O telemóvel mágico. Novo conto de Natal

Lucien Lévy-Bruhl (1857-1939)

Lucien Lévy-Bruhl (1857-1939)

Em La Mentalité Primitive (1922), obra polémica de Lucien Lévy-Bruhl, colaborador de Émile Durkheim, a mentalidade primitiva é definida como vincadamente pré-lógica. No pensamento pré-lógico não prevalece o princípio da não contradição: “uma pessoa pode ser simultaneamente si mesma e uma outra, estar aqui e além, ser ao mesmo tempo o antecedente e o consequente, e o determinismo dos fenómenos da natureza é substituído pela participação mística ou mágica”  (Mucchielli, Roger & Mucchielli-Bourcier, Arlette, 1969, Lexique des sciences sociales, Paris, Éditions sociales françaises). As noções de mentalidade primitiva e de pensamento pré-lógico foram severamente criticadas. O próprio Lucien Lévy-Bruhl assumiu, passadas algumas décadas, uma revisão: “Corrija-se expressamente o que acreditava exato em 1910: não há uma mentalidade primitiva que se distingue da outra por duas características que lhe são próprias (mística e pré-lógica). Há uma mentalidade mística mais acentuada e mais facilmente observável nos “primitivos” do que nas nossas sociedades, mas presente em todo o espírito humano” (Lévy-Bruhl, Lucien, 1949, Carnets, Paris, Presses Universitaires de France, 1949).

Lucien Levy-BruhlRegisto a correção, mas resisto a acreditar que o homem contemporâneo seja somenos místico ou mágico ou abrace com força o princípio de não contradição. Convencem-me mais Vilfredo Pareto e alguns teóricos da pós-modernidade, a começar por Michel Maffesoli e pelo meu colega Jean-Martin Rabot, que tanto insistem na ideia de um “reencantamento do mundo”. A nossa relação ao mundo da vida é mais mística e mais mágica do que nos apressamos a admitir. Até um objeto técnico como o telemóvel se dá ares de objeto mágico, principalmente nesta quadra de fé em Deus e de fé nos homens. Atente-se neste anúncio da Claro, uma empresa operadora de telefonia móbil da América Latina.

As separações são dolorosas. Deixam marcas que não se apagam. O que vale é o telemóvel, a fita-cola mágica das relações interpessoais.

Marca: Claro. Título: Qué le dirías? Agência: Ogilvy & Mather Costa Rica. Direcção: Jesus Revuelta. Costa Rica, Dezembro 2014.

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Sociólogo.

3 responses to “O telemóvel mágico. Novo conto de Natal”

  1. Beatriz Martins says :

    Do mal da tecnologia, como diz, valha-nos o tmvl, não como solução, mas para remediar!

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