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Apagar o inferno

Warframe

Os trailers dos videojogos situam-se na vanguarda do imaginário e da estética contemporâneos. Chamam a si os maiores recursos e os melhores profissionais e criativos. No trailer We All Lift Together, do videojogo Warframe, criaturas, mistos de máquinas e seres humanos, surgem como guerreiros do trabalho, num estaleiro amplo, composto por partes metálicas e partes líquidas.

We All Lift Together. Warframe. Videojogo. Julho 2018.

Ouve-se um coro, um hino. Lembra as canções de resistência. Escolho quatro, uma por país eurolatino do sul: França, Le Chant des Partisans (Yves Montand); Itália, Bella Ciao (Yves Montand); Portugal, Grândola Vila Morena (José Afonso); e Espanha, Si Me Quieres Escrebir (Marina Rosell, a capella).

Chant des Partisans. Intérprete: Yves Montand. França. Resistência, II Guerra Mundial.

Bella Ciao. Intérprete: Yves Montand. Itália. Resistência, II Guerra Mundial.

Grândola Vila Morena. Intérprete: José Afonso. Portugal. Resistência ao fascismo.

Si me quieres escribir. Intérprete: Marina Rosell. Espanha. Resistência, Guerra Civil.

A sereia académica

 

Biomechanoid 75, 1975, HR Giger.

HR Giger. Biomechanoid 75. 1975.

Vale a pena dedicar uns minutos à publicidade produzida pelas universidades para cativar candidatos. O anúncio Launch Yourself, da Universidade de Leicester, antecipa duplamente o futuro: o futuro prometido pelas universidades e o futuro presumido dos candidatos. Que sugerem as imagens? O Homem de Leicester parece lidar apenas com objectos. Nenhuma interacção humana! O ambiente do Homem de Leicester é a técnica e o interlocutor o objecto. A alquimia académica transforma uma distopia sinistra numa utopia excitante.

O que realmente importa numa realidade costuma ser aquilo que ela não contempla (neste caso, a interacção humana). A Universidade de Leicester tem as suas razões: sabe-se, desde há décadas, que o objecto é o futuro do homem e que a interacção humana é cada vez mais mediada por objectos. Até a relação sexual é mediada pelo preservativo. “Queda e ascensão do preservativo, eis a história sexual da segunda metade do século XX” (Philip Roth, The Dying Animal, London, Penguin, 2001, p. 68).

Marca: University of Leicester. Título; Launch Yourself. Agência: TBWA / Manchester UK. Direcção: Yoni Weisburg. Reino Unido, Agosto 2018.

A Mãe e a Guerra

Hoje é Dia dos Pais no Brasil. Só não são todos os dias dias da mãe porque alguém se lembrou de decretar um dia especial. A relação com a mãe desdobra-se numa tensão entre união e separação, em que vibram as cordas tangíveis do coração: sensação, sentimento e emoção. Com a emigração e com a guerra colonial, exacerbou-se esta tensão. Multiplicaram-se os poemas e as canções. Poemas e canções que faziam chorar, perto e longe. Há pessoas que ainda agora se comovem ao ouvir estas músicas.

Conjunto Oliveira MugeO Conjunto de Oliveira Muge, fundado nos anos cinquenta, é originário de Ovar, mas o essencial da sua carreira teve lugar em Moçambique. A canção Mãe, gravada em 1966 na África do Sul, alcançou um enorme sucesso: “O tema “A Mãe” foi das canções mais solicitadas pelos militares em Moçambique, no período da Guerra Colonial” (Conjunto de Oliveira Muge: http://guedelhudos.blogspot.com/2008/10/conjunto-de-oliveira-muge.html).

A Menina dos Olhos Tristes (1969), interpretada por José Afonso, dispensa apresentação.

Conjunto de Oliveira Muge. A Mãe. 1966.

José Afonso. Menina dos Olhos Tristes. 1969.

Os estrangeiros também têm mães. Algumas bastante complexas. Compõem, também, belíssimas canções. Retenho Mother, de John Lennon, interpretada ao vivo em 1972 no Madison Square Garden, bem como Mother (1979), dos Pink Floyd, numa interpretação dos Pearl Jam (2011?).

John Lennon. Mother. Ao vivo no Madison Square Garden. 1972.

Pearl Jam. Mother (cover dos Pink Floyd). 2011 (?).

João Nada

Emigrantes portugueses estendem roupa junto às barracas de um estaleiro de construção civil. Região Parisiense. 1970. Fotografia de Gerald Bloncourt.

Emigrantes portugueses estendem roupa junto às barracas de um estaleiro de construção civil. Região Parisiense. 1970. Fotografia de Gerald Bloncourt.

“Em Portugal a emigração não é, como em toda a parte, a transbordação de uma população que sobra; mas a fuga de uma população que sofre”.
“Mas, enfim, temos a opinião e a imprensa confessando que a vida é extremamente difícil em Portugal, e que a acção natural que todo o cidadão português deve ao seu País – é abandoná-lo”.

(Eça de Queirós. “O governo e a emigração”. Uma campanha alegre : das farpas. Lisboa. Companhia Nacional Editora, 1890-1891. Vol. I).

Peço desculpa ao mundo, mas vou falar de Portugal. Um cais de partida em que a emigração é uma “constante estrutural” (Vitorino Magalhães Godinho). “Para nascer, Portugal. Para morrer, o mundo” (Padre António Vieira). A “exportação de gado humano” (J. P. de Oliveira Martins) custa mas rende. Mesmo os governos que proíbem a emigração contam com as suas remessas.

A emigração inspirou sermões, romances, poemas, esculturas, pinturas, filmes e músicas. Algumas canções tornaram-se célebres: “Eles. Um canto da emigração” (1968), de Manuel Freire, “Cantar da emigração (1971), de Adriano Correia de Oliveira, ou O Emigrante (1977), do Conjunto Maria Albertina (ver Música sobre a emigração). Outras mereciam melhor memória.

Quarteto 1111. João Nada. LP Quarteto 1111. 1970.

Quarteto 1111. Domingo em Bidonville. LP Quarteto 1111. 1970.

Quarteto 1111. Partindo-se. EP Balada Para D. Inês. 1967.

Fundado em 1967, o Quarteto 1111, com José Cid e Tozé Brito, foi a referência do pop/rock português dos anos sessenta. Interpretaram várias canções dedicadas à emigração. Retenho “João Nada” e “Domingo em Bidonville”, do álbum Quarteto 1111, editado em 1970; acrescento “Partindo-se”, do EP Balada Para D. Inês, editado em 1967.

Quarteto 1111. João Nada (1970). Ao vivo na Sociedade Portuguesa de Autores. 2016.

Os membros do Quarteto 1111 reuniram-se, em 2016, numa actuação ao vivo, na Sociedade Portuguesa de Autores. Segue o vídeo com a canção “João Nada” (1970).

Jogo viciado

René Magritte. Mundo Invisível. 1954.

René Magritte. Mundo Invisível. 1954.

“As cidades como os sonhos são construídas de desejos e de medos, embora o fio do seu discurso seja secreto, as suas regras absurdas, as perspectivas enganosas, e todas as coisas escondam outra” (Italo Calvino, Les villes invisibles, 1972).

Retomo o anúncio Un jeu de société, incluído no artigo As Regras do Jogo (https://tendimag.com/2017/04/30/as-regras-do-jogo/), para ver se consigo reequilibrá-lo.

Anunciante: Observatoire des Inégalités. Título: A Social Board Game. Agência : Hérèzie. Direcção: Remy Barreyat. França, Abril 2017.

“O anúncio Un jeu de société (Observatoire des Inégalités, França) é didáctico. Mostra como a competição social se assemelha a um jogo de Monopólio com regras viciadas. Mas no jogo dos destinos sociais conta menos a parcialidade das regras e mais a desigualdade das condições. As regras até podem ser iguais para todos, o problema reside nos recursos e, por conseguinte, na probabilidade dos desempenhos. Como diria Pierre Bourdieu, falar em igualdade de oportunidades com desigualdade de condições é um logro. Uns estão como peixes na água, outros como aves num aquário” (As regras do jogo).

Na maratona da vida, (con)correm pessoas descalças, com havaianas e com sapatilhas. Os recursos influenciam os percursos. Focalizado nesta desigualdade de condições, o texto subestima o poder das regras. Na realidade, as regras não são decorativas. São interessadas. Constrangem. Abençoam e amaldiçoam os actores e as práticas. Legitimam arbitrariedades. Produtos do poder, consagram o poder. Sustentam-no. As regras são uma realidade que faz a realidade. São espartilhos que moldam o ser. Dizem o que é e o que deve ser. As regras não precisam de ser verdadeiras, basta parecê-lo. Alucinadas, alucinam as pessoas e o mundo.

Detail of a miniature of five Just Princes, atop the eagle of Justice, Dante Alighieri, Divina commedia. Yates Thompson MS 36, f. 164r. 1444-c 1450.

Até como águias carregamos os príncipes. Detalhe da miniatura dos Cinco Príncipes Justos em cima da águia da justiça. Dante Alighieri, Divina commedia. Yates Thompson MS 36, f. 164r. 1444-c 1450.

Propicia-se uma pitada de absurdo ao jeito surrealista. Numa localidade, inaugura-se um túnel. Limita-se a circulação a pessoas com mais de um metro de altura. O túnel é proibido a anões. Presume-se que a sua presença no túnel provoca correntes de ar. Correntes de ar que podem constipar os carros. A discriminação da regra cauciona vários corolários. As correntes de ar dos anões não dão pontos, não têm valor. A ciência ultrapassa-se a si mesma: os “anões” tornam-se um preditor: no airflow, no dwarf . Descobre-se, por último, a confirmação da regra: os anões são, afinal, alérgicos a túneis. Desembocamos num dos maiores requintes das regras. Se os anões não entram no túnel por quê proibi-los? Trata-se de uma histerese: a regra perdura para além do seu fundamento. Configura mais do que uma histerese. O objectivo da regra não reside em proibir os anões de entrar no túnel, mas em inferiorizar os anões. A regra continua a garantir a sua função latente, porventura a mais decisiva.

Esta fábula dos anões é bizarra. Mas respeita a lógica das regras. As regras são quadradas, como quadrado se desenha o mundo.

Jogadores, trapaceiros, cúmplices e tansos. O mundo é um casino.

Algumas regras vestem atavios matemáticos e científicos: categorias, indicadores, índices, variáveis, coeficientes, ponderações, fórmulas, modelos e rankings. Sem esquecer a folha de Excel. Para duas categorias profissionais com igual desempenho, as contas podem ditar que o desempenho de uma vale o dobro do desempenho da outra. Dois produtos idênticos podem ter cotações diferentes. Estamos confrontados com uma aritmética pós-Einstein. Estas discriminações arbitrárias assentam em racionalidades movidas por interesses. Quanto mais desfasada é uma regra, maior a intolerância e o zelo que suscita. A alquimia das regras apropria-se do todo e das partes. Não existe instituição, situação ou interacção social que lhe escape. Haverá “jogos de sociedade” no Ministério da Ciência, da Tecnologia e do Ensino Superior? Na vertente Ciência e Tecnologia? Na vertente Ensino Superior? Por entre rácios, grelhas e ponderações, nunca se sabe. Perguntar não ofende…  Poder, se calhar, podia, mas acolher regras alquimistas no santuário da razão representa um paradoxo demasiado esdrúxulo. Quando muito, labirintos de poderes “abensonhados” (Mia Couto).

“Je voudrais vous parler d’elle sans la nommer” (Georges Moustaki). Também gostava de falar de algumas realidades sem as nomear. Neste Portugal de Abril, temos uma constituição que os entendidos dizem ser das melhores da Europa. Temos, também, um regime democrático consolidado. Ainda continuamos a ter desigualdades por decreto!

As anedotas são umas intrometidas. Acabei de me lembrar de uma  malcriada e de mau gosto. Imprópria para um professor. Mas não é o professor que a conta mas o rapaz que  que a aprendeu.

“Um inglês desce a avenida dos Aliados. De repente, vê uma viscosidade castanha no passeio.
– Isto parecer merda, mas merda no Porto não poder ser.
Com a ponta do guarda-chuva faz um primeiro teste.
– Isto ser mole como merda, mas merda no Porto não poder ser.
Com a ponta do guarda-chuva, pega numa amostra e cheira.
– Isto cheirar a merda, mas merda no Porto não poder ser.
Com a ponta do guarda-chuva, pega noutra amostra e prova.
– Isto ser mesmo merda! Ainda bem que não pisei.

Georges Moustaki – Portugal – ( Fado Tropical )

Futebol e natalidade

Futebol e fecundidade. Da Internet.

O envelhecimento demográfico preocupa os países ocidentais. Os baixos valores da natalidade, também. O combate ao envelhecimento não é óbvio. Perante o envelhecimento pelo topo, pouco ou nada se pode fazer, a não ser assegurar um “entardecer da vida” condigno. Ao nível da natalidade, o cenário é diferente. Podem adoptar-se muitas iniciativas. Por exemplo, o incentivo à imigração. A França avançou, há décadas, com uma política consistente e persistente de “apoio à família”. Conseguiu inverter a tendência. A taxa de fecundidade é a mais elevada da União Europeia. Portugal é o lanterna vermelha. Em Portugal, as autarquias mostram-se empenhadas na promoção da natalidade, implementando medidas em áreas tais como a protecção da gravidez, o combate à discriminação no trabalho, o ajustamento da actividade profissional (horários, trabalho a tempo parcial), a guarda de crianças e o apoio material aos pais… Quer-me parecer, por maledicência congénita, que o governo português se mostra activo numa frente em que pouco há a fazer, o envelhecimento, e hesita numa frente em que muito há a fazer, a natalidade (estas questões foram abordadas por Fernando Cabodeira, na sua dissertação de doutoramento em Sociologia, pela Universidade do Minho, em 2017: Alto Minho – Horizonte 2040 – Prospectiva Demográfica e Social).

Se a natalidade resiste à política, nada como recorrer a quimeras, à magia e a outros fenómenos fertilizantes. Consta que um apagão pode propiciar picos de nascimentos nove meses depois. Parece ter sucedido no Estados Unidos (http://www.revistaportuaria.com.br/colunas/480) e no Uganda (https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2009/03/090313_ugandanatalidadegd). Durante um apagão, pouco ou nada se faz, nem sequer ver televisão. Por que não sexualizar, com os preservativos perdidos na escuridão? A interpretação trágica do efeito do apagão manifesta-se poética: acreditando que o apagão é o fim do mundo, as pessoas despedem-se com amor, muito amor. Sobre “os filhos do apagão, não existem provas convincentes.

Bebé football

Filhos da bola. Da Internet.

O futebol é outro mundo. Investigadores da Fundação Althaia, de Barcelona, sustentam que uma vitória num jogo de futebol pode estimular a procriação. Em 2009, o Barcelona foi campeão da Europa. Pelos vistos, os catalães decidiram festejar com sexo. Fala-se na “geração Iniesta”, o jogador que marcou um golo sensacional contra o Chelsea. Nove meses depois, verifica-se um aumento de 16% nos nascimentos (http://www.famili.fr/,football-quand-succes-rime-avec-bebe,422327.asp).

Estes fenómenos maravilhosos tendem, como as aparições dos santos, a propagar-se e a replicar-se. Crescem e multiplicam-se. Os finlandeses venceram surpreendentemente a Inglaterra por 2 a 1 no Europeu de 2016. Nove meses depois, observa-se um pico de nascimentos. “Nunca fizemos tantas epidurais”, garante o Dr. Thorvaldsson, que esteve na origem da “notícia”. Feitas as contas, it’s a fake!

Ao ganhar o europeu de 2016, a selecção nacional deu motivos para uma chuva de partos. Na verdade, nove meses depois não se registou nada de extraordinário em termos de natalidade. Excitados pela trindade da paixão (desporto, sexo e identidade), os portugueses reagem de um modo original: pegam na bandeira e vão apitar para a rua. Em vez de um orgasmo a dois, temos um orgiasmo em massa.

Os anúncios da Hyundai (Boom, Mundial de 2014) e da Chicco (Baby Boom, Mundial de 2018) pescam, com ritmo e humor, nestas águas da bola e da barriga. São as empresas privadas quem valoriza a natalidade. As campanhas governamentais pró-natalidade são raras. São ofuscadas por tópicos concorrentes de elevado desinteresse público. Neste panorama, entre as entidades que mais apregoam a natalidade estão as fraldas Dodot e os bebés Evian.

A terminar, a Canção de Embalar, do José Afonso. Para deitar um pouco de ternura na fervura.

Marca: Chicco. Título: Baby Boom. Agência: Pink Lab. Direcção: Igor Borghi. Itália, Julho 2018.

Marca: Hyundai. Título : The Boom. Agência : Innocean Worldwide Americas. Estados Unidos, 2014.

José Afonso. Canção de Embalar. Cantares de Andarilho. 1968.

Hierarquias na horizontal

Hierarquias na horizontalidade.

Hierarquias na horizontalidade. Montagem de Fernando Gonçalves. Julho 2018.

“Só aqueles que tentam o absurdo conseguem realizar o impossível” (M.C. Escher).

Com o calor, os neurónios entram em efervescência. Algumas bolhas trazem ideias. Hierarquias verticalmente semelhantes podem ter desempenhos distintos consoante a disposição horizontal.

Quando a hierarquia vertical (de cima para baixo) se replica na horizontal (da frente para trás) apenas o chefe acede à visão exterior (por exemplo, a Estátua da Liberdade). Os demais membros imaginam-na através dos olhos do chefe.

Quando a hierarquia horizontal inverte a hierarquia vertical, todos os membros conseguem ver a realidade desejada. Nesta disposição (B), a abertura ao exterior é maior. Todos os membros, do mais alto ao mais baixo, conseguem verificar, por exemplo, se a mão esquerda da Estátua de Liberdade segura a Tabula Ansata ou um tablet, bem como se, na mão direita, a tocha foi substituída pelo passarinho do Twitter.

As organizações tendem a replicar um mesmo princípio, normalmente simples e óbvio, de hierarquização. A mesma ordem preside à elegibilidade, às comissões, aos júris, às avaliações, à carreira, aos lugares, às posições e aos desfiles. Com uma ressalva: o pódio em que o primeiro é o último a subir, sobrepondo-se aos demais. Este tipo de hierarquia lembra um fractal. Possui um ADN, ou um gene, persistente. Seja qual for a circunstância, o código pré-existe. Nem sempre oportuno. Imagine que se pretende constituir uma comissão eleitoral. Nomeados os membros, falta designar o presidente. A escolha do presidente está pré-decidida: é o membro que possui a categoria mais elevada. Pouco importa se é o menos experiente, o menos indicado ou o menos disponível. Nada resiste ao código aristocrático em organizações que se apresentam como democráticas: o escolhido é, irrevogavelmente, o mais “categorizado”. Sempre o mesmo gene, sempre a mesma falácia, já sinalizada por Vilfredo Pareto (Traité de Sociologie Générale, 1917): acreditar que quem é bom numa dimensão é bom em todas as outras. Parafraseando René Descartes, Nada no mundo está mais bem repartido do que a omnisciência: toda a gente está convencida de que a tem de sobra. Mas hierarquias há muitas! Algumas, porventura menos fractais, menos fatais e menos triviais. E, também, menos infalíveis

Quando escrevo um artigo acontece-me sentir bater à porta da minha espelunca mental. Desta vez, é uma canção que quer entrar: Au suivant, de Jacques Brel. Não encontraria outra mais apropriada.

Eu e o meu rapaz mais novo dedicamos este artigo ao meu rapaz mais velho, que está no plat pays de Brel. É um apreciador da teoria dos jogos e dos esquemas de interacção.

Jacques Brel. Au suivant. Olympia, 1964.

Au suivant (Jacques Brel,
Tout nu dans ma serviette qui me servait de pagne
J’avais le rouge au front et le savon à la main
Au suivant, au suivant
J’avais juste vingt ans et nous étions cent vingt
A être le suivant de celui qu’on suivait
Au suivant, au suivant
J’avais juste vingt ans et je me déniaisais
Au bordel ambulant d’une armée en campagne
Au suivant, au suivant
Moi j’aurais bien aimé un peu plus de tendresse
Ou alors un sourire ou bien avoir le temps
Mais au suivant, au suivant
Ce n’fut pas Waterloo mais ce n’fut pas Arcole
Ce fut l’heure où l’on regrette d’avoir manqué l’école
Au suivant, au suivant
Mais je jure que d’entendre cet adjudant d’mes fesses
C’est des coups à vous faire des armées d’impuissants
Au suivant, au suivant
Je jure sur la tête de ma première vérole
Que cette voix depuis je l’entends tout le temps
Au suivant, au suivant
Cette voix qui sentait l’ail et le mauvais alcool
C’est la voix des nations et c’est la voix du sang
Au suivant, au suivant
Et depuis chaque femme à l’heure de succomber
Entre mes bras trop maigres semble me murmurer
“Au suivant, au suivant”
Tous les suivants du monde devraient s’donner la main
Voilà ce que la nuit je crie dans mon délire
Au suivant, au suivant
Et quand je n’délire pas, j’en arrive à me dire
Qu’il est plus humiliant d’être suivi que suivant
Au suivant, au suivant
Un jour je m’ferai cul-de-jatte ou bonne sœur ou pendu
Enfin un d’ces machins où je n’serai jamais plus
Le suivant, le suivant
Compositor: Jacques Brel.

O túnel da memória

O Túnel

O património e a memória estão na moda. Se tivesse um filho, se fosse rapaz chamava-lhe Património, se fosse rapariga, chamava-lhe Memória. Em Portugal, retenho três exemplos: o Arquivo dos Diários, em Lisboa; a Casa da Memória, em Guimarães; e o Espaço Memória e Fronteira, em Melgaço. Embora os arquivos, os documentos e os testemunhos tendam a ser familiares ou pessoais, a memória visada é a memória colectiva (Maurice Halbwachs, Les cadres sociaux de la mémoire, 1925).

Esta exposição, localizada num túnel que foi um abrigo durante a Segunda Grande Guerra em Zagreb, é um caso emblemático. Com uma extensão de 350 metros no interior de um túnel (Gric) com mais de um quilómetro de comprimento, a exposição aborda 133 anos da história da Croácia, recorrendo a uma diversidade de fontes. O resultado é espectacular. Mais de 103 000 pessoas visitaram a exposição; 5 370 deixaram relatos pessoais. Foi a exposição mais visitada na Croácia durante o ano de 2017.

A entidade promotora da exposição foi a companhia de seguros Croatia Osiguranje. As empresas privadas projectam-se, cada vez mais, na esfera política (apoio a causas) e na esfera da cultura (criação de instituições e eventos culturais). À “indústria da cultura” produzida à maneira da indústria acrescenta-se a cultura produzida pela própria indústria. O que não é sem consequências ao nível do protagonismo do Estado.

Marca: Croatia Osiguranje. Título: The Tunnel. Agência:  Bruketa&Zinic&GreyBrigada, Millenium Promocija. Croácia, Novembro 2017.

O burro e a cenoura

“Aquele que faz de burro não deve admirar-se que os outros montem nas suas costas” (Provérbio chinês).

Guillaume de Digulleville (1295-1380), Pèlerinage de vie humaine; Pèlerinage de l'âme.

Guillaume de Digulleville (1295-1380), Pèlerinage de vie humaine; Pèlerinage de l’âme.

Cartaz do Carnaval de Loulé foi proibido de ser publicitado nos écrans das caixas multibanco. O que está em causa é uma caricatura

Cartaz do Carnaval de Loulé de 2014

Desconcerta-me ver as pessoas e as organizações empenhadas em correr atrás de uma cenoura. Onde estão os princípios, a função, a vocação e a missão? Só cenouras! O motivo é a cenoura, a motivação cenoura é. Somos heterodeterminados por artifícios que nos aguçam os dentes e nos hipnotizam a vontade. Pouco me entusiasma ver pessoas focadas em cenouras, ainda menos ver burros montados em cima de burros, homens em cima de homens e burros em cima de homens. Uma hierarquia asnática! É verdade que urge descentralizar, desconcentrar, desintoxicar e desburocratizar, mas não nos esqueçamos de desasneirar, desjericar e desburricar. Somos inteligentes? Somos burros? Acontece-nos ser espertos, daquela esperteza que faz a Terra girar à volta da Lua. Dêmos graças a Deus pelas orelhas que nos calharam em sorte.

Psalter-fragment (The Hague, KB, 76 F Courtesy of the Medieval Illuminated Manuscripts

Psalter-fragment (The Hague, KB, 76 F. C. 1200.

Na Idade Média, organizava-se uma missa em honra do burro (ver Tolos e Burros). Os “fiéis” zurravam, zurravam quanto podiam. O Clemencic Consort reconstituiu uma versão dos respectivos cânticos. Seleccionei a quarta e última parte do disco: Procession. VALE A PENA OUVIR! Este vinil do Clemencic Consort é um dos meus tesourinhos consistentes.

Clémencic Consort. La Fête de L’Âne. IV: Procession. 1979.

A passerelle electrónica

This coke is a franta

Faço tantos anos quanto os dois últimos dígitos do ano de nascimento. Tenho direito a uma birra inconveniente. A publicidade dedicada a categorias sociais é antiga: raças, etnias e povos, corporações, congregações e exércitos, partidos, elites e clubes, movimentos, minorias, deslocados e vítimas. Nos espaços públicos, em campos de concentração, em paradas. Em praticamente tudo que comunica: exposições, campanhas, competições, propaganda, comunicação social, discursos, imagens, publicidade. Nas coisas e nos espíritos. Prolifera a mostra, positiva ou negativa, das diferenças identificáveis e reclamáveis. Somos confrontados com uma agonística do jogo social, uma exibição da diferença: selectiva (brilham estes e não aqueles), polémica (choque de interesses e narrativas) e elíptica (a maioria das pessoas não existe). Mobilizam-se os próprios e os parceiros; desvalorizam-se uns e valorizam-se outros; espeta-se a verdade nos olhos dos indecisos. Esta culinária é o pão nosso da Sociologia. Parte das nossas investigações foca esta passerelle da agonística social, que adquire especial visibilidade no terceiro milénio, com as novas tecnologias, o reforço da emocionalização, a reemergência das causas no “fim das narrativas e da história”, a reflexividade social e o oportunismo dos caçadores e alquimistas dos valores sociais). Peço desculpa à Coca-Cola, com ou sem Fanta! À Airbnb e a tantas outras marcas socialmente responsáveis. Mantenho alguma reserva a este tipo de anúncios. Não aprecio a exibição do ser humano aos retalhos, em pose, no palco ou no ecrã. Dispenso que me pintem e repintem os olhos. A propaganda nazi foi ignóbil; dispenso o inverso.

O anúncio brasileiro This Coke is a Fanta, da Coca-Cola, conquistou um Leão de Ouro em Cannes. Retomo o anúncio dinamarquês All That We Share, da TV 2. Ilustra as virtualidades de desmontar e baralhar as categorias sociais. Este artigo trouxe-me à memória o poema Parasitas (1885), de Guerra Junqueiro.

Pronto! Não consegui evitar uma birra aniversariante. Acredito que as exibições colectivas, estas e outras, desenham o mapa social em que nos relemos e movemos todos dias. Por outro lado, confesso-me céptico a propósito da bondade da “mercadorização” das causas e das categorias sociais.

Marca: Coca-Cola. Título: This Coke is a Fanta. Agência: David the Agency (São Paulo). Direcção: Vero Von (Landia). Brasil, Junho 2018.

Marca: TV2. Título: All That We Share. Dinamarca. Janeiro 2017.

PARASITAS (Guerra Junqueiro)

No meio duma feira, uns poucos de palhaços
Andavam a mostrar em cima dum jumento
Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,
Aborto que lhes dava um grande rendimento.

Os magros histriões, hipócritas, devassos,
Exploravam assim a flor do sentimento,
E o monstro arregalava os grandes olhos baços,
Uns olhos sem calor e sem entendimento.

E toda a gente deu esmola aos tais ciganos;
Deram esmola até mendigos quase nus.
E eu, ao ver este quadro, apóstolos romanos,
Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz.
Que andais pelo universo há mil e tantos anos
Exibindo, explorando o corpo de Jesus.