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Multidão Solitária e Morte Social

Misha Gordin – The New Crowd. Fotografia seguinte: Crowd and Shadows of the Dream.

Nos artigos que seguem, nem a morte ri, nem a velhice pressagia. A massa e a indiferença conduzem a um abismo sem fundo. Lúgubres e insustentáveis, engolem sem regurgitar. Relevo as fotografias de Misha Gordin no vídeo musical de La Solitudine, do Leo Ferré, colocado por TiresiaXX, em setembro de 2013.

A multidão solitária, 01.09.2015
Morte social, 01.09.2015
Teleassistência, 01.09.2012

Uma borboleta no nariz

Butterfly on irl’s nose. Bear Mountain Butterfly Sanctuary (https://bearmountainbutterflies.com/about/)

No homem, é a borboleta que se transforma em verme (Henry de Montherlant)

Solidão em francês

Salvador Dali – Jeune fille à la fenêtre, 1925

Um (v)eu entre vazios

Antonio Corradini. Busto de Mulher Velada (Puritas). 1717-1725. Museo del Settecento Veneziano, Ca’ Rezzonico, Veneza

Nous ne croyons plus que la vérité demeure vérité si on lui enlève son voile ; nous avons assez vécu pour écrire cela [Já não acreditamos que a verdade permaneça verdade se lhe retiramos o seu véu; temos vivido o suficiente para escrever isso] (Friedrich Nietzsche, Le Gai Savoir, 1882)

Com 91 anos, Charles Aznavour canta “Hier Encore” em Yerevan, capital do seu país natal, a Arménia. Nunca é tarde para demandar o ninho, com ou sem penas.

Charles Aznavour – Hier Encore. Hier Encore, 1964. Ao vivo em Yerevan, em 11.11.2025

Abstinência social. Contos de solidão e mal viver

Vincent Van Gogh. Sorrowing Old Man (At Eternity’s Gate). Detalhe. 1890

Das 417 visualizações que o Tendências teve ontem, 15 de novembro, 7 incidiram sobre o artigo “Contos de solidão e mal viver”. O título despertou-me a curiosidade e fui espreitar. Não engana: o assunto é mesmo a abstinência social, o isolamento e a fata de convívio, principalmente dos mais velhos. Na altura, sentia-me só. Aliás, ainda me sinto, embora menos. Instalada a solidão, a morte social, resulta difícil livrar-se dela. Entre nós e os outros ergue-se como que um véu deveras complicado de rasgar. Recoloco o artigo.

Podem repetir os sábios que não existem velhos, que velhos são os trapos. Mas o envelhecimento persiste. Até os trapos envelhecem. Sinto-me a envelhecer: as pernas pesam, os olhos turvam-se e a memória esquece-se. A rede de relações encolhe, como um polvo na panela, rumo à solidão. E nós insistimos que não há velhos, que velhos são os trapos. Recorremos à esconjuração retórica, como se o envelhecimento fosse uma figura de estilo ou um descuido da perfeição. Como se não rezássemos todos no templo do abraço perdido…

Quem me mergulhou neste estado de desentendimento lamentável foi o Nick Cave. Dos três anúncios que seguem, o último é o mais confrangedor: os netos “visitam” o avô mas para assistir a uma emissão de futebol facultada aos idosos por um canal televisão.

Anunciante: Re-Engage. Título: Stella. Direcção: Izzy Burton. Reino Unido, Dezembro 2019
Anunciante: Silver Line. Título: Visiting Gramps. Agência: M&C Saatchi. Direcção: Chris Thomas. Reino Unido, Abril 2015
Marca: Direct TV. Título: En casa del abuelo. Equador, Novembro 2016
Nick Cave & The Bad Seeds – Into my arms. The Boatman’s Call. 1997. Live in Copenhagen.

Frustrações e alívios

O triunfo da Internet comporta alguma desilusão e inquietação. Se o anúncio El Camino , da Fundación Contradicción chilena, alerta para a propagação dos jogos online e consequente ludomania, o anúncio “Social Off Socials”, da Heineken, prime uma tecla demasiado batida: os riscos de isolamento e solidão associados ao (sobre)envolvimento nas redes sociais, aproveitando para realçar a importância dos redutos de socialização presencial, tais como os bares.

A Internet não tem só inconvenientes. Graças a ela, saltamos, num ápice, do Chile para a Índia, e da Índia para a Itália. Mas sem bilhete da sorte para uma viagem afortunada (Lucky Yatra). Quem saltita e se dispersa multiplica e diversifica pontes e fontes.

Marca: Heineken. Título: Social Off Socials. Agência: LePub Milan. Direção: Bradley & Pablo. Itália, abril 2025

Solidão abençoada

“Os pobres têm gelo no inverno e os ricos no verão” (Anónimo)

O Natal quer-se solidário, não solitário. Caso necessário, imagina-se companhia, e a solidão arrisca tornar-se abençoada.
Gosto do Miguel Torga, em particular dos contos. Manifesta-se sempre grato (re)partilhar este “Natal”; (re)lê-lo, quase um milagre! A neve transmontana pode aquecer os corações.

Imagem: Jean-Pierre Philibert. Le vagabond efficace. 2020

Fetal / Fatal

Uma coisa é uma estação ferroviária na qual passado e futuro são comboios que deslizam um contra o outro, provocando o movimento relativo que gosto de chamar agora. Esse agora é muito diferente do agora pontual de um relógio. Os relógios e a metafísica alimentam a ilusão de que o agora é uma espécie de ponto ou átomo, pré-embalado, predefinido. Mas, num certo sentido, não há presente, nem presença, exceto esse agora cintilante causado pelo deslizamento do futuro sobre o passado, sem se tocar (Timothy Morton, “From Things Flows What We Call Time,” in Olafur Eliasson et al., eds., Spatial Experiments: Models for Space Defined by Movement, Thames and Hudson, 2015, 349-351. M.T.)

Onde o ninho, o abrigo, o jazigo? O início, o presente, o fim? A forja, o anel, a (j)unção?

Palavras, palavras, só palavras.

Mais gemido do que sentido.

Desencontro. Uma dança a solo.

Francis Bacon, Portrait of Isabel Rawsthorne Standing in a Street in Soho, 1967. Photo by Prudence Cuming Associates Ltd

Ólafur Arnalds – This Place Was A Shelter. Living Room Songs. 2011
Billie Eilish, Khalid – lovely. 13 Reasons Why (Season 2). 2018
Dança: Kayla Johnson – Not My Responsibility – Senior Solo. Música: Billie Eilish, álbum Happier Than Ever. 2021

Desenhar vidas / Animar Edward Hopper

Gragnano, Villa rustica in Località Carmiano, Villa A. Room 9, in proprietà de Luca, Pompeii, 1st century BC

A memória não descansa. Tudo me lembra alguma coisa.

Uma amiga de Melgaço partilhou este belo vídeo, com música de fundo de Vangelis: La Petite Fille de la Mer. O Tendências do Imaginário já contempla o vídeo oficial desta música (https://tendimag.com/2022/06/30/top-of-the-pops-com-rugas-5-michel-colombier-vangelis-e-francis-lai/). Neste caso, “Maria” (2015) limitou-se a retomar a curta-metragem LILA (2014) de Carlos Lascano mantendo o vídeo e substituindo apenas a música. Esta “remistura” não desmerece os originais. Coloco os dois vídeos: a adaptação de “Maria” e o original de Carlos Lascano.

A curta-metragem LILA lembra-me [adoro co(r)tejar realidades distintas] os quadros de Edward Hopper: seres humanos entregues a si mesmos, isolados em ambientes amplos, delineados e despojados com uma luminosidade estranha. Só por magia ou milagre as personagens parecem suscetíveis de resgate, de ganhar vida. Algo semelhante carateriza as situações iniciais no vídeo do realizador e escritor argentino Carlos Lascano, animadas pelos desenhos, por vezes em stop-motion, esboçados por uma jovem, qual anjo ou cupido travesso, (re)anima, incutindo vida e amor às pessoas e seus contextos. Como que restaura, transfigura e subverte o universo melancólico, desolado e solitário de Hopper.

Vangelis. La Petit Fille de la Mer. Apocalypse des Animaux. 1973. Gravado para a banda sonora de uma série de documentários sobre o reino animal dirigida por Frédéric Rossif e apresentada na televisão francesa em 1970. Versão do vídeo colocada por “Maria”, em 19/06/2015
LILA. Curta-metragem de Carlos Lascano, com música de Sandy Lavallart. Argentina, 2014

Galeria com quadros de Edward Hopper

E as crianças?

Save the Children

As realidades abordadas nestes três anúncios da Save the Children não são inauditas. De vez em quando, os meios de comunicação social fazem-lhe alusão. Save the Children Fund é uma organização internacional não governamental de defesa dos direitos da criança, ativa desde 1919, com sede em Londres.

Anunciante: Save the Children. Título: Save the Survivors. Agência: POL. 2022.

Anunciante: Save the Children. Título: Save the Children. Agência: POL. Direção: Niels Windfeldt. 2022.

Anunciante: Save the Children. Título: Survivors. Agência: Landia. Direção: Francisco Paparella. 2019.