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Brincar com coisas sérias

Omiri.

O projeto Omiri, dado a misturas e remisturas desinibidas, vai ao All Music Fest, em Melgaço, no dia 6 de Março.

“Omiri é, acima de tudo, remix, a cultura do século XXI, ao misturar num só espectáculo práticas musicais já esquecidas, tornando-as permeáveis e acessíveis à cultura dos nossos dias, isto é, sincronizando formas e músicas da nossa tradição rural com a linguagem da cultura urbana” (http://amusicaportuguesaagostardelapropria.org/projetos/omiri/).

Brinquemos! A brincar também se inventa.

Omiri. Fado em Picadinho. Baile Electrónico. 2017.
Omiri. Repasseado.Dentro da Matriz. 2010.

A coca, Amarante e Monção

O poder autárquico democrático é filho da Revolução. As autarquias conhecem a importância da cultura e da comunicação. Não me admiraria se, no conjunto, se destacassem como o principal agente cultural do País. Cuidado, iniciativa e perseverança. Por exemplo, na criação e divulgação de vídeos sobre realidades locais. Na Internet, como é natural. Curiosamente, ambos os concelhos, Amarante e Monção, partilham a tradição da coca, um monstro milenário, ambíguo, que desassossega o Corpo de Deus.

Fernando e Albertino

Amarante, Natureza criativa. Janeiro 2020.
MONÇÃO | PROMO Corpo de Deus – Coca . 2019

Liberdade sem freio

Quino. Gente en su sitio. 1986.

Numa sociedade que se diz avessa a grandes narrativas, proliferam grandes teorias omnívoras. Temos profetas! Profetas como, a seu tempo e a seu modo, Karl Marx ou Auguste Comte. Só não falam o mesmo idioma. Trata-se de um negócio intelectual interessante: vendem-nos armaduras como se fossem t-shirts (Albertino Gonçalves).

O escocês Alexander Sutherland Neill (1883-1973) foi um escritor e educador visionário. Entendia que os alunos deviam ser livres e responsáveis. Livres de aprender o que, quando e como desejassem e responsáveis do seu destino, participando ativamente nas decisões da escola. Estava convencido que a falta de liberdade e de responsabilidade é atrofiadora. À semelhança de alguns utopistas do século XIX, passou da teoria à prática, realizou a ideia. Criou uma escola pioneira; Summerhill. O livro, publicado em 1960, advoga esta Liberdade sem medo (Summerhill: A Radical Approach to Child Rearing). Curiosamente, o prefácio foi escrito por Erich Fromm, autor do livro O Medo à Liberdade (Escape from freedom, 1941).

O livro Liberdade sem Medo acertou na minha costela anarcoide. Quando leio um poema de Jacques Prévert, vejo um filme do Jacques Tati, percorro as tiras da Mafalda ou oiço o Another Brick in the Wall dos Pink Floyd, penso no Alexander S. Neill.

Uma criança, um aluno, não é uma tábua-rasa, para retomar o termo de Émile Durkheim.

“A educação tem como objetivo sobrepor ao ser individual e associal que somos ao nascer um ser inteiramente novo. Deve conduzir-nos a ultrapassar a nossa natureza inicial: é nesta condição que a criança se tornará um homem” (Émile Durkheim, Éducation et Sociologie, 1911).

A criança não é papel mata-borrão. A sua vocação não se resume ao processamento de informação. Quer-me parecer que nos últimos tempos temos cultivado essa falácia. Muito modelo, muita multiplicação.

“Uma educação capaz de desenvolver o julgamento e a vontade é perfeita, quaisquer que sejam as matérias ensinadas. Com estas qualidades, o homem sabe orientar o seu destino. Vale mais compreender do que aprender » (Gustave Le Bon. Hier et demain: pensées brèves. Paris, Flammarion, 1918).

Por falar em Jacques Tati, junto um vídeo com alguns excertos do filme Les Vacances de Monsieur Hulot (1953).

Jacques Tati. Les Vacances de Monsieur Hulot. 1953. Excertos.

Músicas cruzadas

Marta Pereira da Costa

A guitarra portuguesa solta-se. Dialoga com outras músicas: cabo-verdiana, persa, chinesa… Pelas mãos de Marta Pereira da Costa e Custódio Castelo. Portugalidade arejada. É uma migalha de salvação sentir orgulho dos outros.

Marta Pereira da Costa com Richard Bona. Encontro. Vídeo oficial. Do álbum Marta Pereira da Costa. 2016.
Marta Pereira da Costa com Tara Tiba. Moon. Vídeo Oficial. Do álbum Marta Pereira da Costa. 2016.
Custódio Castelo. Ventus. Live in Macau. Julho 2013. Do álbum InVentus. 2012.

Admirável mundo novo

Lucky Luke.

Acabaram as grandes narrativas e os admiráveis mundos novos. Exceto, talvez, o espantoso mundo “pós-novo” da Internet. Na época de Antonín Dvorak (1841-1904), a América era o novo mundo, era o novo mundo desde 1492. Aquando da estreia da Sinfonia do Novo Mundo, em 1893, o Velho Mundo descobria o coração de África, continente nem novo, nem velho, mais tarde “Terceiro”. O célebre e traumático Ultimato Inglês (1890) precedeu três anos a Sinfonia do Novo Mundo.

Em 1893, ainda havia, na América, cowboys, winchesters, colts e xerifes. A vitória dos índios em Little Big Horn (1876) estava fresca na memória. Sitting Bull, um dos protagonistas, foi baleado em Dezembro de 1890. Gerônimo estava na prisão, Calamity Jane era viva. Buffalo Bill montou, em 1883, um circo móvel com espetáculos dedicados ao Oeste Selvagem. Nos livros aos quadradinhos, os cowboys dormem com a cabeça repousada na albarda, aconchegados pelas estrelas. Só lhes falta a música de Dvorak.

Estreada nos Estados Unidos, a Sinfonia do Novo Mundo é empolgante (lembra a nona de Beethoven; ver vídeo 2). Mas contém trechos “suaves e doces”, capazes de embalar um cowboy solitário ou um coração melancólico (vídeo 1).

Dvorak – New World Symphony – 2nd Mvt – 2/6. Czech Philharmonic Orchestra. Cond.: Ion Marin. Prague, 2008.
Dvorak – New World Symphony – 4th Mvt – 5/6. Czech Philharmonic Orchestra. Cond.: Ion Marin. Prague, 2008.

MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço. Prémio

MDOC-Cartaz da edição de 2019

“Deixem escorrer o crepitar do pensamento” (Álvaro Domingues, Viste aquela galinha gigante?, Público, 29 de Dezembro de 2019.

Mencionei, repetidamente, no Tendências do Imaginário, o festival Filmes do Homem, entretanto, rebatizado, por censura feminista, MDOC – Melgaço International Documentary Film Festival. Procuro fazer o que me apetece e discorrer sobre aquilo que me interessa. Designação à parte, gosto do MDOC. A plataforma UM-Cidades concede, anualmente, por concurso, prémios aos municípios que se destacam pelas boas práticas. Este ano, “na Categoria Município Projeto da região Norte, com menos de 20 mil habitantes, o vencedor foi Melgaço, com o MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço” (Agência Lusa, 15 de Novembro de 2019).

Felicito a Associação Ao Norte e a Câmara Municipal de Melgaço. Para festejar, o Prelúdio do Te Deum (c. 1690) de Marc-Antoine Charpentier, que foi tema das emissões da Eurovisão. Condiz com a vocação internacional do Festival. Charpentier não constava entre os músicos favoritos de Louis XIV. Não obstante, o Te Deum era capaz de fazer marchar os cavalos de bronze das estátuas equestres do Rei Sol.

Marc-Antoine Charpentier. Te Deum – Prelude (c. 1690).

A proposta

Isabel a Católica

Este anúncio é uma paródia, anacrónica, da aceitação da proposta de Colombo pela rainha Isabel a Católica, concebida nesta curta-metragem como uma empresária moderna. Quem não brilha na fotografia é Portugal:

“Depois de várias tentativas de vender o seu projecto a Portugal, Cristóvão Colombo decide procurar outro tipo de cliente, um mais aberto e inteligente, que seja capaz de ver a sua ideia”.

Anunciante: FIAP 2011. Título: Festival Iberoamericano de la Publicidad 2011. Produção: Coolshotfilms. Direcção: Santi Winer. Espanha, 2011.

Prendas, abraços e elfos

Com duas palavras se escreve a expressão espírito de Natal: prendas e abraços. O anúncio Holiday, da Amazon, prescinde do Pai Natal. Encomendas animadas e efusão humana. O espírito de Natal pede magia. O Pai Natal foi preterido pela maioria das grandes marcas. Como substituto, o elfo. El Corte Inglés retoma a figura do elfo: em 2018, o anúncio chamava-se O pai do El Corte Inglés é um elfo, este ano o anúncio A magia do Natal muda tudo continua a apostar na figura do elfo. O Natal de 2019 ficará na história da publicidade como o Natal dos elfos.

Marca: Amazon. Título: Holiday 2019. Agência: Lucky Generals. Direcção: Henry-alex Rubin. Estados Unidos, Novembro 2019.
Marca: El Corte Inglés Portugal. Título: A magia do Natal muda tudo. Portugal, Dezembro 2019.
Marca: El Corte Inglés Portugal. Título: O pai do El Corte Inglés é um elfo. Portugal, Dezembro 2011

Deus fez-se homem

Pirilampo

Aquele que era Deus fez-se homem,
assumindo o que não era,
sem perder o que era;
e assim Deus fez-se homem.
(Santo Agostinho)

Sou um desencantado que não desiste de se reencantar. A minha escrita é, ao mesmo tempo, cáustica e vitalista. Uma ironia própria de quem não está dentro sem estar fora. Gosto de pirilampos a voar na noite escura. Acontece tentar rabiscar a sombra com temas luminosos. Por exemplo, o Natal, artigo para a revista Spot (https://www.facebook.com/187372124695983/photos/a.2194957460604096/2194960357270473/?type=3&theater), retomado pelo jornal nós da Universidade do Minho (http://www.nos.uminho.pt/Article.aspx?id=3444).

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Revista Spot. Spot Natal. Dezembro 2019.

O estendal

Fotografia de Álvaro Domingues

Há olhares que vêem e outros que cativam. Cativam o espanto, a vitalidade e a turbulência. A fotografia renova o olhar cansado. O fotógrafo é um alquimista, um pintor de verdades. Esta fotografia foi tirada para os lados de Almada. O Álvaro Domingues percorre todas as estradas do País, numa espécie de rota do presente insólito.

Um silo e um estendal: o pequeno e o grande, o infantil e o monstruoso, o afecto e o objecto. Em tempos de responsabilização e estetização empresarial, o silo ostenta uma pintura minimalista gigantesca. Lembra a Street Art. No estendal, três peluches. A fragilidade do mundo exposta ao ar livre. Uma alegoria do tempo: o passado, de pernas para o ar e de costas voltadas; o presente, pendurado pelas orelhas; e o futuro, a alucinação de olhos arregalados. Uma fotografia constrói um mundo, propõe um mapa mental. Em cima, à esquerda, vislumbra-se um aglomerado de prédios. Na margem, parece um apêndice do silo visitado por transportadoras. Convém não cortar as asas à imaginação para não cortar as pernas ao pensamento.