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Noite dos medos. O Carnaval macabro

Noite dos Medos. Melgaço. Noite de 31 de Outubro de 2018. Produção: Rádio Vale do Minho.

A segunda edição da Noite dos Medos de Melgaço ultrapassou as expectativas. Centenas de pessoas partilharam medos numa catarse colectiva respaldada na tradição. Nenhum medo escapou, nem sequer “os medos que metem medo a um susto”. Numa noite para aquecer, com chamas e queimadas, o protagonista foi o corpo, mascarado, pintado, representado, dançado e comunicado. Revitaliza-se, tribalmente, a memória e reinventa-se o passado.

Acrescento duas músicas a condizer: The End, dos The Doors, e Highway to Hell, dos AC/DC. Faltavam no Tendências do Imaginário. Dispus os vídeos por ordem de estreia. A menor qualidade do som e da imagem do vídeo dos The Doors é compensada pelo facto de se tratar de uma actuação ao vivo no próprio ano do lançamento da música (1967).

The Doors. The End. The Doors. 1967.

AC/DC, Highway to Hell. Original: Highway to Hell. 1979.

Língua e pensamento

Anchor Point. Jovem, hospedei-me vários anos na casa ao fundo com escadario exterior. No último Agosto, comecei um namoro que ainda dura.

Anchor Point. V.P. Âncora. Jovem, hospedei-me vários anos na casa ao fundo com escadas exteriores. Estava alojado nesta casa quando comecei um namoro que ainda dura.

Passou uma viatura com o letreiro: AnchorPoint. Pesquisei na Internet: trata-se de uma Surf School, Escola de Surf, sedeada em… Vila Praia de Âncora (“Anchor Beach City”). Nomes de empresas, associações e outras entidades portuguesas em inglês é uma prática que se repete como uma música do Philip Glass. Consta que o inglês cativa os clientes! Um País que engole a própria língua e se dobra perante o estrangeiro deve ser um país indisposto consigo próprio, com a sua identidade. Não há património imaterial da humanidade que compense. A indiferença face à língua, falada ou escrita, reflecte-se na língua com que se pensa, logo na qualidade do pensamento. “A minha pátria é a língua portuguesa” (Fernando Pessoa). E a nossa?

É possível pensar condignamente em todas as línguas. Sem hierarquias. Há quem domine e pense em várias línguas. Colhe, porventura, alguma vantagem. O que me preocupa é a leveza do linguajar das zonas francas. O estar entre duas línguas sem dominar nenhuma. Estranho que Portugal pareça apostar numa política linguística, científica e cultural de zona franca.

Philip Glass. Einstein on the beach – Knee Play 1. Einstein on the beach. Ópera. 1975.

Música “tradicional” portuguesa

raizes_musica_tradicional_portuguesa.Em período de férias, aumentam as festas e diminuem as visualizações portuguesas do Tendências do Imaginário .  Não ultrapassam os 17%. A minha praia anda demasiado ruidosa. Anteontem, os metal, ontem, os indie, hoje os tecno. Apetecem-me outras músicas. Dedico este ramalhete de músicas “tradicionais” portuguesas aos visitantes dos demais países. A selecção é arbitrária, incompleta e a meu gosto. Procura dar uma ideia da riqueza e da diversidade da música portuguesa.

Amália Rodrigues. Malhão.

Mariza. Barco Negro. Ao vivo na Sydney Opera House. 2006. Música original brasileira.

Dulce Pontes. Canção do mar. Lágrimas. 1993.

José Afonso. Milho verde. Cantigas de Maio. 1971.

Raízes. Boiada. Música tradicional portuguesa. 1982.

Brigada Victor Jara. Vira de Coimbra. Tamborileiro. 1979.

Brigada Victor Jara. Se fores ao São João. Tamborileiro. 1979.

Brigada Victor Jara. Pézinho da Vila. Eito Fora. 1977.

Brigada Victor Jara. Ao romper da bela aurora. Eito Fora. 1977.

Júlio Pereira. Vira velho. Braguesa. 1983.

Apagar o inferno

Warframe

Os trailers dos videojogos situam-se na vanguarda do imaginário e da estética contemporâneos. Chamam a si os maiores recursos e os melhores profissionais e criativos. No trailer We All Lift Together, do videojogo Warframe, criaturas, mistos de máquinas e seres humanos, surgem como guerreiros do trabalho, num estaleiro amplo, composto por partes metálicas e partes líquidas.

We All Lift Together. Warframe. Videojogo. Julho 2018.

Ouve-se um coro, um hino. Lembra as canções de resistência. Escolho quatro, uma por país eurolatino do sul: França, Le Chant des Partisans (Yves Montand); Itália, Bella Ciao (Yves Montand); Portugal, Grândola Vila Morena (José Afonso); e Espanha, Si Me Quieres Escrebir (Marina Rosell, a capella).

Chant des Partisans. Intérprete: Yves Montand. França. Resistência, II Guerra Mundial.

Bella Ciao. Intérprete: Yves Montand. Itália. Resistência, II Guerra Mundial.

Grândola Vila Morena. Intérprete: José Afonso. Portugal. Resistência ao fascismo.

Si me quieres escribir. Intérprete: Marina Rosell. Espanha. Resistência, Guerra Civil.

A Mãe e a Guerra

Hoje é Dia dos Pais no Brasil. Só não são todos os dias dias da mãe porque alguém se lembrou de decretar um dia especial. A relação com a mãe desdobra-se numa tensão entre união e separação, em que vibram as cordas tangíveis do coração: sensação, sentimento e emoção. Com a emigração e com a guerra colonial, exacerbou-se esta tensão. Multiplicaram-se os poemas e as canções. Poemas e canções que faziam chorar, perto e longe. Há pessoas que ainda agora se comovem ao ouvir estas músicas.

Conjunto Oliveira MugeO Conjunto de Oliveira Muge, fundado nos anos cinquenta, é originário de Ovar, mas o essencial da sua carreira teve lugar em Moçambique. A canção Mãe, gravada em 1966 na África do Sul, alcançou um enorme sucesso: “O tema “A Mãe” foi das canções mais solicitadas pelos militares em Moçambique, no período da Guerra Colonial” (Conjunto de Oliveira Muge: http://guedelhudos.blogspot.com/2008/10/conjunto-de-oliveira-muge.html).

A Menina dos Olhos Tristes (1969), interpretada por José Afonso, dispensa apresentação.

Conjunto de Oliveira Muge. A Mãe. 1966.

José Afonso. Menina dos Olhos Tristes. 1969.

Os estrangeiros também têm mães. Algumas bastante complexas. Compõem, também, belíssimas canções. Retenho Mother, de John Lennon, interpretada ao vivo em 1972 no Madison Square Garden, bem como Mother (1979), dos Pink Floyd, numa interpretação dos Pearl Jam (2011?).

John Lennon. Mother. Ao vivo no Madison Square Garden. 1972.

Pearl Jam. Mother (cover dos Pink Floyd). 2011 (?).

João Nada

Emigrantes portugueses estendem roupa junto às barracas de um estaleiro de construção civil. Região Parisiense. 1970. Fotografia de Gerald Bloncourt.

Emigrantes portugueses estendem roupa junto às barracas de um estaleiro de construção civil. Região Parisiense. 1970. Fotografia de Gerald Bloncourt.

“Em Portugal a emigração não é, como em toda a parte, a transbordação de uma população que sobra; mas a fuga de uma população que sofre”.
“Mas, enfim, temos a opinião e a imprensa confessando que a vida é extremamente difícil em Portugal, e que a acção natural que todo o cidadão português deve ao seu País – é abandoná-lo”.

(Eça de Queirós. “O governo e a emigração”. Uma campanha alegre : das farpas. Lisboa. Companhia Nacional Editora, 1890-1891. Vol. I).

Peço desculpa ao mundo, mas vou falar de Portugal. Um cais de partida em que a emigração é uma “constante estrutural” (Vitorino Magalhães Godinho). “Para nascer, Portugal. Para morrer, o mundo” (Padre António Vieira). A “exportação de gado humano” (J. P. de Oliveira Martins) custa mas rende. Mesmo os governos que proíbem a emigração contam com as suas remessas.

A emigração inspirou sermões, romances, poemas, esculturas, pinturas, filmes e músicas. Algumas canções tornaram-se célebres: “Eles. Um canto da emigração” (1968), de Manuel Freire, “Cantar da emigração (1971), de Adriano Correia de Oliveira, ou O Emigrante (1977), do Conjunto Maria Albertina (ver Música sobre a emigração). Outras mereciam melhor memória.

Quarteto 1111. João Nada. LP Quarteto 1111. 1970.

Quarteto 1111. Domingo em Bidonville. LP Quarteto 1111. 1970.

Quarteto 1111. Partindo-se. EP Balada Para D. Inês. 1967.

Fundado em 1967, o Quarteto 1111, com José Cid e Tozé Brito, foi a referência do pop/rock português dos anos sessenta. Interpretaram várias canções dedicadas à emigração. Retenho “João Nada” e “Domingo em Bidonville”, do álbum Quarteto 1111, editado em 1970; acrescento “Partindo-se”, do EP Balada Para D. Inês, editado em 1967.

Quarteto 1111. João Nada (1970). Ao vivo na Sociedade Portuguesa de Autores. 2016.

Os membros do Quarteto 1111 reuniram-se, em 2016, numa actuação ao vivo, na Sociedade Portuguesa de Autores. Segue o vídeo com a canção “João Nada” (1970).

A utilidade dos bebés

Matthias Stom. The Adoration of the Shepherds. 1635-1640.

Matthias Stom. The Adoration of the Shepherds. 1635-1640.

Eles não sabem, nem sonham
que o sonho comanda a vida
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
(António Gedeão, Pedra Filosofal, excerto, Movimento Perpétuo, 1956).

Deitei-me misantropo, acordei filantropo. Tudo é, agora, amor e água fresca. Carrinhos com bebés, mulheres grávidas e namorados de mãos dadas. Bom augúrio para a natalidade. O anúncio argentino Anti-Mangazo, do Santander Rio, ensina-nos que os bebés são úteis! Revelam-se bons escudos de protecção contra a cobiça alheia.

Marca: Santander Rio. Título Anti-Mangazo. Agência: Santo. Direcção: Diego Kaplan. Argentina, Agosto 2018.

Uma ressonância: a publicidade sonha; o sonho comanda a vida; mas a vida ultrapassa o sonho. No anúncio Anti-Mangazo, a criança é instrumentalizada como estorvo à pedinchice. Na realidade, muitas crianças são instrumentalizadas como suporte às redes organizadas de pedinchice. Embora “a vida seja um sonho um pouco menos inconstante” (Blaise Pascal, Pensamentos, 1670), convém aterrar, de vez em quando.

Green Windows / José Cid. 20 anos. 1973. Com com imagens do filme Aniki Bobó (1942), de Manoel de Oliveira.

Por falar em crianças, nos anos setenta, a secção de discos das grandes superfícies de Paris contemplavam apenas duas escolhas de música portuguesa: Amália Rodrigues e os 20 anos, de José Cid. Segue a canção, acompanhada com imagens do filme Aniki Bobó (1942), de Manoel de Oliveira.

Cegonhas

 

Álvaro Domingues. Bestiário do imobiliário 2

Fotografia de Álvaro Domingues.

“Somos as cegonhas eléctricas (…) No tempo em que as crianças não percebiam nada de sexo e reprodução, o nosso emprego era transportar bebés no bico. Com a quebra da natalidade, as normas de segurança no transporte de crianças e as incubadoras, ficámos sem emprego. O resto adivinha-se: desde que nos tornamos sedentárias metemo-nos a comprar uma casa que não há como pagar. Ficou para o banco. Que se lixe. Sempre que passamos em cima, cagamos nele” (Álvaro Domingues, Bestiário do Imobiliário II. Punkto (https://www.revistapunkto.com/2013/05/bestiario-do-imobiliario-ii-alvaro_3.html).

Cegonha, escultura na Catedral de Estrasburgo

Cegonha, escultura na Catedral de Estrasburgo.

Os bebés, dizia-se, vinham de França no bico das cegonhas. A cegonha é o símbolo de Estrasburgo. Segundo a lenda, “sob a catedral de Estrasburgo, existia um lago, o Kindelsbrunnen, nome que podia ser traduzido por “poço das crianças”. Neste lago, as almas das crianças por nascer esperavam para vir ao mundo. Um gnomo gentil pegava a alma do recém-nascido com a ajuda de uma rede de ouro e entregava-o, de seguida, à cegonha para que ela pudesse entregá-lo aos pais. Os pais que desejassem um filho deviam colocar alguns pedaços de açúcar no rebordo da sua janela de modo a cativar a cegonha” (Pourquoi dit-on que les cigognes apportent les bébés ?: https://www.youtube.com/watch?v=I0cc6K_Lxlc).

Do outro lado da fronteira, na Alemanha, existe uma versão com um teor mais mitológico:

“A cegonha é a mensageira da deusa Holda, encarregada de reincarnar as almas dos defuntos nos nascituros. Nas grutas ou perto de um ponto de água, “elfos” resgatavam as almas das profundezas da terra, que a deusa reincarnava em nascituros que a cegonha levava, em seguida, aos pais” (Pourquoi dit-on que les cigognes apportent les bébés ?: https://www.youtube.com/watch?v=I0cc6K_Lxlc).

Imagem do filme Cegonhas. 2016.

Imagem do filme Cegonhas. 2016.

Com o tempo, os relatos míticos sofrem alterações. No anúncio Cegonha, da Volkswagen, o carro novo é o bebé que a cegonha terá trazido e do qual não se separa. A mulher também parece estar grávida. Conjugam-se assim dois nascimentos: o mecânico e o humano.

Marca: Volkswagen. Título: Cegonha. Agência: AlmapBBDO (São Paulo). Direcção: Claudio Borrelli. Brasil, Julho 2018.

Se me encomendassem um print para acompanhar este anúncio, não andaria longe do seguinte: o carro com fraldas electrónicas, a cegonha no capot em pose de Vitória de Samocrácia; o pai, ao volante, confuso; a mãe, ao lado, como uma Vénus de Willendorf; no banco traseiro, os filhos, mais um lugar vago para a próxima cegonha.

Jogo viciado

René Magritte. Mundo Invisível. 1954.

René Magritte. Mundo Invisível. 1954.

“As cidades como os sonhos são construídas de desejos e de medos, embora o fio do seu discurso seja secreto, as suas regras absurdas, as perspectivas enganosas, e todas as coisas escondam outra” (Italo Calvino, Les villes invisibles, 1972).

Retomo o anúncio Un jeu de société, incluído no artigo As Regras do Jogo (https://tendimag.com/2017/04/30/as-regras-do-jogo/), para ver se consigo reequilibrá-lo.

Anunciante: Observatoire des Inégalités. Título: A Social Board Game. Agência : Hérèzie. Direcção: Remy Barreyat. França, Abril 2017.

“O anúncio Un jeu de société (Observatoire des Inégalités, França) é didáctico. Mostra como a competição social se assemelha a um jogo de Monopólio com regras viciadas. Mas no jogo dos destinos sociais conta menos a parcialidade das regras e mais a desigualdade das condições. As regras até podem ser iguais para todos, o problema reside nos recursos e, por conseguinte, na probabilidade dos desempenhos. Como diria Pierre Bourdieu, falar em igualdade de oportunidades com desigualdade de condições é um logro. Uns estão como peixes na água, outros como aves num aquário” (As regras do jogo).

Na maratona da vida, (con)correm pessoas descalças, com havaianas e com sapatilhas. Os recursos influenciam os percursos. Focalizado nesta desigualdade de condições, o texto subestima o poder das regras. Na realidade, as regras não são decorativas. São interessadas. Constrangem. Abençoam e amaldiçoam os actores e as práticas. Legitimam arbitrariedades. Produtos do poder, consagram o poder. Sustentam-no. As regras são uma realidade que faz a realidade. São espartilhos que moldam o ser. Dizem o que é e o que deve ser. As regras não precisam de ser verdadeiras, basta parecê-lo. Alucinadas, alucinam as pessoas e o mundo.

Detail of a miniature of five Just Princes, atop the eagle of Justice, Dante Alighieri, Divina commedia. Yates Thompson MS 36, f. 164r. 1444-c 1450.

Até como águias carregamos os príncipes. Detalhe da miniatura dos Cinco Príncipes Justos em cima da águia da justiça. Dante Alighieri, Divina commedia. Yates Thompson MS 36, f. 164r. 1444-c 1450.

Propicia-se uma pitada de absurdo ao jeito surrealista. Numa localidade, inaugura-se um túnel. Limita-se a circulação a pessoas com mais de um metro de altura. O túnel é proibido a anões. Presume-se que a sua presença no túnel provoca correntes de ar. Correntes de ar que podem constipar os carros. A discriminação da regra cauciona vários corolários. As correntes de ar dos anões não dão pontos, não têm valor. A ciência ultrapassa-se a si mesma: os “anões” tornam-se um preditor: no airflow, no dwarf . Descobre-se, por último, a confirmação da regra: os anões são, afinal, alérgicos a túneis. Desembocamos num dos maiores requintes das regras. Se os anões não entram no túnel por quê proibi-los? Trata-se de uma histerese: a regra perdura para além do seu fundamento. Configura mais do que uma histerese. O objectivo da regra não reside em proibir os anões de entrar no túnel, mas em inferiorizar os anões. A regra continua a garantir a sua função latente, porventura a mais decisiva.

Esta fábula dos anões é bizarra. Mas respeita a lógica das regras. As regras são quadradas, como quadrado se desenha o mundo.

Jogadores, trapaceiros, cúmplices e tansos. O mundo é um casino.

Algumas regras vestem atavios matemáticos e científicos: categorias, indicadores, índices, variáveis, coeficientes, ponderações, fórmulas, modelos e rankings. Sem esquecer a folha de Excel. Para duas categorias profissionais com igual desempenho, as contas podem ditar que o desempenho de uma vale o dobro do desempenho da outra. Dois produtos idênticos podem ter cotações diferentes. Estamos confrontados com uma aritmética pós-Einstein. Estas discriminações arbitrárias assentam em racionalidades movidas por interesses. Quanto mais desfasada é uma regra, maior a intolerância e o zelo que suscita. A alquimia das regras apropria-se do todo e das partes. Não existe instituição, situação ou interacção social que lhe escape. Haverá “jogos de sociedade” no Ministério da Ciência, da Tecnologia e do Ensino Superior? Na vertente Ciência e Tecnologia? Na vertente Ensino Superior? Por entre rácios, grelhas e ponderações, nunca se sabe. Perguntar não ofende…  Poder, se calhar, podia, mas acolher regras alquimistas no santuário da razão representa um paradoxo demasiado esdrúxulo. Quando muito, labirintos de poderes “abensonhados” (Mia Couto).

“Je voudrais vous parler d’elle sans la nommer” (Georges Moustaki). Também gostava de falar de algumas realidades sem as nomear. Neste Portugal de Abril, temos uma constituição que os entendidos dizem ser das melhores da Europa. Temos, também, um regime democrático consolidado. Ainda continuamos a ter desigualdades por decreto!

As anedotas são umas intrometidas. Acabei de me lembrar de uma  malcriada e de mau gosto. Imprópria para um professor. Mas não é o professor que a conta mas o rapaz que  que a aprendeu.

“Um inglês desce a avenida dos Aliados. De repente, vê uma viscosidade castanha no passeio.
– Isto parecer merda, mas merda no Porto não poder ser.
Com a ponta do guarda-chuva faz um primeiro teste.
– Isto ser mole como merda, mas merda no Porto não poder ser.
Com a ponta do guarda-chuva, pega numa amostra e cheira.
– Isto cheirar a merda, mas merda no Porto não poder ser.
Com a ponta do guarda-chuva, pega noutra amostra e prova.
– Isto ser mesmo merda! Ainda bem que não pisei.

Georges Moustaki – Portugal – ( Fado Tropical )

Futebol e natalidade

Futebol e fecundidade. Da Internet.

O envelhecimento demográfico preocupa os países ocidentais. Os baixos valores da natalidade, também. O combate ao envelhecimento não é óbvio. Perante o envelhecimento pelo topo, pouco ou nada se pode fazer, a não ser assegurar um “entardecer da vida” condigno. Ao nível da natalidade, o cenário é diferente. Podem adoptar-se muitas iniciativas. Por exemplo, o incentivo à imigração. A França avançou, há décadas, com uma política consistente e persistente de “apoio à família”. Conseguiu inverter a tendência. A taxa de fecundidade é a mais elevada da União Europeia. Portugal é o lanterna vermelha. Em Portugal, as autarquias mostram-se empenhadas na promoção da natalidade, implementando medidas em áreas tais como a protecção da gravidez, o combate à discriminação no trabalho, o ajustamento da actividade profissional (horários, trabalho a tempo parcial), a guarda de crianças e o apoio material aos pais… Quer-me parecer, por maledicência congénita, que o governo português se mostra activo numa frente em que pouco há a fazer, o envelhecimento, e hesita numa frente em que muito há a fazer, a natalidade (estas questões foram abordadas por Fernando Cabodeira, na sua dissertação de doutoramento em Sociologia, pela Universidade do Minho, em 2017: Alto Minho – Horizonte 2040 – Prospectiva Demográfica e Social).

Se a natalidade resiste à política, nada como recorrer a quimeras, à magia e a outros fenómenos fertilizantes. Consta que um apagão pode propiciar picos de nascimentos nove meses depois. Parece ter sucedido no Estados Unidos (http://www.revistaportuaria.com.br/colunas/480) e no Uganda (https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2009/03/090313_ugandanatalidadegd). Durante um apagão, pouco ou nada se faz, nem sequer ver televisão. Por que não sexualizar, com os preservativos perdidos na escuridão? A interpretação trágica do efeito do apagão manifesta-se poética: acreditando que o apagão é o fim do mundo, as pessoas despedem-se com amor, muito amor. Sobre “os filhos do apagão, não existem provas convincentes.

Bebé football

Filhos da bola. Da Internet.

O futebol é outro mundo. Investigadores da Fundação Althaia, de Barcelona, sustentam que uma vitória num jogo de futebol pode estimular a procriação. Em 2009, o Barcelona foi campeão da Europa. Pelos vistos, os catalães decidiram festejar com sexo. Fala-se na “geração Iniesta”, o jogador que marcou um golo sensacional contra o Chelsea. Nove meses depois, verifica-se um aumento de 16% nos nascimentos (http://www.famili.fr/,football-quand-succes-rime-avec-bebe,422327.asp).

Estes fenómenos maravilhosos tendem, como as aparições dos santos, a propagar-se e a replicar-se. Crescem e multiplicam-se. Os finlandeses venceram surpreendentemente a Inglaterra por 2 a 1 no Europeu de 2016. Nove meses depois, observa-se um pico de nascimentos. “Nunca fizemos tantas epidurais”, garante o Dr. Thorvaldsson, que esteve na origem da “notícia”. Feitas as contas, it’s a fake!

Ao ganhar o europeu de 2016, a selecção nacional deu motivos para uma chuva de partos. Na verdade, nove meses depois não se registou nada de extraordinário em termos de natalidade. Excitados pela trindade da paixão (desporto, sexo e identidade), os portugueses reagem de um modo original: pegam na bandeira e vão apitar para a rua. Em vez de um orgasmo a dois, temos um orgiasmo em massa.

Os anúncios da Hyundai (Boom, Mundial de 2014) e da Chicco (Baby Boom, Mundial de 2018) pescam, com ritmo e humor, nestas águas da bola e da barriga. São as empresas privadas quem valoriza a natalidade. As campanhas governamentais pró-natalidade são raras. São ofuscadas por tópicos concorrentes de elevado desinteresse público. Neste panorama, entre as entidades que mais apregoam a natalidade estão as fraldas Dodot e os bebés Evian.

A terminar, a Canção de Embalar, do José Afonso. Para deitar um pouco de ternura na fervura.

Marca: Chicco. Título: Baby Boom. Agência: Pink Lab. Direcção: Igor Borghi. Itália, Julho 2018.

Marca: Hyundai. Título : The Boom. Agência : Innocean Worldwide Americas. Estados Unidos, 2014.

José Afonso. Canção de Embalar. Cantares de Andarilho. 1968.