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Filosofias do Grilo Sinistro

O Pinóquio tem o Grilo Falante. Eu tenho o Grilo Sinistro. A cada um o que merece. O Grilo Falante é um companheiro sensato e divertido; o Grilo Sinistro é mórbido e cínico. Só diz disparates. Bate as asas, e filosofa:

– Há momentos tão fatais como a morte. Por exemplo, quando sentimos que estamos a mais.

O Grilo Sinistro é irritante. Perverte a realidade. Mas não a inventa. O sentimento de estar a mais merecia estudo apurado. Pede o Grilo Sinistro para recolocar dois anúncios que ilustram a sua tese: no primeiro, Come Home, da Edeka, um idoso solitário simula a morte para ter alguma vida, com a visita dos filhos; no segundo, Dream Rangers, do TC Bank, um grupo de idosos resgata o passado para ressuscitar o presente. Dois anúncios de estimação.

Marca: Edeka. Título: Come Home. Agência: Jung von Matt (Hamburg). Direcção: Alex Feil. Alemanha, Novembro 2015.
Marca: TC Bank. Título: Dream Rangers. Agência: Ogilvy Taiwan. Direcção: Thanonchai. Taiwan, Março 2011.

A era do vazio

Marie Curie.

O mundo de todos os dias esvaziou-se. Mas há formas de abraçar vidas. Por exemplo, cuidar dos outros (vídeo 1) ou cantar para o mundo no deserto de uma estação do metro (vídeo 2).

Anunciante: Marie Curie. Título: Hold on. Agência: Saatchi & Saatchi London. Direcção: Guillermo Vega. Reino Unido, Abril 2020.
Stephen Ridley. A SONG FOR THE WORLD || ‘IMAGINE’ EMPTY METRO STATION PIANO PERFORMANCE LONDON (Coronavirus). Março 2020.

Contos de solidão e mal viver

Vincent Van Gogh. Sorrowing Old Man (At Eternity’s Gate). Detalhe. 1890

Podem repetir os sábios que não existem velhos, que velhos são os trapos. Mas o envelhecimento persiste. Até os trapos envelhecem. Sinto-me a envelhecer: as pernas pesam, os olhos turvam-se e a memória esquece-se. A rede de relações encolhe, como um polvo na panela, rumo à solidão. E nós insistimos que não há velhos, que velhos são os trapos. Recorremos à esconjuração retórica, como se o envelhecimento fosse uma figura de estilo ou um descuido da perfeição. Como se não rezássemos todos no templo do abraço perdido…

Quem me mergulhou neste estado de desentendimento lamentável foi o Nick Cave. Dos três anúncios que seguem, o último é o mais confrangedor: os netos “visitam” o avô mas para assistir a uma emissão de futebol facultada aos idosos por um canal televisão.

Marca: Re-Engage. Título: Stella. Direcção: Izzy Burton. Reino Unido, Dezembro 2019.
Marca: Silver Line. Título: Visiting Gramps. Agência: M&C Saatchi. Direcção: Chris Thomas. Reino Unido, Abril 2015.
Marca: Direct TV. Título: En casa del abuelo. Equador, Novembro 2016.
Nick Cave & The Bad Seeds. Into my arms. The Boatman’s Call. 1997. Live in Copenhagen.

A repetição e a solidão

Graças à Internet acedemos a uma infinidade de interlocutores e informações. Esta conectividade contribui para nos encontrar ou para nos perder? Para o anúncio argentino You’re not alone, da Sprite, a Internet pode consciencializar-nos da existência de pessoas com particularidades e problemas semelhantes aos nossos. Não estamos sós! E sozinhos? Haver pessoas iguais diminui a minha solidão?

Marca: Sprite. Título: You’re not alone. Agência: Santo (Buenos Aires). Direcção: Nino Perez Veiga. Argentina, Outubro 2019.

Amor à distância

John Lewis. The man on the moon. 2015.

“A solidão desola-me; a companhia oprime-me” (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego).

Inserido no artigo O Homem na Lua (https://tendimag.com/2015/11/07/o-homem-na-lua/), o anúncio Man on the Moon, da John Lewis, foi varrido por ventos adversos. Nada como recolocar o anúncio.

Marca: John Lewis. Título: Man on the Moon. Agência: Adam & Eve DDB (London). Reino Unido, Novembro 2015.

The Economist/KFF findings add to a wave of recent research showing high levels of loneliness. A recent Cigna survey revealed that nearly half of Americans always or sometimes feel alone (46%) or left out (47%). Fully 54% said they always or sometimes feel that no one knows them well. Loneliness isn’t just a U.S. phenomenon. In a nationwide survey released in October from the BBC, a third of Britons said that they often or very often feel lonely. Nearly half of Britons over 65 consider the television or a pet their main source of company. In Japan, there are more than half a million people under 40 who haven’t left their house or interacted with anyone for at least six months. In Canada, the share of solo households is now 28%. Across the European Union, it’s 34% (Millenials And The Loneliness Epidemic, Forbes: https://www.forbes.com/sites/neilhowe/2019/05/03/millennials-and-the-loneliness-epidemic/#77e649ac7676

A solidão remete para a ausência de laços sociais. Émile Durkheim assume-o no ensaio sobre o suicídio (1897). Dizer ausência é pouco. Para haver solidão, não é necessário que os laços se quebrem, basta que afrouxem. Como sublinha Zygmunt Bauman (Liquid Love, 2003), a modernidade é caracterizada pelo afrouxamento dos laços sociais. Para além de laços sociais frouxos, existem laços sociais incómodos ou deteriorados, que convém controlar. A arte social é fértil neste tipo de comportamento: por exemplo, convidar sem nunca concretizar. Vivemos rodeados por dispositivos contra a intrusão, que lembram escudos sociais.

A profusão de laços sociais não obsta à solidão. Num lar de idosos, a exposição ao outro é máxima, mas a solidão predomina. Que os laços sociais se quebrem é natural. Que os laços sociais se afrouxem faz parte da nossa modernidade líquida. Que os laços sociais sejam indesejados é um novo problema, um problema que envolve a confiança.

A nossa veia estruturalista induz-nos a focar as redes e os laços. Mas as redes e os laços não são a única realidade que comove o homem. Subsistem minudências, porventura, fortuitas, que fazem dançar a vida. Aquém e além, ocorrem pequenos milagres e pequenas epifanias que nos despertam e nos abraçam. O anúncio opera uma dupla magia: a relação à distância entre a menina e o homem na lua e a relação empática com o público. Uma centelha de amor que passa pelo ecrã. Uma palpitação electrónica.

Querido mês de Agosto. As costas também andam.

Moledo do Minho. Fotografia de Fernando Gonçalves.

Escrever como quem brinca.

Agosto está a acabar. Não é verdade que “é em Setembro que se pode viver a sério” (Gilbert Bécaud, C’est en septembre, 1978). Em Setembro, a vida torna-se séria, sisuda.

Gilbert Bécaud. C’est septembre. C’est en septembre. 1978.

Agosto, mês dos banhos; ninho dos deslocados; aceleração dos atrelados. Em Agosto, queima a areia, o fogo, o ar, o corpo; as romarias escaldam. Nos corredores de Setembro, não há portas para o sagrado (se se proporcionar: Gonçalves, Albertino & Gonçalves Conceição, “Uma vida entre parênteses: tempos e ritmos dos emigrantes portugueses em Paris”).

Despeço-me de Agosto com Rachmaninov. Logicamente, não sei a razão da escolha. Se fosse místico, diria que foi Rachmaninov que me escolheu. Um êxtase ou uma aparição. Quando algo assenta bem não costumo fazer muitas perguntas. Basta o milagre!

Sergei Rachmaninov piano concerto No.2 in C minor, op.18. [ II – Adagio sostenuto]. Hélène Grimaud (solist), Claudio Abbado (conductor). Lucerne 2008.

All by myself, um sucesso dos anos setenta, de Eric Carmen, inspira-se no Piano concerto nº2, de Rachmaninov. Dar as mãos é uma bênção. Bem como admitir que quando andamos, as costas também andam. All by myself. Nunca me pressenti tão só como no mês de Setembro. Mea culpa!

Eric Carmen. All by myself. Eric Carmen. 1975. Ao vivo: 1976.

Simplesmente só

Edward Hopper. Sunday. 1926.

Não existe pior solidão do que aquela que nasce da indiferença dos outros (Martin Gray, Le livre de la vie, 1973).

Não desgosto da solidão. Preencho-a com tudo e com nada. Bem cuidada, a solidão seduz. O meu luxo é estar só no meio da multidão. A minha solidão é uma alternativa, não é uma fatalidade. Mas a maioria das pessoas sós não consegue escapar à solidão. Um inquérito promovido, em 2014, pela Fondation France, revela o seguinte:

«Um em cada oito franceses está só: em 2014, a solidão afecta 5 milhões de pessoas, um fenómeno que se agravou sobretudo entre os mais idosos, embora já não poupe os mais jovens (…) Existe mais um milhão de franceses do que em 2010 a não ter relações sociais no âmbito das cinco redes de sociabilidade (familiar, profissional, de amigos, de afinidade ou de vizinhança) (…) Se um em cada oito franceses se encontra hoje só, um em cada três corre o risco de ficar só (https://www.lemonde.fr/societe/article/2014/07/07/la-solitude-progresse-en-france_4452108_3224.html).

Em Inglaterra, a solidão é encarada como causa de morte precoce. Em Janeiro de 2018, foi criado o Ministério da Solidão. Portugal já tem um Observatório da Solidão (Obsolidão, no ISCET). Os portugueses não se podem queixar de falta de observação.

Marca: Age UK. Título: Just Another Day. Agência: Drum. Direcção: Phillippe Andre. Reino Unido, Dezembro 2017.

Do Reino Unido, vem, também, o anúncio Just Another Day, da Age UK. Incisivo! Um idoso, de boa condição social, autónomo e rodeado de pessoas, vive numa solidão despojada, sem assistência robótica nem companhia à distância. Repare-se na opção do realizador pela repetição das situações e dos gestos, repetição que enfatiza o peso da rotina e da circularidade na experiência da solidão.

Gosto de, alheio às regras da boa argumentação, alinhar disparidades. A ópera Madama Butterfly (1904), de Giacomo Puccini, aborda a solidão. Butterfly é uma jovem japonesa que casa com Pinkerton, oficial da marinha norte-americana. Pinkerton parte para os Estados Unidos, onde permanece vários anos sem dar notícias. Regressa um dia, acompanhado pela esposa americana. Butterfly suicida-se. “Com honra morre quem em honra não pode viver””. O “coro à boca fechada” embala esta tragédia.

Madama Butterfly. Coro à boca fechada. G. Puccini. Concierto Voces para la Paz 2010. Director: Miguel Roa. Madrid, Junho 2010.

Hoje, estou mais só. O gato desapareceu há quatro dias. Sente-se a sua falta nas mais pequenas coisas. Não podia, por exemplo, trabalhar no escritório com a porta aberta. O gato cultivava uma atracção pelos papéis e pelos fios. Sempre que o expulsava, esboçava um movimento para sair, mas reconsiderava e enfiava-se, majestoso, no cesto do lixo. O ritual era sempre o mesmo: pegava no caixote com sua excelência e colocava-o no exterior. Às vezes, volvidos alguns minutos, o gato continuava a ronronar no seu berço de palha. Dedico este artigo ao meu gato.

SAD. Solidão Acompanhada à Distância.

A solidão é uma realidade em crescimento. Um inquérito realizado em França, no ano de 2014, revela o alcance e as formas da solidão no País (https://www.lemonde.fr/societe/article/2014/07/07/la-solitude-progresse-en-france_4452108_3224.html). A economia da solidão expande-se e diversifica-se, bem como as soluções propostas. O anúncio Be Together More, da Amazon, é um exemplo. Aposta na companhia à distância.

Marca: Amazon. Título: Be Together More. Internacional, 2018.

Solidão assistida

Conheço a solidão. É uma amiga nem sempre desejada. Respeito-a! Solitário, dedicava-me à leitura de um livro ou a ver televisão. Nunca dancei com um robot, mas lutei com o travesseiro. Hoje, entrego-me ao computador ou ao telemóvel. Estranha forma de companhia. Por enquanto, não há máquina que substitua o ser humano. A este falta-lhe um botão para ligar e desligar. De qualquer modo, às vezes vale a pena “estar no computador”. O anúncio B.E.N., da Société de Saint Vincent de Paul, é uma obra de arte.

Anunciante: Société de Saint Vincent de Paul. Título: B.E.N. (Bionically Engineered Nursing). Agência: CLIM & BBDO. Direcção: David Wilson. França, Novembro 2016.

Estar comigo é outra coisa

Eugène Delacroix – Saint Mary Magdalene at the Foot of the Cross . 1829.

A série bíblica do Renault Clio lembra o filme Jesus Cristo Superstar (1973), uma ópera-rock com música de Andrew Lloyd Weber. Destaco a canção I Don’t Know How To Love Him, interpretada por Yvonne Elliman. Gosto de misturar memórias, num encadeamento estranho com voltas que recusam repetir-se. Yvonne Elliman lembra-me a canção Both Sides Now (1969), de Joni Mitchell. “Does anybody here remember Joni Mitchell?” Frequentemente, as obras são cobertas por várias camadas de sedimentos. Como invejo quem desenterrou, das cinzas, a cidade de Pompeia e, dos escombros acumulados, a Domus Aurea. Quando escavo o mundo, descubro-me; quando me descubro, escavo o mundo. Uma mútua arqueologia. Quando estou comigo, apraz-me acreditar que não estou em má companhia.

Yvonne Elliman. I Don’t Know How To Love Him. Banda sonora de Jesus Cristo Superstar. 1973. Ao vivo.
Joni Mitchell. Both Sides Now. Clowds. 1969.