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Armadilha para ratos

Fake or not fake, that is the fuck (Falso ou não falso, eis o que importa).

Steadfast Stationery – Don’t Look Up. Agência: Ducktape Studios. Índia, maio 2026

Fogo, Fumo e Cinzas

Vincent Van Gogh . Caveira com cigarro aceso, 1885-86. Van Gogh Musseum. Amsterdam

Fumar é atividade que ganha cada vez mais em ser relegada para a intimidade. Em público, acenam com a morte. O cigarro tornou-se o memento mori do século XXI: “mais um prego no caixão”; “fumar mata!”. Trata-se de uma sentença ritual bem-intencionada. Aliás, penso que se acredita que com boas intenções não se enche o inferno, mas se sobe a escada de Jacob. Apetece pedir também com amizade: “Já que vou morrer, deixem o prazer”. Mas contenho-me e agradeço com um sorriso penitente. Não me tenta incomodar os outros.

St. Vincent – Smoking Section. Masseduction, 2017
St. Vincent – Broken Man. All Born Screaming, 2024

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Número e proporção de óbitos por algumas causas de morte, Portugal, 2023 e 2024 (Fonte INE)

Vítimas da Verdade

Fotografia – Reprodução de La Jornada. México

Existem jornalistas de todos os tipos, feitios, interesses e ideologias. Esta diversidade representa um dos pilares das democracias e expõe-os como alvo a controlar ou a abater nos regimes autoritários e pelo crime organizado. O anúncio mexicano “Bullet Machine” ilustra-o de um modo original, veemente e impactante.

Article 19 Office for Mexico and Central America – Bullet Machine. Agência: Grey Mexico. Direção: Andrea Pelegrin & Francisco Paparella. México, abril 2026

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Rage Against The Machine – Killing In the Name. Rage Against the Machine, 1992
Muse – Uprising. The Resistance, 2009

Literatura deitada

Desliga o telemóvel e vai para a cama com Shakespeare, Cervantes, Camões ou, eventualmente, Dante, Poe, Tolstói, Rilke…

Acompanha ou intervala com boa música. Por exemplo, a Dança Macabra (1874) de Camille Saint-Saëns bem interpretada pela Kamerton Orchestra from Koszalin Music School, da Polónia.

Eros ou Thanatos sobre ou sob os lençóis.

Imagem: Edvard Munch. Dança da Morte (Autorretrato). 1915

Fnac Portugal – Vai para a cama com um livro. 2026
Camille Saint-Saëns – Danse Macabre (1874). Kamerton Orchestra from Koszalin Music School (Polish Nationwide Music Schools’ Symphonic Orchestras Competition 2014).

Telemóvel e acidentes nas passadeiras

Entre 2018 e 2022, cerca de 25 000 peões foram atropelados em Portugal nesse período; dos quais aproximadamente 43 % aconteceram em passadeiras. Nesse mesmo período registaram-se 527 mortes de peões em atropelamentos (…) 3 578 atropelamentos de peões foram registados em 2025, um número 258 superior ao de 2024. Apesar desse aumento de atropelamentos totais, o número de feridos graves e de mortes diminuíram em comparação com 2024 (…) Estudos e reportagens baseados em dados da ANSR indicam que Portugal tem uma das mais altas taxas de atropelamentos de peões na Europa Ocidental, muitas vezes em passadeiras. (ChatGPT, 01.04.2026).

Dirección General de Tráfico – Pedestrians. Agência: Ogilvy Spain. Espanha, março 2026

Mundos malucos

Estou a alinhavar uma conferência sobre Christine de Pisan, uma figura medieval extraordinária. Nascida em Itália em 1463, viveu desde criança em França, onde faleceu em 1530. Considerada a primeira mulher escritora profissional no Ocidente, é autora de uma das primeiras utopias, a Cidade das Damas (1405), um século antes da Utopia, de Thomas More, e pioneira da defesa das mulheres. Ocorrerá na próxima sexta, na biblioteca da Academia Sénior de Braga.

Enquanto me entrego a esta tarefa, tenho estado a ouvir música clássica, designadamente interpretada ao violoncelo por Julian Lloyd Webber, irmão de Andrew Lloyd Webber. Mas apetece-me mudar. Até porque a maior parte das músicas interpretadas remete para os tempos áureos da cultura europeia, o que acaba por ter um sabor agridoce.

Procurei nos meus arquivos um cd porventura mais ligeiro e menos saudoso. Escolhi o Trading Snakeoil for Wolftickets, do norte-americano Gary Jules. Da América não vêm só bombas, também boa música rock, folk e alternativa.

Já coloquei, no artigo O mundo maluco e algo mais (31.05.2023), três canções do Gary Jules: “Mad World”, “Broken Window” e “Something Else”. Relevo, especialmente, a primeira. Não é só o mundo que está a ficar maluco; todos os mundos estão a ficar malucos. Não há ilha ou recanto que se aproveite, que sirva de refúgio. Parece não subsistir escapatória.

Mais ou menos a propósito, uma dúvida ou mero exercício de retórica: segundo o direito, internacional ou não, Khameini foi acidentado, executado ou assassinado? E quem o matou ou mandou matar: herói, justiceiro ou criminoso? Estar-se-á a assumir como normal raptar e matar chefes de estado? Uma nova forma de fazer política, entre a paz e a guerra? Não interessa, pois não? Em mundos malucos, vale tudo! Para maior confusão e insegurança…

Lembrei-me do filme “O Mundo Maluco” (It’s a mad, mad, mad, mad world, 1963). Vagamente, porque o vi faz mais de meio século. Creio, porém, que, esse sim, levezinho, dá mesmo vontade de rir.

Segue o vídeo oficial, realizado por Michel Gondry, da canção “Mad World”, interpretada por Gary Jules, uma versão do original dos Tears For Fears (1982).

Gary Jules – Mad World. Trading Snakeoil for Wolftickets, 2001. Vídeo oficial, por Michel Gondry, 2004

Música para mortos

Na hipermodernidade avançada, desaparafusados, era bastante desaparafusada, sobrevêm excentricidades delirantes que, confesso, conseguem ultrapassar a minha, apesar de tudo, fértil imaginação.

Os egípcios do tempo dos faraós costumavam colocar nos túmulos dos defuntos tudo o que estimavam necessário para a outra vida após a morte:

Objetos pessoais: roupas, joias, cosméticos, jogos e utensílios do dia a dia
Comida e bebida: pão, cerveja, vinho, carnes secas — para sustento no além
Estatuetas shabti (ou ushabti): pequenos servos mágicos que trabalhariam para o morto na outra vida
Objetos religiosos e amuletos: para proteção espiritual
Textos funerários, como o Livro dos Mortos, com feitiços e instruções para atravessar o além
Vasos canópicos: onde eram guardados órgãos mumificados (fígado, pulmões, estômago e intestinos)
No caso dos faraós e nobres, o luxo subia de nível:
Ouro, móveis, carros, armas — e em épocas mais antigas até servos e animais sacrificados, para continuarem a servi-los depois da morte. (ChatGPT, 26.02.2026).

Até ao momento, não deparei com nenhuma menção a vasos musicais para júbilo, entretimento e apaziguamento dos mortos.

Pois, nunca é tarde para reparar!

A Spotify e a empresa norte-americana de água enlatada Liquid Death, que mata a sede, acabam de criar “a primeira urna do mundo capaz de reproduzir música em streaming”, graças à qual “a morte passa a ser, finalmente, muito menos entediante. Com a Urna da Playlist Eterna, agora os mortos podem ouvir suas músicas favoritas para toda a eternidade”.

Liquid Death & Spotify – Eternal Playlist Urn. USA, fevereiro 2026

Tudo bem?

Em Portugal, uma média de três pessoas morrem por suicídio todos os dias. No entanto, sendo um dos tabus mais profundos da sociedade, a morte (especialmente a autoinfligida) raramente é discutida. Não se fala sobre ela.
O suicídio existe na nossa realidade quotidiana, muitas vezes despercebido, enquanto nos esquecemos de que criar espaço, iniciar conversas e prestar atenção é uma responsabilidade partilhada.
Todos os dias, depois de um simples olá, perguntamos “Tudo bem?” – sem esperar pela resposta. É neste breve e quotidiano momento que devemos aprender a parar, a ouvir e, finalmente, a fazer as perguntas difíceis – aquelas que podem mudar vidas.
Este foi o ponto de partida da campanha: criar espaço para um tema fragmentado e desconfortável na conversa do dia a dia. Com o lançamento do 1411 (a primeira linha de apoio nacional de prevenção do suicídio em Portugal, disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana), a campanha reformulou a prevenção como uma responsabilidade social coletiva. (https://www.adsoftheworld.com/campaigns/esta-tudo-bem).

Carregar na imagem seguinte para aceder ao vídeo do anúncio.

SNS24 / Linha Nacional de Prevenção do Suicídio – Está tudo bem? Agência: Tangity. Direção: Augusto Fraga. Portugal, dezembro 2025

Humor negro: chinelos biodegradáveis

O regresso do sol e a azáfama pré-festiva contribuem para evaporar a neve e o espírito natalício. Apetece algo diferente. Resulta difícil encontrar um anúncio recente que não respire ternura e esperança. Encontrei noutros meridianos geográficos e culturais: na Índia. “Earth”, da Chupps Footwear, é um expoente de humor negro.

Anunciante: Chupps Footwear. Título: Earth. Agência: Into Creative. Direção: Amol jalandhar jadhav & santosh padhi. Índia, dezembro 2025

Abanar o esqueleto

Skeleton Dance. Nuremberg chronicles f 264r (imago mortis). 1493. Latin copy in Sao Paulo

Na semana passada, proporcionou-se mostrar The Skeleton Frolic aos alunos de Sociologia da Arte e do Imaginário. Trata-se de uma animação, desenhada por Ub Iwerks em 1937, que integra a série Color Rhapsodies da Columbia Pictures. Entretanto, o Fernando lembrou-se de The Skeleton Dance, o “original inspirador”. Desenhado também por Ub Iwerks, inaugurou, há quase um século, em 1929, a série Silly Symphonies criada por Walt Disney.

The Skeleton Dance. A Silly Symphony. A Walt Disney Comic. Drawn by Ub Iwerks. Directed by Walt Disney. Music by Carl W. Stalling. 1929
The Skeleton Frolic. Color Rhapsodies. Columbia Pictures. Directed by Ub Iwerks. 1937