Um (v)eu entre vazios

Nous ne croyons plus que la vérité demeure vérité si on lui enlève son voile ; nous avons assez vécu pour écrire cela [Já não acreditamos que a verdade permaneça verdade se lhe retiramos o seu véu; temos vivido o suficiente para escrever isso] (Friedrich Nietzsche, Le Gai Savoir, 1882)
Com 91 anos, Charles Aznavour canta “Hier Encore” em Yerevan, capital do seu país natal, a Arménia. Nunca é tarde para demandar o ninho, com ou sem penas.
Abstinência social. Contos de solidão e mal viver

Das 417 visualizações que o Tendências teve ontem, 15 de novembro, 7 incidiram sobre o artigo “Contos de solidão e mal viver”. O título despertou-me a curiosidade e fui espreitar. Não engana: o assunto é mesmo a abstinência social, o isolamento e a fata de convívio, principalmente dos mais velhos. Na altura, sentia-me só. Aliás, ainda me sinto, embora menos. Instalada a solidão, a morte social, resulta difícil livrar-se dela. Entre nós e os outros ergue-se como que um véu deveras complicado de rasgar. Recoloco o artigo.
Podem repetir os sábios que não existem velhos, que velhos são os trapos. Mas o envelhecimento persiste. Até os trapos envelhecem. Sinto-me a envelhecer: as pernas pesam, os olhos turvam-se e a memória esquece-se. A rede de relações encolhe, como um polvo na panela, rumo à solidão. E nós insistimos que não há velhos, que velhos são os trapos. Recorremos à esconjuração retórica, como se o envelhecimento fosse uma figura de estilo ou um descuido da perfeição. Como se não rezássemos todos no templo do abraço perdido…
Quem me mergulhou neste estado de desentendimento lamentável foi o Nick Cave. Dos três anúncios que seguem, o último é o mais confrangedor: os netos “visitam” o avô mas para assistir a uma emissão de futebol facultada aos idosos por um canal televisão.
Solidão abençoada
“Os pobres têm gelo no inverno e os ricos no verão” (Anónimo)

O Natal quer-se solidário, não solitário. Caso necessário, imagina-se companhia, e a solidão arrisca tornar-se abençoada.
Gosto do Miguel Torga, em particular dos contos. Manifesta-se sempre grato (re)partilhar este “Natal”; (re)lê-lo, quase um milagre! A neve transmontana pode aquecer os corações.
Imagem: Jean-Pierre Philibert. Le vagabond efficace. 2020
Fetal / Fatal
Uma coisa é uma estação ferroviária na qual passado e futuro são comboios que deslizam um contra o outro, provocando o movimento relativo que gosto de chamar agora. Esse agora é muito diferente do agora pontual de um relógio. Os relógios e a metafísica alimentam a ilusão de que o agora é uma espécie de ponto ou átomo, pré-embalado, predefinido. Mas, num certo sentido, não há presente, nem presença, exceto esse agora cintilante causado pelo deslizamento do futuro sobre o passado, sem se tocar (Timothy Morton, “From Things Flows What We Call Time,” in Olafur Eliasson et al., eds., Spatial Experiments: Models for Space Defined by Movement, Thames and Hudson, 2015, 349-351. M.T.)

Onde o ninho, o abrigo, o jazigo? O início, o presente, o fim? A forja, o anel, a (j)unção?
Palavras, palavras, só palavras.
Mais gemido do que sentido.
Desencontro. Uma dança a solo.
Francis Bacon, Portrait of Isabel Rawsthorne Standing in a Street in Soho, 1967. Photo by Prudence Cuming Associates Ltd
Desenhar vidas / Animar Edward Hopper

A memória não descansa. Tudo me lembra alguma coisa.
Uma amiga de Melgaço partilhou este belo vídeo, com música de fundo de Vangelis: La Petite Fille de la Mer. O Tendências do Imaginário já contempla o vídeo oficial desta música (https://tendimag.com/2022/06/30/top-of-the-pops-com-rugas-5-michel-colombier-vangelis-e-francis-lai/). Neste caso, “Maria” (2015) limitou-se a retomar a curta-metragem LILA (2014) de Carlos Lascano mantendo o vídeo e substituindo apenas a música. Esta “remistura” não desmerece os originais. Coloco os dois vídeos: a adaptação de “Maria” e o original de Carlos Lascano.
A curta-metragem LILA lembra-me [adoro co(r)tejar realidades distintas] os quadros de Edward Hopper: seres humanos entregues a si mesmos, isolados em ambientes amplos, delineados e despojados com uma luminosidade estranha. Só por magia ou milagre as personagens parecem suscetíveis de resgate, de ganhar vida. Algo semelhante carateriza as situações iniciais no vídeo do realizador e escritor argentino Carlos Lascano, animadas pelos desenhos, por vezes em stop-motion, esboçados por uma jovem, qual anjo ou cupido travesso, (re)anima, incutindo vida e amor às pessoas e seus contextos. Como que restaura, transfigura e subverte o universo melancólico, desolado e solitário de Hopper.
Galeria com quadros de Edward Hopper












E as crianças?

As realidades abordadas nestes três anúncios da Save the Children não são inauditas. De vez em quando, os meios de comunicação social fazem-lhe alusão. Save the Children Fund é uma organização internacional não governamental de defesa dos direitos da criança, ativa desde 1919, com sede em Londres.
Anunciante: Save the Children. Título: Save the Survivors. Agência: POL. 2022.
Anunciante: Save the Children. Título: Save the Children. Agência: POL. Direção: Niels Windfeldt. 2022.
Melancolia e inconformismo

Existem cantores que são mais do que intérpretes. São artistas, compositores, poetas e, em particular, personalidades marcantes que dão voz e alma a uma maneira de estar no mundo. Alguns acrescentam, ainda, a cereja da rebeldia e da controvérsia: Bob Dylan, Jim Morrison, Jacques Brel, Georges Brassens, Victor Jara, Zeca Afonso… O “anarquista” Léo Ferré é um caso único. É estereofónico: num canal, solidão, melancolia, memória e desencanto; simultaneamente, no outro, inconformismo, garra, potência e renovação. Sintonizados. Um bálsamo. Uma dose certa para os momentos certos.
Engana-se quem pense que posts como este são meros monólogos digitais, pingos artificiais num ecrã para um público imaterial. Circunstanciais e dialógicos, substantivos e performativos, reação e interlocução, interpelam “outros significativos”. “apostrofados”, em condição de os decifrar e, porventura, sentir. São parte e partilha de vida. Um combustível do blogue.
O Tendências do Imaginário já contempla as canções Avec le Temps, Solitude e C’est Extra, de Léo Ferré. Acrescento La Mélancolie, La Mémoire et la Mer e Requiem.
Quem não se encosta não pesa

A ninguém
Após ano e meio de confinamento rigoroso, agora que começo a ter forças para sair de casa (já fui a Moledo, a Melgaço, ao museu D. Diogo de Sousa, a uma reunião do Fórum Cidadania: Pela Erradicação da Pobreza e ao Mercadona), considero chegado o momento oportuno para balanço, para reequacionar a minha própria inscrição no mundo e partilhar testemunho.
Durante este longo período de isolamento e incapacidade, quase não tive visitas! Foi um aperto de solidão. A esmagadora maioria dos familiares, amigos e colegas entendeu por bem não dar esse passo. Contam-se pelos dedos das mãos as exceções, a maior parte, ironicamente, amizades da minha mulher. Ressalvo o Miguel Bandeira que me visitou mais do que uma vez. Significará este facto que passei a ter familiares de não trazer por casa, falsos amigos e colegas de pacotilha?
Não creio que esta “distância social”, esta travessia do deserto, seja imputável a um qualquer menosprezo ou apagão. Não desapareci do mapa mental dos familiares, amigos e colegas. De qualquer modo, a minha obsessiva participação nas redes sociais não o terá permitido. Continuei a bater à porta das pessoas. Este alheamento justifica-se, sobretudo, devido a dois fatores.
Não desapareci do mapa mental das pessoas. Desapareci, isso sim, da sua agenda, um risco das ausências de longa duração. Uma crise mais ou menos aguda, mas breve, por exemplo uma cirurgia, demarca um momento de visita, um clímax ou punctum no tempo. Neste caso, a afluência até pode revelar-se incomodativa. Já o afastamento prolongado, mesmo com sofrimento, tende a arrastar-se num calendário pantanoso. Não existe urgência. Sem agenda, o adiamento propicia-se. Sobra quem confesse, sinceramente, ao telemóvel, andar para me visitar há mais de um ano. Acomoda-se, eventualmente, um pequeno “peso na consciência”, um grilo falante afónico, que, quanto mais se prolonga, paradoxalmente, mais se normaliza e menos estimula e apressa. Envolvido nesta dinâmica, o familiar mais próximo, o amigo mais íntimo e o colega de projetos nunca chega ao porto. Quero, convém-me, apostar com convicção nesta leitura.
Mas admito ser o principal responsável por este isolamento. Não sou um misantropo, mas detesto encostar-me às pessoas. Sou bastante alérgico a dependências. Tanto no trabalho como no lazer. Peco, confesso, por algum orgulho, orgulho que comporta vários custos, incluindo uma dose de desprendimento e solidão. Quem não se encosta, não pesa! Sem peso, diminuem e aligeiram-se as rotinas de interação e os rituais de lealdade.
Sinto-me abençoado: já posso sair de casa, ir ao encontro de familiares, amigos e colegas. No dia 6 de abril, regresso, por exemplo, à Universidade do Minho para a eleição dos órgãos do Centro de Estudos em Comunicação e Sociedade. Vou certamente re(a)ver amigos e colegas. Ressurgir, recomeçar um “novo normal”. Hoje é o dia 1 de abril. Este texto, reflexivo, cru e duro, parece uma mentira, um desvario insano que, não obstante, assino com um revigorado sentimento do mundo, da vida e da humanidade.
La esperanza caminando despacito

Una soledad que no acaba
…
Uno sale de uno
– un día –
y se encuentra
Y sín saludarse se reconoce.
Entonces se ve:
– el alma encogida,
– arrugas en la sinceridad,
– un dolor por ahí,
acurrucado
(como un niño poeta frente a la muerte),
y la vida,
caminando despacito,
despacito,
encorvada…
(René Bascopé Aspiazu. Las Cuatro Estaciones. Ed. La Mariposa Mundial. La Paz, Bolívia. 2007).
Uma solidão que não acaba
…
Um sai de si próprio
– um dia –
e encontra-se
E sem saudar-se reconhece-se
Então vê-se:
– a alma encolhida
– rugas na sinceridade
– uma dor ao redor,
de cócoras
(como uma criança poeta face à morte),
e a vida,
caminhando devagarinho,
devagarinho,
encurvada…
(René Bascopé Aspiazu. Las Cuatro Estaciones. Ed. La Mariposa Mundial. La Paz, Bolívia. 2007).
