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Sonho envenenado

No artigo Ama-te a ti mesmo como nunca te amaste, de 13 de julho de 2017, continuo a escrever com língua bífida, como a das serpentes.

Para o ler, convém usar luvas e óculos de proteção como os dos serralheiros e metalúrgicos; para perceber, aventurar-se nas entrelinhas; para apreciar, dispensar encostos.

Imagem:
Hieronymus Bosch ou discípulo – Cristo carregando a cruz. Detalhe. Entre 1510 e 1535. Museu de Belas Artes de Gante

Macacos me mordam! Surpresas e sustos

Ao Daniel N.

São amoras, senhor/a, amoras! Maduras e negras, prontas a ser devoradas, com picadas e nódoas nos dedos. Não paro de recuperar e gravar vídeos. Fabulosos, por sinal! Por esta altura, em julho de 2013, andava, provavelmente, virado do avesso. Torrado em Braga à espera de Moledo, a escrita resultava retorcida e afiada, carregada de cinismo e ironias sarcásticas.

Imagem: Frida Kahlo – Autorretrato con Changuito,Frida, 1945. MuseoDolores Olmedo,

Mas, senhor/a, se o texto é silvestre, os vídeos contemplados nos artigos seguintes são uma maravilha: um amor de amoras. A pedir por mais. Se emagrecer… e Anomalia foram colocados no mesmo dia, 13 de julho de 2013; Apanhados, esquecido, no dia 11 de julho de 2015.

Transcendência do humano

Felix Nussbaum – Prisioneiro, 1940

Convém não esquecer.

Herança cultural e identidade de proximidade

Paul Gauguin. Arearea – Joyeusetés, 1892. Musée de Orsay

O oráculo das boas causas (09.07.2016; restaurado)

Rafael – Os Querubins de Rafael. A Madona Sistina (detalhe], entre 1513 e 1514. Gemäldegalerie Alte Meister. Dresden

Bater-se por uma causa justa é já uma vitória (Anónimo).

Marca: Nikon. Título: Not Just Pictures. Produção: Quad. Direcção: Alejandro Toledo. 2004. [Recuperado]

Identidade e convívio (09.07.2026)

O anúncio “Inzalo Yelanga” mantém uma linha de comunicação que a Castle Milk Stout tem vindo a desenvolver há vários anos: usar a publicidade não apenas para promover a cerveja, mas também para refletir sobre identidade, herança cultural e relações familiares. A própria marca descreve o filme como um convite a “passar tempo com aqueles que amamos, fazendo aquilo que realmente importa, valorizando o tempo que temos e estando verdadeiramente presentes no momento”…
Ao longo da vida, as pessoas passam grande parte dos seus dias preocupadas com trabalho, obrigações e distrações, acreditando que haverá sempre outra oportunidade para estar com a família ou para dizer aquilo que realmente importa (…) O verdadeiro legado de uma pessoa não é aquilo que possui, mas sim o tempo que dedica aos outros e as memórias que ajuda a construir…
O filme mostra momentos aparentemente simples — encontros familiares, conversas entre gerações, crianças e adultos a partilhar o quotidiano — sugerindo que são precisamente esses instantes que acabam por definir uma vida (…) A cerveja surge apenas no final, integrada como símbolo de convivência e celebração, e não como protagonista da história…. (ChatGPT, 08/07/2026)

Castle Milk Stout – Inzalo Yelanga. Agência: Joe Public. Direção: Zee Ntuli. África do Sul, julho 2026

A expressão “Inzalo Yelanga” vem das línguas nguni e evoca ideias como: os filhos da luz; aqueles que pertencem a uma mesma linhagem ancestral; a continuidade da vida através das gerações; e o legado transmitido entre avós, pais e filhos (…) O título “Inzalo Yelanga” funciona em dois níveis ao mesmo tempo:
Pessoal, porque fala da família, dos filhos e do legado que deixamos às pessoas mais próximas.
Civilizacional, porque sugere que todos fazemos parte de uma corrente muito maior, recebendo um património cultural dos nossos antepassados e tendo a responsabilidade de o transmitir às gerações seguintes.É precisamente essa dupla leitura que torna o título tão poderoso: o anúncio parece falar apenas de momentos familiares, mas, no fundo, está a refletir sobre o que significa pertencer a uma linhagem e sobre a forma como o tempo transforma presença em herança (ChatGPT, 08.07.2026).

O burro e a cenoura de geração em geração

Cartaz do Carnaval de Loulé de 2014

Recupero dois artigos: “O burro e a cenoura”, de 7 de julho de 2018, e “Entre gerações”, de 6 de julho 2017. O primeiro vale pela provocação, o segundo, pela música.

Colar sem pérolas

Este blogue está cheio de retângulos negros correspondentes a vídeos que se tornaram inacessíveis. Autênticas pérolas desaparecidas de um colar. Costumo recuperar essas falhas, procurando endereços alternativos. Mas, às vezes, a missão resulta impossível. Aconteceu, ontem, com o vídeo “La terre se rechauffe”, imputado à General Electrics em 1936 (ver O aquecimento global em 1936, 05.07.2012).

Após horas de pesquisa, com a ajuda da IA, não o desencantei. Trata-se, contudo, de uma peça de arquivo de enorme valor. Parece asseverar-se mais fácil encontrar vestígios de uma gravura do século XVII do que a fonte de uma obra digital do século XXI.

Aprende-se com a experiência. Doravante, não me contentarei em atualizar o acesso online dos vídeos cujo rasto não quero perder; passo a descarregá-los e a gravá-los num disco duro “frio”. O mundo da Internet é demasiado efémero!

Encontrei nos “artigos do dia” dois vídeos desativados: os anúncios “Le Secret”, da L’Oréal, no artigo Emancipação, de 2016, e “The Look”, da  P&G (Procter & Gamble), no artigo Não é por mal! A discriminação natural, de 2019. Como não arrisco perder o segundo, gravei-o!

Escrevi este artigo à pressa. Quero acabar um prefácio. Regressarei mais tarde para o aprimorar.

Pós-Pavlov

Não consigo renunciar a recolocoar o artigo “Todos diferentes, todos iguais”, publicado há apenas três anos, no primeiro de julho de 2023 no blogue gémeo Margens. As palavras, as imagens e os vídeos estimulam!

Imagem: Kazimir Malevich. Sportsmen, 1931

Merdificação

Vivemos tempos de incerteza em que as oportunidades mais promissoras são também as ameaças mais sérias.

Em francês, resulta difícil distinguir Ça sent la mer d’ici (Daqui, cheira-se o mar) e Ça sent la merde ici (Aqui cheira a merda).

O Fernando deu-me a conhecer uma palavra nova, “merdificação”, ilustrando-a com o anúncio de consciencialização “A Day in the Life of an Ensh*ttificator”, do Norwegian Consumer Council.

Enshitification é um neologismo criado em 2022 por Cory Doctorow para aludir ao ciclo de perversão das plataformas digitais: “Primeiro, as plataformas são boas com seus usuários; depois, elas abusam dos usuários para tornar as coisas melhores para seus parceiros de negócios; por fim, elas abusam desses parceiros para reaver todo o valor para si mesmas. Então, elas morrem.” Aplicada inicialmente às plataformas digitais, a noção acaba por ser alargada pelo próprio Cory Doctorow à generalidade dos “bens” de consumo (Doctorow, “‘Enshittification’ is coming for absolutely everything”. Financial Times, 2024, January).

Os novos virtuosos, “merdeiros”, conseguem cativar o maior número de consumidores graças não a uma elevada mas a uma baixa relação benefício/custo. Transformam uma proposta promissora numa porcaria, eventualmente, aditiva.

Para uma síntese mais desenvolvida da noção de enshittification, sugiro, os artigos “A ‘Merdificação’ das redes sociais”, de Raul Oliveira Jung, e “The Age fo Enshittification”, de Philippe Buschini, ambos publicados em 2025.

Norwegian Consumer Council – A Day in the Life of an Ensh*ttificator. Produção: NewsLab. Direção: August Jorfald. Noruega, fevereiro 2026

Estamos confrontados com uma vaga de mudança não revolucionária: proliferam novidades que exacerbam a ordem existente sem a questionar. Por exemplo, o reforço e a expansão do capitalismo pelo hiperneoliberalismo.

O “hiperneoliberalismo” (ou hiper-neoliberalismo) é um conceito que descreve o aprofundamento radical das políticas neoliberais clássicas. Longe de defender um Estado mínimo tradicional, ele atua como um modelo onde o Estado é reconfigurado de forma autoritária para agir ativamente em prol dos interesses corporativos e do grande capital, impondo a lógica do mercado e da competição a todas as esferas da vida social e individual. As suas principais características incluem: Estado como Provedor do Mercado: Ao invés de simplesmente recuar, o poder público atua como um facilitador ativo de acumulação de riqueza, priorizando desregulamentações e benefícios fiscais para grandes corporações e super-ricos. Intensificação da Desigualdade: Promove a financeirização da economia e uma enorme concentração de renda, ignorando ou enfraquecendo redes de proteção social e direitos laborais. Governança Algorítmica e Individualismo: Transforma o indivíduo num “empresário de si mesmo” (capital humano), gerando uma cultura de hipercompetitividade e individualismo que enfraquece os laços sociais. Tendências Autoritárias: Requer a supressão de resistências sociais, movimentos de contestação e até de instâncias representativas e democráticas, impondo um consenso de mercado goela abaixo. O termo é frequentemente utilizado por sociólogos e analistas políticos (como o geógrafo David Harvey) para descrever as mutações do capitalismo na contemporaneidade. (IA, 21.06.2026)

Reconhecimento

Neste resgate de um artigo de 2020 e da memória de Odetta, muda-se de país e de música, mas sem perda: passamos do meraviglioso para o wonderful. Há seis anos, perdera o andar mas não o discernimento nem a busca de prazer. Hoje, estimo-os ainda mais importantes.

Demasiado potentes, prepotentes e impotentes

Quino e Mafalda

Que desenharia Quino (1932-2020) se estivesse vivo? Não lhe faltariam exemplares de potentes, prepotentes e impotentes em que se inspirar. Nada sofisticados nem discretos. A minha geração foi das mais “empoderadas” ao longo da vida; foi, também, daquelas cuja esperança mais inchou e desinchou.