Arquivo | Portugal RSS for this section

O eclipse da velhice

Karthik - Goolgle +. Idades da Vida

01. Karthik – Goolgle +. Idades da Vida

Acabo de reescrever um artigo sobre a representação das idades da vida na Idade Média e na Idade Moderna (https://tendimag.com/2016/12/23/as-idades-da-vida/). O homem medieval cresce até atingir um planalto em que o adulto e o idoso permanecem, à mesma altura, até à morte (ver figura 2).

bartholomeus-anglicus-the-six-ages-of-man-livre-des-propric3a9tc3a9s-des-choses-1480

02. Bartholomeus Anglicus,. The six ages of man. Livre des propriétés des choses. 1480

A Idade Moderna altera esta representação da curva da vida: ascensão até ao topo adulto e declínio até ao túmulo (ver figura 3). Os dois lados da curva não têm o mesmo valor: o esquerdo é agradável e forte, o direito é sofrido e fraco…

les-ages-de-lhomme-the-ages-of-man-print-made-by-d-de-vosthem-date-16thc-late

03. As idades do homem. Impressão: Vosthem. Final do séc. XVI

Concentrar-se num segmento etário é uma tentação para a publicidade, que namora a elipse do envelhecimento. A publicidade banha-se na fonte da juventude.

O anúncio português Ariel apresenta A começa com uma criança a gatinhar, depois a andar, culminando com uma mulher a correr que acaba por se transformar numa atleta equipada com as cores nacionais. Energia, eficácia, progresso e performance. Para a embaixadora da marca, a atleta de alta competição Patrícia Mamona, os melhores resultados estão garantidos. Uma ascensão sem queda (figura 4).

As idades da vida

04. Fragmento das idades da vida

A vida é caprichosa: quanto mais se aponta, menos se acerta. Absorto com um hipotético efeito secundário ao nível da representação das idades, por pouco não esqueço o essencial. O anúncio da Ariel está bem concebido e bem realizado. É um bom anúncio. Foi apenas abordado por uma memória fresca  num comentário lateral que não lhe faz justiça, mas que produz, paradoxalmente, conhecimento. Coincidências e manhas da razão! Gosto de vários pormenores do anúncio:  a mesma criança a gatinhar e a dar os primeiros passos; a “metamorfose” da mulher antes do triplo salto e, insista-se, um guião votado ao amanhecer da vida.

Antes de virar a página, dois apontamentos. Primeiro, “a representação da velhice na publicidade” dava um bom tema de dissertação. Segundo, a observação não se reduz a “ver” o que “lá está”, importa “ver” o que “lá não está”. A realidade também se quer imaginada.

Marca: Ariel. Título: Ariel apresenta A+. Agência: Carat Portugal. Portugal, Outubro 2017.

Ritmo latino

wtf uberEste anúncio é português. Tem um ritmo e um colorido estonteantes, e música original. Um ritmo acelerado sem travão.

Marca: WTF. Título: WTF + UBER. Agência: Havas. Produção: Playground Films. Portugal, Outubro 2017.

Vulnerabilidades. Feliz dia do pai, mãe!

spark-celebrate-family-600-27335

São raros os anúncios dedicados às famílias monoparentais, apesar de serem muitas e respeitáveis! Segundo o censo de 2011, existem em Portugal 480 443 famílias monoparentais (298 141 com pelo menos um filho menor de 25 anos); 416 343 só com a mãe; 64 100 só com o pai; o número de famílias monoparentais tem aumentado a um ritmo acelerado: em 1991, havia 254 261 famílias monoparentais, vinte anos depois são quase o dobro (+89%). Em 2011, no total das famílias com filhos, uma em cada cinco era monoparental (Delgado, Anabela & Wall, Karin, 2014, Famílias nos Censos 2011: Diversidade e Mudança, Lisboa, Instituto Nacional de Estatística / Imprensa de Ciências Sociais, p. 179).

Porquê tamanho apagão em tempos de fogo-de-artifício? As famílias monoparentais não são vulneráveis? O reconhecimento de vulnerabilidade propicia visibilidade nas causas públicas, mas as famílias monoparentais parecem não caber nos chavões dos movimentos sociais, nem nas ideologias da verdade redentora, nem nos lampiões da ordem cívica. As famílias monoparentais compõem uma realidade cinzenta, que não sobressai no branco, nem sobressai no preto. Uma realidade quase invisível. A este nível, estamos muito abaixo de nós mesmos! Continuamos embarcados no espetáculo de uma sociedade “pós-moderna” que navega na espuma dos dias.

Este anúncio, promovido por uma empresa neozelandesa de telecomunicações, a Spark, é uma excepção. Não para de crescer o contingente de empresas com fundações vocacionadas para a responsabilidade social. Num aspecto, o balanço é positivo: o alargamento das causas e das vulnerabilidades. Tanto mais positivo quanto a nobreza de toga que “nos” governa parece andar mirolha no seu perfume a mofo.

Ficava-me bem parar de escrever disparates. Quando muito, devia escrever apenas com tinta de limão, aquela que só se lê quando os dedos queimam. Era mais avisado assistir ao Muppet Show! Mas os Marretas de agora passam, sem graça nenhuma, nos telejornais.

Post scriptum: Recorro frequentemente à expressão “nobreza de toga” (do francês, noblesse de robe). Na França pós-medieval, a nobreza de toga distinguia-se da nobreza de armas. A nobreza de armas desempenhava funções militares e ostentava títulos hereditários ancorados no tempo. A nobreza de toga acedia ao aparelho de Estado através da compra (e venda) de cargos nobilitantes e da obtenção de diplomas académicos (com direito a toga). Como sublinha Lucien Goldmann (1955, Le Dieu Caché, Paris, Gallimard), a nobreza de toga estava dependente do aparelho de Estado, de cuja dinâmica lhe advinham as glórias e as tragédias. Os nobres de toga lembram, vagamente, os apparatchik da União Soviética.

Marca: Spark. Título: Celebrate Family. Agência: Colenso BBDO. Nova Zelândia, Setembro 2017.

A canção da morte a passo de caranguejo

Igreja de São Virgílio. Pinzolo. Itália

Figura 01. Igreja de São Virgílio. Pinzolo. Itália

Figura 02. O Baile da Morte na Igreja de São Virgílio. Postal ilustrado. 1903

Figura 02. O Baile da Morte na Igreja de São Virgílio. Postal ilustrado. 1903

O vídeo O Desconcerto do Mundo inicia com imagens de danças macabras acompanhadas pela canção Ballo in Fa diesis Minore (Sono Io la Morte, 1977) de Angelo Branduardi, cuja letra corresponde aos ditos da dança macabra de Pinzolo (Itália, 1539), dança situada na Igreja de São Virgílio, na fachada que confina com o cemitério (ver Figura 1). No início do século XX, o cemitério estendia-se até à igreja (ver, na Figura 2, bilhete postal datado de 1903).

Pela localização, junto ao cemitério, a dança macabra de Pínzolo lembra a dança macabra do Cemitério dos Inocentes, em Paris, a primeira dança macabra de que há conhecimento: os frescos percorriam os muros interiores do cemitério, por cima dos ossários (ver Transi 3: Viver com os mortos). Segue canção de Angelo Branduardi, com tradução dos versos iniciais.

Angelo Branduardi. Ballo in fa diesis minore. Versão original: La pulce d’Acqua. 1977.

Tradução dos primeiros versos da canção Sono Io la morte, de Angelo Branduardi

Tradução dos versos inicio da canção Ballo in fa diesis minore, de Angelo Branduardi

Descobrir é “coisa corrente”. “De sábios e tolos todos temos um pouco”. Intrigou-me, por exemplo, a afinidade entre alguns autores surrealistas (Salvador Dali, Giorgio de Chirico e M.C. Escher) e vários artistas do séc. XV a XVII, tais como Lorenz Stoer, François Desprez, Wenzel Jamnitzer e Giovanni Battista Braccelli (ver: Arquitectura de paisagem na geometria maneirista: Lorenz Stoer ; Criaturas pantagruélicas 1 ; Criaturas pantagruélicas 3 ; Perspectivas: Wenzel Jamnitzer e M. C. Escher ; Braccelli. À maneira surrealista ).

Estas duas “descobertas”, versos da “canção da morte” e influência do maneirismo no surrealismo, são, de facto, descobertas da pólvora. De algum modo, já se sabia!

Figura 03. Início da dança macabra de Pínzolo. Músicos e primeiros versos

Figura 03. Início da dança macabra de Pínzolo. Músicos e primeiros versos

Qual o interesse em descobrir o descoberto? A felicidade e o treino: descobrir é uma experiência grata e uma competência que ganha em ser cultivada. “o acaso só toca os espíritos bem preparados” (Joseph Pasteur). O episódio da letra da canção de Angelo Branduardi deve muito ao acaso, acaso que só toca, contudo, à minoria que lê os versos das danças da morte. “Preparar bem o espírito” não se resume à promoção de estudos exploratórios e à revisão da literatura”. Requer mergulho na realidade e capacidade de discernimento dos “fenómenos anómalos, relevantes e estratégicos” (Merton, Robert K., 1968 [1949], Social structure and social theory, New York, The Free Press, 158).

O risco de descobrir a pólvora tende a diminuir quando o tema da investigação é menos concorrido e mais circunscrito.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Escolhíamos imagens para o livro sobre as Festas d’Agonia (Martins, Moisés, Gonçalves, Albertino & Pires, Helena, 2000, A Romaria da Srª da Agonia, Grupo Recreativo e Cultural dos Trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo), quando deparei como uma fotografia com um aeroplano. Em letras muito pequenas, enxergava-se o nome: Quo Vadis. Desde 1913, os programas das festas e os jornais locais anunciam, ano após ano, a exibição de um aeroplano. O cartaz de 1913 “representa uma figura de Zé P’reira, assentando num bombo, admirando basbaquemente, um aero plano que cruza o espaço” (Aurora do Lima, 16.07.1913). Mas foi preciso aguardar pelo ano de 1918 para ver um aeroplano a sobrevoar, durante as festas, Viana do Castelo. O aeroplano chamava-se Quo Vadis… Por mesquinhas que sejam, estas micro descobertas despertam o investigador e a investigação. Podem, ainda, contribuir para o património e a memória locais.

A micro descoberta não programada requer competência, treino e disponibilidade, tanto de tempo como de espírito. Investir em quase nada é uma aventura ousada.

Para o “livrinho” A Idade de Ouro do Postal Ilustrado em Viana do Castelo, recorri à pesquisa na Internet, designadamente páginas de leilão e blogues especializados. A determinada altura, deparo-me com um postal ilustrado, datado de 31 de Agosto de 1911, com a mensagem escrita inesperadamente incompleta. Uma curiosidade. Passei em frente. Alguns dias mais tarde, surge um postal ilustrado com o mesmo emissor e a mesma destinatária, do mesmo dia e com mensagem incompleta, ambos numerados. Coleccionador de selos e leitor de romances policiais, não resisti a prestar atenção este caso anedótico. A missão consistia em descobrir o maior número possível dos doze postais enviados (“mando daqui doze bilhetes postais para assim teres a certeza que vão todos ao destino”) por um visitante de Viana do Castelo a Magdalena Manzoni, de Torres Vedras. Consegui encontrar dez, todos na Internet (ver Galeria de imagens). Faltam o 2 e o 5. Valeu a pena? Não sei, mas ainda me sinto orgulhoso. Não deixa de ser um bom indicador da paixão pelos postais ilustrados no início do século XX.

Galeria de Imagens: Postais enviados por um visitante de Viana do Castelo em 1911

Aprecio as fábulas de La Fontaine: a Lebre e a Tartaruga, o Leão e o Mosquito, a Cigarra e a Formiga, o Lobo e o Cordeiro… Por que não o Galgo e o Caranguejo?

A Passo de Caranguejo é uma obra de Umberto Eco (2007, Difel). Segundo o autor, o mundo está a retroceder: regressa à guerra quente, retoma os fundamentalismos… O caranguejo do Umberto Eco anda para trás. Aqueles que conheço tendem a andar para o lado. O galgo corre para a frente sem tirar os olhos do isco e sem sair um milímetro da pista. Na estrada, o galgo acelera nas rectas sem abrandar nas curvas rumo à meta. O caranguejo não resiste a desvios, perde-se em atalhos e demora-se em inutilidades. O caranguejo sabe o que quer, mas relativiza os objectivos. É um “flâneur” (ver Benjamin, Walter, 2012, El Paris de Baudelaire, Buenos Aires, Eterna cadencia Editora). O galgo é racional; o caranguejo, romântico. O galgo aprecia problemas e protocolos; o caranguejo, enigmas e travessias. O cúmulo do galgo é saber os resultados antes de começar a investigação. O cúmulo do caranguejo é acreditar que para ser investigador basta existir. O sociólogo Paul F. Lazarsfeld (ver a colectânea On Social Research and Its Language, The University of Chicago Press, 1993) aproxima-se do tipo ideal do galgo; Georg Simmel (ver a colectânea La tragédie de la culture, Paris, Editions Rivages, 1988), do tipo ideal do caranguejo. Galgo ou caranguejo? Já fui galgo, caranguejo e híbrido. “No estado em que as coisas chegaram”, estou em crer que ser caranguejo dá mais prazer e ser galgo mais poder. Para a frente, para trás ou para o lado, a cada um andar a seu contento. Mais do que formas de estar no ofício de sociólogo, o galgo e o caranguejo são formas de estar na vida.

Sem palavras

Um anúncio português culto, desconcertante e macabro. Para aceder ao vídeo, carregar na imagem ou no seguinte endereço: http://www.culturepub.fr/videos/4-hands-scriptwriting-festival-kitchen/.

Anúncio Português

Anunciante: Portugues Film Academy. Título: Kitchen. Agência: FCB Lisbon. Direcção: Mário Patrocínio. Portugal, Agosto 2017.

Go east!

Moledo 2. 21 Ag 2017. Fernando Gonçalves

Moledo 2. 21 Ag 2017. Fernando Gonçalves

Estou orientado. Cara a oriente. O meu rapaz fotografou o pôr-do-sol por altura do eclipse do dia 21 de Agosto. Resultou uma série apreciável de fotografias do regresso crepuscular da luz.

Segundo Edward T. Hall, os ocidentais tendem a ser “monócronos”, fazem uma tarefa de cada vez. A fazer fé no anúncio chinês Piano, do Windows 8, os orientais são “polícronos”: conseguem fazer várias coisas ao mesmo tempo. Por exemplo, trabalhar e jogar.

Marca: Windows 8. Título: Piano. Agência: JWT Beijing. Direcção: Jon Jing Zhu. China, 2013.

O Cruzeiro do Senhor do Galo em Barcelos (revisão)

01. Cruzeiro do Galo. Barcelos. Face anterior.

01. Cruzeiro do Galo. Barcelos. Face anterior

Vale a pena visitar o Cruzeiro do Galo, em Barcelos. Outrora localizado perto da forca, agora situado no Museu Arqueológico da cidade, é uma obra única, de traço popular, porventura do início do séc. XVIII. Um exemplo ímpar da arte de contar com poucas imagens difíceis de esculpir: o galego “enforcado”, São Tiago a ampará-lo e o galo, combativo e matinal, a iluminar as trevas; no topo, Cristo na cruz. No lado oposto, São Bento (?), Nossa Senhora (?), o sol e a lua. Impressiona a centralidade da morte: o “enforcado”, o galo renascido e Cristo crucificado. Tudo gira em torno do galo, símbolo associado ao sol nascente e à ressurreição:

“O galo é também um emblema de Cristo, como a águia e o cordeiro. Mas assume especial relevo o seu simbolismo solar: luz e ressurreição” (Jean Chevalier & Alain Gheerbrant, 1982, Dictionnaire des symboles, Paris, Robert Laffont/Jupiter, p. 282).

Impressiona, também, a elevada cristalização simbólica: Cristo, Nossa Senhora, São Bento e São Tiago, as figura sagradas mais influentes no noroeste peninsular, o galo, o sol e a lua e, naturalmente, a forca. Uma carga simbólica difícil de igualar.

02. Cruzeiro do Galo. Barcelos. Face posterior.

02. Cruzeiro do Galo. Barcelos. Face posterior

Amaral Ribeiro, na sua Notícia sobre a Villa de Barcelos, de 1867, descreve, de forma sistemática, a iconografia do Cruzeiro do Galo:

“Na face anterior da coluna tem lavrada em relevo a figura de um homem pendente de uma corda bamba, amarrada ao pescoço; por baixo, outra figura com a cabeça e com a mão esquerda na atitude de suster as plantas dos pés do homem que pende do laço e tendo na mão direita um bordão com a cabaça, pelo que denota ser Santiago. Na face posterior, tem em cima, a um canto, a figura do sol, e no outro a da lua; ocupa o centro uma figura que parece ser Nossa Senhora; por baixo, outra que se assemelha a São Bento por ter na mão direita um cajado e na esquerda um livro aberto. Em cima da coluna, como vai dito, assenta uma cruz com peanha. A cruz, de um e outro lado, tem esculpida a imagem de Cristo crucificado. A peanha, em cima da cabeça do justiçado, apresenta a figura de um galo; na outra face, divisam-se os traços de um dragão” (Ribeiro Amaral, 1867, citado em http://www.summagallicana.it/lessico/b/Barcelos.htm).

 

A Lenda do Galo não é simples, mas pode resumir-se em poucas palavras.

Dois galegos, pai e filho, dirigem-se em peregrinação a Santiago de Compostela. Entram numa estalagem. A dona conhecida pela sua beleza encara com o jovem galego. Procura, em vão, reter os clientes. Mal retomam viagem, a guarda aprisiona o mancebo. A estalajadeira escondeu talheres de prata na sacola do galego e denunciou o roubo. O jovem galego foi condenado à forca. O pai acode ao juiz que lhe diz que só acredita na inocência do condenado se o galo assado começar a cantar. Dito e feito. O galo cantou como nunca. Mas chegara a hora de executar a sentença. O pai e o juiz não chegam a tempo, mas… a corda estava frouxa; São Tiago amparava o condenado, vivo, pelas plantas dos pés. Com Nossa Senhora e S. Bento prontos a ajudar.

05. Cruzeiro do Galo. Face anterior. S. Tiago ampara o enforcado

Cruzeiro do Galo. Face anterior. S. Tiago ampara o enforcado

“Segundo a tradição popular o galego regressou uns anos mais tarde a Barcelos, onde esculpiu o Cruzeiro do Senhor do Galo, monumento datado do início do século XVIII” (O Galo Lendário. Calçada da Miquinhas: http://calcadadamiquinhas.blogspot.pt/2012/04/).

Numa lenda popular, o diabo costuma ter lugar cativo. Neste caso, veste as saias da estalajadeira, a instigadora da crise. À justiça não se pode querer mal por ser aquilo que é: cega. Os galegos são as vítimas. São Tiago resgata o peregrino. O protagonista é o galo.

06. Cruzeiro do Galo. Face anterior. Galo e Cristo crucificado

06. Cruzeiro do Galo. Face anterior. Galo e Cristo crucificado

A Lenda do Galo de Barcelos é percorrida por dois eixos, ou movimentos: o eixo do bem, desde a chegada dos peregrinos a Barcelos até ao regresso do galego para a construção de um ex-voto enorme, o Cruzeiro do Galo; e o eixo do mal, que vai desde encantamento da estalajadeira até à forca. Este segundo eixo interrompe ou suspende o primeiro eixo. O terceiro eixo, o da justiça, é coadjuvante. Opera uma inversão: o mal inicial converte-se no bem final.

07. Cruzeiro do Galo. Face posterior. Imagem de Nossa Senhora

07. Cruzeiro do Galo. Face posterior. Imagem de Nossa Senhora

A intervenção do galo, embora curta, coloca-o no centro da lenda. Vigilante e protector, o galo ergue-se nos cataventos e nas torres das igrejas. Rocha Peixoto, em 1899, caracteriza o galo nos seguintes termos:

“Na impressão que as aves exercem destaca-se a que produz esta [o galo], visivelmente pelos costumes dominadores e másculos. Altivo e majestoso, vigilante e cúpido, todo o povo o celebra, em contos, em superstições, em cantares:
Este galo é malvado,
Desonrador das galinhas
Inda bem não amanhece,
Já anda pelas curtinhas. (…)
Foi ele quem afirmou a divindade de Jesus quando os apóstolos, à mesa, duvidavam; é ele quem se antecipa a anunciar as alvoradas:
Canta o galo, abre a luz.
E grande é o seu poder sobre as entidades maléficas das trevas, já celebrado nos hinos da Igreja e nos cantos populares, antigo e extenso na simbólica grega, por exemplo, no Avesta em que o canto do galo obriga os demónios a fugir, desperta a aurora e faz erguer os homens” (Rocha Peixoto, 1990 [1899], Etnografia Portuguesa. Indústrias populares. As olarias de Prado, in Etnografia Portuguesa, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1990, pp. 89-132, p. 115).

Importa relevar dois traços da simbologia do galo.

O galo, tal como o cão, é um animal psicopompo (guia das almas; junção do grego pyché, alma, e pompos, guia). O galo procede à mediação entre bipolaridades: o dia e a noite, o céu e a terra, o bem e o mal. No caso do cruzeiro do Senhor do Galo, destacam-se duas bipolaridades: a vida e a morte e a verdade e a mentira. As gravuras medievais das ars moriendi evidenciam o papel do galo como animal psicopompo. O galo aparece empoleirado no quarto dos moribundos, algumas vezes na própria cabeceira da cama (ver O Galo e a Morte: https://tendimag.com/2016/10/19/o-galo-e-a-morte/). A particularidade de o galo ser um símbolo psicopompo manifesta-se útil para a interpretação da lenda e do cruzeiro do galo.

08. Cruzeiro do Galo. Face posterior. Imagem de São Bento

08. Cruzeiro do Galo. Face posterior. Imagem de São Bento

Contemplamos, até ao momento, o lado anterior do cruzeiro. É tendência predominante nos diversos textos a que tive acesso. Na parte posterior, identifica-se S. Bento e Nossa Senhora, o sol e a lua, mais um presumível dragão. Mas, qual é o papel de S. Bento? E de Nossa Senhora?…

O sol e a lua expressam o poder de Cristo sobre o mundo. E são ofuscados pelo brilho de Nossa Senhora. Na mesma lógica, os quatro elementos e as quatro estações de Giuseppe Arcimboldo representam o poder do imperador sobre o espaço e sobre o tempo, logo sobre o mundo. Simplificando, e sem relevar que o sol e a lua são símbolos alquimistas retomados pela maçonaria, o sol e a lua conferem uma dimensão cósmica ao evento. A interpretação é plausível, o que não obsta a outras conjecturas e derivações. O galo é, por excelência, um símbolo solar. Anuncia a luz do dia. Mas quando canta, a noite ainda não desapareceu.

09. Cruzeiro do Galo. Nossa Senhora, o sol e a lua

09. Cruzeiro do Galo. Nossa Senhora, o sol e a lua

Para Rocha Peixoto, “grande é o poder do galo sobre as entidades maléficas das trevas”. Existem crenças e rituais que convocam a componente nocturna do galo. No imaginário, as demarcações não são rígidas. O mundo não se apresenta a preto e branco. Comporta travessias e paradoxos. O mundo é contradictorial, na acepção de Gilbert Durand (1979, Figures mythiques et visages de l’oeuvre: De la mythocritique à la mythanalyse, Paris, Berg International). Os contrários não se anulam, nem se ultrapassam, coexistem, dando margem à ambiguidade e à ambivalência. Símbolo solar, o galo também pode ser lunar. Na mitologia grega, o galo estava consagrado aos deuses solares, mas também às deusas lunares. “O galo está ao lado de Leto, grávida de Zeus, quando ela dá à luz Apolo e Artemis. Também é, igualmente, consagrado, a Zeus, a Apolo, a Leto e a Artemis, ou seja, aos deuses solares e às deusas lunares (Chevalier, Jean, Dir, 1986, Diccionario de los Símbolos, Barcelona, Editorial Herder, p. 521).

10- Meister E. S., Ars moriendi. Circa 1450.

10- Meister E. S., Ars moriendi. Circa 1450g

O dragão costuma oferecer-se como uma imagem do mal, do diabo que se insinua na lenda do Galo. E Nossa Senhora e São Bento, que significam? São Bento é exorcista; combate o diabo. Nossa Senhora também nos livra do mal. Ambos nos protegem dos demónios. Por outro lado, Nossa Senhora e São Bento são as figuras sagradas mais veneradas na região. A esta luz, o cruzeiro do Senhor do Galo lembra uma gravura das Ars Moriendi: na hora da morte, o moribundo é rodeado por figuras divinas e demoníacas, que lutam pela salvação ou pela condenação de sua alma (ver o Galo e a Morte: https://tendimag.com/2016/10/19/o-galo-e-a-morte/).

11. Galo de Barcelos

11. Galo de Barcelos

Uma última pergunta: que ligação existe entre o cruzeiro do Senhor do Galo e o famoso galo cerâmico de Barcelos? Aparentemente, pouca, se não nenhuma. Estima-se que a construção do cruzeiro do Galo remonta aos inícios do século XVIII. O galo de Barcelos, com a estilização e os atributos actuais, data de meados do século XX. Desde finais do século XIX, existem exemplares, imagens e referências a galos da olaria de Barcelos, mas ainda são “protogalos”, segundo a expressão de João Manuel Mimoso (Uma História Natural do Galo de Barcelos: http://www.inverso.pt/barcelos/galo/textos/historia.htm). Estes “protogalos” não passaram despercebidos ao Estado Novo e aos “comissários” dedicados ao estudo, estilização e promoção das artes e tradições populares. Por iniciativa de António Ferro e Leitão de Barros, e participação de Artur Maciel e Manoel Couto Viana (impulsionador do traje à vianesa), foram oferecidos, num congresso internacional, no Estoril, em Setembro de 1931, galos de cerâmica. A seu tempo e a seu modo, o SPN/SNI também se interessou pelo “protogalo”de Barcelos. “Por ocasião da Exposição do Mundo Português, se produziram milhares de peças, entre reproduções do figurado antigo, e novidades por ele mais ou menos inspiradas” (Mimoso, João Manuel, Uma História Natural do Galo de Barcelos: http://www.inverso.pt/barcelos/galo/textos/historia.htm). O Galo de Barcelos corporiza um daqueles ovos de Colombo que o Estado Novo prezava: o local como caso particular do nacional.

 

O facto de um fenómeno emergir dois séculos depois de outro não é obstáculo à sua ligação. Apenas não nasceram juntos. Para haver relação, basta, por exemplo, que o segundo se inspire no primeiro. A maioria da informação a que acedi não aponta no sentido de uma conexão. Sobressaem, contudo, obras célebres que sustentam o contrário (por exemplo, Lima, Fernando de Castro Pires de, 1965, A Lenda do Senhor do Galo de Barcelos e o Milagre do Enforcado, Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho). Trata-se de um assunto polémico e confuso.

São vários os supostos criadores originais do Galo de Barcelos. Domingos Côto, o “pai” mais “consensual” do Galo de Barcelos, dessacraliza o acto fundador:

“Estava eu aqui sentado, a jantar, e reparei num galo, de asas abertas, pimpão, a arrastar a asa à galinha, e vai daí disse ao meu irmão: vou fazer um galo a namorar a galinha. Pus-me ao trabalho e a gente virou p’ra isto que aí vê” (citado em “O Galo Lendário”: http://calcadadamiquinhas.blogspot.pt/2012/04/).

Mas para toda a afirmativa, existe sempre outra afirmativa:

“Procurei junto dos familiares do “pai” do Galo de Barcelos cimentar a questão em causa. Todos afirmam que foi Domingos Côto que fez o primeiro galo de barro e que o fez inspirado na lenda do Galo de Barcelos. Dos familiares desse oleiro, destaca-se um: Júlia Côta, neta de Domingos Côto, e insigne artesã (…) Quando lhe perguntei por que razão é que o avô começara a fazer os galos e donde é que lhe veio a ideia, Júlia Cota respondeu convicta sem hesitação: “Olhe! Foi a partir da Lenda do Galo que o meu avô começou a fazer galos” (“Galo de Barcelos”: http://www.galegossmaria.maisbarcelos.pt/?vpath=/inicio/ogalodebarcelos/).

Carlos Alberto Ferreira de Almeida sublinha o momento em que começou a vingar a narrativa que associa o galo cerâmico ao galo da lenda:

14. Galo de Barceleos. Cleção do Museu de Arte Popular, em Lisboa.

14. Galo de Barcelos. Colecção do Museu de Arte Popular, em Lisboa

“A lenda que o cruzeiro do Senhor do Galo, entretanto também chamado de Barcelos, nos ilustra não parou na sua capacidade de originar fenómenos culturais. A lenda do cruzeiro do Senhor do Galo era de há muito conhecida. Objectivamente e até 1963, ela não teve nada a ver, nem geográfica, nem cronológica, nem mentalmente, com a figura do galo cerâmico que o turismo lançara e tanto desenvolveu. Naquele ano, F. Pires de Lima publica um livro sobre A Lenda do Galo de Barcelos e o Milagre do Enforcado (Lisboa, 1963) a que se seguiu uma conferência local, onde o autor ensaiou o estudo comparativo dessa narrativa e afirmou a possibilidade de ter havido uma relação entre o galo da lenda e o da cerâmica. Poderá parecer, mas, até esse momento, não havia qualquer ligação. Mas tanto bastou para que pessoas locais o passassem a acreditar e os agentes e guias de turismo o divulguem mais. E o galo que era já um númen da cidade de Barcelos e tinha uma ascendência muito curta e até envergonhada por ser um simples fenómeno de quadro da feira de Barcelos e do turismo ficou com uma apetecida origem religiosa. E assim nasceu um mito (ALMEIDA, Carlos, 1990, Barcelos. Cidades e Vilas de Portugal, Lisboa, Presença, pp. 99-100).

O testemunho de Carlos Basto recolhido por Elisabete Muga Rodrigues (2008, O galo de Barcelos. Do Mito, do Símbolo e do ícone, dissertação para a obtenção do grau de mestre, Universidade Lusíada, Lisboa, p. 32) aponta no mesmo sentido: “que esta união entre Lenda e Galo terá acontecido no meio de uma conversa entre este e Simplício de Sousa ao qual Pires de Lima também assistia. Carlos Basto terá achado a ideia ridícula e assegurado que a Lenda e o Galo não tinham qualquer relação ou fundamento histórico, mas Simplício de Sousa (forte impulsionador das primeiras feiras de artesanato realizadas em Barcelos) terá afirmado que, independentemente de não ter fundamento histórico, havia muito interesse turístico”.

 

Para que dois fenómenos culturais se associem, não é necessária uma relação objectiva, basta que se ergam pontes entre ambos. Basta uma “autoridade” assegurar que a ligação existe e haver quem acredite. A ligação passa a existir e torna-se viva. Os interesses comandam, as comunidades imaginam-se, as tradições reinventam-se e as identidades são como o barro, moldam-se.

Segue “a mais antiga e mais completa versão escrita da Lenda do Senhor do Galo” (Domingos J. Pereira, Nova Memória Histórica da Villa de Barcelos, ampliada, manuscrita, 1877). Está acessível na página do projeto maisBarcelos: http://www.galegossmaria.maisbarcelos.pt/?vpath=/inicio/ogalodebarcelos/

Lenda do Senhor do Galo

“Por aqueles sítios, à beira da estrada velha, talvez no mesmo sítio do Senhor do Galo, havia uma estalagem muito concorrida pelos viandantes que se desfaziam em elogios sobre a formosura, sem igual, da sua dona, moça gentil, cuja fama de beleza se estendia por muitas léguas, mas em desabono de quem nada havia que dizer. Fez o diabo (e quem senão ele!) que em certo dia acertou de entrar na estalagem um peregrino, por sinal galego, que, acompanhado de um galhardo mancebo, seu filho, ia cheio de fé cumprir um voto a S. Tiago. Ver a estalajadeira ao mancebo e ficar enfeitiçada com ele, foi o momento, posto que o filho do galego não fosse acometido da mesma paixão que levou aquela até aos pontos que o leitor vai ver. Quando ela se convenceu de que os viandantes não contavam demorar-se mais que o tempo necessário para tomar algum repouso, empregou todos os recursos que lho sugeriu a sua imaginação de mulher para persuadir o peregrino da conveniência de demorar-se alguns dias. Quando conheceu que era impossível vencer a teimosia do galego em continuar seu caminho, empregou todos os esforços para conseguir do filho que ali ficasse até ao regresso do pai, e quando a obstinação desta foi seguida pela indiferença do moço, a estalajadeira formou um plano, genuinamente diabólico, que pôs em acção, logo de seguida.

Pagaram os peregrinos as despesas, despediram-se da vendeira, que longe de manifestar pesar, aparentou rosto risonho e sorriso de mau agouro e sem se demorar mais, continuaram aqueles santos varões sua piedosa jornada. Não haviam progredido muito nesta quando, num cotovelo de caminho, apareceu um bando de aguazis que dirigindo-se ao mancebo lhe disseram:

– Em nome d’El-rei, estás preso.”

Atónitos, pai e filho, com dificuldade conseguiram perguntar, balbuciantes, o que significava aquilo e, por isso, calcula-se como ficariam ao ouvir qualificar o moço de ladrão e o que mais é, quando dentro da sacola lhe retiraram uns talheres de prata, corpo do delito que a estalajadeira denunciara à justiça.

O peregrino prosseguiu imperturbável a sua visita a Santiago, depois de abraçar o filho que, conduzido à cadeia, não tardou a ser condenado à pena da forca, segundo a legislação então em vigor.

Nesse dia e na mesma hora em que deveria ser executada a sentença valeu-se o galego pai da sua peregrinação e, cheio de pesar com a notícia do que se passava, foi procurar o juiz, em ocasião que estava comendo, a fim de o convencer da inocência do filho. Desejando o magistrado que ele não o importunasse, pedindo-lhe pelo filho, declarou-lhe que para o acreditar inocente seria preciso que cantasse o galo assado que tinha na mesa e ia trinchar. Dizer isto, pôs-se de pé o galo, sacudir a salsa e começar a cantar foi um abrir e fechar de olhos.

Levantou-se o juiz aterrado, olhou o relógio, era precisamente a hora da execução. Correu, seguido pelo pai ao sítio do suplício e a grande distância um e outro viram que chegavam tarde!… O réu via-se dependurado da viga fatal… Pouco porém importava tudo isto. S. Tiago pegava no filho à vista do pai, amparando com a cabeça e mãos os pés do enforcado.

… eis a tradição, transmitida ao longo dos anos, que deu origem ao cruzeiro do Senhor do Galo.”

(Domingos J. Pereira, Nova Memória Histórica da Villa de Barcelos, ampliada, manuscrita, 1877)

 

O melhor tempero

Nandos_logo.svgEsta estância balnear tão recatada encheu-se de centenas de jovens vestidos de preto! Ouvem-se as carpideiras electrónicas. Apetece-me despistar.
A cadeia Nando’s, com cerca de 30 000 restaurantes em 35 países, tem ADN português: o engenheiro de som Fernando Duarte foi fundador. O símbolo, o galo de Barcelos, não engana! A Nando’s aposta em anúncios burlescos, se não brejeiros. Quinze anos separam os anúncios Toilet Roll (1996) e Last Dictator Standing (2011). Em 2010, a Advertising Age colocou a Nando’s no top 30 mundial das hottest marketing brands. Mereciam o top 10 se a música fosse portuguesa. O anúncio Last Dictator Standing ganhava com a companhia do Quim Barreiros e do Bacalhau à Portuguesa. É “melhor tempero”.

Marca: Nando’s. Título: Toilet Roll. Agência: TBWA. África do Sul, 1996

Marca: Nando’s. Título: Last Dictator Standing. Agência: Black River FC  Johannesburg. Direcção: Dean Blumberg. África do Sul, 2011

Quim Barreiros. Bacalhau à portuguesa. Ao vivo em Setúbal

O funeral do website

NOSSA. Funeral de Website. 2017

NOSSA. Old website funeral. 2017

Eis uma bela autopromoção da NOSSA, eleita agência criativa digital do ano pelos prémios Sapo. Tudo tem o seu tempo. A NOSSA entendeu celebrar a morte do seu último website com honras de um funeral sentido. Uma espécie de luto de remição. Este anúncio vem a preceito: estou a separar uma série de artigos numa categoria intitulada “a morte das coisas”.

Marca: NOSSA. Título: Old Website Funeral. Agência: NOSSA. Direcção: Nuno Maltez. Portugal, Fevereiro 2017.

É sempre dia de ser filho

Adriano Correia de Oliveira

Adriano Correia de Oliveira

Duas crianças, surdas ou não, encontram-se. O que dizem uma à outra? “Quem tem uma mãe tem tudo / Quem não tem mãe não tem nada”.

Seguem o anúncio mexicano Gracias Mama, da Nido, e a canção Minha Mãe, de Adriano Correia de Oliveira.

Marca: Nestlé/Nido. Título: Gracias Mama. Agência: McCann México. Direcção: Mario Muñoz. México, Maio 2017.

Adriano Correia de Oliveira. Minha Mãe. Fados de Coimbra II (EP, 1962).