Archive | Dezembro 2014

Saltos altos

Joana Vasconcelos. Cinderela.

Joana Vasconcelos. Cinderela.

Não sei se somos um país de sobressaltos. Mas somos um país de saltos altos. A começar pela Cinderela de Joana Vasconcelos. Os sapatos altos assumem, ao longo da história, diversas funções: rituais; higiénicas (protecção contra a lama e as imundícies das ruas); dramatúrgicas (expressão do estatuto social das personagens); publicitárias (adereço distintivo das prostitutas no Império Romano); de controlo (dificuldade de locomoção a quem se quer por perto); e corporais (compensação da natureza).

Don Rodrigo de Moura Telles. Arcebispo de Braga.

Don Rodrigo de Moura Telles. Arcebispo de Braga.

Nos séculos XVI e XVII, reis, rainhas, nobres e pessoas abastadas calçaram sapatos de saltos altos. Don Rodrigo de Moura Telles (1644-1728), ilustre arcebispos de Braga, é um bom exemplo. De baixa estatura, os sapatos de salto alto, de que existe um exemplar no Tesouro-Museu da Sé de Braga, ajudavam o arcebispo a aceder à mesa das celebrações. Durante séculos, o salto alto foi associado à nobreza. Era alto e altivo. Curiosamente, após a Revolução Francesa, os saltos altos quase desapareceram.

Tesouro-Museu da Sé de Braga. Sapatos Litúrgicos do Arcebispo D. Rodrigo de Moura Teles, séc. XVIII, fotografia de Manuel Correia

Sapatos Litúrgicos do Arcebispo D. Rodrigo de Moura Teles, séc. XVIII.

Enquanto moda, os saltos altos são cíclicos. Como a barba. Não deixam, porém, de se enquadrar na calibragem dos corpos iniciada na Idade Média: alto, direito, liso, fechado, leve e frontal. O salto alto contemporâneo não é altivo. Eleva, endireita, pula e avança. Não me recordo de um momento de moda com saltos tão altos. A princípio, parecia-me que as pessoas andavam com chapéus nos pés. Mas depressa me afeiçoei. Moda que perdura é a de as pessoas andarem sem nada na cabeça.

Para uma breve história do sapato de salto: História do Sapato de Salto.

Tendências do Imaginário referido no El País

Ontem, 29 de Dezembro, o jornal El País publicou a reportagem “Regreso a la morada de Néron”, assinada por Guillermo Altares. A propósito de Francisco de Holanda e das imagens da Domus Aurea, o texto remete, incluindo o link, para o blogue Tendências do Imaginário (artigo Domus Aurea: o sonho enterrado). Por virtude deste pormenor, o blogue Tendências do Imaginário ficou com febre. Ontem, somou 14 411 visualizações; hoje, vai em 17 175, quando a média ronda as 400 visualizações. O maior afluxo provém de Espanha. Mas há sobressaltos por todo o mundo hispânico: Argentina, México, Colômbia, Costa Rica… Trata-se de uma vaga: vem e vai; e o blogue retomará em breve as suas tranquilas 400 visualizações.

Para aceder à reportagem do jornal El País sobre o palácio de Nero, carregar na imagem ou no seguinte endereço http://elpais.com/elpais/2014/12/26/eps/1419609791_496058.html.

El País. Regreso a la morada de Nerón

A pobreza está a mudar

O novo cais

O novo cais

“O rosto da pobreza está a mudar”. Vertiginosamente. Quem tem familiares, amigos, conhecidos, apercebe-se dos contornos e da espessura desta mudança. A pobreza está a mudar. Há quem o diga! Mas convém mostrar, fazer um desenho. Dar corpo à frase. Este anúncio de uma campanha canadiana de recolha de alimentos é um bom começo.

Anunciante: La Grande Guignolée des Médias. Título: The face of poverty is changing. Agência: TBWA. Direcção: Mélanie Charbonneau. Canadá, Dezembro 2014.

A caminho do inferno

01. Taymouth Hours, c. 1325-40.

01. Taymouth Hours, c. 1325-40.

O Taymouth Hours é um livro de horas datado de 1325-40. Da profusão de iluminuras, retenho uma pequena amostra alusiva às coisas do inferno (ver galeria). Dedicados e despachados, os diabos conduzem os condenados (figuras 2 a 4) para a boca do inferno (figura 5). No interior, o ambiente é caloroso (figuras 6 a 8). Cada suplício, uma vez terminado, é recomeçado. A never ending pain!

A obesidade do Pai Natal

Pai Natal

Pai Natal

O Alexandre Basto partilhou um anúncio da Fundação Portuguesa de Cardiologia, Focas, que, como muitos, me escapou. O anúncio adopta a forma de uma reportagem ao estilo da National Geographic. Os barrigudos aparecem como seres vivos que, atendendo ao local e à disposição, se assemelham a focas, senão a elefantes marinhos. “Não praticam actividade física e não têm cuidado com o que comem”. “A nossa missão é salvar os barrigudos”.

Achile Talon

Achille Talon

Obélix

Obélix

A sociedade actual é acometida por sobressaltos mais ou menos apocalípticos: a exposição solar, o tabaco, a poluição urbana, o álcool, a camada de ozono, a Coca-cola, a gripe das aves, os acidentes rodoviários, a toxicodependência, a imigração, o vírus de Ébola, a pedofilia, o terrorismo, a corrupção, a obesidade… Consoante os ventos, ora se foca nuns, ora se foca noutros. Obsessivamente. Há ciclos, com duração e intensidade variáveis. O ciclo do tabaco parece já ter conhecido o auge, o da obesidade está em plena pujança.

Na maioria dos riscos sociais, a mão da ciência e da medicina tem-se revelado decisiva. O que a ciência e a medicina sabem, o Estado pode. Os argumentos da ciência e da medicina sustentam os dispositivos de poder. Não é novidade. Há tempos, não muito distantes, era o emagrecimento que justificava apreensão; agora, é a obesidade, com sólida certificação técnica e científica. A gordura faz mal às veias, ao coração, ao pâncreas… Faz mal a tudo! Morre-se por tudo quanto é corpo. Sem margem para dúvidas! As estatísticas e as probabilidades não enganam, falam por si.

A profilaxia e a terapia, além de médicas, têm uma ancoragem social. A própria cura também é social. A obesidade configura um desvio cujo controlo é sistémico. Tudo e todos, a qualquer momento, podem assumir-se agentes da luta contra a obesidade. O gordo está permanentemente exposto à “salvação”. É uma “espécie em risco. Estamos perante um fenómeno totalitário. Para bem do obeso, não há insignificância que escape.

Homer Simpson

Homer Simpson

Expande-se, entretanto, o mercado do emagrecimento e a estética do fio de azeite: produtos dietéticos, nutricionistas, ginásios, caminhadas… Em todo este arrebatamento, estranho que a obesidade ainda não pague impostos. Os consumidores de tabaco e de álcool contribuem como reis magos. O imposto aos obesos até podia ser progressivo, variar consoante o “perímetro abdominal”. Estranho, também, que o Pai Natal continue, ano após ano, avantajado. Precisamos de um Pai Natal magrinho, para dar o exemplo. Se o Luke Lucky perdeu o cigarro, o Pai Natal também pode perder peso.

Anunciante: Fundação Portuguesa de Cardiologia. Título: Focas. Agência: Partner. Portugal, Maio de 2006.

Ecrãs de sonho

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Afastemos o mal para demandar a antecâmara do paraíso: a publicidade. Os ecrãs, não sei se nos perseguem, se os perseguimos, mas não paramos de os encontrar. Os ecrãs Samsung levitam, à espera da menina dos sonhos, à espera do sonho. Os ecrãs são o lugar por onde passa o sonho, o lugar do sonho. O resto é animação, engenho e arte.

Marca: Samsung. Título: Holiday Dreams. Agência: R/GA. Direcção: Ben Steiger Levine & Martin Allais. USA, Dezembro 2014.

À Virgem de Guadalupe

"Ex-voto". Cidade do México. 1990.

“Ex-voto”. Cidade do México. 1990.

Aproveitei a descompressão natalícia para sobrevoar ex-votos na internet. Deparei com esta devoção à Virgem de Guadalupe por parte de uma mulher que se libertou da prostituição graças à interferência de um homem. Verdadeiro ou falso? Tanto parece um ex-voto como parece um postal ilustrado. Será uma paródia de ex-voto? Procurei informação, por sinal escassa e nem sempre de fonte segura.
– O lugar mencionado no ex-voto, La Merced, é um “bairro” da cidade do México associado à prostituição.
– A assinatura do autor da imagem do ex-voto, “Vilchis”, corresponde ao “pintor del barrio” e “retablero” Alfredo Vilchis, de Minas de Cristo, em Mixcoac, na cidade do México.
– Existem referências à reprodução deste ex-voto, com mais três congéneres, no livro de Joseph Rodriguez (2006), Flesh Life: Sex in Mexico City, New York, Power House Books.
Foi tudo o que encontrei. Permanecem algumas dúvidas. Pouco importa. Se for falso, vale pela imaginação; se for verdadeiro, vale pela mensagem. Enfim, a tratar-se de um ex-voto, o realismo da imagem não surpreende. Estou, no entanto, convencido que se trata de um “retablo” de Alfredo Vilchis, mas duvido que seja um ex-voto de Marta Luna. Folk art traditions…

O Gato Borralheiro

axe-in-yeni-serisi-white-label-merak-uyandiriyorQuem é este homem? Um cavalheiro? Um espião? Um cirurgião? Um artista? Um vencedor? Este homem é o máximo, mas, pasme-se, afinal, é empregado de hotel! Axe é o segredo, a nova varinha mágica.

Georg Simmel (1858-1918).

Georg Simmel (1858-1918).

Georg Simmel escreve, em 1912, que “se pode qualificar [o odor] como sendo o sentido desagregador ou anti-social por excelência”, o que é agravado pela tendência do “refinamento dos sentidos” (Simmel, Georg, 1981,“Essai sur la Sociologie des Sens” (1912) , d, Paris, PUF, p. 237). Convém ressalvar que no tempo de Simmel não havia Axe.

Marca: Axe. Título: Hotel. Agência: BBH New York. Direcção: Ari Weiss. USA, Dezembro 2014.

Riso fumado

The devil of tobacco From William Hornby's The Scourge of Drunkennes, an anti-smoking pamphlet printed by G. Eld for Thomas Baylie, London, 1618

Figura 1. The devil of tobacco From William Hornby’s The Scourge of Drunkennes, an anti-smoking pamphlet printed by G. Eld for Thomas Baylie, London, 1618

Fumar mata! Prejudica a saúde! É um estorvo nas relações humanas e um desperdício de tempo. Gostar de fumar é amar o inimigo. É um fumeiro da inteligência! Antes da censura, o tabaco constituía um segmento apreciável da actividade publicitária. Produziram-se muitos anúncios ao tabaco, alguns brilhantes, como estes dois da Hamlet, com humor expedito e raro sentido do detalhe. Para além do risus paschalis, existe o risus natalis, precedido, aliás, pelas saturnais romanas, que decorriam do dia 17 ao dia 25 de Dezembro. Enfim, como se pode comprovar na figura 1, no tempo de Shakespeare, e do Hamlet, já existiam panfletos anti-tabaco.

Marca: Hamlet Cigars. Título: Teacher. Agência: CDP. Direcção: Steve Eliot. UK, 1966.

Marca: Hamlet Cigars. Título: Snowman. Agência: CDP. UK, 1972.

Cabeças com semáforos

Quino. Mesmidade

Quino. Hombres de bolsillo.

 

Não, não sou o único
Não, sou o único a olhar o céu
Não, não sou o único
Não, sou o único a olhar o céu Pensas que eu sou um caso isolado
Não sou o único a olhar o céu
A ouvir os conselhos dos outros
E sempre a cair nos buracos
A desejar o que não tive
Agarrado ao que não tenho
Não, não sou o único
Não sou o único a olhar o céu E quando as nuvens partirem
O céu azul ficará
E quando as trevas abrirem
Vais ver, o sol brilhará
Vais ver, o sol brilhará
(Xutos e Pontapés)

Tanta gente inteligente com tanto semáforo na cabeça! Não gosto da expressão “estudar para burro”. Mas já me aconteceu mudar de opinião. Até os políticos mudam…

A Ana Barros enviou-me este artigo sobre A doença da “normalidade” na universidade . “Não sou o único”. O que reconforta. Pode aceder ao artigo carregando na imagem ou a partir do seguinte endereço: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2014/07/a-doenca-da-normalidade-na-universidade.html.

Normose