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Humanização técnica

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A Samsung disponibiliza uma aplicação que fala por nós, corrigindo-nos, quando comunicamos com pessoas que sofrem de depressão. Quando a inteligência artificial se revela mais sensível do que a inteligência humano, o caso é grave.

“People with depressions are sensitive and can be prone to specific words or phase. Even with good intentions, sometimes people say things that do more harm than good.   PREDICT TO PREVENT, a predictive text keyboard that can prevent tragedy from depression. By suggesting right choices of words instead of ones that can potentially hurt those people with depression around you, to prevent the unintentional damage. Predict to Prevent is compatible with every messaging application. The keyboard is available in English and Thai.”

Marca: Samsung. Título: Predict to prevent. Agência: BBDO Bangkok. Tailândia, Abril 2018.

Vida de cão

O graffiti não tem vida fácil em São Paulo, mas aquilo que se expulsa pela porta entra pela ponte, desde que superiormente autorizado. Como neste anúncio da Prefeitura de São Paulo. Os sem-abrigo constituem um problema grave da cidade. Nos Centros Temporários de Atendimento, “os acolhidos podem tomar banho, ter acesso a refeições (café da manhã, almoço e jantar), receber o atendimento social e ser encaminhados para outras políticas públicas de acordo com a sua demanda. O espaço dispõe de banheiros e dormitórios específicos para pessoas com deficiência.” Alguns Centros recebem não apenas os sem-abrigo, mas também os respectivos animais. Por exemplo, “ o CTA Brigadeiro Galvão conta com lavandaria e um canil com sete baias, garantindo um atendimento qualificado também aos animais de estimação dos conviventes.” (http://www.capital.sp.gov.br/noticia/centro-temporario-de-acolhimento-cta-e-inaugurado-na-barra-funda). Carregar na imagem para ver o anúncio.

Eduardo Kobra. Welcome to Brazil. São Paulo

Imagem: Eduardo Kobra. São Paulo. Anunciante: Prefeitura de São Paulo. Título: Case sendo visível. Brasil, 2018.

A indiferença

Swedish Public Employment Service. Make Room. Agência Le bureau Stocholm. Direcção Bjorn Stein. Suécia, Março 2018

“A majestosa igualdade das leis, que proíbe tanto o rico como o pobre de dormir sob as pontes, de mendigar nas ruas e de roubar pão” (Anatole France , 1894, Le Lys Rouge).

“A sociedade da prosperidade, aquela que pretende o ser próspero, odeia todos aqueles que não alcançam aquilo que ela institui. O indivíduo desfavorecido é pois julgado e responsabilizado pela coletividade por não ter alcançado melhor lugar no seu seio.
Da mesma maneira em que a sociedade da informação penaliza o indivíduo desinformado; da mesma maneira que a sociedade tecnológica penaliza o indivíduo desprovido de técnica; da mesma maneira que a sociedade politizada penaliza o indivíduo desprovido de polítiquice.
Todos os dias se pode observar como o ricaço escorraça o mendigo com cólera…” (Georg Simmel, através de Pedro Costa).

O diferente é igual? Devemos amar os outros como a nós mesmos ou amar os outros como outros? Pode a igualdade abraçar a diferença sem a apagar? És tão igual quanto prevê a lei? E tão único quanto o teu cartão de cidadão? A expansão da mesmidade aproxima-nos da nulidade, de um deserto em que somos areia. No Make Room, do Swedish Public Employment Service, vale o anúncio, vale a causa e vale a música (de John Lennon). Na canção L’Indifférence, de Gilbert Bécaud, vale o talento e a poesia. Vale a sabedoria: “a indiferença destrói o mundo”.

Anunciante: Swedish Public Employment Service. Título: Make Room. Agência: Le bureau Stocholm. Direcção: Bjorn Stein. Suécia, Março 2018.

Gilbert Bécaud. L’Indifférence. 1977.

Gilbert Bécaud. L’Indifférence.

Les mauvais coups, les lâchetés
Quelle importance
Laisse-moi te dire
Laisse-moi te dire et te redire ce que tu sais
Ce qui détruit le monde c’est
L’indifférence

Elle a rompu et corrompu
Même l’enfance
Un homme marche
Un homme marche, tombe, crève dans la rue
Eh bien personne ne l’a vu
L’indifférence

L’indifférence
Elle te tue à petits coups
L’indifférence
Tu es l’agneau, elle est le loup
L’indifférence
Un peu de haine, un peu d’amour
Mais quelque chose
L’indifférence
Chez toi tu n’es qu’un inconnu
L’indifférence
Tes enfants ne te parlent plus
L’indifférence
Tes vieux n’écoutent même plus
Quand tu leur causes

Vous vous aimez et vous avez
Un lit qui danse
Mais elle guette
Elle vous guette et joue au chat à la souris
Mon jour viendra qu’elle se dit
L’indifférence

L’indifférence
Elle te tue à petits coups
L’indifférence
Tu es l’agneau, elle est le loup
L’indifférence
Un peu de haine, un peu d’amour
Mais quelque chose

L’indifférence
Tu es cocu et tu t’en fous
L’indifférence
Elle fait ses petits dans la boue
L’indifférence
Y a plus de haine, y a plus d’amour
Y a plus grand-chose

L’indifférence
Avant qu’on en soit tous crevés
D’indifférence
Je voudrai la voir crucifier
L’indifférence
Qu’elle serait belle écartelée
L’indifférence

Xeque mate

Queen project

Os jogos entre adultos e crianças parecem ser uma boa solução para a luta pela igualdade de género. A maioria dos jogos encerra pressupostos machistas. Desmascará-los é importante para promover a igualdade de género.

“FCB Inferno’s CCO Owen Lee added: “This crushingly simple insight came from a five-year-old girl asking a simple question that we all struggle to answer. We are all guilty of unconscious bias and as a communications business we have a chance to do something about that. Queen Rules is a way of playing any number of card games that will change the way people think. So, the next time a little girl asks ‘Are Kings better than Queens?’, the answer will unequivocally be ‘No, it depends how you want to play the game” (https://campaignsoftheworld.com/print/queen-rules-by-fcb-inferno-on-international-womens-day-against-gender-bias/).

Pode, porém, insinuar-se um efeito secundário, uma interpretação que não aponta para a igualdade de género mas para sua inversão: um género, neste caso feminino, passaria a ser mais igual que o outro. As frases dos adultos no final do anúncio dão azo a esta interpretação “abusiva”:

“The Queen Rules project launched on International Women’s Day as a new way to play cards where Queen outranks King. Simultaneous live events and poker tournaments took place around the world to mark the official launch of the new rules” (Coloribus Advertising Archive).

Anunciante: Queen Rules Project. Título: Queen Rules – Social Experiment. Agência: FCB Inferno. Direcção: Libby Durk Wilde. Reino Unido, Março 2018.

Sinais dos tempos 3. Muros sem limites.

Aeromexico

Os últimos artigos vieram sem letras. Como diria o lobo mau: “é para ver melhor!” Se as aparências não se enganarem, não será no parlamento, nas ONG, nos movimentos sociais e nas ruas que se vão esgrimir as causas sociais do futuro. Deslocam-se para os anúncios e as campanhas das grandes marcas. Ontem, o direito à imagem; hoje, a homossexualidade, agora, a livre circulação. Por este andar, ainda competirá às marcas decidir quais são e quais não são as grandes causas. Sinais dos tempos…

Marca: Aeromexico. Título: Borders. Agência: Ogilvy & Mather Mexico. México, Maio 2016.

Sinais do tempo 1: Panmediatização

Don Addis. Media spoonfeeding

Don Addis. Media spoonfeeding.

Marca: Du. Título: Post Wisely – First Story. Agência:  Leo Burnett (Dubai). Emirados Árabes Unidos, Fevereiro 2018.

Lição de moral

Livro de Horas de Simon de Varie. França. 1455.

Livro de Horas de Simon de Varie. França. 1455.

O anúncio The Book, do United Overseas Bank, propõe uma comovente lição de moral: 1) não devemos apropriar-nos do que pertence a outrem; 2) o valor sentimental suplanta o valor pecuniário; 3) esta sabedoria deve passar de pais para filhos. Apostado no valor da honestidade, o anúncio lembra as fábulas de Esopo e de La Fontaine. Lembra, também, as histórias dos livros da escola primária: A Carochinha e o João Ratão, o rato do campo e o rato da cidade; São Pedro e a ferradura; as unhas dos candidatos a emprego e outros ensinamentos do género. A retórica das boas maneiras prosseguia no ciclo preparatório com uma disciplina chamada, creio, civilidade.

De pé, colados às carteiras, olhos postos no poder, entoávamos as nossas cantorias:

“Vamos cantar com alegria
E começar um novo dia
Para nós o estudo só nos dá prazer
E faremos tudo, tudo para aprender.

Não encontrei a letra desta canção na Internet. Creio que não a sonhei. Cantar, não a canto, que espanto o gato. Mas, ideologias à parte, não convém apagar a memória que à memória pertence. No que me respeita, vou compassar uma nova cantiga a caminho da Universidade: vamos cantar com alegria e começar um novo dia…

Marca: United Overseas Brank – UOB. Título: The Book. Agência: BBH (Singapura). Singapura, Fevereiro 2018.

Preservativo contra gatos digitais

Gato de Kazán. Rússia. Séc. XVIII.

Gato de Kazán. Rússia. Séc. XVIII.

No último artigo, os excrementos de gato eram preciosíssimos. Agora, os gatos são as maiores vedetas dos ecrãs contemporâneos. Desperdiçamos triliões de triliões de horas embasbacados com as peripécias felinas. Nós, trabalhadores inveterados, ascéticos até à medula. Os gatos desviam-nos do bom caminho. Por sua causa, caímos em procrastinação, adiamos o dever. Importa acabar com essa ameaça ao rendimento e à carreira profissional.

Um sindicato dinamarquês, investido por uma espécie de chamamento, inventou a extensão Katblocker, que livra o cibernauta da maléfica imagem felina. Quem instalar a extensão, está protegido contra os companheiros das bruxas.

Insólito, este anúncio suscita diversas leituras. O mundo é uma máquina do tempo dessincronizada. Nem sempre temos os pés, quanto menos o espírito, no presente. Este anúncio traz-me, por exemplo, à memória o calvinismo e o iconoclasmo do século XVI. Que o anúncio seja promovido por um sindicato, pouco me espanta: Max Weber demonstrou que o “espírito do capitalismo” tanto era perfilhado pelos burgueses como pelos trabalhadores.

A Danish labour union has declared war on cat videos in a new campaign video for The Katblocker, an extension that blocks cat videos in a browser to help workers overcome the natural urge to procrastinate.

The labour market is under constant development, and the pressure is on all of us to learn and grow. According to a new campaign from Danish union HK, procrastination is the enemy that stands between union members and the next step in their careers. That’s why they’ve now invented the Katblocker to fight the mother of all procrastination: Cat videos.

There’s currently about 91.6m, cat videos on YouTube totaling around 3,194,656,867 minutes of cats that can distract us from the next important step in our careers. The Katblocker was launched last week with a comical parody of the traditional TED Talk format, and the video has already earned a lot of nationwide attention with more than 1m views in its first week (http://www.thedrum.com/creative-works/project/co-noa-hk-katblocker).

Anunciante: HK. Título: Katblocker. Agência: &Co. Direcção: Peter Harton. Dinamarca, Janeiro 2018.

Nojo

NHS. Anti-smoking

O meu rapaz mais novo aproxima-se com uma embalagem de cigarros Marlboro de Angola.

– Vês! Só tem a frase “Fumar prejudica a saúde”, sem sentenças, nem imagens. Bastava assim…

– Não, filho! Não bastava assim. Não era suficientemente nojento.

Estou com gripe. Porquê? Toda a gente sabe e faz questão em mo dizer: “porque fumo”, a última tentação do demo. Como pode caber tanta sapiência no cérebro das pessoas? Tenho diabetes, porque fumo; insuficiência renal, porque fumo; torci um pé, porque fumo; extraí a tiróide, porque fumo; fui operado a duas hérnias, porque fumo. Escrevo azedo porque fumo. A medicina regressou à teoria dos humores. Trata-se de diagnósticos amigavelmente nojentos. Os estigmas são assim: poluidores, extravasam o seu âmbito. Gritamos a um cego! Qualquer dia, alguém vaticinará que a minha calvície e a minha teimosia tresandam a fumo. A estigmatização é um nojo e os seus paladinos, nojentos. E não usam travões. Já, em tempos, ninguém travava o medo dos vampiros: estaca cravada no corpo do suspeito e uma pedra a fechar a boca. Por vezes, as mesinhas antitabaco lembram medalhas de São Bento.

Enojar pessoas parece estar na moda. Até parece que quanto mais me enojas mais gosto de ti. Como no anúncio tailandês Disgusting, da Wai Wai Quick. Nada que se compare, porém, às campanhas antitabaco. Que a cruzada sanitária e higienista degrade a qualidade de vida de milhões de pessoas resume-se a um mero efeito secundário.

Marca: Wai Wai Quick! Título: Disgusting. Agência: Ogilvy & Mather. Tailância, 2000.

Vou propor a criação de um curso de nojologia. Centrado na ciência e na técnica do enojamento público, e vocacionado para os especialistas dos corredores e dos arredores do poder.

Os anúncios Accidents (2012) e Sugar Sugar (2011) ilustram o que pode ser a excelência de um trabalho de nojologia aplicada.

Anunciante: Quit. Título: Accidents. Reino Unido, 2012.

Anunciante: Make Smoking History. Título: Sugar Sugar. 2011.

Racismos

Jean-Michel Basquiat, Dustheads, 1982

Jean-Michel Basquiat, Dustheads, 1982

“Somos sempre o estranho de alguém. Aprender a viver em conjunto, eis o que é lutar contra o racismo” (Jelloun, Tahar Ben, 1998, Le racisme expliqué à ma fille, Paris, Éditions du Seuil).

O anúncio português O mundo está cheio de pessoas assim, de Festival Política, não condiz com a quadra. O que vale é que a quadra natalícia não é nenhum espanador de ideias.

O racismo contamina a relação com o outro. E, dialogicamente, a relação consigo mesmo. O racismo é uma poluição humana. Caricaturar o outro, rebaixá-lo, estigmatizá-lo e reduzi-lo a um exemplar não se me afigura anti-racismo. Antes pelo contrário. O racismo é uma falácia, uma entorse do espírito, a que ninguém é imune. Todos somos vulneráveis. É avassaladora a tentação de embalsamar o outro com os nossos medos e as nossas certezas. O racista está convencido que escreve direito por linhas tortas. Ousemos escrever torto por linhas direitas.

Marca: Festival Política. Título: O mundo está cheio de pessoas assim. Agência: 004. Direcção: Gonçalo Franco. Portugal, Abril 2017.