Archive | Dezembro 2014

Sociologia sem palavras 14. O povo.

CARTAZ-DO-FILME-MARIA-PAPOILA (1)Da Beira Alta rumo a Lisboa, seguem no comboio Maria Papoila, de condição humilde, em 3ª classe, e o filho do médico da aldeia, em 1ª classe. Ela vai tentar a sua sorte, ele, prestar serviço militar. O povo enche, alegrete, a 3ª classe; ao filho do médico, solitário em 1ª classe, tudo o incomoda. O filme Maria Papoila, de Leitão de Barros, estreou em 1938, ano do concurso da aldeia mais portuguesa de Portugal. Este excerto mostra como, nos anos 1930, se representava, em Portugal, o povo, as desigualdades sociais, a migração para a capital e a actividade hoteleira em Lisboa.

Maria Papoila. Leitão de Barros. 1938. Excertos.

250 000 visualizações

O blogue Tendências do Imaginário acaba de ultrapassar 250 000 visualizações. Pouco mais do que a população residente no concelho do Porto. Registe-se, mesmo assim, este número redondo.

Distribuição visualizações por país

Nos últimos três meses, o Brasil destaca-se como o país com mais consultas  no blogue: uma em cada três  visualizações provém do Brasil (30%). Segue-se Portugal com quase um quarto (23%). Estes dois países congregam mais de metade do total de visualizações (53%). Repare-se que a Itália, a França e os USA, juntos, aproximam-se do valor obtido por Portugal (20% e 23%, respectivamente).

Visualizações por país

Ano após ano, o número de visualizações tem vindo a aumentar regularmente. Este crescimento é, em parte, uma ilusão. Com o tempo, também cresce o número de artigos disponibilizados pelo blogue. Vamos em 1 391. É difícil discriminar o que decorre do aumento da oferta e o que decorre do aumento da procura.

Domus Aurea: o sonho enterrado, com 4 415 visualizações, é o artigo mais visitado.

Visualizações por ano

O blogue Tendências do Imaginário é um vício. Um vício que convida a pensar, pesquisar, escrever e partilhar. Livre, como poucos espaços. Também é pecado. Gosto do blogue! Incorro, portanto, em orgulho. Na lista dos sete pecados capitais, o Papa Gregório I (590-604) e São Tomás de Aquino (1225-1274) colocam o “orgulho” em primeiro lugar. Ora pro nobis!

O Natal de São José

Livre d'heures de Béatrice de Rieux - La Nativité. 1390.

Livre d’heures de Béatrice de Rieux – La Nativité. 1390.

É véspera de Natal. Apetece-me celebrar São José. Em muitas iluminuras medievais aparece afastado de Maria e do Menino, à margem, encolhido, fatigado, quase alheado. Mais espectador do que actor, ao contrário de Maria e dos reis magos, São José não tem direito a coroa nem, por vezes, a auréola. Desde o episódio da vara florida até ao nascimento de Jesus, tamanha passividade comove-me.

Adoration of the Magi, from a Medieval manuscript in the Bodleian Library, Oxford, 15th c.

Adoration of the Magi, from a Medieval manuscript in the Bodleian Library, Oxford, 15th c.

Para além destas duas iluminuras, dos séculos XIV e XV, acrescento um anúncio português, História do Natal Digital, produzido em Dezembro de 2010 pela agência Excentric, de Lisboa.

Votos de um feliz Natal e de um ano novo atento aos vossos méritos e desejos.

Excitação: a sopa das delícias

A gula e a luxúria, o banquete e o sexo, costumam andar de braço dado. Abundam os textos, as pinturas e os filmes onde se cruzam, como nesta gravura do século XV. Uma tentação a que a publicidade não resiste. No Japão, país de delícias requintadas, uma sopa gera um prazer irresistível consubstanciado num coro orgiástico (Marca: Miojo Ippei Chan. Título: We Can’t Stop. Agência: Hakuhodo. Japão, 2000). Para visualizar o anúncio, carregar na imagem ou no seguinte endereço: http://www.culturepub.fr/videos/myojo-ippei-chan-soupe-de-nouilles-we-can-t-stop/.

Mestre E. S. Festa no Jardim do Amor. C. 1465.

Mestre E. S. Festa no Jardim do Amor. C. 1465.

O telemóvel mágico. Novo conto de Natal

As separações são dolorosas. Deixam marcas que não se apagam. O que vale é o telemóvel, a fita-cola mágica das relações interpessoais.

via O telemóvel mágico. Novo conto de Natal.

O telemóvel mágico. Novo conto de Natal

Lucien Lévy-Bruhl (1857-1939)

Lucien Lévy-Bruhl (1857-1939)

Em La Mentalité Primitive (1922), obra polémica de Lucien Lévy-Bruhl, colaborador de Émile Durkheim, a mentalidade primitiva é definida como vincadamente pré-lógica. No pensamento pré-lógico não prevalece o princípio da não contradição: “uma pessoa pode ser simultaneamente si mesma e uma outra, estar aqui e além, ser ao mesmo tempo o antecedente e o consequente, e o determinismo dos fenómenos da natureza é substituído pela participação mística ou mágica”  (Mucchielli, Roger & Mucchielli-Bourcier, Arlette, 1969, Lexique des sciences sociales, Paris, Éditions sociales françaises). As noções de mentalidade primitiva e de pensamento pré-lógico foram severamente criticadas. O próprio Lucien Lévy-Bruhl assumiu, passadas algumas décadas, uma revisão: “Corrija-se expressamente o que acreditava exato em 1910: não há uma mentalidade primitiva que se distingue da outra por duas características que lhe são próprias (mística e pré-lógica). Há uma mentalidade mística mais acentuada e mais facilmente observável nos “primitivos” do que nas nossas sociedades, mas presente em todo o espírito humano” (Lévy-Bruhl, Lucien, 1949, Carnets, Paris, Presses Universitaires de France, 1949).

Lucien Levy-BruhlRegisto a correção, mas resisto a acreditar que o homem contemporâneo seja somenos místico ou mágico ou abrace com força o princípio de não contradição. Convencem-me mais Vilfredo Pareto e alguns teóricos da pós-modernidade, a começar por Michel Maffesoli e pelo meu colega Jean-Martin Rabot, que tanto insistem na ideia de um “reencantamento do mundo”. A nossa relação ao mundo da vida é mais mística e mais mágica do que nos apressamos a admitir. Até um objeto técnico como o telemóvel se dá ares de objeto mágico, principalmente nesta quadra de fé em Deus e de fé nos homens. Atente-se neste anúncio da Claro, uma empresa operadora de telefonia móbil da América Latina.

As separações são dolorosas. Deixam marcas que não se apagam. O que vale é o telemóvel, a fita-cola mágica das relações interpessoais.

Marca: Claro. Título: Qué le dirías? Agência: Ogilvy & Mather Costa Rica. Direcção: Jesus Revuelta. Costa Rica, Dezembro 2014.

Contentor

Contentor.

Um contentor… Um contentor… Um contentor… O olhar do anúncio concentra-se no contentor. Importa não desviar o olhar da barbárie.

Contentor

Reporters sans frontièresO passado foi lá atrás
E nasce de novo o dia
Nesta nave de Noé
Um pouco de fé

(Xutos e Pontapés. Contentores)

Um contentor… Um contentor… Um contentor… O olhar do anúncio concentra-se no contentor. Importa não desviar o olhar da barbárie.

Anunciante: Reporters sans frontières. Título: Ceci n’est pas un container, c’est une prison. Agência: BETC. Direcção: Benjamin Darras, Jonhy Alves. França, Dezembro 2014.

 

O espelho ordinário

B Cosmic

Há momentos retorcidos. Normalmente, escrevo para ser lido, mas, desta vez, escrevo para ser decifrado.

Existe um tipo de grotesco que remete para a disformidade conforme. Desconcerta, mas acaba por se deitar, atravessada, no leito de Procusto da Razão. Estranha-se, primeiro, e entranha-se, depois. Como diria Goya, o sonho, por monstruoso que seja, faz parte do sono da razão. Atente-se, por exemplo, na obra de Salvador Dali.

Com a devida vénia ao movimento punk, existe uma outra forma de grotesco que releva da conformidade disforme. O que é estranho já não é o sonho mas a realidade. Este grotesco bebe no pântano da vida quotidiana. É a experiência que se torna estranha (Sigmund Freud; Wolfgang Kaiser). Ocorre um estranhamento do familiar, incluindo o íntimo. O grotesco opera menos por criação e mais por deslocamento. Da intimidade para o público. É uma monstração. Este grotesco não sonha, desperta, com os olhos esbugalhados, para a experiência comum. Partilha, obscenamente, o que não é partilhável, mas que todos têm. O delírio do extraordinário é substituído pelo espanto face ao banal, pelo espetáculo insólito e exacerbado do mais que vivido e mais que conhecido.

Este anúncio justifica a seguinte pergunta: como é que a grosseria pode promover a beleza? Enquanto fico a pensar, passo a palavra ao Victor Hugo:

“Somente diremos aqui que, como objectivo junto do sublime, como meio de contraste, o grotesco é, segundo a nossa opinião, a mais rica fonte que a natureza pode abrir à arte (…) O sublime sobre o sublime dificilmente produz um contraste, e tem-se necessidade de descansar de tudo, até do belo. Parece, ao contrário, que o grotesco é um tempo de parada, um termo de comparação, um ponto de partida, de onde nos elevamos para o belo com uma percepção mais fresca e mais excitada” (Hugo, Victor, 1827, Do grotesco e do sublime, Prefácio de Cromwell).

E pronto!

Marca: B Cosmic. Título: Be pretty. Agência: JWT Tunis. Direcção: Fekih Anwar / EZA. Tunísia, Dezembro 2014.

Os Filmes do Homem e as fotografias de Gérald Bloncourt

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Mencionei num artigo recente (https://tendimag.com/2014/12/18/factor-de-impacto/) a iniciativa Filmes do Homem – Festival de Documentário de Melgaço, dedicada, este ano, à emigração (http://filmesdohomem.pt/), e a exposição Por Uma Vida Melhor, na Casa de Cultura de Melgaço, com 106 fotografias de Gerald Bloncourt (http://www.bloncourt.net/). Ocorreram ambas em Melgaço no mês de Agosto de 2014. Foram, entretanto, disponibilizadas fotografias de ambos os eventos (no Castelo, no Museu do Cinema, na Casa da Cultura de Melgaço, no Espaço Memória e Fronteira e no Auditório da Porta de Lamas de Mouro). A imagem que segue merece um apontamento. Reúne Gérald Bloncourt e Conceição Tina, o fotógrafo e a “menina” fotografada em 1966, no Bairro de St Denis, em Paris (https://tendimag.com/2011/09/07/tina-a-menina-do-bairro-de-lata-de-paris/). Há momentos assim!

Para aceder às fotografias, carregar na imagem.

Gérald Bloncourt e Conceição Tina, a menina da imagem. Melgaço, Agosto 2014.

Gérald Bloncourt e Conceição Tina, a menina da imagem. Melgaço, Agosto 2014.