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Telemóvel e acidentes nas passadeiras

Entre 2018 e 2022, cerca de 25 000 peões foram atropelados em Portugal nesse período; dos quais aproximadamente 43 % aconteceram em passadeiras. Nesse mesmo período registaram-se 527 mortes de peões em atropelamentos (…) 3 578 atropelamentos de peões foram registados em 2025, um número 258 superior ao de 2024. Apesar desse aumento de atropelamentos totais, o número de feridos graves e de mortes diminuíram em comparação com 2024 (…) Estudos e reportagens baseados em dados da ANSR indicam que Portugal tem uma das mais altas taxas de atropelamentos de peões na Europa Ocidental, muitas vezes em passadeiras. (ChatGPT, 01.04.2026).

Dirección General de Tráfico – Pedestrians. Agência: Ogilvy Spain. Espanha, março 2026

Mundos malucos

Estou a alinhavar uma conferência sobre Christine de Pisan, uma figura medieval extraordinária. Nascida em Itália em 1463, viveu desde criança em França, onde faleceu em 1530. Considerada a primeira mulher escritora profissional no Ocidente, é autora de uma das primeiras utopias, a Cidade das Damas (1405), um século antes da Utopia, de Thomas More, e pioneira da defesa das mulheres. Ocorrerá na próxima sexta, na biblioteca da Academia Sénior de Braga.

Enquanto me entrego a esta tarefa, tenho estado a ouvir música clássica, designadamente interpretada ao violoncelo por Julian Lloyd Webber, irmão de Andrew Lloyd Webber. Mas apetece-me mudar. Até porque a maior parte das músicas interpretadas remete para os tempos áureos da cultura europeia, o que acaba por ter um sabor agridoce.

Procurei nos meus arquivos um cd porventura mais ligeiro e menos saudoso. Escolhi o Trading Snakeoil for Wolftickets, do norte-americano Gary Jules. Da América não vêm só bombas, também boa música rock, folk e alternativa.

Já coloquei, no artigo O mundo maluco e algo mais (31.05.2023), três canções do Gary Jules: “Mad World”, “Broken Window” e “Something Else”. Relevo, especialmente, a primeira. Não é só o mundo que está a ficar maluco; todos os mundos estão a ficar malucos. Não há ilha ou recanto que se aproveite, que sirva de refúgio. Parece não subsistir escapatória.

Mais ou menos a propósito, uma dúvida ou mero exercício de retórica: segundo o direito, internacional ou não, Khameini foi acidentado, executado ou assassinado? E quem o matou ou mandou matar: herói, justiceiro ou criminoso? Estar-se-á a assumir como normal raptar e matar chefes de estado? Uma nova forma de fazer política, entre a paz e a guerra? Não interessa, pois não? Em mundos malucos, vale tudo! Para maior confusão e insegurança…

Lembrei-me do filme “O Mundo Maluco” (It’s a mad, mad, mad, mad world, 1963). Vagamente, porque o vi faz mais de meio século. Creio, porém, que, esse sim, levezinho, dá mesmo vontade de rir.

Segue o vídeo oficial, realizado por Michel Gondry, da canção “Mad World”, interpretada por Gary Jules, uma versão do original dos Tears For Fears (1982).

Gary Jules – Mad World. Trading Snakeoil for Wolftickets, 2001. Vídeo oficial, por Michel Gondry, 2004

Música para mortos

Na hipermodernidade avançada, desaparafusados, era bastante desaparafusada, sobrevêm excentricidades delirantes que, confesso, conseguem ultrapassar a minha, apesar de tudo, fértil imaginação.

Os egípcios do tempo dos faraós costumavam colocar nos túmulos dos defuntos tudo o que estimavam necessário para a outra vida após a morte:

Objetos pessoais: roupas, joias, cosméticos, jogos e utensílios do dia a dia
Comida e bebida: pão, cerveja, vinho, carnes secas — para sustento no além
Estatuetas shabti (ou ushabti): pequenos servos mágicos que trabalhariam para o morto na outra vida
Objetos religiosos e amuletos: para proteção espiritual
Textos funerários, como o Livro dos Mortos, com feitiços e instruções para atravessar o além
Vasos canópicos: onde eram guardados órgãos mumificados (fígado, pulmões, estômago e intestinos)
No caso dos faraós e nobres, o luxo subia de nível:
Ouro, móveis, carros, armas — e em épocas mais antigas até servos e animais sacrificados, para continuarem a servi-los depois da morte. (ChatGPT, 26.02.2026).

Até ao momento, não deparei com nenhuma menção a vasos musicais para júbilo, entretimento e apaziguamento dos mortos.

Pois, nunca é tarde para reparar!

A Spotify e a empresa norte-americana de água enlatada Liquid Death, que mata a sede, acabam de criar “a primeira urna do mundo capaz de reproduzir música em streaming”, graças à qual “a morte passa a ser, finalmente, muito menos entediante. Com a Urna da Playlist Eterna, agora os mortos podem ouvir suas músicas favoritas para toda a eternidade”.

Liquid Death & Spotify – Eternal Playlist Urn. USA, fevereiro 2026

Tudo bem?

Em Portugal, uma média de três pessoas morrem por suicídio todos os dias. No entanto, sendo um dos tabus mais profundos da sociedade, a morte (especialmente a autoinfligida) raramente é discutida. Não se fala sobre ela.
O suicídio existe na nossa realidade quotidiana, muitas vezes despercebido, enquanto nos esquecemos de que criar espaço, iniciar conversas e prestar atenção é uma responsabilidade partilhada.
Todos os dias, depois de um simples olá, perguntamos “Tudo bem?” – sem esperar pela resposta. É neste breve e quotidiano momento que devemos aprender a parar, a ouvir e, finalmente, a fazer as perguntas difíceis – aquelas que podem mudar vidas.
Este foi o ponto de partida da campanha: criar espaço para um tema fragmentado e desconfortável na conversa do dia a dia. Com o lançamento do 1411 (a primeira linha de apoio nacional de prevenção do suicídio em Portugal, disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana), a campanha reformulou a prevenção como uma responsabilidade social coletiva. (https://www.adsoftheworld.com/campaigns/esta-tudo-bem).

Carregar na imagem seguinte para aceder ao vídeo do anúncio.

SNS24 / Linha Nacional de Prevenção do Suicídio – Está tudo bem? Agência: Tangity. Direção: Augusto Fraga. Portugal, dezembro 2025

Humor negro: chinelos biodegradáveis

O regresso do sol e a azáfama pré-festiva contribuem para evaporar a neve e o espírito natalício. Apetece algo diferente. Resulta difícil encontrar um anúncio recente que não respire ternura e esperança. Encontrei noutros meridianos geográficos e culturais: na Índia. “Earth”, da Chupps Footwear, é um expoente de humor negro.

Anunciante: Chupps Footwear. Título: Earth. Agência: Into Creative. Direção: Amol jalandhar jadhav & santosh padhi. Índia, dezembro 2025

Abanar o esqueleto

Skeleton Dance. Nuremberg chronicles f 264r (imago mortis). 1493. Latin copy in Sao Paulo

Na semana passada, proporcionou-se mostrar The Skeleton Frolic aos alunos de Sociologia da Arte e do Imaginário. Trata-se de uma animação, desenhada por Ub Iwerks em 1937, que integra a série Color Rhapsodies da Columbia Pictures. Entretanto, o Fernando lembrou-se de The Skeleton Dance, o “original inspirador”. Desenhado também por Ub Iwerks, inaugurou, há quase um século, em 1929, a série Silly Symphonies criada por Walt Disney.

The Skeleton Dance. A Silly Symphony. A Walt Disney Comic. Drawn by Ub Iwerks. Directed by Walt Disney. Music by Carl W. Stalling. 1929
The Skeleton Frolic. Color Rhapsodies. Columbia Pictures. Directed by Ub Iwerks. 1937

O Ovo de Colombo. Simplicidade e literacia

A simplicidade é uma das melhores formas de comunicação. Atrai e impacta. Mas não é fácil. Ter ideias simples e eficientes é, paradoxalmente, complicado. O anúncio turco “Stop at the crosswalk, stop the accidents”, do Município de Tuzla, é um “ovo de Colombo”. Tanto mais que, ao recorrer a um histograma, ousa apostar na literacia matemática, estatística, do público alvo: o conjunto da população.

Anuncuante: Tuzla Municipality. Título: Stop at the crosswalk, stop the accidents. Agência: Concept. Turquia, setembro 2025

Com as mãos vazias e o coração cheio

Lhasa de Sela oferece-se como um dos meus encantos. Deixou-nos sem uma voz e uma presença insubstituíveis faz 15 anos, com 37 anos de idade. A Almerinda Van Der Giezen acaba de me enviar esta interpretação da canção “J’arrive à la ville”, na sua cidade de adoção, Montréal, em 2005. Uma bênção!

Moi aussi
Moi aussi
J′arrive les mains vides
Au sud du nord
Au nord du sud
J′ai un passé
Mais j’m′en sers pas
(Llasa de Sela)

Lhasa de Sela – J’arrive à la ville. The Living Road, 2003. Ao vivo no Quebec festival 2005

A Noiva Estelar

A “noiva penada” dos Serões dos Medos lembrou-me duas “noivas cantoras”: uma estelar; a outra, lunar. A primeira, Karen Elson, é uma modelo cantora que “assombrou a música”. Uma versão inglesa da francesa Carla Bruni. Casou, consagrada por um xamã, em 2005, com Jack White, dos White Stripes, numa canoa no rio Amazonas. Os títulos das músicas não enganam: “O fantasma que anda”, “A verdade está na sujeira” (uma “noiva cadáver” é protagonista do vídeo oficial); “Maravilha Cega”, “Sombra quebrada”…

A outra noiva, a lunar, fica para o próximo artigo.

Karen Elson – The Truth Is In The Dirt. The Ghost Who Walks, 2010. Vídeo oficial
Karen Elson – The Ghost Who Walks. The Ghost Who Walks, 2010. Live in Studio-A, 2011
Karen Elson – Wonder Blind. Double Roses, 2017. Live in Paste Studios – New York, 2017
Karen Elson – Call Your Name. Double Roses, 2017. Vídeo oficial
Karen Elson – Broken Shadow. Single, 2022

Restolho dos Serões dos Medos

Serões dos Medos. Casa da Cultura, Melgaço, 24.10.2025. Fotografia de Marco Gonçalves

A quarta edição dos Serões dos Medos (sexta, 24 de outubro) quase encheu o auditório da Casa da Cultura de Melgaço (com capacidade para 195 pessoas). De ano para ano, cada vez mais jovens e forasteiros. Uma iniciativa original, imaginativa e ousada, a assumir a população, simultaneamente, como protagonista e público. Em suma, um enxerto que pegou no programa mais alargado da Noite dos Medos.

Serões dos Medos. Vídeo de apresentação. Município de Melgaço, 24 de outubro de 2025

Mal começo a falar, após a exibição do vídeo de apresentação, um frisson de assombro e espanto apodera-se da audiência: uma “alma do outro mundo”, uma noiva penada translúcida, hasteada à minha esquerda, de tamanho natural, põe-se a estremecer teimosa e ostensivamente…

Não tive outro remédio, senão prosseguir o discurso, como se nada fosse.

Imagem: Noiva Penada. Noite dos Medos. Melgaço

Estive demasiado tagarela. Ainda mais do que de costume. Talvez por causa 1) da cafeína da coca-cola que os meus tios me ofereceram, b) de eventuais fluídos de papagaio provenientes da mediunidade da Mariana, sentada, eloquente e bem-disposta, ao meu lado, ou c) da intenção de aliviar a carga sobrenatural com disparates do tipo:

“há uns tempos, não me largavam os pesadelos com entes falecidos. Antes de deitar, bebia café com leite acompanhado com pão e queijo. Por obra e graça de um sexto sentido, antecipei a refeição uma hora. Desapareceram os pesadelos e as visitações do Além”.

Como nas edições anteriores, sem tempos mortos entre as 21 horas e perto das doze badaladas, confesso que acabei por sentir o espírito maligno do tabaco a chamar por mim. No fim, felicitei o Abel Marques pela organização, com destaque para o vídeo de abertura e o efeito da “boneca animada”. Disse-me que não foi de propósito. Pois, pois… acode-me o testemunho contado durante a sessão por um primo:

“O meu avô residia no lugar da Lavandeira e namorava no lugar dos Bouços, ambos da freguesia de Prado, a uma distância de perto de dois km, por carreiros estreitos, num tempo em que não havia eletricidade. Numa noite de luar, quando regressava a casa, a meio do caminho, no lugar da Barronda, sente-se agarrado pelo ombro, faz força para se soltar e vê no chão a sombra de algo que pairava no ar. Desata a correr, sem se atrever a olhar para trás. No dia seguinte, volta ao mesmo local: a boina baloiçava numa silva”.

Até para o ano, se os astros assim o entenderem! Entretanto, na próxima sexta, 31 de outubro, será a vez da Noite dos Medos.