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Vulnerabilidades. Feliz dia do pai, mãe!

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São raros os anúncios dedicados às famílias monoparentais, apesar de serem muitas e respeitáveis! Segundo o censo de 2011, existem em Portugal 480 443 famílias monoparentais (298 141 com pelo menos um filho menor de 25 anos); 416 343 só com a mãe; 64 100 só com o pai; o número de famílias monoparentais tem aumentado a um ritmo acelerado: em 1991, havia 254 261 famílias monoparentais, vinte anos depois são quase o dobro (+89%). Em 2011, no total das famílias com filhos, uma em cada cinco era monoparental (Delgado, Anabela & Wall, Karin, 2014, Famílias nos Censos 2011: Diversidade e Mudança, Lisboa, Instituto Nacional de Estatística / Imprensa de Ciências Sociais, p. 179).

Porquê tamanho apagão em tempos de fogo-de-artifício? As famílias monoparentais não são vulneráveis? O reconhecimento de vulnerabilidade propicia visibilidade nas causas públicas, mas as famílias monoparentais parecem não caber nos chavões dos movimentos sociais, nem nas ideologias da verdade redentora, nem nos lampiões da ordem cívica. As famílias monoparentais compõem uma realidade cinzenta, que não sobressai no branco, nem sobressai no preto. Uma realidade quase invisível. A este nível, estamos muito abaixo de nós mesmos! Continuamos embarcados no espetáculo de uma sociedade “pós-moderna” que navega na espuma dos dias.

Este anúncio, promovido por uma empresa neozelandesa de telecomunicações, a Spark, é uma excepção. Não para de crescer o contingente de empresas com fundações vocacionadas para a responsabilidade social. Num aspecto, o balanço é positivo: o alargamento das causas e das vulnerabilidades. Tanto mais positivo quanto a nobreza de toga que “nos” governa parece andar mirolha no seu perfume a mofo.

Ficava-me bem parar de escrever disparates. Quando muito, devia escrever apenas com tinta de limão, aquela que só se lê quando os dedos queimam. Era mais avisado assistir ao Muppet Show! Mas os Marretas de agora passam, sem graça nenhuma, nos telejornais.

Post scriptum: Recorro frequentemente à expressão “nobreza de toga” (do francês, noblesse de robe). Na França pós-medieval, a nobreza de toga distinguia-se da nobreza de armas. A nobreza de armas desempenhava funções militares e ostentava títulos hereditários ancorados no tempo. A nobreza de toga acedia ao aparelho de Estado através da compra (e venda) de cargos nobilitantes e da obtenção de diplomas académicos (com direito a toga). Como sublinha Lucien Goldmann (1955, Le Dieu Caché, Paris, Gallimard), a nobreza de toga estava dependente do aparelho de Estado, de cuja dinâmica lhe advinham as glórias e as tragédias. Os nobres de toga lembram, vagamente, os apparatchik da União Soviética.

Marca: Spark. Título: Celebrate Family. Agência: Colenso BBDO. Nova Zelândia, Setembro 2017.

Máscaras de gás

Playground

Somos animais simbólicos (Ernst Cassirer). Os únicos animais simbólicos. Há símbolos e símbolos. Poucos estão tão associados à morte como a caveira e a máscara de gás: a caveira por dentro da pele; a máscara de gás por fora.

Manfred mann's Earth Band. Messin. 1973

Manfred mann’s Earth Band. Messin. 1973

O anúncio Poisoned Playgrounds, da ClientEarth, lembra duas gravuras de Otto Dix, pintor expressionista veterano da I Guerra Mundial (ver diapositivos). Lembra, também, o vídeo musical Goodbye Blue Sky, dos Pink Floyd (The Wall, álbum: 1979; filme: 1982) e a capa do álbum Messin, dos Manfred Mann’s Earth Band (1973). O anúncio é duro, sem transigências. O problema da poluição do ar também é duro e com consequências. A poluição atmosférica não tem voz, nem rosto, como a máscara de gás.

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Anunciante: ClientEarth. Título: Poisoned Playgrounds. Agência: BMB London. Reino Unido, Setembro 2017.

Pink Floyd. Goodbye Blue Sky. The Wall. 1982

Sociedade de choque

Emmaus

Isto de chocar e ser chocado tem que se lhe diga. Nos circos romanos, o choque era colectivo. Os bobos destacavam-se na arte de chocar. Há meio século, o choque banalizou-se. Chocam as mini-saias, os hippies, a pornografia, os escândalos, o preço do petróleo e a ida à lua. Mais os filmes “eventualmente chocantes” como Laranja Mecânica, A Grande Farra, O Último Tango em Paris ou O Exorcista. Mas, no cômputo global, as pessoas chocavam-se relativamente pouco. Hoje, chocamos sem pausa. Há algumas décadas, a Benetton dizia chique com choque; agora, tudo se manifesta impactante. Um noticiário sem novidades, reportagens, entrevistas e comentários chocantes atravessa uma flat season. A Internet enreda-se em mensagens chocantes. Os políticos, os movimentos sociais e os publicitários não olham a meios para criar impacto, ou seja, para nos chocar e sensibilizar. Já não somos como o “rei pasmado” de Gonzalo Torrente Ballester. Todos temos direito ao choque! Andamos abalados, quando não achocalhados.

Anunciante: Emmaüs. Título: Article 13 – L’horreur ne prend jamais de vacances. França, Julho 2017.

O anúncio L’horreur ne prend jamais de vacances, do movimento Emmaüs, pretende chocar:  “parce que l’horreur ne prend pas de vacances. Une campagne choc d’#Emmaüs pour la liberté de circulation”. Consegue-o, de uma forma surpreendente: centenas de presumíveis “cadáveres” testemunham a tragédia dos refugiados, não obstante o artigo 13º da Declaração Universal dos Direitos do Homem: 1) Toda a pessoa tem o direito de livremente circular e escolher a sua residência no interior de um Estado. 2) Toda a pessoa tem o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar ao seu país.

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O anúncio da Emmaüs lembra o expressionismo alemão: os banhistas, banais, estão cercados pela morte. Lembra, também, a capa do álbum Crisis What Crisis (1975) dos Supertramp. Com a imagem da capa, segue a primeira faixa do álbum: Easy Does It.

Supertramp. Easy does it. Crisis What Crisis. 1975.

À mexicana!

Sidral mundetÀ mexicana! À portuguesa! À francesa! À americana!… Expressões banais de que desconfio. Individualizam o colectivo, atribuem-lhe propriedades de pessoas, criam figuras que se reificam como almas cristalizadas. Transformam o plural polifónico em unidade monológica. Estas fantasias identitárias não são neutras. São interessadas. Não é fácil despir estas fardas simbólicas. O anúncio A la Mexicana, de Sidral Mundet, tem condão de, ao assumir uma inversão de valores, evidenciar a ambiguidade do todo e a arbitrariedade das partes. A expressão a la mexicana, habitualmente negativa, é, nesta campanha, virada do avesso. Enfatizam-se, agora, os sucessos e respectivos embaixadores. O objectivo consiste em mobilizar pro-activamente os mexicanos.

Marca: Sidral Mundet. Título: #alamexicana. Agência: Onlyif. México, Março 2016.

Marca: Sidral Mundet. Título: A la mexicana. Agência: Onlyif. México, Junho 2017.

Lançamento Sidral Mundet “A La Mexicana”. Junho 2017.

O Clube Pepsi-Cola.

O anúncio Vending Machine, da Pepsi, é uma paródia do filme Clube dos Poetas Mortos (1989). No final do anúncio ocorre, à boa maneira das paródias, um deslocamento, que subverte o original: a solidariedade oferece-se às avessas; e os membros do novo clube não bebem poesia, mas Pepsi-Cola.

Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

Pepsi. Vending Machine. 2000.

Marca: Pepsi-Cola. Título: Vending Machine. Agência: CLM & BBDO. Direcção: Kinka Usher. França, 2000.

Descarrilar

AIME cogs

Andar sobre carris pode ser bom ou mau. Quando uma economia anda sobre carris parece que é bom. Quando os seres humanos andam sobre carris é mau sinal, é sinal de desumanização, de que a decisão transitou do homem para a engrenagem que construiu. Este cenário distópico assombra a literatura e o cinema ocidentais. Que fazer? A resposta do anúncio Cogs, da AIME, não pode ser mais clara: o que faz falta é descarrilar. Descarrilas tu, descarrilo eu… Mas, atenção, que descarrilar não é fácil. Imagino-me na ponte sobre a Estação Saint-Lazare em Paris: os comboios descarrilam para logo encarrilhar. Mas há muito quem tenha conseguido descarrilar: Don Quixote, Caravaggio, Mozart, Goya, Van Gogh, Francis Bacon…

O realizador deste anúncio, Laurent Witz, ganhou, em 2014, o Óscar pela melhor curta-metragem de animação com o filme Mr Hublot.

Marca: AIME. Título: Cogs. Agência: M&c Saatchi (sydney). Direcção: Laurent Witz. Austrália, Junho 2017.

Mr Hublot. Por Laurent Witz & Alexandre Espigares. Curta-metragem. Ganhou o Óscar pela melhor curta-metragem em  2014.

Momentos musicados

Amazon Music Unlimited

“La música es capaz de llevarse nuestras tristezas en su ritmo y melodía. Evoca recuerdos de amantes perdidos o de amigos fallecidos. Incita a los personajes que llevamos dentro: al niño a jugar, al monje a orar, a la vaquera a moverse al compás, al héroe a superar todos los obstáculos” (Don Campbell, 1998, El Effecto Mozart, Barcelona, Ediciones Urano, p. 7).

Regresso à música e às pressupostas afinidades emocionais. A Amazon criou um novo music streaming, do tipo Spotify ou Pandora. Chama-se Music Unlimited. Inicia com “40 milhões de canções, uma para cada momento”. O que significa que cada canção tem o seu momento próprio ou cada momento tem a sua canção própria. Cada momento é um concentrado único, de actos, palavras, sentimentos e emoções. A cada momento corresponde uma música em particular. E a fada Amazon sabe como os juntar.

Vai um déjà lu? Não resisto a repetir. Haja paciência!

A publicidade é omnívora. Não olha a conteúdos. No limite, qualquer serve. Os anúncios da Amazon dedicados a momentos musicados mostram um gato, um cão e bebés: numa casa de banho e num carro.

Na publicidade, para comunicar emoções, nada melhor do que animais, animações, objectos e crianças. Tudo indica que a comunicação de emoções agradece um ar de inocência.

Apetece fazer uma sondagem. Com quem se identifica mais? 1. O gato; 2. O cão; 3. Os bebés. Responda na parte reservada aos comentários.

Fumar pode matar o seu filho antes de ele nascer

Fumar pode matar o seu filho antes de ele nascer.

Além de me repetir, sou teimoso. Não me calo! Hoje deparei com uma nova imagem no maço de cigarros. Vou pedir à Amazon uma música para cada imagem. Com música, talvez a caderneta das desgraças alcance maior efeito.

Marca: Amazon Music Unlimited. Título: Rearranging the bathroom. Agência: Above+Beyond. Reino Unido, Maio 2017.

Marca: Amazon Music Unlimited. Título: Road trip. Agência: Above+Beyond. Reino Unido, Maio 2017.

Marca: Amazon Music Unlimited. Título: Sugar rush. Agência: Above+Beyond. Reino Unido, Maio 2017.

Por ora, ainda nos deixam morrer

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Os novos sábios sabem tudo; eu nem sequer sei o que sei.

Os fumadores podem respirar: aguardam mais imposto mas menos publicidade. Na roda dos inimigos públicos, é a vez do açúcar e dos refrigerantes. Tudo indica que os impostos sobre o tabaco e os refrigerantes se fundamentam na ciência. A velha máxima de Henri Poincaré, “de julgamentos de facto não se pode derivar julgamentos de valor”, é suplantada pela máxima “contra factos não há argumentos”. Retocando Habermas, estamos confrontados com a “política como ciência e técnica”.

Caricatura de Celeste Semanas

Caricatura de Celeste Semanas.

O Artigo 104º.4 da Constituição da República Portuguesa afirma o seguinte: “A tributação do consumo visa adaptar a estrutura do consumo à evolução das necessidades do desenvolvimento económico e da justiça social, devendo onerar os consumos de luxo”. O Artigo 104º.1 menciona “a diminuição das desigualdades” e o princípio da “progressividade” dos impostos. Em Portugal, as classes baixas consomem tantos refrigerantes e mais tabaco do que as classes altas. Nestes dois impostos, não se vislumbra nem progressividade fiscal, nem sobrecarga dos consumos de luxo, apenas necessidade de Estado. Num país com uma elevada desigualdade de rendimentos, o imposto sobre o tabaco e sobre os refrigerantes penaliza, ao contrário do IVA, do IUC ou do IMI, as classes baixas. Meio século após o “imposto do isqueiro”, adivinha-se um imposto sobre a pastilha elástica (tem açúcar e provoca aerofagia). Sem desconversar, há impostos piores. Com tamanha sabedoria política, técnica e científica a cuidar da nossa saúde, a eternidade está por um fio. Por ora, ainda nos deixam morrer.

Anunciante: Center for Science in the Public Interest. Título: The Real Bears. Agência: Colorado. Direcção: Lucas Zanotto. USA, 2012.

Preconceito em cadeia

Man Ray, Ella Raines, 1947

Man Ray, Ella Raines, 1947.

Há um tipo de razão que custa aos homens admitir: a razão dos outros.

Para aceder ao anúncio, carregar na seguinte imagem ou no endereço http://www.culturepub.fr/videos/anti-racisme-le-banc/.

Racismo em cadeia

Anúncio: Anti Racismo. Título: O Banco. Agência: BDDP. Espanha, 1996.

A minha geração

Franz Marc. Die großen blauen Pferde. 1911.

Franz Marc. Grandes cavalos azuis. 1911.

O anúncio Pilot da Blu é digno de partilha: imagens soberbas, paródia inspirada e a habitual surpresa final. Num mundo ambíguo, conduzir manadas continua a exigir perícia; mas o cavalo é, agora, um helicóptero e o cowboy, uma cowgirl.  O anúncio “Pilot” apresenta-se como uma réplica, no feminino, do “mundo Marlboro”, “um lugar onde a liberdade corre sem limites” ( ver anúncio Marlboro). Blu, por seu turno,  “representa o indivíduo”:

“It’s hard to be yourself in a world that’s constantly trying to make you into someone else. It’s easy to slip and find yourself marching to the beat of someone else’s drum. blu stands for the individual. Whoever you are, however you want to express it, that’s okay. As long as you’re being true to you.”

Em tempo de cavalos mecânicos, o cigarro já não é o que era, é electrónico. Mas tu deves ser verdadeiramente tu. Um cavalo azulado, como os cavalos de Franz Marc!

kandinsky “Lyrisches” (Reiter zu Pferd), 1911.

Wassily Kandinsky. Lírico. 1911.

O anúncio “Pilot” parece piscar o olho à minha geração (ver The Who, My Generation, 1965), que não sei se conduz a manada, se é cavaleiro ou cavalgadura, se Don Quixote cansado. Num aspecto concordo com o anúncio: quando a minha geração tirar a máscara, surgirá um rosto de mulher. A minha geração tem outra história: aquela que escreveram as mulheres.

A acompanhar, canção Cavalo à Solta, de Fernando Tordo. Porque sim!

Marca: Blu. Título: Pilot – Just you & Blu. Agência: The Corner. Direcção: Romain Gavras. Reino Unido, 2016.

Fernando Tordo. Cavalo à Solta. Poema de Ary dos Santos. 1971.