Jardinar a conjugalidade
Saiu há dias o anúncio Obey Your Hands, da Hornbach, uma rede alemã de lojas de bricolage que aposta numa publicidade cómica, desinibida e insólita. Obey Your Hands convoca um caso excessivo de alucinação cinestésica: a sensação de que um órgão corporal se está a mover, adquire vida própria.
O Tendências do Imaginário comporta uma dezena de anúncios desta marca. Deu-me vontade de explorar mais. Encontrei Garden, de 2001, uma delícia não tanto por ridicularizar a masculinidade mas pelo modo como “brinca com coisas sérias”, tais como a morte e o homicídio.

O vinagre e as moscas
Há muitas maneiras de o dizer e outras tantas de o entender, o que representa um desafio para os agentes publicitários. Tanto podem contribuir, junto do público, para o envolvimento e o agrado como para o enfrentamento e o desconforto, provocando sensações e sentimentos ora de satisfação, confiança e esperança, ora de perturbação, insegurança e receio. Difíceis de antecipar, as reações podem resultar perversas: indiferença, rejeição e, até, adversidade em vez de adesão, reconhecimento e conversão. A maioria dos anúncios comerciais, interessados em congregar e cativar, apostam na primeira modalidade; os anúncios de sensibilização, mais empenhados em assustar e mitigar, na segunda, destacando-se as campanhas antitabaco como exemplo extremo. Na prevenção ambiental ou rodoviária, a opção pela polémica e pelo choque tende a ser menos drástica e sistemática, com eventual recurso à fantasia, à simpatia e, até, ao humor. O anúncio natalício “Llegar”, da Dirección General de Tráfico (DGT), de Espanha, oferece-se como um excelente exemplo.
Um dia virá em que as altas autoridades se dignarão ponderar um provérbio antigo: “Não é com vinagre que se apanham moscas”; ou “Apanham-se mais moscas com uma colher de mel do que com vinte barris de vinagre“.
Entretanto insiste-se, décadas a fio, na repetição, na agressividade e, muitas vezes, na intrusão sem que os resultados correspondam. Algo me escapa! Existirão outras lógicas que não consigo ou ouso equacionar? Além da conversão, a discriminação, a estigmatização e a demonização? A justificação da penalização, nomeadamente através de impostos demasiado excessivos e pouco dissuasivos? Com certeza que não, seria grave.
Para uma carreira de sucesso
Dizes-me, esqueço. Ensinas-me, lembro-me. Envolves-me, aprendo (Benjamin Franklin)

O anúncio tailandês “Work Work Work”, para a agência de formação e emprego Kasiskorn Career, é uma espécie de versão oriental atual do livro The Way to Wealth, de Benjamin Franklin (1758): contempla alguns conselhos práticos para ter sucesso no trabalho. Com imaginação e humor.
Humor Batráquio. Estupidez e Esperteza

“Nunca atribuas à malícia o que pode ser explicado pela estupidez humana” (Robert A. Heinlein)
“Nunca subestimes o poder da estupidez” (Robert A. Heinlein)
O perigo espreita, o turista inventa e a seguradora promete. O anúncio Frog, da companhia de seguros argentina Turismocity, confronta-nos, mediante um discurso simples com final inesperado, com uma interrogação: a esperteza enxerta-se na estupidez?
Há muito que ando tentado a partilhar o ensaio satírico As Leis Fundamentais da Estupidez Humana de Carlo M. Cipolla (1988). Nunca é tarde.
Fantasma ao volante
Com o dia dos mortos à porta, assombram-nos visões e medos. Como é costume, a publicidade antecipa-se: expandem-se os anúncios macabros. Para a Toyota, os espíritos querem-se ao volante.
Humor sexual
Há duas décadas, eram frequentes os anúncios brejeiros com o sexo como ignição ou pano de fundo. Entretanto, o sexo ressignificou-se, mormente na publicidade. Entre outros aspetos, o secreto tornou-se ostensivo e o ostensivo, discreto. Numa das visitas a arquivos antigos, encontrei este exemplar espanhol.
A Bela Adormecida. À procura de novas versões

“Grã-Bretanha: Uma advogada quer proibir a Bela Adormecida porque “o beijo não é consentido”. Feministas e pedagogas suíças apoiam-na” (https://lesobservateurs.ch/2017/11/29/grande-bretagne-une-avocate-veut-interdire-la-belle-au-bois-dormant-car-le-baiser-nest-pas-consenti-des-feministes-et-pedagogues-suisses-la-soutiennent/).
Por que não substituir o macho pela máquina?
Raiva

E la carne va. A evasão da carne. Por Fernando Gonçalves. 18/08/2021. 
2 A Deus nunca se pede que chegue. Por Fernando Gonçalves. 18/08/2021.
“Todos os meus tormentos cingem-se a uma passagem – Do medo à esperança, da esperança à raiva” (Jean Racine, Bérénice, 1670).
Tive a sorte de ter excelentes companheiros nos quartos do Hospital. O último lamentava-se e chorava com frequência. Ao aparar a relva, uma pedra vazou-lhe um olho: – Meu Deus, MeuDeus, o que me foi acontecer. Que vai ser dos meus dois filhinhos? Valha-me Deus! Interrompi-o, com aquele jeito blasfemo: – Deus anda a fumar haxixe! (charutos, diria Serge Gainsbourg). Saiu assim: nu, bruto e abrupto. E as lágrimas cederam ao riso.
Cintila uma raiva daninha no meu olhar embaciado. Brota das entranhas. Manifesta-se de duvidosa utilidade.
O bombeiro, as pilhas e o cigarro
O meu rapaz mais novo enviou-me o anúncio japonês Fireman, um anúncio raro, original, simples e bem-humorado. Uma delícia! Degrau a degrau, o bombeiro não desiste e o cigarro não escapa. Um anúncio à minha cara, uma prenda à sua maneira e um riso refrescante para quem passar por aqui.




