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Cansaço

Memento mori ©2017 por Valentine Lasselin-Nowak.

Ano novo, corpo velho! Arrasto-me. Um enfisema pulmonar cansa; insuficiência renal cansa; um beta bloqueador para o coração cansa; má circulação cansa; diabetes com glicémia acima de 200 cansa; um cocktail de medicamentos para a “cabeça” cansa; Os triglicerídeos nos 450 cansa. O meu corpo é um calhau da Serra de Arga. A insuficiência renal e a glicémia alta dão sede. Bebo como um danado. Sou um autotanque sem rodas.

Quem dera transplantar o cérebro noutra pessoa. Se me coubesse uma mulher, ainda ficava hermafrodita (ver Robert A. Heinlein, I will fear no evil I, 1970). Entretanto, estou com gripe. Entre mim e a gripe, existe uma atracção fatal. Não obstante as vacinas injectável e oral, consegue abraçar-me. Com gripe, arrasto-me a dobrar. A família entendeu mostrar-me, com humor, um espelho: o poema “Todos os homens são maricas quando estão com gripe”, do António Lobo Antunes, recitado pelo Pedro Lamares. Em boa hora!

António Lobo Antunes. Todos os homens são maricas quando estão com gripe”. Recitado por Pedro Lamares. Museu D. Diogo de Sousa, 2013.

“Somos pó, e ao pó voltaremos”. Então, não haverá desigualdades nem doenças. Apenas infortúnios da alma. Por enquanto, somos o que somos. Quem diria que uma canção contemporânea podia ser um belo momento mori?

Kansas. Dust in the wind. Point of known return. 1977. Ao vivo no Chile em 2006.

A fechadura grotesca

Ex-votos

Ex-votos.

O anúncio chinês Intelligent Lock, para a Kaadas, é um cúmulo do grotesco. Corpos despedaçados num mundo desconexo e caótico. O anúncio baralha os nossos sentidos e os nossos sentimentos. É sinistro, mas consegue pôr-nos a rir. Embora delirante, aparentemente desmiolado, manifesta-se completamente racional. É racional pelos fins visados: a promoção das fechaduras Kaadas. E é racional em relação aos meios mobilizados. O anúncio é composto por uma sucessão de enigmas: como conseguem os pais reconhecer os filhos e estes abrir a porta? Ao jeito de um romance policial, a solução está guardada para o desfecho final: as fechaduras Kaadas abrem com um toque e identificam a pessoa. Apesar do desconcerto, Intelligent Lock revela-se mais racional do que os anúncios em que não existe relação aparente entre, por um lado, a imagem, o som e a narrativa e, por outro, o produto ou o serviço. Nestes casos, a ligação, a ponte, entre o conteúdo e o produto do anúncio é impressiva, subliminar ou alegórica.

Marca: Kaadas. Título: Intelligent Lock. Agência: F5 Shanghai. China, Outubro 2018.

Filho da Lua

Colocaram estas fotografias no Facebook. Passaram-me despercebidas. Provêm da sessão inaugural do festival Filmes do Homem (Agosto 2018). Gosto de conversar. Umas vezes com a máscara da convicção, outras com o humor de quem ri com as próprias piadas. Restrinjo cada vez mais as conversas a assuntos e a públicos que me tocam. Apraz-me conversar, escrever, ensinar e investigar com liberdade e motivação. Um privilégio que a academia está a perder. Já a gestão e a “internacionalização”, dispenso-as. “Internacionalizo” pouco. Não sinto a falta. Prefiro não ter fronteiras.

Internacionalizemos! Hijo de la Luna (1986), da banda espanhola Mecano, ultrapassou a vintena de covers, desde os clássicos até aos góticos. Os Mecano cantam-na em espanhol e em italiano. Gosto da versão italiana. Coloco uma e outra. A letra convoca a mitologia. Uma mulher dá à luz um bebé de pele branca com olhos cinzentos. O pai, cigano, desconfia de adultério. Mata a mulher e abandona o filho no cimo de um monte. A lua, que não pode ter filhos, adopta a criança. Quando esta está contente, temos lua cheia; quando está triste, a lua encolhe-se, em quarto minguante, para melhor a embalar.

Mecano. Hijo de la Luna. Entre el Cielo e el Suelo. 1984. Vídeo musical.

Mecano. Figlio Della Luna. Video musical em italiano.

 

Grotesco de estimação

Thanonchai Sornsriwichai

Thanonchai Sornsriwichai

Thanonchai Sornsriwichai é um brilhante realizador de publicidade tailandês, cujos anúncios tendem para um grotesco ímpar. Conciliam delírio e ternura, a exemplo do Shrek. Recordo o primeiro anúncio de Thanonchai Sornsriwichai a que acedi: King Kong, para a Ford Ranger. Estreado em Dezembro de 2004, ganhou vários prémios, incluindo o Leão de Ouro do Festival de Cannes. O Tendências do Imaginário contém uma dúzia de anúncios de Thanonchai Sornsriwichai, incluindo o King Kong, que integrou a selecção de anúncios da instalação Emoções Confortáveis, na exposição Vertigens do Barroco  (Mosteiro de Tibães, 2007). Não resisto à tentação de o recolocar. Mas acrescento um novo: Tummy, da LMN (2012). Desconcertante. Mágico e violento: a barriga tem forma de cabaça e é perfurada por uma flecha. É arte de Thanonchai Sornsriwichai dar vontade de rir com desgraças insólitas. Estranhamentos agradáveis. “Os deuses devem estar loucos”.

Marca: Ford Ranger. Título: King Kong. Agência: J. Walter Thompson. Direcção: Thanonchai Sornsriwichai. Tailândia, 2005.

Marca: LMN. Título: Tummy. Agência: Creativeland Asia. Direcção: Thanonchai Sornsriwichai. Índia, 2012.

Com uma pequena ajuda da morte

 

Roland Topor (Français, 1938.2997. Autoportrait présumé à la faucheuse

Roland Topor (Français, 1938.1997. Autoportrait présumé à la faucheuse.

“A mais bela artimanha do diabo consiste em vos persuadir que ele não existe” (Baudelaire, Charles, O Spleen de Paris, 1869).

“Agora e na hora da nossa morte”, não é nada fácil afastar a ceifeira. Ela insiste. Não há cabelo nem carne que lhe escapem.A não ser que a mandemos trabalhar por nós, temporariamente, noutras ceifas. Não são as manhas do demo, são as manhas da vida. Neste anúncio francês, que lembra um cartoon, a paisagem, a ceifa e a história parecem portuguesas do Alentejo.

Marca: VediorBis. Título: La faucheuse. Produção: Blue Martyn. Direcção: ELVIS. França, 2004.

Turismo mágico e radical

O anúncio 5 places, do Ministério do Turismo da Argentina, mostra-nos as férias que provavelmente não tivemos. De desejo em desejo, um casal salta de ambiente em ambiente: mar, montanha, estuário, deserto, lagoa. Com paixão, risco, aventura e contacto com a natureza. Este anúncio combina componentes que anúncios congéneres tendem a negligenciar: narrativa, magia, humor, amor e sintonia com o público- alvo (jovens adultos radicais, presume-se). Falha, talvez, a música. Onde está a magnífica música argentina? Pense-se, por exemplo, em Astor Piazzolla ou Mercedes Sosa.

Marca: Argentina Ministry of Tourism. Título: 5 places. Agência: La Comunidad Buenos Aires. Direcção: Luisa Kracht. Argentina, Fevereiro 2017.

Astor Piazzola. Oblivion. 1982.

Mercedes Sosa. Sólo le pido a Dios. Live in Argentinien. 1982.

Publicidade sem medo

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É possível abordar assuntos sérios com humor. “Antes risos que prantos” (François Rabelais). Há quem procure sensibilizar à força e pelo medo (a campanha anti tabaco é um exemplo); e há quem o faça com humor e cumplicidade. Independentemente do conteúdo, o anúncio Aidez-nous à sauver des vies, da Cruz Vermelha francesa, é uma pérola da arte de consciencializar sem punir.

Anunciante: Croix-Rouge Française. Título: Aidez-nous à sauver des vies. Agência: Altmann + Pacreau. Direcção: David Bertram. França, Junho 2017.

A boca e o resto

Young Henrys 2

De tanto badalar, o badalo perde o sino. O género justifica, neste anúncio, uma espécie de paródia com final inesperado. Após várias tentativas kitsch apostadas em criar produtos “femininos”, empoderadores da mulher, a australiana Young Henrys propõe uma nova cerveja, a Lady Beer, que sabe a igualdade”:  “The Young Henrys Newtowner, made for your mouth, not your genitals”. Humor, irreverência, provocação, politicamente incorrecto, sentido de marca?

Marca: Young Henrys. Título: Lady Beer. Agência: Unko. Austrália, Maio 2018.

Fisionomia e inteligência

S. Wells, New Physiognomy, or Signs of Character..., NY, 1871

S. Wells, New Physiognomy, or Signs of Character…, NY, 1871

O carácter e a inteligência dependem da fisionomia e da pose? Assim o entende Franz Joseph Galo, fundador da frenologia (Gall, Franz Joseph & Spurzheim, Johann, 1809 (Untersuchungen ueber die Anatomie des Nervensystems ueberhaupt, und des Gehirns insbesondere, Paris e Strasburg, ed. Treuttel e Würtz, 1809).

S. Wells, New Physiognomy, or Signs of Character..., NY, 2. 1871

S. Wells, New Physiognomy, or Signs of Character…, NY, 2. 1871

Há, precisamente, dois e sete anos, gracejei com a eventual relação entre, por um lado, a fisionomia e a postura corporal e, por outro, o desempenho intelectual. Revisitei, com agrado, estes dois textos. O humor revigora.

A cerveja e o astronauta

“E pusemos em ti nem eu sei que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro” (José Saramago, Fala do Velho do Restelo ao Astronauta, in Os Poemas Possíveis, Ed. Caminho, Lisboa, 1981. 3ª edição).

Depois da Coca-Cola, é a vez da Carlsberg. Uma galeria de pecados. Porque a Carlsberg também faz mal, faz com que a proeminência de uma pessoa desça da cabeça para a barriga. O que é grave. Eu professor que o diga. Há poucos anos, entrava na sala de aulas e os alunos lá apostavam: “este até é capaz de ter cabeça!”. Agora, o olhar nem sequer sobe até às palavras; fica hipnotizado no abdómen. O que é grave para a aprendizagem. A Carlsberg e um sem fim de bebidas são pedagogicamente nocivas. A avaliação dos docentes devia contemplar o seguinte índice: razão entre o perímetro da cabeça e o perímetro da barriga. Quanto maior, melhor. Entretanto, enquanto a coisa não encolhe, nada como promover acções de formação creditadas sobre o uso de corpetes e espartilhos. A venda de cerveja já foi proibida na academia. Santa sabedoria! Se quiseres ter mais cabeça do que barriga, faz como o astronauta: bebe com capacete.

Marca: Carlsberg. Título: Spaceman. Agência: Fold7 Creative. Estados Unidos, Abril 2011.

Cabecinha pensadora

“Procuramos sempre o peso das responsabilidades, quando o que na verdade almejamos é a leveza da liberdade” (Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser, 1984).

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Figura 01. Chiu I.

Os pensamentos têm peso. Existem pensamentos elevados e leves, mas no nosso imaginário gravitam, sobretudo, pensamentos sólidos e profundos. Quando alguém pensa arrisca-se a ficar com a cabeça pesada. E para sustentar a cabeça não basta o pescoço, é necessária a ajuda das mãos, bem apoiadas. Com o olhar fixo, entre o umbigo e o infinito, esta é a imagem predominante do pensador. Desde há milénios! Ilustra-o a seguinte amostra de esculturas e pinturas.

Um conselho: não pense enquanto salta, chocalha as ideias; nem enquanto nada, o pensamento mete água; não pense na cama, as ideias tornam-se soporíferas; nem na montanha russa, as ideias ficam para trás…

Figura 02. São José, ca 1475-1500. Toscana. Itália.

Figura 02. São José, ca 1475-1500. Toscana. Itália.

Afortunadamente, um consórcio internacional envolvendo 89 centros de investigação, entre os quais um português com sede em Boston, está a trabalhar num dispositivo capaz de maximizar a posição da cabeça enquanto saltamos, nadamos, dormimos e nos divertimos.

Brincadeira à parte, devo este artigo ao Fernando Sousa Ribeiro que me chamou a atenção para os pensadores de Angola, estatuetas que são um ícone nacional.

Galeria de imagens

 

 

Manuel Freire, Fala do Velho do Restelo ao Astronauta (1993). Poema de José Saramago.

 

 

Auto-estima

Québec

O anúncio It’s Good to Be Good, das churrasqueiras BBQ Québec, revela um sentido de humor reflexivo, a smiling selfie. O quebequense com o carro estacionado a fumegar não é vítima de uma avaria: é o generoso anfitrião de um barbecue invulgar.

“É bom ser bom” é um slogan que assentava bem ao povo português. Ou talvez não! Há perversidades insuspeitas. Imagine-se um cartaz numa rotunda: É bom ser bom, com letras garrafais. Um português lê e logo interpreta: é bom ser bom como o Cristiano Ronaldo.

Não é Carnaval, mas ninguém leva a mal. As palavras gostam de se encostar umas às outras até rondar o disparate. Rir? Chorar? Se o riso castiga os costumes, as lágrimas lavam a alma. O mais avisado é chorar de rir.

Marca: BBQ Québec. Título: It’s good to be good. Agência: Lg2. Direcção: David Poulin. Canadá, Março 2017.