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Nojo

NHS. Anti-smoking

O meu rapaz mais novo aproxima-se com uma embalagem de cigarros Marlboro de Angola.

– Vês! Só tem a frase “Fumar prejudica a saúde”, sem sentenças, nem imagens. Bastava assim…

– Não, filho! Não bastava assim. Não era suficientemente nojento.

Estou com gripe. Porquê? Toda a gente sabe e faz questão em mo dizer: “porque fumo”, a última tentação do demo. Como pode caber tanta sapiência no cérebro das pessoas? Tenho diabetes, porque fumo; insuficiência renal, porque fumo; torci um pé, porque fumo; extraí a tiróide, porque fumo; fui operado a duas hérnias, porque fumo. Escrevo azedo porque fumo. A medicina regressou à teoria dos humores. Trata-se de diagnósticos amigavelmente nojentos. Os estigmas são assim: poluidores, extravasam o seu âmbito. Gritamos a um cego! Qualquer dia, alguém vaticinará que a minha calvície e a minha teimosia tresandam a fumo. A estigmatização é um nojo e os seus paladinos, nojentos. E não usam travões. Já, em tempos, ninguém travava o medo dos vampiros: estaca cravada no corpo do suspeito e uma pedra a fechar a boca. Por vezes, as mesinhas antitabaco lembram medalhas de São Bento.

Enojar pessoas parece estar na moda. Até parece que quanto mais me enojas mais gosto de ti. Como no anúncio tailandês Disgusting, da Wai Wai Quick. Nada que se compare, porém, às campanhas antitabaco. Que a cruzada sanitária e higienista degrade a qualidade de vida de milhões de pessoas resume-se a um mero efeito secundário.

Marca: Wai Wai Quick! Título: Disgusting. Agência: Ogilvy & Mather. Tailância, 2000.

Vou propor a criação de um curso de nojologia. Centrado na ciência e na técnica do enojamento público, e vocacionado para os especialistas dos corredores e dos arredores do poder.

Os anúncios Accidents (2012) e Sugar Sugar (2011) ilustram o que pode ser a excelência de um trabalho de nojologia aplicada.

Anunciante: Quit. Título: Accidents. Reino Unido, 2012.

Anunciante: Make Smoking History. Título: Sugar Sugar. 2011.

Não há machado que corte a raiz ao pensamento

Joan Miró. Sem título.

Joan Miró. Sem título.

How real is real (Paul Watzlawick)? Com a linguagem.  How to do things with words (J. L. Austin)? Com o poder.

A ciência tem poder e é uma linguagem. A ciência é polifónica. Fala com várias vozes. É dialógica e polémica. Confrontam-se vários discursos. Por enquanto, não é totalitária.

A ciência mede-se  e hierarquiza-se. Observa-se uma tendência para confundir o que é medido com a medida, o indicador, com o indicado. Em jargão académico, chama-se a esta falácia “reificação”. No meu dialecto, chama-se parvoíce e embuste. A avaliação da ciência recorre à arte rupestre de contar. Um cientista que se preze passa a vida a contar os seus próprios indicadores, bem como os indicadores dos outros. Um conto desgraçado. Trata-se de uma realidade de 3º ou 4º grau, uma nova forma de alquimia. A avaliação substantiva e a avaliação qualitativa vão ficando pelo caminho.

Speedy Gonzalez

Speedy Gonzalez

Na ciência, embora não se aceleram partículas, como no CERN, acelera-se a  investigação e a divulgação. A velocidade é uma dimensão importante do cientista moderno. É o efeito Speedy Gonzalez. À semelhança dos electrões, um cientista não deve estar parado. O cientista é a formiga do milénio. Só lhe falta ser ubíquo. Talvez com a ajuda de um sucessor da videoconferência. Por este andar, o cientista ainda se vai dedicar mais à divulgação do que à produção de resultados.

Aprecio pouco a noção de “indústria cultural” de Theodor Adorno e Max Horkheimer, mas utilizo-a e, até, a extrapolo: a ciência parece, cada vez mais, uma “indústria científica”. Se aos olhos da Escola de Frankfurt, a industria cultural é nefasta, a meus olhos, a indústria científica também não é grande maná.

Quando preencho os relatórios de actividade científica tenho propensão para o desabafo. É mais avisado ouvir música. Por exemplo, Livre, de Manuel Freire, com letra de Carlos Oliveira, ou o Coro dos Escravos Hebreus, de Giuseppe Verdi. Uma brisa de liberdade refresca o espírito.

 

Manuel Freire. Livre. 1968

Giuseppe Verdi. Coro dos escravos hebreus. Nabucco. 1841

Manuel Freire / Carlos Oliveira: Livre

(Não há machado que corte
a raíz ao pensamento) [bis]
(não há morte para o vento
não há morte) [bis]

Se ao morrer o coração
morresse a luz que lhe é querida
sem razão seria a vida
sem razão

Nada apaga a luz que vive
num amor num pensamento
porque é livre como o vento
porque é livre

Racismos

Jean-Michel Basquiat, Dustheads, 1982

Jean-Michel Basquiat, Dustheads, 1982

“Somos sempre o estranho de alguém. Aprender a viver em conjunto, eis o que é lutar contra o racismo” (Jelloun, Tahar Ben, 1998, Le racisme expliqué à ma fille, Paris, Éditions du Seuil).

O anúncio português O mundo está cheio de pessoas assim, de Festival Política, não condiz com a quadra. O que vale é que a quadra natalícia não é nenhum espanador de ideias.

O racismo contamina a relação com o outro. E, dialogicamente, a relação consigo mesmo. O racismo é uma poluição humana. Caricaturar o outro, rebaixá-lo, estigmatizá-lo e reduzi-lo a um exemplar não se me afigura anti-racismo. Antes pelo contrário. O racismo é uma falácia, uma entorse do espírito, a que ninguém é imune. Todos somos vulneráveis. É avassaladora a tentação de embalsamar o outro com os nossos medos e as nossas certezas. O racista está convencido que escreve direito por linhas tortas. Ousemos escrever torto por linhas direitas.

Marca: Festival Política. Título: O mundo está cheio de pessoas assim. Agência: 004. Direcção: Gonçalo Franco. Portugal, Abril 2017.

Cinzas

Enforcado. Agência Mercury 360 Bucareste. Fotógrafo Ola Bell. Roménia. 2008.

Enforcado. Agência Mercury 360 Bucareste. Fotógrafo Ola Bell. Roménia. 2008.

As imagens anti tabaco são mensagens de morte. Se fossem performativas, o fumador morreria todos os dias. Mas têm a razão do seu lado. A razão hegemónica. Tanta razão proporciona uma força extrema, como, por exemplo, a dos líderes totalitários.

“Um orgulho intelectual, uma fé absoluta, perigosa, na razão – na sua razão. Podiam não acreditar em Deus, nem na imortalidade; mas acreditavam na razão, como um católico acredita no papa, ou um fetichista no seu ídolo. Nem sequer lhes vinha à ideia discuti-la. A vida bem podia contradizê-la, eles tenderiam a negar a vida. Falta de psicologia, a incompreensão das forças escondidas, das raízes do ser, do “Espírito da Terra”. Eles fabricavam uma vida e seres infantis, simplificados, esquemáticos. Alguns eram pessoas instruídas e práticas; leram muito e muito viram. Mas não viam nem liam nenhuma coisa como ela era; faziam reduções abstratas. Eram pobres de sangue; tinham altas qualidades morais; mas não eram suficientemente humanos: este é o pecado supremo. A sua pureza de coração, frequentemente muito real, nobre e ingénua, por vezes cómica, tornava-se, infelizmente, em determinados casos, trágica: ela impelia-os à dureza face aos outros, a uma inumanidade tranquila, sem cólera, segura de si, que arrepiava. Como teriam hesitado? Não tinham a verdade, o direito, a virtude do seu lado? Não recebiam a revelação direta da sua santa razão? A razão é um sol impiedoso; ela ilumina, mas também cega” (Romain Rolland [1904-1912], Jean-Christophe IX. Le Buisson Ardent, La Bibliothèque Electronique du Québec, 204-205).

Blaise Pascal já alertava, a seu tempo, contra “dois excessos : excluir a razão e admitir apenas a razão” (Pensées, [1670],183-253 2). Na realidade, razão, todos temos. Uns mais que os outros. Assim se mede o poder.

A campanha anti tabaco configura uma mobilização inédita. É um cúmulo que conjuga tecnocracia e tecnologia. Também é fetichista. Os meios assumem-se mais importantes do que os fins e, porventura, do que os resultados. Será que paira algures uma réstia de “pensamento mágico” (Frazer, James, 1890, The Golden Bough; a Study in Magic and Religion), como no caso da chamada “embalagem neutra”.

« Para o professor Bertrand Dautzenberg, presidente do Office Français pour la Prevention du Tabagisme, a estratégia é compensadora. “Esta evolução permitiu mudar a imagem do cigarro. De produto cool, passou a uma adição que mata”. E se as mensagens sobre as embalagens aumentaram, diversificaram-se e multiplicaram-se, é para evitar que os fumadores se habituem. “É necessário fazer evoluir as mensagens de três em três anos, aproximadamente”, explica o Professor Dautzenberg, para quem a introdução da embalagem neutra prolonga o processo de desnormalização do tabaco” (https://www.francetvinfo.fr/sante/drogue-addictions/lutte-contre-le-tabagisme/comment-la-lutte-antitabac-a-transforme-les-paquets-de-cigarettes_926999.html).

Na Comunidade Europeia, vários países, sobretudo do Norte, conseguiram baixar significativamente o consumo de tabaco. Não é o caso da França, nem de Portugal. Em Portugal a prevalência do consumo do tabaco nos últimos 30 dias, entre os 15 e os 64 anos, em ambos os sexos, marcou passo: 28,6%, em 2001, 30,4% em 2016/17 (Fonte: Programa Nacional para a prevenção e controlo do tabagismo – 2017, Direcção-Geral da Saúde). Perto de um em cada três portugueses recebe todos os dias mensagens de morte e de degradação. Atendendo à envergadura da campanha anti tabaco, abençoada pela padroeira do século, a medicina, como entender este “insucesso”? Será que os ditos países do sul possuem histórias e culturas distintas dos ditos países do norte?

Preocupa-me a gloglobalização. Mormente o efeito de mancha de óleo. Um país faz, por exemplo, o Canadá, outro faz, por exemplo, o Brasil, muitos vão atrás. Um mimetismo colossal. É sensato? Na Comunidade Europeia, aprovam-se medidas em pacote para a generalidade dos países. É sensato? A Europa ainda não teve ensejo para se conhecer, para se consciencializar que é um bloco heterogéneo? Deste modo, um Estado-Nação transforma-se num Estado-membro. A diferença sofre com a gloglobalização.

Apetece-me terminar com dois dedos de retórica. Para Bertrand Dautzenberg, a campanha “permitiu mudar a imagem do cigarro. De produto cool, passou a uma adição que mata”. Para além da perfeição semântica da frase, o que é que este consolo significa em termos de valores sociais? “A adição que mata” pode ser interpretada como risco? Ora, há quem se enfade com o cool e quem se sinta atraído pelo risco (Le Breton, David, 1991, Passions du Risque, Paris, Ed. Metailié). O que condiz com o facto de a juventude constar entre as categorias com maior aumento do consumo de tabaco.

Para aceder ao anúncio, carregar na imagem ou no seguinte endereço: http://www.culturepub.fr/videos/anti-tabac-la-transformation/.

Anti tabaco

Anunciante: Centre National Contre le Tabagisme. Título: La Transformation. Direcção: Michael Buckley. 1995.

O Coração da Terra. Os Direitos do Homem

Victor Jara

Victor Jara

A Declaração Universal dos Direitos do Homem fez esta semana 70 anos. A Amnistia Internacional celebrou a efeméride com um belo anúncio. Os defensores dos direitos humanos marcam presença em todas as paisagens. Bem haja! Os abusadores, também, em todas as paisagens. Abusos inumanos.

Num encontro recente, do Mestrado de Comunicação, Arte e Cultura, ouviram-se canções de Chico Buarque e do José Afonso contra a repressão política. Acudiu-me o chileno Victor Jara, designadamente as canções Te Recuerdo Amanda (1969) e El Derecho de Vivir en Paz (1971). Como Victor Jara lembra Victor Jara, acrescento a canção Manifesto (1974). Após o golpe militar dirigido por Augusto Pinochet, Victor Jara foi preso, esmagaram-lhe as mãos com coronhadas e, no dia 16 de Setembro de 1973, foi executado no estádio de Chile, em Santiago. O seu corpo, com 44 marcas de bala, foi abandonado num matagal.

Conheci a obra de Victor Jara há mais de quarenta anos. Directamente ou através da voz de Violeta Parra e Joan Baez. Continua a sensibilizar-me. Ainda conservo dois vinis do Victor Jara. Nesse tempo, acontecia-me pensar com o coração.

Anunciante: International Amnisty. Título: Universal Declaration of Human Rights. Agência: Eallin. Direcção: Mustashrik. Reino Unido, Dezembro 2017.

Victor Jara. Te Recuerdo Amanda. Pongo en Tus Manos Abiertas. 1969.

Victor Jara. El Derecho de Vivir en Paz. El Derecho de Vivir en Paz. 1971.

Victor Jara. Manifiesto. Manifiesto. 1974.

Promessa de morte

Evil League

Alien, Bane, Dark Vador, Darth Vader, Joker, Predator, Voldemort… Quantos supervilões cabem num anúncio? Supervilões aos molhos! Já estava com saudades de sentir o ecrã tremer de medo. Tanto mal, tanta destruição. Até o símbolo da modernidade, a torre Eiffel, cai no Sena. A morte anda à solta dentro de nós. Carnívoros e lenhadores, somos pecadores inglórios! Somos a cadeia do mal. Somos bons pela nossa santa ignorância e demoníacos pelas devastadoras consequências. Nesta quadra natalícia, para nossa felicidade global, poupemos o pinheiro, poupemos os dentes, pelas florestas, pelos animais, por nós próprios.

Marca: Greenpeace. Título: Evil League: L’Ultime Menace. Agência: 84.Paris. França, Dezembro 2017.

Para uma sociologia do polvo

A reportagem Sabe porque no Norte do País o polvo é o prato da Consoada, de Ricardo J. Rodrigues (Notícias Magazine. 08-12-2017), é uma espécie de sociologia do polvo, notável pela ideia e pelo modo. Tive o gosto de participar. Para aceder, carregar na imagem.

O polvo ainda é o prato tradicional da noite de Consoada junto à fronteira com a Galiza. Um ato de resistência contra o tempo.. Fotografia de Gonçalo Delgado.

O polvo ainda é o prato tradicional da noite de Consoada junto à fronteira com a Galiza. Um ato de resistência contra o tempo. Fotografia de Gonçalo Delgado.

O Natal dos Velhos

Paintings Of Old People A Painting A Day Page 2

Paintings Of Old People A Painting A Day Page 2

Argui, recentemente, uma dissertação que, embalada pelos ventos do envelhecimento activo, vislumbra formas prodigiosas de ocupação dos tempos livres “seniores”. Tamanho entusiasmo filantropo parece esquecer que o principal hóspede dos tempos livres dos idosos é a solidão; a principal sensação, a separação; o principal sentimento, o tédio; e a principal tendência, a depressão. A companhia é uma prenda bonita para oferecer aos idosos. Importa não toldar esta realidade com ideologias tecno-messiânicas. Importa agir, mas agir apropriadamente junto de pessoas concretas. É verdade que encontramos idosos em universidades, ginásios e empresas. Mas as árvores não devem esconder a floresta.

Bill Viola. Howard. 2008. Leila Heller Gallery.

Bill Viola. Howard. 2008. Leila Heller Gallery.

Há algumas décadas, participei num programa semanal de rádio chamado Quarto por Quarto, na Antena Minho. Com o Abílio Vilaça, o Carlos Aguiar Gomes e a Teresa Lobato, e moderação de Pedro Costa. Fizemos uma emissão na própria noite de Natal. E a conversa derivou para as franjas, para as pessoas que não são iluminadas pela estrela dos Reis Magos. Havia cafés, poucos, muito poucos, abertos até mais tarde, onde acorriam alguns órfãos do Pai Natal. O café era a cabana, sem vaca nem burro. Mas quem não tem Natal sempre pode imaginá-lo, como o mendigo de Miguel Torga: da capela fez abrigo e dos santos, companheiros.

O anúncio Just another day, da Age UK, fala-nos de idosos solitários cujo Natal é nenhum dia. Tem o mérito de falar da solidão e da invisibilidade urbanas. Corre, no entanto, o risco de prestar-se a alguma confusão: o conto não é só do Natal, é de todos os santos dias. O que faz falta, por esse país fora, é promover o calor da companhia aos idosos que vivem sós. Os centros de dia ajudam, mas não chegam. É preciso mais e, também, de outro modo. Sublinhe-se que para muitos idosos a chegada do apoio domiciliário representa o único momento solar da jornada. Urge enfrentar o problema da solidão, do isolamento e da síndrome da separação dos idosos. Não faltará espaço para a activação dos corpos e das almas, nem para a implementação dos dispositivos do envelhecimento activo. De qualquer modo, convém não esquecer que, em cerca de 50 anos, passamos de uma sociedade em que havia pouco tempo para ser velho para uma sociedade em que se é velho muito tempo. “Em Portugal, a esperança de vida rondava, em 1950, os 56 anos; em 2015, ascende aos 81 anos” (https://tendimag.com/2017/11/07/filhos-da-madrugada/).

Marca: Age UK. Título: Just another day. Agência: Drum London. Reino Unido, Dezembro 2017.

Filhos da madrugada

Reli o artigo As idades da vida , que consta entre aqueles que vou publicar em livro. Não termina em rabo de peixe porque termina em rabo cortado. Escrever sobre as idades da vida na Idade Média, na Idade Moderna e despachar a Idade Contemporânea não faz sentido. Tentei compor a falha com dois artigos (O eclipse da velhice e Pró-actividade), mas não é a mesma coisa. Fiz colagens e acrescentos. Resultou este texto que vai ser enxertado na parte final do artigo As idades da vida. De todos os artigos do livro, é o que comporta mais vídeos. É difícil não recorrer ao audiovisual para discorrer sobre o imaginário contemporâneo. Começo com um provérbio curioso que, 2 500 anos depois de Esopo, nos faz pensar sobre pressas e vagares:

“O primeiro pássaro pega a minhoca, mas o segundo rato fica com o queijo” (Provérbio).

O homem medieval cresce até atingir um planalto em que o adulto e o idoso permanecem à mesma altura até à morte. A Idade Moderna altera esta representação do percurso da vida: ascensão até ao topo adulto e declínio até ao túmulo. Os dois lados da curva não têm o mesmo valor: o esquerdo é agradável e pujante, o direito é sofrido e frágil…

Hans von Marées. Die Lebensalter, 1877-8. Alte Nationalglerie, Berlin.

11. Hans von Marées. As Idades, 1877-8.

No mundo contemporâneo, continuamos a nascer, crescer, envelhecer e morrer. Muda, porém, a experiência e a representação do percurso da vida. Em Portugal, a esperança de vida rondava, em 1950, os 56 anos; em 2015, ascende aos 81 anos (fontes: OCDE, 1988, Le vieillissement social: conséquences pour la politique sociale, Paris; e INE, PORDATA). O “entardecer da vida” (Leandro, Maria Engrácia, “Assumir o entardecer da vida: novas atitudes se impõem”, Cadernos do Noroeste, Vol. 4, Nº 6-7, pp. 359-367) alonga-se. Nunca houve tantos idosos nas sociedades ocidentais. Em Portugal, em 1971, 28,5% da população era jovem e 9,7%, idosa; em 2016, 14,1% da população é jovem e 20,9% idosa (INE, PORDATA). Durante este período, a população idosa duplicou. Em 1960, havia 27,3 idosos por cem jovens; em 2016, são 143,9 (Fonte: INE, PORDATA). E no entanto… Estamos em vias de descobrir um teorema novo: existem populações que quanto maiores são menos se enxergam.

A representação das idades da vida na arte contemporânea não é unívoca. A disposição das figuras no quadro As Idades (1877-8), de Hans von Marées, lembra Hans Baldung (As idades da vida, Figura 6) e Bartolomeus Anglicus (As idades da vida, Figura 8). Mas o idoso não está nem à altura dos adultos, nem a um passo da sepultura. Curva-se junto das crianças como que a fechar um ciclo. Gustav Klimt aglomera as idades da vida num único bloco humano (Figura 11) exposto à morte (Figura 12). As idades distinguem-se, não se isolam nem se alinham.

A contemporaneidade é a era do audiovisual, que inclui a publicidade, um meio massivo de comunicação.

O anúncio Champagne (2002), da Xbox, propõe uma paródia absurda da representação moderna das idades da vida: a trajectória alucinante de um ser humanodesde o ventre materno até à sepultura. Enquanto se desloca, envelhece.

Vídeo 1. Marca: Xbox. Título: Champagne. Agência: BBH. Direcção: Daniel Kleinman. Reino Unido, 2002.

Os objectos falam (https://tendimag.com/2015/03/21/objetos-que-falam/). Deixar os objectos falar foi um desafio na publicidade dos anos setenta. Recorde-se o controverso anúncio “Bouteille Phalique”, da Perrier, estreado em 1976: uma mão feminina afaga uma garrafa que cresce lentamente até sair um jorro de água gazificada (https://tendimag.com/2011/10/19/a-mulher-o-homem-e-o-objecto/). Anos antes, em 1970, a Guinness lança o anúncio Ages of Man. Num tapete rolante, desfilam, primeiro, um biberão, em seguida, uma garrafa com leite, uma garrafa de refrigerante, uma caneca e, por último, um copo com cerveja Guinness. A cada recipiente corresponde um grupo etário com acompanhamento sonoro a condizer. No último recipiente, surge a mão de um jovem adulto. As “idades do homem” do anúncio da Guinness resumem-se à primeira metade do percurso da vida: o lado solar. Não há sinal nem de velhice nem de último brinde.

Vídeo 2. Marca: Guinness. Título: Ages of man. Reino Unido, 1970.

No anúncio Evolution (2006), da Renault, uma criança gatinha para a rua. Cresce à medida que muda de cenário. Na parte final, após uma espécie de Parkour, transforma-se, quase adulto, num automóvel. O percurso de vida é, mais uma vez, suspenso a meio, longe da velhice.

Vídeo 3. Marca: Renault Clio. Título: Evolution. Agência: Publicis Brussels. Direcção: Style War. Bélgica, Março 2006.

Em meados de Outubro de 2017, saíram dois anúncios que versam sobre as idades da vida.

O anúncio português Como lavar roupa com melhores resultados, da Ariel, inicia com uma criança a gatinhar, depois a andar, culminando com uma mulher que corre e dá lugar a uma atleta equipada com as cores nacionais. Energia, eficácia, progresso e performance. Uma ascensão sem queda num guião assoberbado pelo amanhecer da vida.

Vídeo 4. Marca: Ariel. Título: Ariel apresenta A+. Agência: Carat Portugal. Portugal, Outubro 2017.

No anúncio Good Things Come to Those Who Don’t Wait, do Wall Street Journal, a referência às idades da vida é evidente. Começa com um nascimento, “antes do tempo”, num táxi. O bebé cresce, por etapas, a um ritmo vertiginoso. A cada etapa é associada uma actividade: mamar, andar, explorar, jogar, namorar, estudar, trabalhar, investir… A curva termina na juventude adulta. O anúncio desenha a sua própria teoria: uma escada que só sobe até ficar sem degraus. Configura um elogio da aceleração, da conquista, da pró-actividade e da juventude empreendedora. Um anúncio que sabe o que pretende: Don’t wait for opportunity. Create it. Get the news, tools and insight you need to get ahead—because good things come to those who don’t wait (Wall Street Journal).

Vídeo 5. Marca: Wall Street Journal. Título: Good Things Come to Those Who Don’t Wait. Agência: The&Partnership.USA, Direcção: Ellen Kuras. Outubro 2017.

Vídeo 6. Marca: Guinness. Título: Surfers – Good Things Come to Those Who Wait. Agência: Abbott Mead Vickers. Direcção: Jonathan Glazer. Reino Unido, 1999.

O mundo é uma Hidra e um Janus. Muitas cabeças com muitas faces. O anúncio Good Things Come to Those Who Don’t Wait dialoga com o anúncio Surfers – Good Things Come to Those Who Wait, da Guinness, considerado um dos melhores anúncios britânicos de sempre. A pressa de futuro e a espera do momento.A maioria destes anúncios tende a suspender ou eclipsar o  envelhecimento. As figuras 14 e 15 ilustram este jogo de sombras. Na imensidão da Internet, mal surgiu a primeira imagem com as idades da vida (Figura 14), logo outra a recompõe (Figura 15). A cada segmento etário a sua luz: solar na juventude, lunar na velhice.

Karthik – Goolgle +. Idades da Vida

14. Karthik – Goolgle +. Idades da Vida

Idades da Vida

15. Idades da Vida

Não sabemos que envelhecemos? Que a morte nos aguarda? Saber, sabemos, mas o que sabemos nem sempre é o que nos orienta. Saber que nos espera a morte não nos impede de viver segundo outras verdades. O fumador conhece os malefícios do tabaco, nem por isso deixa de fumar. Na vida, o saber vale muito; o desejo e a vontade, também.

Valoriza-se a alvorada; desvaloriza-se o crepúsculo. O homem contemporâneo não se quer “ser para a morte” (Martin Heidegger) mas filho da madrugada. Importa “agarrar a vida”, não a deixar fugir. “Viva a viva” é nome de filme, de canção, de barco, de hotel… É lema de uma visão do mundo. Viva a vida, morra a morte! O ser humano é um animal que se ilude. Nenhuma sociedade anterior se empenhou tanto no afastamento e no encobrimento da morte. Cavou-se a “separação entre o mundo dos mortos e o mundo dos vivos” (Philippe Ariès, 1975. Essais sur l’histoire de la mort en Occident, Paris, Seuil). Isolam-se os cemitérios, aumenta “a solidão dos moribundos” (Elias, Norbert, A solidão dos moribundos,1972). Reduzem-se ou eliminam-se os sinais de luto. Da morte, conhecemos cada vez mais uma máscara, a máscara do carnaval dos vivos, como o Halloween, e a máscara dos media, como a saga Twilight. A máscara faz ecrã, encobre como um véu (Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes, 1980). Mesmo quando sentimos a foice a passar rente, insistimos em acreditar na lonjura da morte. O homem é propenso a acções não lógicas (Pareto, Vilfredo, 1916, Tratado de Sociologia). Reduzir a luz que incide sobre as últimas etapas da vida humana parece ser um vício das sociedades contemporâneas. Apagar a luz não adormece a morte. Desperta os fantasmas ( (Thomas, Louis-Vincent, 1979, Civilisation et divagations. Mort, fantasmes, science-fiction, Payot).

Para analisar um texto ou uma imagem importa ver o que lá está e o que lá não está. Também importa levantar, de vez em quando, o olhar para não esquecer o mundo.

Acentuar a juventude e a vida em detrimento da velhice e da morte releva de um imaginário, de uma encenação e de uma pragmática bastante influentes na sociedade actual. Não deixa, contudo, de ser uma perspectiva entre outras.

Apesar das tendências em contrário, a maioria dos idosos ainda é acompanhada na vida e na morte. Cuidamos dos vivos e dos mortos e a interacção entre gerações é uma realidade. As pessoas vão ao cemitério cuidar das sepulturas, rezar pelos mortos e estar com os vivos. Em muitas freguesias, o cemitério afirma-se como um dos principais locais de encontro. A necrologia é a parte mais consultada nos jornais regionais. Há concelhos com menos de 10 000 habitantes em que morre uma pessoa dia sim, dia não. Resulta difícil ignorar a morte.

Associada à psicanálise, a noção de analisador diz respeito a uma fonte de informação que nos dá acesso à natureza do todo. Não precisa de ser geral, nem tão pouco notória. Há alguns anos, numa freguesia portuguesa, o jardim de infância e a morgue coexistiam paredes a meias. Este caso, excepcional, revela até onde pode ir a proximidade entre a “comunidade dos vivos” e a “comunidade dos mortos”. “Um caso particular do possível” (Gaston Bachelard).

 

 

 

O dilema da testemunha

Burger king

Bullying Jr., da Burger King, é mais um anúncio-causa promovido por uma marca. Não deixa, porém, de ser interessante. O bullying envolve, pelo menos, três tipos de actores: quem o pratica, quem o sofre e quem o tolera. Neste anúncio, testemunhas de uma agressão a uma criança, nove em cada dez pessoas incomodam-se, mas não intervêm. Reagem, porém, perante um hamburger maltratado. O que significa este comportamento? Não sei, mas pode arriscar-se um palpite.

Um espectador compulsivo de uma situação de bullying depara-se com uma situação de duplo vínculo: intervém, expõe-se à violência, logo à justiça; não intervém, permite a violência, logo incorre em não assistência a pessoa em perigo. Subsistem mais opções: a tentativa diplomática e a comunicação às autoridades.

“Preso por ter cão, preso por não ter”. Em que assenta este dilema das testemunhas de bullying?  O cidadão moderno não tem direito ao uso da violência. Nem sequer a uma agressão verbal. Pode configurar um crime. Retomando Max Weber, o Estado detém o monopólio da violência legítima. Os fora da lei detêm o monopólio da violência ilegítima. Entre ambos, posiciona-se o cidadão domesticado, sem qualquer direito à violência, seja ela legítima ou ilegítima. Segundo Norbert Elias, o processo de esvaziamento do uso da violência por parte do cidadão remonta, pelo menos, à Idade Média. Este processo ainda continua.

O anúncio da Burger King coloca uma segunda questão: será, na nossa sociedade, mais razoável proteger os objectos do que proteger as pessoas? Todo o anúncio aponta nesse sentido.

Marca: Burber King. Título: Bullying Jr. Agência: David. Reino Unido. Outubro 2017.