e ansiedade, compensado, porventura, por alguns sobressaltos de humor nervoso, eventualmente deslocado.

No que respeita aos museus e aos eventos culturais, a porta faz diferença. Consoante os casos, as portas ora estão mais abertas, ora estão mais fechadas.

Pedra Formosa da Citânia de Briteiros. Museu da Cultura Castreja. Sociedade Martins Sarmento.

Pedra Formosa da Citânia de Briteiros. Museu da Cultura Castreja. Sociedade Martins Sarmento.

No anúncio Voice of Art, o aplicativo Watson, uma vez ajustado ao museu, é apresentado como um facilitador da interacção entre os visitantes e as obras de arte. A relação com a arte ganha, sem dúvida, em ser melhorada. Mas, neste caso, o prodígio acontece dentro do museu. Pode, naturalmente, sobrevir um efeito de contágio no exterior. Até é concebível que as pessoas passem a ir ao museu menos pela colecção e mais pelo aparelho técnico de interacção com as obras. Nada que não aconteça: há museus cuja atracção reside mais na arquitectura do edifício do que nas obras expostas.

O anúncio não se confina à interacção com a arte. “No Brasil mais de 72% nunca estiveram num museu (…) Uma dessas possibilidades é que ele quer interagir mais com as obras (…) Mais brasileiros no museu”! Transitamos de uma interacção facilitadora da interpretação das obras no interior do museu para o impacto no seu exterior. Uma relação mais amigável com as obras pode cativar, efectivamente, novos visitantes. Será suficiente?

Nelson Leirner. Da série Cem Monas. 2012.

Nelson Leirner. Da série Cem Monas. 2012.

Se os museus pretendem alargar o seu público importa, logicamente, abrir as portas. Sair do museu e ensaiar iniciativas no exterior. Este anúncio é um bom exemplo de projecção fora de portas. Muitos museus já trabalham debruçados sobre o exterior. Tentam construir pontes. Mas os “excluídos” não são fáceis de converter. Continua a faltar o essencial: o “amor pela arte”, gostar da experiência facultada pela visita ao museu. De preferência, reconhecer e apreciar, com os códigos apropriados, o valor das obras. Caso contrário, as obras permanecem incomodamente enigmáticas. Resistem à aproximação.

“A obra de arte considerada enquanto bem simbólico não existe como tal a não ser para quem detenha os meios de apropriar-se dela, ou seja, de decifrá-la (Bourdieu et al [1966], O Amor pela Arte, São Paulo, EDUSP, 2007, p. 71).

Para a aristocracia da cultura, esta conversa é um disparate. As obras de arte possuem uma aura que a todos atinge e só alguns sentem. Mas, que seria do delírio de Don Quixote sem o realismo de Sancho Pança? Estamos perante atitudes e comportamentos que remetem para competências e disposições profundas, desenvolvidas desde a infância, que não se alteram por obra e graça de um aparelho técnico, uma loja, um restaurante, um programa de eventos ou uma campanha publicitária. A mão direita pode estar cheia de boas intenções e a esquerda cheia de nada, vazia de resultados. Mesmo assim, convém construir e sonhar pontes. Sem esquecer que, nos nossos dias, não são as acessibilidades, incluindo o custo económico, que afastam as pessoas dos museus. Para se ir a um museu, é preciso estar interessado.

Pavor eterno

Vincent Van Gogh. No limiar da eternidade. 1890 ( ano de sua morte).

Vincent Van Gogh. No limiar da eternidade. 1890.

Ao escrever o artigo Não me esqueças, ocorreram-me dois anúncios portugueses que abordam, também, a doença de Alzheimer: First Date, da Alzheimer Portugal e Alzheimer, do Instituto de Apoio à Criança. Este último segue uma fórmula conhecida: embarca-se num rio, a doença de Alzheimer, e desagua-se noutro estuário, os maus tratos a crianças. Comparado com o anúncio Forget Me Not, da Thai Life Insurance, o anúncio do Instituto de Apoio à Criança apresenta-se mais cerebral: reforça a razão em detrimento do coração, perdendo alguma imersão e emoção. Mas o conceito é brilhante: a dor e o medo, decorrentes dos maus tratos sofridos na infância, são eternos. Nem uma doença como a de Alzheimer consegue apagá-los da memória!

Edvard Munch. Ansiedade. 1894.

Edvard Munch. Ansiedade. 1894.

O anúncio do Instituto de Apoio à Criança corre um risco. Cruza imagens de dois sofrimentos: a doença de Alzheimer e os maus tratos às crianças. Não é, porém, líquido que duas imagens, ou duas emoções, se somem. Podem potenciar-se, adicionar-se, reduzir-se ou anular-se. Em criança, um livro dedicado às técnicas de judo ensinava que, durante a queda, importava bater com o braço no chão, gerando, assim, duas fontes de dor que se atrofiam mutuamente, numa espécie de engarrafamento neuronal. Por último, quando se juntam duas imagens, arrisca-se um eclipse: uma imagem pode sobrepor-se à outra.

Anunciante: Instituto de Apoio à Criança. Título: Alzheimer. Agência: Leo Burnett Lisboa. Direcção: Carlos Manga Jr. Portugal, 2006.