Arquivo | cidadania RSS for this section

Potentes, prepotentes e impotentes

Francisco Goya. Now One, Now Another, Los Caprichos plate 77 (1799)

01. Francisco Goya. Now One, Now Another, Los Caprichos plate 77 (1799)

Há pouco tempo, olhava-se em redor, só se viam prédios em construção. Agora, olha-se em redor, só se vêem hierarquias. Zelo do Homo Hierarchicus (Dumont, Louis, 1966). A igualdade é folha caída. Rankings, concursos, orgânicas, burocracias, protocolos, paradas… A cada um as suas asas de cera, mais o seu ninho de poder. Parafraseando Francis Bacon, o poder, a exemplo da aranha, tece a teia com a sua própria substância, quem nela cai raramente se levanta. Quanto mais resiste, mais se enreda.

 

Chuva dissolvente

Habitat-1

Admiro a inteligência que serve o próximo, a perspicácia de quem resolve problemas. Este anúncio brasileiro aproxima-se da genialidade generosa. Avança com uma forma de reduzir a incidência das doenças associadas aos mosquitos: Dengue, Zica, Febre Amarela e Chicungunya. A Habitat Brasil cola cartazes nos locais onde a reprodução dos mosquitos é mais provável. Os cartazes são “pôsteres [de papel de arroz] educativos que se dissolvem na chuva e liberam um poderoso larvicida que mata as larvas do mosquito na água”. Mais engenhoso do que o ovo de Colombo, e muito mais útil.

Anunciante: Habitat para a Humanidade Brasil. Título: O Poster Dissolvente. Agência: BETC São Paulo. Direcção: Vilão. Brasil, Junho 2018.

Acrescento um zumbido clássico.

Nikolai Rimsky-Korsakov. The Flight of the Bumblebee. Berliner Philharmoniker.

A boca e o resto

Young Henrys 2

De tanto badalar, o badalo perde o sino. O género justifica, neste anúncio, uma espécie de paródia com final inesperado. Após várias tentativas kitsch apostadas em criar produtos “femininos”, empoderadores da mulher, a australiana Young Henrys propõe uma nova cerveja, a Lady Beer, que sabe a igualdade”:  “The Young Henrys Newtowner, made for your mouth, not your genitals”. Humor, irreverência, provocação, politicamente incorrecto, sentido de marca?

Marca: Young Henrys. Título: Lady Beer. Agência: Unko. Austrália, Maio 2018.

A Geração de Interior / The Indoor Generation

VeluxEstamos tramados! Não há nada que a gente faça que não faça mal. Tudo faz mal! Não é erro de Descartes, é erro de Deus. No futuro, o pânico será o medo de ser, o medo da ameaça de existir. O nosso futuro será a Panfobia.

O anúncio The Indoor Generation é promovido pelo grupo económico Velux especializado em janelas para telhados. Ve significa vento e lux, luz. O anúncio alerta para a necessidade de bem iluminar e bem arejar as casas.

We spend 90% of our life indoors. We have become The Indoor Generation and it is affecting our health and wellbeing (Velux).

Um excelente anúncio de sensibilização que não mendiga causas, inspira-se, com inteligência, na sua própria área de actividade.

Marca: Velux. Título: The Indoor Generation. Agência: &co./NOA. Direcção: Martin de Thurah. Dinamarca, Maio 2018.

Discriminar ou não discriminar, eis a questão

Detail of the Romanesque tympanum of the main portal of the Abbey Church of Saint Foy in Conques, Aveyron, France. Sec. XII

Detalhe do tímpano românico da porta principal da Abadia de Sainte-Foy des Conques, em Aveyron, França. Séc. XII. O Juízo Final, última e definitiva selecção.

Um livro escolar dos anos sessenta conta a história de dois candidatos a um emprego. Um vinha recomendado, mas não foi escolhido: Tinha as unhas sujas.

Em editais de concurso para bolseiros e investigadores, lê-se o seguinte:

“Política de não discriminação e de igualdade de acesso

A Universidade do Minho, promove uma política de não discriminação e de igualdade de acesso, pelo que nenhum candidato pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado ou privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão, nomeadamente, de ascendência, idade, sexo, orientação sexual, estado civil, situação familiar, situação económica, instrução, origem ou condição social, património genético, capacidade de trabalho reduzida, deficiência, doença crónica, nacionalidade, origem étnica ou raça, território de origem, língua, religião, convicções políticas ou ideológicas e filiação sindical”.

A Constituição da República opõe-se a estas formas de discriminação. Mas repetir nunca é demais. A lista das discriminações é extensa, mas não é, naturalmente, exaustiva. Falta, por exemplo, o capital social (relações e conhecimentos) do candidato, fator que, algumas vezes, se apresenta decisivo.

Há mar e mar, há discriminar e discriminar. O maior escudo contra a discriminação pode coabitar com a mais gigantesca e injusta das discriminações. Mal um estudante ingressa num curso universitário, o seu valor pode variar comparativamente do simples para o quádruplo. A portaria nº 231/2006 (2ª série) estipula que o rácio alunos/docente ETI é de 20 alunos por docente nas Ciências Sociais ou nas Letras; 12 alunos nas Ciências da Comunicação ou na Arquitetura, cinco alunos na Medicina ou na Música. A desigualdade entre alunos reproduz-se entre os professores. Um docente em Sociologia pesa quase metade de um docente em Ciências da Comunicação e um quarto de um colega da Música. Estas aritméticas, obra de espíritos mais geniais do que o Albert Einstein, acabam por ter consequências enormes na orgânica e no desempenho das instituições e dos seus membros. São Adamastores mas parece que ninguém se apercebe. Importa combater as discriminações nos concursos. Mas importa atender também à realidade interna. A discriminação sem contrição, para além de prejudicar, degrada. Em termos de aritmética, diminui os autores e as vítimas.

Tanto nos habituamos a uma falsidade que acabamos por acreditar que é verdade.

O feitiço tecnológico

McDonald's Timeless

Se a publicidade fosse uma biblioteca, o tema das relações de género ocuparia várias estantes pejadas com livros de salmos e sermões. Mais pequena, mas em crescimento, aparece a estante da adição às novas tecnologias, cheia com livros de responsos e esconjuros. O anúncio Timeless, da McDonald’s, mostra quanto um pai tem que ser inventivo para cativar a atenção dos filhos, embruxados crónicos pelos telemóveis, tablets, videojogos & Cia. Deste anúncio depreende-se que para resgatar os filhos, o pai deve “tornar-se” criança, regredindo, com os filhos, até à sua própria infância. Esta fórmula é recorrente. A desintoxicação resulta cada vez mais fantástica. Uma boa parte dos anúncios sobre a cidadania e a qualidade de vida são promovidos por grandes marcas, incluindo a McDonald’s, que, nas alturas, tanto se preocupam com as nossas vidas. Tanto interesse comove qualquer um.

Marca: McDonald’s.Título: Timeless. Agência: DDB New Zealand. Direcção: Matt Devine. Nova Zelândia, Maio 2018.

A segunda juventude: os super avós

An Old Man in Military Costume; Rembrandt Harmensz. van Rijn (Dutch, 1606 - 1669); about 1630–1631

Rembrandt. Um homem de idade em traje militar. (detalhe). C. 1630-1631. Rembrandt pintou dezenas de retratos com pessoas de idade.

A publicidade acrescentou às idades da vida os super avós. São fantásticos! São incríveis! São super jovens. “A idade é apenas um número. Uma pessoa é tão velha quanto velha se sinta.”

Durante séculos, os velhos eram simplesmente velhos. Entretanto, alguém se inteirou que “velhos são os trapos”. Em poucas décadas, os velhos tornaram-se pessoas de idade, idosos, terceira idade, quarta idade, seniores, elders em inglês, aînés no Québec e personas mayores em Espanha. Aqui e além, aflora o termo segunda juventude. Livrai-nos, senhor, se não estiveres muito ocupado, da burocracia baptismal.

Lembro-me dos anciãos com respeito, carinho e alguma poesia. Quando as nuvens brilham, penso: lá está ele a fazer fogueiras no céu. Fazia fogueiras com tudo e em qualquer sítio. Era a sua perdição e a sua penitência. Dava-nos, generoso, o prazer de as apagar. À pressa ou devagar. Foi um super avô. Resistente e inquieto. Até à última chama. Cresci com ele. Ensinou-me o sonho e o modo de o trazer no bolso.

Marca: Tivoli. Título: 175 Years of Magic. Agência: &Co (Dinamarca). Direcção: Casper Balslev. Dinamarca, Maio 2018.

Pedestais

Na Bélgica, pátria do Astérix, do Tintim, do Achille Talon e do Gastão da Bronca, resolveram colocar pessoas em pedestais para criar “monumentos humanos”. A Lusitânia também é a pátria do Zé Povinho, do menino Tonecas, do Chico Fininho e da Maria Papoila. De país para país, variam o sentido de humor e a relação com as alturas. Na Bélgica, colocam pessoas em pedestais. Parece que Bruxelas, a corte da Comunidade Europeia, tem falta de pessoas em pedestais. Na Lusitânia, semi-periférica, faltam pedestais para tantos candidatos. O problema não é tanto colocar pessoas em pedestais mas apear quem teima em se perpetuar. Os nossos pedestais, tão elevados, são invejáveis: o marquês de Pombal, em Lisboa, o Monumento aos Heróis da Guerra Peninsular, no Porto, a estátua de Santos da Cunha, em Braga. Três pedestais, três rotundas. Afigura-se-me que o pedestal está para Portugal, com o bacalhau está para o português. O anúncio Human Monument é da Thalys, uma empresa de transporte ferroviário a alta velocidade.

Para aceder ao anúncio, carregar na seguinte imagem.

Thalys

Marca: Thalys. Título: Human monuments. Agência: Rosepark. Direcção: Julian Nodolwsky. Bélgica, Abril 2018.

Solidão na velhice

Eric Lacombe. Shades of Melancholy

Eric Lacombe. Shades of Melancholy.

As pessoas de idade que vivem sós constam entre as categorias sociais mais vulneráveis. Carecem cuidado, no sentido de atenção e apoio. O seu número aumenta a um ritmo exponencial. Vai ser defendida, em breve, na Universidade do Minho uma dissertação de doutoramento em Sociologia dedicada, precisamente, ao “impacto das redes sociais na Qualidade de Vida dos indivíduos com 50 e mais anos que residem sós em Portugal: um estudo no âmbito do projeto SHARE”. Não é, porém, esta dissertação que justifica este artigo, mas o falso anúncio Without You, para a Tupperware.

Não há categoria social imune à publicidade. Um homem de idade que perdeu a companheira vive só, diminuído por algumas incapacidades e rodeado por “fantasmas” do passado, tais como a correspondência, os chinelos ou o avental. Resgata-o uma aparição luminosa: o Tupperware, uma ponte no tempo, que, como um psicopompo, liga o aqui e o além, o agora e o outrora. Talvez não salve a alma, mas reconforta o corpo e a mente.

Proporciona-se, ou talvez não, ouvir a canção Mr. Lonely (1964), de Bobby Vinton, um dos intérpretes de Blue Velvet (1963).

Marca: Academy of Media Arts Cologne / Tupperware. Título: Without You. Direcção: Fabian Epe. Alemanha, Março 2018.

Bobby Vinton. Mr. Lonely. Roses are red. 1964.

Bobby Vinton. Blue Velvet. Blue on Blue. 1963.

Humanização técnica

samsung-predict-to-prevent-branding-in-asia

A Samsung disponibiliza uma aplicação que fala por nós, corrigindo-nos, quando comunicamos com pessoas que sofrem de depressão. Quando a inteligência artificial se revela mais sensível do que a inteligência humano, o caso é grave.

“People with depressions are sensitive and can be prone to specific words or phase. Even with good intentions, sometimes people say things that do more harm than good.   PREDICT TO PREVENT, a predictive text keyboard that can prevent tragedy from depression. By suggesting right choices of words instead of ones that can potentially hurt those people with depression around you, to prevent the unintentional damage. Predict to Prevent is compatible with every messaging application. The keyboard is available in English and Thai.”

Marca: Samsung. Título: Predict to prevent. Agência: BBDO Bangkok. Tailândia, Abril 2018.