Arquivo | Política RSS for this section

A sério

UNESCO

L’UNESCO lance une campagne mondiale pour interroger notre perception de la normalité. Le film de 2’20” s’appuie sur une succession de faits marquants sur la situation dans le monde avant et pendant la pandémie de la Covid-19. Ensemble, ces faits remettent en question nos idées préconçues sur ce qui est “normal”, et suggère que nous avons toléré l’inacceptable depuis trop longtemps. Il est temps d’un vrai changement. Et tout commence par l’éducation, la science, la culture et l’information (UNESCO).

Uma pessoa que diz coisas sérias não ri! O sério é sisudo e o riso, tonto. Imagine alguém a comunicar assuntos sérios às gargalhadas! O sério não ri, assim é desde o barro genético. O anúncio Le Prochain Normal, da UNESCO, aborda assuntos graves da humanidade. O que consideramos normal? Perguntas sérias, muito sérias. Até o formato do anúncio é sacrificial. Como rir num mundo tão sério? O riso é um acto de humor nas suas origens e um acto sério nas suas consequências.

Anunciante : UNESCO. Título : Le Prochain Normal. DDB (Paris). França, Junho 2020.

Quotas

Juizo Final. Ucrânia. No Juizo Final também se fazia a separação das almas.

Tomei consciência da importância das quotas aquando da polémica das “quotas leiteiras” na Comunidade Económica Europeia. Quanto leite podia produzir a França? E a Alemanha? Arrumar o mundo por quotas é uma tentação burocrática.
Estão a aplicar-se quotas nos concursos aos cursos de mestrado. Por exemplo, 40% de nacionais e 60% de estrangeiros. Parece inócuo, mas existe uma possibilidade muito possível e algo incómoda. E se dois, três, quatro ou n portugueses forem eliminados com pontuações superiores às dos candidatos estrangeiros? Importa pensar antes de inventar. Estranha interpretação do princípio constitucional da igualdade de oportunidades (“Todos têm direito ao ensino com garantia do direito à igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar”). Para entorses, já basta assim. Apetece ouvir música condizente com o humor virado do avesso. Por exemplo, a banda italiana Rhapsody of Fire, power metal sinfónico, com um dedo de fantasia.
Fernando e Albertino.

Rhapsody of Fire. Emerald Sword. Symphony of Enchanted Lands. 1998. Live – From Chaos to Eternity. Canada.

Homofobia na Rússia

No dia 1 de Julho, ocorrerá um referendo na Rússia, com várias propostas a votação. A mais notória é a possibilidade de o presidente (Vladimir Putin) poder renovar mais dois mandatos. Entre as demais propostas, consta o princípio de um casamento apenas entre um homem e uma mulher. Enquadrado nesta perspectiva, o anúncio russo Adopção, da Agência da Informação Federal, posiciona-se contra a adopção de crianças pelos homossexuais. Para aceder ao anúncio, carregue na imagem ou utilize o seguinte endereço: http://www.culturepub.fr/videos/agence-d-information-federale-adoption-2/.

Agência de Informação Federal. Adopção. Rússia, 2020.

Nuvens azuis. Ludovico Einaudi

Ludovico Einaudi

Franceses, espanhóis, portugueses e italianos, somos latinos. Quase PIG, não fosse a Grécia grega e a França, galo. Estranhamos o distanciamento social. Nada como um abraço, uma mão nas costas, outra no ombro, eventualmente, um encosto. Gosto-me latino. Ou, eventualmente, galego celta.

Países com línguas românicas na Europa

O que tem isto a ver com o Ludovico Einaudi? Nada, conversa fiada. A conversa fiada é primordial na socialização e na comunicação humanas. Erving Goffmann sublinhou esta importância na tese de doutoramento On Cooling the Mark Out, nas ilhas Shetland, defendida em 1952, sob a orientação de Gregory Bateson (Goffman, 1981; Goffman, 1988).

É provável que quem goste de Ezio Bosso, Philip Glass e Yann Tiersen, goste também de Ludovico Einaudi. O Daniel Noversa partilhou, no Facebook, o álbum Seven Days Walking // Day Three, de Ludovico Einaudi. Já publiquei a música Passaggio (Le Onde, 1996; ver https://tendimag.com/2018/05/23/o-espirito-de-erasmo/). Hoje, acrescento Nuvole bianche (2004), Primavera (2006) e Divenire (2006).

Ludovico Einaudi. Nuvole bianche. Una Mattina. 2004.
Ludovico Einaudi. Primavera. Divenire. 2006.
Ludovico Einaudi. Divenire. Divenire. 2006. The Royal Albert Hall Concert, 2010.

Referências Bibliográficas:

GOFFMAN, Erving (1981). Forms of Talk, Philadelphia: University of Pennsylvania Press.

GOFFMAN, Erving (1988). Les moments et leurs hommes, Textes recueillis et présentés par Yves Winkin, Paris: Seuil/Minuit.

Mocidade académica. O amor burocrático

Quino

Com tantos regimentos, regras, normas, modelos e procedimentos, criar resume-se a um jogo de colorir imagens. Um projecto é um projecto, conforme o regulamento. As referências bibliográficas, também. Nada como encurralar o pensamento em 2 000 palavras… Esta é a arte, esta é a bênção. Tudo deliberado, consignado e disponível em documento próprio, para instrução de alunos com experiência académica e percursos profissionais notáveis. Se pretende saber, saiba connosco, saiba como nós! Percorra o caminho batido.

Na escola primária, há mais de cinquenta anos, entoava-se, no início, a seguinte canção:

Vamos cantar com alegria

E começar um novo dia

Para nós o estudo só nos dá prazer

Faremos tudo, tudo para aprender.

Não há muitas opções: ou se ensina o caminho ou se aprende a caminhar (Antonio Machado). É sensato confinar os alunos numa redoma de regras e normas? Para colher réplicas? Para conseguir a quadratura do círculo? Apesar da minha costela anarquista, admito a necessidade de normas e de regras. Incomoda-me o excesso de amor e de zelo burocráticos. Regulamente-se, regulamente-se até ao cinzento final. “Pim!”

Quino

Sensação de viver

Anúncio da Coca-cola. 1950.

“O coração tem razões, que a própria razão desconhece” (Blaise Pascal).

O anúncio português “E a vida sorri”, da Olá (1986), e o anúncio britânico “Food dancing”, da Sainsbury’s (2017), recordam um anúncio português da Coca-cola: “Sensação de viver” (1989). Velocidade, comunicação, parceria, alegria e emoção. Nos dois últimos anúncios, a dança acompanha, envolvente, a música. O que cativa nestes anúncios? O intelecto ou o afecto? O pensamento ou o sentimento? A razão ou a emoção? Seria curial acreditar que quanto mais se pensa mais se sente. Mas não é verdade. Conhecer pela razão e conhecer pelo coração não são as duas faces da mesma moeda.

A comercialização da Coca-cola em Portugal remonta a 1977. Proibida durante o fascismo, assim permanece durante os três primeiros anos da democracia. Pelos vistos, a coca-cola tinha paladar político. Lembro as grades de coca-cola despachadas, clandestinamente, de Espanha para a dispensa. Mas a proibição da coca-cola não abrangia as ex-colónias. Os regressados sentiram a falta.

Marca: Coca-Cola. Título: Sensação de viver. Portugal, 1989.

Our first work for Sainsbury’s celebrates the real power of food – not just a set of ingredients on a plate, or Instagram eye-candy, but something that lies at the heart of living well, bringing us joy and making us feel good. In doing so, it pours meaning back into Sainsbury’s endline “live well for less” (Wieden + Kennedy: http://wklondon.com/work/food-dancing/).

Marca: Sainbury’s. Título: Food Dancing (Yum Yum Yum). Agência: Wieden + Kennedy (London). Direcção: Siri Bunford. Reino Unido, 2017.

Com a verdade me enganas

M. C. Escher, Reptiles, 1943.

A realidade engana. Menos porque nos ilude, e mais porque a encantamos. Tudo significa e tudo significamos.  Os anúncios argentinos Bigote e Mano, da Marcha por la Vida, são um exemplo de interpretação abusiva. Recordam uma história que Edgar Morin inclui no livro Para Sair do Século XX (1982):

Passeava na rua quando assisto a um acidente: um Mercedes desrespeita um sinal vermelho e embate contra um Dois Cavalos. Só chapa. Aproximo-me para testemunhar. O Mercedes desrespeitou o sinal vermelho? O condutor do Mercedes nega e o condutor do Dois Cavalos confirma. Foi ele quem passou no sinal vermelho. Mas não tenho nenhuma dúvida que foi o Mercedes que embateu no Dois Cavalos. Parece que não. O Dois Cavalos está amachucado na frente e o Mercedes no lado. Serei um idiota?

Desenhamos a realidade com os nossos esquemas mentais. Observar é construir a realidade. Por que motivo vi o Mercedes a desrespeitar o sinal vermelho e a bater no Dois Cavalos? Talvez porque para o meu arranjo mental é natural que o forte bata no fraco, predestinado como vítima. Se a realidade resiste, a gente converte-a. Será?

Anunciante: Marcha por la vida. Título: Bigote. Agência: Geometry. Direcção: Javier Altholz. Argentina, Abril 2020.
Anunciante: Marcha por la vida. Título: Mano. Agência: Geometry. Direcção: Javier Altholz. Argentina, Abril 2020.

Abril a quatro mãos

Pintura Graffiti Mural alusiva ao 25 de Abril. Grândola. Ivo Santos. 2016.

Que dizer do 25 de Abril? Marcou, e marca, muitas vidas. Rui Serapicos lembra a Grândola Vila Morena interpretada por Bernardo Sassetti e Mário Laginha, do álbum Abril a Quatro Mãos, com músicas do José Afonso. Em boa hora.

Bernardo Sassetti & Mário Laginha. Grândola Vila Morena. Abril a Quatro Mãos (Grândolas). 2014.

25 de Abril: José Afonso versão piano

“Um vídeo com o pianista José Li Silveirinha a tocar algumas das músicas mais conhecidas de Zeca Afonso foi a forma que a “Comissão Ad Hoc 25 de Abril” em Macau encontrou para assinalar este ano o Dia da Liberdade face à actual conjuntura motivada pelo COVID-19” (https://jtm.com.mo/ultimas/recital-em-macau-mostra-25-de-abril-nao-tem-fronteiras/).

José Li Silveirinha é um jovem luso-macaense que interpreta José Afonso ao piano. Uma adaptação bem-vinda. Trinta minutos de piano em homenagem ao 25 de Abril. Devo ao Fernando Medeiros, um sociólogo amigo, o conhecimento desta iniciativa.

Comissão Ad Hoc 25 de Abril” em Macau. José Li Silveirinha interpreta ao piano canções de José Afonso. Abril 2020.

A regra e a originalidade

René Magritte. Not to be reproduced. 1937

É nos tempos de crise que se toma o pulso às instituições. Um mar de regras inunda as aulas. Espremidas como limões, vertem burocracia por todos os lados. Na linguagem de Max Weber, o professor deixou de ser uma autoridade carismática, como o profeta, e passou a deter um poder de direcção, de pastor, como o árbitro de futebol. O ensino evolui numa arena cercada por um coliseu de normas. Admito que estou a exagerar, mas a hipérbole afirma-se como um excelente artifício de comunicação. Requisitos, regras, plataformas e ferramentas, o que individualiza o ensino?

Entende a intelligentsia orgânica (para cruzar Karl Manheim e Antonio Gramsci) que uma aula ganha em ter um rosto, nem que seja estampado num ecrã. Concordo! Mas ganha em quê? Em aprendizagem? Duvido. Em “hiperritualização” (Erving Goffman)? Talvez. Todos concordamos que a sabedoria mora na testa, sai pela boca e resplandece nos olhos. Um dia, as aulas oscilarão entre o défice de atenção e o excedente de informação. Entre o défice e o excedente, repousa, recatada, a sabedoria. Normalize-se e certifique-se, que a originalidade é um estorvo.

Uma ovelha negra melancólica não resiste à voz “abrasiva” de Tom Waits.

Tom Waits. Cold Cold Ground. Franks Wild Years. 1987.
Tom Waits. Hold On. Mule Variations.1999.