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Estupidez global

Mapa da ecorregião amazônica definida pelo WWF. Imagem de satélite da NASA.

Uma só coisa me maravilha mais do que a estupidez com que a maioria dos homens vive a sua vida: é a inteligência que há nessa estupidez (Fernando Pessoa, Fragmentos de uma Autobiografia, Joinville . SC, Clube de Autores, 2017, p. 132).

O Facebook tem a gentileza de me recordar artigos antigos. Com o tempo, anúncios como o Life, da Sociedade de Amigos da Amazónia, tornam-se raros, tendem a sair de circulação, incluindo a Internet.

Segundo Carlo Cipolla, de um estúpido pode-se esperar tudo, até a adopção de comportamentos que claramente o prejudicam. O estúpido é, assim, imprevisível, o que o torna particularmente perigoso, para si e para os outros. Este anúncio mostra-nos que de normais e de estúpidos todos temos um pouco.

Anunciante: Sociedade de Amigos da Amazónia. Título: Life. Agência: Matosgrey. Direcção: Fernando Sanches. Brasil, Abril 2009.

Um bar do outro mundo

Lega double face mask , D.R.CONGO. Old collection – Catawiki.

No além, existe um bar frequentado por mortos célebres, entre os quais Shakespeare, John Lennon, Frida Kahlo, a Princesa Diana, Che Guevara e Steve Jobs. Numa espécie de sessão de grupo, cada cliente revela a causa da sua morte. Chega a vez de um jovem, que, embaraçado, confessa que morreu “texting”, a teclar no telemóvel. “Estúpido”! Exclamam, em conjunto, os outros clientes. O vício é tão terrível que o jovem, mesmo morto, continua agarrado ao telemóvel. O anúncio The Afterlife Bar, da Transport Accident Comission, é criativo, consistente e incisivo. A realizadora tem 20 anos de idade.

Pelos vistos, o telemóvel nasceu com uma semente do mal. Socorre-nos o exorcismo mediático dos pecados e das ameaças que rondam os incautos. Mas o exorcismo coexiste com a celebração. O telemóvel é o maior maná, a maior pérola técnica, da história da humanidade. É acessível, mágico, adorado, disponível e fácil de consumir. Colmatou abismos, egoístas, lúdicos e comunicacionais, antes insuspeitos. Oferece-se, no entanto, como uma máscara bifacial: perfeito no geral, perigoso no particular; benéfico, por princípio, maléfico, por consequência.

Oportuno, o anúncio Netflix, da Bouygues Telecom, aponta soluções para contrariar o vício do telemóvel. A bateria e a televisão, por exemplo. O vídeo, que dura 90 segundos, assume-se como um jogo: contém 20 referências as séries Netflix. Enfim, existem pormenores que sensibilizam: Bella Ciao, uma das canções mais emblemáticas da resistência italiana durante a Segunda Grande Guerra.

Marca: Transport Accident Commission Victoria. Título: The Afterlife Bar. Agência: Taboo. Direcção: Alyssa De Leo. Austrália, Agosto de 2019.
Marca: Bouygues Telecom. Título: Netflix. Agência: BETC Paris. Direcção: Adrien Armanet. França, Julho 2019.

A rosa do pensamento

Ten Herbs. The Leap. Julho 2019.

O anúncio The Leap, da libanesa Ten Herbs, aborda um tema delicado. Assumimos o corpo, mas não todo. Persistem partes e funções que só são dizíveis graças a metáforas, sublimações e eufemismos. É o caso do aparelho digestivo. Se a alimentação se descobriu arte, a arte de comer, defecar releva de um vanguardismo deslocado, a arte de chocar. Se os anúncios da Benetton se celebrizaram por dizer o chique com choque, os anúncios, como o The Leap, dizem o choque com uma linguagem chique.

Marca: Ten Herbs. Título: The Leap. Agência: JWT (Beyrouth). Direcção: Mohamed El Zayat. Líbano, Julho 2019.

The Leap lembra os duelos finais dos filmes de Sergio Leone: Por um punhado de dólares (1964) e Era uma vez no Oeste (1969). Cada personagem espera, sem sair da sua posição, o desenlace. O alívio ou a morte.

Gosto que uma realidade me lembre outra. A propósito e a despropósito. Sem genealogia, algoritmo, função, ética ou poética. A lembrança, a associação de ideias, é um pouco como a rosa de Angelus Silesius: “A rosa é sem por quê. Floresce porque floresce”.

The final duel of Once upon a time in the West by Sergio Leone (soundtrack by Ennio Morricone). 1969.
The Good The Bad and the Ugly Finale, by Sergio Leone (soundtrack by Ennio Morricone). 1964.

Romeu e Julieta

Marc Chagall. Romeo & Juliet – Detail for Paris Opéra (1964).

Nas férias, leio menos, vejo menos publicidade, durmo mais e escuto mais música. São muitas e boas as interpretações de A Time for Us, de Nino Rota, para o filme Romeu & Julieta (1968). Gosto da versão da mexicana-americana Bárbara Padilla, soprano cantora de ópera, que sobreviveu a um linfoma de Hodgkins.

Dedico esta música à pessoa que costuma ser a primeira sacrificada a ler os artigos do Tendências do Imaginário.

Bárbara Padilla. A Time For Us (Un Giorno Per Noi). Romeo & Juliet (1968). Nino Rota. The London Symphony Orchestra. 2014.

Morrer só uma vez. Humor negro

Campanha anti tabaco.

Pega num cigarro tranquilo. “Fumar provoca ataques cardíacos”. Qual era a frase de ontem? “Fumar causa o cancro do pelo”? Ou algo parecido. Estava a viciar-se em mensagens anti tabaco. Sentou-se na varanda. Alinhou umas letras. Pousou o cinzeiro e os cigarros sobre o papel. E saltou.

O delegado afastou o cinzeiro e o maço de cigarros. No papel, uma frase singela: “é preferível uma única morte a tantas quantas nos prometem”. O bafo do Estado não engana: “o Homem é um ser para a morte”. Escusava, talvez, ser uma vanitas tão briosa. Existem anúncios anti tabaco que se resumem a espantalhos mórbidos.

Anunciante: Cnct – comité national contre la tabagisme. Título: Antitabac, The Costo f Living. Agência: Euro RSCG 360. França, Setembro 2011.

Morte flutuante

Não é a primeira vez que proponho aos alunos de Sociologia da Arte um trabalho prático apostado na relação entre autores, obras, correntes ou eventos de dois géneros artísticos distintos. A arte, concebida num sentido abrangente, pode incluir, por exemplo, videojogos, anúncios publicitários, street art… Trata-se de um desafio para os alunos e para o professor. Todos aprendemos, embora, sobranceiros, os doxósofos passem por estas iniciativas como quem passa por um amontoado de silvas.

Durante a apresentação dos trabalhos, já lá vão dois meses, pedi autorização à Ana Berenguer para publicar, no Tendências do Imaginário, o seu trabalho Ophelia: A sua inspiração e a sua representação na Pintura e na Cultura Pop.

Quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto. Ao pdf do trabalho da Ana Berenguer, já por si muito rico, acrescento um vídeo da pianista Khatia Buniatishvili, que convoca, também, o corpo flutuante de Ophelia.

Seguem o trabalho da Ana Berenguer (para aceder “descarregar”) e o vídeo de Khatia Buniatishvili.

Khatia Buniatishvili. Schubert / F. Liszt – “Ständchen” (1826).

Vozes

Shell Shock, A Requiem of War. Ópera. Compositor: Nicholas Lens. Livret: Nick Cave, 2014.

As músicas Flamma Flamma – The Fire Requiem (1994) e Was Hast Du Mit Meinem Herz Getan (Orrori Dell’ Amore, 1995), compostas pelo belga Nicholas Lens, surpreendem: vozes mágicas, estranhas, excessivas, do outro mundo. Acrescento o teaser da ópera, também de Nicholas Lens, Shell Shok – A Requiem of War (2014), em memória da Primeira Grande Guerra. Meus amores, meus horrores!

Nicholas Lens. Flamma Flamma – The Fire Requiem. 1994.
Nicholas Lens. Was Hast Du Mit Meinem Herz Getan. Orrori Dell’ Amore. 1995.
Teaser. Shell Shock – A Requiem of War. Ópera. Compositor : Nicholas Lens. Livret : Nick Cave, 2014.

As flores do mal

Caim e Abel. Século XV.

Não procurem mais o meu coração, as bestas comeram-no (Charles Baudelaire. Les Fleurs du Mal. 1857).

Que besta devo adorar ? Que imagem santa atacar ? Que corações destroçarei? Que mentira devo sustentar? Em que sangue marchar ? (Arthur Rimbaud. Une Saison en enfer. 1873).

Somos filhos de Caim. O mal está arreigado na arqueologia do ser. Quem não pisou uma formiga? Quem não fez mal a uma mosca? Quem amou o próximo como a si mesmo? Não resistimos à maldade. Empolga-nos a crueldade nos cartoons, nos filmes, nos anime, nos videojogos e nas campanhas eleitorais. Os programas de informação mostram o mal e esquecem o bem. Cordeiros do demo, apascentamos a ruindade. Somos consumidores do mal.

O anúncio Ski, da Laca 5Star, brinda-nos com um cocktail do mal num cálice de expiação. “Uma explosão de sabores e texturas ». O mal sabe bem. À semelhança do anúncio ski, T-Rex, da Collective du Lait, faz parte de uma série de anúncios. Ensina que o mais fraco (tu e eu) resulta grotescamente vulnerável ao mal. Para concluir, o anúncio Dumb Ways to Die, da Metro Trains Melbourn, é uma ternura de dança macabra à moda do terceiro milénio.

O mal é uma tentação? Algo de bom deve ter! Recorrendo a línguagem suculenta de Thomas Müntzer, o monge revolucionário líder da Guerra dos Camponeses (1524-1525): o bem e o mal lembram “duas serpentes que fornicam em conjunto”. O bem e o mal dançam no mesmo baile. O mais avisado é aprender a « homeopatia do mal », a lidar com a “parte do diabo” (Michel Maffesoli). Até porque, a fazer fé na sabedoria popular, “há males que vêm por bem”.

Marca : Lacta 5Star. Título : Ski. Agência : Wieden + Kennedy (Brasil). 2018.
Marca: Collective du Lait. Título : T-Rex. Agência : DDB (Vancouver). Direcção : Rouairi Robinson. Canadá, 2005.
Marca: Metro trains. Título: Dumb ways to die. Agência: McCann-Erikson Melbourne. Austrália, 2012.

Esqueletos eróticos

Eizo. X-Ray Pin-up calendar. 2010. Imagem em alta resolução.

A todas e a todos que se dedicam à mui nobre arte de emagrecer.

Os esqueletos tocam música e dançam. À semelhança dos demónios. A dança dos esqueletos inspirou inúmeras obras desde a Idade Média. A Skeleton dance, em realidade aumentada, foi exibida em Bruxelas no ano de 2013:

‘Skeleton Dance’ is a streetmapping project that was first presented at Brussels Light Festival in 2013. During the three day festival, more then 85.000 people visited Brussels Light Festival. Over the past few years the project has traveled to multiple festivals around the world.

Filip Sterckx and Antoon Verbeeck. Skullmapping: https://skullmapping.com/project/skeleton-dance/

Para além de dançar e tocar música, os esqueletos também beijam, assediam, riem, lutam e fazem pose. Nem Sigmund Freud imaginou as potências eróticas dos ossos. O voyeur deixa de ver a pele e a carne, vê os ossos voluptuosos. Bem diz o povo: nós somos tão bonitos por dentro! Com uma pequena ajuda da técnica.

Ontem, dei uma conferência no Paço dos Duques, em Guimarães, sobre a honra e a lenda de Egas Moniz. Sobreaqueceram-se-me os neurónios. No rescaldo, só penso disparates. É a minha receita para descansar. Publiquei algumas imagens do X-Ray pin-up calendar no facebook em 2010, data da sua edição. Vale a pena retomá-las.

Imagens do calendário X-Ray pin-up, da Eizo. 2010.

A queima dos vampiros

Edvard Munch. Vampire. 1895.

O prazer da escrita é pecado? E a originalidade, um vício? As letras deitam-se cada vez mais em latas de conserva.

Para a crença popular, retomada numa multidão de livros, filmes e imagens, o vampiro é um morto que sai do túmulo para sugar o sangue dos vivos. Na Idade Média, para impedir a fuga da sepultura dos mortos suspeito de vampirismo, prendiam-se e profanavam-se os cadáveres trespassando-os com estacas, colocando pedras na boca e deformando os esqueletos.

“O mal não tem fim. Resiste e ressurge. Como o Drácula e os mortos vivos. Para o mal, a morte não é obstáculo incontornável, não é, como se diz, sono eterno. Receosas e vulneráveis, as comunidades humanas previnem-se. No pesadelo medieval, a morte não é irreversível. O morto pode regressar do além para molestar os vivos. Importa proteger-se.
Neste quadro mental, há cadáveres que, pela sua vida terrena, são ameaças mesmo após a morte. Na Polónia, na Bulgária, na Irlanda e na Itália, foram descobertos túmulos medievais e pós-medievais com esqueletos de corpos brutalizados: pedras e tijolos enfiados na boca e na garganta, cabeça deslocada entre as pernas, corpos cravados com estacas, imobilizados com forquilhas… São “esqueletos de vampiros”. Pertencem a cadáveres de presumíveis vampiros (undead, em inglês, ou revenants, em francês). Para maior imunidade, impunha-se evitar a saída do túmulo e o regresso aos vivos” (Albertino Gonçalves; ver continuação no artigo Exorcismos: https://tendimag.com/2017/08/15/exorcismos/).

O vampiro é um devorador. Devora o outro e a si mesmo, esvaziando ambos. O vampiro é um insaciável instável. Um tormento sem limites.

“A tradição quer que aqueles que foram vítimas dos vampiros se transformem, por sua vez, em vampiros: são, ao mesmo tempo, esvaziados do seu sangue e contaminados. O fantasma atormenta o ser vivo com o medo, o vampiro mata-o apoderando-se da sua substância: ele só sobrevive através da vítima. A interpretação funda-se, neste caso, na dialéctica do perseguidor-perseguido. O vampiro simboliza o apetite de viver, que renasce quando o julgávamos apaziguado” (Alain Gheerbrant & Jean Chevalier, Dictionnaire des Symboles, 1969).

Os vampiros integram o regime nocturno, sombrio e lunar mas fecundo (Gilbert Durand, As estruturas antropológicas do imaginário, 1969). O regime solar, a luz do dia, é-lhes fatal. São prisioneiros da noite. É este o mote da espectacular campanha brasileira The Vampire Poster, para a série The Passage, da Fox. Cartazes com imagens de vampiros, pintados no dorso com tinta inflamável, incendeiam-se ao nascer do sol em diversos locais da cidade de São Paulo. O fogo reduz a cinzas e purifica. Na publicidade ainda há criatividade, criatividade que me parece definhar em vários templos da cultura.

Queimas, há muitas! Do Judas, da velha, do velho, das bruxas, dos hereges, das fitas… Queima-se o frio no São Martinho e a noite no São João. Queima-se o galo em Barcelos. Tudo se queima, tudo se regenera, tudo se purifica. Queimamos tudo, queimamos tudo, e não deixamos nada. Mas as cinzas não são cinzas, não; são sementes, sementes da nossa condição.

Marca: Fox Channel. Título: The Passage. The Vampire Post. Agência: BETC São Paulo. Brasil, Maio 2019.
José Afonso. Os Vampiros. Ed. Original: Baladas de Coimbra, 1963. Ao vivo no Coliseu em´1983.